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Os Caadores de Mamutes
Jean M. Auel

     
OS CAADORES DE MAMUTES
Traduo de: MARIA CELIA CASTRO
     
     Agradecimentos

     Eu jamais contaria esta histria sem os livros e material dos especialistas que trabalharam nos locais e colecionaram os artefatos de nossos ancestrais pr-histricos,
e tm minha mais profunda gratido. Devo agradecimentos especiais a vrias pessoas. Gostei das discusses, da correspondncia, e dos documentos, cheios no apenas
de fatos, mas tambm de idias e teorias. Devo deixar claro, no entanto, que aqueles que me proporcionaram informao e ofereceram ajuda no so, de forma alguma, 
responsveis pelos pontos de vista ou idias expressos nesta histria. Esta  uma obra de fico, uma histria da minha imaginao. Os personagens, conceitos e descries 
culturais so meus.
     Em primeiro lugar, sinceros agradecimentos a David Abrams, professor de antropologia e diretor de turismo extraordinrio, e a Diane Kelly, estudante de antropologia, 
e com mestrado em relaes humanas, que planejou, providenciou e nos acompanhou em viagem de pesquisa particular a locais e museus da Frana, ustria, Tcheco-Eslovquia 
e Unio Sovitica.
     Meus agradecimentos e grande apreo ao dr. Jan Jelinek, diretor do Anthropos Institute, Brno, Tcheco-Eslovquia, pelo tempo gasto mostrando-me muitas das peas 
verdadeiras da Europa Oriental que aparecem neste livro, The Pictorial Encyclopedia of the Evolution of Man (The Hamlyn Publishing Group, Ltd., Londres).
     Sou grata a Dra. Lee Porter, da Washington State University, e ao destino que a colocou, com seu sotaque americano, em nosso hotel de Kiev. Ela estava l estudando 
ossos fsseis de mamutes e, encontrando-se com a pessoa que tentramos desesperadamente ver, afastou todas as dificuldades e providenciou o encontro.
     Devo ao DR. J. Lawrence Angel, diretor de antropologia fsica na Smithsonian Institution, muitas coisas: palavras positivas e encorajadoras sobre meus livros; 
dar-me uma viso dos bastidores e uma explicao sobre algumas diferenas e semelhanas entre os ossos de Neandertal e os ossos humanos modernos e, particularmente, 
a sugesto de pessoas que poderiam me dar maior informao e assistncia.
     Aprecio profundamente os esforos especiais da Dra. Ninel Kornietz, experierd russa em era paleoltica superior ucraniana, que foi amvel e bondosa, mesmo em 
pouco tempo. Vimos, com ela, as peas em dois museus, e deu me de presente o livro que eu estivera procurando sobre os instrumentos musicais feitos com ossos de 
mamute pelos povos da era glaciaria e um registro dos seus sons. O livro era em russo, e devo agradecimentos profundos  Dra. Gloria y'Edynak, ex-assistente do dr. 
Angel, que conhece russo, inclusive a terminologia tcnica de paleantropologia, por arranjar um tradutor para este livro, e especialmente por revis-lo e preench-lo 
com as palavras tcnicas corretas. Agradecimentos tambm por sua traduo dos artigos em lngua ucraniana comparando os modernos padres de tecelagem na Ucrnia 
com desenhos esculpidos nas peas da era glacial.
     Grande apreo a Dorothy Yacek-Matulis por uma traduo boa, com preensvel e til do livro russo de msica com ossos de mamutes. O material  de valor incalculvel.
     Agradecimentos tambm ao Dr. Richard Klein, autor de Ice-Age Hunters of The Ukraine (University Chicago Press), que proporcionou bondosamente informao e documentos 
adicionais sobre o povo antigo da regio.
     Sou particularmente grata a Alexander Marshack, pesquisador do Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia da Harvard University, e autor de The Roots of Civilization 
(McGraw-Hill Book Co.), por cpias dos resultados de seus estudos microscpicos dos artefatos em Current Anthropology, material de seu livro ainda no publicado 
sobre o povo da Europa Oriental da era glacial.
     Meu agradecimento mais sincero a Dra. Olga Soffer, do Departamento de Antropologia da Universidade de Wisconsin, e, provavelmente, a maior perita nos Estados 
Unidos, atualmente, sobre as populaes russas da era glaciria, pela conversa longa, interessante e proveitosa no saguo do Hilton, e por matria, Patterns of 
Intensification as Seen from Upper Paleolithic Central Russian Plann, de Prehistoric Hunter-Gatherers: The Emergence of Cultural Complexity, T. Douglas Price e 
James A. Brown, editores (Academic Press).
     Enorme gratido ao dr. Paul C. Paquet, co-editor, Wolves of the World (Noyes Publications), por interromper suas frias para atender ao meu chamado, e pelos 
longos debates sobre lobos e sua possvel domesticao.
     Agradeo, novamente, a Jim Riggs, antroplogo e instrutor de turmas sobre Aboriginal Life Skills. Continuo a usar a informao que ele me transmitiu.
     Devo muito a trs pessoas que leram um grosso manuscrito, de repente, e ofereceram comentrios teis do ponto de vista do leitor: Karen Auel, que leu o primeiro 
rascunho e ficou presa a ele e me deixou saber que eu tinha uma histria; Doreen Gandy, poetisa e professora, que introduziu a leitura no final do seu ano letivo 
sem qualquer perda de seus insights habituais; e Cathy Humbie, que conseguiu, mais uma vez, fazer observaes astutas.
     Agradecimentos especiais a Betty Prashker, minha editora, cujas percepes valorizo, e cujos comentrios e sugestes acertaram bem no alvo.
     As palavras so insuficientes para agradecer a Jean Naggar, amiga, confidente e agente literria incomparvel, que continuou a exceder minhas expectativas mais 
ousadas.
     Apreo sincero  produo e departamentos de arte da Crown Publishers, cujo cuidado e percia no trabalho resultaram consistentemente em livros belos e bem-feitos.
     Sou grata a Judith Wilkes, minha secretria e assistente, cuja inteligncia me fez depender dela, e que alivia a presso do meu volume crescente de correspondncia, 
para que eu possa escrever.

     
     Tremendo de medo, Ayla se apegou ao homem alto ao seu lado, enquanto observava os estranhos se aproximarem. Jondalar a abraou protetoramente, mas ela continuou 
tremendo.
     Ele  to grande, pensou Ayla, olhando embasbacada para o homem no comando, de cabelo e barba cor de fogo. Ela jamais vira algum to grande. Ele chegava at 
a fazer Jondalar parecer pequeno, embora o homem que a abraava fosse mais alto que a maioria. O homem ruivo que se aproximava era de estatura ainda maior; era grande, 
um urso. O pescoo, volumoso, o peito poderia encher dois homens comuns, o bceps macio equivalia s coxas da maioria dos homens.
     Ayla lanou um rpido olhar a Jondalar e no viu medo em seu rosto, mas o sorriso dele desapareceu. Eram estranhos e, em suas longas viagens, ele aprendera 
a ser cauteloso com desconhecidos.
     - No me lembro de t-los visto antes - disse o grandalho indo direto ao assunto. - De que acampamento so? - Ele no falava a lngua de Jondalar, notou Ayla, 
mas uma das outras que este andara lhe ensinando.
     - De acampamento nenhum - retrucou Jondalar. - No somos Mamutoi. - Largou Ayla e deu um passo  frente, estendendo as duas mos, as palmas para cima, mostrando 
que nada escondia, na saudao de amizade. - Sou Jondalar dos Zelandonii.
     As mos no foram aceitas.
     - Zelandonii?  um estrangeiro... Espere, no havia dois homens desconhecidos, vivendo com o povo do rio, a oeste? Parece-me que o nome que ouvi era parecido.
     - Sim, meu irmo e eu vivemos com eles - admitiu Jondalar.
     O homem da barba flamejante ficou pensativo por algum tempo. Depois, inesperadamente, investiu para Jondalar e agarrou o homem louro e alto num abrao de urso 
de quebrar os ossos.
     - Ento, somos parentes! - exclamou, com um largo sorriso iluminando-lhe o rosto. - Tholie  a filha do meu primo!
     O sorriso de Jondalar reapareceu, um pouco trmulo.
     - Tholie! Uma mulher Mamutoi chamada Tholie era a companheira mestia de meu irmo! Ela me ensinou a lngua de vocs.
     - Claro! Eu lhe disse, somos parentes. - Segurou as mos que Jondalar estendera em sinal de amizade e que recusara antes. - Sou Talut, chefe do Acampamento 
do Leo.
     Ayla observou que todos sorriam. Talut a cumprimentou com a cabea, sorrindo. Depois, analisou-a com admirao.
     Vejo que no viaja com um irmo agora - falou a Jondalar.
     Jondalar tornou a abra-la e ela notou uma fugaz expresso de sofrimento enrugar-lhe a testa antes de ele dizer:
     - Esta  Ayla.
     Um nome incomum. Ela  do povo do rio?
     Jondalar ficou surpreso com a pergunta brusca; depois sorriu interiormente ao se lembrar de Tholie. A mulher baixa e atarracada, que conhecera, tinha pouca 
semelhana ao grandalho ali de p,  margem do rio, mas eram parentes. Ambos possuam a mesma maneira de abordagem direta, a mesma franqueza desinibida - quase 
ingnua. Ele no sabia o que dizer. No seria fcil explicar Ayla.
     - No, ela vivia num vale a alguns dias de viagem daqui.
     Talut pareceu intrigado.
     - No ouvi falar de mulher nenhuma com o nome dela, vivendo por perto. Tem certeza de que ela  Mamutoi?
     - Tenho certeza de que no .
     - Ento, qual  o povo dela? Somente ns, que caamos mamutes, vivemos nesta regio.
     - No tenho povo - disse Ayla, erguendo o queixo com um toque de desafio.
     Talut a avaliou argutamente. Ela havia falado na lngua dele, mas o timbre da voz e a forma como pronunciava os sons eram... Estranhos. No desagradveis, mas 
incomuns. Jondalar falava com o sotaque de uma lngua que lhe era desconhecida; a diferena na maneira de ela falar ultrapassava o sotaque. O interesse de Talut 
cresceu.
     - Bem, aqui no  lugar para conversar - disse Talut, por fim. - Nezzie ficar indignada como a Me, se no os convidar para uma visita. Os visitantes sempre 
trazem alguma excitao, e no recebemos visitas h algum tempo. O Acampamento do Leo lhes daria boas-vindas, Jondalar dos Zelandonii e Ayla de Nenhum Povo. Vocs 
viro?
     - O que diz, Ayla? Gostaria de visit-los? - perguntou Jondalar, mudando para a lngua dos Zelandonii a fim de que ela pudesse responder sinceramente, sem medo 
de ofender. - No  hora de conhecer os de sua espcie? No foi isso que Iza mandou que fizesse? Encontrar seu prprio povo?
     Ele no queria parecer ansioso demais, porm depois de tanto tempo sem mais ningum com quem conversar, estava vido para fazer uma visita.
     - No sei - disse ela, franzindo a testa, indecisa. - O que pensaro de mim? Ele quis saber quem era o meu povo. No tenho mais famlia. E se no gostarem de 
mim?
     - Gostaro de voc, Ayla, acredite. Sei que gostaro. Talut a convidou, no? No se importou por voc no ter parente. Alm disso, voc nunca saber se a aceitaro... 
Ou se gostar deles... Se no lhes der uma chance. Sabe, so o tipo de pessoas com quem deveria ter sido criada. No precisamos, ficar muito tempo. Podemos partir 
a qualquer momento.
     - Podemos partir a qualquer momento?
     - Claro.
     Ayla abaixou os olhos para o solo, tentando decidir-se. Queria ir com eles, sentia atrao por aquelas pessoas, e curiosidade em saber mais a respeito delas, 
mas sentia um n apertado de medo no estmago. Ergueu os olhos, viu dois peludos cavalos da estepe pastando no rico capim da plancie perto do rio, e seu medo aumentou.
     - E Whinney? O que faremos com ela? E se quiserem mat-la? No posso deixar ningum ferir Whinney!
     Jondalar no pensara em Whinney. O que pensariam? Perguntou-se.
     - No sei o que faro, Ayla, mas acho que no a mataro se dissermos que  especial e no se destina  alimentao. - Lembrou-se de sua surpresa e sentimento 
inicial de espanto diante do relacionamento de Ayla com o animal. Seria interessante ver a reao deles. - Tenho uma idia.
     Talut no compreendeu o que Ayla e Jondalar diziam um ao outro, mas percebeu que a mulher relutava, e que o homem tentava persuadi-la. Tambm notou que ela 
falava com o mesmo sotaque incomum, at na lngua dele. A lngua do homem, mas no dela, notou o chefe.
     Ele refletia sobre o mistrio da mulher com certo prazer - gostava do novo e incomum, o inexplicvel o desafiava. Mas, ento, o mistrio assumiu uma dimenso 
inteiramente nova. 
     Ayla assobiou alto e agudamente. De repente, uma gua cor de palha e um potro de um tom marrom extraordinariamente escuro galoparam at eles, diretamente at 
a mulher, e permaneceram quietos enquanto ela os tocava! O homem grande conteve um arrepio de pasmo. 
     Aquilo estava alm de qualquer coisa que tinha visto.
     Ser que ela era Mamutoi, perguntou-se, com apreenso crescente. Algum com poderes especiais? Muitos Daqueles que Serviam  Me reivindicavam a magia para 
chamar animais e dirigir a caada, mas ele nunca havia visto algum com tanto controle sobre os animais que os chamasse com um sinal. Ela possua um dom nico. Era 
um pouco assustador - mas imagine o quanto um acampamento poderia beneficiar-se de tal talento. Caar animais seria bem fcil!
     Exatamente quando Talut se recuperava do choque, a mulher causava-lhe outro. Segurando a crina rija e erguida da gua, a jovem saltou sobre o dorso do animal 
e sentou-se com uma perna de cada lado da gua. A boca do homem grande se escancarou de admirao enquanto a gua com Ayla, montada galopava pela margem do rio. 
Com o potro seguindo, subiram rapidamente a encosta para as estepes mais distantes. A admirao nos olhos de Talut era partilhada pelo resto do bando, particularmente 
por uma menina de doze anos. 
     Ela avanou para o chefe e apoiou-se nele, como se buscasse apoio.
     - Como ela fez aquilo, Talut? - perguntou a menina, num tom de voz baixo que continha surpresa, pasmo e um vislumbre de nsia. - Aquele cavalinho estava to 
perto que quase pude toc-lo.
     A expresso de Talut se suavizou.
     - Ter que perguntar a ela, Latie. Ou, talvez, a Jondalar - falou, virando-se para o grandalho desconhecido.
     - Tambm no tenho certeza - replicou ele. - Ayla tem um jeito especial com animais. Ela criou Whinney desde potranca.
     - Whinney?
     -  o mais parecido que posso dizer ao nome que ela deu  gua Quando ela o pronuncia, pensa-se que  um cavalo. O potro  Racer. Eu dei o nome a ele... Ela 
me pediu.  a palavra dos Zelandonii para algum que corre muito. Tambm significa algum que se esfora para ser o melhor. Na primeira vez que a vi, Ayla ajudava 
a gua a ter o filhote.
     - Deve ter sido uma viso! Eu no imaginava que uma gua permitisse que algum se aproximasse dela nesse momento - disse um dos outros homens.
     A demonstrao de equitao causou o efeito que Jondalar havia esperado e ele achou que era o momento adequado para abordar a preocupao de Ayla.
     - Acho que ela gostaria de visitar seu acampamento, Talut, mas teme que possam pensar que os cavalos so animais comuns para serem caados, e como eles no 
tm medo de pessoas, seria fcil mat-los.
     - Sim, seria. Voc deve ter adivinhado o que eu pensava, mas como poderia evit-lo?
     Talut observou Ayla voltando, parecendo um estranho animal, parcialmente humana, parcialmente cavalo. Ficou contente por no ter se aproximado deles inocentemente. 
Teria sido enervante. Refletiu um instante como seria cavalgar, e se ele causaria tanto assombro cavalgando. E depois, imaginando-se montado com uma perna de cada 
lado do pequeno, embora forte animal das estepes, riu alto.
     - Eu poderia carregar esse animal mais facilmente do que ele a mim! - exclamou.
     Jondalar riu baixinho. No fora difcil acompanhar a linha de pensamento de Talut. Vrias pessoas sorriram, ou riram baixo, e Jondalar compreendeu que todas 
elas tinham refletido sobre montar um cavalo. No era to estranho. Ocorrera com ele quando vira Ayla sobre o dorso de Whinney pela primeira vez.
     Ayla vira surpresa e confuso nos rostos do pequeno grupo de pessoas e, se Jondalar no a estivesse esperando, ela teria continuado a cavalgar na direo do 
seu vale. Quando mais jovem, ela j sofrera bastante desaprovao por aes que no eram aceitveis. E tivera liberdade suficiente, desde que vivia sozinha, para 
no querer sujeitar-se  crtica por seguir suas inclinaes. Estava pronta para dizer a Jondalar que ele podia visitar aquelas pessoas se quisesse; ela ia voltar.
     Mas, ao regressar, viu Talut ainda rindo por causa de sua imagem mental de ele prprio cavalgando e reconsiderou. O riso se tornara precioso para ela. No tivera 
permisso para rir quando vivia com o Cl; eles ficavam nervosos e pouco  vontade. Somente com Durc, em segredo, ela ria alto. Foram Nenm e Whinney que lhe ensinaram
a gozar a sensao do riso, mas Jondalar era a primeira pessoa a dividi-lo abertamente com ela.
     Observou o homem rindo, facilmente, com Talut. Ele ergueu a cabea e sorriu, e a magia dos indescritveis olhos azuis vvidos dele tocou um local profundo
em
seu ntimo, que ressoou como um arrebatamento clido, ardente, e ela sentiu um grande amor por ele. No podia voltar para o vale, no sem ele. S pensar em viver
sem ele trazia-lhe um aperto estrangulador  garganta e a dor causticante das lgrimas contidas.
     Ao cavalgar na direo deles, notou que embora no fosse to grande quanto o homem ruivo, em volume, Jondalar era quase to alto e maior que os outros trs. 
No, um deles era um menino, percebeu. Ser que era uma menina que estava com eles? Encontrou-se observando o grupo disfaradamente, no querendo fixar o olhar.
     Os movimentos do seu corpo deram sinal a Whinney para parar. Depois, movimentando a perna sobre a gua, escorregou para o solo. Os dois animais pareciam nervosos 
quando Talut se acercou; ela acariciou Whinney e ps um brao em volta do pescoo de Racer. Tinha tanta necessidade da confiana renovada e familiar da presena 
dos animais como eles o tinham da dela.
     - Ayla, de Nenhum Povo  disse, ele, incerto se era a maneira correta de dirigir-se a ela, embora talvez o fosse, para aquela mulher de dom estranho -, Jondalar 
diz que voc teme que algum mal acontea aos seus cavalos, se nos visitar. Digo aqui, enquanto Talut for o chefe do Acampamento do Leo, nenhum mal acontecer  
gua ou a seu filhote. Gostaria que nos visitasse e trouxesse os animais. - Seu sorriso se alargou com uma risada. - Do contrrio, ningum acreditar em ns!
     Ela se sentia mais relaxada agora e sabia que Jondalar desejava fazer a visita. No tinha razo verdadeira para recusar e foi atrada pelo riso fcil e amigvel, 
do grande homem de cabelo ruivo.
     - Sim, eu vou - disse ela. Talut sacudiu a cabea, concordando, sorrindo e perguntando-se sobre ela, sobre seu sotaque curioso, sobre seu jeito estranho com 
os cavalos. Quem era Ayla de Nenhum Povo?
     Ayla e Jondalar tinham acampado ao lado do rio impetuoso e decidiram naquela manh, antes de encontrarem o bando do Acampamento do Leo, que era hora de voltar. 
O rio era largo demais para atravessar sem dificuldade e no valia o esforo, se eles iam dar meia-volta e voltar sobre seus passos. O leste do vale formado por 
estepes, onde Ayla vivera sozinha por trs anos, fora mais acessvel e a jovem no se dera o trabalho de trilhar o caminho difcil para o oeste, fora do vale, muitas 
vezes, e no estava nada familiarizada com a regio. Embora tivesse partido na direo oeste, no tinham destino determinado em mente e acabaram viajando para o 
norte e depois para o leste, porm muito mais longe do que Ayla j viajara em suas incurses de caa.
     Jondalar a convencera a fazer a viagem exploratria para acostum-la a viajar. Ele queria lev-la para casa consigo, mas seu lar era distante, no oeste. Ela 
relutara, e ficara assustada ao deixar seu vale seguro para viver com pessoas desconhecidas num local desconhecido. Embora estivesse ansioso para regressar aps 
viajar durante muitos anos, havia se resignado a passar o inverno com ela no vale. Seria uma longa jornada de volta - provavelmente levaria um ano inteiro - e seria 
melhor inici-la no final da primavera. Nessa poca, ele estava certo de convenc-la a acompanh-lo. No queria sequer considerar qualquer outra, alternativa.
     Ayla o havia encontrado gravemente ferido e quase morto no inicio do vero que agora via seus ltimos dias, e ela conheceu a tragdia que ele sofrera. Apaixonaram-se 
enquanto ela cuidava dele, trazendo-lhe a sade de volta, embora demorassem a vencer as barreiras de seus backgrounds enormemente diferentes. Ainda estavam aprendendo 
sobre os costumes e inclinaes mtuos.
     Ayla e Jondalar acabavam de levantar acampamento e para surpresa - e interesse - das pessoas que esperavam, colocaram suprimentos e equipamentos sobre a gua, 
em vez de embornais e mochilas que eles prprios carregariam. Embora os dois, s vezes, cavalgassem a gua robusta, Ayla achou que Whinney e seu potro ficariam menos 
nervosos se a vissem. Os dois caminharam atrs do bando. Jondalar puxava Racer por uma corda comprida presa a um cabresto que ele mesmo idealizara. Whinney seguia 
Ayla em liberdade total.
     Acompanharam o curso do rio durante vrios quilmetros, atravs de um grande vale que descia de plancies herbosas circundantes. Feno que chegava  altura do 
peito, extremidades de sementes inclinando-se, maduras e pesadas, crescendo em ondas douradas nas encostas prximas, harmonizando-se com o ritmo frio do ar frgido,
que soprava em rajadas intermitentes das geleiras macias ao norte. Nas estepes abertas, alguns vidoeiros e pinheiros inclinados e retorcidos amontoavam-se ao longo
de rios, com suas razes procurando a umidade cedida aos ventos dessecantes. Perto do rio, juncos e ciperceas ainda estavam verdes, embora um vento frio retinisse 
atravs de galhos velhos, desprovidos de folhas.
     Latie se demorou, olhando de vez em quando para os cavalos e a mulher, at virem vrias pessoas em uma curva do rio. Ento, ela correu  frente, querendo ser 
a primeira a contar sobre os visitantes. Ao ouvir seus gritos, as pessoas se viraram e ficaram boquiabertas.
     Outras pessoas saam do que pareceu a Ayla um grande buraco  margem do rio, uma caverna de algum tipo, talvez, mas diferente de todas as que j vira antes. 
Parecia ter se projetado da encosta que dava para o rio, mas no tinha a forma casual de taludes de pedra ou terra. O capim crescia no telhado, porm a abertura 
era uniforme demais, regular demais, e de aparncia bastante antinatural. Era um arco perfeitamente simtrico.
     De repente, em profundo nvel emocional, compreendeu. No era uma caverna, e as pessoas no eram um cl! No se pareciam com Iza, que era a nica me de quem 
se lembrava, ou com Creb ou Brun, baixos e musculosos, com grandes olhos encobertos por sobrancelhas grossas, uma testa curvada para trs e um maxilar sem queixo 
que se projetava para frente. Aquelas pessoas se pareciam com ela. Eram semelhantes ao seu povo. Sua me, sua verdadeira me, no devia ter sido parecida com uma 
daquelas mulheres. Aqueles eram os Outros! Ali era o seu lugar! A compreenso trouxe uma onda de excitao e um formigamento de medo.
     Um silncio atordoado saudou os estranhos - e seus animais ainda mais estranhos - quando chegaram no local de inverno permanente do Acampamento do Leo. Ento, 
todos pareceram falar ao mesmo tempo.
     - Talut! O que trouxe desta vez? Onde conseguiu esses cavalos? O que lhes fez?
     Algum se dirigiu a Ayla:
     - Como os faz ficarem parados?
     - De que acampamento so, Talut?
     As pessoas ruidosas, gregrias, avanavam, agrupadas, ansiosas para ver e tocar os desconhecidos e os animais. Ayla estava perturbada, confusa. No estava acostumada
com tanta gente. No estava acostumada com pessoas falando, especialmente todas falando ao mesmo tempo. Whinney dava passos para o lado, agitando as orelhas, a cabea
erguida, o pescoo arqueado, tentando proteger o potro assustado e afastar-se das pessoas que fechavam o cerco.
     Jondalar percebia a confuso de Ayla e o nervosismo dos cavalos, mas no podia fazer Talut ou as outras pessoas entenderem. A gua suava, sacudindo o rabo, 
danando em crculos. De repente, no suportou mais. Em pinou, relinchou de medo e escoiceou com os cascos duros, obrigando as pessoas a recuar.
     A aflio de Whinney atraiu a ateno de Ayla. Chamou a gua pelo nome, com um som como um agrado confortador, e fez gestos que usara para se comunicar antes 
de Jondalar ensinar-lhe a falar.
     - Talut! Ningum deve tocar os cavalos a menos que Ayla o permita! Somente ela pode control-los. Eles so mansos, mas a gua pode ser perigosa se for provocada 
ou achar que seu potro est ameaado. Algum poderia ficar ferido - disse Jondalar.
     - Recuem! Ouviram o que ele disse - gritou Talut com uma voz retumbante que silenciou a todos. Quando as pessoas e cavalos se imobilizaram, ele continuou em 
tom mais normal: - A mulher  Ayla. Prometi-lhe que no aconteceria nenhum mal aos cavalos se viessem nos visitar. Prometi, como chefe do Acampamento do Leo. Este 
 Jondalar dos Zelandonii, um parente, irmo do companheiro de Tholie. - Depois, com um sorriso de vaidade, acrescentou: - Talut trouxe alguns visitantes!
     Houve balanos de cabea, concordando. As pessoas permaneceram por perto, fixando com curiosidade clara, mas o suficientemente distantes para evitar os coices 
da gua. Mesmo se os estranhos tivessem partido naquele momento, despertariam interesse bastante e tagarelice para durar anos. A notcia de que dois homens desconhecidos 
estavam na regio, vivendo com o povo do rio  sudoeste, fora motivo de conversa nas Reunies de Vero. 
     Os Mamutoi negociavam com os Sharamudoi, e desde que Tholie, que era parente, escolhera um homem do rio, o Acampamento do Leo ficara ainda mais interessado. 
Mas nunca esperaram que um dos homens estrangeiros entrasse em seu acampamento, principalmente com uma mulher que tinha algum controle mgico sobre cavalos.
     - Est bem? - perguntou Jondalar a Ayla.
     - Assustaram Whinney e Racer tambm. As pessoas sempre falam ao mesmo tempo assim? Mulheres e homens juntos?  confuso, e gritam tanto, como se pode saber quem 
est dizendo o qu? Talvez devssemos ter voltado para o vale. - Abraava o pescoo da gua, inclinando-se contra ela, tranqilizando-se, assim como consolando o 
animal.
     Jondalar sabia que Ayla estava quase to infeliz quanto os cavalos. A acolhida ruidosa das pessoas a havia chocado. Talvez no devesse ficar muito tempo. Talvez 
fosse melhor comear apenas com duas ou trs pessoas de cada vez, at ela acostumar-se  sua espcie novamente, mas ele se perguntou o que ele faria se ela, realmente, 
nunca se habituasse. 
     Bem, estavam ali, agora. Ele podia esperar e ver.
     - s vezes as pessoas so barulhentas e falam ao mesmo tempo, mas, a maior parte das vezes, fala uma de cada vez. E acho que sero cuidadosas com os animais 
agora, Ayla - disse, quando ela comeou a descarregar as cestas amarradas de ambos os lados do animal, com um arreio que ela fizera de tiras de couro.
     Enquanto ela estava ocupada, Jondalar afastou-se com Talut e lhe disse, calmamente, que os cavalos de Ayla estavam um pouco nervosos e precisavam de algum tempo 
para se acostumar com todos.
     - Seria melhor se fossem deixados sozinhos por algum tempo.
     Talut compreendeu e se dirigiu s pessoas do acampamento, falando com cada uma delas. 
     Dispersaram-se, dedicando-se a outras tarefas, preparando comida, trabalhando em peles de animais ou ferramentas, de forma que pudessem observar sem serem to 
bvias a respeito. Tambm estavam inquietas. Os desconhecidos eram interessantes, mas uma mulher, com magia, to atraente poderia fazer alguma coisa inesperada.
     Somente algumas crianas permaneceram para observar, com interesse vido, enquanto o homem e a mulher descarregavam seus pertences, mas Ayla no fez caso delas. 
Havia anos que no via crianas, desde que deixara o Cl, e estava to curiosa em relao a elas quanto as crianas a respeito dela. Ela tirou o arreio e cabresto 
de Racer, depois acariciou e deu tapinhas em Whinney e em Racer em seguida. Aps coar e abraar afetuosamente o potro, Ayla ergueu os olhos e viu Latie olhando 
atentamente com desejo o jovem animal.
     - Gosta de tocar em cavalos? - perguntou Ayla.
     - Posso?
     - Venha. D a mo. Eu mostro. - Pegou a mo de Latie e a manteve sobre o plo do cavalo parcialmente crescido. Racer virou a cabea para cheirar e focinhar 
a menina.
     - Ele gosta de mim - disse a garota com um sorriso de gratido que era uma ddiva.
     - Ele tambm gosta de ser coado, assim - disse Ayla, mostrando  menina os principais locais de comicho do potro.
     Racer estava encantado com a ateno e demonstrou-o. Latie no cabia em si de alegria. O potro a havia atrado desde o incio. Ayla deu as costas aos dois para 
ajudar Jondalar e no notou a aproximao de outra criana. Quando se virou, arquejou e sentiu o sangue fugir de seu rosto.
     - Est bem se Rydag tocar o cavalo? - perguntou Latie. - Ele no pode falar, mas sei que quer faz-lo. - Rydag sempre fazia as pessoas reagirem com surpresa. 
Latie estava acostumada a isso.
     - Jondalar! - gritou Ayla. - Essa criana... Poderia ser meu filho! Parece Durc!
     Ele se virou e abriu os olhos em surpresa e assombrado. Era uma criana de espritos mistos.
     Cabeas-chatas - aqueles a quem Ayla sempre se referia como Cl - eram animais para a maioria das pessoas, e crianas como aquela eram consideradas como abominaes, 
parcialmente animais e parcialmente humanos. Ele ficara chocado ao compreender, pela primeira vez, que Ayla havia dado  luz um filho misto. A me de tal criana 
era, em geral, pria, excluda por medo que atrasse o mau esprito animal novamente e fizesse as outras mulheres darem  luz estas aberraes. Algumas pessoas no 
queriam sequer admitir que existissem, e encontrar uma ali vivendo com aquela gente era mais do que inesperado. Era um choque. De onde viera o menino?
     Ayla e a criana se olhavam nos olhos, esquecidas de tudo ao seu redor. Ele  magro para quem  metade do Cl, pensou Ayla. Em geral tm ossos grandes e so 
musculosos. 
     Mesmo Durc no era to magro assim. Ele  doente, disse a Ayla sua viso treinada de curandeira. Um problema desde o nascimento, com o forte msculo no peito, 
que pulsava e palpitava e fazia o sangue correr, adivinhou. Mas guardou esses fatos sem pensar; olhava mais atentamente para o rosto do menino, e sua cabea, procurando 
as semelhanas e diferenas, entre a criana e seu filho.
     Os olhos grandes, castanhos e vivos eram como os de Durc, at a expresso de antiga sabedoria muito, alm de sua idade - ela sentiu uma pontada de saudade e 
um n na garganta -, mas havia tambm dor e sofrimento, de forma alguma fsicos, que Durc jamais conhecera. Encheu-se de compaixo. Depois de exame cuidadoso concluiu 
que os superclios do menino no eram bastante pronunciados. Mesmo com apenas trs anos de idade, quando ela partira, os olhos de Durc e suas sobrancelhas projetadas 
eram totalmente Cl, mas sua testa era como a daquela criana. No era cada para trs e achatada como do Cl, mas alta e arqueada como a dela.
     Seus pensamentos se desviaram. Durc teria seis anos agora, recordou, com idade suficiente para acompanhar os homens quando se exercitavam com suas armas de 
caa. Mas Brun estar ensinando Durc a caar, no Broud. Ela jamais esqueceria como o filho da companheira de Brun alimentara seu dio contra ela at conseguir lhe
tirar o beb, por maldade, e expuls-la do Cl. Fechou os olhos quando a dor da recordao a dilacerou como faca. No queria acreditar que jamais tornaria a ver
o filho.
     Abriu os olhos para Rydag, e respirou fundo.
     Quantos anos ter este menino?  pequeno, mas deve ter quase a idade de Durc, pensou, comparando os dois novamente. A pele de Rydag era clara e o cabelo escuro 
e crespo, mas menos escuro e mais macio que o cabelo castanho basto muito comum ao cl. A maior diferena entre aquela criana e seu filho, observou Ayla, eram o 
queixo e o pescoo. Seu filho tinha um pescoo longo como o dela - ele engasgava, s vezes, com a comida, o que no acontecia nunca com os outros bebs do Cl - 
e um queixo pequeno, mas bem definido. Este menino tinha o pescoo curto do Cl, e maxilar protuberante Ento, ela se lembrou. Latie dissera que ele no podia falar.
     De repente, em um instante de compreenso, soube como devia ser a vida daquela criana. 
     Uma coisa era uma menina de cinco anos que perdera a famlia em um terremoto, e que fora, encontrada por uma tribo de pessoas incapazes de uma fala totalmente 
articulada, aprender a linguagem de sinais com que costumavam se comunicar. Outra coisa bem diferente era viver com pessoas que falavam e ser incapaz de falar. Ela 
recordou sua frustrao inicial porque no fora capaz de se comunicar com as pessoas que a recolheram, e pior ainda, como havia sido difcil fazer Jondalar compreend-la 
antes que ela aprendesse a falar novamente. E se ela no tivesse conseguido aprender?
     Fez um sinal ao menino, um simples gesto de saudao, um dos primeiros que aprendera h tanto tempo atrs. Houve um instante de excitao nos olhos da criana, 
depois ele sacudiu a cabea e pareceu intrigado. Ele jamais aprendera a maneira de falar com gestos do Cl, percebeu, ela, mas devia ter guardado algum vestgio 
das lembranas do Cl. Ele reconhecera o sinal por um momento, ela tinha certeza disso.
     - Rydag pode tocar o potro? - perguntou Latie de novo.
     - Pode - disse Ayla, segurando a mo do garoto. - Ele  to franzino, to frgil, pensou ela e compreendeu, ento, o resto. Ele no podia correr como as outras 
crianas. No podia brincar de luta, normalmente S podia observar - e desejar.
     Com uma ternura que Jondalar jamais vira em seu rosto, Ayla pegou o garoto no colo e colocou-o no dorso de Whinney. Fazendo sinal  gua para andar, ela deu 
volta com eles, lentamente, pelo acampamento. Houve uma parada na conversa quando todos fitaram Rydag cavalgando. Embora tivessem falado a respeito, exceto Talut 
e as pessoas que os tinham encontrado perto do rio, ningum jamais vira algum montar um cavalo antes. 
     Ningum nunca imaginara tal coisa.
     Uma mulher gorda maternal saiu da estranha habitao e, vendo Rydag montado  gua que escoiceara perigosamente prximo  sua cabea, sua primeira reao foi 
correr em ajuda da criana. Mas, ao se acercar, tornou-se consciente do drama silencioso da cena.
     O rosto do menino estava repleto de assombro e deleite. Quantas vezes ele havia observado com olhos ansiosos; impedido por sua fraqueza ou sua diferena de 
fazer o que as outras crianas faziam? Quantas vezes desejara poder fazer algo para ser admirado ou invejado? 
     Agora, pela primeira vez, montava a cavalo e todas as crianas e adultos do acampamento o observavam com olhos desejosos.
     A mulher da moradia viu e se perguntou: teria aquela estranha realmente compreendido o menino to depressa? Aceito a criana to facilmente? Viu a forma como 
Ayla olhava para Rydag e constatou que sim.
     Ayla notou que a mulher a examinou e depois lhe sorriu. Ela retribuiu o sorriso e parou ao lado dela.
     - Fez Rydag muito feliz - disse a mulher, estendendo os braos para o garoto que Ayla fazia desmontar.
     -  pouco - disse Ayla.
     A mulher concordou com um gesto de cabea.
     - Meu nome  Nezzie.
     - O meu  Ayla.
     As duas mulheres se olharam, examinando-se cuidadosamente, no com hostilidade, mas sondando o terreno para um futuro relacionamento.
     As perguntas que Ayla queria fazer sobre Rydag giravam em sua mente, mas ela hesitou, indecisa sobre se era adequado faz-las. Ser que Nezzie era a me do 
menino? Se o fosse, como dera  luz uma criana de espritos mistos? Ayla tambm estava intrigada em relao a uma pergunta que a incomodara desde que Durc nascera. 
Como a vida comeava? Uma mulher s sabia que a vida estava ali quando seu corpo mudava  medida que o beb crescia. Como ele entrava em uma mulher?
     Creb e Iza acreditavam que uma nova vida comeava quando uma mulher engolia os espritos do totem dos homens. Jondalar achava que a Grande Me Terra misturava 
os espritos de um homem e uma mulher e os colocava dentro da mulher quando ela engravidava. Mas Ayla tinha formado sua prpria opinio. Quando ela notou que seu 
filho tinha algumas das caractersticas do Cl, e algumas suas, compreendeu que nenhuma vida havia tido incio dentro de si, seno depois de Broud forar sua penetrao 
nela.
     Estremeceu com a lembrana, mas no podia esquec-la porque era dolorosa demais, e ela viera a acreditar que se tratava de algo sobre um homem colocar seu rgo 
dentro do local de onde os bebs nasciam, o que fazia a vida ter incio no interior de uma mulher. Jondalar achava que era uma idia estranha, quando ela lhe contou, 
e tentou convenc-la de que era a 
     Me que criava a vida. Ela no acreditou nele, pensava agora. Ayla havia crescido com o Cl, era um deles, apesar de parecer diferente. Embora ela houvesse 
odiado quando ele o fizera, Broud apenas estava exercendo direitos. Mas, como um homem do Cl pudera forar Nezzie?
     Seus pensamentos foram interrompidos pelo alvoroo de um Outro pequeno grupo de caa que chegava. Quando um homem se aproximou e puxou para trs seu capuz, 
Ayla e Jondalar arquejaram, surpresos. O homem era marrom! A cor de sua pele era de um marrom-escuro forte, quase da cor de Racer, o que j era bastante incomum 
para um cavalo. 
     Nenhum deles jamais vira uma pessoa com pele marrom antes.
     O cabelo era negro, cachos rijos, pequenos, que formavam um gorro lanoso como o plo de um carneiro selvagem. Os olhos eram negros tambm, e brilhavam de prazer 
quando sorriu, mostrando dentes brancos e uma lngua rosada em contraste com a pele escura. Ele sabia a sensao que causava quando estranhos o viam pela primeira 
vez e gostava bastante disso.
     Sob outros aspectos era um homem perfeitamente comum, de estatura mediana, dificilmente mais que uma polegada mais alto que Ayla e de constituio mdia. Mas 
uma vitalidade compacta, uma economia de movimentos e uma autoconfiana natural davam a impresso de algum que sabia o que queria e no perderia tempo buscando 
o que desejava. Seus olhos revelaram um brilho extra ao ver Ayla.
     Jondalar reconheceu o olhar como de atrao. Sua testa franziu, mas nem a mulher loura, nem o homem de pele escura perceberam. Ela estava cativada pelo colorido 
incomum do homem e fitava-o com o espanto descarado de uma criana. Ele se sentiu atrado tanto pela aura de inocncia ingnua que a resposta de Ayla refletia, quanto 
por sua beleza.
     De repente, Ayla compreendeu que estivera fitando o homem e corou fortemente enquanto abaixava os olhos para o solo. Ela havia aprendido com Jondalar que era 
perfeitamente adequado que homens e mulheres olhassem diretamente uns para os outros, porm, para o povo do Cl era no apenas descorts, mas ofensivo encarar, principalmente 
para uma mulher. Era sua educao os costumes do Cl, fortalecidos sempre por Creb e Iza de maneira a ela ser mais aceitvel, que causavam tal embarao.
     Mas sua aflio apenas aumentou o interesse do homem escuro. Ele era seguidamente objeto de ateno incomum de mulheres. A surpresa inicial de sua aparncia 
parecia despertar curiosidade sobre que outras diferenas ele poderia ter. s vezes, perguntava-se se toda mulher, nas reunies de vero, tinha que descobrir por 
si mesma que ele era, realmente, um homem igual a todos os outros. No que fizesse objeo, mas a reao de Ayla era to intrigante para ele, quanto sua cor o era 
para ela. Ele no estava acostumado a ver uma mulher adulta incrivelmente bonita corar com tanto recato quanto uma menina.
     - Ranec, conhece nossos visitantes? - gritou Talut, aproximando-se.
     - Ainda no, mas estou esperando... Ansiosamente.
      entoao de sua voz, Ayla levantou a cabea para os olhos negros cheios de desejo - e humor sutil. Eles alcanaram seu ntimo e tocaram um local que somente 
Jondalar havia tocado antes. O corpo de Ayla respondeu com um formigamento que trouxe um arquejo fraco aos seus lbios, e arregalou os olhos cinza-azulados. O homem 
se inclinou para frente, preparando-se para tomar-lhe as mos, mas antes que as apresentaes costumeiras pudessem ser feitas, o desconhecido alto avanou, ficando 
entre eles, e com ar srio estendeu as duas mos.
     - Sou Jondalar, dos Zelandonii - falou. - A mulher com quem viajo  Ayla.
     Alguma coisa, Ayla estava certa, incomodava Jondalar, alguma coisa ligada ao homem escuro. Ela estava acostumada a ler o significado pela postura e atitude, 
e havia observado Jondalar atentamente em busca de pistas sobre que basear seu prprio comportamento. Mas a linguagem corporal de pessoas que dependiam de palavras 
era muito menos intencional do que a do Cl, que usava gestos para se comunicar, e, portanto, ela no confiava em suas percepes ainda. Estas pessoas pareciam ser 
tanto mais fceis quanto mais difceis de ler, como com a mudana sbita na atitude de Jondalar. Ela sabia que ele estava zangado, mas ignorava por qu.
     O homem tomou as duas mos de Jondalar e as apertou com firmeza.
     - Sou Ranec, meu amigo, o melhor, seno o nico escultor do Acampamento do Leo dos Mamutoi  disse, ele, com um sorriso de autocensura, ajuntando depois: - 
Quando se viaja com uma companhia to bonita, deve-se esperar que ela chame a ateno.
     Agora, foi  vez de Jondalar ficar embaraado. A franqueza e amabilidade de Ranec o fizeram sentir-se um idiota e, com dor conhecida, lembrou-se do seu irmo. 
Thonolan tivera a mesma autoconfiana amistosa, e sempre dera os primeiros passos quando encontravam algum em sua jornada. Jondalar se aborrecia quando fazia alguma 
tolice - sempre fora assim - e no gostava de comear um novo relacionamento de forma errada. Havia exibido m educao, no mnimo.
     Mas sua raiva imediata o havia surpreendido e o pegara desprevenido.
     O golpe ardente do cime era uma nova emoo para ele, ou ao menos uma que no experimentava havia tanto tempo que se tornara inesperada. Ele o negaria depressa, 
mas o homem alto e atraente com um carisma, inconsciente e habilidade aprecivel com peles estava mais acostumado a ser alvo dos cimes das mulheres.
     Por que deveria se aborrecer quando um homem olhava para Ayla, pensou Jondalar. Ranec estava certo, ele devia esperar por isso, sendo ela bonita como era. Tinha 
tambm o direito de fazer sua escolha. Somente porque ele foi o primeiro homem de sua raa que ela conhecera, no significava que seria o nico que ela acharia atraente 
para sempre. Ayla o viu sorrir para Ranec e notou que a tenso em seus ombros no diminura.
     - Ranec sempre fala casualmente a respeito disso, embora no tenha o hbito de negar qualquer uma de suas outras aptides - dizia Talut e quanto caminhava  
frente, em direo  incomum caverna que parecia ser feita de terra projetando-se do talude. - Ele e Wyrnez so parecidos nisso, se no em muitas outras coisas. 
Wymez reluta tanto em admitir sua habilidade como fazedor de ferramentas, quanto o filho de sua fogueira em falar sobre sua entalhadura. Ranec  o melhor escultor 
de todos os Mamutoi.
     - Vocs tm um ferramenteiro capaz? Um quebrador de slex? - perguntou Jondalar com agradvel expectativa, seu ardente lampejo de cime desaparecendo com o
pensamento de conhecer outra pessoa conhecedora de sua habilidade.
     - Sim, e ele  o melhor, tambm. O Acampamento do Leo  bem conhecido. Temos o melhor escultor, o melhor ferramenteiro, e o Mamutoi mais velho - declarou o 
chefe.
     - E um chefe bastante grande para fazer todos concordarem, quer acreditem ou no - disse Ranec com um sorriso torto.
     Talut devolveu o sorriso, conhecendo a tendncia de Ranec de ignorar elogios em relao  sua percia de escultor com um gracejo. No impediu que Talut se vangloriasse, 
no entanto. 
     Tinha orgulho de seu acampamento e no hesitava em deixar que todos soubessem disso.
     Ayla observava a interao sutil dos dois homens - o mais velho, um gigante macio com cabelo flamejante e olhos azul-claros, o outro moreno e forte - e compreendeu 
o elo profundo de afeto e lealdade que partilhavam embora fossem os mais diferentes possveis. Ambos eram caadores de mamutes, ambos membros do Acampamento do Leo 
dos Mamutoi.
     Caminharam em direo  abertura em arco que Ayla notara antes. Parecia dar para um outeiro ou talvez uma srie deles, enfiada na ladeira de frente para o grande 
rio. Ayla havia visto pessoas entrando e saindo. Sabia que devia ser uma caverna ou uma habitao de algum tipo, mas que parecia ser inteiramente feita de terra; 
barro duro, mas com capim crescendo em espcie de canteiros, principalmente em volta do fundo e dos lados. Misturava-se to bem com o ambiente que, exceto pela entrada, 
era difcil distinguir a moradia de seu meio.
     Em observao mais atenta, ela notou que o topo arredondado do monte de terra era repositrio de vrios objetos e instrumentos curiosos. Ento ela viu um, bem 
acima da arcada, e prendeu a respirao.
     Era a cabea de um leo da caverna!
     Ayla se escondia em uma pequena fenda de uma muralha de pedra pura, observando uma grande pata de um leo de caverna estender-se para alcan-la. Ela gritou 
de dor e medo quando a garra encontrou sua coxa nua e marcou-a com quatro cortes paralelos. O Esprito do Grande Leo da Caverna a havia escolhido, e fez com que 
fosse marcada para mostrar que ele era seu totem, explicara Creb, depois de uma prova, muito alm do que at um homem tinha de suportar, embora ela fosse uma menina 
de apenas cinco anos. Uma sensao de tremor de terra sob seus ps lhe trouxe uma onda de nusea.
     Ela sacudiu a cabea para afastar a recordao vivida.
     - O que h, Ayla? - perguntou Jondalar, percebendo sua aflio.
     - Vi aquela caveira - disse ela, apontando para a decorao sobre a porta -, e recordei quando fui escolhida, quando o Leo da Caverna se tornou meu totem!
     - Somos o Acampamento do Leo - anunciou Talut com orgulho, apesar de j t-lo dito antes. Ele no compreendia quando falavam a lngua de Jondalar, mas viu 
o interesse que mostravam pelo talism do acampamento.
     - O leo da caverna tem um forte significado para Ayla - explicou Jondalar. - Ela diz que o esprito do grande gato a guia e protege.
     - Ento, deve se sentir  vontade aqui - disse Talut, dirigindo-lhe um sorriso, sentindo-se satisfeito.
     Ela viu Nezzie carregando Rydag e pensou novamente em seu filho.
     - Acho que sim - falou.
     Antes de entrarem, a jovem parou para examinar o arco da entrada e sorriu ao ver como sua simetria perfeita fora conseguida. Era simples, porm ela nunca o 
teria imaginado. Duas grandes presas de mamute, do mesmo animal ou, ao menos, de animais de idntico tamanho tinham sido cravadas firmemente ao solo com as pontas 
de frente uma para a outra, e unidas no alto do arco, em uma manga feita de uma pequena parte oca do osso da perna de um mamute.
     Uma pesada cortina de pele de mamute cobria a abertura, que era suficientemente alta para que at Talut, afastando a cortina, pudesse entrar sem abaixar a cabea. 
A arcada levava a uma ampla rea de entrada com outro arco simtrico de presas de mamute e couro diretamente pendurado nelas. Eles desceram para um salo de entrada 
circular cujas grossas paredes se curvavam para um teto abobadado baixo.
     Quando atravessaram o recinto, Ayla notou as paredes laterais, que pareciam um mosaico de ossos de mamute, cobertas com roupas externas penduradas em cabides 
com implementos e recipientes de estocagem. Talut afastou a cortina interna, avanou e segurou-a para os hspedes.
     Ayla desceu novamente. Depois parou e reparou, com surpresa, dominada por impresses assombradas de objetos desconhecidos, vises incomuns e cores vivas. Muito 
do que via lhe era incompreensvel e agarrou-se ao que fazia algum sentido para ela.
     O espao onde se encontravam tinha uma grande fogueira perto do centro. Um pernil macio cozinhava nela, espetado em uma vara comprida. Cada extremidade descansava 
em um encaixe cortado na articulao do joelho de um osso vertical da perna de um filhote de mamute, cravado no solo. Uma forquilha de uma grande galhada de veado 
tinha sido convertida em manivela e um menino a girava. Era uma das crianas que permanecera para observar Ayla e Whinney. Ayla o reconheceu e sorriu. Ele retribuiu 
o sorriso.
     Ela estava surpresa pela amplido da moradia de barro, limpa e confortvel, enquanto os olhos se acostumavam  luz fraca do interior. A fogueira era apenas 
a primeira de uma srie que se estendia at o meio da habitao comunal, uma moradia com mais de 25 metros de comprimento e quase seis de largura.
     Sete fogueiras, contou Ayla, pressionando os dedos discretamente na perna e pensando nas palavras de contagem que Jondalar lhe ensinara.
     Ela percebeu que estava quente ali dentro. As fogueiras aqueciam o interior da habitao parcialmente subterrnea mais do que os fogos aqueciam, em geral, as 
cavernas a que ela estava habituada. Na verdade, estava bastante quente e ela notou algumas pessoas mais ao fundo, com vestimentas muito leves.
     Mas no estava mais escuro no fundo. O teto tinha a mesma altura em toda a habitao, cerca de 3,6 metros, e havia aberturas para a fumaa acima de cada fogueira, 
que deixavam tambm a luz penetrar. Caibros de ossos de mamute, cheios de roupas, implementos e alimentos, estendiam-se pelo local, mas a parte central do teto era 
feita com muitos chifres de rena entrelaados.
     De repente, Ayla sentiu um odor que lhe encheu a boca de gua.  carne de mamute, pensou. No comia a carne saborosa e tenra de mamute desde que deixara a caverna 
do Cl. 
     Havia outros odores deliciosos de comida tambm, alguns familiares, Outros no, mas, combinava-se para lembrar-lhe que estava com fome.
     Enquanto eram conduzidos ao longo de uma passagem freqentada que descia em direo ao meio da habitao comunal, prxima a vrias fogueiras, ela notou largos 
bancos com peles empilhadas sobre eles, projetando-se das paredes. Algumas pessoas estavam sentadas ali, descansando ou conversando. Ela sentiu que a olhavam quando 
passou. Viu mais arcadas de presas de mamutes nas partes laterais, e se perguntou aonde levariam, mas hesitou em indagar.
      como uma caverna, pensou, uma caverna grande e confortvel. Mas as presas em arco e os grandes e longos ossos de mamutes, usados como pilares, suportes e 
paredes, fizeram-na compreender que no era uma caverna descoberta por algum. Era uma das que eles haviam construdo!
     A primeira dependncia, onde a carne cozinhava, era maior que o resto, e o mesmo acontecia  quarta, aonde Talut os conduziu. Vrios bancos de dormir vazios 
ao longo das paredes, aparentemente sem uso, mostravam como eram construdos.
     Quando o solo inferior fora escavado, largas plataformas de terra foram deixadas exatamente abaixo do nvel do cho, ao longo dos dois lados e fixadas com ossos 
de mamute estrategicamente colocados. Mais ossos de mamute, estavam colocados ao longo do topo das plataformas, cheios com capim entrelaado entre os espaos, para 
erguer e sustentar enxergas de couro macio estofadas com l de mamute e outros materiais penugentos, Com vrias camadas de peles adicionais, as plataformas de barro 
tornavam-se leitos ou camas quentes e confortveis, Jondalar se perguntou se a fogueira para onde foram levados estava desocupada. Parecia vazia, mas apesar de todos 
os espaos nus, tinha aparncia de ser habitada. As brasas brilhavam na fogueira, peles e couros empilhavam-se em alguns dos bancos, e ervas secas pendiam de suportes.
     - Em geral, os visitantes ficam na Fogueira do Mamute - explicou Talut -, se Mamut no faz objeo. Vou perguntar.
     -. Claro que podem ficar, Talut.
     A voz veio de um banco vazio. Jondalar deu meia-volta e fitou uma das pilhas de peles que se moveu. Ento, dois olhos cintilaram num rosto marcado, a ma direita 
com distintivos tatuados que caam nos vincos e costuravam atravs das rugas de idade inacreditvel, O que ele imaginara ser uma pele de animal de inverno, revelou-se 
uma barba branca. Duas canelas compridas e finas desembaraaram-se de uma posio de pernas cruzadas e caram sobre a borda do estrado erguido, para o cho.
     - No fique to surpreso, homem dos Zelandonii. A mulher sabia que eu estava aqui - disse o velho com voz forte, que sugeria pouco a sua idade avanada.
     - Sabia, Ayla? - perguntou Jondalar, mas ela no pareceu ouvi-lo. Ayla e o velho estavam presos ao domnio dos olhos um do outro, fitando-se como se um pudesse 
ver a alma do outro. Ento, a jovem caiu ao cho diante do velho Mamut, cruzando as pernas e inclinando a cabea.
     Jondalar estava curioso e embaraado. Ayla usava a linguagem de sinais que, ela lhe contara, a gente do Cl utilizava para se comunicar. Aquela maneira de sentar 
era a postura de deferncia e respeito que uma mulher do Cl assumia quando pedia permisso para expressar-se. A nica vez em que ele a vira naquela posio foi 
quando ela tentava dizer-lhe algo muito importante, alguma coisa que no podia comunicar de outra forma quando as palavras que ele lhe havia ensinado no eram suficientes 
para dizer-lhe como ela se sentia. Perguntou-se como algo podia ser expresso mais claramente, numa linguagem em que gestos e aes fossem mais usados que palavras, 
porm ficara mais surpreso ao saber que aquelas pessoas se comunicavam de qualquer moda.
     Desejou, porm, que ela no houvesse feito aquilo, ah. Seu rosto ficou rubro ao v-la usar sinais dos cabeas-chatas em publico, daquela maneira, e quis apressar-se 
lhe dizer que se levantasse, antes que mais algum a visse. De qualquer forma, a postura o fazia sentir-se inconfortvel, como se ela lhe oferecesse a reverncia 
e homenagem, devidas a Dom, a Grande Me Terra. Ele havia pensado naquilo como algo particular, entre eles, pessoal, no uma coisa a ser mostrada a outra pessoa. 
Uma coisa era faz-lo com ele, quando estavam sozinhos, mas ele queria que ela causasse boa impresso quelas pessoas. Queria que gostassem dela. No desejava que 
conhecessem o background de Ayla.
     O Mamut lanou-lhe um olhar penetrante, depois se voltou a Ayla. Examinou-a um momento, em seguida inclinou-se e deu-lhe um tapinha no ombro.
     Ayla levantou a cabea e viu olhos sbios, bondosos, num rosto enrugado, com dobras delicadas e vincos suaves. A tatuagem sob o olho direito deu-lhe a impresso 
fugidia de uma rbita escurecida e da falta de um olho, e por um segundo ela pensou que fosse Creb. 
     Mas o velho santo do Cl, que com Iza a havia criado e zelado por ela, estava morto e Iza tambm. Ento, quem era aquele homem que lhe provocara tais sentimentos 
fortes? Por que estava ela sentada aos ps dele, como uma mulher do Cl? E como ele soubera a resposta adequada do Cl?
     - Levante-se, minha cara. Conversaremos mais tarde - disse o Mamut. - Precisa de tempo para repousar e comer. Isto so camas... Locais de dormir. - explicou, 
indicando os bancos, como se soubesse que era algo de que precisava contar a ela. - H peles extras e roupas ali.
     Ayla ficou de p graciosamente. O velho observador viu anos de prtica no movimento e acrescentou essa informao ao seu conhecimento crescente sobre a mulher. 
Durante o rpido encontro, ele j sabia mais sobre Ayla e Jondalar do que qualquer outro individuo do acampamento. Entretanto ele tinha uma vantagem, sabia mais 
a respeito de onde Ayla viera, do que qualquer outra pessoa no acampamento.
     O assado de mamute fora levado para o exterior numa grande travessa de osso plvico com vrias razes e vegetais e frutas para que se usufrusse a refeio 
ao sol do fim de tarde. A carne de mamute estava to saborosa e macia quanto Ayla recordava, mas ela teve um instante de dificuldade quando a refeio foi servida. 
Desconhecia o protocolo. Em certas ocasies, em geral mais formais, as mulheres do Cl comiam separadamente dos homens. 
     Comumente, contudo, sentavam-se em grupos familiares, juntos, mas, mesmo assim, os homens eram servidos em primeiro lugar.
     Ayla ignorava que os Mamutoi homenageavam os hspedes oferecendo-lhes o primeiro e escolhido pedao, ou que o costume ditava, em deferncia com a Me, que uma 
mulher desse a primeira mordida. Ayla se retraiu quando a comida foi trazida, mantendo-se atrs de Jondalar, tentando observar os outros discretamente. Houve um 
momento de confuso enquanto todos relutavam, esperando que ela comeasse, e ela continuava tentando se manter atrs deles.
     Alguns membros do grupo perceberam a ao e, com sorrisos maliciosos, comearam a fazer troa, mas Ayla no achou graa. Sabia que fazia algo errado, e no 
adiantava observar Jondalar. Ele tambm tentava empurr-la para frente.
     Mamut veio em seu auxlio. Tomou-lhe o brao e conduziu-a a travessa de osso de assado de mamute em fatias grossas.
     - Espera-se que coma primeiro, Ayla  disse, ele.
     - Mas sou uma mulher! - protestou ela.
     - Por isto deve comer primeiro.  nossa oferta  Me, e  melhor se uma mulher a aceitar em Seu nome. Tire o melhor pedao, no para seu bem, mas para honrar 
Mudo - explicou o velho.
     Ela olhou para ele, primeiro com surpresa, depois com gratido. Pegou um prato, uma pea de marfim ligeiramente curva lascada de uma presa e, com grande seriedade, 
escolheu cuidadosamente a melhor fatia. Jondalar lhe sorriu, sacudindo a cabea em aprovao; depois os outros avanaram para servir-se. Quando terminou, Ayla ps 
o prato no cho, onde vira, os outros colocarem os seus.
     - Perguntei-me se antes nos mostrava uma nova dana - disse uma voz prxima, atrs dela.
     Ayla se voltou para ver os olhos escuros do homem com pele marrom. No compreendeu a palavra dana, mas seu sorriso largo era amistoso. Ela devolveu-lhe o 
sorriso.
     - Algum j lhe disse como  bonita quando sorri? - disse ele.
     - Bonita? Eu? - Ela riu e sacudiu a cabea, incrdula.
     Jondalar dissera quase as mesmas palavras, certa vez, mas Ayla no pensava assim sobre si mesma. Desde muito antes de chegar  vida adulta, fora mais magra 
e mais alta do que as pessoas que a criaram. Ela parecera to diferente, com sua testa proeminente e o osso engraado sob a boca, que Jondalar chamava de queixo, 
que sempre se considerara grande e feia.
     Ranec observava intrigado. Ela riu com descontrao infantil, como se pensasse realmente que ele dissera algo engraado. No era a resposta que ele esperava. 
Um sorriso tmido, talvez, ou um convite sagaz risonho, mas os olhos cinza-azulados no tinham astcia, e nada havia de reservado ou acanhado na maneira pela qual 
ela atirou a cabea para trs ou afastou do caminho os longos cabelos.
     Em vez disso, ela se moveu com a graa fluida natural de um animal, talvez um cavalo ou um leo. Possua uma aura  sua volta, um atributo que ele no podia 
definir claramente, mas tinha elementos de honestidade e candura totais, no obstante algum mistrio profundo. Parecia inocente como um beb, aberta para tudo, mas 
era mulher em cada partcula, uma mulher alta e formidvel, inflexivelmente bonita.
     Ele a examinou com curiosidade e interesse. Seu cabelo espesso e longo, com uma ondulao natural, era brilhante como ouro, como um campo de feno soprando ao 
vento; os olhos eram grandes e separados e emoldurados por pestanas um pouco mais escuras que o cabelo. Com o sentido experiente de um escultor, examinou a estrutura 
lisa elegante do rosto, a graa musculosa do corpo, e quando seus olhos alcanaram-lhe os seios exuberantes e os quadris convidativos assumiram uma expresso que 
a desconcertou.
     Corou e desviou o olhar. Embora Jondalar lhe houvesse dito que era adequado, no estava certa de gostar daquele olhar direto de algum. Fazia com que se sentisse 
indefesa, vulnervel. As costas de Jondalar estavam voltadas para ela quando olhou em sua direo, porm a postura do homem lhe disse mais que palavras. Ele estava 
zangado. Por qu? Tinha ela feito alguma coisa que o encolerizasse?
     - Talut! Ranec! Barzec! Vejam quem est aqui! - gritou uma voz. Todos se voltaram para olhar. Vrias pessoas subiam a elevao chegando ao topo da encosta. 
Nezzie e Talut comearam a subir a colina enquanto um jovem se afastou, correndo em direo a eles.
     Encontraram-se no meio do caminho e se abraaram com entusiasmo. Ranec se apressou tambm para ir ao encontro de um daqueles que se aproximavam e, embora o 
cumprimento fosse mais contido, foi ainda com afeto caloroso que abraou o homem mais velho.
     Ayla observava com uma sensao de estranho vazio, enquanto o resto das pessoas do acampamento abandonava os visitantes em sua ansiedade para saudar os amigos 
e parentes que regressavam, todos falando e rindo ao mesmo tempo. Ela era Ayla de Nenhum Povo. No tinha lugar aonde ir, no tinha lar para onde retornar, nenhum 
Cl para lhe dar boas-vindas com abraos e beijos. Iza e Creb, que a amaram, estavam mortos, e ela estava morta para aqueles a quem amava.
     Uba, filha de Iza, fora uma irm tanto quanto era possvel ser; eram parentes por amor, se no por sangue. Mas Uba fecharia seu corao e mente para Ayla se 
a visse agora; recusaria acreditar em seus olhos; no acreditaria em seus olhos, no a veria. Broud a havia amaldioado com a morte. Ela estava, portanto, morta.
     E Durc se lembraria dela sequer? Ela tivera que deix-lo com o Cl de Brun. Mesmo se ela tivesse podido roub-lo, teriam sido apenas os dois.
     Se alguma coisa lhe acontecesse, ele ficaria sozinho. Era melhor deix-lo com o Cl. Uba o amava e cuidaria dele. Todos o amavam - exceto Broud. Brun o protegeria, 
contudo, e lhe ensinaria a caar. E ele cresceria forte e bravo, e seria to bom quanto ela era com uma funda, e seria um corredor rpido e...
     De repente, reparou num membro do acampamento que no havia subido a ladeira correndo. Rydag estava perto da habitao de terra, com uma das mos sobre uma 
presa de mamute, fitando com olhos arregalados o grupo de pessoas risonhas, felizes, que caminhavam de volta. Ela as viu ento, atravs dos olhos do menino, abraadas, 
com crianas ao colo, enquanto outras crianas saltavam pedindo para serem carregadas. Ele respirava com dificuldade, achou ela, sentindo demasiada excitao.
     Ela caminhou para o menino e viu Jondalar mover-se na mesma direo.
     - Eu ia lev-lo l em cima - disse ele. Jondalar tambm notara o menino e os dois tiveram o mesmo pensamento.
     - Sim, faa isso - disse ela. - Whinney e Racer podem ficar nervosos novamente perto de toda essa nova gente. Vou ficar com eles.
     Ayla observou Jondalar pegar no colo a criana de cabelos escuros, coloc-la nos ombros e subir a encosta com passos largos em direo s pessoas do Acampamento 
do Leo. O jovem, quase da altura de Jondalar, que Talut e Nezzie receberam to afetuosamente, estendeu os braos para o menino com claro prazer e cumprimentou-o, 
depois colocou Rydag em seus ombros para voltar  moradia. Ele  amado, pensou Ayla, e lembrou-se de que ela tambm fora amada, apesar de sua diferena.
     Jondalar a viu observando-os e lhe sorriu. Ela sentiu um mpeto afetuoso de sentimento pelo homem amoroso, sensvel, embaraada ao pensar que tivera pena de 
si mesma momentos antes. No estava mais sozinha. Tinha Jondalar. Amava o som do seu nome e seus pensamentos se ocuparam dele e de seu sentimento por ele.
     Jondalar. O primeiro dos Outros que ela havia visto, que era capaz de lembrar; o primeiro com um rosto como o dela, olhos azuis como os dela - apenas mais azuis; 
os olhos dele eram to azuis que era difcil acreditar que fossem verdadeiros.
     Jondalar. O primeiro homem que conhecera que era mais alto que ela; o primeiro que rira com ela e o primeiro a derramar lgrimas de tristeza - pelo irmo que 
ele havia perdido.
     Jondalar. O homem que fora trazido como ddiva do seu totem, ela estava certa, para o vale onde ela se fixara depois de deixar o Cl, quando se cansara de procurar 
os Outros parecidos com ela.
     Jondalar. O homem que lhe ensinara a falar novamente, com palavras, no apenas a linguagem de sinais do Cl. Jondalar, cujas mos sensveis eram capazes de 
moldar uma ferramenta, ou coar um pequeno cavalo, ou erguer uma criana e coloc-la s costas. Jondalar que lhe ensinou as alegrias do seu corpo - e do dele - e 
que a amava, e que ela amava mais do que imaginara possvel amar algum.
     Ela caminhou em direo ao rio e por uma curva, onde Racer estava amarrado a uma rvore mirrada por uma corda comprida. Enxugou os olhos molhados com a palma 
da mo, vencida pela emoo que ainda era to nova para ela. Estendeu a mo para seu amuleto, uma pequena bolsa de couro presa e uma correia ao redor do pescoo. 
Sentiu os objetos grumosos que continha e dirigiu o pensamento para seu totem.
     Esprito do Grande Leo da Caverna, Creb sempre dizia que era difcil conviver com um totem poderoso. Ele tinha razo. A prova sempre  difcil, mas tem valido 
a pena, sempre. Esta mulher  grata pela proteo, e pelas ddivas do poderoso totem. Os dons interiores das coisas aprendidas, e os dons daqueles por quem me interesso, 
como Whinney, Racer e Beb e, mais que todos, Jondalar.
     Whinney se aproximou de Ayla, quando ela alcanou o potro, e bufou-lhe um cumprimento suave. Ela colocou a cabea sobre o pescoo da gua. A mulher se sentia 
cansada, esgotada. No estava habituada com tantas pessoas, tanta coisa acontecendo, e as pessoas que falavam uma lngua eram muito ruidosas! Ela estava com dor 
de cabea, as tmporas martelavam, e o pescoo e ombros doam. Whinney encostou-se nela, e Racer, reunindo-se a elas, acrescentou a presso do seu flanco, at ela 
se sentir comprimida entre os animais. No se importou, contudo.
     - Chega! - exclamou, afinal, dando um tapa no flanco do potro.
     - Est grande demais, Racer, para me colocar no meio, assim. Olhe para voc! Veja como est grande. Quase to grande quanto sua me! - Coou-o, depois esfregou 
Whinney e lhe deu um tapinha carinhoso, notando o suor seco. -  difcil para voc tambm, no . Mais tarde eu lhe darei uma boa esfregadela e a escovarei, mas 
as pessoas esto chegando agora, assim, provavelmente, voc receber mais ateno. No ser to ruim quando elas se acostumarem com voc.
     Ayla no notou que ela usara a linguagem particular que desenvolvera durante os anos que passara sozinha, tendo somente animais por companhia. Compunha-se em 
parte de gestos do Cl, e parcialmente de verbalizaes de algumas das poucas palavras que o Cl falava, imitaes de animais, e as palavras tolas que ela e o filho 
tinham comeado a empregar.
     Para qualquer outra pessoa, era provvel que os sinais com a mo no tivessem sido notados, e ela pareceria murmurar uma srie de sons muito peculiar; grunhidos 
e resmungos e slabas repetitivas. Talvez no fosse considerada como lngua.
     Talvez Jondalar escove Racer tambm.
     Parou, de repente, quando um pensamento perturbador lhe ocorreu. Estendeu a mo para o amuleto novamente e tentou conter seus pensamentos.
     Grande Leo da Caverna, Jondalar tambm  seu escolhido agora, ele tem as cicatrizes de sua marca na perna, como eu tenho. Mudou os pensamentos para a antiga 
linguagem silenciosa falada somente com as mos; a linguagem adequada para se dirigir ao mundo dos espritos.
     Esprito do Grande Leo da Caverna, o homem que foi escolhido no tem conhecimento dos totens. O homem no sabe sobre as provas, nem sobre os julgamentos de 
um totem poderoso, ou os dons e o aprendizado. At esta mulher que sabe os achou, difceis. Esta mulher pede ao Esprito do Leo da Caverna.., pede por esse homem...
     Ayla parou. No estava certa sobre o que pedia. No queria pedir ao esprito para no testar Jondalar - no queria que ele fosse privado dos benefcios que 
tais provas teriam, com grande certeza - e nem mesmo que fosse condescendente com ele. Desde que ele havia sofrido grandes provaes e conseguido, talentos nicos 
e impares, ela viera a acreditar que os benefcios eram proporcionais ao rigor da prova. Ela reuniu seus pensamentos e prosseguiu.
     Esta mulher pede ao Esprito do Grande Leo da Caverna para ajudar esse homem, que foi escolhido, a conhecer o valor de seu poderoso totem, a saber, que no 
importa quo difcil possa parecer a prova, ela  necessria. Afinal, terminou e deixou as mos carem.
     - Ayla?
     Ela deu meia-volta e viu Latie.
     - Sim.
     - Parece estar... Ocupada. No quis interromp-la.
     - Acabei.
     - Talut gostaria que voc viesse e trouxesse os cavalos. Ele j disse a todos que no devem fazer nada que voc no queira. Para no assustar os animais, ou 
deix-los nervosos... Acho que ele fez algumas pessoas ficarem nervosas.
     - Eu irei - disse Ayla, depois sorriu. - Gosta de andar a cavalo? - interrogou.
     O rosto de Latie se abriu em um sorriso largo.
     - Posso? De verdade? - Quando ela sorria daquele jeito, parecia-se com Talut, pensou Ayla.
     - Talvez as pessoas no fiquem nervosas quando virem voc montando Whinney. Venha. 
     Aqui est uma pedra, ajudar voc a subir.
     Quando Ayla fez a curva do rio seguida por uma gua adulta, com a menina montada nela e um potro brincalho atrs, toda a conversa cessou. Aqueles que tinham 
visto a cena antes, embora ainda assombrados, divertiam-se com as expresses de incredulidade aturdida nos rostos dos outros.
     - Est vendo, Tulie? Eu lhe disse! - exclamou Talut para uma mulher de cabelos escuros que se parecia com ele em tamanho, se no na cor. Ela era mais alta que 
Barzec, o homem da ltima fogueira, que estava de p ao seu lado, o brao ao redor de sua cintura.
     Perto deles encontravam-se os dois meninos dessa fogueira, de treze e oito anos, e sua irm de seis, que Ayla conhecera recentemente.
     Quando chegaram  habitao de terra, Ayla tirou Latie de cima da gua, depois acariciou e deu tapinhas em Whinney, cujas narinas se alargavam ao farejar novamente 
o odor de pessoas estranhas. A garota correu para um rapaz ruivo, desajeitado, de uns quatorze anos talvez, quase to alto quanto Talut e, exceto pela idade e pelo 
corpo ainda no totalmente desenvolvido, quase idntico a ele.
     - Venha conhecer Ayla - disse Latie, puxando-o na direo da mulher com os cavalos. Ele se deixou levar. Jondalar se moveu a fim de manter Racer calmo.
     - Este  meu irmo Danug - explicou Latie. - Ele ficou longe muito tempo, mas permanecer em casa agora, j que sabe tudo sobre slex de minas. No , Danug?
     - No sei tudo sobre isso, Latie  falou, ele, um pouco embaraado.
     - Eu o sado - disse Ayla sorrindo e estendendo as mos.
     Ele ficou ainda mais constrangido. Era o filho da Fogueira do Leo, devia ter saudado a visitante, primeiro, mas estava surpreendido pela bela desconhecida 
que possua tanto poder sobre os animais. Ele tomou-lhe as mos e murmurou um cumprimento. Whinney escolheu esse momento para resfolegar e empinar, e ele soltou 
as mos de Ayla depressa, sentindo, por alguma razo, que a gua desaprovava.
     - Whinney aprenderia a conhec-lo melhor se a acariciasse e a deixasse sentir seu odor - disse Jondalar, sentindo o desconforto do rapaz. Era uma idade difcil, 
no mais uma criana, mas ainda no um homem.
     - Andou aprendendo a arte de minerao de slex? - perguntou ele, amvel, tentando colocar o rapaz  vontade, enquanto lhe mostrava como acariciar o animal.
     - Sou um trabalhador de slex. Wymez tem me ensinado desde que eu era criana - disse o rapazola com orgulho. - Ele  o melhor, mas queria que eu aprendesse 
algumas outras tcnicas, e como julgar a pedra bruta. - Com a conversa voltada para tpicos familiares, o entusiasmo natural de Danug veio  tona.
     Os olhos de Jondalar se iluminaram com interesse sincero.
     - Tambm trabalho com slex e aprendi meu oficio com um homem que  o melhor. 
     Quando tinha a sua idade, mais ou menos, vivi com ele perto da mina de slex que descobriu. 
     Eu gostaria de conhecer seu professor, um dia.
     - Ento, deixe que o apresente, j que sou o filho de sua fogueira... E o primeiro, embora no o nico, usurio de suas ferramentas.
     Jondalar se virou ao som da voz de Ranec, e notou que todo o acampamento formava um crculo. De p, ao lado do homem de pele escura, encontrava-se aquele que 
Ranec saudara com tanto entusiasmo. Apesar de serem da mesma altura, Jondalar no viu nenhuma outra semelhana. O cabelo do homem mais velho era liso e castanho-claro 
salpicado de cinza, os olhos de um azul comum, e no havia semelhana entre as suas e as feies distintamente exticas de Ranec. A Me devia ter escolhido o esprito 
de outro homem para filho de sua fogueira, pensou Jondalar, mas por que Ela escolhera um com uma cor to rara?
     - Wymez, da Fogueira da Raposa do Acampamento do Leo, Mestre de Slex dos Mamutoi - disse Ranec com formalidade exagerada -, conhea nossos visitantes, Jondalar 
dos Zelandonii, outro de sua classe, parece. - Jondalar sentiu uma tendncia oculta de... No estava certo. Humor? Sarcasmo? Alguma coisa. - E sua bela companheira, 
Ayla, uma mulher de Nenhum Povo, mas de grande encanto... E mistrio. - Seu sorriso atraiu os olhos de Ayla com o contraste entre os dentes brancos e a pele escura, 
e os olhos escuros cintilaram com expresso sagaz.
     - Saudaes - disse Wymez, to simples e direto quanto Ranec havia sido rebuscado. - Trabalha a pedra?
     - Sim, sou um britador de slex - replicou Jondalar.
     - Tenho excelente pedra comigo. Recm-tirada da fonte, no secou totalmente ainda.
     - Tenho um malho e um bom buril em minha trouxa - disse Jondalar, imediatamente interessado. - Usa um buril?
     Ranec lanou um olhar penalizado a Ayla enquanto a conversa mudava rapidamente para suas habilidades mtuas.
     - Eu podia ter-lhe dito que isto aconteceria - disse ele. - Sabe qual a pior parte de viver na fogueira de um ferramenteiro-mestre? Nem sempre  ter lascas 
de pedra em suas peles,  sempre ter uma conversa sobre pedra em seus ouvidos. E depois que Danug mostrou interesse... Pedra, pedra, pedra...  s o que ouo. - 
O sorriso clido de Ranec desmentia sua queixa, e todos a tinham, obviamente, ouvido antes, j que ningum prestou muita ateno, com exceo de Danug.
     - Eu no sabia que isto o incomodava tanto - disse o jovem.
     - No incomoda - disse Wymez ao rapazola. - No percebe quando Ranec est tentando impressionar uma mulher bonita?
     - Na verdade, sou-lhe grato, Danug. At voc chegar, acho que esperava tornar-me um trabalhador de slex - falou Ranec para aliviar a preocupao de Danug.
     - No depois de eu compreender que seu nico interesse em minhas ferramentas era o de esculpir marfim com elas, e isto no foi muito depois de chegarmos aqui 
- falou Wymez, depois sorriu e ajuntou: - E se acha que lascas de slex em sua cama so coisa ruim, devia tentar p de marfim em sua comida.
     Os dois homens diferentes sorriam um para o outro, e Ayla compreendeu com alvio que brincavam, provocando-se verbalmente de forma amistosa. Tambm observou 
que apesar de toda a diferena na cor e nas feies exticas de Ranec, seu sorriso era semelhante, e os corpos moviam-se da mesma maneira.
     De repente, ouviu-se gritaria vinda do interior da habitao comunal.
     - Fique fora disso, velha! Isto  entre Fralie e mim. - Era uma voz de homem, o homem da sexta fogueira, vizinha da ltima. Ayla lembrou-se de t-lo conhecido.
     - No sei por que ela escolheu voc, Frebec! Eu jamais o teria permitido! - retrucou uma mulher. De repente, uma mulher mais velha irrompeu da passagem em arco, 
arrastando consigo uma jovem que chorava. Dois meninos espantados as seguiam, um de cerca de sete anos, o outro um beb de dois anos, nu e com o polegar na boca.
     - A culpa  toda sua. Ela lhe d ouvidos, demasiadamente. Por que no pra de interferir?
     Todos deram as costas - j tinham ouvido tudo aquilo antes, inmeras vezes. Mas Ayla encarava, surpresa. Nenhuma mulher do Cl teria discutido com qualquer 
homem daquela forma.
     - Frebec e Crozie esto brigando de novo, no ligue para eles - falou Tronie. Era a mulher da quinta fogueira - a Fogueira da Rena, lembrou Ayla. Era a seguinte 
depois da Fogueira do Mamute, onde ela e Jondalar estavam. A mulher mantinha um beb contra seu seio.
     Ayla encontrara a jovem me da fogueira vizinha anteriormente, e se sentira atrada a ela.
     Tornec, seu companheiro, pegou a filha de trs anos que se agarrava  me, ainda no aceitando o beb novo que roubara seu lugar no seio materno. Eram um jovem 
casal amoroso e afvel, e Ayla estava contente por serem eles a morar na fogueira seguinte, e no aqueles que discutiam. Manuv, que vivia com eles, viera falar com 
ela enquanto comiam, e contou-lhe que ele fora o homem da fogueira quando Tornec era jovem, e era o filho de um primo de Mamut. Disse que passava o tempo, muitas 
vezes, na quarta fogueira, o que a agradou. Ela sempre gostara muito de pessoas mais velhas.
     No se sentia to  vontade com a fogueira vizinha do lado oposto, a terceira. Ranec vivia nela - e a chamara Fogueira da Raposa. Ela no desgostava dele, mas 
Jondalar agia to estranhamente em relao a ele... Era uma fogueira menor, todavia, com apenas dois homens, e tomava menos espao na habitao comunal. Assim, ela 
se sentia mais perto de Nezzie e Talut, na segunda fogueira, e de Rydag. Gostava das outras crianas da Fogueira do Leo, de Talut, tambm, Latie e Rugie, a filha 
mais nova de Nezzie, de idade bem prxima  de Rydag. Agora, que havia conhecido Danug, gostava dele tambm.
     Talut se aproximou com a mulher grande. Barzec e as crianas estavam com eles e Ayla imaginou que eram companheiros.
     - Ayla, quero que conhea minha irm, Tulie, da Fogueira dos Auroques, a chefe do Acampamento do Leo.
     - Saudaes - disse a mulher, estendendo as duas mos na forma protocolar. - Em nome de Mut, eu lhe dou boas-vindas. - Como irm do chefe ela era da sua categoria 
e consciente de suas responsabilidades.
     - Eu a sado, Tulie - respondeu Ayla, tentando no encar-la.
     A primeira vez que Jondalar pde ficar de p, fora um choque descobrir que ele era mais alto que ela, porm ver uma mulher que era mais alta era ainda mais 
espantoso. Ayla sempre fora mais alta que todos do Cl. Mas a chefe era mais que alta, era musculosa e de aparncia forte. O nico que a ultrapassava em tamanho 
era o irmo. Ela se comportava com a presena que somente peso e altura pura podem dar e a auto-segurana inegvel de uma mulher, me, e lder completamente confiante 
e com o controle de sua vida.
     Tulie se perguntou sobre o estranho sotaque da visitante, porm outro problema a preocupava mais e, com a franqueza tpica de seu povo, no hesitou em abord-lo.
     - Eu no sabia que a Fogueira do Mamute estaria ocupada quando convidei Branag a voltar conosco. Ele e Deegie sero unidos neste vero. Ele ficar apenas alguns 
dias, e sei que ela havia esperado que pudessem passar estes dias um pouco sozinhos, longe da irm e dos irmos dela. Por voc ser uma hspede, Deegie no pediria, 
mas ela gostaria de ficar na Fogueira do Mamute com Branag, se no fizer objeo.
     - E uma fogueira grande. Muitas camas. No fao objeo - disse Ayla sentindo-se pouco  vontade com a pergunta. No era o seu lar.
     Enquanto falavam, uma jovem saiu da habitao de terra, seguida por um rapaz. Ayla olhou duas vezes. Tinha quase a idade de Ayla, era entroncada e um pouquinho 
mais alta! Tinha o cabelo castanho-escuro e um rosto simptico que muitos diriam que era bonito, e era evidente que o rapaz que a acompanhava achava-a muito atraente. 
Mas Ayla no prestava grande ateno  aparncia fsica da moa, fitava com assombro a roupa da jovem.
     Vestia perneiras e uma tnica de couro de uma cor quase igual  do cabelo - uma tnica comprida, profusamente enfeitada, vermelho-ocre, que se abria na frente, 
e cintada para ser mantida fechada. Vermelho era uma cor sagrada para o Cl. O saquinho de Iza era o nico objeto que Ayla possua que fora tingido de vermelho. 
Continha s razes especiais usadas para fazer a bebida para as cerimnias importantes. Ela ainda o possua, cuidadosamente guardado em sua sacola de remdios onde 
carregava as ervas secas utilizadas na magia da cura. Uma tnica inteira feita de couro vermelho? Era difcil de acreditar.
     -  to bonita! - exclamou Ayla, mesmo antes de ser apresentada adequadamente.
     - Gosta? E para meu matrimnio, quando formos unidos. A me de Branag me deu, e tive que vesti-la para mostrar a todos.
     - Nunca vi uma coisa assim! - exclamou Ayla, os olhos arregalados.
     A jovem estava encantada.
     - E voc que se chama Ayla, no ? Meu nome  Deegie, e este  Branag. Ele tem que voltar dentro de poucos dias - disse, parecendo desapontada -, mas depois 
do prximo vero estaremos juntos. Vamos morar com meu irmo Tarneg. Ele vive com sua mulher e sua famlia agora, mas quer erguer um novo acampamento e tem andado 
atrs de mim para que eu arranjasse um companheiro a fim de ele ter uma chefe.
     Ayla viu Tulie sorrindo e sacudindo a cabea afirmativamente para a filha e se lembrou do pedido.
     - A fogueira tem muito espao, muitos leitos vazios, Deegie. Voc fica na Fogueira do Mamute com Branag? Ele tambm  visitante, se Mamut no se importar. A 
fogueira  de Mamut.
     - A primeira mulher dele foi a me de minha av. J dormi em sua fogueira muitas vezes. Mamut no se importar, no ? - perguntou Deegie ao v-lo.
     - Claro, voc e Branag podem ficar, Deegie - disse o velho-, mas lembre-se de que no podero dormir muito. - Deegie sorriu com ansiedade, enquanto o velho 
continuava: - Com visitantes, Danug de volta depois de estar longe por um ano, seu matrimnio e o sucesso de Wymez em sua misso de comrcio, acho que h razo para 
uma reunio na Fogueira do Mamute esta noite e para contar as histrias.
     Todos sorriram. Esperavam o anncio, mas isso no diminua sua expectativa. Sabiam que uma reunio na Fogueira do Mamute significava a repetio de experincias, 
contar histrias e, talvez, outra diverso, e esperavam a noite com alegria.
     Estavam ansiosos para ouvir notcias de outros acampamentos, e para ouvir novamente as histrias que conheciam. E estavam to interessados em ver as reaes 
dos estranhos s vidas e aventuras dos membros de seu acampamento, quanto ouvir as histrias que eles tinham que compartilhar.
     Jondalar tambm sabia o que a reunio significava, e incomodava-o. Ayla contaria muito de sua histria? O Acampamento do Leo seria to acolhedor depois? Pensou 
em lev-la para um lado e preveni-la, mas sabia que ela ficaria apenas zangada e aborrecida. Em muitos aspectos ela era como os Mamutoi, direta e honesta na expresso 
de seus sentimentos. De qualquer forma, no adiantaria nada. Ela no sabia mentir. No mximo, poderia abster-se de falar.
     Ayla passou bastante tempo,  tarde, alisando e esfregando Whinney com um pedao macio de couro e a cabea seca espinhosa de um cardo-penteador. Era to relaxante 
para ela quanto para a gua.
     Jondalar trabalhava amistosamente ao seu lado, usando um cardo em Racer para aliviar os locais que coavam, enquanto alisava o plo emaranhado do potro, embora 
o animalzinho quisesse brincar, mais do que permanecer parado. A camada interior macia e clida de Racer havia-se tornado bem mais espessa, lembrando ao homem que 
breve o frio chegaria at eles, o que o levou a pensar sobre onde passariam o inverno. Ainda no estava certo sobre como Ayla se sentia em relao aos Mamutoi, mas 
ao menos as pessoas do acampamento e os cavalos se acostumavam uns aos outros.
     Ayla tambm notou o alvio das tenses, mas estava preocupada, sobre onde os cavalos passariam a noite quando ela estivesse no interior da habitao de barro. 
Eles estavam habituados a dividir uma caverna com ela. Jondalar continuou assegurando que ficariam bem. Os cavalos estavam habituados a ficar fora de casa. Afinal, 
ela resolveu amarrar Racer prximo  entrada, sabendo que Whinney no se afastaria sem o potro, e que a gua a despertaria se surgisse algum perigo.
     O vento se tornou frio quando a noite caiu, e havia uma brisa de neve no ar quando Ayla e Jondalar entraram, mas a Fogueira do Mamute, no meio da moradia quase 
subterrnea, estava agradvel e quente quando as pessoas se reuniram. Muitas se haviam detido para pegar sobras frias da refeio anterior, que tinham sido trazidas 
para dentro: pequenas razes amilceas, cenouras, uvas-do-monte e fatias de assado de mamute. Pegavam as verduras e frutas com os dedos ou um par de pauzinhos usados 
como pinas, mas Ayla reparou que cada pessoa, exceto as crianas, tinha uma faca para comer a carne. Intrigou-a ver algum segurar uma fatia grande com os dentes, 
depois cortar um pequeno pedao com um movimento rpido da faca para cima - sem perder o nariz.
     Pequenas sacolas marrons de gua - os estmagos e vesculas preservados e  prova dgua de vrios animais - eram passadas e as pessoas bebiam delas com grande 
prazer.
     Talut ofereceu-lhe um gole. Tinha um odor fermentado e um pouco desagradvel, e encheu-lhe a boca com um sabor levemente doce, mas fortemente ardente. Ela recusou 
um segundo oferecimento. No gostou, embora Jondalar parecesse apreciar a bebida.
     As pessoas falavam e riam enquanto encontravam lugares em plataformas ou sobre peles ou capachos no cho. A cabea de Ayla estava virada, ouvindo uma conversa, 
quando o nvel de barulho caiu claramente. Ela se voltou e viu o velho Mamut de p, silencioso, atrs da fogueira em que o fogo ardia. Quando toda a conversa cessou 
e ele conseguiu a ateno de todos, pegou uma pequena tocha apagada e estendeu-a at as chamas quentes at ela se acender. No silncio expectante de respiraes 
contidas, levou a chama at um pequeno lampio de pedra, que se encontrava em uma reentrncia na parede, atrs de si. O pavio de lquen seco crepitou na gordura 
de mamute e depois se incendiou, revelando uma pequena escultura de marfim, de uma mulher corpulenta, bem-dotada, atrs da lmpada.
     Ayla sentiu uma alfinetada de reconhecimento, embora nunca houvesse visto uma igual quela antes.  o que Jondalar chama uma donii, pensou. Diz que ela possui 
o Esprito da Grande Me Terra. Ou parte dele, talvez. Parece pequena demais para cont-lo todo. Mas, enfim, quo grande  um esprito?
     Sua mente vagou de volta  outra cerimnia,  poca em que lhe foi dada  pedra negra que ela carregava no saquinho de amuleto ao redor do pescoo. O pequeno 
volume de dixido de mangans negro continha uma parte do esprito de todos no Cl inteiro, no apenas no seu cl. A pedra havia-lhe sido, dada quando ela se tornou 
curandeira e cedera parte do seu prprio esprito em troca, de modo que, se salvasse a vida de algum, essa pessoa no tivesse obrigao de dar-lhe alguma coisa 
de valor e espcie igual, em retribuio. J havia sido feito.
     Ainda ficava perturbada quando recordava que os espritos no tinham sido devolvidos depois que foi amaldioada de morte. Creb os havia tirado de Iza, depois 
que a velha curandeira morreu, para que no fossem com ela para o mundo espiritual, mas ningum os tinha tirado de Ayla. Se ela possua uma parte do esprito de 
cada membro do Cl, ser que Broud fizera com que tambm fossem amaldioados de morte?
     Estou morta? Perguntou-se, como j se interrogara muitas vezes antes. Achava que no. Havia aprendido que o poder da maldio de morte estava na crena e que, 
quando seres amados no reconhecem mais sua existncia e voc no tem mais lugar aonde ir, pode muito bem morrer. Mas por que ela no morrera? O que a havia impedido 
de desistir? E, mais importante, o que aconteceria ao Cl quando ela realmente morresse? Sua morte poderia causar dano queles a quem amava? Talvez a todo o Cl? 
A pequena bolsa de couro pesava com a fora da responsabilidade, como se o destino de todo o Cl pendesse de seu pescoo.
     Ayla foi arrancada de sua reflexo por um som rtmico. Com uma parte de um chifre de veado em forma de martelo, Mamut batia sobre o crnio de um mamute, pintado 
com linhas geomtricas e smbolos. Ayla achou que detectava uma qualidade alm do ritmo e observou e ouviu com ateno. A cavidade oca intensificava o som com vibraes 
harmoniosas, porm era mais que a ressonncia simples do instrumento. Quando o velho feiticeiro tocava nas diferentes partes marcadas sobre o tambor de osso, a altura 
do tom e o timbre mudavam com variaes to complexas e sutis que parecia que Mamut arrancava palavras do tambor, fazendo o velho crnio de mamute falar.
     No fundo, e muito baixo em seu peito, o velho comeou a entoar um canto de tons menores acuradamente modulados. Enquanto o tambor e a voz se entrelaavam num 
intrincado padro de som, outras vozes se juntavam daqui e dali, em todo o recinto, ajustando-se ao modo estabelecido, no entanto, variando-o de forma independente. 
O ritmo do tambor era acompanhado por um som similar do lado oposto da dependncia. Ayla olhou e viu Deegie tocando outro tambor de caveira. Depois Tornec comeou 
a bater devagar com um martelo de chifre sobre outro osso de mamute, um osso da espdua coberto com divisas e linhas igualmente espaadas pintadas de vermelho. As 
graves ressonncias dos tambores e o timbre agudo da omoplata encheram a habitao de terra com um belo som obsedante. O corpo de Ayla palpitava com movimento e 
ela observou os outros mexerem seus corpos ao compasso do som. De repente, ele parou.
     O silncio estava pleno de expectativa, mas este se desvaneceu. No se planejara qualquer cerimnia formal, somente uma reunio informal do acampamento para 
se passar uma noite agradvel em companhia uns dos outros, fazendo o que as pessoas realizavam melhor - falar.
     Tulie comeou anunciando o acordo feito, e que as npcias de Deegie e Branag seriam formalizadas no prximo vero. Palavras de aprovao e congratulaes foram 
ditas, embora todos esperassem por aquilo. O jovem casal se inclinou, mostrando seu regozijo.
     Depois Talut pediu a Wymez para lhe contar sobre sua misso comercial, e souberam que tal misso envolvia trocas de sal, mbar e slex. Vrias pessoas fizeram 
perguntas ou comentrios enquanto Jondalar ouvia com interesse, mas Ayla no compreendia e resolveu que o interrogaria mais tarde. Em seguida, Talut perguntou a 
respeito do progresso de Danug, causando embarao ao rapaz.
     - Ele tem talento, um toque hbil. Mais alguns anos de prtica e ser muito bom. Ficaram com pena de v-lo partir. Ele aprendeu bem, valeu a pena o ano longe 
- relatou Wymez. O grupo pronunciou mais palavras de aprovao. Depois, houve uma calmaria cheia de pequenas conversas particulares, antes de Talut se voltar a Jondalar, 
o que causou sussurros de excitao.
     - Diga-nos, homem dos Zelandonii, como aconteceu de estar sentado no abrigo do Acampamento do Leo dos Mamutoi? - perguntou.
     Jondalar engoliu um gole fermentado de uma das pequenas sacolas de gua marrons, olhou ao redor para as pessoas que esperavam com nsia e depois sorriu para 
Ayla. J fez isto antes, pensou ela, um pouco surpresa, compreendendo que ele estabelecia o caminho e o tom para contar sua histria. Ela se ajeitou para ouvi-lo 
bem.
     -  uma longa histria - comeou ele, enquanto as pessoas sacudiam as cabeas afirmativamente. Era o que desejavam ouvir. - Meu povo vive muito longe daqui, 
distante, distante, a oeste, at alm da nascente do Grande Rio Me que se esvazia no mar Beran. Vivemos perto de um rio tambm, como vocs, mas nosso rio corre 
para as Grandes guas do oeste.
     Os Zelandonii so um grande povo. Como vocs, somos os Filhos da Terra; aquela que chamam Mut, Mudo, chamamos Doni, mas Ela  ainda a Grande Me Terra. Caamos 
e negociamos e, s vezes, fazemos longas jornadas. Meu irmo e eu resolvemos fazer uma dessas jornadas. - Jondalar fechou um momento os olhos e sua testa enrugou-se 
de dor.
     - Thonolan... Meu irmo... Era muito alegre e adorava uma aventura. Era um favorito da Me.
     O sofrimento era real demais. Todos notaram que no era fingimento, para realar a histria. Mesmo sem dizer, as pessoas adivinharam a causa. Tambm tinham 
um ditado sobre a Me levar cedo aqueles que protegia. Jondalar no planejara revelar seus sentimentos daquela forma. A tristeza o pegou de surpresa e o deixou um 
pouco constrangido. Mas tal perda  universalmente compreendida. Sua demonstrao no-intencional provocou a simpatia deles e fez com que sentissem por ele um carinho 
que ia alm da curiosidade normal e cortesia que ofereciam, em geral, a estranhos no-ameaadores.
     Ele respirou fundo e tentou seguir o fio de sua histria.
     - A jornada foi de Thonolan no inicio. Eu pretendia acompanh-lo somente durante um trajeto curto, apenas at o lar de alguns parentes, mas ento resolvi ir 
com ele. Atravessamos uma pequena geleira, que  a nascente do Donau... O Grande Rio Me... E dissemos que iramos segui-lo at o fim. Ningum acreditou que o fizssemos, 
no estou certo se fizemos, mas continuamos avanando, cruzando muitos afluentes e encontrando muitas pessoas.
     Certa vez, durante o primeiro vero, paramos para caar e enquanto secvamos a carne, nos encontramos cercados por homens apontando lanas para ns...
     Jondalar havia novamente encontrado seu ritmo e manteve o acampamento cativado enquanto tornava a contar suas aventuras. Era um bom contador de histrias, com 
jeito para estender o suspense. Houve murmrios e gestos de cabea de aprovao e palavras de encorajamento, muitas vezes gritos de excitao. Mesmo quando ouvem, 
pensou Ayla, as pessoas que falam com palavras no esto silenciosas.
     Ela estava to fascinada quanto os outros, mas encontrou-se observando, um instante, as pessoas que ouviam Jondalar. Adultos seguravam crianas ao colo enquanto 
os filhos mais velhos sentavam-se juntos, vendo o estranho carismtico com olhos brilhantes. Particularmente, Danug parecia cativado. Estava inclinado  frente, 
com ateno enlevada.
     - Thonolan entrou no desfiladeiro pensando que estava seguro, tendo a leoa ido embora. 
     Ento, ouvimos o rugido de um leo...
     - O que aconteceu ento? - indagou Danug.
     - Ayla ter que contar o resto. No me lembro de muita coisa, depois disso.
     Todos os olhos se voltaram para ela. Ayla ficou aturdida. No o esperava; jamais falara antes a um grupo de pessoas. Jondalar lhe sorria. Ele havia pensado, 
subitamente, que a melhor maneira de acostum-la a falar com as pessoas era levando-a a faz-lo. No seria a ltima vez que esperariam que narrasse alguma experincia 
e, com o seu domnio sobre os cavalos ainda fresco na lembrana de todos, a histria do leo seria mais crvel. Era uma histria excitante, sabia ele, e somaria 
ao mistrio de Ayla - e talvez, se os satisfizesse com esta histria, no teria que falar sobre seu background.
     - O que aconteceu, Ayla? - perguntou Danug, ainda preso  narrativa. Rugie vinha se sentindo tmida e relutante perto do irmo mais velho que se ausentara por 
tanto tempo, mas, recordando pocas anteriores quando se sentavam em crculo contando histrias, resolveu sentar-se naquele momento ao colo dele. Ele a recebeu bem, 
com um abrao e sorriso distrado, mas olhando com expectativa para Ayla.
     Ayla olhou ao redor, para todos os semblantes voltados para si, tentou falar, mas a boca estava seca, embora as palmas das mos se encontrassem molhadas.
     - Sim, o que aconteceu? - repetiu Latie. Ela estava acomodada prxima a Danug, com Rydag em seu colo.
     Os grandes olhos castanhos do menino estavam cheios de excitao. Ele abriu a boca para perguntar tambm, mas ningum compreendeu o som emitido - exceto Ayla. 
No a prpria palavra, mas a inteno. Ela havia ouvido sons semelhantes antes, chegara at a aprender a fal-los. As pessoas do Cl no eram mudas, mas eram limitadas 
em sua capacidade de articular. Em vez disso, tinham desenvolvido uma linguagem rica e compreensvel de sinais para se comunicar, usando palavras somente para nfase. 
Ela sabia que a criana pedia-lhe para continuar a histria e que as palavras tinham significado para o menino. Ayla sorriu e dirigiu a ele suas palavras.
     - Eu estava com Whinney - comeou Ayla. Sua maneira de dizer o nome da gua sempre fora uma imitao do murmrio suave de um cavalo. As pessoas no abrigo no 
compreenderam que ela dizia o nome do animal. Pensaram, em vez disso, que era um embelezamento maravilhoso da histria. Sorriam e pronunciavam palavras de aprovao, 
encorajando-a a continuar no mesmo tom.
     - Ela teve filhote logo - disse Ayla, mantendo as mos diante do ventre para indicar que a gua estava grvida. - Muito grande. - Houve sorrisos de compreenso. 
- Todo dia cavalgamos, Whinney precisava sair. No longe, no depressa. 
     Sempre para leste, fcil ir para leste. Fcil demais, nada novo. Um dia fomos para oeste, no leste. Ver um lugar novo - continuou Ayla, dirigindo suas palavras 
a Rydag.
     Jondalar estivera lhe ensinando Mamutoi, assim como as outras lnguas que conhecia, mas ela no era to fluente quanto o era na lngua dele, aquela que havia 
aprendido a falar primeiro. Sua forma de falar era estranha, diferente, de uma maneira difcil de explicar, e ela lutou para encontrar palavras, sentindo-se tmida 
a respeito disso. Mas quando pensou no menino que no era capaz de fazer-se entender de modo algum, teve que tentar. Porque ele havia pedido.
     - Ouvi um leo. - Ela no estava certa por que o fazia. Talvez fosse o olhar ansioso no rosto de Rydag, ou a maneira como virou a cabea para ouvir, ou um instinto, 
mas acompanhou a palavra leo com um rugido ameaador, que soou como leo verdadeiro para todos. Ouviu pequenos arquejos de medo, risadinhas nervosas, depois palavras 
alegres de elogio do grupo reunido. Sua capacidade de imitar os sons dos animais era rara. Somava excitao inesperada  sua histria. Jondalar sacudia a cabea 
e sorria, aprovando tambm.
     - Ouvi homem gritar. - Olhou para Jondalar e seus olhos se encheram de tristeza. - Parei. O que fazer? Whinney esperava beb.  Produziu os sons agudos de um 
filhote e foi recompensada com um sorriso e inclinao de cabea de Latie. - Preocupei-me com cavalo, mas o homem gritava. Ouvi o leo de novo. Prestei ateno. 
- De alguma forma, conseguiu que o som do rugido do leo parecesse engraado. - Era Nenm. Ento, entrei no desfiladeiro. Sabia que a gua no seria ferida.
     Ayla notou olhares intrigados. A palavra dita no era familiar, embora Rydag pudesse conhec-la se sua situao fosse diferente. Ela havia dito a Jondalar que 
era a palavra do Cl para filhote de animal, ou criana pequena.
     - Nenm  leo - falou, tentando explicar. - Nenm  leo que conheo, Nenm ... Como filho. Entrei no desfiladeiro, fiz leo ir embora. Encontrei um homem 
morto. Outro homem, Jondalar, muito ferido. Whinney o carregou de volta para o vale.
     - Ah! - exclamou uma voz zombeteira. Ayla ergueu os olhos e viu que era Frebec, o homem que andara discutindo antes com a mulher. - Est tentando dizer que 
mandou um leo afastar-se de um homem ferido?
     - Um leo qualquer, no. Nenm - disse Ayla.
     - O que  isso... O que est dizendo?
     - Nenm  palavra do Cl. Significa criana pequena, filhote.  o nome que dei ao leo quando viveu comigo. Nenm  um leo que conheci. gua conhece tambm, 
no teve medo. - Ayla estava aborrecida, alguma coisa estava errada, mas ela no tinha certeza do que era.
     - Viveu com um leo? No acredito nisso - escarneceu ele.
     - No acredita? - disse Jondalar, parecendo zangado. O homem acusava Ayla de mentir, e ele sabia muito bem quanto sua histria era verdadeira. - Ayla no mente 
- disse ele, levantando-se para desatar uma correia que se fechava ao redor de suas calas de couro. Abaixou um lado das calas e exps uma virilha e uma coxa desfiguradas 
por cicatrizes vermelhas. - Esse leo me atacou, e Ayla no apenas me tirou de perto dele, como se revelou uma curandeira de grande percia. Eu teria seguido meu 
irmo para o outro mundo se no fosse ela. Vou lhe dizer mais. Vi-a cavalgar aquele leo, exatamente como cavalga a gua. Vai me chamar de mentiroso?
     - Nenhum hspede do Acampamento do Leo  chamado de mentiroso - falou Tulie, olhando para Frebec com raiva, tentando acalmar uma cena potencialmente ameaadora. 
- Acho evidente que voc foi gravemente ferido, e certamente vimos  mulher... Ayla... Cavalgar a gua. No vejo motivo para duvidar de voc, ou dela.
     Houve um silncio constrangido. Ayla olhava de um para o outro, confusa. A palavra mentiroso lhe era desconhecida, e no entendia por que Frebec dissera no 
acreditar nela.
     Ayla havia crescido entre pessoas que se comunicavam com movimento. Mais do que com sinais manuais, a linguagem do Cl inclua postura e expresses
para atenuar
significados e oferecer nuanas. Era impossvel mentir eficazmente com o corpo inteiro. Podia-se, no mximo, deixar de mencionar algo, e mesmo isso era percebido,
embora permitido para o bem da privacidade. Ayla jamais aprendera a mentir.
     Mas sabia que alguma coisa estava errada. Podia ler raiva e hostilidade que surgiram to facilmente quanto se as tivessem expressado em voz alta. Tambm compreendeu 
que tentavam conter-se. Talut viu Ayla olhar para o homem de pele escura, depois desviar o olhar. Ao ver Ranec, ele teve uma idia para aliviar as tenses e voltar 
 narrativa de histrias.
     - Foi uma boa histria, Jondalar - retumbou Talut, enviando um olhar duro a Frebec. -  sempre excitante ouvir sobre longas jornadas. Gostaria de ouvir uma 
histria sobre outra longa jornada?
     - Sim, muito.
     Houve sorrisos em toda parte, enquanto as pessoas relaxavam. Era uma histria favorita do grupo e, muitas vezes, no existia a oportunidade de partilh-la com 
pessoas que no a tinham ouvido antes.
     -  a histria de Ranec... - comeou Talut.
     Ayla olhou para Ranec, expectante.
     - Quero saber como homens com pele marrom vieram viver no Acampamento do Leo - disse ela.
     Ranec lhe sorriu, mas voltou-se para o homem de sua fogueira.
     -  a minha histria, mas voc deve cont-la, Wymez - disse ele.
     Jondalar sentou-se de novo, incerto sobre se gostava do rumo novo que a conversa tomara - ou talvez do interesse de Ayla por Ranec - embora fosse melhor do 
que a quase franca hostilidade, e ele tambm estava interessado.
     Wymez se acomodou, fez um sinal de cabea a Ayla, depois, sorrindo para Jondalar, comeou:
     - Temos mais em comum do que um jeito com pedra, rapaz. Tambm fiz uma longa jornada em minha juventude. Viajei para o sul, primeiro em direo ao leste, passei 
pelo mar Beran, e percorri todo o caminho para as praias de um mar muito maior, no sul mais distante. Este mar do Sul tem muitos nomes, porque muitas pessoas vivem 
em suas praias.
     Viajei em sua parte oriental, depois ocidental, ao longo do litoral Sul atravs de terras de muitas florestas, mais quentes e chuvosas do que aqui.
     No tentarei contar tudo o que me aconteceu. Guardarei isso para outra ocasio. Vou contar a histria de Ranec. Ao viajar para o oeste, encontrei muitas pessoas 
e permaneci com algumas. Aprendi muitos costumes novos, mas depois ficava inquieto e tornava a viajar. Queria ver at onde eu poderia ir  direo oeste. Depois 
de vrios anos, cheguei a um local, no longe de suas Grandes guas, acho, Jondalar, mas do outro lado dos estreitos canais onde o mar do Sul se junta a elas. L 
conheci pessoas cuja pele era to escura que parecia negra, e l encontrei uma mulher que me atraiu. Talvez, a princpio, fosse a diferena... Suas roupas exticas, 
a cor, os olhos negros cintilantes. O sorriso sedutor... e a maneira como danava e se movia... era a mulher mais excitante que eu j conhecera.
     Wymez falava de forma direta, moderada, mas a histria era to cativante que no necessitava de arte dramtica. No entanto, a conduta do homem robusto, calmamente 
reservado, mudou perceptivelmente quando mencionou a mulher.
     - Quando ela concordou em juntar-se a mim, resolvi ficar l com ela. Sempre tive interesse em trabalhar pedra, mesmo quando jovem, e aprendi a maneira deles 
de fazer pontas de lana. Eles lascam os dois lados da pedra, entende? - Dirigiu a pergunta a Jondalar.
     - Sim, de forma bi facial, como um machado.
     - Mas estas pontas no eram to espessas e brutas. Tinham boa tcnica. Tambm lhes mostrei algumas coisas, e fiquei bastante satisfeito em aceitar seus hbitos, 
especialmente depois que a Me a abenoou com uma criana, um menino. Ela me pediu um nome, como era seu costume, e escolhi Ranec.
     Isto explica, pensou Ayla. A me dele tinha pele escura.
     - O que fez com que resolvesse voltar? - interrogou Jondalar.
     - Alguns anos depois que Ranec nasceu, as dificuldades comearam. O povo de pele escura com quem eu vivia se mudara para alm do sul mais distante, e algumas 
pessoas dos acampamentos vizinhos no queriam partilhar as terras de caa. Havia diferenas de costumes. Quase os convenci a se reunir e conversar. Ento, alguns 
jovens exaltados de ambos os lados resolveram lutar, em vez de conversar. Uma morte levou a outra, por vingana, e depois a ataques a acampamentos familiares.
     Providenciamos boas defesas, porm eles eram mais numerosos. A luta continuou por algum tempo e eles nos matavam, um aps o outro. Depois de certo tempo, a 
viso de uma pessoa com pele mais clara comeou a causar medo e dio. Embora eu fosse um deles, comearam a desconfiar de mim e at de Ranec. Sua pele era mais clara 
que a dos Outros e suas feies tinham um feitio diferente. Conversei com a me de Ranec e decidimos partir. Foi uma partida triste, deixar a famlia e muitos amigos, 
porm no era seguro ficar. Alguns dos exaltados quiseram at nos impedir de ir embora, mas escapamos de noite com alguma ajuda.
     Viajamos para o norte, para os canais. Eu sabia que algumas pessoas viviam l e faziam pequenos barcos que usavam para atravessar o mar amplo. Fomos avisados 
de que era a estao errada e era difcil uma travessia durante a melhor das condies. Mas sentimos que tnhamos que fugir e resolvemos arriscar.
     Foi uma deciso errada, disse Wymez numa voz rigidamente controlada. O barco virou e somente Ranec e eu conseguimos atravessar, e uma trouxa dos pertences 
dela. Fez uma pausa por um momento antes de continuar a histria. Ainda estvamos longe de casa, e demoramos muito tempo, mas chegamos finalmente aqui, durante 
a Reunio de Vero.
     - Por quanto tempo ficou longe? - interrogou Jondalar.
     - Dez anos - respondeu Wymez, depois sorriu. - Provocamos um grande alvoroo. Ningum esperava tornar a ver-me, muito menos com Ranec. Nezzie no me reconheceu 
sequer, mas minha irmzinha era apenas uma menina quando parti. Ela e Talut tinham completado seu matrimnio e criavam o Acampamento do Leo com Tulie e seus dois 
companheiros, e seus filhos. Convidaram-me a reunir-me a eles. Nezzie adotou Ranec, embora ele ainda seja o filho da minha fogueira, e cuidou dele como se fosse 
dela, mesmo depois do nascimento de Danug.
     Quando ele se calou, foi preciso um instante para compreender que tinha terminado. Todos queriam ouvir mais. Embora a maioria tivesse ouvido a maior parte de 
suas aventuras, ele sempre parecia ter histrias novas ou novas verses para antigas histrias.
     - Acho que Nezzie seria a me de todos, se pudesse - disse Tulie, recordando a poca de sua volta. - Eu amamentava Deegie, ento, e Nezzie nunca se cansava 
de brincar com ela.
     - Ela faz mais do que ser minha me! - exclamou Talut com um sorriso brincalho, enquanto dava tapinhas em suas ndegas grandes. Pegara outro saco de gua com 
a bebida forte e a passava depois de tomar um gole.
     - Talut! Muito bem, farei mais do que ser sua me! - Ela tentava mostrar-se zangada, mas reprimia um sorriso.
     -  uma promessa? - contra-atacou ele.
     - Sabe o que quero dizer, Talut - disse Tulie, ignorando as indiretas bastante bvias entre seu irmo e sua mulher. - Ela nem sequer renunciou a Rydag. Ele 
 to doente que seria melhor para ele.
     Ayla fitou o menino. O comentrio de Tulie o havia incomodado. As palavras da mulher no foram intencionalmente maldosas, mas Ayla sabia que ele no gostava 
que falassem dele como se no estivesse presente. No havia nada, contudo, que ele pudesse fazer a respeito. Ele no podia dizer a ela como se sentia e, sem pensar, 
ela imaginava que porque ele no podia falar no sentia tampouco.
     Ayla quis perguntar sobre a criana tambm, mas achou que poderia parecer presuno.
     Jondalar o fez em seu lugar, embora fosse para satisfazer sua prpria curiosidade.
     - Nezzie, quer nos contar sobre Rydag? Acho que Ayla estaria particularmente interessada... E eu tambm.
     Nezzie inclinou-se para frente e pegou a criana de Latie, e segurou-a no colo enquanto punha os pensamentos em ordem.
     - Sabe, estvamos fora, atrs de megceros, os veados gigantes com grandes galhadas  comearam, ela -, e planejvamos construir uma cerca para lev-los para 
dentro... Este  o melhor meio para caar os veados de grandes galhadas. Quando notei primeiro a mulher escondida perto de nosso acampamento de caa, achei estranho. 
Raras vezes se vem mulheres cabeas-chatas muito, menos sozinhas.
     Ayla se inclinou para mais perto, ouvindo atentamente.
     - Ela sequer fugiu quando me viu olhando-a, somente quando tentei aproximar-me mais. Ento, vi que estava grvida. Pensei que talvez tivesse fome e deixei alimento 
prximo ao local onde se encontrava escondida. De manh, o alimento tinha desaparecido e deixei mais, antes de desarmarmos o acampamento. Pensei t-la visto algumas 
vezes no dia seguinte, mas eu no estava segura. Ento, naquela noite, quando eu estava perto do fogo acalentando Rugie, tornei a v-la. Levantei-me e tentei me 
aproximar mais dela. Ela tornou a fugir, mas movia-se como se sentisse dor e compreendi que ia dar  luz. Eu no sabia o que fazer. Queria ajudar, mas ela continuou 
fugindo, e escurecia. Contei a Talut e ele reuniu algumas pessoas para irem atrs dela.
     - Isso tambm foi estranho - disse Talut, ajuntando sua parte  histria de Nezzie. - Achei que teramos que cerc-la e armar-lhe uma cilada, mas quando lhe 
gritei para parar, ela apenas se sentou ao solo e esperou. No me pareceu amedrontada demais e, quando lhe acenei para se acercar, levantou-se imediatamente e seguiu 
atrs de mim, como se soubesse o que fazer e compreendesse que eu no iria machuc-la.
     - No sei como ela conseguia andar - continuou Nezzie. - Sentia muita dor.
     Compreendeu depressa que eu queria ajud-la, mas no sei quanto auxlio prestei. Eu nem mesmo sabia, com certeza, se ela viveria para dar  luz seu beb. Ela 
nunca gritou, no entanto. Por fim, na manh seguinte, seu filho nasceu. Fiquei surpresa ao ver que era de espritos mistos. Mesmo to novo, podia-se dizer que era 
diferente.
     A mulher estava to fraca que pensei que talvez a encorajasse a viver, se lhe mostrasse que seu filho vivia, e ela pareceu ansiosa para v-lo. Mas acho que 
ela estava muito doente, perdera sangue demais e morreu antes de o sol nascer.
     Todos me disseram para deixar o beb morrer com sua me, mas de qualquer maneira eu amamentava Rugie e tinha muito leite. No foi tanto trabalho dar-lhe o 
meu peito tambm.
     Ela o abraou protetora: Sei que  fraco, talvez eu devesse t-lo abandonado, mas no poderia amar mais Rydag se fosse meu prprio filho. E no lamento t-lo 
protegido.
     Rydag ergueu a cabea para Nezzie com os grandes olhos castanhos brilhando, depois colocou os braos ao redor do pescoo da mulher e recostou a cabea a seu 
seio. Nezzie o ninou enquanto o segurava.
     - Algumas pessoas dizem que ele  um animal porque  incapaz de falar, mas sei que ele compreende. E no  tampouco uma abominao - acrescentou ela com uma 
expresso encolerizada dirigida a Frebec. - Somente a Me sabe por que os espritos que o fizeram eram mistos.
     Ayla lutava para conter as lgrimas. Ignorava como aquelas pessoas reagiriam s lgrimas; seus olhos midos sempre incomodaram a gente do Cl. Observando a 
criana e a mulher, foi dominada por lembranas. Ansiava por segurar seu filho, e entristecia-se mais uma vez por Iza, que a acolhera e criara, embora ela fosse 
diferente do Cl, como Rydag era do Acampamento do Leo. Porm, mais que tudo, desejava que existisse alguma maneira de explicar a Nezzie como estava comovida, como 
era grata em nome de Rydag... E em seu nome. Inexplicavelmente, Ayla sentia que de algum modo ajudaria a retribuir o que Iza fizera, se ela encontrasse uma maneira 
de auxiliar Nezzie.
     - Nezzie, ele sabe - falou Ayla, suavemente. - No  um animal, no  cabea-chata.  um filho de Cl e filho dos Outros.
     - Sei que ele no  um animal, Ayla - disse Nezzie -, mas o que  Cl?
     - Pessoas, como a me de Rydag. Vocs dizem cabea-chata, eles dizem Cl - explicou Ayla.
     - O que significa eles dizem Cl? No podem falar  interrompeu Tulie.
     - No falam muitas palavras, mas falam. Falam com as mos.
     - Como sabe? - perguntou Frebec. - O que a faz to sagaz?
     Jondalar respirou fundo e prendeu a respirao em seguida, esperando pela resposta de Ayla.
     - Vivi com o Cl antes. Eu falava como o Cl. No com palavras, at Jondalar aparecer - disse Ayla. - O Cl era meu povo.
     Houve um silncio aturdido quando o significado de suas palavras se tornou claro.
     - Quer dizer que viveu com cabeas-chatas! Viveu com aqueles animais sujos! - exclamou Frebec com nojo, levantando-se de um salto e recuando. - No  de admirar 
que ela no seja capaz de falar direito. Se ela viveu com eles  to m quanto eles. Nada seno animais, todos eles, inclusive a sua perverso mista, Nezzie.
     O acampamento ficou tumultuado. Mesmo se alguns concordassem com ele, Frebec havia ido longe demais. Ultrapassara os limites da cortesia com os visitantes e 
chegara at a insultar  companheira do chefe. Mas havia muito tempo que ele se sentia constrangido por pertencer ao acampamento que acolhera a abominao de espritos 
mistos, e ainda se irritava diante da me de Fralie, no round mais recente de sua luta de longa durao. Queria jogar sua impacincia sobre algum.
     Talut bradou em defesa de Nezzie e Ayla. Tulie foi rpida na defesa de honra do acampamento. Crozie, sorrindo com malcia, alternadamente reprovava Frebec e 
intimidava Fralie, e os Outros expressavam sua opinio em voz alta. Ayla olhava de um para o outro, querendo colocar as mos sobre os ouvidos para abafar o barulho.
     De repente, Talut gritou ordenando silncio. Foi um brado bastante forte para surpreender e silenciar a todos. Ento, ouviu-se o tambor de Mamut. Tinha um efeito 
calmante, tranqilizador.
     - Acho que antes de mais algum dizer alguma coisa, devemos ouvir o que Ayla tem a dizer - falou Talut, enquanto o tambor se calava.
     As pessoas se inclinaram para frente, atentas, muito desejosas de ouvir para saber sobre a mulher misteriosa. Ayla no estava muito segura de querer dizer mais 
alguma coisa s pessoas ruidosas, rudes, mas sentiu que no tinha escolha. Ento, erguendo um pouco o queixo, achou que, se queriam ouvir, ela lhes contaria, mas 
partiria de manh cedo.
     - Eu no... No lembro da infncia - comeou Ayla -, somente do terremoto e da caverna do leo que fez cicatrizes em minha perna. Iza disse que me encontrou 
perto do rio... Como  a palavra, Mamut? No acordada?
     - Inconsciente.
     - Iza me encontrou perto do rio, inconsciente. Tinha quase a idade de Rydag, pouco menos. Talvez cinco anos. Minha perna estava ferida pela garra do leo da 
caverna. Iza era... Curandeira. Curou minha perna. Creb... Creb era Mog-ur... Como Mamut... Homem santo... Conhecia o mundo espiritual. Creb me ensinou a falar do 
jeito do Cl. Iza e Creb... Todo o Cl... Cuidaram de mim. No sou do Cl, mas cuidaram de mim.
     Ayla se esforava para lembrar-se de tudo que Jondalar lhe dissera sobre sua lngua. No gostara do comentrio de Frebec de que ela no era capaz de falar direito, 
e tampouco do resto que ele havia dito. Lanou um olhar a Jondalar. Sua testa estava franzida. Ele queria que ela tomasse cuidado com alguma coisa. Ela no estava 
inteiramente certa sobre a razo da preocupao dele, mas talvez no fosse necessrio mencionar tudo.
     - Cresci com o Cl... Mas parti para encontrar os Outros, como eu. Eu tinha... - Calou-se para pensar na palavra correta. - Quatorze anos ento. Iza me disse 
que os Outros viviam ao norte. Procurei muito tempo, no encontrei ningum. Ento, encontrei o vale e fiquei para me preparar para o inverno. Matei cavalo para ter 
carne, depois vi pequeno cavalo, seu filhote. No tenho famlia, o cavalinho  como beb, eu cuidei dele. Mais tarde, encontrei um filhote de leo ferido. Cuidei 
do leozinho tambm, mas ele cresceu, foi embora encontrar companheira. Vivi anos, sozinha no vale. Ento, Jondalar chegou.
     Ayla se calou ento. Ningum falou. Sua explicao, narrada com tanta simplicidade, sem ornatos, s podia ser verdadeira, embora difcil de acreditar. Formulava 
mais perguntas do que dava respostas. Podia ela, realmente, ter sido acolhida e criada pelos cabeas-chatas? Eles falavam, realmente, ou ao menos se comunicavam? 
Poderiam eles ser to bondosos, to humanos? E ela? Se fora criada por eles, era humana?
     No silncio que se seguiu, Ayla observou Nezzie e seu menino, e depois se lembrou de um incidente no incio de sua vida com o Cl. Creb lhe ensinara a se comunicar 
com sinais manuais, mas havia um gesto que ela aprendera sozinha. Era um sinal feito muitas vezes a bebs, e sempre usado pelas crianas para as mulheres que tomavam 
conta delas, e ela recordou como Iza se sentira quando ela fizera o sinal pela primeira vez.
     Ayla se inclinou para frente e disse a Rydag:
     - Quero lhe mostrar palavra. Palavra que diz com as mos.
     Ele endireitou o corpo, os olhos revelando interesse e excitao. Ele havia compreendido, como sempre acontecia, toda palavra dita, e a conversa sobre sinais 
manuais causara vaga agitao em seu ntimo. Com todos observando ela fez um gesto, um movimento proposital com as mos. Ele fez uma tentativa de imit-la, franziu 
a testa com curiosidade.
     Ento, de repente, a compreenso o alcanou de algum local profundamente enterrado, e se revelou em seu rosto. Ele se corrigiu enquanto Ayla sorria, e sacudia 
a cabea afirmativamente. Ento, ele se voltou para Nezzie e repetiu o gesto. Ela olhou para Ayla.
     - Ele diz me para voc - explicou Ayla.
     - Me? - repetiu Nezzie, depois fechou os olhos, pestanejando para conter as lgrimas, enquanto abraava a criana que criara desde o nascimento. - Talut! Viu 
isso? Rydag acabou de me chamar de me. Nunca pensei que veria o dia em que Rydag me chamaria de me.
     O humor do acampamento suavizou-se. Ningum sabia o que dizer ou o que pensar. Quem eram os estranhos que apareceram, de repente, em seu meio? Era mais fcil 
acreditar no homem que afirmava vir de um local distante, a oeste, do que na mulher que dizia ter vivido durante trs anos num vale prximo e, ainda mais surpreendente, 
com um bando de cabeas-chatas antes. A histria da mulher ameaava uma inteira estrutura de crenas confortadoras, no entanto era difcil duvidar-se dela.
     Nezzie carregara Rydag para a cama com lgrimas nos olhos, depois que ele fizera o gesto de sua primeira palavra silenciosa. Todos encararam isso como sinal 
de que a narrativa de histrias terminara e se dirigiram s suas fogueiras. Ayla aproveitou a chance para escapulir. Puxando sua parka, uma tnica de pele com capuz, 
sobre a cabea, saiu.
     Whinney a reconheceu e relinchou suavemente. Tateando seu caminho no escuro, guiando-se pelo bufo e resflego da gua, Ayla encontrou o animal.
     - Est tudo bem, Whinney? Est confortvel? E Racer? Provavelmente, no mais do que eu - disse Ayla, com pensamentos, tanto quanto com a linguagem particular 
que usava quando se encontrava com os cavalos. Whinney sacudiu a cabea, empinando delicadamente, depois descansou a cabea no ombro da mulher, enquanto Ayla envolvia 
o pescoo peludo da gua com os braos e repousava a testa contra o animal que havia sido sua nica companhia durante tanto tempo. Racer se acercou e todos trs 
ficaram juntos, encostados um ao outro por um momento de intervalo de todas as experincias incomuns do dia.
     Depois de Ayla assegurar-se de que os animais estavam bem, desceu para a margem do rio.
     Era bom sair do abrigo, ficar longe das pessoas. Respirou fundo. O ar da noite era frio e seco. Fascas estalavam atravs do seu cabelo quando empurrou para 
trs o capuz revestido de pele, esticou o pescoo e ergueu a cabea.
     A lua nova evitando o grande companheiro que a mantinha acorrentada, havia voltado o olho brilhante para as profundezas distantes, cujas luzes giratrias atormentavam 
com promessas de liberdade ilimitada, mas ofereciam apenas vazio csmico. Altas nuvens finas escondiam as estrelas mais fracas, mas apenas velavam as mais determinadas, 
com aurolas cintilantes, e faziam o enfarruscado cu negro parecer mais prximo e agradvel.
     Ayla estava em um turbilho, emoes conflitantes abatiam-na. Estes eram os Outros que ela havia procurado. A raa da qual nascera. Teria crescido com pessoas 
como aquelas, satisfeita,  vontade, se no fosse o terremoto. Em vez disso, fora criada pelo Cl.
     Conhecia os costumes do Cl, mas os hbitos de seu prprio povo lhe eram estranhos. No entanto, se no fosse o Cl, ela no teria crescido, de modo algum. No 
podia voltar para eles, mas tampouco sentia que pertencia quele lugar.
     Aquelas pessoas eram muito ruidosas e desordenadas. Iza teria dito que no tinham educao. Como aquele homem, Frebec, falando fora de sua vez, sem pedir permisso, 
e depois todos gritando e falando ao mesmo tempo. Ela achava que Talut era um lder, mas mesmo ele tivera que gritar para se fazer ouvir. Brun jamais teria que gritar. 
A nica vez em que ela o ouvira berrar foi para avisar algum sobre um perigo iminente. Todos no Cl conservavam o lder em um certo nvel de percepo. Brun tinha 
apenas que fazer um sinal e, em segundos, tinha a ateno de todos.
     Ela tambm no gostava da maneira como aquelas pessoas falavam do Cl, chamando-os de cabeas-chatas e animais. Ser que ningum via que tambm eram pessoas? 
Um pouco diferentes, talvez, mas gente, do mesmo modo. Nezzie sabia disso. Apesar do que o resto dissera, ela sabia que a me de Rydag era uma mulher, e o filho 
que tivera, apenas um beb.
     Ele  misto, contudo, como o meu filho, pensou Ayla, e como a menina de Oda na Reunio de Cls. Como a me de Rydag pudera ter um filho de espritos mistos, 
como aquele?
     Espritos! Ser que so mesmo os espritos que fazem bebs? Ser que o esprito do totem de um homem vence o da mulher e faz um beb crescer dentro dela, como 
pensa o Cl? Ser que a Grande Me escolhe e combina os espritos de um homem e uma mulher e ento os coloca dentro de uma mulher, como acreditam Jondalar e estas 
pessoas?
     Por que ser que sou a nica a pensar que  um homem, no um esprito, que inicia um processo de gestao de um beb dentro de uma mulher? Um homem, que o faz 
com seu rgo... Sua virilidade, diz Jondalar. Por que outro motivo os homens e as mulheres se uniriam como o fazem?
     Quando Iza me contou sobre o remdio, disse que ele fortalecia seu totem e foi isso que a impediu de ter um beb por tantos anos. Talvez sim, mas no tomei 
o remdio quando vivia sozinha, e beb nenhum comeou a crescer por si mesmo. Foi somente depois que Jondalar veio, que pensei em procurar aquela planta de fibra 
dourada e razes de salva, novamente...
     Depois que Jondalar me mostrou que no tinha que doer... Depois que me mostrou como podia ser maravilhoso um homem e uma mulher juntos...
     Pergunto-me o que aconteceria se eu parasse de tomar o remdio secreto de Iza. Teria eu um beb? Teria um beb de Jondalar? Se ele pusesse sua virilidade l, 
de onde os bebs vm?
     O pensamento trouxe uma onda de calor ao seu rosto e um formigamento aos seus seios.  tarde demais hoje, pensou ela, eu j tomei o remdio esta manh, mas 
e se eu fizer um ch comum amanh? O beb de Jondalar poderia comear a crescer? No teramos que esperar, contudo. Podamos tentar esta noite...
     Ela sorriu consigo mesma. Voc quer apenas que ele toque em voc e ponha sua boca sobre a sua e... Estremeceu com ansiedade, fechando os olhos para deixar seu 
corpo recordar como Jondalar podia faz-lo sentir.
     - Ayla? - clamou uma voz.
     Ela saltou ao ouvir o som. No ouvira Jondalar se aproximar, e o tom que ele usara no estava de acordo com a maneira como ela se sentia. Dissipou o ardor. 
Alguma coisa o aborrecia. Algo o incomodava desde que chegaram; ela gostaria de descobrir o que era.
     - Sim.
     - O que est fazendo aqui fora? - falou ele, bruscamente. O que ela estivera fazendo?
     - Estou sentindo a noite, e respirando e pensando em voc - respondeu ela, explicando o melhor possvel.
     No era a resposta que Jondalar esperava, embora no estivesse seguro da resposta que esperava. Ele andara lutando contra uma sensao dura de clera e ansiedade, 
que fizera seu estmago revolver-se desde que o homem de pele escura aparecera. Ayla parecia ach-lo muito interessante e Ranec estava sempre olhando para ela. Jondalar 
havia tentado engolir sua raiva e convencer-se de que era tolice pensar que havia alguma coisa mais sria.
     Ela precisava de outros amigos. S porque ele foi o primeiro, no significava que era o nico homem que ela poderia querer conhecer.
     No entanto, quando Ayla perguntou a Ranec sobre seu passado, Jondalar se sentiu corar de raiva ardente e estremecer de frio terror ao mesmo tempo. Por que ela 
queria saber mais sobre o fascinante desconhecido, se no estava interessada? O homem alto resistiu ao desejo de lev-la para longe, e ficou aborrecido por ter este 
sentimento. Tinha o direito de escolher seus amigos, e eles eram apenas amigos. Tinham somente se olhado e falado um com o outro.
     Quando saiu sozinha, Jondalar, vendo os olhos escuros de Ranec segui-la, colocou rapidamente sua parka e foi atrs dela. Ele a viu de p ao lado do rio e, por 
uma razo que no pde explicar, teve certeza de que ela pensava em Ranec. A resposta de Ayla o pegou de surpresa a princpio, depois ele relaxou e sorriu.
     - Eu devia saber que, se perguntasse, teria uma resposta completa e honesta. Respirando e sentindo a noite - voc  maravilhosa, Ayla.
     Ela lhe devolveu o sorriso. No estava certa do que havia feito, mas alguma coisa o fizera sorrir e recolocara a felicidade de volta em sua voz. O afeto que 
ela estivera sentindo reapareceu, e ela se moveu para ele. Mesmo na escurido da noite, com o brilho das estrelas quase insuficiente para revelar um rosto, Jondalar 
sentiu o estado de esprito da jovem pela forma como ela se moveu e respondeu na mesma moeda. No instante seguinte ela estava nos braos dele, com a boca de Jondalar 
sobre a sua e todas as suas dvidas e preocupaes abandonaram-lhe a mente. Ela iria para qualquer lugar, viveria com qualquer povo, aprenderia qualquer costume 
estranho, contanto que tivesse Jondalar.
     Um instante depois, ela levantou a cabea para ele.
     - Recorda quando lhe perguntei qual era o seu sinal? Como eu faria quando quisesse que voc me tocasse, e quisesse sua virilidade em mim?
     - Sim, lembro - disse ele, com um sorriso torto.
     - Voc disse para beijar, ou apenas pedir. Estou pedindo. Pode aprontar sua virilidade?
     Ela estava to sria, e to ingnua e to atraente que ele inclinou a cabea para tornar a beij-la, e conservou-a to perto de si, que ela quase podia ver 
o azul de seus olhos e o amor neles.
     - Ayla, minha mulher bonita, engraada - disse ele. - Sabe quanto amo voc?
     Mas, enquanto a abraava, sentiu um lampejo de culpa. Se a amava tanto, por que se sentia embaraado com as coisas que ela fazia? Quando Frebec se afastara 
dela com nojo, desejara morrer de vergonha por t-la trazido, por ter-se ligado a ela. Pouco depois, ele se odiara por isso. Ele a amava. Como podia se envergonhar 
da mulher que amava?
     Ranec, o homem escuro, no sentia vergonha. A forma como olhava para ela, com os dentes brancos brilhando e os olhos escuros cintilantes, rindo, adulando, provocando; 
quando Jondalar pensava nisso, tinha que lutar contra o impulso de atacar o homem.
     Sempre que pensava a respeito, tinha que combater o desejo novamente. Amava-a tanto que no supor tava o pensamento de que ela pudesse querer outro homem, talvez 
algum que no ficasse constrangido por causa dela. Ele a amava mais do que julgara possvel amar algum. Mas como podia se envergonhar da mulher que amava?
     Jondalar tornou a beij-la, com mais fora, apertando-a tanto que doa, depois com um ardor quase frentico, beijou-lhe a garganta e pescoo.
     - Sabe o que significa ter certeza, afinal, de que voc  capaz de se apaixonar? Ayla, no sente o quanto amo voc?
     Ele estava to srio, to ardente, que ela sentiu uma pontada de medo, no por ela, mas por ele. Ela o amava, mais do que jamais poderia se expressar em palavras, 
mas este amor que ele sentia por ela no era exatamente o mesmo. No era to mais forte, quanto mais exigente, mais insistente. Como se ele temesse perder aquilo 
que afinal ganhara. Os totens, especialmente os totens fortes, tinham uma maneira de conhecer e testar esses temores. Ela queria encontrar um meio de desviar aquele 
derramamento de emoo poderosa.
     - Posso sentir quanto voc est pronto - disse ela com um sorriso curto.
     Mas ele no respondeu com um humor mais afvel, como ela esperara. Em vez disso beijou-a ferozmente, esmagando-a at ela imaginar que suas costelas se partiriam. 
Ento, ele tateou sob a parka de Ayla, embaixo de sua tnica, alcanando-lhe os seios, tentando desatar as tiras de amarrar das calas da mulher.
     Ela jamais o vira assim, necessitado, ansioso, implorando em sua pressa. Em geral, sua maneira era mais terna, mais atenciosa em relao s necessidades dela. 
Ele conhecia-lhe o corpo melhor que ela mesma e deleitava-se com o seu conhecimento e habilidade. Mas desta vez suas necessidades eram mais fortes. Reconhecendo 
o momento por aquilo que era, ela cedeu, e se perdeu na expresso poderosa do amor do homem. Ela estava to pronta para ele quanto ele para ela. Ela desatou a tira 
e deixou suas calas carem, depois ajudou-o com as dele.
     Antes de se dar conta, ela estava sobre o solo duro prximo  margem do rio. Teve um vislumbre de estrelas levemente nebulosas antes de fechar os olhos. Ele 
estava sobre ela, a boca justo sobre a dela, a lngua estimulando, buscando, como se ele pudesse encontrar com ela o que procurava to avidamente com o membro ardente 
e ereto. Ela se abriu para ele, sua boca e coxas, depois estendeu a mo para o homem e guiou-o para suas profundezas midas, convidativas. Arquejou quando ele penetrou, 
e ouviu um lamento quase abafado, depois sentiu seu pnis mergulhar para ench-la, enquanto ela se agarrava a ele.
     Mesmo em seu frenesi, ele se encantou com a mulher maravilhosa, com o quanto eram adequados um para o outro, com o quanto s profundezas dela equivaliam ao 
tamanho dele.
     Ele sentiu-lhe as dobras clidas envolv-lo completamente e quase alcanou o auge naquele primeiro instante. Por certo tempo, lutou para controlar-se, para 
exercitar o domnio a que estava to acostumado; depois, abandonou-se. Afundou, e novamente, e mais uma vez, e ento com um estremecimento inexprimvel sentiu um 
xtase crescente e gritou o nome dela.
     - Ayla! Oh, minha Ayla, minha Ayla. Amo voc!
     - Jondalar, Jondalar, Jondalar...
     Ele terminou alguns ltimos movimentos, depois enterrou o rosto em seu pescoo com um gemido e segurou-a enquanto permanecia imvel, exaurido. Ela sentiu uma 
pedra espetando-lhe as costas, mas ignorou-a.
     Um pouco depois ele se ergueu e olhou-a com a testa enrugada de preocupao.
     - Sinto muito - falou.
     - Por qu?
     - Foi rpido demais, e no fiz voc ficar pronta, no lhe dei prazer tambm.
     - Eu estava pronta, Jondalar. Tive prazer. No lhe pedi? Tenho prazer no seu prazer. Tenho prazer em seu amor, em seu forte sentimento por mim.
     - Mas no sentiu o momento como eu senti.
     - No foi preciso, tive sensao diferente, prazer diferente.  sempre necessrio? - interrogou ela. 
     - No, suponho que no  retrucou, ele, a testa franzida. Depois a beijou, demorando-se.
     - E esta noite no acabou ainda. Venha, levante-se. Est frio aqui fora. Vamos encontrar uma cama quente. Deegie e Branag j fecharam suas cortinas. Estaro 
separados at o prximo vero, e esto ansiosos.
     Ayla sorriu.
     - Mas no to ansiosos quanto voc estava. - No pde ver, mas achou que ele corava.
     - Amo voc, Jondalar. Tudo. Tudo o que faz. At sua vida... - Balanou a cabea. - No, no est certo, a palavra est errada.
     - A palavra que quer  avidez, eu acho.
     - Amo at sua avidez. Sim,  verdade. Ao menos, sei suas palavras melhor que Mamutoi. 
     - Fez uma pausa. - Frebec disse que eu no falava correto, Jondalar. Ser que aprenderei, um dia, a falar certo?
     - Eu, tampouco, falo Mamutoi muito bem. No  a lngua com que fui criado. Frebec apenas gosta de causar encrenca - disse Jondalar, ajudando-a a levantar-se. 
- Por que toda caverna, todo acampamento, todo grupo tem um encrenqueiro? No d ateno a ele, ningum mais d. Voc fala muito bem. Estou surpreso com a forma 
como aprende lnguas. Dentro de pouco tempo falar Mamutoi melhor do que eu.
     - Tenho que aprender como falar com palavras. No tenho mais nada agora - disse ela suavemente. - No conheo ningum que fale a linguagem com que cresci. No 
mais. - Fechou os olhos um instante, enquanto uma sensao de triste vazio a dominava.
     Ela sacudiu os ombros para afast-la e comeou a vestir as calas e ento parou.
     - Espere - disse ela, tirando-as novamente. - H muito tempo, quando fiquei mulher pela primeira vez, Iza me contou tudo o que uma mulher do Cl devia saber 
sobre homens e mulheres, embora duvidasse de que eu encontrasse um companheiro, algum dia, e necessitasse saber. Os Outros talvez no acreditem nisso, at os sinais 
entre homens e mulheres no so os mesmos, mas na primeira noite que durmo num local dos Outros, acho que deveria fazer uma limpeza depois de nossos prazeres.
     - O que quer dizer?
     - Vou me lavar no rio.
     - Ayla! Est frio. Est escuro. Pode ser perigoso.
     - No irei longe, s aqui na margem - disse ela, tirando a parka e puxando a tnica pela cabea.
     A gua estava fria. Jondalar a observava da margem, e se molhou o suficiente para saber como a gua estava fria. O sentimento de Ayla pela cerimnia da ocasio 
o fez pensar nos rituais de purificao dos Primeiros Ritos, e resolveu que uma limpeza no lhe faria mal, tampouco. Ela tremia quando saiu. Ele a segurou em seus 
braos para aquec-la. A pele de biso felpuda da parka dele a secou, e ele a ajudou a vestir sua tnica e parka, depois.
     Ela se sentia viva, animada e fresca quando caminharam de volta  habitao de terra. A maioria das pessoas se acomodava para dormir quando eles entraram. As
fogueiras estavam abafadas e as vozes, baixas. A primeira fogueira se encontrava vazia, embora o assado de mamute ainda se encontrasse em evidncia. Quando se dirigiram
em silncio pela passagem atravs da Fogueira do Leo, Nezzie se levantou e os deteve.
     - Eu queria apenas lhe agradecer, Ayla - disse ela, olhando para uma das camas ao longo da parede.
     Ayla acompanhou-lhe os olhos e viu trs pequenas formas esparramadas num grande leito. Latie e Rugie dividiam a cama com Rydag. Danug, com o corpo, espalhado
em seu sono ocupava outra cama, e Talut, estendido ao comprido, apoiado em um cotovelo, esperava por Nezzie e sorriu para ela de uma terceira cama. Ela sacudiu a 
cabea afirmativamente e sorriu tambm, insegura sobre qual era a resposta correta.
     Caminharam para a prxima fogueira, enquanto Nezzie rastejava para o lado do gigante de cabelo ruivo, e tentaram atravessar silenciosamente para no perturbar 
ningum. Ayla sentiu algum os observando e olhou em direo  parede. Dois olhos brilhantes e um sorriso os, fixavam do recesso escuro. Ela sentiu os ombros de 
Jondalar enrijecerem e desviou o olhar depressa. Pensou ter ouvido uma risadinha baixa, depois achou que deviam ser os roncos vindos da cama ao longo da parede oposta.
     Na grande quarta fogueira, uma das camas estava escondida por uma cortina pesada de couro, isolando o espao do corredor, embora se pudessem detectar sons e 
movimentos l dentro. Ayla notou que a maioria das outras camas na habitao comunal possua cortinas similares, presas a suportes de osso de mamute no alto, ou 
a estacas de um lado a outro, embora nem todas estivessem fechadas. A cama de Mamut, na parede lateral oposta  deles, estava aberta. Ele estava deitado, mas ela 
notou que ele no dormia.
     Jondalar acendeu um pau numa brasa da fogueira e, protegendo-o com a mo, carregou-o at a parede perto da cabeceira de seu estrado de dormir. L, em um nicho, 
uma pedra espessa, achatada, na qual fora feita uma cavidade com a forma de um pires, estava cheia de gordura at a metade. Ele acendeu um pavio de lanugem de tifa 
torcido, iluminando uma pequena figura da Me atrs do lampio de pedra. Ento, desatou as correias que sustentavam a cortina ao redor da cama deles e, quando a 
cortina desceu, moveu-se at Ayla.
     Ela se esgueirou e subiu ao estrado com uma pilha alta de peles macias. Sentada no meio, isolada pela cortina e iluminada pela suave luz trmula, ela se sentiu 
escondida e segura.
     Era um pequenino recinto todo deles. Lembrou-se da pequena caverna que encontrara quando menina, onde costumava ir quando desejava ficar sozinha.
     - So muito inteligentes, Jondalar. Eu no teria pensado nisto.
     Jondalar se estendeu ao seu lado, satisfeito com a alegria dela. 
     - Gosta da cortina fechada?
     - Oh, sim! Faz a gente se sentir sozinha, mesmo sabendo que as pessoas esto por perto. Sim, gosto. - O sorriso era radiante.
     Ele a puxou para si e beijou-a de leve.
     -  to bonita quando sorri... Ayla.
     Ela olhou para o rosto dele inundado de amor, para os olhos irresistveis, cor de violeta  luz do fogo, em vez do usual azul vivo; para o comprido cabelo louro 
desalinhado sobre as peles para o queixo determinado e testa alta, to diferente do maxilar sem queixo e da testa fugidia dos homens do Cl.
     - Por que corta sua barba? - perguntou ela, tocando-lhe os plos do queixo.
     - No sei.  hbito, acho. No vero,  mais fresco, no coa tanto. Em geral, deixo a barba crescer no inverno. Ajuda a manter o rosto quente quando estou fora. 
No gosta que eu a corte?
     Ela franziu a testa, confusa.
     - No sou eu que devo dizer. A barba  de um homem,  ele quem deve cort-la ou no, como lhe agradar. Perguntei apenas porque nunca tinha visto um homem que 
cortava a barba, que nem voc faz. Por que pergunta se gosto ou no de barba?
     - Pergunto porque quero agrad-la. Se gostar de barba, deixarei a minha crescer.
     - No importa. Sua barba no  importante. Voc  importante. Voc me d praz... No. - Sacudiu a cabea, zangada. - Voc me d praz. Prazeres... Voc me d 
prazer - corrigiu-se.
     Ele sorriu diante do esforo dela, e disse:
     - Gostaria de lhe dar prazeres - puxou-a para si, de novo, e beijou-a. Ela se aconchegou a ele, deitada de lado. Ele rolou, depois se sentou e abaixou os olhos 
para ela.
     - Como a primeira vez  disse, ele. - H at uma donii observando-nos. - Fitou o nicho com a escultura de marfim iluminada pelo fogo da figura maternal.
     -  a primeira vez... Em um local dos Outros - falou ela, fechando os olhos, sentindo tanto a expectativa quanto a solenidade do momento.
     Ele colocou a mo em concha no rosto dela e beijou-lhe as plpebras, depois fitou com ardor a mulher que achava mais bonita que qualquer outra que conhecera. 
     Havia um atributo extico nela. Suas mas do rosto eram mais altas do que as das mulheres dos Zelandonii, seus olhos mais amplamente espaados. Eram emoldurados 
por pestanas espessas, mais escuras que o cabelo farto, que era dourado como o capim outonal.
     Seu maxilar era firme, o queixo levemente pontudo.
     Tinha ela uma pequena cicatriz reta na cavidade na altura da garganta.
     Ele beijou a cicatriz, e sentiu-a estremecer de prazer. Ele tornou a erguer-se e a examinou outra vez, depois lhe beijou a ponta do nariz reto, bonito, e o 
canto da boca carnuda onde se levantava a insinuao de um sorriso.
     Ele podia sentir a tenso dela. Como um beija-flor, imvel, mas cheio de tremores de excitao, que ele no podia ver, mas sentir, ela mantinha os olhos fechados, 
jazendo imvel e obrigando-se a esperar. Ele a observou, deleitando-se com o momento, depois lhe beijou a boca, abriu a dele e procurou entrar com a lngua. Sentiu 
que ela a acolhia. Nenhuma estocada desta vez, apenas uma busca gentil e depois a aceitao dela.
     Ele se sentou, viu-a abrir os olhos e sorrir-lhe. Tirou a tnica e ajudou-a a despir a sua. Levando-a deitar-se com calma, inclinou-se sobre ela e tomou um 
mamilo, endurecido com a boca, sugando-o. Ela arquejou quando o choque excitante a atravessou. Sentiu um clido e mido torpor entre as pernas, e perguntou-se por 
que a boca de Jondalar em seu mamilo a fazia ter sensaes onde ele ainda nem sequer tocara.
     Ele acariciou e mordiscou levemente, at ela se mover para ele, e sugou com nsia. Ela gemeu de prazer. Ele procurou o outro seio, acariciou seu bico trgido 
e totalmente redondo. Ela j respirava entrecortadamente. Ele soltou o seio e comeou a beijar-lhe o pescoo e garganta, encontrou sua orelha e mordiscou um lbulo, 
depois soprou nele, acariciando-lhe braos e seios com as duas mos. Estremecimentos tomaram conta de Ayla.
     Ele lhe beijou a boca, depois correu a lngua clida lentamente pelo queixo at a altura da garganta, entre os seios e desceu at o umbigo. Sua virilidade havia 
enrijecido de novo, e investia insistentemente contra as restries do fechamento com o cinto. Primeiro, ele abriu o cinto e tirou as calas compridas, depois, comeando 
no umbigo da mulher, continuou na direo que seguia. Sentiu plo macio, e depois sua lngua encontrou o alto da fenda clida.
     Ele a sentiu pular quando alcanou a salincia pequena dura. Quando ele parou, ela soltou um pequeno grito de desalento.
     Ento, ele desatou sua prpria tira de couro e libertou o membro enquanto despia as calas.
     Ayla se sentou e tomou-o na mo, deixando-o escorregar para frente e para trs em toda a sua extenso, sentindo a pele quente e lisa, o volume rijo. Ele estava 
contente por seu tamanho no assust-la, como havia acontecido com tantas mulheres quando o viram pela primeira vez; com Ayla, nem sequer da primeira. Ela se inclinou 
para ele, e Jondalar sentiu a boca generosa envolv-lo. Teve vontade de avanar enquanto ela se movia para cima e para baixo, e ele ficou feliz por j ter satisfeito 
sua necessidade mais forte, ou talvez no conseguisse se controlar agora.
     - Ayla, desta vez, quero dar-lhe prazer - disse ele, afastando-a.
     Ela o fitou com olhos arregalados, escuros e luminosos, beijou-o e concordou com um gesto de cabea. Ele a segurou pelos ombros e empurrou-a de costas sobre 
as peles, e beijou-lhe a boca e a garganta de novo, dando a ela calafrios de prazer. Segurou-lhe os seios com as mos em concha, manteve-os juntos, e foi de um mamilo 
sensvel a outro, e entre eles. Depois, a lngua descobriu o umbigo outra vez, e cercou-o com uma espiral sempre crescente, at alcanar o plo suave de seu pbis.
     Ele se moveu entre as coxas de Ayla, abrindo-as, depois empurrou-lhe as dobras para trs com as mos e experimentou' um sabor prolongado e lento. Ela estremeceu, 
parcialmente sentada, gritou, e ele se sentiu crescer novamente. Amava lhe dar prazer, sentir a resposta de Ayla  sua habilidade.
     Era como tirar uma lmina fina de um pedao de slex. Dava-lhe uma sensao especial de alegria saber que ele fora o primeiro a dar-lhe prazer. Ela havia conhecido 
somente a fora e a dor antes de ele despertar nela a Ddiva do Prazer que a Grande Me Terra dera aos Seus filhos.
     Ele a explorou com ternura, sabendo onde jaziam suas sensaes agradveis, provocando-as com a lngua e, com as mos hbeis, alcanando-lhe o ntimo. Ela comeou 
a mover-se contra ele, gritando e sacudindo a cabea, e ele compreendeu que estava pronta. Encontrou a salincia rija, comeou a trabalh-la, enquanto a respirao 
dela se acelerava, a prpria virilidade dele, ansiosa por ela. Ento ela gritou, ele sentiu uma umidade quando ela o agarrou.
     - Jondalar... ahhh... Jondalar!
     Ela estava alm de si, alm de qualquer conhecimento exceto ele. Ela o queria, desejava sentir-lhe o membro dentro de si. Ele estava sobre ela, ela o ajudava, 
guiando-o. Ele escorregou para dentro e sentiu uma vibrao que o levou ao auge inexprimvel. Recuou e afundou de novo, profundamente; ela o abraou totalmente.
     Ele saiu e depois investiu de novo, e mais uma vez, e outra ainda. Queria retirar-se, prolongar o ato.
     Desejava que nunca terminasse e, contudo, no podia esperar. Com cada investida forte, sentia-se mais prximo do xtase. O suor brilhava em seus corpos, sob 
a luz trmula, enquanto ajustavam o ritmo, encontravam o compasso e se moviam com o passo da vida.
     Respirando com dificuldade, esforavam-se para o encontro a cada golpe, buscando, palpitando, desejo puro, pensamento total, sentimentos concentrados. Ento, 
quase inesperadamente a intensidade chegou ao auge. Em uma exploso alm dos dois, atingiram o clmax e gozaram com um espasmo de alegria. Ficaram quietos um instante, 
como se tentassem se tornar um s, e depois se afastaram.
     Permaneceram imveis, arfando. A luz piscou, enfraqueceu, inflamou-se, depois apagou. Depois de algum tempo, Jondalar rolou sobre o prprio corpo e jazeu ao 
lado dela, sentindo-se num estado crepuscular entre o sono e o despertar. Mas Ayla ainda estava bem acordada, os olhos abertos na escurido, ouvindo pela primeira 
vez, em anos, os sons das pessoas.
     O murmrio de vozes baixas de um homem e de uma mulher vinha do leito prximo e, um pouco alm, o som irritante baixo, do feiticeiro adormecido. Ela podia ouvir 
um homem roncando na fogueira seguinte e, da primeira fogueira, vinham os gritos e resmungos inconfundveis, ritmados, de Talut e Nezzie partilhando prazeres. Da 
outra direo, um bebe gritava. Algum produziu sons confortadores at o choro cessar abruptamente. Ayla sorriu. Sem dvida, um seio fora oferecido. Mais distante, 
vozes de raiva contida chegaram at ela numa exploso. Depois, silenciaram e, mais distante ainda, uma tosse seca se fez ouvir.
     As noites tinham sido sempre o pior momento durante os longos anos de Ayla no vale. De dia, encontrava alguma coisa para manter-se ocupada, mas,  noite, o 
vazio desolado de sua caverna influa fortemente. No incio, ouvindo apenas o som de sua prpria respirao, ela at tivera problema para dormir. Com o Cl, havia 
sempre algum por perto de noite - o pior castigo que podia ser infligido era algum ser isolado, separado; o ostracismo, ser evitado, a maldio da morte.
     Ela sabia muito bem que era realmente um castigo terrvel. Soube melhor ainda naquele momento.
     Deitada no escuro, ouvindo os sons de vida ao seu redor, sentindo o calor de Jondalar ao seu lado, sentiu-se em casa pela primeira vez desde que conhecera aquelas 
pessoas, a que chamava de os Outros.
     - Jondalar? - disse, suavemente.
     - Hmmmmm.
     - Est dormindo?
     - Ainda no - balbuciou ele.
     - Estas pessoas so boas. Voc tinha razo, eu precisava vir e conhec-las.
     O crebro de Jondalar se desanuviou imediatamente. Ele esperava que quando conhecesse sua raa, e esta no era mais to desconhecida, ela no tivesse tanto 
medo deles. Ele partira h muitos anos, a jornada de regresso ao lar seria demorada e difcil. Ela teria que querer ir com ele. Mas o vale de Ayla se tornara um 
lar. Oferecia-lhe tudo do que ela necessitava para sobreviver e ela construiu uma vida para si mesma ali, usando os animais como substituto para as pessoas que lhe 
faltavam. 
     Ayla no queria partir; em vez disso, desejava que Jondalar ficasse.
     - Eu sabia que voc iria pensar assim, Ayla - falou ele afetuoso persuasivo -, se conhecesse essas pessoas.
     - Nezzie me faz lembrar de Iza. Como acha que a me de Rydag ficou grvida?
     - Quem sabe por que a Me lhe deu um filho de espritos mistos? Os caminhos da Me so sempre misteriosos.
     Ayla ficou um tempo em silncio.
     - No acho que a Me deu-lhe espritos mistos. Acho que ela conheceu um homem dos Outros.
     Jondalar franziu a testa.
     - Sei que acha que os homens tm algo a ver com o incio da vida, mas como uma mulher cabea-chata poderia conhecer um homem?
     - No sei como, mas as mulheres do Cl no viajam sozinhas, e ficam longe dos Outros. Os homens no querem os Outros ao redor das mulheres. Acham que os bebs
so iniciados por um esprito do totem de um homem, e no querem que o esprito de um homem dos Outros se aproxime demais. E as mulheres temem os Outros. Sempre
h novas histrias na Reunio de Cls sobre pessoas que foram incomodadas ou feridas pelos Outros, principalmente mulheres.
     Mas a me de Rydag no tinha medo dos Outros. Nezzie disse que ela os seguiu por dois dias e veio com Talut quando ele lhe fez um sinal. Qualquer outra mulher 
do Cl teria fugido dele rapidamente. Ela devia ter conhecido um antes, e um que a tratou bem, ou ao menos no a feriu, porque no teve medo de Talut. Quando precisou 
de ajuda, o que lhe deu motivo para pensar que talvez a encontrasse nos Outros?.
     - Talvez fosse apenas porque ela viu Nezzie amamentando - sugeriu Jondalar.
     - Talvez. Mas isso no responde ao motivo por que ela estava sozinha. A nica razo em que posso pensar  que foi amaldioada e expulsa do seu Cl. As mulheres 
do Cl no so muitas vezes amaldioadas. No  de sua natureza trazer a maldio sobre si mesmas. Talvez tivesse algo a ver com um homem dos Outros...
     Ayla fez uma pausa e depois acrescentou pensativa:
     - A me de Rydag deve ter querido muito o seu beb. Precisou de muita coragem para se aproximar dos Outros, mesmo conhecendo um homem antes. Foi somente quando 
viu o beb e achou que era deformado, que desistiu. O Cl tampouco gosta de crianas mistas.
     - Como pode estar to segura de que ela conheceu um homem?
     - Ela procurou os Outros, para ter o seu beb, o que significa que no tinha Cl para ajud-la e havia algum motivo para pensar que Nezzie e Talut a ajudariam. 
Talvez ela o tenha conhecido mais tarde, mas tenho certeza de que encontrou um homem que teve prazeres com ela... Talvez s satisfazendo as necessidades dele. Ela 
teve uma criana mista, Jondalar.
     - Por que acha que  um homem que faz a vida comear?
     - Pode ver, Jondalar, se pensar sobre isso. Veja o menino que chegou hoje, Danug. Ele se parece com Talut, apenas mais jovem. Acho que Talut o comeou quando 
dividiu prazeres com Nezzie.
     - Isso significa que ela ter outro filho porque eles partilharam pra zeres esta noite?  perguntou Jondalar. - Prazeres so compartilhados muitas vezes. So 
uma Ddiva da Grande Me Terra e Ela  honrada quando eles so divididos muitas vezes. Mas as mulheres no tm filhos cada vez que partilham Sua Ddiva, Ayla, se 
um homem aprecia as Ddivas da Me, honra-a, depois Ela pode escolher, levar seu esprito para mistur-lo com a mulher que ele tem por companheira. Se o esprito 
 do homem, a criana pode parecer com ele, como Danug se parece com Talut, mas  a Me quem decide.
     Ayla franziu a testa na escurido. Era uma questo que ela no tinha analisado.
     - No sei por que uma mulher no tem filhos todas s vezes. Talvez os prazeres devam ser divididos vrias vezes, antes de um beb poder ser iniciado, ou talvez 
somente algumas vezes.
     Talvez seja apenas quando o esprito do totem de um homem  especialmente poderoso e pode, assim, vencer o da mulher, ou talvez a Me resolva, mas Ela escolhe 
o homem e torna sua virilidade mais forte. Pode dizer, com certeza, como Ela escolhe? Sabe como os espritos se misturam? No poderiam se misturar dentro da mulher 
quando eles dividem prazeres?
     - Nunca ouvi falar nisso - disse Jondalar -, mas suponho que sim.
     - Agora, ele enrugava a testa na escurido. Ficou calado por tanto tempo que Ayla pensou que ele adormecera, mas, ento, ele falou: - Ayla, se o que voc pensa 
for verdade, talvez estejamos comeando um beb dentro de voc todas as vezes que partilhamos a Ddiva da Me.
     - Sim, acho que sim - falou Ayla, encantada com a idia.
     - Ento, devemos parar! - exclamou Jondalar, sentando-se de repente.
     - Mas por qu? Quero ter um beb comeado por voc, Jondalar.
     O desalento de Ayla era evidente.
     Jondalar rolou sobre si mesmo e abraou-a.
     - Eu tambm quero, mas no agora.  uma longa jornada de volta a casa. Poderia levar um ano ou mais. Poderia ser perigoso para voc viajar tanto se estiver 
grvida.
     - No podemos apenas voltar para o meu vale, ento?
     Jondalar temia que se voltassem para o vale a fim de que ela pudesse ter o filho em segurana, jamais partissem.
     - Ayla, acho que no seria uma boa idia. Voc no deveria ficar sozinha. Eu no saberia como ajud-la, voc precisaria de mulheres por perto. Uma mulher pode 
morrer de parto - disse ele, a voz comida com angstia. Ele o tinha visto acontecer, no h muito tempo atrs.
     Era verdade, compreendeu Ayla. Ela quase morrera ao dar  luz o seu filho. Sem Iza, no teria vivido. Aquele no era o momento de ter um beb, nem mesmo um 
de Jondalar.
     - Sim, tem razo - disse ela, sentindo grande desapontamento. - Pode ser difcil... Eu... Eu... Gostaria de mulheres ao meu lado - concordou.
     Ele ficou em silncio por longo tempo, novamente.
     - Ayla - falou, a voz quase falhada com a tenso -, talvez... Talvez no devssemos dividir a mesma cama. Se... Mas, honra a Me, partilhar Sua Ddiva - explodiu.
     Como ela lhe poderia dizer, sinceramente, que no precisavam parar de dividir prazeres? Iza a havia prevenido para jamais contar a ningum, principalmente a 
um homem, sobre seu remdio secreto.
     - Acho que no deve se preocupar com isso  disse, ela. - No sei, com certeza, se  um homem que faz as crianas, e se a Grande Me resolver, pode escolher 
qualquer momento, no pode?
     - Pode, e me preocupa. Contudo, se evitarmos Sua Ddiva, talvez se zangue. Ela espera ser honrada.
     - Jondalar, se Ela resolver, estar resolvido. Se chegar o momento, podemos tomar uma deciso ento. No gostaria que voc A ofendesse.
     - Sim, Ayla, tem razo - disse ele, um pouco aliviado.
     Com uma pontada de remorso, Ayla decidiu que continuaria tomando o remdio que evitava a concepo, mas sonhou em ter filhos naquela noite, alguns com compridos 
cabelos louros e outros que se pareciam com Rydag e Durc. Era quase de manh quando teve um sonho que tinha uma dimenso diferente, sinistro e do outro mundo.
     No sonho, tinha dois filhos, irmos que ningum imaginaria que o fossem. Um era alto e louro, como Jondalar, o outro, mais velho, ela sabia que era Durc embora 
seu rosto estivesse obscuro. Os dois irmos se aproximavam um do outro, de direes opostas no meio de uma plancie deserta, desolada, castigada pelo vento. Ela 
sentiu grande ansiedade; alguma coisa terrvel ia acontecer, algo que ela devia impedir. Ento, com um choque de terror, ela soube que um dos filhos iria matar o 
outro. Quando se aproximaram mais, ela tentou alcan-los, mas uma muralha espessa, viscosa a mantinha encurralada. Eles estavam quase se alcanando, os braos erguidos 
como para uma luta. 
     Ela gritou.
     - Ayla! Ayla! O que aconteceu? - disse Jondalar, sacudindo-a.
     De repente, Mamut estava ao lado dele. -
     - Acorde, filha. Acorde! - disse ele. -  apenas um smbolo, uma mensagem. Acorde, Ayla!
     - Mas um vai morrer! - gritou ela, ainda cheia de emoo do seu sonho.
     - No  o que pensa, Ayla - falou Mamut. - Talvez no signifique que um irmo morrer. Deve aprender a procurar o verdadeiro significado em seus sonhos. Voc 
tem o Dom;  muito forte, mas falta prtica.
     A viso de Ayla desapareceu e ela viu dois semblantes preocupados olhando-a, ambos homens altos, um, jovem e atraente, o outro, velho e sbio. Jondalar segurava 
uma lenha acesa da fogueira para ajud-la a despertar. Ela se sentou e se esforou para sorrir.
     - Est bem, agora? - indagou Mamut.
     - Sim, sim. Lamento t-lo acordado - disse Ayla em Zelandonii, esquecendo que o velho no entendia essa lngua.
     - Falaremos mais tarde - disse ele sorrindo, gentilmente, e voltando para seu leito. Ayla observou a cortina da outra cama ocupada descer, quando ela e Jondalar 
se recostaram em seu estrado de dormir, e sentiu-se um pouco embaraada por ter criado tal alvoroo. Ela se aninhou ao lado de Jondalar, descansando a cabea na 
cavidade sob seu ombro, grata por seu calor e sua presena. Estava quase dormindo quando, de repente, seus olhos se abriram de novo.
     - Jondalar - sussurrou -, como Mamut soube que sonhei com meus filhos, sobre um irmo matar o outro?
     Mas ele j dormia.
     Ayla despertou sobressaltada, depois jazeu imvel e ouviu. Novamente, escutou um gemido alto. 
     Algum parecia estar sofrendo muito. Preocupada, afastou a cortina para um lado e espiou. Crozie estava de p no corredor, prxima  sexta fogueira com os braos 
abertos numa atitude de desespero, suplicando com o fim de provocar compaixo.
     - Ele me apunhalaria. Quem seria capaz de virar minha prpria filha contra mim! - gritou Crozie como se morresse, apertando as mos contra o peito. Vrias pessoas 
pararam para olhar. - Dei a ele minha prpria carne, tirada do meu corpo...
     - Deu! Voc no me deu nada! - berrou Frebec. - Paguei o seu Preo de Noiva por Fralie.
     - Foi insignificante! Eu poderia ter conseguido muito mais por ela - rebateu Crozie. Seu lamento no era mais sincero do que fora seu grito de dor. - Ela foi 
para voc com dois filhos. Prova do favor da Me. Voc diminuiu seu valor com sua ninharia. E o valor de seus filhos. E olhe para ela! Abenoada novamente. Eu a 
dei a voc por bondade, por generosidade do meu corao...
     - E porque ningum mais aceitaria Crozie, mesmo com sua filha duas vezes abenoada - disse uma voz prxima.
     Ayla se virou para ver quem falara. A jovem que usara a bonita tnica vermelha no dia anterior lhe sorriu.
     - Se planejava dormir at tarde, pode esquecer - disse Deegie. - Eles comearam cedo hoje.
     - No, vou levantar - falou Ayla. Olhou ao redor. A cama estava vazia e, exceto pelas duas mulheres, no havia ningum por perto. - Jondalar j levantou. - 
Ela encontrou suas roupas e comeou a se vestir. - Acordei, pensei que a mulher estava ferida.
     - Ningum est. Ao menos, no que algum possa ver. Mas, sinto por Fralie - disse Deegie. -  duro ficar no meio, assim.
     Ayla sacudiu a cabea.
     - Por que gritam?
     - No sei por que discutem o tempo todo. Suponho que ambos querem as boas graas de Fralie.
     Crozie est envelhecendo e no quer que Frebec destrua sua influncia, mas Frebec  teimoso. Ele no tinha muito antes, e no deseja perder sua nova posio. 
Fralie lhe trouxe um bocado de status, mesmo com seu baixo Preo de Noiva.
     A visitante estava obviamente interessada e Deegie se sentou em um estrado que servia de leito, enquanto Ayla se vestia, entusiasmando-se com o assunto.
     - No entanto, acho que ela no o poria de lado, acredito que goste dele, embora ele possa ser to maldoso, s vezes. No foi to fcil encontrar outro homem...
Um que aceitasse sua me. Todos viram como foi da primeira vez, ningum queria agentar Crozie. A velha pode gritar tudo o que quiser sobre dar a filha, mas foi 
ela quem reduziu o valor de Fralie. Eu odiaria ser puxada de dois lados, assim. No tenho sorte. Mesmo se eu fosse para um acampamento estabelecido em vez de iniciar 
um novo com meu irmo, Tulie seria bem-vinda.
     - Sua me vai com voc? - perguntou Ayla, curiosa. Ela entendia que uma mulher se mudasse para o Cl do companheiro, mas levar a me consigo era novidade para 
ela.
     - Gostaria que fosse, mas acho que no ir. Creio que prefere ficar aqui. No a culpo.  melhor ser a chefe em seu prprio acampamento do que me de uma, em 
outro. No entanto, sentirei sua falta.
     Ayla ouvia, fascinada. No compreendia metade do que Deegie dizia, e no estava certa se acreditava compreender a outra metade.
     -  triste deixar a me e o seu povo - disse Ayla. - Mas, ter companheiro cedo?
     - Oh, sim, no prximo vero. Na Reunio de Vero. Afinal, mame acertou tudo. Estabeleceu um Preo de Noiva to alto que tive medo de que ningum chegasse a 
ele, mas concordaram. Contudo,  muito difcil esperar. Se, ao menos, Branag no tivesse que partir agora, mas eles o esto esperando. Ele prometeu voltar imediatamente...
     As duas jovens caminharam juntas para a entrada da habitao comunal, amistosamente, Deegie tagarelando e Ayla a ouvindo com interesse.
     Estava mais frio no salo da entrada, mas s ao sentir a rajada de vento frio, quando a cortina do arco da frente foi erguida,  que Ayla compreendeu o quanto 
 temperatura havia cado. O vento frio atirou-lhe o cabelo para trs e arrancou a pesada cobertura da entrada de pele de mamute, estofando-a com uma rajada repentina. 
Uma camada fina de neve cara durante a noite. Uma contracorrente cortante atingiu os flocos finos, arrastou-os para cavidades e depresses, retirou os cristais 
castigados pelo vento e arremessou-os atravs do espao aberto. O rosto de Ayla ardia com bolinhas duras de gelo.
     No entanto, estivera quente dentro, muito mais quente do que em uma caverna. Ela pusera sua parka de pele somente para sair; no precisaria de roupa extra se 
tivesse ficado no interior. Ouviu Whinney relinchar. A gua e o potro, ainda amarrados, estavam o mais longe possvel das pessoas e de suas atividades. Ayla caminhou 
at eles, virou-se e sorriu para Deegie.
     A jovem retribuiu-lhe o sorriso e foi procurar Branag.
     A gua parecia aliviada quando Ayla se acercou, agitando-se e sacudindo a cabea em cumprimento. A mulher retirou o cabresto de Racer e depois caminhou com 
eles em direo ao rio e perto da curva. Whinney e Racer relaxaram assim que o acampamento se perdeu de vista e, depois de alguns agrados mtuos, comearam a pastar 
no capim frgil e seco.
     Ayla parou ao lado de um arbusto antes de comear a voltar. Desatou a tira da cintura de suas calas, mas ainda estava incerta sobre o que fazer para as perneiras 
no se molharem quando urinasse. Ela havia tido o mesmo problema desde que comeara a usar as roupas. Ela prpria fizera o traje durante o vero, tendo como modelo 
o que havia feito para Jondalar, que fora copiado da roupa que o leo dilacerara. Mas no havia usado a roupa seno quando comearam sua viagem de explorao. Jondalar 
ficara to satisfeito ao v-la vestindo roupas como a dele, em vez do agasalho de couro usado em geral pelas mulheres do Cl, que ela resolveu abandon-lo. Mas ainda 
no descobrira como resolver esta necessidade bsica facilmente e no queria perguntar a ele. Jondalar era um homem. Como poderia saber o que uma mulher precisava 
fazer?
     Ela desfez-se das calas ajustadas, o que exigia que tirasse tambm o calado - mocassins de gspea alta que se enrolavam ao redor das partes inferiores das 
calas -, depois separou as pernas e se inclinou em sua maneira usual. Equilibrando-se em um dos ps, para vestir novamente as calas, notou o rio que corria suavemente 
e mudou de idia. Em vez disso, tirou a parka e a tnica pela cabea, retirou o amuleto do pescoo e caminhou at a margem em direo  gua. O ritual de limpeza 
devia ser completo e ela gostava de um banho matinal.
     Havia planejado lavar o rosto e as mos no rio. Ignorava que meios aquelas pessoas usavam para se limpar. Quando era necessrio, se a pilha de lenha estivesse 
enterrada sob o gelo e o combustvel estivesse escasso, ou se o vento soprasse fortemente atravs da caverna, ou se a gua congelasse a ponto de ser difcil conseguir 
quebrar algum gelo at para beber podia passar sem se lavar, mas preferia estar limpa. E, no fundo do seu pensamento, ainda pensava no ritual, no trmino de uma 
cerimnia de purificao aps sua primeira noite na caverna - ou na habitao comunal - dos Outros.
     Olhou para a gua. A corrente movia-se depressa ao longo do canal principal, mas o gelo em lminas transparentes cobria poas e as guas mais paradas do rio 
e formava uma crosta branca na margem. Um apndice do rio, escassamente coberto com capim esbranquiado e descorado, estendia-se at o rio, formando uma lagoa parada 
entre ele prprio e a praia um nico vidoeiro, reduzido a arbusto, crescia na faixa de terra.
     Ayla caminhou na direo do pequeno lago e entrou, despedaando a perfeita vidraa de gelo que o recobria. Arquejou enquanto a gua gelada do rio provocava-lhe 
um forte arrepio e agarrou um ramo mirrado do pequeno vidoeiro para firmar-se, enquanto entrava na corrente. Uma rajada cortante de vento gelado castigou-lhe a pele 
nua, arrepiando-a e atirou-lhe o cabelo sobre o rosto.
     Ela cerrou os dentes que rangiam e avanou mais na gua. Quando a gua estava quase  cintura, ela jogou gua gelada ao rosto. Depois, com outra respirao 
rpida, aspirada, de choque, abaixou-se e submergiu at o pescoo.
     Apesar de todos os arquejos e tremores, estava habituada  gua fria, e concluiu que breve seria impossvel banhar-se no rio. Quando saiu, tirou a gua do corpo 
com as mos e vestiu-se depressa. Uma calidez ardente substituindo frio entorpecedor quando caminhou ladeira acima, fazendo-a sentir-se renovada e revigorada, e 
ela sorriu quando um sol cansado momentaneamente sobressaiu no cu nublado.
     Ao se aproximar do acampamento, deteve-se  beira de uma rea pisada, prxima  habitao comunal, e observou os vrios grupos de pessoas envolvidos em ocupaes 
diversas.
     Jondalar falava com Wymez e Danug, e ela no teve dvida em relao ao tema da conversa dos trs britadores de slex. No distante deles, quatro pessoas desatavam 
cordas que tinham segurado a pele de um veado - agora, um couro macio, flexvel, quase branco - numa armao retangular feita de ossos de costela de mamute amarrados 
com correias. Perto, Deegie estendia e prendia vigorosamente uma segunda pele, que estava amarrada a uma armao semelhante com a ponta um pouco rombuda de outro 
osso de costela. Ayla sabia que se trabalhava pele enquanto secava, para tornar o couro flexvel, mas prend-lo a armaes de ossos de mamute era um novo mtodo 
de estender couro. Ficou interessada e notou os detalhes do processo.
     Uma srie de pequenos cortes eram feitos perto da orla, seguindo o contorno da pele do animal, depois passava-se uma corda por cada um, amarrava-se  armao 
e puxava-se com fora para esticar a pele retesada. A armao era apoiada contra a habitao comunal e podia ser virada e trabalhada dos dois lados. Deegie inclinava-se 
com todo o seu peso sobre a estaca de ossos de costela, empurrando a ponta rombuda para a pele fixada at parecer que a haste comprida a furaria, mas o couro forte, 
elstico, resistia, sem se deixar perfurar.
     Alguns outros ocupavam-se com atividades que Ayla no conhecia, mas o resto das pessoas colocava as sobras do esqueleto de mamutes em covas que tinham sido 
abertas no solo. Ossos e marfim espalhavam-se por toda parte. Ela levantou a cabea quando algum gritou e viu Talut e Tulie acercando-se do acampamento, carregando 
aos ombros uma grande presa curva, ainda ligada  caveira de um mamute. A maioria dos ossos no vinha de animais que eles matavam. Descobertas ocasionais nas estepes 
propiciavam alguns, porm a maioria vinha das pilhas de ossos acumulados em curvas pronunciadas, nos rios, onde guas enraivecidas depositavam os restos dos animais.
     Ento, Ayla observou outra pessoa que vigiava o acampamento, no distante dela. Sorriu ao reunir-se a Rydag, mas sobressaltou-se ao v-lo retribuir o sorriso. 
As pessoas do Cl no sorriam. Uma expresso revelando os dentes nus, em geral, denotava hostilidade num rosto com feies do Cl, ou extremo nervosismo e medo. 
O sorriso do menino pareceu, por um momento, inadequado. Mas o menino no crescera com o Cl e havia aprendido um significado amistoso em relao quela expresso.
     - Bom dia, Rydag - disse Ayla, fazendo ao mesmo tempo o gesto de saudao do Cl com uma pequena variao, que indicava que era dirigido a uma criana. Notou, 
novamente, o lampejo de compreenso diante do sinal manual. Ele se lembra! Pensou ela. Ele se lembra, estou certa disso. Conhece os sinais, teria apenas de ser lembrado 
deles. No como eu. Tive que aprend-los.
     Ela recordou a tristeza de Creb e Iza quando descobriram como lhe era difcil, comparativamente aos jovens do Cl, lembrar qualquer coisa.
     Ela tivera que lutar para aprender a memorizar, enquanto as crianas do cl necessitavam ver o sinal uma vez apenas. Algumas pessoas pensaram que Ayla fosse 
bastante estpida mas,  medida que cresceu, ensinou a si mesma a memorizar rapidamente, de modo que no perdessem a pacincia com ela.
     Mas Jondalar ficara surpreso com sua habilidade. Em comparao a outros como ela, sua memria treinada era uma maravilha e acentuava sua capacidade de aprender. 
Ficou assombrado como ela aprendia novas lnguas com facilidade, por exemplo, quase que aparentemente sem qualquer esforo. Mas no fora fcil conseguir tal percia 
e, embora houvesse aprendido a memorizar depressa, nunca compreendeu inteiramente o que eram as memrias do Cl. Nenhum dos Outros era capaz. Era uma diferena bsica 
entre eles.
     Com crebros ainda maiores do que aqueles que vieram depois, no era to menos inteligente que um tipo diferente de inteligncia. Aprendiam de lembranas que 
eram de alguma forma semelhantes ao instinto, porm mais conscientes, e tudo o que seus antepassados sabiam estava estocado no fundo de seus grandes crebros, ao 
nascer. No precisavam aprender o saber e habilidades necessrias para viver, lembravam-se deles. Como crianas, necessitavam apenas serem lembradas do que j sabiam 
para habituar-se ao processo. Como adultos, sabiam como recorrer s suas lembranas.
     Recordavam facilmente, mas nada novo era dominado seno com grande esforo. Assim que alguma coisa nova era aprendida - ou um novo conceito compreendido, ou 
uma nova crena aceita - jamais o esqueciam e o passavam  sua descendncia, mas aprendiam e mudavam devagar. Iza viera a entender, se no a assimilar, a diferena 
entre elas quando ensinava a Ayla a arte de uma curandeira. A estranha menina no era capaz de lembrar to bem quanto eles, porm aprendia bem mais depressa.
     Rydag disse uma palavra. Ayla no entendeu imediatamente. Depois a reconheceu. Era o seu nome! O seu nome dito de uma forma que fora familiar certa vez, como 
algumas pessoas do Cl o tinham pronunciado.
     Como elas, a criana no era capaz de uma fala totalmente articulada; podia vocalizar, mas no era capaz de emitir alguns sons importantes, necessrios para 
reproduzir a lngua das pessoas com quem vivia. Eram os mesmos sons com que Ayla tinha dificuldade, por falta de prtica. Era essa limitao no aparelho vocal do 
Cl, e aquelas que existiram antes, que os havia levado a desenvolver, em seu lugar, uma rica e compreensiva linguagem de gestos e sinais manuais para expressar 
os pensamentos de sua rica e extensa cultura. Rydag compreendia os Outros, o povo com quem vivia; compreendia o conceito de linguagem. Apenas, no era capaz de se 
fazer entender por eles.
     Ento, o menino fez o gesto que havia feito a Nezzie na noite anterior; chamou Ayla de me. 
     Ayla sentiu o corao bater mais depressa. O ltimo que lhe fizera esse gesto fora seu filho, e Rydag parecia-se tanto com Durc que, por um instante, ela viu 
seu filho nele. Quis acreditar que ele fosse Durc e ansiou peg-lo ao colo, apert-lo nos braos e dizer seu nome. Fechou os olhos e reprimiu a nsia de cham-lo, 
estremecendo com o esforo.
     Quando tornou a abrir os olhos, Rydag a observava com uma expresso sagaz, antiga, terna, como se a compreendesse e soubesse que ela o compreendia. Apesar dos 
desejos dela, Rydag no era Durc. No mais Durc do que ela, Deegie; era ele prprio. Controlada de novo, respirou fundo.
     - Gostaria de mais palavras? Mais sinais manuais, Rydag? - perguntou.
     Ele sacudiu a cabea afirmativa e enfaticamente.
     - Lembra-se de me da noite passada...
     Ele respondeu repetindo o gesto que tanto comovera Nezzie... E a si prpria.
     - Conhece este? - indagou Ayla, fazendo o gesto de saudao. Podia v-lo lutando com o conhecimento que quase j possua. - E um cumprimento, significa bom 
dia ou al. Este... - ela mostrou o sinal de novo, com a variao que usara -  quando uma pessoa mais velha fala com uma mais jovem.
     Ele franziu a testa, depois fez o gesto; em seguida sorriu para ela com seu sorriso surpreendente. 
     Fez os dois gestos, depois pensou e fez um terceiro, e olhou para ela de soslaio, incerto sobre se havia feito realmente alguma coisa.
     Sim, est certo, Rydag, sou uma mulher, como me, e essa  a forma de cumprimentar a me. Voc se lembra!
     Nezzie notou que Ayla e o menino estavam juntos. Ele lhe havia causado grande aflio, algumas vezes, quando se descontrolava e fazia excessos, da ela estar 
sempre ciente das atividades e localizao da criana. Foi atrada. A jovem e o menino, tentando observar e entender o que faziam. 
     Ayla a viu, com sua expresso de curiosidade e preocupao, e chamou-a.
     - Estou mostrando a Rydag a linguagem do Cl... A raa da me - explicou Ayla -, como a palavra, na noite passada.
     Rydag, com um largo sorriso que revelava seus dentes maiores que o normal, fez um gesto deliberado para Nezzie.
     - O que isso significa? - perguntou ela, olhando para Ayla.
     - Rydag diz Bom dia, me - explicou a jovem.
     - Bom dia, me? - Nezzie fez um movimento que se parecia vagamente com o gesto deliberado que Rydag fizera. - Isso significa Bom dia, me?
     - No. Sente-se aqui, eu lhe mostrarei. - Isto... - Ayla fez o sinal-...Significa Bom dia, me. Talvez ele faa o mesmo sinal para mim. Significaria mulher 
maternal. Voc faria deste jeito... - Ayla fez outra variao do sinal manual - ...para dizer 
     Bom dia, criana. E este... - Ayla prosseguiu com mais uma variao - ...Para dizer Bom dia, meu filho. Est vendo?
     Ayla repetiu todas as variaes enquanto Nezzie observava com cuidado. A mulher, sentindo-se um pouco inibida, tentou de novo. Embora no houvesse finura no 
gesto, ficou claro para ambos, Ayla e Rydag, que o sinal que ela tentava fazer significava Bom dia, filho.
     O menino, que estava de p ao seu lado, estendeu os braos finos ao redor do pescoo de Nezzie e ela abraou-o, pestanejando fortemente para conter o fluxo 
de lgrimas que ameaava derramar-se, e at os olhos de Rydag ficaram midos o que surpreendeu Ayla.
     De todos os membros do cl de Brun, somente os olhos dela tinham derramado lgrimas de emoo, embora os sentimentos de todos fossem igualmente fortes. Seu 
filho podia vocalizar o mesmo que ela; era capaz de fala total - o corao de Ayla ainda doa quando ela recordava como ele a chamara quando foi forada a partir 
-, mas Durc no derramava lgrimas para expressar sua tristeza. Como sua me do Cl, Rydag no podia falar, mas quando seus olhos se enchiam de amor, cintilavam 
com lgrimas.
     - Nunca fui capaz de conversar com ele antes... Tendo certeza de que compreendia - disse Nezzie.
     - Gostaria de mais sinais? - perguntou Ayla, gentilmente.
     A mulher concordou com um gesto de cabea, ainda segurando o menino, no confiando em si mesma para falar naquele instante, por medo de se descontrolar. Ayla 
fez outra srie de sinais e variaes com Nezzie e Rydag concentrados, tentando aprend-los. E depois outra. As filhas de Nezzie, Latie e Rugie, e os filhos mais 
novos de Tulie, Brinan e sua irmzinha Tusie, que tinham quase a mesma idade de Rugie e Rydag, vieram descobrir o que ocorria; depois o filho de sete anos de Fralie, 
Crisavec, se reuniu a eles. Breve, todos estavam entretidos no que parecia ser um maravilhoso jogo novo: falar com as mos.
     Mas, ao contrrio da maioria dos jogos das crianas do acampamento, este era aquele em que Rydag levava vantagem. Ayla no conseguia ensin-lo depressa demais. 
Mal lhe mostrava um sinal uma vez, e breve ele prprio acrescentava as variaes - as nuanas e sutilezas de significado. Tinha a sensao de que aquilo estava bem 
ali, dentro dele, derramando-se e pronto para sair, precisando apenas da menor passagem, e uma vez liberado, no podia ser contido.
     Era mais excitante ainda porque as crianas que tinham quase a idade dele aprendiam tambm. Pela primeira vez na vida, Rydag podia expressar-se completamente 
e no se satisfazia nunca. As crianas com quem crescera aceitaram facilmente sua capacidade de falar fluentemente daquela nova maneira. Elas se comunicaram com 
ele antes. Sabiam que ele era diferente, que tinha problema para falar, mas ainda no tinham adquirido o preconceito adulto de que, portanto, lhe faltava inteligncia. 
E Latie, como fazem as irms mais velhas muitas vezes, andara traduzindo seu palavreado para os membros adultos do acampamento durante anos.
     Quando todos j tinham aprendido bastante e comearam a levar o novo jogo a srio, Ayla observou que Rydag os corrigia e as crianas se voltavam para ele em 
busca de confirmao do significado de gestos e sinais manuais. Ele havia encontrado um novo lugar entre seus iguais.
     Ainda sentada ao lado de Nezzie, Ayla observou-os fazendo rpidos sinais silenciosos uns para os outros. Ela sorriu, imaginando o que Iza pensaria de filhos 
dos Outros falando como o Cl, gritando e rindo ao mesmo tempo. De algum modo, refletiu Ayla, a velha curandeira teria compreendido.
     - Deve estar certa. Essa  a maneira dele de falar - disse Nezzie. - Nunca o vi aprender algo to depressa. Eu no conhecia os cabeas-cha... Como  que voc 
os chama?
     - Cl. Eles dizem Cl. Significa... Famlia... Gente... Homens. O Cl do Urso da Caverna, pessoas que honram o Grande Urso da Caverna; vocs dizem Mamutoi, 
Caadores de Mamutes, que honram a Me - replicou Ayla.
     - Cl... Eu no sabia que eles podiam falar assim, no sabia que algum pudesse dizer tanto com as mos... Jamais vi Rydag to feliz. - A mulher hesitou e Ayla 
sentiu que ela tentava encontrar uma maneira de dizer mais alguma coisa. Esperou para dar-lhe uma chance de pr os pensamentos em ordem. - Estou surpresa por voc 
ter gostado dele to depressa - continuou Nezzie. - Algumas pessoas fazem objeo porque  misto e a maioria fica um pouco constrangida perto dele.
     Mas voc parece conhec-lo.
     Ayla fez uma pausa antes de falar enquanto examinava a mulher mais velha, incerta sobre o que dizer. Depois, tomando uma deciso, disse:
     - Certa vez, conheci algum como ele... Meu filho. Meu filho, Durc.
     - Seu filho! - Havia surpresa na voz de Nezzie, porm Ayla no detectou qualquer sinal da reao repentina que fora to evidente na voz de Frebec quando falou 
dos cabeas-chatas e de Rydag na noite anterior. - Voc teve um filho misto? Onde est ele? O que lhe aconteceu?
     A angstia obscureceu o semblante de Ayla. Ela havia guardado os pensamentos sobre seu filho enterrados no fundo, enquanto estava sozinha no vale, mas a viso 
de Rydag os havia despertado.
     As perguntas de Nezzie trouxeram lembranas e emoes dolorosas  tona e pegaram-na de surpresa. Agora, tinha que enfrent-las.
     Nezzie era to aberta e franca quanto o resto de seu povo, e as perguntas foram espontneas, mas ela era sensvel.
     - Desculpe, Ayla. Eu devia ter pensado...
     - No se preocupe, Nezzie - disse Ayla, pestanejando para conter as lgrimas. - Sei que surgem perguntas quando falo de meu filho. Di... Pensar em Durc.
     - No precisa falar sobre ele.
     - s vezes preciso falar de Durc. - Ayla fez uma pausa, depois investiu: - Durc est com o Cl. Quando ela morreu... Iza... Minha me, como voc com Rydag... 
Disse para eu ir para o norte, encontrar meu povo. No o Cl, os Outros. Durc era beb ento. Eu no fui. Depois, Durc tinha trs anos, Broud me fez ir. Eu no sabia 
onde viviam os Outros, no sabia para onde ir, no podia levar Durc. Dei para Uba... Irm. Ela ama Durc, toma conta dele.  filho dela, agora.
     Ayla parou de falar, mas Nezzie no sabia o que dizer. Gostaria de fazer mais perguntas, mas no queria pressionar, quando era claro que era um sofrimento enorme 
para Ayla falar do filho que amava, mas tivera que abaf-lo Ayla continuou por conta prpria.
     - Trs anos desde que vi Durc. Ele tem... Seis anos agora. Como Rydag?
     Nezzie concordou com um gesto de cabea.
     - No se passaram sete anos ainda desde que Rydag nasceu.
     Ayla ficou calada, parecendo imersa em pensamento. Depois prosseguiu:
     - Durc  como Rydag, mas no . Durc  como Cl nos olhos, como eu na boca. - Sorriu torto. 
     - Devia ser de Outro jeito. Durc forma palavras, podia falar, mas o Cl no. Melhor se Rydag falasse, mas ele no pode. Durc  forte. - Os olhos de Ayla assumiram 
uma expresso distante. - Ele corre depressa,  o melhor corredor, ser muito bom corredor um dia, como diz Jondalar. - Seus olhos encheram-se de tristeza quando 
se ergueram para Nezzie. - Rydag fraco. De nascimento. Fraco em...? - Colocou a mo no peito, no sabia a palavra.
     - Ele tem problema de respirao, s vezes - disse Nezzie.
     - Problema no  de respirao, problema  sangue... No... Sangue no... Aqui dentro - disse, a mo fechada sobre o peito, frustrada por desconhecer a palavra.
     - O corao.  o que Mamut diz. Ele tem um corao fraco. Como soube disso?
     - Iza era curandeira, feiticeira. Melhor curandeira do Cl. Ela me ensinou como filha. Sou curandeira.
     Jondalar havia dito que Ayla era uma curandeira, lembrou Nezzie. Estava surpresa em saber que os cabeas-chatas sequer pensavam em curar, mas tambm ignorara 
que eram capazes de falar. E havia estado perto de Rydag o suficiente para saber que, mesmo sem uma fala completa, ele no era o animal estpido que tantas pessoas 
acreditavam. Mesmo no sendo um Mamut, no havia razo para Ayla no poder saber alguma coisa sobre a arte de curar.
     As duas mulheres ergueram os olhos quando uma sombra desceu sobre elas.
     - Mamut quer saber se pode ir falar com ele, Ayla - disse Danug. As duas estavam to entretidas na conversa que nenhuma havia notado a aproximao do jovem 
alto. - Rydag est muito excitado com o novo jogo de mos que voc lhe mostrou - continuou ele. - Latie diz que ele quer que eu pergunte se voc me ensinar alguns 
dos sinais tambm.
     - Sim. Sim. Ensino a voc, ensino a todos.
     - Tambm quero saber mais sobre suas palavras manuais - disse Nezzie quando as duas ficaram de p.
     - De manh? - interrogou Ayla.
     - Sim, amanh de manh. Mas ainda no comeu nada. Talvez, amanh, seja melhor comer alguma coisa primeiro - disse Nezzie. - Venha comigo e lhe darei alguma 
coisa, e tambm para Mamut.
     - Estou faminta - falou Ayla.
     - Eu tambm - ajuntou Danug.
     - Quando  que no est com fome? Voc e Talut juntos poderiam comer um mamute - falou Nezzie com orgulho nos olhos, por seu filho grande e forte.
     Quando as duas mulheres e Danug se dirigiram  casa comunal, aparentemente os Outros consideraram-no uma sugesto para parar a fim de fazerem uma refeio e
seguiram-nos. As roupas exteriores foram removidas no recinto de entrada e penduradas em cabides. Era uma refeio matinal, casual, diria, com algumas pessoas cozinhando
em suas prprias fogueiras e outras reunindo-se na grande primeira fogueira, que continha o fogo principal, e vrias outras, menores. Algumas pessoas comiam sobras
frias de mamute, outras, carne ou peixe cozidos com razes ou verduras em uma sopa engrossada com cereais rudemente modos, colhidos dos pastos das estepes. Mas, 
quer cozinhassem em seu recinto privado ou no, a maioria das pessoas perambulava, eventualmente, pela rea comunal para uma visita, enquanto bebia um ch quente 
antes de sair novamente.
     Ayla estava sentada ao lado de Mamut, observando as atividades com grande interesse. O nvel de rudo de tantas pessoas conversando e rindo juntas ainda a surpreendia, 
mas j se acostumava a ele.
     Estava ainda mais surpresa com a naturalidade com que as mulheres se moviam entre os homens. No havia hierarquia rgida, nenhuma ordem para cozinhar ou servir 
a comida. Todos pareciam se servir, exceto as mulheres e homens que ajudavam os filhos mais novos.
     Jondalar aproximou-se deles e se acomodou cuidadosamente na esteira de capim ao lado de Ayla, enquanto equilibrava com as duas mos uma tigela bastante flexvel, 
 prova dgua, mas sem ala, tecida de gramnea, em um desenho em ziguezigue decores contrastantes, cheia de ch de hortel quente.
     - Acordou cedo de manh - disse Ayla.
     - No quis perturbar voc. Dormia to profundamente...
     - Acordei quando pensei que algum estava ferido, mas Deegie me disse que a velha... Crozie... Sempre fala alto com Frebec.
     - Discutiam to alto que at os ouvi l fora - falou Jondalar. - Frebec pode ser um encrenqueiro, mas no estou certo de que tem culpa. Aquela mulher velha 
grasna mais que um gaio. De que modo algum pode viver com ela?
     - Achei que algum estava ferido - disse Ayla, pensativa.
     Jondalar a olhou, intrigado. No achava que ela se repetia, dizendo que pensara, erradamente, que algum estava fisicamente ferido.
     - Tem razo, Ayla - disse Mamut. - Velhas feridas que ainda doem.
     - Deegie tem pena de Fralie. - Ayla se virou para Mamut, sentindo-se  vontade para fazer-lhe perguntas, embora na maioria das vezes no quisesse revelar sua 
ignorncia. - O que  Preo de Noiva? Deegie disse que Tulie pediu alto Preo de Noiva por ela.
     Mamut fez uma pausa antes de responder, pondo cuidadosamente os pensamentos em ordem porque queria compreend-la. Ayla observava o velho de cabelos brancos 
com ansiedade.
     - Eu poderia lhe dar uma resposta simples, Ayla, mas a coisa no  to clara quanto parece. Tenho pensado a respeito durante muitos anos.
     No  fcil compreender e explicar voc e sua gente, mesmo quando voc  um daqueles que os outros procuram para ter respostas. - Fechou os olhos, enrugando 
a testa, concentrado. - Compreende status, no?
     - Sim - respondeu Ayla. - No Cl, o lder tem o maior status, depois o caador escolhido, em seguida outros caadores. Mog-ur tem alto status tambm, mas  
diferente. Ele ... Homem do mundo espiritual.
     - E as mulheres?
     - As mulheres tm status do companheiro, mas a curandeira tem seu status prprio.
     Os comentrios de Ayla surpreenderam Jondalar. Com tudo o que ele aprendera com ela sobre os cabeas-chatas, ainda tinha dificuldade em acreditar que eram capazes 
de entender um conceito to complexo quanto a posio social comparativa.
     - Imaginei isso - disse Mamut em voz baixa, continuando a explicar depois: - Reverenciamos a Me, a criadora e sustentadora de toda a vida. As pessoas, animais, 
plantas, gua, rvores, rochas, terra, tudo foi dado  luz por Ela, Ela criou tudo. Quando invocamos o esprito do mamute, ou o esprito do veado, ou do biso para 
pedir permisso para ca-los, sabemos que  o Esprito da Me que lhes deu vida;  Seu Esprito que faz com que outro mamute, ou veado, ou biso nasa para substituir 
aqueles que Ela nos d como alimento.
     - Dizemos que  a Ddiva de Vida da Me - disse Jondalar, intrigado. Interessava-se em descobrir como os costumes dos Mamutoi comparavam-se aos dos Zelandonii.
     - Mut, a Me, escolheu as mulheres para nos mostrar como Ela tomou o Esprito da Vida em si mesma, para criar e dar  luz nova vida, a fim de substituir aquelas 
que Ela chamou de volta - disse o velho santo.
     - As crianas aprendem isto quando crescem, por meio de lendas e histrias e canes, mas voc est alm disso agora, Ayla. Gostamos de ouvir as histrias mesmo 
quando envelhecemos, mas voc precisa compreender o curso que as move e o que jaz embaixo, para poder entender as razes para muitos dos nossos costumes. Conosco, 
o status depende de uma me, e o Preo de Noiva  a maneira como mostramos valor.
     Ayla sacudiu a cabea concordando, fascinada. Jondalar tentara explicar sobre a Me, mas Mamut fez parecer to razovel, to mais fcil de compreender...
     - Quando as mulheres e homens decidem formar uma unio, o homem e seu acampamento do muitos presentes  me da mulher e ao seu acampamento. A me ou chefe 
do acampamento estabelece o preo - diz quantos presentes so exigidos - pela filha, ou ocasionalmente, a mulher pode fixar seu prprio preo, mas depende de muito 
mais do que do seu capricho. Nenhuma mulher quer ser desvalorizada, mas o preo no deve ser to alto que o homem de sua escolha e o seu acampamento no tenham os 
meios ou no desejem pagar.
     - Por que pagamento por uma mulher? - perguntou Jondalar. - Isso no a torna uma mercadoria de comrcio, como o sal ou slex ou mbar?
     - O valor de uma mulher  muito maior. O Preo de Noiva  o que um homem paga pelo privilgio de viver com uma mulher. Um Preo de Noiva bom beneficia a todos. 
Concede alto status  mulher; diz a todos como o homem que a quer lhe d um elevado valor, assim como o seu prprio acampamento. Honra o acampamento dele e deixa
que mostrem que so bem-sucedidos e podem pagar o preo. Distingue o acampamento da mulher, mostra-lhes estima e respeito e lhes d alguma coisa para compensar pela
perda da mulher, se ela partir, como fazem algumas jovens, para formar novo acampamento ou para viver no acampamento do homem. Porm, mais importante, ajuda-os a 
pagar um bom Preo de Noiva quando um dos seus homens desejar uma mulher, de forma a poderem exibir sua riqueza.
     As crianas nascem com o status de suas mes, ou seja, um Preo de Noiva alto as beneficia. Embora o Preo de Noiva seja pago em presentes, e alguns sejam 
para o casal comear a vida juntos, o valor real  o status, o elevado conceito da mulher em seu prprio acampamento e em todos os outros, e o valor que ela d ao 
seu companheiro e filhos.
     Ayla ainda estava intrigada, mas Jondalar sacudia a cabea afirmativamente, comeando a compreender. Os detalhes especficos e complexos no eram os mesmos, 
porm os esboos gerais de valores e relacionamentos de parentesco no eram to diferentes dos de seu prprio povo.
     - Como se conhece o valor de uma mulher? Para fixar um bom Preo de Noiva? - perguntou o homem dos Zelandonii.
     - O Preo de Noiva depende de muitas coisas. Um homem ir sempre tentar encontrar uma mulher com o status mais elevado que ele possa pagar porque, quando ele 
deixa sua me, assume o status de sua companheira que  ou ser uma me. Uma mulher que provou sua maternidade tem um valor mais alto, assim, as mulheres com filhos 
so grandemente desejadas. Os homens tentaro, muitas vezes, aumentar o valor de sua provvel companheira porque  benefcio para eles; dois homens que esto competindo 
por uma mulher de alto valor talvez combinem seus recursos... Se puderem se dar bem e ela concordar... E sobem ainda mais o Preo de Noiva. s vezes, um homem se 
unir a duas mulheres, especialmente irms que no querem se separar. Ento, ele consegue o status da mulher de categoria mais alta e  considerado com distino, 
o que lhe d certo status adicional. Ele mostra que  capaz de sustentar duas mulheres e seus futuros filhos. Gmeas so consideradas bno especial, raramente 
so separadas.
     - Quando meu irmo encontrou uma mulher entre os Sharamudoi, ele tinha laos de parentesco com uma mulher chamada Tholie, que era Mamutoi Uma vez ela me contou 
que foi roubada, embora concordasse com isso - falou Jondalar
     - Negociamos com os Sharamudoi, mas nossos costumes no so os mesmos. Tholie era uma mulher de status elevado. Perd-la para outros significou ceder algum 
que no era apenas valioso... E pagaram um bom Preo de Noiva... Mas que levaria o valor que ela havia recebido de sua me e o daria ao seu companheiro e filhos, 
valor que, eventualmente, teria sido trocado entre todos os Mamutoi. No havia maneira de compensar isso. Era a perda para ns, embora seu valor fosse roubado de 
ns. Mas Tholie estava apaixonada e determinada a unir-se ao jovem Sharamudoi.
     Assim, para resolver o caso, permitimos que ela fosse roubada.
     - Deegie diz que a me de Fralie fez Preo de Noiva baixo - falou Ayla.
     O velho mudou de posio. Podia ver a que sua pergunta conduzia e no seria fcil responder. A maioria das pessoas compreendia seus costumes intuitivamente 
e no poderia dar uma explicao to clara quanto Mamut. Muitos, em sua posio, teriam relutado em explicar crenas que normalmente teriam sido disfaradas em histrias 
ambguas, temendo que tal exposio direta e detalhada de valores culturais os despojasse de seu mistrio e poder. Chegou mesmo a deix-lo pouco  vontade, mas j 
fora levado a algumas concluses e tomara algumas decises sobre Ayla. Queria que ela entendesse os conceitos e assimilasse seus costumes, to depressa quanto possvel.
     - Uma me pode ir para a fogueira de qualquer um dos seus filhos - disse ele. - Se faz isso... E em geral, no o far at envelhecer... Ser a de um filha que 
ainda vive no mesmo acampamento. Seu companheiro se muda, em geral, com ela, mas ele pode voltar para o acampamento de sua me, ou viver com uma irm se quiser. 
Muitas vezes, um homem se sente mais prximo dos filhos de sua companheira, dos filhos de sua fogueira, porque ele vive com eles e os treina, mas os filhos de sua 
irm so seus herdeiros, e quando ele envelhece  responsabilidade deles. Usualmente, os idosos so bem-vindos, mas infelizmente, nem sempre. Fralie  a nica filha 
que resta a Crozie, por isto, onde sua filha vai, ela vai. A vida no tem sido boa para Crozie e ela no se tornou bondosa com a idade. Ela se apega e  dominadora 
e poucos homens desejariam dividir sua fogueira com ela. Teve que baixar muito o Preo de Noiva de sua filha depois que o primeiro marido de Fralie morreu, o que 
inflama e aumenta sua amargura.
     Ayla concordou com um gesto de cabea, depois franziu atesta, preocupada.
     - Iza me contou sobre velha que viveu com o cl de Brun antes de eu ser encontrada. Ela veio de outro cl. O companheiro morreu, nenhum filho. Ela no tinha 
valor, nem status, mas sempre tinha comida, lugar perto do fogo. Se Crozie no tivesse Fralie, para onde iria?
     Mamut ponderou a pergunta por um momento. Queria dar uma resposta totalmente verdadeira a Ayla.
     - Crozie teria um problema, Ayla. Em geral, algum que no tem parentes ser adotado por outra fogueira, mas ela  to desagradvel, que no h muitos que a 
aceitariam. Provavelmente, encontraria o suficiente para comer e um lugar para dormir em qualquer acampamento, mas depois de algum tempo a fariam ir embora, exatamente 
como seu acampa mento as fez partir depois que o primeiro marido de Fralie morreu.
     O velho feiticeiro continuou com uma careta.
     - Frebec tambm no  muito agradvel. O status de sua me era muito baixo, tinha poucos talentos e pouco a oferecer exceto uma inclinao para a bebida, assim, 
ele nunca teve muito para comear. Seu acampamento no quis Crozie e no se importava se ele partisse. Recusaram-se a pagar qualquer coisa. Por isto, o Preo de 
Noiva de Fralie foi to baixo. A nica razo pela qual esto aqui  por causa de Nezzie. Ela convenceu Talut a falar em nome deles, e foram aceitos. H alguns, aqui, 
que lamentam.
     Ayla balanou a cabea, compreendendo. A situao era um pouco mais clara agora.
     - Mamut, que...
     - Nuvie! Nuvie!  Me! Ela est com asfixia! - gritou uma mulher, de repente.
     Vrias pessoas estavam de p ao redor, enquanto sua filha de trs anos tossia e cuspia e lutava para respirar. Algum bateu nas costas da criana, mas no deu 
resultado. Outros se encontravam de p  sua volta, tentando dar conselhos, mas no sabiam o que fazer enquanto observavam a menina arquejar e se tornar azul.
     Ayla abriu caminho entre a multido e alcanou a criana quando ela perdia a conscincia. Pegou a menina, sentou-se e colocou-a atravessada em seu colo, depois 
enfiou um dedo em sua boca para ver se encontrava a obstruo. Quando isto no teve sucesso, Ayla se levantou, virou a criana ao contrrio e segurou-a pela cintura 
com um brao, fazendo com que pendessem sua cabea e braos, e golpeou-a com fora entre os ombros. Depois, colocou os braos por trs da criana flcida e empurrou 
com um movimento brusco.
     Todos retrocederam, as respiraes suspensas, observando a mulher que parecia saber o que fazia, numa luta de vida ou morte para desobstruir o bloqueio na garganta 
da menininha. A criana parara de respirar, embora seu corao ainda batesse. Ayla deitou a criana e se ajoelhou ao seu lado. Viu uma pea de roupa, a parka da 
criana e enfiou-a sob seu pescoo para manter a cabea para trs e a boca aberta. Ento, mantendo o narizinho fechado, a mulher colocou sua boca sobre a da criana 
e inspirou o mais forte possvel, criando uma forte suco. Manteve a presso at estar, ela prpria, quase sem ar.
     De repente, ento, com um rudo abafado, ela sentiu um objeto voar para sua boca e quase se alojar em sua prpria garganta. Ayla ergueu a boca e cuspiu um pedao 
de osso cartilaginoso com carne agarrada a ele. Inspirou profundamente, empurrou o cabelo para trs, e cobrindo a boca da criana imvel com a sua, novamente, cedeu 
sua respirao, para reanimar os pulmes sem vida. O pequeno peito se ergueu. Ela repetiu o gesto vrias vezes.
     De repente, a criana recomeou a tossir e cuspir e depois respirou fundo, asperamente.
     Ayla ajudou Nuvie a sentar-se quando ela recomeou a respirar, s ento tendo conscincia de Tronie que soluava, aliviada ao ver sua filha ainda viva.
     Ayla vestiu sua parka pela cabea, afastou o capuz para trs e abaixou o olhar para a fila de fogueiras. Na ltima, a Fogueira dos Auroques, viu Deegie de p 
prxima ao fogo, escovando seu cabelo castanho abundante e fazendo um coque enquanto conversava com algum em um estrado-cama. Ayla e Deegie tinham-se tornado boas 
amigas nos ltimos poucos dias e geralmente saam juntas de manh. Enfiando um grampo de cabelo de marfim - comprido e fino esculpido de uma presa de mamute e polido 
suavemente - Deegie acenou para Ayla e fez um sinal, Espere por mim, irei com voc.
     Tronie estava sentada sobre um leito na fogueira vizinha  Fogueira do Mamute, amamentando Hartal. Sorriu para Ayla e chamou-a. Ayla entrou na rea definida 
como Fogueira da Rena e sentou-se ao lado dela; depois se inclinou e fez ccegas no beb. Ele soltou o peito da me um instante, riu e deu chutes; depois procurou 
o seio materno para mamar novamente.
     - Ele j conhece voc - disse Tronie.
     - Hartal est feliz, saudvel. Cresce depressa. Onde est Nuvie?
     - Manuv a levou l fora mais cedo. Ele ajuda tanto com ela, que estou contente por ele ter vindo morar conosco. Tornec tem uma irm com quem poderia ter ficado. 
O velho e o jovem sempre parecem se dar bem, mas Manuv passa quase todo o seu tempo com a pequenina e no  capaz de recusar-lhe coisa alguma. Especialmente agora, 
depois que quase a perdemos. - A jovem me colocou o beb ao ombro para dar palmadinhas em suas costas, depois voltou-se a Ayla de novo. - No tive uma chance, realmente, 
de falar com voc a ss. Gostaria de lhe agradecer novamente. 
     Todos somos to gratos... Eu tive medo de que ela... Ainda tenho pesadelos. Eu no sabia o que fazer. No sei o que teria feito se voc no estivesse presente. 
- Ficou com a voz embargada enquanto lgrimas surgiam em seus olhos.
     - Tronie, no fale. No  necessrio agradecer. E meu... No sei a palavra. Tenho conhecimento...  necessrio para mim.
     Ayla viu Deegie atravessar a Fogueira da Gara e notou que Fralie a observava. Havia olheiras fundas em redor de seus olhos e ela parecia mais cansada do que 
deveria estar. Ayla andara observando-a e embora sua gravidez j estivesse bem adiantada, a ponto de no dever mais ter enjo matinal, Fralie ainda vomitava regularmente 
e no apenas de manh. Ayla quis fazer um exame mais detalhado, porm Frebec ficara enfurecido quando ela o mencionara. Afirmou que porque impedira que algum tivesse 
asfixia, isso no provava que ela conhecia alguma coisa sobre cura. No estava convencido, s porque ela dizia isso, e no queria que uma mulher estranha desse mau 
conselho a Fralie. Isto deu motivo a Crozie para discutir com ele. Por fim, para parar com a briga, Fralie declarou que estava tima e no precisava consultar Ayla.
     Ayla sorriu para a mulher acossada, encorajando-a. Depois, pegando uma vasilha de couro, vazia, para gua pelo caminho, dirigiu-se  entrada com Deegie. Quando 
atravessaram a Fogueira do Mamute e entraram na Fogueira da Raposa, Ranec levantou a cabea e observou-as passar. Ayla teve a sensao distinta de que ele a observava 
durante toda a travessia da Fogueira do Leo e rea de cozinhar at ela alcanar o arco interior, e teve que controlar o desejo de olhar para trs.
     Quando afastaram a cortina exterior, Ayla pestanejou diante do brilho inesperado de um sol intenso num cu azul vivo. Era um desses dias quentes, tranqilos, 
de outono que chegavam como um presente raro, para serem lembrados na estao em que ventos cortantes, tempestades furiosas e frio intenso seriam o clima dirio. 
Ayla sorriu com prazer e de repente recordou, embora no houvesse pensado naquilo havia anos, que Uba havia nascido num dia como aquele, no primeiro outono depois 
do cl de Brun encontr-la.
     A habitao comunal e a rea nivelada  sua frente foram cavadas mais ou menos  metade de uma encosta que dava para o oeste. Da entrada, a vista era ampla 
e Ayla ficou parada um instante, apreciando. O rio apressado cintilava e resplandecia como se murmurasse um lquido subtom  interao da gua e da luz solar e, 
do outro lado, numa nvoa distante, ela viu uma escarpa semelhante. O rio largo e rpido, abrindo um canal atravs das vastas estepes descampadas, estava ladeado 
por taludes de terra erodida.
     Da banqueta arredondada do plat acima at a larga plancie aluvial abaixo, o bom solo de loesse era marcado por ravinas profundas; o trabalho da chuva, a neve 
derretida, e o escoamento das grandes geleiras para o norte durante o fluxo primaveril. Poucos pinheiros e lanos verdes se erguiam eretos e rgidos em seu isolamento, 
disseminados esparsamente entre o emaranhado reclinado de arbustos desfolhados no terreno mais baixo. Rio abaixo, ao longo de sua margem, as espigas de tifceas 
misturavam-se com canas e junas. Sua viso rio acima estava bloqueada pela curva do rio, mas Whinney e Racer pastavam por perto, no capim seco, vertical, que cobria 
o equilbrio da paisagem rida, seca.
     Um salpico de poeira aterrissou aos ps de Ayla. Ela ergueu a cabea surpresa para os olhos azuis, vvidos de Jondalar. Talut estava ao lado dele, com um largo 
sorriso no rosto. Ela ficou espantada ao ver mais algumas pessoas no alto da habitao.
     - Suba, Ayla. Eu ajudo - disse Jondalar.
     - Agora no. Depois. Acabei de sair. Por que esto a em cima?
     - Estamos colocando os barcos bojudos sobre os buracos de fumaa - explicou Talut.
     - O qu?
     - Venha, eu explicarei - falou Deegie. - Estou pronta para urinar.
     As duas jovens caminharam juntas em direo a uma ravina prxima. Os degraus tinham sido cortados rudemente na encosta ngreme que levava a vrias grandes omoplatas 
de mamutes, achatadas, com buracos, colocadas sobre uma parte mais funda da ravina seca. Ayla ficou de p sobre um dos ossos, desatou a tira de suas calas, abaixou-as, 
depois se inclinou e acocorou-se sobre a abertura, ao lado de Deegie, perguntando-se mais uma vez por que no pensara na postura quando tivera tanta dificuldade 
com suas roupas. Parecia to simples e claro depois de ter observado Deegie, uma vez. Os contedos das cestas noturnas tambm eram atirados na ravina, assim como 
outro refugo, sendo tudo limpo pelas guas na primavera.
     Afastaram-se e desceram para o rio ao lado da larga ravina. Um riacho, cuja nascente mais ao norte j estava congelada, escorria pelo meio. Quando a estao 
mudasse novamente, a vala carregaria uma corrente enraivecida. As partes mais altas de alguns crnios de mamutes estavam invertidas e fincadas perto da margem juntamente 
com algumas canecas toscas de cabo comprido, feitas de ossos das pernas.
     As duas mulheres encheram as bacias de crnios de mamute com gua tirada do rio e, de uma sacola que trouxera consigo, Ayla salpicou ptalas esbranquiadas 
- antes os ramos azuis-claros de flores de ceanoto, ricas em saponina - s mos. Esfregando com mos molhadas criou uma substncia espumosa para lavar, levemente 
arenosa, que deixava um perfume suave em rosto e mos limpos. Ayla arrancou um graveto, mastigou a ponta partida e usou-a sobre os dentes, um hbito adquirido com 
Jondalar.
     - O que  um barco bojudo? - perguntou Ayla enquanto voltavam carregando uma de cada lado o estmago de biso impermevel, abaulado com gua fresca.
     - Ns os usamos para atravessar o rio, quando no est muito agitado. Voc comea com uma armao de osso e l em forma de uma tigela grande, um bojo, que poder 
conter duas ou talvez trs pessoas e cobre-a com uma pele em geral de auroques, o plo voltado para o lado exterior e bem oleado. Galhada de megceros com algumas 
aparas d bons remos... para mover a embarcao atravs da gua - explicou Deegie.
     - Por que os barcos no alto da moradia?
     -  onde os colocamos sempre quando no os estamos usando, mas no inverno cobrimos as aberturas de fumaa com eles para que a chuva e a neve no entrem. Eles 
estavam atando os barcos aos buracos para que no fossem levados pelo vento. Mas voc tem que deixar um espao para a fumaa sair, e poder mov-la, e aban-la para 
que se solte do interior se a neve subir.
     Enquanto caminhavam juntas, Ayla pensava como era feliz por conhecer Deegie. Uba havia sido uma irm e ela a amava, mas Uba era mais jovem e filha verdadeira 
de Iza; sempre existira uma diferena. Ayla jamais conhecera algum de sua prpria idade que parecesse compreender tudo o que ela dizia e com quem tivesse tanto 
em comum. Colocaram o pesado odre no cho, parando para descansar um pouco.
     - Ayla, mostre-me como dizer Eu amo voc com sinais, para eu poder dizer a Branag quando tornar a v-lo - pediu Deegie.
     - Cl no tem sinal como esse - disse Ayla.
     - No se amam? Voc os faz parecer to humanos quando fala deles que pensei que se amassem.
     - Sim, se amam, mas so calados... No, essa no  a palavra correta.
     - Acho que a palavra que quer  Sutis - disse Deegie.
     - Sutis... Sobre mostrar seus sentimentos. Uma me poderia dizer voc me enche de felicidade, ao filho - replicou Ayla, mostrando o sinal adequado a Deegie 
-, mas a mulher no seria to aberta... no, bvia? - questionou sua segunda escolha de palavras e esperou pelo gesto afirmativo de Deegie para continuar -, bvia 
sobre seus sentimentos por um homem.
     Deegie estava curiosa.
     - O que ela deveria fazer? Tive que deixar Branag saber como me sentia em relao a ele quando descobri que estivera me observando nas Reunies de Vero, exatamente 
como eu o estivera examinando. Se no lhe pudesse dizer, no sei o que eu teria feito.
     - Uma mulher do Cl no diz, mostra. Faz coisas para o homem que ama, cozinha como ele gosta, apronta seu ch preferido de manh, quando ele acorda. Faz roupas 
de maneira especial... Agasalho de pele do plo interior muito macio, ou protees quentes para os ps, com pele dentro. Melhor ainda se a mulher conseguir saber 
o que ele quer, antes que pea. Mostra que ela presta muita ateno para aprender seus hbitos e inclinaes, o conhece e se importa com ele.
     Deegie concordou com um gesto de cabea.
     - E uma boa maneira de dizer a algum que voc o ama. E bonito fazer coisas especiais um para o outro. Mas, como uma mulher sabe que o homem a ama? O que um 
homem faz por uma mulher?
     - Uma vez, Goov se arriscou para matar um leopardo da neve que era assustador para Ovra, porque estava rondando muito perto da caverna. Ela sabia que ele fizera 
isso por ela, embora ele desse a pele a Creb e Iza tivesse feito um agasalho de pele para mim - explicou Ayla.
     - Isso  sutil! No estou certa se eu teria compreendido. - Deegie riu. - Como sabe que ele se arriscou por causa dela?
     - Ovra me contou, mais tarde. Eu no sabia, na poca. Eu era criana. Ainda aprendia. Sinais manuais, no toda a linguagem do Cl. Muito mais era dito no rosto, 
olhos e corpo. A maneira de andar virando a cabea, msculos dos ombros rgidos, se voc sabe o que significa, dizem mais do que palavras. Levei muito tempo para 
aprender linguagem do Cl.
     - Estou surpresa como aprendeu Mamutoi depressa! Eu a tenho visto, est melhor a cada dia. 
     Quisera ter seu talento para lnguas.
     - Ainda no estou segura, h muitas palavras que ignoro, mas penso em dizer as palavras na forma de linguagem do Cl. Ouo as palavras e observo a expresso 
dos rostos, sinto como as palavras soam e se unem e vejo como o corpo se move... E tento lembrar. Quando mostro a Rydag e aos outros os sinais manuais, aprendo tambm. 
Aprendo mais sua lngua. Devo aprender, Deegie - acrescentou Ayla com um ardor que revelava sua sinceridade.
     - No  apenas um jogo para voc, ? Como os sinais manuais para ns.  engraado pensar que podemos ir  Reunio de Vero e falar um com o Outro sem mais ningum 
saber.
     - Estou feliz porque todos se divertem e querem saber mais. Por Rydag. Ele se diverte agora, mas no  uma brincadeira para ele.
     - No, suponho que no seja. - Pegaram o odre de novo. Depois, Deegie parou e olhou para Ayla. - No princpio, no entendi por que Nezzie quis ficar com ele. 
Mas depois acostumei-me a ele e comecei a gostar dele. Agora,  um de ns, e sentiria sua falta se ele no estivesse aqui, mas nunca me ocorreu que, talvez, ele 
quisesse falar antes daquela noite. Nunca imaginei que ele sequer pensasse nisso.
     Jondalar estava de p  entrada da moradia comunal, observando as duas jovens profundamente envolvidas na conversa enquanto se aproximavam, satisfeito por ver 
Ayla dando-se to bem.
     Quando refletiu a respeito, parecia bastante espantoso que, de todos os povos que pudessem ter encontrado, o grupo que descobriram tivesse uma criana de espritos 
mistos em seu meio e, assim, estivesse mais ansioso que a maioria, provavelmente, para aceit-la. Ele estivera certo sobre uma coisa, todavia. Ayla no hesitou em 
contar a todos sobre sua formao.
     Bem, ao menos ela no lhes contara sobre seu filho, pensou ele. Uma coisa era uma pessoa como Nezzie abrir seu corao para um rfo, outra, bem diferente, 
acolher uma mulher cujo esprito havia se misturado ao de um cabea-chata, e que dera  luz uma abominao. Havia sempre um temor oculto de que pudesse acontecer 
de novo, e se ela atrasse o tipo errado de espritos, talvez eles se espalhassem por outras mulheres prximas.
     De sbito, o homem atraente e alto corou. Ayla no acha que seu filho  uma abominao, refletiu, mortificado. Ele havia vacilado, sentira-se repugnado, quando 
Ayla lhe contara pela primeira vez sobre o filho e ela ficara furiosa. Jamais a vira to zangada, mas seu filho era seu filho e, certamente, ela no se envergonhava 
dele. Ela tem razo. Doni me contou num sonho. Cabeas-chatas... O Cl... So filhos, tambm, da Me. Veja Rydag.  muito mais inteligente do que imaginei que algum 
como ele pudesse ser.  um pouco diferente, mas  humano e muito simptico.
     Jondalar havia passado algum tempo com o menino e descoberto como era esperto e maduro, com uma graa at mesmo irnica, principalmente quando sua diferena 
ou fraqueza era mencionada. 
     Vira adorao nos olhos de Rydag sempre que o menino fitava Ayla. Ela lhe contara que meninos da idade de Rydag estavam mais perto da virilidade no Cl, mais 
como Danug, mas tambm era verdade que sua fraqueza talvez o tivesse amadurecido alm de sua idade.
     Ela est certa. Sei que tem razo sobre eles. Mas, se ela no falasse a respeito deles, seria muito mais fcil. Ningum sequer saberia, se no contasse.
     Ela os considera sua gente, Jondalar, censurou-se ele, sentindo o rosto rubro de novo, encolerizado com seus prprios pensamentos. Como voc se sentiria se 
algum lhe dissesse para no falar das pessoas que o criaram e cuidaram de voc? Se ela no se envergonha de seu povo, por que voc deveria se envergonhar? Isto 
no tem sido to mau assim. De qualquer forma, Frebec  um encrenqueiro. Mas ela no sabe como as pessoas podem atac-lo e a qualquer pessoa que estiver em sua companhia.
     Talvez seja melhor que no saiba. Talvez no v acontecer. Ela j levou a maioria deste acampamento a falar como os cabeas-chatas, inclusive a mim.
     Depois de Jondalar ter visto como quase todos estavam ansiosos para aprender a maneira de comunicao do Cl, ele passou a tomar parte nas lies improvisadas 
que pareciam ter origem sempre que algum fazia perguntas sobre o assunto. Encontrava-se cativado pela diverso do novo jogo, enviando sinais  distncia, fazendo 
brincadeiras silenciosas, como dizer uma coisa e fazer o sinal de outra pelas costas de algum. Estava surpreso com a profundidade e plenitude da fala silenciosa.
     - Jondalar, seu rosto est vermelho. Em que estaria pensando? - interrogou Deegie em tom provocador quando chegaram  arcada.
     A pergunta o pegou desprevenido, lembrou-o de sua vergonha e ele corou ainda mais em seu embarao.
     - Devo ter estado perto demais do fogo - resmungou, virando-se e afastando-se.
     Por que Jondalar diz palavras que no so verdadeiras? Perguntou-se Ayla, notando-lhe a testa enrugada e os belos olhos azuis profundamente perturbados antes 
de ele desvi-los. Ele no est vermelho do fogo. Est corado de emoo. Exatamente quando acho que estou comeando a entender, ele faz algo que no compreendo. 
Eu o observo, tento prestar ateno. Tudo parece maravilhoso. Depois, sem qualquer razo, de repente, ele fica zangado. Vejo que est zangado, mas no entendo por 
que motivo.  como nos jogos, dizendo uma coisa com as palavras e outra com os sinais. Como quando diz palavras bonitas a Ranec, mas seu corpo diz que ele est com 
raiva. Por que Ranec o encoleriza? E, agora, alguma coisa o incomoda, mas diz que o fogo o fez ficar vermelho, O que estou fazendo de errado? Por que no o compreendo? 
Entenderei, um dia?
     Os trs se viraram para entrar e quase esbarraram em Talut que sala da habitao comunal.
     - Vinha procur-lo, Jondalar - disse o chefe. - No quero perder um dia to bom, e Wymez fez explorao no-planejada ao voltar para c. Ele disse que passou 
por uma manada de inverno de bises. Depois de comermos vamos ca-los. Gostaria de ir conosco?
     - Sim, gostaria! - exclamou Jondalar com um sorriso largo.
     - Pedi a Mamut para sentir o tempo e procurar o rebanho. Ele diz que os sinais so bons, e que a manada no foi para longe. Disse outra coisa tambm, que no 
compreendo. Disse A sada tambm  a entrada. Entende isso?
     - No, mas no  incomum. Aqueles Que Servem a Me dizem, muitas vezes, coisas que no compreendo - Jondalar sorriu. - Falam com palavras obscuras.
     - s vezes pergunto-me se sabem o que querem dizer - falou Talut.
     - Se vamos caar, gostaria de lhe mostrar uma coisa que pode ser til.
     - Jondalar os conduziu ao estrado de dormir na Fogueira do Mamute. Pegou um punhado de lanas leves e um implemento que era desconhecido de Talut. - Fi-lo no 
vale de Ayla e temos caado com isso, desde ento.
     Ayla recuou, observando, sentindo uma tenso terrvel crescer em seu ntimo. Queria desesperadamente ser includa, mas no estava segura de como aquelas pessoas 
reagiriam diante de mulheres caadoras. Caar havia sido causa de grande angstia para ela no passado. As mulheres do Cl eram proibidas de caar, ou mesmo de tocar 
em armas de caa, mas ela havia aprendido sozinha a usar uma funda, apesar do tabu e do castigo ter sido severo quando foi descoberta.
     Depois, resistira e teve at permisso para caar em base limitada para acalmar seu totem poderoso que a protegera. Mas sua caa fora apenas mais uma razo 
para Broud odi-la e posteriormente contribuiu para sua expulso.
     Sim, caar com sua funda aumentara suas chances quando vivia sozinha no vale e lhe dera incentivo e encorajamento para expandir sua habilidade. Ayla sobrevivera 
por causa das artes que aprendera como uma mulher do Cl e sua prpria inteligncia e coragem lhe deram a capacidade de cuidar de si mesma. Mas caar passara a simbolizar 
para ela mais do que a segurana de depender e ser responsvel por si mesma; apoiava a independncia e liberdade que eram o resultado natural.
     No desistiria da caa facilmente.
     - Ayla, por que no pega seu arremessador de lanas tambm? - falou Jondalar, depois tornou a virar-se para Talut. - Tenho mais fora, porm Ayla  mais precisa 
do que eu, pode lhe mostrar o que isto pode fazer, melhor do que eu. Na verdade, se quiser ver uma exibio de preciso, deve v-la com uma funda. Acho que sua percia 
lhe d vantagem com estas armas.
     Ayla soltou a respirao - no sabia que a estivera prendendo - e foi buscar seu arremessador e lanas enquanto Jondalar conversava com Talut. Ainda era difcil 
acreditar como aquele homem dos Outros aceitara seu desejo e habilidade para caar e como ele falara natural e elogiosamente de sua percia. Ele parecia presumir 
que Talut e o Acampamento do Leo a aceitariam como caadora tambm. Ela lanou um olhar a Deegie, perguntando-se qual seria a opinio de uma mulher.
     - Deve avisar a Me se vai experimentar uma nova arma na caa, Talut. Sabe que ela querer v-la tambm - falou Deegie. - Acho que vou buscar minhas lanas 
e fardos, agora. E uma tenda. Provavelmente, passaremos a noite fora.
     Depois do desjejum, Talut se dirigiu a Wymez e se acocorou perto de uma rea de terra macia, prxima a uma das fogueiras menores do espao de cozinhar, bem 
iluminado pela luz que entrava pelo buraco da fumaa. Fincado no solo perto da extremidade, estava um implemento feito de um osso de perna de veado. Tinha a forma 
de uma faca ou de uma adaga afilada, com um fio reto e cego que vinha da junta do joelho at uma ponta. Talut, segurando-a pelo n da junta, aplainou o cho com 
a extremidade plana da faca. Depois, mudando-a de posio, comeou a traar marcas e linhas na superfcie com a ponta. Vrias pessoas reuniram-se  sua volta.
     - Wymez disse que viu o biso perto dos trs aforamentos a nordeste, prximo do tributrio do riacho que descarrega rio acima - comeou o chefe, explicando 
enquanto desenhava um mapa grosseiro da regio com a faca.
     O mapa de Talut no era nem uma reproduo visual aproximada nem um desenho esquemtico.
     No era necessrio representar a localizao com preciso. O povo do Acampamento do Leo conhecia a regio e o desenho no passava de uma ajuda mnemnica para 
lembr-los de um local que lhes era familiar. Consistia de linhas e marcas convencionais que representavam sinais e idias que eram compreendidos.
     O mapa no indicava a rota que o rio tomava atravessando a terra; sua perspectiva no era uma vista geral. Ele traava linhas em ziguezigue e espinha de peixe 
para indicar o rio, e ligava-as aos dois lados de uma linha reta para mostrar um afluente. No nvel da superfcie de sua paisagem aberta, plana, os rios eram troncos 
de gua que se juntavam algumas vezes.
     Eles sabiam de onde os rios vinham e aonde levavam, e que os rios podiam ser seguidos para se chegar a um determinado destino, mas tambm outros pontos de referncia 
o podiam, e um afloramento rochoso tinha menos possibilidade de mudar. Numa terra to prxima de uma geleira, ainda sujeita a mudanas sazonais de latitudes mais 
baixas, o gelo e a camada de permafrost - solo que estava permanentemente congelado - causavam alteraes drsticas na paisagem. Exceto em relao ao maior deles, 
a enchente como escoamento glacial podia mudar o curso de um rio de uma estao para a outra to facilmente quanto as colinas geladas do inverno se derretiam nos 
pntanos do vero. Os caadores de mamutes imaginavam seu solo como um todo interligado, em que os rios eram apenas um elemento. Tampouco Talut concebia desenhar 
linhas para determinar a extenso de um rio ou trilha em quilmetros ou passos. Essas medidas lineares tinham pouco significado. Compreendiam a distncia no em 
termos de quo longe era um local, mas quanto tempo seria necessrio para chegar l, e isso era mais bem demonstrado por uma srie de linhas indicando o nmero de 
dias, ou algumas outras marcas de nmero ou tempo. Mesmo assim, um local talvez ficasse mais distante para algumas pessoas do que para outras, ou o mesmo lugar talvez 
ficasse mais longe em uma estao do que em outra porque se demorava mais para viajar at ele.  distncia percorrida por todo o acampamento era avaliada pela extenso 
de tempo que o mais lento levava. O mapa de Talut era perfeitamente claro para os membro do Acampamento do Leo, mas Ayla observava com fascinao e curiosidade.
     - Wymez, diga-me onde eles estavam - falou Talut.
     - No lado sul do afluente - replicou Wymez, pegando a faca de desenho de osso e acrescentando algumas linhas adicionais. -  rochoso, com afloramentos ngremes, 
mas a plancie aluvial  grande.
     - Se continuarem subindo a corrente, no existem muitas sadas daquele lado - disse Tulie.
     - Mamut, o que acha? - indagou Talut. - Voc disse que eles no foram longe.
     O velho feiticeiro pegou a faca e fez uma pausa por um instante, com os olhos fechados.
     - Existe uma corrente que se aproxima, entre o segundo e o ltimo afloramento - disse ele, enquanto desenhava. - Provavelmente, eles se movero nessa direo, 
imaginando que levar a uma sada.
     - Conheo o lugar! - exclamou Talut. - Se subir a corrente, a plancie aluvial se estreita e, depois,  cercada por rocha escarpada. E um bom local para encurral-los. 
Quantos so?
     Wymez pegou o instrumento de desenho e fez vrias linhas ao longo da margem, hesitou e acrescentou mais uma.
     - Vi este nmero, tenho certeza - disse, cravando a faca de osso no solo.
     Tulie pegou a faca e ajuntou mais trs linhas.
     - Vi trs atrasados, um parecia bem novo, talvez estivesse fraco.
     Danug pegou a faca e traou mais uma linha.
     - Acho que era um gmeo. Vi outro extraviado. Voc viu dois, Deegie?
     - No me lembro.
     - Ela s tinha olhos para Branag - falou Wymez com um sorriso afvel.
     - Esse local fica a meio dia daqui, no ? - perguntou Talut.
     Wymez concordou com um gesto de cabea.
     - Meio dia, em boa marcha.
     - Ento, devemos partir imediatamente. - O chefe fez uma pausa, pensativo. - Faz algum tempo desde que estive l. Gostaria de saber qual a configurao do terreno. 
Pergunto-me...
     - Algum que quisesse correr poderia chegar l mais depressa e explorar o terreno e depois nos encontrar ao voltar - disse Tulie, adivinhando O que o irmo 
pensava.
     -  uma corrida longa... - disse Talut e lanou um olhar a Danug.
     O rapaz alto, desajeitado, ia falar, mas Ayla o fez primeiro.
     - No  um percurso longo para um cavalo. Os cavalos correm muito. Eu poderia montar Whinney... Mas no conheo o local - disse ela.
     Talut pareceu surpreso a princpio, depois sorriu largamente.
     - Eu poderia lhe dar um mapa como este! - exclamou, apontando para o desenho no solo. Olhou ao redor e descobriu uma lasca de marfim perto da pilha de ossos 
para combustvel, depois pegou sua faca aguada, de slex. - Escute, voc vai para o norte at chegar ao grande rio - comeou a gravar linhas em ziguezague para 
indicar a gua. - H um menor que deve atravessar primeiro. No se deixe confundir por ele.
     Ayla enrugou a testa.
     - No entendo mapa - disse. - Nunca vi mapa antes.
     Talut pareceu desapontado e devolveu o marfim  antiga pilha.
     - No haveria algum para ir com ela? - sugeriu Jondalar.  O cavalo pode carregar duas pessoas. Eu j montei a gua com ela.
     Talut tornou a sorrir.
     - Boa idia! Quem quer ir?
     - Eu irei! Conheo o caminho - gritou uma voz, seguida rapidamente por outra.
     - Conheo o caminho. Acabei de vir de l.
     Latie e Danug tinham falado juntos e vrios outros pareciam prontos para ir.
     Talut olhou de um para o outro, depois deu de ombros, estendendo as duas mos e se virou para Ayla.
     - A escolha  sua.
     Ayla olhou para o rapaz, quase to alto quanto Jondalar, com cabelo ruivo, da cor do de Talut, e a penugem clara de uma barba incipiente. Depois para a menina 
alta e magra, no ainda uma mulher, mas quase sendo, com cabelo louro-escuro, uma ou duas tonalidades mais claro que o de Nezzie. 
     Havia esperana e ansiedade nos dois pares de olhos. Ela no sabia qual escolher. Danug era quase um homem. Achou que devia lev-lo, mas alguma coisa em Latie 
fazia Ayla lembrar de si mesma, e ela recordou a expresso de desejo que havia visto no semblante da menina, na primeira vez que Latie vira os cavalos.
     - Acho que Whinney ir mais depressa se no carregar peso demais. Danug  homem - disse Ayla, endereando-lhe um sorriso afetuoso, clido. - Acho que Latie 
 melhor, desta vez.
     Danug concordou com um gesto de cabea, parecendo aturdido, e recuou tentando encontrar um modo de enfrentar a repentina onda de emoes diversas que, inesperadamente, 
o dominava. Ele estava dolorosamente desapontado por Latie ter sido escolhida, mas o sorriso radiante de Ayla quando o chamara de homem fizera com que seu sangue 
corresse para o rosto e o corao batesse mais depressa... E sentiu um aperto embaraoso em seus rins.
     Latie apressou-se para trocar a roupa pelas peles de rena leves e quentes que usava para viajar, arrumou sua mochila, ajuntou comida e a sacola de gua que 
Nezzie lhe preparou, e estava do lado de fora e pronta antes de Ayla se vestir. Observou enquanto Jondalar ajudava Ayla a prender as cestas laterais em Whinney com 
o arranjo de arreios que ela havia idealizado. Ayla colocou numa cesta a comida que Nezzie lhe deu juntamente com a gua por cima de suas outras coisas, pegou a 
mochila de Latie, e a colocou na outra cesta. Depois, segurando a crina de Whinney, Ayla deu um salto rpido e montou, uma perna de cada lado. Jondalar ajudou a 
menina a montar. Sentada na frente de Ayla, do dorso da gua castanha, Latie abaixou o olhar para as pessoas de seu acampamento, com os olhos cheios de felicidade.
     Danug se aproximou um pouco timidamente delas, e entregou a lasca de marfim a Latie.
     - Tome, eu terminei o mapa que Talut comeou, para tornar o local mais fcil de achar - disse.
     - Oh, Danug, obrigada! - exclamou Latie, e agarrou-o pelo pescoo para abra-lo.
     - Sim, obrigada, Danug - disse Ayla, enviando-lhe seu sorriso sincero.
     O rosto de Danug ficou quase to vermelho quanto seu cabelo. Quando a mulher e a menina comearam a subir a encosta montadas na gua, ele acenou para elas com 
a palma da mo de frente para ele, num gesto de regresso.
     Jondalar, com o brao ao redor do pescoo arqueado do potro que se esforava para ir atrs delas, com a cabea erguida e focinho no ar, colocou o outro brao 
ao redor do ombro do rapaz.
     - Foi muita bondade sua. Sei que voc queria ir. Estou certo de que poder montar a gua em outra ocasio. - Danug sacudiu a cabea apenas, concordando. Naquele 
momento, ele no pensava exatamente em montar a cavalo.
     Assim que alcanaram as estepes, Ayla se comunicou com a gua com presses sutis e movimentos corporais, e Whinney comeou a galopar na direo norte. O solo 
se toldava com o movimento sob os cascos rapidssimos e Latie mal podia acreditar que atravessava as estepes no dorso de um cavalo. Ela sorrira com orgulho quando 
partiram e o sorriso perdurava, porm ela fechava os olhos s vezes e se inclinava  frente a fim de sentir o vento no rosto. Estava indescritivelmente entusiasmada; 
jamais sonhara que podia haver algo to excitante.
     O resto dos caadores as seguiu no muito tempo depois de sua partida. Todos que eram capazes e queriam ir, foram. A Fogueira do Leo contribuiu com trs caadores. 
Latie era jovem e s recentemente tivera permisso de se reunir a Talut e Danug. Estava sempre ansiosa a ir, como a me o estivera quando jovem, mas Nezzie no acompanhava 
mais os caadores com freqncia, agora. Ficava para tomar conta de Rugie e Rydag e ajudar a vigiar as outras crianas pequenas. No participara de muitas caadas 
desde que acolhera Rydag.
     A Fogueira da Raposa tinha apenas dois homens e ambos, Wymez e Ranec, caavam, mas nenhum da Fogueira do Mamute o fazia, exceto os Visitantes, Ayla e Jondalar. 
Mamut era velho demais.
     Embora quisesse ter ido, Manuv ficou para no atrasar os outros. Tronie permaneceu tambm, com Nuvie e Hartal. Exceto por um passeio ocasional, onde mesmo as 
crianas podiam ajudar, ela no mais fazia viagens para caar, tampouco. Tornec era o nico caador da Fogueira da Rena, assim como Frebec, o nico caador da Fogueira 
da Gara. Fralie e Crozie permaneceram no acampamento com Crisavec e Tasher.
     Tulie quase sempre encontrara um meio de reunir-se a grupos de caa, mesmo quando tinha filhos pequenos, e a Fogueira dos Auroques estava bem representada. 
Alm da chefe, Barzec, Deegie e Druwez, foram todos. Brinan se empenhou o mximo para que sua me o deixasse ir, mas foi deixado com Nezzie juntamente a sua irm, 
Tusie, acalmando-se com a promessa de que, breve, ele teria idade suficiente.
     Os caadores subiram com esforo a encosta, juntos, e Talut acelerou o passo quando alcanaram a pastagem plana.
     - Acho que o dia est bom demais para desperdiar, tambm - disse Nezzie, pousando sua tigela com firmeza e falando ao grupo reunido ao redor da fogueira ao 
ar livre para cozinhar, depois que os caadores partiram. Bebiam ch e terminavam o desjejum. - Os cereais esto secos e maduros, e tenho querido subir e colher 
a riqueza de um ltimo bom dia. Se nos dirigirmos quela plataforma de pinheiros-mansos perto do riacho, podemos colher as pinhas maduras dos estrbilos, se houver 
tempo. Mais algum deseja ir?
     - No sei se Fralie deve caminhar tanto - disse Crozie.
     - Oh, mame - falou Fralie. - Uma pequena caminhada me far bem, e se o tempo ficar ruim, todos teremos que ficar dentro de casa a maior parte do tempo. Isso 
acontecer muito breve. Eu gostaria de ir, Nezzie.
     - Bem,  melhor eu ir, ento, para ajudar voc com as crianas - disse Crozie, como se fizesse um grande sacrifcio, embora a idia de um passeio lhe parecesse 
boa.
     Tronie no relutou em admitir isso:
     - Que boa idia, Nezzie! Estou certa de que posso colocar Hartal na acomodao das costas; assim, poderei carregar Nuvie quando ela ficar cansada. No h nada 
que me agrade mais do que passar um dia fora.
     - Carregarei Nuvie, voc no precisa carregar duas crianas - falou Manuv. - Mas, acho que pegarei as pinhas primeiro e deixarei a colheita de cereais para 
o resto de vocs.
     - Acho que tambm vou, Nezzie - disse Mamut. - Talvez Rydag no se importe com a companhia de um velho e talvez me ensine mais sobre os sinais de Ayla, j que 
ele  to bom neles.
     - Voc  muito bom em sinais, Mamut - indicou Rydag. - Aprende os sinais depressa, talvez me ensine.
     - Talvez possamos ensinar um ao outro - Mamut respondeu por sinais.
     Nezzie sorriu. O velho nunca tratara o filho de espritos mistos de forma diferente das outras crianas do acampamento, exceto para mostrar considerao extra 
por sua fraqueza, e muitas vezes a ajudara com Rydag. Parecia haver uma intimidade especial entre eles, e ela suspeitava de que Mamut ia acompanh-los para manter 
o menino ocupado enquanto o resto trabalhava. Sabia que ele tambm impediria que algum exercesse presso, inadvertidamente, sobre Rydag para se mover mais depressa 
do que devia.
     Ele podia se retardar se visse que o menino se esforava demais e culpar sua idade avanada. Ele havia feito isso antes.
     Quando todos se reuniram fora da habitao comunal, com cestas para colher e carregar, mochilas de couro, sacos de gua e alimento para uma refeio do meio-dia, 
Mamut trouxe uma pequena figura de mulher madura esculpida em marfim e fincou-a ao solo diante da entrada. Disse algumas palavras que somente ele compreendeu e mais 
ningum, e fez gestos evocativos. Todos do acampamento sairiam, a moradia ficaria vazia, e ele invocava o Esprito de Mut, a Grande Me, para que guardasse e protegesse 
a habitao em sua ausncia.
     Ningum violaria a proibio de entrada que a figura da Me  porta representava. A no ser por absoluta necessidade, ningum ousaria arriscar-se s conseqncias 
resultantes, segundo todos acreditavam, de tal ato. Mesmo se a necessidade fosse terrvel - se algum estivesse ferido, ou apanhado em uma tempestade de neve e precisasse 
de abrigo - medidas imediatas seriam tomadas para aplacar uma protetora provavelmente encolerizada e vingativa. Compensao maior e acima do valor de qualquer coisa 
utilizada seria paga pela pessoa, ou a famlia ou acampamento da pessoa, o mais cedo possvel. Doaes e presentes seriam dados aos membros da Fogueira do Mamute 
para acalmar o Esprito da Grande Me com pedidos e explicaes, e promessas de futuras boas aes ou atividades compensadoras. A ao de Mamut era mais eficaz que 
qualquer fechadura.
     Quando Mamut se virou e se afastou da entrada, Nezzie levantou a cesta at suas costas e prendeu sua correia  testa, pegou Rydag e colocou-o em seu quadril 
largo para carreg-lo encosta acima. 
     Depois, reunindo Rugie, Tusie e Brinan  sua frente, comeou a subir as estepes. Os outros a seguiram e, logo, a outra metade do acampamento caminhava atravs 
das pastagens abertas para um dia de trabalho, colhendo os gros e sementes que tinham sido plantados e oferecidos a eles pela Grande Me Terra. O trabalho e a contribuio 
para a sua sobrevivncia por parte dos colhedores eram tidos como to valiosos quanto o trabalho dos caadores, porm, nenhum dos dois era somente trabalho. O companheirismo 
e a participao tornavam o trabalho divertido.
     Ayla e Latie chafurdavam num riacho raso, mas Ayla reduziu a marcha do animal antes de chegarem ao prximo rio um pouco mais extenso.
     - Este rio que devemos seguir? - perguntou.
     - Acho que no - respondeu Latie. Depois consultou as marcas no pedao de marfim. - No. Est vendo? Este aqui  o riacho que atravessamos. E cruzamos este 
tambm. Viramos e seguimos o prximo, corrente acima.
     - No parece fundo aqui. E um bom lugar para atravessar?
     Latie olhou rio acima e rio abaixo.
     - H um lugar melhor um pouco acima. Temos apenas que tirar as botas e enrolar as calas.
     Subiram a corrente, mas quando chegaram ao passo largo e raso, onde a gua espumava ao redor de pedras salientes, Ayla no parou. Virou Whinney para a gua 
e deixou a gua escolher seu caminho. Do outro lado, a gua se afastou a galope e Latie tornou a sorrir.
     - Nem mesmo nos molhamos! - exclamou. - Somente alguns salpicos.
     Quando alcanaram o rio seguinte e viraram a leste, Ayla diminuiu a marcha um pouco para dar descanso a Whinney, mas mesmo a andadura mais lenta do animal era 
to mais rpida que os passos de um homem, andando ou correndo, que cobriram a distncia rapidamente. O terreno mudou enquanto prosseguiam, tornando-se mais acidentado 
e ganhando em altura. Quando Ayla parou e apontou para um rio do lado oposto que formava um largo V com aquele que tinham seguido, Latie ficou surpresa. No esperava 
ver o afluente to cedo, mas Ayla havia notado turbulncia e o esperava. Trs grandes afloramentos de granito podiam ser vistos onde elas se encontravam, uma face 
escarpada e recortada do outro lado do rio e mais duas na margem em que estavam, rio acima, e formando um ngulo.
     Seguiram a margem do rio e observaram que formavam um cotovelo em direo aos afloramentos e, quando se aproximaram do primeiro, viram que o rio corria entre 
eles. A alguma distncia dos afloramentos que elas ultrapassaram e que ladeavam o rio, Ayla notou vrios bises escuros, peludos, pastando nos canios e junas verdes 
perto da gua. Ela apontou e cochichou ao ouvido de Latie.
     - No fale alto. Veja.
     - L esto eles - disse Latie em voz abafada, tentando controlar sua excitao.
     Ayla virou a cabea para trs e para frente, umedeceu um dedo depois e manteve-o no alto, testando a direo do vento.
     - O vento sopra dos bises para ns. Bom. No quero perturb-los at estarmos prontos para caar. O biso conhece cavalos. Vamos nos aproximar, mas no demais.
     Ayla guiou a gua com cuidado contornando os animais, para verificar mais alm, corrente acima, e quando ficou satisfeita voltou pelo mesmo caminho. Uma vaca 
grande e velha ergueu a cabea e olhou para elas, ruminando. A ponta de seu chifre esquerdo estava quebrada. A mulher reduziu a marcha e deixou Whinney assumir seu 
movimento natural enquanto as amazonas prendiam a respirao. A gua parou e abaixou a cabea para comer algumas folhas de capim. Os cavalos em geral no pastariam 
se estivessem nervosos e a ao pareceu tranqilizar o biso, que tambm voltou a pastar. Ayla esgueirou-se em volta do pequeno rebanho, to depressa quanto pde, 
e fez Whinney galopar corrente abaixo. Quando alcanaram pontos de referncia observados antes, viraram para o sul novamente. Depois de atravessarem o rio seguinte, 
pararam para Whinney beber gua e elas tambm e em seguida continuaram em direo ao sul.
     O grupo de caa estava exatamente depois do primeiro riacho quando Jondalar notou Racer puxando com fora o seu cabresto, em direo a uma nuvem de poeira que 
se aproximava deles. Jondalar bateu de leve no ombro de Talut e apontou. O chefe olhou  frente e viu Ayla e Latie galopando em sua direo, montadas em Whinney. 
Os caadores no tiveram que esperar muito antes de a gua e as amazonas avanarem para o seu meio e pararem. O sorriso no rosto de Latie era de xtase, seus olhos 
cintilavam, as mas do rosto estavam coradas de excitao quando Talut as ajudou a desmontar. Ento, Ayla passou a perna por cima da gua e escorregou para o cho. 
Todos se amontoaram ao redor.
     - No conseguiram encontrar o Ioc - perguntou Talut, expressando a preocupao que todos sentiam.
     Outra pessoa mencionou-o quase ao mesmo tempo, mas em tom diferente.
     - Nem sequer encontraram o local. Achei que correr  frente a cavalo de nada adiantaria - escarneceu Frebec.
     Latie respondeu-lhe com raiva e perplexidade.
     - O que quer dizer com no conseguiram sequer encontrar o local. Encontramos o lugar. At vimos os bises.
     - Est tentando dizer que j estiveram l e j voltaram? - perguntou ele, sacudindo a cabea com incredulidade.
     - Onde esto os bises agora? - Wymez interrogou a filha de sua irm, ignorando Frebec e desprezando seu comentrio vulgar.
     Latie caminhou at a cesta no flanco esquerdo de Whinney e pegou o pedao de marfim marcado. Depois, tirando a faca de slex da bainha  sua cintura, sentou-se 
ao cho e comeou a traar algumas linhas adicionais no mapa.
     - Aqui, a bifurcao sul passa entre dois afloramentos - disse ela. Wymez e Talut sentaram-se ao lado dela e concordaram, sacudindo as cabeas, enquanto Ayla 
e vrios outros ficavam de p atrs e ao redor deles.
     - Os bises estavam do lado oposto ao afloramento, onde a plancie aluvial se abre e existe ainda alimento verde prximo  gua. Vi quatro pequenos... - Ela 
traou quatro pequenas marcas paralelas enquanto falava.
     - Acho que cinco - emendou Ayla.
     Latie ergueu os olhos a Ayla e concordou com um gesto de cabea, depois acrescentou mais uma pequena marca.
     - Voc tinha razo, Danug, sobre os gmeos. E so filhotes. E sete vacas... - ergueu novamente os olhos a Ayla, em busca de confirmao. A mulher balanou a 
cabea afirmativamente, e Latie acrescentou mais sete linhas paralelas, um pouco mais longas do que as primeiras -... somente quatro com filhotes, acho. - Refletiu 
um pouco. - Havia mais, um pouco mais longe.
     - Cinco machos novos - acrescentou Ayla. - E dois ou trs outros. No tenho certeza. Talvez mais alguns que no tenhamos visto.
     Latie fez cinco linhas ligeiramente mais compridas, um pouco afastadas das primeiras, depois acrescentou mais trs entre as duas sries, fazendo-as um pouco 
menores novamente. Ela traou um pequeno na ltima marca da linha para indicar que estava terminado, que aquele era o nmero total de bises que haviam contado. 
Suas marcas de contagem passaram sobre algumas das outras marcas, que foram desenhadas antes no marfim, porm, no importava. J tinham servido ao seu propsito
     Talut pegou a lasca de marfim de Latie e examinou-a. Depois olhou para Ayla.
     - Por acaso, no notaram que direo os animais seguiam, no ?
     - Acho que subiam o rio. Passamos ao largo do rebanho com cuidado, para no perturbar. 
     Nenhum rastro do lado oposto, o capim no estava comido - falou Ayla.
     Talut concordou com um gesto de cabea e fez uma pausa, obviamente pensando.
     - Voc disse que passou ao largo do rebanho. Subiu muito o rio?
     - Sim.
     - Pelo que me lembro, a plancie aluvial se estreita at desaparecer, e rochas elevadas se fecham sobre a corrente e no existe sada.  correto?
     - Sim... Mas, talvez exista sada.
     - Sada?
     - Antes das rochas elevadas  encosta  ngreme, rvores, arbustos espessos com espinhos, mas perto dos rochedos est o leito seco do rio. Como trilha ngreme. 
Acho que  uma sada - disse ela.
     Talut franziu a testa, olhou para Wymez e Tulie, depois riu alto.
     - A sada tambm  a entrada! Foi isso que Mamut disse!
     Wymez pareceu intrigado por um momento. Depois, sorriu lentamente ao compreender. Tulie olhou para os dois e uma expresso inicial de compreenso apareceu em 
seu rosto, depois.
     - Claro! Podemos seguir nesta direo, construir uma cerca para peg-los, depois dar a volta pelo outro lado e empurr-los para l - falou Tulie, deixando claro 
a todos o que fariam. - Algum ter que vigiar e certificar-se de que o vento no est soprando de ns para eles, para que no desam o rio de novo enquanto construmos 
a cerca.
     - Parece um bom trabalho para Danug e Latie - disse Talut.
     - Acho que Druwez pode ajud-los - acrescentou Barzec -, e se achar que precisam de mais ajuda, eu irei.
     - timo! - exclamou Talut. - Por que no vai com eles, Barzec, e segue o rio subindo a corrente? Conheo um caminho mais rpido para chegar  extremidade oposta. 
Cortaremos caminho daqui. Vocs os mantm cercados at construirmos a armadilha e, ento, daremos a volta para ajudar a encurral-los.
     O leito ressequido do rio era uma faixa de barro seco e pedra atravessando uma encosta escarpada, arborizada, com arbustos emaranhados. Levava a uma plancie 
aluvial estreita, mas nivelada, ao lado de um curso dgua intenso que jorrava entre os rochedos formando uma srie de cachoeiras e pequenas quedas dgua. Assim 
que Ayla desceu a p, voltou para buscar os cavalos. Tanto Whinney quanto Racer, acostumados  trilha ngreme que conduzira  sua caverna no vale, desceram sem dificuldade.
     Ela removeu o arreio com as cestas de Whinney para que o animal pudesse pastar livremente. Mas Jondalar ficou apreensivo em tirar o cabresto de Racer j que 
nem ele nem Ayla tinham muito controle sobre o potro sem o cabresto, e Racer estava suficientemente velho para se tornar rebelde quando ficava de mau humor. J que 
o cabresto no o impedia de pastar, ela concordou em que ficasse com ele, embora houvesse preferido dar-lhe total liberdade. Isto fazia com que Ayla compreendesse 
a diferena entre o cavalo e a me dele. Whinney sempre andara a solta,  vontade, mas Ayla passara todo o tempo com a gua - ela no tinha mais ningum. Racer tinha 
Whinney, mas menos contato com ela. Talvez ela ou Jondalar devessem passar mais tempo com ele, e tentar ensin-lo, pensou ela.
     O abrigo tipo curral j estava em construo quando Ayla foi ajudar. A cerca foi feita com os materiais que encontrassem, pedras grandes, ossos, rvores e galhos, 
que eram erguidos e entrelaados. A vida animal rica e variada das frias plancies se renovava constantemente e os velhos ossos espalhados pelo terreno eram muitas 
vezes levados por rios caprichosos formando pilhas confusas. Uma busca rpida rio abaixo revelara um monte de ossos a curta distncia e os caadores arrastavam grandes 
ossos das pernas e costelas em direo ao centro de atividades: uma rea perto do fundo do rio seco, que cercavam. A cerca precisava ser bastante forte para conter 
a manada de bises, mas no se destinava a ser uma estrutura permanente. Seria usada uma vez apenas e no era provvel que durasse mais que a primavera, quando o 
rio rpido se transformava em torrente impetuosa.
     Ayla observou Talut girar um enorme machado com uma gigantesca cabea de pedra como se fosse um brinquedo. Ele tirara a camisa e suava profusamente enquanto 
abria o caminho golpeando em direo a uma plataforma de rvores novas, eretas, abatendo cada rvore com duas ou trs machadadas. Tornec e Frebec, que carregavam 
as rvores derrubadas, no conseguiam manter o mesmo ritmo que ele. Tulie supervisionava a colocao das rvores. Ela utilizava um machado quase to grande quanto 
o do irmo e manejava-o com igual facilidade, partindo a rvore ao meio, ou golpeando um osso para torn-lo adequado. Poucos homens igualavam-se  fora da chefe.
     - Talut! - gritou Deegie. - Ela carregava a extremidade dianteira de uma presa inteira, curvada, de mamute, que tinha mais de 4,5 metros de comprimento. Wymez 
e Ranec sustentavam o meio e a parte de trs. - Encontramos alguns ossos de mamute. Quer quebrar esta presa? - interrogou ela.
     O gigante de cabelos ruivos sorriu.
     - Este animal enorme deve ter vivido muito e bem! - exclamou, abrindo a presa quando a puseram no solo.
     Os msculos enormes de Talut se salientaram quando ergueu o machado do tamanho de um malho e o ar ressoou com os golpes enquanto estilhas e lascas de marfim 
voavam em todas as direes. Ayla ficou fascinada s de observar o homem forte brandir a ferramenta macia com tal percia. Mas o feito ainda era mais surpreendente 
para Jondalar, por uma razo que ele jamais levara em considerao. Ayla estava mais acostumada a ver homens executarem faanhas prodigiosas de fora muscular. Embora 
ela os excedesse em estatura, os homens do Cl eram maciamente musculosos e extraordinariamente robustos. Mesmo as mulheres possuam pronunciada fora bruta e a 
vida que Ayla levara enquanto crescia, esperando-se que realizasse as tarefas de uma mulher do Cl, f-la desenvolver msculos incomumente fortes para seus ossos 
franzinos.
     Talut pousou o machado, ergueu a parte posterior da presa at seu ombro e partiu em direo ao cercado que construam. Ayla pegou o grande machado para mov-lo 
e compreendeu que no poderia manej-lo. At Jondalar o achou pesado demais para usar com habilidade. Era uma ferramenta adequada unicamente ao grande chefe. Eles 
dois ergueram a outra metade da presa, colocaram-na ao ombro e seguiram Talut.
     Jondalar e Wymez permaneceram para ajudar a socar os pedaos pesados de marfim com pedras grandes; eles seriam uma barreira slida contra qualquer biso atacante. 
Ayla foi pegar mais osso com Deegie e Ranec. Jondalar se voltou para v-los ir e lutou para conter a clera quando viu o homem escuro se mover para o lado de Ayla 
e fazer um comentrio que provocou seu riso e o de Deegie. Talut e Wymez notaram o rosto vermelho, brilhante de seu visitante jovem e atraente, e trocaram um olhar 
significativo, mas no disseram coisa alguma.
     O elemento final do curral era uma porteira. Uma rvore nova e resistente, desprovida de seus galhos, estava posicionada, ereta, a um lado de uma abertura na 
cerca. Escavaram um buraco para a base, e um monte de pedras foi empilhado ao redor para sustent-la. Era reforada sendo amarrada com correias a pesadas presas 
de mamute. A prpria porteira era construda de ossos de perna, galhos e costelas de mamute atados firmemente a pedaos cruzados de rvores novas, cortados no tamanho 
conveniente. Ento, com vrias pessoas mantendo a porteira no lugar, uma extremidade foi presa em muitos locais ao mastro ereto, usando-se uma corda transpassada 
que permitia que ela se movesse sobre as dobradias de couro. Pedras grandes e ossos pesados foram empilhados prximos  outra extremidade, prontos para serem empurrados 
para frente da porteira assim que fosse fechada.
     Era de tarde, o sol ainda alto, quando tudo ficou pronto. Com todos trabalhando juntos, fora necessrio um perodo de tempo surpreendentemente curto para construir 
o curral.
     Reuniram-se em volta de Talut e almoaram a comida seca de viagem que trouxeram, enquanto faziam mais planos.
     - A parte difcil ser fazer com que atravessem a porteira - disse Talut. - Se conseguirmos que um entre, os outros o seguiro, provavelmente. Mas se forem 
alm da porteira e comearem a mover-se em crculos neste pequeno espao ao fundo, se dirigiro  gua.
     Aquele rio  acidentado aqui, e talvez alguns no consigam atravessar, mas isso no adiantar de nada para ns. Ns os perderemos. O mximo que poderamos esperar 
seria encontrar uma carcaa afogada rio abaixo.
     - Ento, temos que impedir-lhes a passagem - disse Tulie. - No deixar que ultrapassem o curral.
     - Como? - indagou Deegie.
     - Podamos construir outra cerca - sugeriu Frebec.
     -. Como sabe que os bises no se voltaro  gua quando alcanarem a cerca? - perguntou Ayla.
     Frebec a olhou com expresso protetora, mas Talut falou antes dele.
     - Uma boa pergunta, Ayla. Alm disso, no resta muito material aqui por perto para a construo de cercas.
     Frebec enviou um olhar sombrio de clera a Ayla. Sentiu como se ela o tivesse feito parecer estpido.
     - Qualquer coisa que pudssemos construir para impedir a sua passagem seria til, mas acho que algum precisa estar l para gui-los para o cercado. Pode ser 
uma posio perigosa - continuou Talut.
     - Eu ficarei.  um bom lugar para usar este arremessador de lanas sobre o qual lhes tenho falado - disse Jondalar, mostrando o implemento incomum. - No apenas 
faz uma lana alcanar distncia maior, como tambm d mais fora  lana do que quando  atirada de forma manual. 
     Com pontaria correta, a lana pode matar instantaneamente, a curta distncia.
     -  verdade? - perguntou Talut, olhando Jondalar com interesse renovado. - Teremos que falar mais sobre isso depois, mas, sim, se desejar, pode assumir essa 
posio. Acho que tambm irei.
     - E eu tambm - murmurou Ranec.
     Jondalar franziu a testa para o homem escuro, sorridente. No estava certo de querer assumir uma posio com o homem que, to obviamente, se interessava por 
Ayla.
     - Eu tambm ficarei aqui - disse Tulie. - Mas, em vez de tentar construir outra cerca, devamos fazer pilhas separadas para cada um de ns se colocar atrs.
     - Ou correr para trs delas - gracejou Ranec. - O que a faz pensar que eles no acabaro nos caando?
     - Por falar em caar, agora que decidimos o que fazer quando chegarem aqui, como vamos trazer os animais para c? - perguntou Talut, lanando um olhar para 
a localizao do sol no cu. -  uma longa caminhada para nos colocarmos atrs deles. Talvez escurea antes de conseguirmos.
     Ayla estivera ouvindo com mais do que interesse. Recordava-se dos homens do Cl traando planos para caar, e especialmente depois que ela comeara a caar 
com sua funda, desejosa, muitas vezes, de ser includa. Desta vez, ela era um dos caadores. Notou que Talut dera ouvidos ao seu comentrio anterior e lembrou como 
eles tinham aceitado prontamente seu oferecimento de explorar adiante deles. Isso a encorajou a fazer outra sugesto.
     - Whinney  boa caadora - falou. - Cacei rebanhos, muitas vezes, montada em Whinney. 
     Posso dar a volta pelos bises, encontrar Barzec e os outros, perseguir os animais trazendo-os logo para c. Vocs esperam, empurram os bises para o curral.
     Talut olhou para os caadores depois de fitar Ayla, e olhou-a de novo em seguida.
     - Tem certeza de que pode fazer isso?
     - Tenho.
     - E dar a volta ao redor deles? - perguntou Tulie. - Provavelmente, j perceberam que estamos aqui e a nica razo por que no se foram  que Barzec e os jovens 
os esto mantendo encurralados. Mas por quanto tempo sero capazes de conter os animais? Voc no os levar pelo caminho errado se for na direo deles deste ponto?
     - Acho que no. Cavalo no perturba muito o biso, mas darei a volta, se quiserem. Cavalo anda mais depressa que vocs - disse Ayla.
     - Ela tem razo! Ningum pode neg-lo. Ayla poderia dar a volta mais depressa a cavalo do que ns caminhando - disse Talut, depois franziu atesta, pensativo. 
- Acho que devemos deix-la fazer do jeito que quer, Tulie. Importa, realmente, o sucesso desta caada? Ajudaria, principalmente, se o inverno for duro e prolongado, 
e nos daria mais variedade, porm temos estoque suficiente, na verdade. No sofreramos se o resultado no fosse bom nesta caada.
     -  verdade, mas tivemos bastante trabalho.
     - No seria a primeira vez em que teramos muito trabalho e voltaramos de mos vazias. - Talut fez outra pausa. - A pior coisa que pode acontecer  perdermos 
a manada. Se der certo, poderemos festejar comendo biso antes de escurecer e estar de regresso de manh.
     Tulie concordou com um gesto de cabea.
     - Muito bem, Talut. Tentaremos do seu modo.
     - Quer dizer, do modo de Ayla. V em frente, Ayla. Veja se consegue trazer os bises para c.
     Ayla sorriu e assobiou para Whinney. A gua relinchou e galopou em direo  mulher, seguida por Racer.
     - Jondalar, mantenha Racer aqui - disse ela, e correu para a gua.
     - No esquea seu arremessador de lanas - gritou ele.
     Ela parou para peg-lo e a algumas lanas do porta lanas ao lado de sua mochila. Depois, com um movimento treinado e hbil, saltou para o dorso do animal e 
partiu. Durante algum tempo Jondalar teve as mos ocupadas com o potro, que no gostava de ser impedido de reunir-se  sua me num galope excitante. Foi bom. No 
deu tempo a Jondalar de ver a expresso no rosto de Ranec enquanto observava Ayla partir.
     A mulher, montada em plo, cavalgou diligentemente ao longo da plancie aluvial ao lado do rio agitado, impetuoso, que serpenteava em um corredor sinuoso, ladeado 
por encostas onduladas e escarpadas de ambos os lados. Galhos nus encobertos por feno seco agarravam-se s encostas e se curvavam nos picos ventosos, suavizando 
a aparncia alcantilada da terra, mas, escondido sob a camada superficial do solo, atingida pelo vento que enchia as rachaduras, encontrava-se um ncleo de pedra. 
Salincias expostas de leito de rocha firme, juncando os declives, revelavam a caracterstica essencial de granito da regio, dominada por outeiros majestosos que 
alcanavam os cumes rochosos, nus, dos afloramentos protuberantes.
     Ayla reduziu a marcha quando se acercou da rea onde antes vira os bises, naquele dia, mas eles no se encontravam ali. Tinham sentido ou ouvido a atividade 
de construo e mudaram de rumo. 
     Ela os viu exatamente quando se movia  sombra de um dos afloramentos, projetada pelo sol da tarde e, bem alm do pequeno rebanho, viu Barzec de p, prximo 
ao que parecia ser um pequeno marco.
     O capim mais verde entre as rvores nuas, esguias, perto da gua, havia induzido os animais a ir para o vale estreito, mas do momento em que atravessavam os 
afloramentos gmeos que ladeavam o rio, no existia outra sada seno a entrada. Barzec e os jovens caadores tinham visto a manada enfileirada ao longo do rio, 
parando ainda para pastar de vez em quando, avanando, porm, com firmeza. Tinham perseguido a manada, de volta, at ali, mas isso detinha os animais apenas temporariamente 
e fazia com que se agrupassem e se movessem com mais determinao quando tentassem deixar o vale da prxima vez. Determinao e frustrao podiam levar ao estouro.
     Os quatro tinham sido enviados para impedir que os animais partissem, mas sabiam que jamais controlariam um estouro da boiada. No podiam continuar a persegui-los 
ali. Era preciso muito esforo para cont-los e Barzec tampouco queria que houvesse um estouro na direo oposta, antes de o curral estar pronto. O monte de pedras 
prximo ao local onde Barzec estava de p, quando Ayla o viu pela primeira vez, encontrava-se empilhado ao redor de um galho resistente. Uma pea de roupa estava 
amarrada a ele e oscilava ao vento. Ento, ela viu mais alguns montes de pedras sustentando galhos ou ossos verticais, a intervalos bastante pequenos entre o afloramento 
e o rio, e em cada um se encontrava pendurada uma pele de dormir ou uma pea de roupa ou ainda a cobertura de uma tenda. Tinham usado at pequenas rvores e arbustos, 
qualquer coisa onde pudessem pendurar algo que se movesse ao vento.
     Os bises espiavam nervosamente as estranhas aparies, incertos sobre quo ameaadoras eram.
     No queriam voltar por onde tinham vindo, mas tampouco queriam avanar mais.
     Esporadicamente, um biso movia-se em direo s coisas, depois recuava quando elas balanavam ao vento. Estavam bloqueados exatamente no local em que Barzec 
os queria. Ayla ficou impressionada com a idia inteligente.
     Fez Whinney avanar devagar, perto do afloramento, tentando dar lentamente a volta ao redor da manada, para no perturbar o delicado equilbrio. Observou a 
velha vaca com o chifre quebrado avanando com hesitao. No estava gostando de ser retida e parecia pronta para escapar.
     Barzec viu Ayla, olhou para trs de si em busca do resto dos caadores e depois voltou a fix-la, a testa enrugada. Depois de todos os seus esforos, no queria 
que ela perseguisse os bises pelo caminho errado. Latie acercou-se dele e falaram em voz baixa, mas ele ainda observava a mulher e a gua com apreenso, at que 
ela os alcanou.
     - Onde esto os outros? - perguntou Barzec.
     - Esto esperando - retrucou Ayla.
     - Esperando o qu? No podemos manter estes bises aqui para sempre!
     - Esperam que ns os persigamos.
     - Como vamos faz-lo? No somos suficientemente numerosos! Eles esto se preparando para fugir. No sei por quanto tempo mais conseguiremos mant-los aqui, 
muito menos lev-los ao cercado. Faramos com que houvesse um estouro.
     - Whinney os levar - disse Ayla.
     - A gua levar os bises!
     - Ela j o fez antes, mas  melhor ajudarem, tambm.
     Danug e Druwez, que se tinham afastado para vigiar a manada, atirando pedras nalgum animal que ousava, por acaso, enfrentar as sentinelas esvoaantes, aproximaram-se 
para ouvir. No ficaram menos espantados que Barzec, mas sua vigilncia reduzida abriu uma oportunidade e ps fim  conversa.
     Com o canto do olho, Ayla viu um touro novo e grande saltar, seguido por vrios outros. Num instante, todos estariam perdidos enquanto o rebanho enclausurado 
se libertava. Ela fez Whinney girar, largou sua lana e arremessador de lanas e foi atrs do animal, agarrando a tnica oscilante e puxando-a do galho, no caminho.
     Correu diretamente ao animal, inclinando-se, acenando-lhe com a tnica. O biso se esquivou, tentando dar a volta. Whinney girou de novo enquanto Ayla batia 
com o couro na cara do touro novo. O prximo movimento de fuga do animal o fez voltar para o vale estreito e para a trilha dos animais que tinham seguido seu comando, 
com Whinney e Ayla, agitando a tnica de couro, bem atrs dele.
     Outro animal fugiu, mas Ayla conseguiu fazer com que voltasse tambm. Whinney parecia saber, quase antes de o biso agir, o que ele tentaria em seguida, mas 
eram tanto os sinais inconscientes da mulher para o animal, quanto o sentido intuitivo da gua, que a colocavam no caminho do biso peludo. O treinamento de Whinney 
por Ayla no fora um esforo consciente no incio. Na primeira vez em que ela montou a gua foi por puro impulso e nenhum pensamento de controle ou comando passou 
por sua cabea. Havia acontecido aos poucos,  medida que a compreenso mtua crescia e o controle era exercido pela tenso de suas pernas e mudanas sutis de posio 
do corpo. Embora, eventualmente, ela comeasse a aplicar isso de propsito, havia sempre um elemento adicional de interao entre mulher e gua, e muitas vezes moviam-se 
como um nico ser, como se dividissem uma s mente.
     No instante em que Ayla se moveu, os outros entenderam a situao e correram para deter o rebanho. Ayla havia caado animais de rebanho com Whinney no passado, 
mas no teria sido capaz de fazer os bises darem meia-volta sem ajuda. Os grandes animais encurvados eram muito mais difceis de controlar do que ela imaginara. 
Tinham sido detidos e ela jamais tentara conduzir animais a um local aonde no desejavam ir. Era quase como se algum instinto os prevenisse sobre a cilada que os 
esperava.
     Danug correu para ajudar Ayla, para forar os primeiros animais a saltar a darem meia-volta, embora ela se concentrasse tanto em deter o touro novo que mal 
notou sua presena a princpio.
     Latie viu um dos bezerros gmeos fugir e, arrancando o galho da pilha de pedras, correu para obstruir o caminho. Ela golpeou-lhe o focinho e forou-o a recuar, 
enquanto Barzec e Druwez atacavam uma vaca com pedras e uma pele oscilante. Afinal, seus esforos determinados puseram fim ao estouro incipiente. A velha vaca com 
o chifre partido e alguns outros animais conseguiram fugir, mas a maioria do rebanho se arrastou ao longo da plancie aluvial do riacho, subindo a corrente.
     Eles respiraram um pouco aliviados quando o pequeno rebanho estava alm dos afloramentos de granito, mas precisavam mant-lo avanando. Ayla parou somente o 
tempo suficiente para descer da gua, pegar sua lana e arremessador de lanas, e saltar sobre o animal novamente.
     Talut havia tomado um gole de seu saco de gua quando pensou ouvir um rudo surdo, como um trovo abafado. Ergueu a cabea para rio abaixo e ouviu com ateno 
durante alguns instantes, no esperando escutar nada to cedo, incerto de esperar ouvir alguma coisa, afinal. Inclinou o rosto e colocou o ouvido ao solo.
     - Esto vindo! - gritou, levantando-se de um salto.
     Todos se misturaram para apanhar suas lanas e correram para os locais que haviam resolvido ocupar. Frebec, Wymez, Tornec e Deegie espalharam-se pela encosta 
escarpada de um lado, prontos para investir por trs e bloquear a porteira fechada. Tulie se encontrava mais perto da porteira aberta, do lado oposto, pronta para 
fech-la assim que os bises estivessem dentro do curral.
     No espao entre o curral e o rio impetuoso, Ranec se encontrava a alguns passos de Tulie, e Jondalar, mais alguns passos adiante, quase  margem do rio. Talut 
escolheu um local um pouco  frente do visitante e permaneceu de p na margem mida. Cada pessoa tinha um pedao de Couro ou roupa para agitar diante dos animais 
que se acercavam, com esperana de faz-los virar para um lado, mas todos tambm erguiam uma lana, giravam-na no ar levemente, depois a agarravam com firmeza ao 
redor do fuste, e mantinham-na em posio - com exceo de Jondalar.
     O implemento estreito, liso, de madeira, que segurava na mo direita tinha quase o comprimento do seu brao, do cotovelo s pontas dos dedos, e acanelado no 
centro. Tinha um gancho como escora numa extremidade e duas alas de couro, de ambos os lados, para seus dedos, na extremidade dianteira. Ele o segurava horizontalmente, 
e ajustou a ponta emplumada de uma haste de lana leve, coroada com uma ponta de osso muito aguada e comprida, contra o gancho na parte posterior do arremessador 
de lanas. Mantendo a lana no lugar com seus dois primeiros dedos que atravessavam as alas, enfiou seu pedao de couro no cinto e pegou uma segunda lana com a 
mo esquerda, pronto para coloc-la rapidamente no lugar para um segundo arremesso.
     Ento, esperaram. Ningum falava e, na expectativa silenciosa, pequenos sons se avolumavam. 
     Aves trinavam e cantavam. O vento sussurrava nos galhos secos. A gua cascateando sobre as rochas salpicava e gorgolejava. As moscas zuniam. O rudo surdo de 
cascos em disparada crescia.
     Depois, podiam-se ouvir gritos, roncos e resmungos acima do estrondo que se acercava, e vozes humanas berrando. Os olhos se esforaram para ver sinais do primeiro 
biso na curva, rio abaixo, mas quando ele chegou, no era apenas um. De repente, toda a manada avanava pesadamente pela curva e os animais grandes, peludos, marrons-escuros 
com chifres longos, negros, mortferos, debandavam diretamente na direo deles.
     Cada pessoa se preparou, esperando o ataque. Na frente estava o grande e jovem touro que quase havia saltado para salvar-se antes de a longa perseguio comear. 
Ele viu o cercado  frente e virou em direo  gua - e aos caadores em seu caminho.
     Ayla, bem nos calcanhares do pequeno rebanho, estivera segurando seu arremessador de lanas frouxamente enquanto perseguiam os animais, mas, quando se aproximaram 
da ltima curva, ela o colocou em posio, sem saber o que esperar. Viu o touro mudar de rumo... E dirigir-se diretamente para Jondalar. Outros bises o seguiam.
     Talut correu para o animal sacudindo uma tnica, mas o biso de crina abundante j estava farto de coisas agitadas  sua frente, e no seria detido. Sem pensar 
de novo, Ayla inclinou-se  frente e apressou Whinney para um galope a toda velocidade. Desviando-se e passando por outros animais que corriam, ela se acercou do 
grande touro e arremessou sua lana exatamente quando Jondalar atirava a sua. Uma terceira lana foi arremessada ao mesmo tempo.
     A gua moveu-se com estardalhao passando pelos outros caadores, salpicando Talut quando seus cascos atingiram a margem do rio. Ayla reduziu a marcha do animal 
e parou; depois voltou rapidamente. Ento, estava acabado. O grande biso se encontrava no solo. Os que vinham atrs dele diminuram a corrida, e os que se encontravam 
mais perto da encosta no tinham outro local para ir seno o curral. Depois de o primeiro atravessar a abertura, os outros o seguiram com pouco estmulo. Tulie acompanhou 
o ltimo animal extraviado e fechou a porteira. E quando se fechou, Tornec e Deegie empurraram uma grande pedra contra ela. Wymez e Frebc a prenderam a escoras 
verticais seguras, enquanto Tulie empurrava outra grande pedra para o lado da primeira.
     Ayla desmontou de Whinney, ainda um pouco trmula. Jondalar estava ajoelhado ao lado do touro com Talut e Ranec.
     - A lana de Jondalar entrou no lado do pescoo e atravessou a garganta. Acho que teria matado este touro por si s, mas sua lana tambm poderia ter feito 
isso, Ayla. Nem sequer vi voc vindo - disse Talut apenas um pouco espantado com sua proeza. - Sua lana penetrou profundamente nas costelas do animal.
     - Mas foi uma coisa perigosa, Ayla. Voc poderia ter sido ferida - disse Jondalar. Suava zangado, mas era a reao do medo que sentira por Ayla ao compreender 
o que ela tinha feito. 
     Depois, olhou Talut e apontou para uma terceira lana. - De quem  esta lana? Foi bem atirada, penetrou fundo no peito. Tambm teria detido o animal.
     -  de Ranec - disse Talut.
     Jondalar se virou para o homem de pele escura e os dois se examinaram mutuamente. Diferenas que talvez tivessem, e rivalidades, poderiam faz-los discutir, 
mas em primeiro lugar eram humanos, homens que dividiam um mundo belo, mas duro, primitivo, e sabiam que a sobrevivncia de pendia de ambos.
     - Devo-lhe agradecimentos - falou Jondalar. - Se minha lana tivesse errado o alvo, eu lhe estaria agradecendo por minha vida.
     - Somente se a lana de Ayla tambm falhasse. Esse biso foi morto trs vezes. No tinha chance alguma avanando contra voc. Parece que seu destino  viver. 
Tem sorte, meu amigo; a Me deve favorec-lo. Tem sorte assim em tudo? - perguntou Ranec, olhando depois para Ayla com expresso de admirao, de muita admirao.
     Ao contrrio de Talut, Ranec a tinha visto aproximar-se. Indiferente ao perigo de chifres longos e aguados, o cabelo esvoaante, os olhos cheios de terror 
e raiva, dominando a gua como se fosse uma extenso de si prpria, era como um esprito vingador, ou como toda me de todo ser vivo que j havia defendido seus 
filhos. No lhe parecia importar que tanto ela quanto a gua pudessem ser facilmente feridas pelos chifres. Era quase como se ela fosse o Esprito da Me, que era 
capaz de controlar o biso to facilmente quanto ela dominar a gua. Ranec jamais havia visto algo como ela. Ayla era tudo o que ele j desejara: bonita, forte, 
destemida, carinhosa, protetora. Era toda mulher.
     Jondalar viu como Ranec olhou-a e suas entranhas se retorceram. Como Ayla poderia no perceber? Como poderia no responder? Ele temia perd-la, talvez para 
o excitante homem moreno, e no sabia o que fazer a respeito. Rangendo os dentes, a testa enrugada com raiva e frustrao, deu meia-volta, tentando esconder seus 
sentimentos.
     Ele tinha visto homens e mulheres reagirem como ele estava fazendo e sentira piedade por eles, e algum desprezo. Era o comportamento de uma criana, uma criana 
inexperiente, sem conhecimento e saber das coisas do mundo. Pensou que estava alm daquilo. Ranec agira para salvar sua vida, e ele era um homem. Podia culp-lo 
por se sentir atrado por Ayla? No tinha ela o direito de fazer sua escolha? Ele se odiou por sentir o que sentia, mas nada podia fazer. Jondalar arrancou sua lana 
do biso e se afastou.
     A matana j havia comeado. De trs da segurana da cerca, os caadores atiravam lanas aos animais que se inclinavam, berrando, e confusos, dando voltas pelo 
cercado-armadilha. Ayla subiu na cerca, encontrando um local conveniente para ficar, e viu Ranec arremessar uma lana com fora e preciso. Uma grande vaca cambaleou 
e caiu de joelhos. Druwez atirou outra, contra o mesmo animal, e de outra direo - ela no tinha certeza de quem atirou - veio ainda uma terceira. O animal peludo, 
encurvado, tombou e a cabea ferida caiu sobre seus joelhos. Ela compreendeu que os arremessadores de lana no eram uma vantagem ali. Os homens tinham um mtodo 
bastante eficaz com lanas atiradas manualmente.
     De repente, um touro investiu contra a cerca, chocando-se nela com a fora de toneladas. A madeira lascou, pedaos se soltaram e as escoras verticais deslocaram-se. 
Ayla pde sentir a cerca tremendo e saltou para o solo, mas o tremor no cessou. Os chifres do biso estavam presos! Ele fazia toda a estrutura estremecer em seus 
esforos para libertar-se. Ayla pensou que a cerca ia se partir.
     Talut subiu na porteira trmula e, com um golpe de seu grande machado, abriu o crnio do forte animal. O sangue jorrou e os miolos saltaram. O biso se inclinou 
e, com seus chifres ainda presos, puxou a porteira enfraquecida e Talut para o cho com ele.
     O grande chefe se afastou agilmente da estrutura que caa quando ela alcanou o solo, deu alguns passos e desferiu outro golpe abrindo o crnio do ltimo biso 
ainda de p. A porteira havia servido para o seu propsito.
     - Agora, vem o trabalho - disse Deegie, gesticulando em direo ao espao cercado pela porteira improvisada. Animais cados espalhavam-se ao redor, como montculos 
de l marrom-escura. Ela caminhou para o primeiro, tirou da bainha sua faca de slex, afiada como navalha e, abrindo-lhe a cabea, cortou-lhe a garganta. Sangue 
vermelho vivo esguichou da jugular, depois diminuiu e fez uma poa de tom vermelho-escuro ao redor da boca e nariz. Afundou lentamente no solo em um crculo que 
se alargava, manchando a terra parda de negro.
     - Talut! - gritou Deegie, quando chegou ao monte seguinte de pele marrom-escura. A lmina da comprida lana saindo do flanco do animal ainda estremecia. - Venha 
acabar com a dor deste aqui, mas tente salvar parte dos miolos desta vez. Quero us-los. - Talut liquidou rapidamente o animal sofredor.
     Depois veio o trabalho sangrento de destripar, tirar a pele e talhar. Ayla se reuniu a Deegie e ajudou-a a virar uma grande vaca para desnudar seu lado inferior 
tenro. Jondalar caminhou at elas, mas Ranec estava mais prximo e chegou primeiro. Jondalar observou, perguntando-se se precisariam de ajuda ou se uma quarta pessoa 
iria apenas atrapalhar.
     Comeando pelo nus, cortaram do estmago at a garganta, retirando os beres cheios de leite. 
     Ayla segurou de um lado e Ranec do outro para dilacerar a caixa torcica. Ela se abriu com um estalo e, depois, com Deegie quase subindo ao interior da cavidade 
ainda quente, extraram os rgos internos - estmago, intestinos, corao, fgado. Foi feito rapidamente, de forma que os gases intestinais, que breve comeariam 
a inchar a carcaa, no contaminassem a carne. Em seguida, comearam a trabalhar na pele.
     Era evidente que no precisavam de ajuda. Jondalar viu Latie e Danug lutando com a caixa torcica de um animal menor. Deu uma cotovelada em Latie, afastando-a 
para um lado, e com as duas mos abriu a caixa com um forte rasgo encolerizado. Mas talhar era trabalho duro e, quando estavam prontos para destripar, o esforo 
havia abrandado sua raiva.
     Ayla no desconhecia o processo, havia feito aquilo sozinha, muitas vezes. A pele no era to cortada quanto arrancada. Uma vez cortada e solta ao redor das 
pernas, separava-se bastante facilmente do msculo, e era mais eficaz e limpo segur-la e arranc-la com fora do interior, ou pux-la. Onde havia um ligamento preso 
e era fcil cortar, usavam uma faca especial de estripar com um cabo de osso e uma lmina de slex aguada nos dois fios, mas arredondada e rombuda na ponta para 
no perfurar a pele. Ayla estava to habituada a utilizar ferramentas e facas seguras diretamente com as duas mos, que se sentia desajeitada usando uma lmina com 
cabo, embora j pudesse dizer que teria melhor controle e ao quando se acostumasse a ela.
     Os tendes das pernas e costas foram extrados; tinham grande variedade de usos, desde fio para costurar, at laos. A pele se tornaria objetos ou roupas de 
pele e couro. A crina longa, emaranhada, transformar-se-ia em corda e cordame de vrios tamanhos e em rede para pescar, ou pegar pssaros, ou pequenos animais em 
sua estao. Todos os crebros eram guardados, assim como vrios cascos, para serem fervidos com os ossos e pedaos de pele para grude. Os grandes chifres, que tinham, 
s vezes, 1 ,82m eram considerados de grande valor. As extremidades slidas que se estendiam por um tero do seu comprimento podiam ser usadas como alavancas, pregos, 
sovelas, cunhas e adagas. A poro oca com a extremidade slida perifrica removida transformava-se em tubos cnicos utilizados para avivar fogos, ou funis para 
encher bolsas de pele com lquidos, ps ou sementes, e para esvazi-las de novo. Uma parte central, com alguma poro slida intacta para fazer um fundo, podia servir 
como xcara. Segmentos transversais estreitos podiam-se tornar fivelas, braceletes e anis.
     Os focinhos e lnguas do biso eram reservados - iguarias selecionadas. Juntamente com os fgados. Depois, as carcaas eram cortadas em seis pedaos: dois traseiros, 
dois dianteiros, a parte do meio pela metade, e o grande pescoo. Os intestinos, estmagos e bexigas eram levados e enrolados em peles. Mais tarde, seriam enchidos 
de ar para que no encolhessem e depois usados para cozinhar ou recipientes para estoque de gorduras ou lquidos, ou bias para redes de pesca. Toda parte do animal 
era utilizada, mas nem todas as partes de todo animal eram levadas, somente as selecionadas e mais teis. 
     Somente uma quantidade que podia ser carregada.
     Jondalar havia levado Racer at metade da trilha ngreme e, para infelicidade do potro, o amarrara seguramente a uma rvore para mant-lo fora do caminho, e 
de perigo. Whinney o encontrou assim que os bises foram encurralados e Ayla deixou-a ir. Jondalar foi buscar o potro depois de acabar de ajudar Latie e Danug com 
o primeiro biso, mas Racer estava assustado ao redor de todos os animais mortos. Whinney tampouco gostava daquilo, porm estava mais acostumada. Ayla os viu se 
aproximarem e observou Barzec e Druwez descendo o rio de novo, e lhe ocorreu que na pressa de fazer os bises se voltarem e de persegui-los at o cercado, suas mochilas 
tinham sido abandonadas. Ela foi atrs deles - Barzec, vai buscar as mochilas? - interrogou.
     Ele lhe sorriu.
     - Vou. E as roupas que sobraram. Partimos com tanta pressa... No que eu lamente Se voc no os tivesse feito virar quando o fez, ns teramos perdido os animais, 
com certeza. Foi um truque e tanto que fez com aquele cavalo. Eu no teria acreditado, se no houvesse visto, mas estou preocupado em abandonar tudo l. Todos estes 
bises mortos vo trazer os animais carnvoros que estejam por perto. Vi rastros de lobo enquanto espervamos, e pareciam recentes. Os lobos adoram mastigar couro 
quando o encontram. Os carcajus tambm, e ficaro irritados por isto, mas os lobos s o fazem pela diverso.
     - Posso ir buscar as roupas e mochilas a cavalo - disse Ayla.
     - No pensei nisso! Depois que terminarmos haver muita comida, mas no quero deixar de lado nada que eu no queira que eles comam.
     - Escondemos os fardos, lembra? - disse Druwez. - Ela jamais os encontrar.
     -  verdade - falou Barzec. - Acho que ns mesmos teremos que ir.
     - Druwez sabe onde encontrar? - perguntou Ayla.
     O garoto olhou para Ayla e sacudiu a cabea afirmativamente.
     Ayla sorriu:
     - Quer vir a cavalo comigo?
     O rosto do menino abriu-se em largo sorriso.
     - Posso?
     Ela olhou para Jondalar e seus olhos se cruzaram. Ento, ela lhe acenou para que trouxesse os cavalos. Ele se apressou.
     - Vou levar Druwez e pegar as trouxas e coisas que abandonaram quando comeamos a caada - disse Ayla, falando Zelandonii. - Deixarei Racer ir tambm. Uma boa 
corrida talvez o acalme. Os cavalos no gostam de animais mortos. Foi difcil para Whinney no incio tambm. Voc tinha razo sobre conservar o cabresto nele, mas 
devemos comear a pensar em ensin-lo a ser como Whinney
     Jondalar sorriu:
     -  uma boa idia, mas como far isto?
     - No sei. - Ayla franziu a testa. Whinney faz coisas para mim porque ela quer, porque somos boas amigas, mas no sei em relao a Racer.
     Ele gosta de voc, Jondalar. Talvez faa coisas para voc. Acho que ns dois devemos tentar.
     - Quero tentar - disse ele. - Gostaria de ser capaz de montar Racer, um dia, como voc cavalga Whinney.
     - Eu tambm gostaria disso, Jondalar - disse ela, recordando, com o clido sentimento do amor que sentira mesmo assim, como ela esperara antes que, se o homem 
louro dos Outros viesse a gostar do filho de Whinney, talvez isto o encorajasse a ficar no vale, com ela. Foi por isso que ela lhe pedira para dar nome ao potro.
     Barzec estivera esperando enquanto os dois estrangeiros falavam na lngua estranha que ele no compreendia, impacientando-se um pouco. Afinal, disse:
     - Bem, se vocs vo buscar as coisas, eu voltarei e ajudarei com os bises.
     - Espere um momento. Auxiliarei Druwez a montar e irei com voc - falou Jondalar.
     Ambos ajudaram o menino a montar, e ficaram parados observando-os se afastar.
     As sombras j se alongavam quando voltaram e os dois correram para ajudar. Mais tarde, enquanto lavava os compridos canais intestinais  margem do riacho, Ayla 
se lembrou de estripar e talhar animais com as mulheres do Cl. De repente, ela compreendeu que aquela era a primeira vez que caara como um membro aceito de um 
grupo de caadores.
     Mesmo quando era jovem, quisera ir com os homens, embora soubesse que as mulheres eram proibidas de caar. Mas os homens eram to respeitados por sua habilidade, 
e faziam a caa parecer to excitante, que ela sonhava que era uma caadora, especialmente quando queria escapar de uma situao desagradvel ou difcil. Esse foi 
o comeo inocente que levou-a a situaes muito mais difceis do que ela imaginara. Depois de receber permisso para caar com uma funda, embora outro tipo de caada 
continuasse sendo proibida, muitas vezes ela havia prestado ateno, em silncio, quando os homens discutiam a estratgia de caa. Os homens do Cl quase nada faziam 
a no ser caar - exceto discutir caadas, fabricar armas de caa e participar de rituais de caa. As mulheres do Cl destripavam e cortavam os animais, preparavam 
as peles para vestimentas e roupas de cama, preservavam e cozinhavam a carne, alm de fazer os recipientes para guard-la, cordas, capachos e vrios objetos domsticos, 
e de colher vegetais para a alimentao, medicamentos e outras utilidades.
     O cl de Brun tinha mais ou menos o mesmo nmero de pessoas que o Acampamento do Leo, mas os caadores raramente matavam mais de um ou dois animais de uma 
s vez. Conseqentemente, tinham que caar seguidamente. Naquela poca do ano, os caadores do Cl ficavam fora quase o dia inteiro para conseguir o mximo que pudessem 
estocar para o inverno prximo. Desde que ela chegara, aquela era a primeira vez que algum do Acampamento do Leo havia caado e, embora ela refletisse a respeito, 
ningum mais parecia preocupado com o assunto. Ayla fez uma pausa para fitar os homens e mulheres destripando e cortando um pequeno rebanho. Com duas ou trs pessoas 
trabalhando juntas em cada animal, o trabalho era realizado mais depressa do que Ayla julgara possvel. Isso a fez pensar sobre as diferenas entre eles e o Cl.
     As mulheres Mamutoi caavam; isso significava, pensou Ayla, que havia mais caadores. Era verdade que nove caadores eram homens e somente quatro eram mulheres 
- mulheres grvidas raramente caavam -, mas fazia diferena. Podiam caar mais eficazmente com mais caadores, exatamente como podiam preparar e cortar mais eficientemente 
com todos trabalhando juntos.
     Fazia sentido, mas ela achava que havia algo mais implcito, um ponto especial que ela no percebia, um significado fundamental que devia aprender. Os Mamutoi 
tinham uma maneira diferente de pensar, tambm. No eram to rigorosos, to limitados por normas do que era considerado adequado, e do que havia sido feito antes. 
Havia uma confuso de papis, o comportamento de homens e mulheres no era to rigidamente definido. Parecia depender mais da tendncia pessoal, e do que funcionava 
melhor.
     Jondalar havia-lhe contado que entre seu povo ningum era proibido de caar e, embora a caa fosse importante e a maioria das pessoas caasse, ao menos quando 
eram jovens, no se exigia que ningum caasse. Aparentemente, os Mamutoi possuam costumes semelhantes. Ele tentara explicar que sua gente talvez tivesse outras 
aptides e habilidades que eram igualmente valiosas e usou a si mesmo como exemplo. Depois de ter aprendido a quebrar o slex, e criado fama por ser um arteso capaz, 
conseguiu negociar suas ferramentas e pontas aguadas por qualquer coisa de que necessitasse. No era preciso que caasse, de modo algum, a no ser que quisesse.
     Mas Ayla no havia compreendido bem. Que tipo de cerimnia de masculinidade tinham, se no importava se um homem caasse ou no? Os homens do Cl ficariam perdidos 
se no acreditassem que caar era essencial para eles. Um menino no se tornava um homem at matar seu primeiro grande animal. Ento, pensou em Creb. Ele jamais 
caara. No podia caar, no tinha um olho, e um brao, e era coxo. Fora o grande Mog-ur, o maior homem santo de cerimnia da masculinidade.
     Em seu ntimo, no era um homem. Mas ela sabia que ele era.
     Embora j fosse hora do crepsculo quando terminaram, nenhum dos caadores salpicados de sangue hesitou em se despir e se dirigir ao rio. As mulheres tomaram 
banho rio acima, um pouco separadas dos homens, mas podiam-se ver mutuamente. Peles enroladas e carcaas partidas tinham sido fincadas juntas, e vrias fogueiras 
foram acesas para manter afastados os predadores quadrpedes e animais necrfagos. A madeira lanada  margem do rio, as rvores derrubadas e a madeira verde utilizada 
na construo da cerca estavam empilhadas perto. Um peso de carne com osso assava em um espeto sobre uma das pilhas, e vrias tendas baixas espalhavam-se ao redor.
     A temperatura caiu rapidamente quando a escurido os envolveu. Ayla ficou contente pelas roupas mal combinadas e mal-ajustadas que Tulie e Deegie lhe emprestaram 
enquanto seu traje, que ela havia lavado para tirar as manchas de sangue, secava perto de uma fogueira juntamente a vrios outros. Ela passou algum tempo com os 
cavalos, certificando-se de que estavam  vontade e calmos. Whinney permaneceu exatamente na extremidade de luz da fogueira onde a carne assava, mas to longe quanto 
possvel das carcaas, que esperavam para ser transportadas de volta  habitao comunal, e da pilha de restos alm da rea protegida pelo fogo, de onde se ouviam, 
ocasionalmente, rosnados e ganidos.
     Depois de os caadores comerem at se fartar o biso assado e dourado externamente e mal passado perto do osso, avivaram o fogo e sentaram-se ao redor, tomando 
ch de ervas quente, e conversavam.
     - Deviam ter visto como ela fez a manada mudar de rumo - dizia Barzec. - No sei quanto tempo mais poderamos ter contido os animais. Estavam ficando cada vez 
mais nervosos e eu estava certo de que os perderamos uma vez que aquele touro fugisse.
     - Acho que temos que agradecer a Ayla pelo sucesso desta caada - falou Tulie.
     Ayla corou com o elogio a que no estava acostumada, mas a timidez era responsvel apenas por parte do seu rubor. A sua aceitao e admirao de seus talentos 
e capacidade contidas no elogio a fizeram brilhar de entusiasmo. Ela esperara por essa aceitao a sua vida inteira.
     - E pensem que histria dar na Reunio de Vero! - exclamou Talut.
     A conversa se interrompeu. Talut pegou um galho seco, um pedao de rvore derrubada que permanecera tanto tempo no solo, que a casca pendia solta ao seu redor, 
como uma pele velha e desgastada. Ele o partiu em dois contra seu joelho e colocou os dois pedaos no fogo. Um giser de centelhas irrompeu, iluminando os semblantes 
das pessoas sentadas juntas ao redor das chamas.
     - As caadas nem sempre so to bem-sucedidas. Recordam-se daquela vez em que quase pegamos o biso branco? - perguntou Tulie. - Que pena ele ter fugido!
     - Aquele devia ser protegido. Eu estava seguro de que o pegvamos. J viu um biso branco? - perguntou Barzec a Jondalar.
     - Ouvi falar deles, e vi uma pele - replicou Jondalar. - Os animais brancos so sagrados para os Zelandonii.
     - As raposas e coelhos tambm? - interrogou Deegie.
     - Sim, mas no tanto. At ptrmigas o so, quando brancas. Acreditamos que significa que os animais foram tocados por Doni. Assim, aqueles que nascem brancos 
e permanecem brancos o ano inteiro so mais sagrados - explicou Jondalar.
     - Os brancos tm significado especial para ns tambm. E por isto que a Fogueira da Gara tem status to elevado... Em geral - disse Tulie, lanando um olhar 
a Frebec com uma ponta de desprezo. - A grande gara do norte  branca e aves so os mensageiros especiais de Mut. E mamutes brancos tm poderes especiais.
     - Jamais esquecerei a caada do mamute branco - disse Talut. Olhares ansiosos o encorajaram a prosseguir. - Todos estavam excitados quando o explorador relatou 
que vira a fmea.  a maior honra de todas para a Me nos dar uma fmea branca de mamute e, j que era a primeira caada de uma Reunio de Vero, significaria boa 
sorte para todos, se consegussemos ca-la - explicou aos visitantes. - Todos os caadores que quiseram participar da caada, tiveram que passar por provas de purificao 
e jejum para ter certeza de que ramos aceitveis, e a Fogueira do Mamute imps tabus a ns, mesmo depois, mas todos queramos ser escolhidos. Eu era jovem, no 
muito mais velho que Danug, mas era grande como ele . Talvez por isto eu tenha sido escolhido e fui um dos que acertaram uma lana nela. Como o biso que o perseguiu, 
Jondalar, ningum sabe de quem era a lana que matou a fmea. Acho que a Me no queria que nenhuma pessoa ou acampamento conseguisse grande honraria. A mamute fmea 
branca era de todos. Foi melhor assim. Sem inveja ou ressentimentos.
     - Ouvi falar de uma corrida de ursos brancos que vivem distante, ao norte - disse Frebec, no querendo ser deixado de lado na conversa. Talvez nenhuma pessoa 
ou acampamento pudesse assumir plenamente a faanha de ter matado a fmea branca, mas isso no excluiu toda inveja e ressentimentos. Qualquer pessoa escolhida para 
participar de tal caada ganhava mais status por esta nica caada do que o status com que Frebec nascera.
     - Tambm ouvi falar - disse Danug. - Quando eu estava na mina de slex, visitantes de Sungaea vieram negociar slex. Uma mulher era uma contadora de histrias, 
uma boa contadora de histrias. Ela falou sobre a Me do Mundo e os homens-cogumelo que seguem o sol  noite e muitos animais diferentes. Contou-nos sobre o urso 
branco. Vivem no gelo, disse ela, e comem animais marinhos apenas, mas dizem que so mansos, como o grande urso da caverna que no come carne. No como o urso pardo. 
Eles so perversos. - Danug no notou o olhar irritado que Frebec lhe lanava. Ele no tivera inteno de interromper, estava apenas satisfeito por tomar parte com 
algo para dizer.
     - Os homens do Cl voltaram da caada, uma vez, e contaram sobre o rinoceronte branco - disse Ayla. Frebec ainda estava irritado e olhou-a com raiva.
     - Sim, os brancos so raros - disse Ranec -, mas os pretos tambm so especiais. - Ele estava sentado afastado do fogo e mal se podia ver- lhe o rosto na sombra, 
exceto os dentes brancos e o brilho maroto nos olhos.
     - Voc  raro, sim, e est mais do que feliz em deixar toda mulher na Reunio de Vero, que quiser descobrir, saber o quanto voc  raro - comentou Deegie.
     Ranec riu:
     - Deegie, o que posso fazer se a Me tem filhas to curiosas? No gostaria que eu desapontasse ningum, no ? Mas, eu no falava de mim, pensava em felinos 
pretos.
     - Felinos pretos? .- perguntou Deegie.
     - Wymez, tenho uma vaga lembrana de um grande felino preto - disse ele, virando-se para o homem com quem dividia uma fogueira. - Sabe alguma coisa sobre isso?
     - Deve ter-lhe causado uma impresso muito forte. No pensei que se lembrasse - disse Wymez.
     - Era pouco mais que um beb, mas sua me gritou. Voc estava perambulando, um pouco afastado e, quando ela o viu, viu tambm um grande felino negro, como um 
leopardo da neve, somente preto, saltando de uma rvore. Acho que ela pensou que o animal ia peg-lo, mas ou o grito dela assustou o felino, ou ele no tinha essa 
inteno. Ele se afastou, mas ela correu at voc e passou-se muito tempo antes que o perdesse de vista novamente.
     - Havia muitos desses felinos negros onde voc esteve? - perguntou Talut.
     - No muitos, mas havia alguns por perto. Permaneciam nas florestas e eram caadores noturnos, portanto, difceis de ver.
     - Seriam to raros quanto os brancos daqui, no? Os bises so escuros e alguns mamutes tambm, mas no so realmente negros. Preto  especial. Quantos animais 
pretos existem? - indagou Ranec.
     - Hoje, quando fui com Druwez, vimos um lobo negro - disse Ayla.
     - Nunca tinha visto lobo negro antes.
     - Era negro, realmente? Ou apenas escuro? - interrogou Ranec, muito interessado.
     - Negro. Mais claro na barriga, mas preto. Lobo solitrio, eu acho - acrescentou Ayla. - No vi outros rastros. Em bando seria... Status inferior. Talvez tenha 
partido e encontre outro lobo solitrio e forme novo bando...
     - Status inferior? Como sabe tanto sobre lobos? - perguntou Frebec. Havia uma sombra de motejo em sua voz como se no quisesse acreditar nela, mas havia evidente 
interesse tambm.
     - Quando aprendi a caar, caava apenas animais carnvoros. Somente com funda. Eu observava de perto, muito tempo. Aprendi sobre lobos. Uma vez vi uma loba 
branca, em bando. Outros lobos no gostavam dela. Ela partiu. Outros lobos no gostam de lobo de cor errada.
     - Era um lobo negro - disse Druwez, querendo defender Ayla, especialmente depois da excitante cavalgada. - Tambm vi. No estava certo, a princpio, mas era 
um lobo, e era preto. E acho que estava sozinho.
     - Falando de lobos, devamos vigiar esta noite. Se h um lobo negro por perto, h ainda mais motivo para vigiar - disse Talut. - Podemos revezar, mas algum 
tem que ficar acordado e de vigia a noite toda.
     - Devamos ir descansar - falou Tulie, levantando-se. - Temos uma longa caminhada amanh.
     - Eu vigiarei primeiro - disse Jondalar. - Quando cansar posso acordar algum.
     - Pode me acordar - falou Talut e Jondalar concordou com um gesto de cabea.
     - Eu vigio tambm - disse Ayla.
     - Por que no vigia com Jondalar?  uma boa idia ter uma companhia para isso. Podem manter-se acordados, mutuamente.
     - Estava frio na noite passada. Esta carne est comeando a congelar - disse Deegie, prendendo um traseiro a um fardo.
     - Isso  bom - falou Tutie -, mas h mais do que podemos carregar. Teremos que deixar alguma carne.
     - No podemos construir um monte sobre ela com as pedras da cerca? - perguntou Latie.
     - Podemos, e deveramos, provavelmente, Latie.  uma boa idia - disse Tulie, preparando um fardo para si mesma que era to grande que Ayla se perguntou como 
ela, apesar de ser to forte, poderia carreg-lo.
     - Mas, talvez no voltemos para buscar a carne at a primavera, se o tempo mudar. Se fosse um local mais perto da moradia, seria melhor.
     Os animais no se aproximam tanto e poderamos vigiar, mas aqui, no descampado, se um leo de caverna ou mesmo um carcaju determinado quiser a carne, realmente, 
encontrar um meio de passar pelo monte de pedras.
     - No podemos derramar gua sobre ele para congelar? Isso manteria os animais afastados.  difcil penetrar atravs de um monte de pedras congelado mesmo com 
picaretas e enxadas - disse Deegie.
     - Manteria os animais afastados, sim, mas como evitaria o sol, Deegie? - perguntou Tornec. - No pode ter certeza de que continuar frio. A estao est muito 
no incio.
     Ayla ouvia e observava a pilha de pedaos de biso diminuir enquanto todos arrumavam o mximo que podiam carregar. Ela no estava acostumada a excesso, a ter 
tanto que se podia pegar e escolher e levar apenas o melhor. Sempre houvera alimento abundante quando ela vivia com o Cl, e mais do que peles suficientes para roupas, 
cobertas de cama e outros usos, mas pouco era desperdiado. Ela no estava certa de quanto seria deixado ali, mas tanto j havia sido atirado ao monte de sobras, 
que a incomodava pensar em abandonar mais, e era bvio que os outros tambm o quisessem.
     Observou Danug pegar o machado de Tulie, manejando-o com tanta facilidade quanto a mulher, partir uma tora em duas e acrescent-la  ltima fogueira que ainda 
ardia. Ela caminhou at ele.
     - Danug - disse, a voz baixa -, quer me ajudar?
     - Hum... Ah... Sim - balbuciou ele timidamente. A voz dela era to baixa e suave e seu sotaque incomum era to extico! Ela o pegara de surpresa; no a tinha 
visto aproximar-se, e ficar de p perto da bela mulher o aturdia, inexplicavelmente.
     - Preciso de... Duas toras - disse Ayla, erguendo dois dedos. - H rvores novas rio abaixo. Corte-as para mim?
     - Ah... Claro. Cortarei duas rvores para voc.
     Quando caminharam em direo  curva do riacho, Danug se sentiu mais relaxado, mas continuou abaixando os olhos para a cabea loura da mulher que caminhava 
a seu lado e apenas a meio passo  frente. Ela selecionou dois amieiros novos, eretos, de aproximadamente a mesma largura, e depois de Danug derrub-los, ela lhe 
ordenou para tirar os galhos e cortar as extremidades, de forma a que ficassem do mesmo comprimento. Ento, a maioria da timidez do jovem alto e forte havia desaparecido.
     - O que vai fazer com isto? - perguntou Danug.
     - Eu lhe mostro - disse ela, depois com um assobio alto, imperioso, chamou Whinney. A gua galopou em sua direo. Ayla havia-lhe colocado antes os arreios 
e cestos em preparao para a partida. Embora Danug achasse estranho ver uma manta de couro sobre o lombo de uma gua, e duas cestas amarradas com correias aos seus 
flancos, notou que o animal no parecia incomodado ou mais lento.
     - Como consegue que ela faa isto? - interrogou ele.
     - Faa o qu?
     - Vir at voc quando assobia.
     Ayla franziu a testa pensativa.
     - No estou certa, Danug. At Nenm chegar eu estava sozinha no vale com Whinney. Era a nica amiga que eu tinha. Cresceu comigo e aprendemos... Uma sobre a 
outra.
     - E verdade que fala com ela?
     - Aprendemos a nos conhecer, Danug. Whinney no fala como voc. Aprendi... Seus sinais... Seus movimentos. Ela aprendeu os meus.
     - Quer dizer, como os sinais de Rydag?
     - Um pouco. Animais, pessoas, todos tm sinais, at voc, Danug. Diz palavras, gestos dizem mais. Fala quando no sabe que est falando.
     Danug enrugou a testa. No estava seguro sobre rumo da conversa.
     - No compreendo - disse, desviando o olha...
     - Agora falamos - continuou Ayla. - Palavras no dizem nada, mas sinais dizem... Quer montar a cavalo. Certo?
     - Bem... Ah... Sim, eu gostaria.
     - Ento... Voc monta.
     - Fala srio? Posso montar a gua, realmente? Como Latie e Druwez fizeram? Ayla sorriu.
     - Venha c. Preciso de pedra grande para ajud-lo a montar, na primeira vez.
     Ayla acariciou e deu tapinhas carinhosos em Whinney, e falou-lhe na nica linguagem que se desenvolvera naturalmente entre elas: a combinao de palavras e 
sinais do Cl, sons tolos que ela inventara com seu filho e aos quais dera significado, e sons de animais que imitava perfeitamente. Disse a Whinney que Danug queria 
dar uma volta, e para tornar o passeio excitante, mas no perigoso. O rapazola havia aprendido alguns dos sinais do Cl que Ayla ensinava a Rydag e ao acampamento, 
e ficou surpreso por descobrir o significado de alguns, que eram parte da comunicao de Ayla com o animal, porm, isto o deixou apenas ainda mais assombrado. Ela 
falava com a gua, mas como Mamut quando invocava espritos, utilizava uma linguagem mstica, poderosa, esotrica.
     Quer a gua compreendesse explicitamente ou no, entendia, pelos movimentos de Ayla, que algo especial era esperado quando a mulher ajudou o rapaz alto a mont-la. 
Para Whinney, ele era como um homem que ela havia conhecido e em quem confiava. Suas pernas compridas pendiam e no havia senso de direo ou comando.
     - Segure a crina - instruiu Ayla. - Quando quiser ir, incline-se um pouco  frente Quando quiser diminuir a marcha ou parar, endireite o corpo.
     - Quer dizer que no vai comigo? - perguntou Danug, com uma ponta de medo estremecendo sua voz.
     - No precisa de mim - disse ela. Depois, deu uma palmada no flanco de Whinney.
     A gua partiu com um sbito impulso de velocidade. Danug saltou para trs, depois agarrou-lhe a crina para curvar-se  frente, passou os braos ao redor do 
pescoo da gua e se equilibrou a todo custo. Mas quando Ayla cavalgava, inclinada para a frente, era um sinal para ir mais depressa. A gua robusta das plancies 
frias saltou  frente pela plancie lisa de aluvio, que agora j se tornara bastante familiar, pulando toras e galhos cortados, e evitando pedras expostas, pontudas, 
e rvores ocasionais.
     A princpio, Danug ficou to petrificado que s conseguiu manter os olhos apertadamente cerrados e se segurar. Mas depois, ao compreender que no havia cado, 
embora pudesse sentir os msculos fortes da gua quando saltava com a andadura larga do animal, abriu os olhos um pouco. Seu corao batia de excitao enquanto 
observava as rvores e galhos cortados, e o terreno abaixo, passarem numa velocidade indistinta. Ainda se mantendo seguro, ergueu a cabea para olhar ao redor.
     Mal podia acreditar quo longe havia ido. Os grandes afloramentos que ladeavam o rio estavam bem  frente! Ouviu, vagamente, um assobio agudo atrs de si, ao 
longe, e imediatamente notou uma diferena na marcha da gua. Whinney ultrapassou os rochedos de proteo, em seguida, reduzindo apenas ligeiramente a velocidade, 
fez a volta em um circulo largo e regressou. Embora ainda se segurando com fora, Danug sentia menos medo agora. Queria ver para onde iam, e se colocou numa posio 
um pouco mais ereta, que Whinney interpretou como um sinal para reduzir a velocidade.
     O sorriso no rosto de Danug quando o animal se acercou fez Ayla pensar especialmente quando estava satisfeito consigo mesmo. Ela pde ver o homem no menino. 
Whinney empinou e parou, e Ayla a conduziu para a pedra a fim de Danug poder descer. Ele estava to extasiado que mal podia falar, porm no conseguia parar de sorrir. 
Ele jamais havia pensado em cavalgar rapidamente - isto estava alm de sua imaginao - e a experincia ultrapassava suas expectativas mais excitantes. Jamais esqueceria.
     Seu sorriso fez Ayla rir sempre que olhava para ele. Ela prendeu as toras aos arreios de Whinney e quando voltaram ao local do acampamento, Danug ainda sorria 
largamente.
     - O que h com voc? - perguntou Latie. - Por que est sorrindo assim?
     - Eu montei a gua - respondeu Danug. Latie sacudiu a cabea afirmativamente e sorriu.
     Quase tudo o que podia ser levado do local da caada fora preso s costas, ou enrolado em peles, prontas para oscilarem de varas resistentes, como se fossem 
redes, carregadas aos ombros por duas pessoas. Ainda havia lombos e peles enroladas abandonados, mas no tantos quanto Ayla imaginara que seriam. Como com a caa 
e o retalho da carne, poderiam levar mais para o acampamento de inverno quando todos trabalhavam juntos.
     Vrias pessoas viram que Ayla no preparava um fardo para carregar de volta, e perguntaram-se onde teria ido, mas quando Jondalar a viu regressar com Whinney 
arrastando as toras, soube o que ela tinha em mente. Ela arrumou novamente as toras de maneira que as extremidades mais grossas se cruzassem bem acima dos cestos 
atravs da cernelha da gua e amarrou-as aos arreios, e as extremidades estreitas ficassem obliquamente atrs do animal e descansassem no solo facilmente. Ento, 
entre as duas toras, ela prendeu um estrado improvisado feito de cobertura da tenda, utilizando galhos para suporte. As pessoas pararam de observ-la, mas somente 
quando ela comeou a transferir os restos da carne de biso para o travois foi que todos compreenderam o seu propsito. 
     Ela tambm encheu os cestos e colocou a ltima carne em uma mochila, para ela prpria carregar. 
     Quando terminou, para surpresa de todos, no restava nada na pilha.
     Tulie olhou para Ayla e a gua com o travois e os cestos, obviamente impressionada.
     - Jamais pensei em usar um cavalo para carregar um fardo - disse ela. - Na verdade, nunca me ocorreu utilizar um cavalo para coisa alguma, a no ser alimento... 
At agora.
     Talut atirou terra ao fogo, e mexeu-o para ter certeza de que se apagara. Depois levou s costas seu pesado fardo, colocou a mochila ao ombro esquerdo, e pegou 
a lana e partiu. O resto dos caadores o seguiu. Jondalar havia-se perguntado, desde que conhecera os Mamutoi, por que faziam suas mochilas para serem usadas apenas 
sobre um ombro. Enquanto ajeitava o fardo s costas para que se ajustasse de forma confortvel, e colocava a mochila ao ombro, compreendeu, de repente. Isso lhes 
permitia carregar sacos completamente cheios s costas. Devem carregar grandes quantidades, com freqncia, pensou.
     Whinney caminhou atrs de Ayla, a cabea perto do ombro da mulher. Jondalar, conduzindo Racer pelo cabresto, caminhava ao lado dela. Talut recuou e andava logo 
 frente deles, e trocaram algumas palavras enquanto caminhavam. Enquanto as pessoas se arrastavam sob o peso dos fardos, Ayla notou um olhar ocasional em sua direo 
e na de Whinney.
     Depois de algum tempo, Talut comeou a entoar uma melodia em voz sussurrante. Logo, vocalizava sons no compasso de seus passos:
     
     Hus-na, dus-na, teesh-na, keesh-na.
     Pec-na, sec-na, ha-na-nya.
     Hus-na, dus-na, teesh-na, keesh-na.
     Pec-na, sec-na, ha-na-nya!
     
     O resto do grupo participou, repetindo as slabas e o tom. Depois, com um sorriso malicioso, Talut, mantendo o mesmo ritmo e compasso, olhou para Deegie e mudou 
para palavras.
     
     O que a bela Deegie deseja?
     Branag, Branag, divida minha cama.
     Para onde vai a bela Deegie, no entanto?
     Para casa, esvaziar as peles.
     
     Deegie corou, mas sorriu, enquanto todos riam, astuciosamente. Quando Talut repetiu a primeira pergunta, o resto do grupo se uniu na resposta, e depois da segunda, 
cantaram a rplica. Em seguida, juntaram-se a Talut para cantar o refro.
     
     Hus-na, dus-na, teesh-na, keesh-na.
     Pec-na, sec-na, ha-na-nya!

     Repetiram-no vrias vezes, depois Talut improvisou outro verso.
     
     Como Wymez passa o inverno?
     Fabricando ferramentas e querendo diverso.
     Como Wymez passa o vero?
     Recuperando-se por no ter nenhuma das duas.
     
     Todos riram  exceo de Ranec. Ele urrou. Quando a estrofe foi repetida pelo grupo, o em geral retrado, Wymez ficou vermelho diante da brincadeira gentil. 
O hbito do fabricante de ferramentas, de tirar proveito das Reunies de Vero para compensar sua vida de inverno, essencialmente celibatria, era bem conhecido.
     Jondalar se divertia com a provocao e brincadeiras, tanto quanto os outros. Era exatamente o tipo de coisa que seu povo costumava fazer. Mas, a princpio, 
Ayla no compreendeu a situao inteiramente, ou o humor, principalmente ao notar o embarao de Deegie. Depois, ela viu que havia riso e sorrisos de bom humor, e 
as zombarias eram bem recebidas. Comeava a compreender o humor verbal, e o prprio riso era contagioso. Ela tambm sorriu da estrofe dirigida a Wymez.
     Talut comeou o refro de slabas cantadas de novo, quando todos se calaram. As pessoas se juntaram a ele, adivinhando agora.
     
     Hus-na, dus-na, teesh-na, keesh-na.
     Pec-na, sec-na, ha-na-nya!
     
     Talut olhou para Ayla, depois com um sorriso presunoso, comeou.
     
     Quem quer o afeto clido de Ayla?
     Dois gostariam de partilhar suas cobertas de pele.
     Quem ser o raro escolhido?
     Preto ou branco, a escolha  dela.
     
     Ayla ficou contente por ser includa na brincadeira, e embora no tivesse certeza de entender completamente o significado da estrofe, corou de entusiasmo porque 
era sobre ela. Refletindo sobre a conversa da noite anterior, pensou que o preto e branco deviam se referir a Ranec e Jondalar.
     O riso deleitado de Ranec confirmou sua suspeita, mas o sorriso forado de Jondalar a incomodou. Ele no se divertia agora.
     Ento, Barzec aproveitou o refro e at o ouvido no-treinado de Ayla detectou uma qualidade excelente e distinta no timbre e tom de sua voz. Ele tambm sorriu 
para Ayla, indicando quem seria o sujeito de sua estrofe provocante.
     Como Ayla escolher uma cor?
     O preto  raro, mas o branco tambm
     Como Ayla escolher um amante?
     Dois podem aquecer suas cobertas  noite!
     Barzec olhou para Tulie, enquanto todos repetiam seu poema, e ela o recompensou com um olhar de ternura e amor. Jondalar, contudo, franziu a testa, incapaz 
de sequer fingir que se divertia com o rumo da provocao.
     No gostava da idia de dividir Ayla com ningum, principalmente com o atraente escultor.
     Ranec pegou o refro em seguida, e os outros se juntaram a ele depressa.

     Hus-na, dus-na, teesh-na, keesh-na.
     Pec-na, sec-na, ha-na-nya!
     
     A princpio, no olhou para ningum, querendo manter algum suspense. Depois lanou um largo sorriso radiante a Talut, o instigador da cano provocante, e todos 
riram antecipadamente, esperando que Ranec tomasse como tema aquele que deixara os outros embaraados.
     
     Quem  grande e alto e forte e sbio?
     O bruto de cabelo ruivo, dono do Acampamento do Leo
     Quem maneja uma ferramenta do seu tamanho?
     Talut, o amigo de toda mulher!
     
     O chefe grandalho berrou diante da aluso, enquanto os outros gritavam a estrofe pela segunda vez. Depois, ele retomou o refro. Enquanto regressavam ao Acampamento 
do Leo, a cano ritmada determinou passo, e o riso aliviou o peso de carregar de volta o fruto de sua caada.
     Nezzie saiu da habitao comunal e deixou a cortina cair atrs de si. Olhou para a margem oposta do rio. O sol estava baixo no cu ocidental, preparando-se 
para mergulhar num colcho de nuvens perto do horizonte Ergueu os olhos para a encosta, sem saber ao certo por qu. Realmente, no esperava os caadores de volta, 
ainda; tinham partido apenas na vspera e, provavelmente, ficariam fora duas noites, no mnimo. Alguma coisa a fez levantar os olhos de novo. Havia movimento no 
alto da trilha que dava s estepes?
     -  Talut! - gritou, vendo o vulto familiar recortado contra o cu. Enfiou a cabea para dentro da moradia e berrou: - Esto de volta! Talut e o resto, esto 
de volta! - Depois correu e subiu a encosta ao encontro deles.
     Todos saram correndo da habitao para saudar os caadores que regressavam. Ajudaram a tirar os pesados fardos das costas dos que tinham no apenas caado, 
mas carregado os produtos de seus esforos para casa. Porm, a viso que causou maior surpresa foi a da gua arrastando um fardo muito maior do que qualquer pessoa 
poderia carregar. As pessoas se reuniram ao redor, quando Ayla descarregou ainda mais dos cestos. A carne e outras partes dos bises foram trazidas imediatamente 
para o interior da moradia, passadas de mo em mo e estocadas.
     Ayla certificou-se de que os cavalos estavam bem depois de todos terem entrado, retirando os arreios de Whinney e o cabresto de Racer. Embora parecesse no 
sofrer qualquer conseqncia por passar as noites fora, sozinhos, a mulher ainda sentia uma ponta de preocupao por deix-los todas as tardes, quando entrava na 
habitao comunal. Enquanto o tempo permanecesse razoavelmente bom, no importava. Um pouco de frio no a incomodava, mas aquela era a estao das mudanas inesperadas. 
E se uma tempestade desabasse? Onde os animais iriam ficar, ento?
     Ela ergueu a cabea com uma ruga de preocupao na testa. Nuvens altas e finas, em tons brilhantes, corriam pelo cu. O sol se pusera no h muito tempo atrs, 
e deixara uma panplia de cor viva seguindo-o. Ela observou at os matizes desaparecerem e o azul-claro ficar acinzentado.
     Quando Ayla entrou, ouviu um comentrio sobre ela e a gua, exatamente antes de empurrar a cortina interna que levava  fogueira de cozinhar. As pessoas estavam 
sentadas ao seu redor, relaxando, comendo e conversando, mas a conversa cessou quando ela apareceu. Ela se sentiu embaraada ao passar na primeira fogueira, com 
todos olhando para ela Ento, Nezzie lhe entregou um prato de ossos e a conversa recomeou. Ayla comeou a se servir. Depois, parou para olhar  volta. Onde estava 
a carne de biso que acabavam de trazer? No havia sinal dela em lugar algum. Ela sabia que devia ter sido guardada, mas onde Ayla empurrou para trs a pesada pele 
exterior de mamute e procurou primeiro os cavalos. Segura de que estavam bem, procurou Deegie e sorriu  sua aproximao. Deegie tinha-lhe prometido mostrar, com 
as peles frescas de biso, como os Mamutoi preparavam e curtiam as peles. Ayla se interessava, particularmente, como coloriam o couro de vermelho, igual  tnica 
de Deegie. Jondalar havia dito que o branco era sagrado para ele; o vermelho era sagrado para Ayla porque era sagrado para o Cl. Uma pasta de tingir pele vermelho-ocre 
misturada com gordura, de preferncia gordura de urso de caverna, era utilizada na cerimnia de dar nome; um pedao de ocre vermelho era o primeiro objeto que entrava 
num saquinho amuleto, dado  poca em que o totem de uma pessoa se tornava conhecido. Do incio ao fim da vida, o ocre vermelho era usado em muitos rituais, inclusive 
o ltimo, o funeral. O saquinho que continha as razes usadas para fazer a bebida sagrada era a nica coisa vermelha que Ayla j possura e, depois do seu amuleto, 
era o seu maior tesouro.
     Nezzie saiu da moradia carregando um grande pedao de couro manchado pelo uso, e viu Ayla e Deegie juntas.
     - Oh, Deegie. Eu procurava algum que me ajudasse - disse ela. - Pensei em fazer um grande assado para todos. A caada dos bises teve tanto sucesso que Talut 
disse que devamos fazer uma festa para celebrar. Quer preparar isto para cozinhar? Coloquei carvo quente no buraco prximo  grande fogueira, e pus a armao sobre 
ele. H um saco de esterco seco de mamute l para colocar nos carves. Mandarei Danug e Latie buscarem gua.
     - Sempre ajudarei a fazer um dos seus assados, Nezzie.
     - Posso ajudar? - indagou Ayla.
     - E eu - disse Jondalar que acabava de se acercar para falar com Ayla e ouvira a conversa.
     - Podem ajudar-me a trazer um pouco de comida para fora - disse Nezzie ao se virar para entrar novamente.
     Eles a seguiram em direo s arcadas de presa de mamute que estavam ao longo das paredes no interior da habitao comunal. Ela afastou uma cortina bastante 
dura e pesada de pele de mamute, que no havia sido tosada. A camada dupla de gordura avermelhada, com seu agasalho penugento e plo exterior longo, estava voltada 
para fora. Uma segunda cortina pendia atrs dela e quando foi empurrada, sentiram uma brisa fria. Olhando o espao fracamente iluminado, viram um grande buraco, 
do tamanho de um quarto pequeno. Tinha cerca de 1 metro de profundidade abaixo do nvel do solo, com a terra nua da encosta formando altas paredes, e estava quase 
cheio de pedaos e nacos congelados e carcaas menores de carne.
     - Estocagem! - exclamou Jondalar, segurando as pesadas cortinas enquanto Nezzie descia. - 
     Guardamos carne congelada para o inverno tambm, mas no to convenientemente fechada. 
     Nossos abrigos so construdos sob as salincias de penhascos, ou na frente de algumas cavernas. 
     Mas  difcil manter a carne congelada l, dai nossa carne ficar no exterior.
     - O Cl conserva a carne congelada na estao fria escondida sob pilhas de pedras - disse Ayla, entendendo agora o que acontecera com a carne de biso que trouxeram 
da caada.
     Nezzie e Jondalar expressaram surpresa. Nunca pensaram na gente do Cl estocando carne para o inverno, e ainda estavam espantados quando Ayla mencionou atividades 
que pareciam to avanadas, to humanas. Mas os comentrios de Jondalar sobre o local onde vivia tinham surpreendido Ayla. Ela havia imaginado que todos os Outros 
viviam no mesmo tipo de moradia e no compreendeu que as habitaes de terra eram construes to raras para ele quanto para ela.
     - No temos muitas pedras aqui para fazer esconderijos - disse Talut, em sua voz retumbante. Levantaram a cabea para o gigante de cabelos ruivos que se acercava. 
- Deegie me disse que resolveu fazer um assado, Nezzie - disse ele com um sorriso satisfeito. - Achei que devia vir ajudar.
     - Esse homem sente o cheiro de comida antes de ela estar cozida! - exclamou Nezzie rindo baixinho, enquanto remexia na escavao abaixo.
     Jondalar ainda se interessava pelos locais de armazenagem.
     - Como a carne fica congelada assim? Dentro da habitao  quente - falou.
     - No inverno todo o solo se congela como rocha, mas derrete-se o suficiente para ser escavado no vero. Quando construmos uma moradia, escavamos o suficiente 
para atingir o solo que est sempre congelado, para recintos de estocagem. Eles mantero o alimento frio mesmo no vero, embora nem sempre congelado. No outono, 
assim que o tempo fica frio l fora, o solo comea a congelar. Ento, a carne congelar nos buracos e comeamos a estocar para o inverno. A pele de mamute mantm 
o calor dentro e o frio fora - explicou Talut. - Exatamente como faz em relao ao mamute - ajuntou com um sorriso.
     - Talut, pegue isto aqui - disse Nezzie, estendendo um naco duro, congelado, marrom-avermelhado, com uma camada espessa de gordura amarelada de um lado.
     - Eu pego - ofereceu-se Ayla, estendendo as mos para a carne. Talut agarrou as mos de Nezzie e embora ela no fosse, de modo algum, uma mulher mida, o homem 
robusto a ergueu como se fosse uma criana, tirando-a do buraco.
     - Voc est com frio. Terei de aquec-la - disse ele, colocando os braos  volta dela, pegando-a no colo e acariciando-lhe o pescoo com o nariz.
     - Pare com isso, Talut. Ponha-me no cho! - zangou-se ela, embora o rosto brilhasse de prazer. 
     - Tenho trabalho a fazer, no  o momento certo...
     - Diga-me o momento certo e a porei no cho, ento.
     - Temos visitas - protestou ela, mas envolveu o pescoo do homem com os braos e cochichou-lhe ao ouvido.
     - E uma promessa! - exclamou o homem grande, pousando-a no cho suavemente e dando-lhe tapinhas nos quadris largos, enquanto a mulher ruborizada endireitava 
as roupas e tentava recuperar sua dignidade.
     Jondalar riu para Ayla e passou o brao por sua cintura
     Novamente, pensou Ayla, eles fazem um jogo, dizendo uma coisa com as palavras e outra coisa com seus atos. Mas, desta vez, compreendeu o humor e o forte amor 
oculto partilhados por Talut e Nezzie. De repente, compreendeu que eles revelavam amor sem serem bvios tambm, como o Cl fazia, dizendo uma coisa que significava 
outra. Com o novo insight, um conceito importante assumiu o seu lugar, o que esclareceu e resolveu muitas questes que a tinham incomodado, ajudando-a a compreender 
melhor a graa.
     - Esse Talut! - exclamou Nezzie, tentando soar severa, mas seu sorriso satisfeito desmentia o tom de voz. - Se no tem nada a fazer, pode ajudar a pegar as 
razes, Talut - Depois, acrescentou  jovem mulher.
     - Eu lhe mostrarei onde guardamos, Ayla. A Me foi generosa neste ano, foi uma boa estao e conseguimos muitas.
     Deram a volta a um estrado de dormir at outro arco com cortina.
     - Razes e frutas so estocadas mais alto - falou Talut aos visitantes, afastando outra cortina e mostrando-lhes cestas carregadas de tubrculos nodosos, de 
pele marrom, amilceos; cenouras pequenas, silvestres de cor amarela-clara; hastes inferiores e suculentas de tbuas e tifceas; e outros produtos estocados a nvel 
do solo, ao redor da borda de um buraco mais fundo. - Duram mais se forem mantidas frias, porm o congelamento as deixa macias. Mantemos as peles armazenadas tambm, 
at algum estar pronto para prepar-las, e alguns ossos para fabricar ferramentas e um pouco de marfim para Ranec. Ele diz que o congelamento deixa o marfim mais 
fresco e mais fcil de trabalhar. Marfim extra e ossos para as fogueiras so estocados na rea da entrada e em buracos l fora.
     - O que me faz lembrar que quero um joelho de mamute para o assado. Sempre d sabor e paladar - disse Nezzie, enquanto enchia uma grande cesta com verduras 
diversas. - Agora, onde coloquei aquelas flores secas de cebola?
     Sempre achei que paredes de pedra eram necessrias para sobre viver ao inverno, para a proteo do pior dos ventos e tempestades - disse Jondalar, com a voz 
cheia de admirao. - Construmos abrigos no interior de cavernas, contra as muralhas, mas vocs no tm cavernas. Nem sequer tm rvores abundantes para madeira 
a fim de construir abrigos. Fizeram tudo com mamutes!
     - Por isto a Fogueira do Mamute  sagrada. Caamos outros animais, porm nossa vida depende do mamute - disse Talut.
     - Quando fiquei com Brecie e o Acampamento do Salgueiro, ao sul daqui, no vi nenhuma construo como esta.
     - Conhece Brecie tambm? - interrompeu Talut. Brecie e algumas pessoas do acampamento tiraram meu irmo e eu da areia movedia.
     - Ela e minha irm so velhas amigas - disse Talut -, e aparentadas, por causa do primeiro homem de Tulie. Crescemos juntos. Chamam seu local de vero de Acampamento 
do Salgueiro, mas sua casa  o Acampamento do Alce. As moradias de vero so mais leves, no como esta. O Acampamento do Leo  uma habitao de inverno. O Acampamento 
do Salgueiro vai muitas vezes ao mar Beran a fim de pescar e pegar mariscos e sal para negociar. O que vocs faziam l?
     - Thonolan e eu atravessvamos o deita do Grande Rio Me. Ela salvou nossas vidas...
     - Deveria contar essa histria mais tarde. Todos querero ouvir a respeito de Brecie - disse Talut.
     Ocorreu a Jondalar que a maior parte de suas histrias era tambm sobre Thonolan. Quer quisesse ou no, teria que falar sobre seu irmo. No seria fcil, mas 
teria que se acostumar com isso, se pretendia dizer alguma coisa.
     Atravessaram o espao da Fogueira do Mamute que, exceto pela passagem central, era delimitada por divises de osso de mamute e cortinas de couro, como todas 
as fogueiras. Talut notou o arremessador de lanas de Jondalar.
     - Vocs dois deram uma demonstrao e tanto - disse o chefe. - Aquele biso foi detido imediatamente.
     - Isto pode fazer mais do que viu - falou Jondalar, parando para pegar o implemento. - Com ele, posso atirar uma lana mais firmemente e mais longe.
     - Verdade? Talvez possa nos dar outra demonstrao - disse Talut.
     - Eu gostaria, mas devamos subir s estepes, a fim de ter uma noo melhor do alcance. Acho que ficar surpreso - disse Jondalar, virando-se depois para Ayla: 
- Por que no traz o seu, tambm?
     Do lado de fora, Talut viu sua irm dirigindo-se ao rio e gritou para a chefe que eles iam ver a nova maneira de Jondalar arremessar lanas. Comearam a subir 
a encosta e quando chegaram s plancies abertas, a maior parte do acampamento se reunira a eles.
     - A que distncia pode jogar uma lana, Talut? - perguntou Jondalar, quando chegaram a um local provvel para a exibio. - Pode me mostrar?
     - Claro. Mas por qu?
     - Porque quero lhe mostrar que posso arremessar mais longe - replicou Jondalar.
     Riso geral seguiu-se  sua afirmao.
     - E melhor escolher outra pessoa para desafiar. Sei que  um homem grande e forte, provavelmente, mas ningum  capaz de atirar uma lana mais longe que Talut 
 aconselhou Barzec. - Por que no mostra a ele, Talut? D-lhe uma chance de ver o que ir enfrentar. Ento, poder competir em sua prpria categoria. Eu poderia 
ser um bom adversrio, talvez at mesmo Danug.
     - No - disse Jondalar com um brilho nos olhos. Aquilo se tornava uma competio, realmente.
     - Se Talut  o melhor, ento Talut o far. E aposto que posso arremessar uma lana mais longe... a no ser que eu no tenha nada para apostar. Na verdade, com 
isto - prosseguiu Jondalar, levantando o implemento estreito, liso, feito de madeira-, aposto que Ayla pode atirar uma lana mais distante e mais depressa e com 
maior preciso do que Talut.
     Houve um burburinho de admirao entre o acampamento reunido, em resposta  afirmao de Jondalar. Tulie lanou um olhar a Ayla e a Jondalar. Estavam relaxados 
demais, confiantes demais.
     Devia ser claro para eles que no se igualavam a seu irmo. Ela duvidava de que sequer fossem adversrios  sua altura. Era quase to alta quanto o homem de 
cabelos louros e possivelmente mais forte, embora o brao comprido de Jondalar talvez lhe desse vantagem. O que sabiam eles que ela ignorava? Deu um passo  frente.
     - Eu lhe darei algo para apostar - disse ela. - Se vencer, dar-lhe-ei o direito de fazer uma reivindicao razovel, e se estiver dentro do meu alcance, eu 
a concederei.
     - E se eu perder?
     - Voc me conceder a mesma coisa.
     - Tulie, voc est certa de que quer apostar uma reivindicao futura? - perguntou Barzec  companheira, com a testa franzida de preocupao. As condies no-definidas 
eram um alto risco, invariavelmente exigindo mais do que o pagamento usual. No tanto porque o vencedor fizesse, em geral, exigncias grandes, embora isto acontecesse, 
mas porque o perdedor precisava estar certo de que a aposta fora cumprida e de que no haveria qualquer reivindicao posterior. Quem sabia o que aquele estranho 
poderia pedir?
     - Contra uma reivindicao futura? Sim  retrucou, ela. Mas ela no disse que acreditava no poder perder, de um jeito ou de outro, porque se ele ganhasse, 
se realmente fizesse o que dizia, eles teriam acesso a uma nova e valiosa arma. Se ele perdesse, ela lhe faria uma reivindicao.
     - O que diz, Jondalar?
     Tulie era arguta, mas Jondalar sorria. Ele j apostara reivindicaes futuras antes; sempre acrescentavam graa ao jogo e interesse nos espectadores. Queria 
partilhar o segredo de sua descoberta. Desejava ver como seria aceita e como funcionaria numa caada comunal. Era o prximo passo lgico para testar sua nova arma 
de caa. Com um pouco de experimentao e prtica, qualquer pessoa poderia us-la. Essa era a beleza da coisa. Mas levava tempo para se treinar e aprender a nova 
tcnica, que exigiria entusiasmo ardente. A aposta ajudaria a criar isso... E ele teria uma reivindicao futura sobre Tulie. No duvidava disso.
     - De acordo! - exclamou ele.
     Ayla observava a ao. No compreendia bem a aposta, exceto que havia competio envolvida, mas sabia que aconteciam mais coisas sob a superfcie.
     - Vamos trazer alguns alvos para c e tambm alguns marcadores - disse Barzec, encarregando-se da competio. - Druwez, voc e Danug vo buscar alguns ossos 
compridos para marcos.
     Ele sorriu, observando os dois meninos descerem correndo a encosta.
     Danug, to parecido com Talut, ultrapassava o outro garoto em altura, embora fosse apenas um ano mais velho, mas com treze anos; Druwez comeava a revelar uma 
musculatura rija, compacta, semelhante  constituio fsica de Barzec.
     Barzec estava convencido de que o rapazola e a pequena Tusie eram a prole de seu esprito, enquanto Deegie e Tarneg eram, provavelmente, do de Darnev. No estava 
seguro sobre Brinan.
     Oito anos desde o seu nascimento, mas ainda era difcil dizer. Talvez Mut tivesse escolhido algum outro esprito, no um dos dois homens da Fogueira dos Auroques. 
Ele se parecia com Tulie, e o cabelo era ruivo como o do seu irmo, mas Brinan tinha sua prpria aparncia. Da mesma forma que Darnev tivera. Barzec sentiu um n 
na garganta, agudamente consciente, por um instante, da ausncia de sua companheira. No era a mesma coisa sem Darnev, pensou ele. Depois de dois anos, ele ainda 
sofria tanto quanto Tulie.
     Quando os postes de osso da perna de mamutes - com rabos de raposa vermelha amarrados a eles, e cestas tecidas com capim brilhantemente tingido, invertidas 
no topo - foram levantados para marcar a linha de arremesso, o dia comeava a dar a impresso de comemorao. Comeando a cada poste, emaranhados de capim comprido, 
ainda em crescimento, foram amarrados juntos a intervalos, criando uma vereda larga. As crianas corriam para cima e para baixo, na linha de arremesso, pisando o 
capim e delineando o espao ainda mais. Outros trouxeram lanas. Depois, algum teve a idia de encher um velho catre com capim e estrume seco de mamute, que foi 
ento marcado com figuras a carvo negro para usar como alvo mvel.
     Durante os preparativos, que pareciam tornar-se mais e mais elaborados por acordo mtuo, Ayla comeou a fazer uma refeio matinal para Jondalar, Mamut, e ela 
prpria. Breve, incluiria todos da Fogueira do Leo e assim Nezzie pde preparar o assado. Talut ofereceu sua bebida fermentada para o jantar, o que fez todos sentirem 
que era uma ocasio especial, j que, usualmente, s oferecia a bebida a hspedes e quando havia celebrao. Depois, Ranec anunciou que prepararia seu prato especial, 
o que deixou Ayla espantada ao saber que ele cozinhava e agradou a todos os outros. Tornec e Deegie disseram que se iam ter uma festa,... Eles tambm poderiam 
fazer alguma coisa. Era um palavra que Ayla no compreendia, mas que foi saudada com mais entusiasmo ainda do que o prato especial de Ranec.
     Quando a refeio da manh terminou e tudo foi limpo, a moradia ficou vazia. Ayla foi a ltima a sair. Deixando a cortina da arcada exterior cair atrs de si, 
percebeu que estavam no meio da manh. Os cavalos tinham se acercado um pouco mais e Whinney sacudiu a cabea e relinchou, saudando a mulher quando ela apareceu. 
As lanas tinham sido deixadas nas estepes, mas ela havia trazido sua funda, e a segurava com uma bolsa de pedras pequenas e redondas que escolhera em um leito de 
cascalho perto da curva do rio. Ela no tinha uma correia na cintura ao redor de sua pesada parka para guardar a funda, e nenhuma dobra adequada num agasalho onde 
carregar os projeteis. A tnica e parka que usava eram folgadas.
     Todo o acampamento se envolveu na competio; quase todas as pessoas j se encontravam no alto da encosta, esperando com ansiedade. Ela comeou a subir tambm, 
e viu Rydag esperando com pacincia que algum o visse e o carregasse at o alto, mas aqueles que normalmente o faziam - Talut, Danug e Jondalar - j estavam nas 
estepes.
     Ayla sorriu para a criana e se dirigiu a ela para carreg-la. Ento, teve uma idia. Girando, assobiou para Whinney. A gua e o potro galoparam at ela e pareciam
satisfeitos por v-la. Ela percebeu, ento, que no havia passado muito tempo com eles, recentemente. Havia muitas pessoas que ocupavam o seu tempo. Decidiu sair 
para uma cavalgada todas as manhs, ao menos enquanto o tempo se mantivesse bom. Depois, pegou Rydag e o colocou no dorso da gua para que Whinney o carregasse at 
o alto do aclive ngreme. - Segure na crina para no cair para trs - avisou Ayla.
     Ele concordou com um gesto de cabea, agarrou a crina espessa e escura na parte posterior do pescoo do animal da cor do feno e soltou um grande suspiro de 
felicidade.
     A tenso no ar era palpvel quando Ayla atingiu o local de arremesso das lanas. Fez com que compreendesse que, apesar de todas as festividades, a competio 
se tornara um negcio srio. A aposta a transformara em mais do que uma demonstrao. Ela deixou Rydag montado em Whinney, para que tivesse uma boa viso das atividades, 
e permaneceu silenciosa ao lado dos dois animais para conserv-los calmos. Estavam mais  vontade perto daquelas pessoas agora, mas a gua sentia a tenso, ela sabia, 
e Racer sempre percebia o humor da me.
     As pessoas rodopiavam na expectativa, algumas atirando suas lanas no campo bem pisado. No fora marcada hora especial para o incio da competio, no entanto, 
como se algum houvesse dado um sinal, todos perceberam o momento exato de deixar o caminho livre e se calar. Talut e Jondalar estavam de p entre os dois postes 
observando o local. Tulie se encontrava ao lado deles. Embora Jondalar houvesse dito, originalmente, que podia apostar que at Ayla seria capaz de atirar uma lana 
mais longe que Talut, parecia uma coisa to forada que o comentrio fora evidentemente ignorado e, das linhas laterais, ela observava com vido interesse.
     As lanas de Talut eram maiores e mais compridas do que qualquer outra, como se seus msculos fortes precisassem de algo com peso e volume para atirar, mas, 
recordou Ayla, as lanas dos homens do Cl eram ainda mais pesadas e volumosas, se no mais compridas. Ayla reparou em outras diferenas tambm. Ao contrrio das 
lanas do Cl, feitas para arremessar, estas, bem como as dela e de Jondalar, eram feitas para atravessar o ar, e todas eram guarnecidas de penas, apesar de o Acampamento 
do Leo parecer preferir trs penas amarradas  extremidade dos fustes, enquanto Jondalar usava duas. As lanas que ela fizera para si enquanto vivia sozinha no 
vale tinham pontas aguadas, endurecidas ao fogo, semelhantes quelas que vira no Cl. Jondalar havia moldado e aguado ossos para pontas de lanas e prendeu-as 
a hastes. Os caadores de mamutes pareciam preferir lanas com ponta de slex.
     Envolvida em sua observao cuidadosa das lanas que vrias pessoas seguravam, ela quase no viu o primeiro arremesso de Talut. Ele recuara alguns passos e, 
com um impulso rpido, atirara sua lana com movimento poderoso. A lana passou zunindo pelos observadores e aterrissou com um baque slido, com a ponta quase enterrada 
no solo e o fuste vibrando sob o impacto. O acampamento admirado no deixou dvida sobre o que pensava da proeza de seu chefe. Mesmo Jondalar estava surpreso. Ele 
suspeitara de que o arremesso de Talut seria longo, mas o homem grande havia excedido de muito as suas expectativas. No era de espantar que as pessoas houvessem 
duvidado de sua afirmao. Jondalar avaliou a distncia com alguns passos para sentir o percurso que teria que vencer e voltou  linha de arremesso. Segurando o 
arremessador de lanas horizontalmente, pousou a extremidade traseira da haste da lana no encaixe que percorria a extenso do mecanismo e ajustou um buraco escavado 
da extremidade da lana no pequeno gancho saliente, na extremidade de trs do arremessador. Colocou seus dois primeiros dedos nas alas de couro na extremidade dianteira, 
o que lhe permitiu, lana e o arremessador num bom ponto de equilbrio. Correu com o terreno at a lana ereta de Talut, puxou para trs e arremessou.
     Ao faz-lo, a extremidade traseira do arremessador de lanas se ergueu, eficazmente, aumentando de mais 60 centmetros a extenso do seu brao e ajuntando o 
mpeto da fora extra ao impulso do arremesso. Sua lana assobiou ao passar pelos espectadores e depois, para surpresa de todos, ultrapassou a lana ereta do chefe, 
e bem, por boa margem. Aterrissou horizontalmente e escorregou um pouco para frente em vez de se fincar no solo. Com o mecanismo, Jondalar havia duplicado sua prpria 
distncia anterior e, embora no tivesse conseguido duplicar a distncia do arremesso de Talut, o havia ultrapassado por boa margem.
     De repente, antes que o acampamento pudesse respirar de novo e marcar a diferena entre os dois arremessos, outra lana percorreu o trajeto. Tulie, surpresa, 
olhou para trs e viu Ayla na linha de arremesso, o arremessador de lanas ainda na mo. Ela virou a cabea a tempo de ver a lana aterrissar. Embora o arremesso 
de Ayla no se igualasse ao de Jondalar, a jovem havia ultrapassado o lanamento potente de Talut, e a expresso no rosto de Tulie era de pura incredulidade.
     - Voc tem uma reivindicao futura em relao a mim, Jondalar - declarou Tulie. - Admito que talvez lhe tenha dado uma chance extrema para vencer Talut, mas 
nunca teria acreditado que a mulher pudesse faz-lo tambm. Eu gostaria de ver esse... Ah... Como  que chama?
     - Arremessador de lana. No sei que outro nome lhe possa dar. Tirei a idia de Ayla, quando eu a observava com sua funda, um dia. Fiquei pensando, se ao menos 
eu pudesse arremessar to longe a minha lana, e com tanta rapidez, e to bem quanto ela lana uma pedra com sua funda... Ento, comecei a pensar em como faz-lo 
- falou Jondalar.
     - Falou sobre a percia dela antes. Ela  to boa assim, realmente? - perguntou Tulie.
     Jondalar sorriu:
     - Ayla, por que no pega sua funda e mostra a Tulie?
     A testa de Ayla se enrugou. Ela no estava habituada a exibies. Havia aperfeioado seu atributo em segredo, e depois que lhe permitiram, de m vontade, caar, 
s saa sozinha. Tanto para o Cl quanto para ela era desagradvel que utilizasse uma arma de caa. Jondalar foi o primeiro que caou com ela, e o primeiro a v-la 
exibir sua percia autodidata. Ela observou um instante o homem sorridente. Ele estava relaxado, confiante. No conseguiu detectar qualquer indcio avisando-a para 
recusar.
     Ela sacudiu a cabea concordando e foi buscar sua funda e a sacola de pedras com Rydag, a quem ela as entregara quando resolveu atirar sua lana. O menino sorriu-lhe, 
montado em Whinney, sentindo uma parte de excitao, encantado com a agitao que ela provocara.
     Ela olhou ao redor em busca de alvos. Reparou nos ossos de costela de mamute eretos e fez pontaria neles primeiro. O som ressoante, quase musical de pedras 
atingindo os ossos no deixou dvidas de que ela havia acertado nos postes, mas isso era fcil demais. Ayla olhou ao redor tentando encontrar outra coisa para mirar. 
Estava habituada a procurar pequenos animais e aves para caar, no objetos em que atirar pedras.
     Jondalar sabia que ela podia fazer muito mais do que acertar em postes e, lembrando-se de uma tarde durante o ltimo vero, seu sorriso tornou-se mais amplo 
enquanto olhava  sua volta, depois deu uns chutes soltando alguns torres.
     - Ayla - chamou.
     Ela se voltou e, abaixando os olhos para o campo de arremesso, viu-o de p com as pernas separadas, as mos nos quadris, e um torro de pedra equilibrado em 
cada ombro. Ela franziu atesta. Ele havia feito algo semelhante alguma vez, antes, com duas pedras, e ela no gostava de v-lo correr riscos. As pedras de uma funda 
podiam ser fatais. Mas, quando ela pensou a respeito, teve que admitir que era mais perigoso, aparentemente, do que na realidade. Dois objetos imveis deviam ser 
um alvo fcil para ela. No havia perdido um arremesso como aquele em anos. Por que falharia agora, somente porque acontecia que um homem sustentava os objetos - 
o homem que amava?
     Fechou os olhos, respirou fundo, depois sacudiu a cabea concordando de novo. Pegando duas pedras da bolsa a seus ps, no cho, juntou as duas extremidades 
da tira de couro e ajustou uma das pedras no bolso gasto, no meio, segurando a outra pedra em posio. Depois, levantou os olhos.
     Uma imobilidade nervosa pairou e encheu os espaos vazios ao redor dos espectadores. Ningum falou. Parecia que ningum sequer respirava. Tudo estava silencioso, 
com exceo da tenso gritante no ar.
     Ayla se concentrou no homem com os torres sobre os ombros. Quando comeou a mover-se, todo o acampamento se inclinou para frente, tenso. Com o movimento sutil 
e a graa flexvel de uma caadora experiente que aprendeu a mostrar sua inteno o mnimo possvel, a jovem girou o brao e fez voar a primeira pedra.
     Mesmo antes de a pedra alcanar seu alvo, ela aprontava a segunda. O torro duro sobre o ombro direito de Jondalar explodiu com o impacto da pedra mais resistente.
     Ento, antes que qualquer pessoa tivesse conscincia de que ela a havia lanado, a segunda pedra seguiu a primeira, pulverizando o fragmento de solo de loesse 
marrom-acinzentado sobre o ombro esquerdo do homem, numa nuvem de poeira. Aconteceu to depressa que alguns dos espectadores sentiram como se no tivessem visto 
o arremesso, ou fosse um truque de algum tipo.
     Era um truque, um truque de habilidade que poucos poderiam repetir. Ningum ensinara Ayla a usar uma funda. Ela aprendera sozinha, observando secretamente os 
homens do cl de Brun, e pelo mtodo das tentativas, e pela prtica. Ela desenvolvera a tcnica de arremesso duplo e rpido de pedras, como meio de defesa depois 
que errou um disparo uma vez e quase no conseguiu escapar do ataque de um lince. Ela ignorava que a maioria das pessoas teriam dito que isso era impossvel; no 
houvera ningum para lhe falar.
     Embora no o percebesse, era duvidoso que jamais encontrasse algum que se igualasse  sua percia, e isso no tinha a menor importncia para ela. Competir 
com outra pessoa para ver quem era melhor no lhe interessava. Sua nica competio era consigo mesma; seu nico desejo era superar sua prpria marca. Conhecia suas 
possibilidades e quando pensava em uma nova tcnica, como o arremesso de duas pedras ou caar a cavalo, tentava vrias abordagens e quando encontrava uma que parecia 
funcionar, treinava-a at poder execut-la.
     Em toda atividade humana poucas pessoas, atravs de concentrao e treinamento, e desejo profundo, podem tornar-se to hbeis que excedam todas as outras. Ayla
era mesmo uma expert com sua funda.
     Houve um momento de silncio enquanto as pessoas respiravam; depois, murmrios de surpresa.
     Em seguida, Ranec comeou a bater nas prprias coxas com as mos. Logo, todo o acampamento aplaudia da mesma maneira. Ayla no tinha certeza do que aquilo significava 
e olhou para Jondalar. Ele inclinava a cabea com prazer, e ela comeou a perceber que o aplauso era sinal de aprovao.
     Tulie aplaudia tambm, embora de forma um pouco mais contida do que alguns outros, no querendo parecer impressionada demais, embora Jondalar tivesse certeza 
de que ela o estava.
     - Se acham que aquilo foi uma coisa espetacular, observem isto! - disse ele, abaixando-se para pegar mais dois torres de terra. Atirou os dois torres ao ar 
de uma s vez. Ayla desfez um e depois o outro em uma exploso de poeira e terra caindo. Ele lanou ao ar mais dois, e ela os explodiu antes de atingirem o solo.
     Os olhos de Talut brilhavam de excitao.
     - Ela  boa! - exclamou ele.
     - Voc atira dois para cima - disse-lhe Jondalar. Depois, encontrou os olhos de Ayla e pegou mais dois torres e ergueu-os para mostr-los a ela. Ela enfiou 
a mo na sacola e tirou-a, segurando quatro pedras, duas em cada mo. Seria preciso uma coordenao excepcional apenas para preparar e atirar quatro pedras com uma 
funda, antes que quatro torres de terra lanados ao ar cassem novamente ao solo, mas faz-lo com exatido suficiente para atingi-los seria um desafio que, certamente, 
testaria sua habilidade. Jondalar ouviu Barzec e Manuv apostarem entre si; Manuv apostou em Ayla. Depois de salvar a vida da pequena Nuvie, ele estava seguro de 
que Ayla era capaz de fazer qualquer coisa.
     Jondalar lanou os torres para cima, um aps o outro, com sua mo direita firme, enquanto Talut lanava mais dois torres ao ar, o mais alto possvel.
     Os dois primeiros, um de Jondalar, e outro de Talut, foram atingidos em sucesso rpida. A poeira choveu da coliso, mas Ayla precisou de tempo extra para passar 
as pedras adicionais de uma das mos para a outra. O outro torro de Jondalar caa e o de Talut se movia mais lentamente ao se aproximar do topo de seu arco, antes 
que Ayla estivesse pronta para usar a funda de novo. Ela mirou o alvo mais baixo, ganhando velocidade ao descer, e atirou-lhe uma pedra com sua funda. 
     Observou a pedra atingir o alvo, esperando mais tempo do que deveria para estender a mo, mais uma vez, para a extremidade solta da funda. Teria que se apressar.
     Com um movimento veloz, Ayla colocou a ltima pedra na funda, e em seguida, mais depressa do que se poderia acreditar, lanou-a novamente, despedaando o ltimo 
torro pouco antes de ele alcanar o solo.
     O acampamento irrompeu em gritos de aprovao e congratulaes, e palmas, batendo as mos nas coxas.
     - Foi uma exibio e tanto, Ayla! - exclamou Tulie, a voz clida, elogiosa. - Acho que nunca vi ningum fazer uma coisa assim.
     - Agradeo - respondeu Ayla, corada de prazer pela resposta da chefe, assim como por sua faanha. Mais pessoas se aglomeraram  sua volta, cheia de elogios. 
Ela sorriu timidamente e depois olhou para Jondalar, sentindo-se um pouco constrangida com toda a ateno recebida. Ele falava a Wymez e Talut, que tinha Rugie aos 
ombros e Latie ao seu lado. E viu Ayla olh-lo e sorriu, mas continuou a conversar.
     - Ayla, como aprendeu a manejar uma funda assim? - perguntou Deegie.
     - E onde? Quem lhe ensinou? - indagou Crozie.
     - Eu gostaria de aprender a fazer isso - acrescentou Danug, com timidez. O rapazola alto estava de p atrs dos outros, olhando para Ayla com adorao. Na primeira 
vez em que a vira, ela lhe provocara estmulos jovens. Ele achou que era a mulher mais bonita que j havia visto, e Jondalar, a quem admirava, tinha muita sorte. 
Mais depois do seu passeio a cavalo e, agora, da exibio de percia dela, seu interesse incipiente desabrochara, de sbito, numa paixo amadurecida.
     Ayla enviou-lhe um sorriso hesitante.
     - Talvez nos instrua, quando voc e Jondalar nos mostrarem seu arremessador de lanas - sugeriu Tulie.
     - Sim. Eu no me importaria em saber como usar uma funda desse jeito, mas o arremessador de lanas parece interessante, realmente, se for razoavelmente preciso 
- ajuntou Tornec.
     Ayla recuou. As perguntas e a aglomerao a deixavam nervosa.
     - O arremessador de lanas  preciso - disse ela, recordando quanto diligentemente ela e Jondalar tinham treinado com o implemento. Nada era acurado por si 
mesmo.
     -  sempre assim. A mo e o olho fazem o artista, Ayla - falou Ranec, estendendo a mo para a dela e encarando-a. - Por acaso, sabia como estava bonita e graciosa? 
Voc  uma artista com uma funda.
     Os olhos escuros que fixavam os dela foraram-na a perceber a forte atrao e arrancaram da mulher existente nela uma resposta to antiga quanto a prpria vida. 
Mas seu corao bateu com um aviso tambm; aquele no era o homem certo. No era o homem que ela amava. O sentimento que Ranec provocava nela era inegvel, porm 
de natureza diferente.
     Ela desviou os olhos e procurou freneticamente por Jondalar... E o achou. Ele os fitava e seus olhos de vivo azul estavam repletos de fogo e gelo, e de dor.
     Ayla puxou a mo, libertando-a da de Ranec e retrocedeu. Era demais. Todas as perguntas e o grupo de gente e emoes incontrolveis esmagavam-na. Seu estmago 
se apertou em um n, o peito se oprimiu, a garganta doeu; ela precisava se afastar. Viu Whinney com Rydag montado ainda e, sem pensar, agarrou o saco de pedras com 
a mo que ainda segurava a funda enquanto corria em direo  gua.
     Montou de um salto e passou um brao protetor ao redor do garoto enquanto se inclinava  frente. Com os sinais de presso e movimento, e a comunicao sutil, 
inexplicvel entre animal e mulher, Whinney sentiu a necessidade de Ayla escapar e, dando um salto inicial, galopou pelas plancies abertas, rapidamente. Racer seguiu 
a me, acompanhando-a sem dificuldade.
     As pessoas do Acampamento do Leo surpreenderam-se. A maioria no imaginava por que Ayla correra para a gua, e somente alguns a tinham visto cavalgar com energia. 
A mulher, o cabelo comprido e louro esvoaando ao vento, agarrada ao dorso da gua que galopava, era uma viso assombrosa e terrvel, e mais de uma pessoa teria 
trocado, alegremente, de lugar com Rydag.
     Nezzie sentiu um vislumbre de preocupao por ele, mas sentindo que Ayla no o deixaria ferir-se, relaxou.
     O menino ignorava por que lhe tinha sido concedido aquele prazer raro, mas seus olhos brilhavam de deleite. Embora a excitao apertasse-lhe um pouco o corao, 
com o brao de Ayla  sua volta, ele no sentia medo, somente um assombro ofegante por estar correndo ao vento.
     A fuga da cena de sua infelicidade e a sensao e som familiares da gua aliviaram a tenso de Ayla. Ao relaxar, notou o corao de Rydag batendo contra seu 
brao com seu som grave, indistinto, peculiar e teve um instante de preocupao. Perguntou-se se havia sido prudente ao lev-lo consigo, e depois compreendeu que 
a batida do corao, apesar de anormal, no estava indevidamente acentuada.
     Ela reduziu a velocidade do animal e, fazendo um largo crculo, voltou. Quando se aproximaram da pista de arremesso, passaram prximos a duas ptrmigas escondidas 
no capim alto, cuja plumagem malhada de vero ainda no estava totalmente mudada para o branco do inverno. Os cavalos as levantaram. Por hbito, quando subiram ao 
ar, Ayla aprontou sua funda, abaixou depois os olhos e viu que Rydag tinha duas pedras na mo, tiradas da bolsa que segurava diante de si. Ela as pegou e, guiando 
Whinney com as coxas, derrubou uma das aves gordas que voava baixo, e depois a outra.
     Fez Whinney parar e, segurando Rydag, escorregou das costas da gua com o garoto nos braos. 
     Colocou-o no solo e recuperou as aves. Torceu-lhes os pescoos e, com algumas hastes fibrosas de feno ereto, amarrou-as juntas pelos ps emplumados. Embora 
pudessem voar rapidamente e para longe quando queriam, as ptrmigas no voavam para o sul. Em vez disso, com o inverno rigoroso, desenvolviam-se penas brancas nelas 
que camuflavam e aqueciam seus corpos e faziam sapatos adequados para a neve a seus ps. Elas suportavam a estao difcil, alimentando-se de sementes e brotos e, 
quando havia nevasca, escavavam pequenas cavernas na neve para esperar que a intemprie passasse.
     Ayla colocou Rydag sobre o dorso da gua, de novo.
     - Quer segurar as ptrmigas? - perguntou por um sinal.
     - Voc deixa? - respondeu ele ao sinal, sua alegria pura revelando-se em mais do que seus sinais manuais. Ele jamais correra velozmente somente pelo prazer 
de faz-lo; pela primeira vez na vida sentiu a sensao. Nunca havia caado ou compreendido, realmente, os sentimentos complexos que vinham do exerccio de inteligncia 
e percia na busca do seu sustento e do seu povo, ou famlia.
     Isso era o mais perto a que j chegara; o mais perto a que poderia chegar.
     Ayla sorriu, colocou as aves sobre a cernelha de Whinney, diante de Rydag, depois se virou e comeou a caminhar em direo ao campo de arremesso. Whinney a 
seguiu. Ayla no tinha pressa de voltar, ainda estava aborrecida recordando o olhar irado de Jondalar. Por que ele ficara to zangado? Em um momento ele lhe sorria, 
satisfeito... Quando todos se reuniam  sua volta. Mas quando Ranec... Ela corou, lembrando-se dos olhos escuros, da voz agradvel. Outros! Pensou, sacudindo a cabea 
como se quisesse clarear sua mente. No compreendo esses Outros!
     O vento soprando de suas costas atirava anis de cabelo comprido em seu rosto. Aborrecida, ela os afastava com a mo. Ela havia pensado vrias vezes sobre tranar 
o cabelo, como o havia usado quando vivia sozinha no vale, mas Jondalar gostava dele solto. Assim ela o deixava cado. Era um aborrecimento, s vezes. Depois, com 
uma ponta de irritao, notou que ainda segurava a funda na mo porque no tinha lugar para coloc-la, nenhuma correia adequada para enfi-la. No era sequer capaz 
de carregar a sacola de medicamentos, com aquelas roupas que usava, porque Jondalar gostava delas; ela sempre a havia amarrado  tira de couro que mantinha sua capa 
fechada.
     Ergueu a mo para empurrar o cabelo de sobre os olhos novamente e ento notou a funda. Parou, e afastando o cabelo dos olhos, enrolou a funda flexvel de couro 
ao redor da cabea. Enfiando a ponta solta embaixo, sorriu, satisfeita consigo mesma. Parecia funcionar. Seu cabelo ainda lhe caa solto pelas costas, mas a funda 
mantinha-o longe dos olhos, e sua cabea parecia ser um bom local para levar a funda.
     A maioria das pessoas imaginou que o salto fugitivo de Ayla sobre Whinney e a cavalgada rpida terminando com a morte das ptrmigas eram parte de sua exibio 
com a funda. Ela se conteve para no corrigi-las, mas evitou olhar para Jondalar e Ranec.
     Jondalar sabia que estava aborrecida quando se virou e correu, e tinha certeza de que a culpa fora dele. Ele lamentava e se censurou mentalmente, porm tinha 
dificuldade em enfrentar aquelas emoes desconhecidas e confusas, e no sabia como dizer a Ayla. Ranec no percebera a profundidade da infelicidade de Ayla. Sabia 
que provocava algum sentimento nela e suspeitava de que isso talvez houvesse contribudo para sua corrida desconcertada em direo  gua, mas achou suas aes ingnuas 
e encantadoras. Encontrava-se cada vez mais atrado por ela e se perguntava quo forte seria o sentimento dela pelo grande homem louro.
     As crianas subiam e desciam o local de arremesso novamente, correndo, quando Ayla voltou.
     Nezzie veio pegar Rydag e levou as aves tambm. Ayla liberou os cavalos. Eles se afastaram e comearam a pastar. Ayla ficou para observar, quando um desacordo 
amistoso levou vrias pessoas a uma competio informal de arremesso de lanas, o que, em seguida, as conduziu a uma atividade alm de seu campo de experincia. 
Jogaram um jogo. Ela entendia as competies, disputas que testavam as aptides necessrias - quem corria mais ou atirava uma lana mais longe -, mas no uma atividade 
cujo objetivo parecia ser simplesmente diverso, com a prova ou aperfeioamento de habilidades essenciais, incidentais.
     Trouxeram vrias argolas da moradia. Eram mais ou menos do tamanho que se ajustaria a uma coxa, e feitas de tiras de couro cru molhado, tranadas e postas a 
secar para endurecer, depois envolvidas apertadamente com gramneas. Dardos emplumados e aguados - lanas pequenas, mas sem pontas de osso ou slex - tambm eram 
parte do equipamento.
     As argolas eram roladas ao solo e atiravam-se dardos nelas. Quando algum detinha uma argola lanando um dardo atravs de sua abertura e cravando-o no solo, 
gritos e aplausos com tapas nas coxas demonstravam aprovao. O jogo, que tambm envolvia palavras de contagem e aquela coisa de apostar. Tanto homens quanto mulheres 
jogavam, mas revezavam-se rolando as argolas e atirando os dardos, como se fossem adversrios.
     Finalmente, chegou-se a um trmino. Vrias pessoas se dirigiram  habitao. Deegie, corada de entusiasmo, estava entre elas. Ayla se reuniu ao grupo.
     - Este dia parece ter-se tornado festa - disse Deegie. - Jogos, competies, e acho que teremos um verdadeiro banquete. O assado de Nezzie, a bebida de Talut, 
o prato de Ranec. O que vai fazer com as ptrmigas?
     - Gosto de cozinh-las de modo especial. Acha que devo?
     - Por que no? Daria ao banquete outro prato especial.
     Antes de chegarem  moradia, eram evidentes os preparativos para a festa nos odores deliciosos de alimentos que se estendiam at o lado de fora em promessa 
torturante. O assado de Nezzie era amplamente responsvel. Cozinhava calmamente no grande couro de cozinha, naquele momento aos cuidados de Latie e Brinan, embora 
todos parecessem envolvidos, de alguma forma, com a preparao de alimentos. Ayla se interessava no arranjo de cozinhar o assado e vira Nezzie e Deegie o prepararem.
     Num grande caldeiro que fora escavado prximo a uma fogueira, carves em brasa foram colocados sobre cinzas acumuladas por uso anterior, que revestiam o fundo. 
Uma camada de esterco seco, pulverizado, de mamute foi derramada sobre os carves, e sobre isso fora colocado um grande pedao de couro cru de mamute sustentado 
por uma armao, e cheio de gua. Os carves ardendo sob o esterco comearam a aquecer a gua, mas, quando o estrume pegou fogo, j havia sido queimado suficiente 
combustvel fazendo com que o couro no descansasse mais sobre ele, mas fosse seguro pela armao. O lquido que atravessava lentamente o couro, embora fervesse, 
o impedia de incendiar-se. Quando o combustvel sob o couro de cozinhar ardeu totalmente, o assado foi mantido em fervura pela adio de pedras incandescentes do 
rio aquecidas previamente na fogueira, uma tarefa da qual algumas crianas se ocupavam.
     Ayla depenou as duas ptrmigas e as estripou, usando uma pequena faca de slex. No tinha cabo, mas  parte de trs havia sido retocada, era rombuda para evitar 
que o usurio se cortasse e fora feito um furo atrs da ponta. Era segura com o polegar e o dedo indicador a cada lado, e o indicador no furo, facilitando o seu 
manejo. No era uma faca para trabalho pesado, somente para cortar carne ou couro, e Ayla s havia aprendido a us-la depois que chegara, mas a achava muito conveniente.
     Ela sempre havia cozido suas ptrmigas numa cavidade ladeada por pedras, em que acendia um fogo e permitia que se apagasse antes de as aves serem colocadas 
no buraco e cobertas. No entanto, no era fcil encontrar pedras grandes naquela regio, e ela resolveu adaptar a cavidade da estufadeira para seu uso. Era a estao 
errada para as folhas que gostava de utilizar - tussilagem, urtigas, fedegosa - e para ovos de ptrmiga, ou teria recheado a cavidade com elas, mas algumas das ervas 
em sua sacola de remdios, usadas com critrio, tambm eram boas para tempero, tanto quanto para curar, e o feno em que envolvera as aves somava um odor sutil e 
prprio. Talvez no fosse exatamente o prato favorito de Creb quando ela terminasse, mas achava que as ptrmigas teriam bom sabor.
     Quando acabou de limpar as aves, entrou e viu Nezzie na primeira fogueira acendendo um fogo na grande lareira.
     - Gostaria de cozinhar as ptrmigas na cavidade, como voc faz o assado. Posso usar os carves cortados para queimar? - perguntou Ayla.
     - Claro. Precisa de mais alguma coisa?
     - Tenho ervas secas. Gosto de folhas frescas nas aves. Mas  estao errada.
     - Pode olhar no local de estocagem. H algumas outras plantas que pode pensar em usar, e temos sal - ofereceu Nezzie.
     Sal, pensou Ayla. No cozinhava com sal desde que deixara o Cl.
     - Sim, gostaria de sal. Talvez plantas. Vou olhar. Onde encontro carvo?
     - Eu lhe darei o carvo, assim que isto estiver adiantado.
     Ayla observou Nezzie acender o fogo, preguiosamente a princpio, sem prestar muita ateno, mas depois ficou intrigada. Sabia, mas no havia pensado realmente 
a respeito antes, que eles no tinham muitas rvores. Queimavam osso para combustvel, e osso no queimava muito facilmente. Nezzie produzira uma pequena brasa de 
outra fogueira, e com ela incendiara urna felpa de vagens de estramnio colhidas para fazer iscas para fogo. Acrescentara esterco seco, que formou uma chama mais 
forte e mais quente e, depois, pequenas lascas e raspas de osso. No pegaram fogo bem.
     Nezzie soprou para que o fogo se mantivesse, enquanto movia um pequeno instrumento que Ayla no notara antes. Ayla ouviu um leve som de vento assobiando, notou 
algumas cinzas rodopiando e viu a chama se tornar mais viva. Com a chama avivada, as lascas de osso comearam a queimar nas bordas, incendiando-se depois. E, de 
repente, Ayla compreendeu a fonte de algo que a estivera atormentando, algo que mal tinha notado, mas que a incomodava desde sua chegada ao Acampamento do Leo. 
O cheiro da fumaa era diferente.
     Ela havia queimado esterco seco, ocasionalmente, e estava habituada ao odor forte e penetrante de sua fumaa, mas seu primeiro combustvel fora de origem vegetal; 
estava acostumada ao cheiro de fumaa de lenha. O combustvel utilizado pelo Acampamento do Leo era de origem animal. O odor de osso queimando tinha uma caracterstica 
diferente, uma qualidade que lembrava o cheiro de uma carne deixada tempo demasiado ao fogo. Em combinao com o esterco seco, que tambm usavam em grandes quantidades, 
um odor diferente, forte, impregnava todo o acampamento. No era desagradvel, mas desconhecido, o que lhe provocava leve inquietao. Agora, que identificara a
causa, uma certa tenso indefinida diminuiu.
     Ayla sorriu enquanto observava Nezzie acrescentar mais osso, e ajustar a pequena alavanca que o fazia ficar mais quente.
     - Como faz isso? Perguntou ela. - Esquenta tanto o fogo?
     - O fogo tambm precisa respirar, e o vento  a respirao do fogo. A Me nos ensinou isso quando fez as mulheres zeladoras da fogueira. Pode v-lo quando sopra
o fogo e ele se aquece mais. Escavamos um fosso de sob a fogueira at o exterior para trazer o vento para dentro. A vala  revestida com os intestinos de um animal 
que se enchem de ar antes de secar, depois so cobertos com osso antes de se colocar a terra de volta. A vala para esta fogueira sai por aquele lado, sob as esteiras 
de capim. Est vendo?
     Ayla olhou para o local assinalado e balanou a cabea afirmativamente.
     - Entra aqui - continuou a mulher, mostrando-lhe um chifre oco de biso projetando-se de uma abertura ao lado do buraco do fogo, que era mais baixo do que o 
nvel do solo. - Mas nem sempre a gente quer a mesma quantidade de vento. Depende da intensidade com que est soprando l fora e de quanto fogo se quer. Voc bloqueia 
o vento ou o libera
     - concluiu Nezzie, mostrando-lhe a manivela amarrada a um registro feito de omoplata.
     A idia parecia bastante simples, mas era uma inveno engenhosa, uma verdadeira conquista tcnica, e essencial para a sobrevivncia. Sem ela, os Caadores 
de Mamutes no poderiam viver nas estepes subrticas, exceto em alguns locais isolados, apesar de toda a abundncia de caa. No mximo, seriam visitantes sazonais. 
Numa terra quase desprovida de rvores e com os invernos rigorosos s conhecidos quando as geleiras avanam sobre a terra, a lareira de ar artificial lhes permitia 
queimar osso, o nico combustvel em quantidades suficientes para ocupao de ano inteiro.
     Depois de Nezzie acender o fogo, Ayla examinou os recintos de estocagem para ver se havia alguma coisa que lhe agradasse para rechear as ptrmigas. Ficou tentada 
por alguns embries secos de ovos de pssaros, mas provavelmente teriam de ser postos de molho e ela ignorava quanto tempo isto levaria. Pensou em usar cenouras 
silvestres ou as ervilhas de vagens de astrgalo, mas mudou de idia.
     Ento, viu o recipiente entrelaado que ainda continha a papa de cereais e verduras que ela havia cozido quela manh. Fora posta de lado para o almoo por 
desejo de todos e havia engrossado e consolidado. Ela provou. Sem sal, as pessoas preferiam sabores distintos, picantes, e ela havia temperado a papa com salva e 
hortel, e adicionado beldroega, cebolas e cenouras silvestres para serem misturadas ao centeio e  cevada.
     Com um pouco de sal, pensou, e as sementes de girassol que vira num local de estocagem, e as groselhas... E talvez a unha-de-cavalo e frutos de roseira de sua 
sacola de remdios, talvez conseguisse um recheio interessante para as ptrmigas. Ayla preparou e recheou as aves, envolveu-as em feno recm-cortado e enterrou-as 
num buraco com alguns carves de osso, cobrindo-os com cinzas. Depois, foi ver o que as outras pessoas faziam.
     Havia muita atividade perto da entrada da moradia e a maior parte do acampamento se reunira ali. 
     Ao se aproximar mais, viu as grandes pilhas de hastes de cereais colhidas. Algumas pessoas debulhavam, pisavam, malhavam e trilhavam maos de hastes para libertar 
o gro da palha e cascas. Outras removiam o joio que restava, atirando ao ar o gro de uma bandeja achatada de joeirar, feita de palha de salgueiro, para que as 
cascas voassem longe. Ranec colocava o cereal num pilo feito de osso de p de mamute esvaziado, prolongado por uma parte de osso da perna. Ele pegou uma presa de 
mamute, cortada transversalmente, que servia como mo de almofariz, e comeou a socar os gros.
     Barzec logo tirou sua parka de pele e, de p, em posio oposta a Ranec, pegou alternadamente a presa de mamute, de forma ao trabalho se dividir para trs e 
para frente, entre os dois. Tornec comeou a bater palmas acompanhando o ritmo e Manuv captou-o com um refro repetitivo, cantado:
     
     I-yah wo-wo, Ranec socando gros, yah!
     I-yah wo-wo, Ranec socando gros, neh!
     
     Depois, Deegie entrou com a cadncia alternativa, em harmonia com uma frase contrastante.
     
     Neh neh neh neh, Barzec torna a coisa difcil, yah!
     Neh neh neh neh, Barzec torna a coisa difcil, nah!
     
     Imediatamente outros bateram com as mos nas coxas e vozes masculinas cantaram com Manuv, enquanto as mulheres se juntavam a Deegie. Ayla sentiu o ritmo forte 
e cantarolou baixinho, no inteiramente certa, sobre participar, mas divertindo-se.
     Depois de certo tempo, Wymez, que havia tirado a parka, se aproximou mais de Ranec e, ficando a seu lado, substituiu-o sem falhar uma batida. Manuv foi igualmente 
rpido para mudar o refro e, na batida seguinte, cantou um novo verso:
     
     Nah nah we-ye, Wymez pega o moedor, yoh!
     Quando Barzec pareceu cansado, Druwez tirou-o dele e Deegie mudou sua frase. Depois, Frebec teve a sua vez.
     Pararam, ento, para verificar os resultados e derramaram o gro em p numa cesta de joeirar, feita de folhas tranadas de tifceas, sacudindo-a. Depois, colocaram 
mais gro no pilo de osso, mas desta vez Tulie e Deegie pegaram o pilo de presa de mamute. Manuv inventou um refro para ambas, mas cantou a parte feminina numa 
voz de falsete que fez todos rirem. Nezzie tomou o lugar de Tulie e, num impulso, Ayla colocou-se ao lado de Deegie, o que provocou sorrisos e gestos de aprovao 
de cabea.
     Deegie abaixou a presa e soltou-a. Nezzie estendeu a mo e ergueu-a enquanto Ayla ocupava o lugar de Deegie. Ayla ouviu um ih! Quando o pilo foi batido de 
novo com fora e agarrou a haste de marfim espessa, ligeiramente curvada. Era mais pesada do que ela esperava, mas levantou-a e ouviu Manuv cantar:
     
     A -yah wa-wa, Ayla  bem-vinda aqui, nah!
     
     Ela quase deixou cair a presa de mamute. No esperava o gesto espontneo de amizade e, na batida seguinte, quando todo o acampamento, tanto os homens quanto 
as mulheres, cantou juntou o verso, ficou to comovida que teve que pestanejar para esconder as lgrimas. Era mais do que uma simples mensagem de afeto e amizade; 
era aceitao. Ela encontrara os Outros, e eles a tinham acolhido bem.
     Tronie substituiu Nezzie e, depois de certo tempo, Fralie fez um movimento na direo delas, mas Ayla sacudiu a cabea negativamente e a mulher grvida recuou, 
concordando prontamente. Ayla ficou contente por Fralie ter agido assim, mas tambm sentiu sua suspeita confirmada de que Fralie no se sentia bem. Continuaram a 
triturar o gro at Nezzie det-las para derram-lo na cesta e tornar a encher o pilo.
     Desta vez, Jondalar deu um passo  frente para revezar na tarefa tediosa e difcil de moer o gro manualmente, que se tornava mais fcil pelo esforo comum 
e diverso. Mas franziu a testa quando Ranec avanou tambm. De repente, a tenso entre o homem de pele escura e o visitante louro carregou o ambiente amistoso com 
uma tendncia oculta e sutil de inimizade.
     Quando os dois homens, alternando a presa pesada entre si, comearam a retomar o ritmo, todos o sentiram. Enquanto continuaram a acelerar, as cantigas morreram, 
mas algumas pessoas comearam a bater os ps, e o rudo se tornou mais alto e agudo. lmperceptivelmente, Jondalar e Ranec aumentaram a fora juntamente com o ritmo 
e, em vez de um trabalho de esforo mtuo, se tornou uma competio de fora e vontade. O pilo era golpeado com tanta fora por um homem, que saltava para o outro 
agarr-lo e batia novamente, baixando.
     O suor gotejava de suas testas, escorria pelos rostos e penetrava nos olhos. Empapava suas tnicas enquanto continuavam instigando um ao outro, mais depressa 
e duramente, esmagando o pilo grande e pesado no gro, um aps o outro, para trs e para frente. Parecia que continuaria para sempre, mas eles no desistiriam. 
Respiravam com dificuldade, mostrando sinais de esforo e fadiga, mas recusavam-se a parar. Nenhum dos dois queria ceder para o outro; era como se preferissem morrer 
primeiro.
     Ayla estava fora de si. Eles empurravam com demasiada fora. Olhou para Talut com pnico. Talut balanou a cabea para Danug e os dois avanaram em direo 
aos homens teimosos que pareciam determinados a se matar.
     -  hora de ceder a vez a outro! - trovejou Talut, enquanto afastava Jondalar do caminho e agarrava o pilo. Danug tirou-o de Ranec no ricochete.
     Os dois homens estavam to atordoados pela exausto, que mal pareciam entender que a competio terminara quando cambalearam, afastando-se, arquejando em busca 
de ar. Ayla quis correr para ajud-los, mas a indeciso a manteve onde estava. Sabia que, de alguma forma, ela era a causa da luta deles, e no importava a qual 
deles se dirigisse primeiro, o outro perderia o prestgio. As pessoas do acampamento estavam preocupadas tambm, mas relutavam em oferecer auxlio. Temiam que, se 
expressassem sua preocupao, estariam reconhecendo que a competio entre os dois homens era mais que um jogo, e dariam crdito a uma rivalidade que ningum estava 
preparado para levar to a srio.
     Enquanto Jondalar e Ranec comeavam a recuperar-se, a ateno se desviou para Talut e Danug, que ainda amassavam o gro - e fazendo uma competio disso. Uma 
competio amigvel, mas no menos intensa. Talut sorria para a cpia jovem de si mesmo enquanto esmagava o pilo com o marfim sobre o osso. Danug, sem sorrir, golpeava-o 
de volta com determinao implacvel.
     - Muito bem, Danug! - gritou Tornec.
     - Ele no tem chance - contra-atacou Barzec.
     - Danug  mais jovem - falou Deegie. - Talut desistir primeiro.
     - Ele no tem o vigor de Talut - discordou Frebec.
     - Ainda no tem a fora de Talut, mas Danug tem vigor - falou Ranec. Afinal, tinha conseguido respirar suficientemente bem para acrescentar o comentrio. Embora 
ainda sofresse de cansao, viu a competio como uma forma de fazer sua disputa com Jondalar parecer menos que o esforo srio e fatal que havia sido.
     - Vamos, Danug! - gritou Druwez.
     - Pode conseguir! - acrescentou Latie, envolvida pelo entusiasmo, embora no estivesse certa se dirigia a Danug ou Talut.
     De repente, com um golpe duro de Danug, o osso do p estalou.
     - J chega! - esbravejou Nezzie, removendo o contedo do pilo.
     - No  preciso socar to duramente at quebrar o almofariz. Agora, precisamos de um novo e acho que voc deve faz-lo, Talut.
     - Acho que tem razo! - exclamou Talut, inclinando a cabea de leite. - Foi um bom competidor, Danug. Voc se tornou forte enquanto esteve fora. Viu o garoto, 
Nezzie?
     - Veja isto! - exclamou Nezzie, removendo o contedo do almofariz. - Este gro se tornou p! Eu o queria apenas partido. Para sec-lo tost-lo e estoc-lo. 
No posso tostar este para conserv-lo.
     - Que tipo de gro ? Perguntarei a Wymez, mas acho que o povo de minha me fazia alguma coisa do gro pulverizado - disse Ranec. - Levarei um pouco, se ningum 
mais o quiser.
     -  trigo, em sua maioria, mas h tambm centeio e aveia mistura Tulie j tem o suficiente para pequenos pes de gros modos de que todo mundo gosta, tm apenas 
que ser cozidos. Talut queria algum gro misturar ao amido da raiz de tabua para sua bebida. Mas, pode ficar todo ele, se quiser. Trabalhou para isso.
     - Talut tambm. Se ele quiser um pouco, pode ficar-disse Ranec;
     - Use o que quiser, Ranec. Levarei o que sobrar - falou Talut
     O amido da raiz de tabua que tenho empapado est comeando a fermentar. No sei o que aconteceria se eu pusesse isto nele, mas poderia ser interessante tentar 
e ver.
     Ayla observava Jondalar e Ranec para assegurar-se de que estavam bem. Quando viu Jondalar tirar a tnica suada, esparrinhar gua sobre si e entrar na habitao, 
notou que no sofrera qualquer conseqncia prejudicial. Ento, sentiu-se um pouco tola por se preocupar tanto com ele. Era um homem forte, vigoroso, afinal de contas, 
com certeza um pouco de esforo no lhe faria mal, nem a Ranec, tampouco. Mas evitou os dois. Estava confusa pelas aes deles, e pelos prprios sentimentos, e queria 
algum tempo para pensar.
     Tronie saiu da porta em arco da habitao, parecendo aflita. Segurava Hartal sobre um dos quadris, e um prato de osso, raso, carregado de cestas e implementos 
sobre o outro. Ayla correu at ela.
     - Ajudo? Posso carregar Hartal? - perguntou.
     - Oh, faria isso? - disse a jovem me, entregando o beb a Ayla.
     - Todo mundo andou cozinhando e preparando comida especial hoje e eu queria fazer algo para a festa tambm, mas acabei me distraindo. E depois Hartal acordou. 
Eu lhe dei de comer, mas ele no est com vontade de dormir de novo, ainda.
     Tronie encontrou um local para se espalhar perto da grande fogueira externa. Segurando o beb, Ayla observou Tronie derramar sementes de girassol descascadas 
no prato de osso, raso, tirando-as de uma das cestas. Com um pedao de osso da canela - Ayla achou que vinha de um rinoceronte lanoso -, Tronie amassou as sementes 
at formarem uma pasta. Depois de amassar mais algumas pores de sementes, ela encheu outra cesta com gua. Pegou duas lascas retas de osso, que tinham sido esculpidas 
e moldadas para essa finalidade e, com uma das mos, habilmente, puxou pedras quentes para cozinhar, do fogo. Com um silvo e uma nuvem de vapor, afundou as pedras 
na gua, tirou outras esfriadas e acrescentou mais algumas quentes at haver fervura. Ento, acrescentou a pasta de girassol. Ayla estava curiosa.
     O cozimento liberou o leo das sementes e, com uma concha grande, Tronie tirou a nata e derramou-a em outro recipiente, desta vez feito de casca de vidoeiro. 
Quando havia escumado tanto quanto possvel, ajuntou cereal silvestre partido de alguma variedade indistinguvel e pequenas sementes de quenopdio escuro  gua 
fervente, temperando-a com ervas, e ajuntou mais pedras de cozinhar para mant-la fervendo. Os recipientes de vidoeiro foram postos de lado para esfriar at que 
a manteiga de semente de girassol solidificasse. Ela deixou Ayla provar da ponta da concha e esta concluiu que era uma delcia.
     - E especialmente gostosa nos bolos de Tulie - disse Tronie. - Por isto eu queria faz-la. Enquanto tinha gua fervente, pensei que tambm poderia fazer alguma 
coisa para o caf de amanh. Ningum tem muita vontade de cozinhar de manh, depois de uma grande festa, mas as crianas, no mnimo, gostam de comer. Muito obrigado 
por me ajudar com Hartal.
     - No agradea,  um prazer. H muito tempo que no carrego um beb - disse Ayla, e compreendeu que era verdade. Encontrou-se olhando atentamente para Hartal, 
comparando-o, em sua mente, com os bebs do Cl. Hartal no tinha sobrancelhas totalmente desenvolvidas, mas tampouco os bebs do Cl as tinham. Sua testa era mais 
reta e a cabea mais redonda, mas no eram, realmente, to diferentes naquela tenra idade, pensou, exceto que Hartal ria e soltava risadinhas e arrulhava, e os bebs 
do Cl no produziam tantos sons.
     O beb comeou a se agitar um pouco quando sua me foi lavar os implementos. Ayla o sacudiu em seu joelho, depois mudou sua posio at ficar olhando para ele. 
Conversou com ele e observou sua resposta interessada. Isso o satisfez por algum tempo, mas no muito. Quando se aprontou para chorar de novo, Ayla assobiou para 
ele. O som o surpreendeu e ele parou para ouvir. Ela tornou a assobiar, desta vez imitando o canto de uma ave.
     Ayla havia passado muitas longas tardes, quando estava sozinha em seu vale, treinando gritos e trinados de pssaros. Tornara-se to adepta de imitar pssaros 
cantando, que algumas variedades atendiam ao seu assobio, porm essas aves no eram exclusivas do vale.
     Ao assobiar para entreter o beb, algumas aves pousaram perto, e comearam a bicar os gros e sementes que tinham cado das cestas de Tronie. Ayla as viu, assobiou 
de novo e estendeu um dedo. Depois de alguma cautela inicial, um corajoso tentilho pousou em seu dedo. 
     Cuidadosamente, com assobios que acalmavam e intrigavam a pequena criatura, Ayla pegou-o e aproximou-o mais para que o beb o visse. Uma risadinha deleitada 
e um dedo rechonchudo estendido o assustaram.
     Ento, para sua surpresa, Ayla ouviu aplausos. O som de mos batendo em coxas a fez erguer a cabea e ver os rostos da maioria das pessoas do acampamento sorrindo 
para ela.
     - Como faz isso, Ayla? Conheo algumas pessoas que imitam uma ave, ou um animal, mas voc o faz to bem que os engana - disse Tronie.
     - Nunca encontrei ningum com tanto domnio sobre os animais.
     Ayla corou, como se tivesse sido apanhada fazendo alguma coisa... Incorreta, apanhada no ato de ser diferente. Apesar de todos os sorrisos e aplausos, ela se 
sentia pouco  vontade. No sabia como responder  pergunta de Tronie. Ignorava como explicar que, quando voc est inteiramente sozinha, tem todo o tempo do mundo 
para treinar um assobio semelhante ao som de um pssaro. Quando no existe ningum no mundo ao seu lado, um cavalo ou at mesmo um leo lhe podem servir de companhia. 
Quando voc no sabe se existe algum no mundo como voc, procura contato com alguma coisa viva sempre que pode.
     Houve calmaria nas atividades do Acampamento do Leo no inicio da tarde. Embora sua maior refeio do dia fosse, geralmente, mais ou menos ao meio dia, a maior 
parte das pessoas no fez a refeio do meio-dia, ou aproveitou as sobras da manh, na expectativa de uma festa que prometia ser deliciosa, apesar de no ter sido 
planejada. As pessoas relaxavam; algumas cochilavam, outras vigiavam a comida de vez em quando, poucas falavam em voz baixa, mas havia uma sensao de excitao 
no ar e todo mundo esperava uma noite especial.
     Dentro da habitao comunal, Ayla e Tronie ouviam Deegie, que lhes contava os detalhes de sua visita ao Acampamento de Branag, e os preparativos para a sua 
unio. Ayla ouvia com interesse, a princpio, mas quando as duas jovens Mamutoi comearam a falar sobre este parente ou aquela amiga, nenhum deles seu conhecido, 
ela se levantou com um comentrio sobre verificar as ptrmigas e saiu. A conversa de Deegie sobre Branag e seu prximo matrimnio fez Ayla pensar em sua relao 
com Jondalar. Ele havia dito que a amava, mas nunca propusera uma unio com ela, ou falara de matrimnio e ela se perguntou por qu.
     Dirigiu-se  cavidade onde as aves cozinhavam, verificou, para ter certeza de que podia sentir o calor, depois viu Jondalar com Wymez e Danug a um lado, onde 
geralmente trabalhavam, longe das trilhas que as pessoas normalmente usavam. Ela sabia sobre o que falavam e, mesmo se ignorasse, poderia ter adivinhado. O espao 
estava cheio de pedaos grandes e lascas aguadas de slex, e vrios ndulos enormes da pedra til jaziam no solo perto dos trs fabricantes de ferramentas. Ela 
se perguntara, muitas vezes, como podiam passar tanto tempo falando sobre slex.
     Com certeza, deviam ter dito tudo o que havia para dizer agora.
     Embora no fosse perita, at Jondalar chegar Ayla havia feito suas prprias ferramentas de pedra, que serviam adequadamente s suas necessidades. Quando
era
jovem, observara muitas vezes Droog, o fabricante de ferramentas do Cl, e aprendera a imitar suas tcnicas. Mas Ayla soubera, desde a primeira vez que vira Jondalar
trabalhar, que a habilidade dele ultrapassava de longe a dela e, enquanto havia uma semelhana em gosto pelo artesanato e talvez mesmo em capacidade relativa, os 
mtodos de Jondalar e as ferramentas que criava eram muito mais perfeitos que os do Cl. Ela estava curiosa sobre os mtodos que Wymez utilizava, e tivera a inteno 
de perguntar se podia v-lo trabalhar, um dia. Resolveu que aquele era um bom momento.
     Jondalar a percebeu no instante em que saiu da habitao comunal, mas tentou no demonstr-lo. 
     Estava certo de que ela o andara evitando desde sua exibio de funda nas estepes, e no queria forar sua corte, se ela no o desejava por perto. Quando ela 
comeou a caminhar na direo deles, Jondalar sentiu um grande n de ansiedade no estmago, temeroso de que ela mudasse de idia, ou de que apenas parecesse vir 
na direo deles.
     - Se no incomodo, queria ver fabricar ferramentas - disse Ayla
     - Claro. Sente-se - disse Wymez com um sorriso de boas-vindas.
     Jondalar relaxou visivelmente; sua testa enrugada ficou lisa e a rigidez de seus maxilares desapareceu. Danug tentou dizer alguma coisa quando ela se acomodou 
ao seu lado, mas a presena de Ayla o deixou sem fala. Jondalar notou o olhar de adorao de Danug e conteve um sorriso de indulgncia. Ele havia desenvolvido um 
afeto sincero pelo garoto, e sabia que o amor de criana no era ameaa para ele. Era capaz de se sentir como um irmo mais velho protetor.
     - Sua tcnica  usada comumente, Jondalar? - perguntou Wymez continuando, obviamente, uma discusso que Ayla interrompera.
     - Mais ou menos. A maioria das pessoas separa as lminas de parte principal preparada para fazer outras ferramentas. Buris, facas, padeiras ou pontas para lanas 
menores.
     - E as lanas maiores? Voc caa mamutes?
     - Alguns - respondeu Jondalar. - No nos especializamos no que vocs fazem. As pontas para lanas maiores so feitas de osso... geralmente usamos a perna dianteira 
do veado. Um buril  usado para model-la, tanto encaixes no esboo geral e trabalhando at se partir e libertar-se. Depois,  raspada at a forma correta com uma 
raspadeira posta sobre no de uma lmina. Podem-se tornar pontas fortes, aguadas com arenito malhado.
     Ayla, que o havia ajudado a fazer as pontas de lana de osso usavam, estava impressionada com a sua eficcia. Eram longas e a fortes, penetravam profundamente 
quando as lanas eram arremessadas com fora, principalmente com o arremessador de lanas. Muito mais leves que as que ela havia usado, que eram iguais  lana pesada 
do Cl, as lanas de Jondalar destinavam-se completamente a serem arremessadas, no impulsionadas.
     - Uma ponta de osso penetra fundo - disse Wymez. - Se voc atingir um ponto vital,  uma morte rpida, mas no h muito sangue.  acertar num local vital de 
um rinoceronte ou mamute. O plo  alto, se voc acertar entre as costelas ainda h muita gordura e msculo para atravessar. O olho  um bom alvo, mas  pequeno, 
e sempre em movimento. Um mamute pode ser morto com uma lana na garganta, porm, isso  perigoso. Voc tem que chegar muito perto. Uma ponta de lana de slex das 
aguadas. Atravessa mais facilmente a pele dura e faz sangrar, e isso enfraquece o animal. Se puder fazer o animal sangrar, os intestinos e a bexiga os melhores 
locais para mirar. 
     No  to rpido, mas  muito mais fcil;
     Ayla estava fascinada. A fabricao de ferramentas era bastante interessante, porm, ela jamais caara mamutes.
     - Tem razo - falou Jondalar -, mas como voc faz preparar uma grande de lana, reta? No importa a tcnica utilizada para separar lmina, ela sempre  curva. 
Essa  a natureza da pedra. No pode arremessar uma lana com a ponta curva, pois perderia a preciso, perderia a trao, e provavelmente a metade de sua fora. 
 por isso que as pontas de slex so pequenas. Quando lasca o suficiente do lado inferior para moldar uma ponta reta, no sobra grande coisa.
     Wymez sorria, concordando com um balano de cabea.
     -  verdade, Jondalar, mas deixe-me lhe mostrar uma coisa.
     O homem mais velho pegou de trs de si urna trouxa pesada embrulhada em couro e abriu-a. Pegou uma grande cabea de machado, uma pedra gigantesca do tamanho 
de uma malho, feita de um ndulo inteiro de slex. Tinha uma ponta arredondada e fora moldada em uma extremidade grossa cortante que terminava em ponta.
     - Estou certo de que fez algo como isto. Jondalar sorriu
     - Sim, tenho feito machados, mas nada to grande assim. Deve ser para Talut.
     - Sim, eu ia pr um cabo de osso comprido para Talut. Ou talvez, Danug - disse Wymez, sorrindo para o jovem. - Estes so usados para quebrar ossos de mamute 
ou cortar presas.  preciso um homem forte para manejar um. Talut o pega como vara. Acho que, agora, Danug j pode fazer o mesmo.
     - Ele pode. Pode cortar suportes para mim - disse Ayla, olhando para Danug com simpatia, o que provocou um rubor e sorriso tmido. Ela tambm havia feito e 
usado machados manuais, mas no daquele tamanho.
     - Como faz um machado? - continuou Wymez
     - Em geral, comeo partindo uma lasca grossa com um martelo de pedra e retocando os dois lados para dar-lhe um gume e urna ponta.
     - O povo da me de Ranec, os Aterianos, fazem uma ponta de lana com um retoque de duas faces. Duas faces? Partida dos dois lados, como um machado? Para que 
fique razoavelmente reta, voc teria que comear com uma grande lasca para fazer uma lmina, no uma lasca fina. Isso no seria desajeitado demais para uma ponta 
de lana?
     - Era um pouco grossa e pesada, mas um aperfeioamento claro de um machado. E muito eficaz para os animais que caavam.  verdade, contudo. Para perfurar um 
mamute ou rinoceronte, precisa-se de uma ponta de slex que seja longa e reta, e resistente, e fina. Como voc faria isso? - Interrogou Wymez.
     De duas faces.  o nico jeito. Em uma lana grossa assim, seu usar retoque de presso simples, para remover raspas finas de ambos os lados - disse Jondalar, 
pensativo, tentando imaginar como faria tal arma - mas isso exigiria um controle tremendo.
     - Exatamente, o problema  controle, e a qualidade da pedra.
     - Sim. Teria que ser fresca. Dalanar, o homem que me ensinou, vive Perto de um rochedo exposto de greda que apresenta slex na superfcie do terreno. Talvez 
parte dessa pedra desse resultado. Mas, mesmo assim, seria demais. Fizemos alguns bons machados, mas no sei como faria uma ponta e lana decente dessa maneira.
     Wymez estendeu a mo para outro embrulho envolto em couro bom e macio. Abriu-o com cuidado e exibiu vrias pontas de slex.
     Os olhos de Jondalar arregalaram-se, surpresos. Ergueu o olhar a Wymez, depois para Danug que sorria com orgulho por seu mentor, e em seguida pegou uma das 
pontas. Virou-a em suas mos ternamente, quase acariciando a pedra belamente trabalhada.
     O slex tinha aspecto escorregadio, uma qualidade lisa, no muito oleosa, e uma luminosidade que cintilava das muitas facetas  luz do sol. O objeto tinha a 
forma de uma folha de salgueiro, com simetria quase perfeita em todas as dimenses, e estendia-se pelo comprimento total de sua mo, da base da palma at as pontas 
dos dedos. Comeando em ponta em uma extremidade, espalhava-se pela largura de quatro dedos no meio, depois voltava a estreitar-se em uma ponta na extremidade oposta. 
Virando-o sobre o gume, Jondalar viu que no tinha, realmente, a caracterstica forma arqueada das ferramentas em lmina. Era perfeitamente reta, com uma parte transversal 
com espessura quase igual  do seu dedo mnimo.
     Ele sentiu o fio profissionalmente. Muito aguado, apenas ligeiramente denticular, pelas marcas das muitas lascas pequenas removidas. Correu os dedos levemente 
pela superfcie e sentiu os pequenos sulcos deixados pelas inmeras lascas, que tinham sido destacadas, para dar  ponta de slex uma forma to exata, excelente
     - -  bonita demais para ser usada como arma - disse Jondalar - E uma obra de arte.
     - Esta no  usada como arma - falou Wymez, satisfeito pelo elogio do colega arteso - Eu a fiz como modelo para mostrar a tcnica.
     Ayla esticava o pescoo para ver as ferramentas de primoroso artesanato descansando no couro macio, sobre o terreno, sem ousar toc-las. E... Jamais vira pontas
de lana to lindamente fabricadas. Eram de vrios tamanhos e tipos. Alm das pontas em forma de folhas, havia pontas assimtricas que se afilavam muito de um lado 
em direo a uma tbia saliente, que seria inserida em um cabo de forma a poder ser usada como uma faca, e pontas mais simtricas com um espigo centralizado, que 
podiam ser pontas de lana ou facas de outro tipo.
     - Quer examin-las de mais perto? - perguntou Wymez.
     Os olhos de Ayla brilharam com assombro, e ela pegou cada uma, segurando-as como se fossem pedras preciosas. E quase eram.
     - Slex ... Liso, vivo - disse Ayla. - Nunca vi slex como este, antes.
     Wymez sorriu.
     - Descobriu o segredo, Ayla - falou. -  isto que torna estas pontas possveis de fazer.
     - Tem slex como este por perto? - perguntou Jondalar, incrdulo.
     - Tambm nunca vi nenhum igual a este.
     - No, infelizmente no. Oh, podemos conseguir slex de boa qualidade. Um grande acampamento ao norte vive perto de uma boa mima slex.  onde Danug esteve, 
mas esta pedra foi especialmente tratada... Fogo.
     - Pelo fogo!? - exclamou Jondalar.
     - , pelo logo. O calor altera a pedra. O calor  que a torna macia... - Wymez olhou para Ayla - . . .E to viva. O calor  que d qualidades especiais  pedra. 
- Enquanto falava, pegou um ndulo de slex que mostrava sinais definidos de ter estado no fogo. Estava sujo de fuligem e queimado, e o crtex exterior gredoso era 
de tom muito mais escuro quando se abriu com um golpe de um malho. - Da primeira vez, foi um acidente. Um pedao de slex caiu na fogueira. Era um fogo vivo forte, 
sabe como  preciso um fogo forte para queimar um osso?
     Ayla concordou com um gesto de cabea, consciente. Jondalar encolheu os ombros, no havia prestado muita ateno, mas j que Ayla parecia saber, aceitava-o 
de boa vontade.
     - Eu ia rolar o slex e tir-lo, mas Nezzie resolveu que j que estava ali, daria um bom suporte para um prato pegar gordura derretida de um assado que ela 
preparava. Resultou que a gordura se incendiou, e estragou uma boa travessa de marfim. Eu a substitui para ela, j que acabou sendo um golpe de sorte. Mas quase 
joguei fora  pedra, no incio. Estava toda queimada e evitei us-la at ficar com pouco material. Da primeira vez em que a quebrei, abrindo-a, pensei que estava 
imprestvel. Vejam, podem ver por que motivo - disse Wymez, dando um pedao a cada um deles.
     - O slex est mais escuro e tem aquele aspecto escorregadio - disse
     - Aconteceu que fazia experincia com pontas de lanas aterianas tentando melhorar sua tcnica. 
     J que estava apenas pesquisando novas idias, pensei que no importava se a pedra fosse imperfeita. Mas, assim que comecei a trabalhar com ela, notei a diferena. 
Ocorreu pouco depois de que voltei. Ranec ainda era um menino. Eu a tenho aperfeioado desde ento.
     - Que tipo de diferena notou? - perguntou Jondalar.
     - Voc vai experimentar, Jondalar, e ver.
     Jondalar ergueu seu malho, uma pedra oval, denteada e lascada pelo uso, que se acomodava confortavelmente em sua mo, e comeou a tirar a harmonia do crtex 
gredoso em sua preparao para trabalh-lo.
     - Quando o slex  aquecido fortemente antes de ser trabalhado - continuou Wymez enquanto Jondalar labutava -, o controle sobre o material  muito maior. As 
lascas muito pequenas, muito mais finas e longas, podem ser removidas aplicando-se presso. Voc pode fazer a pedra assumir quase todas as formas que desejar.
     Wymez envolveu a mo esquerda com um pequeno pedao de couro para proteg-la dos gumes aguados, depois colocou outro pedao de Slex, recentemente partido 
de um dos nacos queimados, em sua mo esquerda para demonstrao. Com a mo direita, ergueu um pequeno retocador sseo afilado. Colocou a extremidade pontiaguda 
do osso contra a quina do slex e empurrou com um movimento forte para a frente e Para baixo, separando uma lasca pequena, comprida, achatada de pedra. Ele a manteve 
erguida. Jondalar pegou o retocador, e depois experimentou por conta prpria, bastante surpreso, claramente, e satisfeito com os resultados.
     Jondalar.
     - Tenho que mostrar isto a Dalanar!  inacreditvel! Ele aperfeioou alguns dos processos... Tem um jeito natural para trabalhar com a pedra, como voc, Wymez. 
Mas voc quase pode alisar esta pedra. Isto  causado pelo calor?
     Wymez sacudiu a cabea afirmativamente.
     - No diria que se pode polir a pedra. E pedra morta, no to fceis de moldar quanto o osso, mas se voc souber trabalhar a pedra, o aquecimento facilita o 
trabalho.
     - Gostaria de saber o que aconteceria com percusso indireta... Tentou usar um pedao de osso ou chifre com uma ponta a fim de dirigir a fora do golpe de um 
malho? Poder conseguir lminas muito mais longas e finas assim.
     Ayla pensou que Jondalar tinha um dom natural para trabalhar a pedra tambm. Porm, mais que isso, sentiu em seu entusiasmo e desejo instantneo de dividir 
aquela descoberta maravilhosa com Dalanar, e ansioso de ir para casa.
     Em seu vale, quando ela hesitara em encarar os Outros desconhecidos havia pensado que Jondalar queria apenas ir embora para estar com outras pessoas. Ela jamais 
havia compreendido bem, antes, quo forte o desejo do homem de voltar ao seu lar. Surgiu como uma revelao, insight; ela sabia que ele jamais poderia ser realmente 
feliz em outro lugar.
     Embora sentisse uma falta desesperada de seu filho e das pessoas que amava, Ayla no sentira saudades de casa no sentido em que Jondalar se sentia afetado, 
como um desejo de voltar para um local familiar, onde as pessoa eram conhecidas e os costumes confortveis. Ela soubera, quando deixar o Cl, que jamais voltaria. 
Para eles, ela estava morta. Se a vissem, pensariam que era um esprito maligno. E agora, ela sabia que no voltaria a viver com eles, mesmo se pudesse. Embora estivesse 
com o Acampamento Leo apenas pouco tempo, j se sentia mais  vontade e em casa do que todos aqueles anos que vivera com o Cl. Iza tivera razo. Ela no era do 
Cl. Ela nascera dos Outros.
     Perdida em pensamento, Ayla no ouvira parte da discusso posterior. Escutando Jondalar dizer o seu nome, voltou ao presente.
     -... Acho que a tcnica de Ayla deve ser prxima da deles. Foi l que aprendeu. Vi algumas de suas ferramentas, mas nunca as vi feitas antes dela me mostrar. 
No lhes falta habilidade, mas h um grande passo entre pr-fabricar um buril intermedirio e um cerne, e essa  a diferena entre uma pesada ferramenta lascada 
e uma ferramenta fina, de lmina leve.
     Wymez sorriu e concordou com um gesto de cabea.
     - Agora, se ao menos pudssemos encontrar uma maneira de - uma lmina reta. No importa como, o gume de uma faca nunca  afiado depois que foi retocado.
     - Tenho pensado nesse problema - disse Danug, dando uma contribuio ao debate. - Que tal talhar um encaixe de osso ou chifre e colar em pequenas lminas? Bastante 
pequenas para serem quase retas?
     Jondalar refletiu um instante.
     - Como as faria?
     - No poderia comear com um cerne pequeno? - sugeriu Danug, um pouco hesitante.
     - Talvez d certo, Danug, mas um cerne pequeno pode ser difcil para se trabalhar - falou Wymez. - Pensei em comear com uma lmina maior e parti-la em outras 
menores...
     Ainda falavam sobre slex, percebeu Ayla. Nunca pareciam cansar-se disso. O material e seu potencial nunca deixavam de fascin-los. Quanto mais aprendiam, mais 
estimulado ficava o seu interesse. Ela era capaz de apreciar slex e a fabricao de ferramentas, e pensou nas pontas de lana que Wymez lhes mostrara, mais finas 
do que jamais vira, tanto por sua beleza quanto por seu uso. Mas ela jamais ouvira o assunto discutido em detalhes to exaustivos. Ento, recordou seu fascnio pelo 
saber mdico e magia de cura. As ocasies que passara com Iza, e Uba, quando a curandeira lhes estava ensinando, estavam entre as mais felizes recordaes.
     Ayla viu Nezzie saindo da habitao e levantou-se para saber se podia ajudar. Embora os trs homens sorrissem e fizessem comentrios quando ela se afastou, 
imaginou que sequer reparariam que ela se fora.
     Isso no era inteiramente verdade. Apesar de nenhum dos homens fazer comentrios em voz alta, houve uma pausa em sua conversa enquanto a observavam afastar-se.
      uma mulher jovem e bonita, pensou Wymez. Inteligente e instruda e interessada em muitas coisas. Se fosse Mamutoi, teria um Preo de Noiva elevado. Imagine 
que status traria para seu companheiro e passaria para os filhos.
     Os pensamentos de Danug seguiam o mesmo caminho, embora no estivesse to claramente formados em sua mente. Idias vagas sobre Preo de Noiva e matrimnios, 
e at companheirismo lhe ocorreram, mas no pensou que teria uma chance. Queria apenas, principalmente, estar perto dela.
     Jondalar a queria mais ainda. Se pudesse inventar uma desculpa razovel, ter-se levantado e a seguido. No entanto, temia apertar demais o cerco. Lembrou-se 
de seus sentimentos quando as mulheres tentavam faz-lo am-las com demasiado empenho. Em vez disto, ele quisera evit-las, e sentira pena delas. No queria a piedade 
de Ayla. Queria o seu amor.
     Uma nusea sufocante de blis subiu-lhe  garganta quando viu o homem de pele escura sair da habitao de terra e sorrir para Ayla. Tentou engolir, controlar 
a clera e a frustrao que sentia. 
     Jamais conhecera cime igual e odiou-se por isso. Estava certo de que Ayla o detestaria, ou pior, sentiria pena dele, se soubesse como se sentia. Estendeu a 
mo para um grande ndulo de slex e, com seu malho, despedaou-o. A pedra se estragou, entremeada com a greda esfarelada de seu crtex externo, mas Jondalar continuou 
golpeando-a, partindo-a em pedaos cada vez menores. 
     Ranec viu Ayla vindo da rea dos quebradores de slex. A atrao e excitao crescentes que ele sentia todas as vezes em que a via no podiam ser flagelada 
Fora atrado desde o incio pela perfeio de forma que ela apresentava a seu senso esttico, no apenas como mulher bonita para se olhar, mas em sua graa sutil, 
no-estudada, de movimentos. Ele possua olhos sagazes para tal detalhe e no conseguia detectar a menor pose ou afetao. Ela se comportava com um autodomnio, 
uma confiana destemida, que pareciam to totalmente naturais que ele sentia que ela devia ter nascido assim, e isso gerava uma qualidade que ele s podia definir 
como presena.
     Lanou-lhe um sorriso clido. No era um sorriso que se podia ignorar facilmente, e Ayla o retribuiu com igual afeto.
     - Seus ouvidos se fartaram de conversa sobre slex? - perguntou Ranec, dando  frase um tom levemente pejorativo. Ayla percebeu a nuana, mas no ficou muito 
certa do seu significado, embora pensasse que pretendia ser engraado, e que era uma piada.
     - Sim. Falam de slex. De fazer lminas e ferramentas. Pontas lanas. Wymez fabrica pontas bonitas.
     - Ah, ele exibiu seus tesouros, no ? Tem razo, so bonitas. Tenho certeza se ele sabe disso, mas Wymez  mais do que um arteso, um artista.
     Uma ruga franziu a testa de Ayla. Lembrou-se de que ele usara aquela palavra para descrev-la quando usou sua funda, e estava incerta sobre se entendia a palavra 
do jeito que ele a empregava.
     - Voc  artista? - ela indagou.
     Ele fez uma careta esquisita. A pergunta tocara no mago de toda questo sobre a qual ele tinha fortes sentimentos.
     Seu povo acreditava que a Me primeiro havia criado um mundo espiritual e os espritos de todas as coisas nele eram perfeitos. Ento os espritos deram origem 
a cpias vivas de si mesmos para povoar o lugar comum. O esprito era o modelo, o padro de que decorriam todas, mas nenhuma cpia podia ser to perfeita quanto 
o original; nem os prprios espritos eram capazes de fazer cpias perfeitas, dai cada um ser diferente.
     As pessoas eram nicas, estavam mais prximas da Me do que outros espritos. A Me deu  luz uma cpia de Si Mesma e chamou-a de Mulher-Esprito. Depois, fez 
com que o Homem-Esprito nascesse de seu tero exatamente como cada homem nascia de uma mulher. Ento, a Grande, fez com que o esprito da mulher perfeita se misturasse 
ao esprito do homem perfeito, e assim nascessem muitos filhos de espritos diferentes. Mas, A Prpria escolhia que esprito de homem se unia a uma mulher antes 
que Ela soprasse Sua fora vital na boca da mulher para que engravidasse. para alguns de seus filhos, mulheres e homens, a Me dava ddivas especial.
     Ranec se referia a si mesmo como entalhador, um fabricante de objetos talhados  semelhana de coisas vivas ou espirituais. Fizeram objetos teis. Personificavam 
espritos vivos, tornavam-nos imaginveis, e eram ferramentas essenciais para certos ritos, necessrios  cerimnias realizadas pelos mamutois. Aqueles que criavam 
esses objeto eram muito estimados; eram artistas talentosos que a Me escolhera. Muita gente pensava que todos os entalhadores, na verdade, todas as pessoas capazes 
de criar ou decorar objetos para torn-los algo mais do que simplesmente utilidades, eram artistas, mas na opinio de Ranec nem todos os artistas eram igualmente 
dotados, ou talvez no dessem ateno igual ao seu trabalho. Os animais e figuras que faziam eram toscos. Ele achava que essas representaes eram um insulto aos 
espritos e  Me que os criou.
     No ponto de vista de Ranec, o melhor e mais perfeito exemplo de alguma coisa era belo, e tudo o que fosse bonito era o melhor e mais perfeito exemplo do esprito; 
era a sua essncia. Essa era a sua religio. Alm disso, no mago de sua alma esttica, sentia que essa beleza possua um valor intrnseco prprio e acreditava que 
havia um potencial para a beleza em tudo. Enquanto algumas atividades ou objetos podiam ser simplesmente funcionais, sentia que qualquer pessoa que se aproximava 
da perfeio em qual quer atividade era um artista, e os resultados continham a essncia de beleza. Mas a arte estava tanto na atividade quanto nos resultados. As 
obras de arte no eram apenas o produto terminado, mas o pensamento, da ao, o processo que as criava.
     Ranec procurava a beleza, quase como uma busca sagrada, com suas mos experientes, mas ainda mais com seus olhos inatamente sensveis. Sentia uma necessidade 
de cercar-se dela e comeava a visualizar Ayla como obra de arte, como a melhor e mais perfeita expresso de mulher de que era capaz de conceber. No era apenas 
sua aparncia que a fazia bonita. A beleza no era uma figura esttica; era essncia, era esprito, era aquilo que animava. Era mais bem expressa em movimento, comportamento, 
realizao. Uma mulher bonita era uma mulher dinmica e completa. Embora ele no o dissesse em tantas palavras, Ayla comeava a representar para ele uma encarnao 
perfeita da Mulher-Esprito original. Era a essncia de mulher, a essncia de beleza.
     O homem escuro com os olhos risonhos e o esprito irnico que aprendera a usar para mascarar seus anseios profundos esforava-se para criar perfeio e beleza 
em seu prprio trabalho. Por seus esforos, era aclamado por seu povo como o melhor entalhador, um artista de real distino mas, como muitos perfeccionistas, jamais 
estava totalmente satisfeito com suas criaes. No se referia a si mesmo como artista.
     - Sou um entalhador - disse a Ayla. Depois, porque viu o seu aturdimento, acrescentou: - Algumas pessoas chamam qualquer escultor de artista. - Hesitou um instante, 
perguntando-se como ela julgaria seu trabalho e disse depois: - Gostaria de ver algumas esculturas minhas?
     - Sim - respondeu ela.
     A franqueza simples de sua resposta o deteve um momento. Depois, ele atirou a cabea para trs e riu alto. Claro, o que mais ela diria? Com os olhos enrugados 
de deleite chamou-a para o interior da moradia.
     Jondalar os viu atravessar a entrada em arco juntos e sentiu um peso descer sobre ele. Fechou os olhos e abaixou a cabea, tristemente.
     O homem alto e atraente jamais havia sofrido por falta de ateno feminina, mas do momento em que lhe faltava compreenso da qualidade que o fazia to sedutor, 
no tinha confiana em sua atrao. Era um fabricante de ferramentas, mais  vontade com o fsico do que o metais melhor em aplicar sua inteligncia considervel 
na compreenso de - tcnicos de presso e percusso sobre slica homognea, cristalina - Percebia o mundo em termos fsicos.
     Expressava-se fisicamente tambm; era melhor com as mos do que com palavras. No que falasse mal, apenas no era especialmente dotado com as palavras. Havia 
aprendido a contar uma histria suficientemente bem, mas no era rpido com respostas desembaraadas e rplicas divertidas. Era um homem srio e reservado, que no 
gostava de falar sobre si mesmo, embora fosse um ouvinte sensvel, que atraa confidncias dos outros. Em casa, fora famoso como um excelente arteso, mas as mesmas 
mos que podiam moldar to cuidadosamente a pedra dura em boas ferramentas tambm eram hbeis nos caminhos de um corpo de mulher. Foi outra expresso de sua natureza 
fsica e, embora no to abertamente tambm fora famoso por isso. As mulheres o perseguiam e inventavam-, piadas sobre a sua outra habilidade.
     Era uma arte que aprendera, como aprendera a moldar slex. Sabia onde tocar, era receptivo e acessvel a sinais sutis, e sentia prazer em compartilhar, prazer. 
Suas mos, olhos, o corpo inteiro falavam com mais eloqncia do que quaisquer palavras que pronunciasse. 
     Jondalar desenvolvera afeto e carinho genunos por algumas mulheres e gostava delas fisicamente, porm no amou at encontrar Ayla, e no se sentia confiante 
de que ela o amasse verdadeiramente.
     Como poderia ela? Ela no tinha parmetro de comparao. Fora ele o nico homem que ela conheceu chegarem ali. Ele reconhecia que o escultor era um homem de 
honra e considerveis, e via os sinais de crescente atrao por Ayla. Sabia que, se homem fosse capaz, Ranec poderia conseguir o amor de Ayla. Jondalar havia viajado 
por metade do mundo antes de encontrar uma mulher que pudesse amar. Agora, que a encontrara, afinal, iria perd-la to cedo?
     Mas, merecia ele perd-la? Podia traz-la de volta consigo, sabendo como seu povo pensava em relao a mulheres como ela? Apesar de todo o seu cime, comeava 
a se perguntar se era a pessoa certa para ela. Disse a si mesmo que queria ser justo com ela mas, no fundo de seu corao perguntou-se se suportaria o estigma de 
amar a mulher errada, novamente Danug percebeu a angstia de Jondalar e olhou para Wymez, perturbado. Wymez apenas sacudiu a cabea afirmativamente, com astcia. 
tambm amara uma mulher de extica beleza, um dia, mas Ranec era o de sua fogueira, e atrasado para achar uma mulher e se fixar e criar famlia com ela.
     Ranec conduziu Ayla  Fogueira da Raposa. Embora ela a houvesse atravessado vrias vezes todos os dias, evitara, propositadamente, olhares curiosos aos alojamentos 
privados; era um costume de sua vida com o Cl que aplicava no Acampamento do Leo. No projeto da casa comum da habitao de terra, a privacidade no era tanto uma 
questo de portas fechadas quanto de considerao, respeito e tolerncia mtua.
     - Sente-se - disse ele, guiando-a para um estrado de cama, juncado de peles macias, suntuosas. Ela olhou ao redor, agora que era aceitvel que satisfizesse 
a sua curiosidade. Embora dividissem uma fogueira, os dois homens que viviam em lados opostos do corredor central tinham espaos disponveis que eram unicamente 
individuais.
     Do outro lado da fogueira, a rea do fabricante de ferramentas tinha uma aparncia de indiferente simplicidade. Havia um estrado de cama com almofada estofada 
e peles, e uma cortina de couro amarrada ao acaso, acima, que parecia no ter sido solta durante anos. Algumas roupas penduradas em cabides e mais peas estavam 
empilhadas sobre uma parte do estrado de cama, estendendo-se ao longo da parede, alm da diviso na cabeceira da cama.
     A rea de trabalho ocupava a maior parte do recinto, definida por lascas, nacos e pedaos quebrados de slex, cercando um osso de p de mamute usado tanto como 
assento quanto como bigorna. Vrios retocadores e martelos de osso e pedra estavam em evidncia sobre a extenso do estrado de cama, ao seu p. Os nicos objetos 
decorativos eram uma estatueta de marfim da Me em um nicho na parede e, pendurado ao seu lado, um cinto intrincadamente decorado de onde pendia uma saia de capim 
seco e murcho. Ayla notou, sem perguntar, que pertencera  me de Ranec.
     Em contraste, o lado do entalhador era de um bom gosto suntuoso. Ranec era um colecionador, mas muito seletivo. Tudo era escolhido com cuidado, e exibido de 
forma a mostrar suas melhores qualidades e a complementar o todo com uma riqueza textural. As peles na cama convidavam ao toque e gratificavam o contato com maciez 
excepcional. As cortinas dos dois lados, caindo em pregas cuidadosas, eram de pele de veado aveludada, de uma cor castanho-amarelada escura, e tinham um odor fraco, 
mas agradvel, da madeira de pinho pulverizada, que lhes dava sua cor. O cho era coberto com esteiras de algum capim aromtico tecido primorosamente com desenhos 
coloridos.
     Numa parte do estrado de cama havia cestas de vrios tamanhos e formatos; as maiores continham roupas arrumadas para mostrar trabalho decorativo em contas, 
ou desenhos com penas e pele. Em algumas das cestas e pendendo de cabides, estavam braceletes e pulseiras de marfim esculpido e colares de dentes de animais, conchas 
de moluscos de gua doce, conchas marinhas, tubos cilndricos de pedra calcria, pingentes e contas de marfim colorido e, realando entre eles, mbar. Uma grande 
lasca de presa de mamute, esculpida com desenhos geomtricos incomuns, estava na parede. Mesmo as armas de caa e as roupas de passeio que pendiam de cabides Somavam 
ao efeito global.
     Quanto mais ela olhava, tanto mais ela via, mas os objetos que pareciam se projetar e prender sua ateno eram uma estatueta da Me lindamente feita de marfim, 
em um nicho, e as esculturas perto de sua rea de trabalho.
     Ranec a observava, notando onde seus olhos se fixavam, e sabendo o que ela via. Quando os olhos de Ayla pousaram nele, Ranec sorriu. Sentou-se  sua bancada. 
O osso da canela de um mamute fincado no solo fazia com que a articulao do joelho, achatada, levemente cncava, chegasse  altura do seu peito quando ele se sentava 
sobre uma esteira, no cho. Na superfcie de trabalho horizontal, curva, entre uma variedade de buris instrumentos de slex similares a cinzis que ele usava para 
esculpir, esta. uma escultura no-terminada de uma ave.
     - Esta  a pea em que estou trabalhando - disse ele, observando a expresso da jovem enquanto lhe estendia o trabalho.
     Ela aninhou, com cuidado, a escultura de marfim nas mos, olhou-o, depois virou-a e a examinou com mais ateno. Em seguida, parecendo intrigada, virou-a de 
um lado e depois, novamente, para o outro.
     -  ave quando olho deste lado - disse a Ranec -, mas agora... Segurou a escultura do outro jeito -...  urna mulher!
     - Maravilhoso! Voc percebeu logo. E uma coisa que tenho tentado fazer. Queria mostrar a transformao da Me, Sua forma espiritual. Quero mostr-la quando 
Ela assume Sua forma de ave para voar daqui para o. mundo espiritual, mas ainda como a Me, como mulher. Para incorporar as duas formas ao mesmo tempo!
     Os olhos escuros de Ranec brilharam, estava to excitado que quase no podia falar rpido o bastante. Ayla sorriu do seu entusiasmo. Era um lado dele que ela 
no vira antes. Em geral, ele parecia muito mais desprendido, mesmo quando ria. Por um momento, Ranec a remeteu a Jondalar, quando desenvolvia a idia para o arremessador 
de lanas. Franziu a testa sob o pensamento. Aqueles dias de vero no vale pareciam muito distantes. Agora, Jondalar quase nunca sorria ou, se o fazia, ficava zangado 
no instante seguinte. Ela teve uma sensao repentina de que Jondalar no gostaria de ela estar ali, conversando com Ranec, ouvindo sua satisfao e excitao, e 
isso a deixou infeliz e um pouco zangada.
     - Ayla, a est voc - disse Deegie, atravessando a Fogueira da Raposa. - Vamos comear a msica. Venha. Voc tambm, Ranec.
     Deegie havia reunido a maior parte do Acampamento do Leo pelo caminho. Ayla reparou que ela carregava o crnio de mamute, Tornec omoplata pintada com linhas 
vermelhas ordenadas e formas geomtricas e que Deegie havia usado a palavra desconhecida de novo. Ayla e acompanharam-na at o lado de fora.
     Nuvens leves corriam num cu que escurecia no norte e o vento se intensificava, partindo a pele dos capuzes e parkas. Mas ningum reunido em crculo pareceu 
not-lo.
     A fogueira, que fora construda com montes de terra e algumas pedras para tirar proveito do vento norte, estava mais viva  medida que mais ossos e lenha eram 
postos nela, mas o fogo era uma presena invisvel dominada pelo brilho cintilante que descia a oeste.
     Alguns ossos grandes, que pareciam ter sido deixados jazendo casualmente por perto, assumiram um propsito definido quando Deegie e Tornec reuniram a Mamut 
e sentaram-se sobre eles. Deegie abaixou o crnio fixado de forma que no ficasse fincado ao solo, mas fosse sustentado na frente e atrs por outros ossos grandes. 
Tornec segurou a omoplata pintada em posio vertical, e bateu em vrios locais com um implemento em forma de martelo feito de chifres, ajustando levemente a posio.
     Ayla estava assombrada com os sons que produziam, diferentes dos que ouvira no interior. Havia uma sensao de ritmos de tambor, mas estes sons tinham tonalidades 
diversas, como nada do que havia escutado antes, ainda que possussem uma qualidade familiar persistente. Em variabilidade, os tons lhe lembravam sons de vozes, 
como aqueles que ela vez por outra cantarolava baixinho, consigo mesma, se bem que mais definidos. Ser que isso era msica?
     De repente, soou uma voz. Ayla se virou e viu Barzec, com a cabea atirada para trs, emitindo um alto grito ululante que penetrou no ar. Ele abaixou a voz 
para um vibrado grave que provocou quantidade enorme de emoo, dando um n na garganta de Ayla, e terminou com uma rajada de ar aguda, alta, que de alguma forma 
conseguiu deixar uma pergunta em suspenso. Em resposta, os trs msicos iniciaram uma batida rpida nos ossos de mamute, que repetia o som que Barzec havia emitido, 
combinando-o em tom e sentimento de uma maneira que Ayla no conseguia explicar.
     Prontamente os outros participaram do canto, no com palavras, mas com tons e sons vocais, acompanhados com os instrumentos de osso de mamute. Depois de certo 
tempo, a msica variou e, gradualmente, assumiu uma qualidade diferente. Tornou-se mais lenta, mais deliberada, e os tons provocaram uma sensao de tristeza. Fralie 
comeou a cantar em voz aguda, agradvel, desta vez com palavras. Contou a histria de uma mulher que perdeu o companheiro, e cujo filho morrera. Comoveu Ayla profundamente, 
f-la pensar em Durc e trouxe-lhe lgrimas aos olhos Quando levantou a cabea, viu que no estava sozinha, mas encontrava-se muito emocionada quando reparou em Crozie, 
com um olhar perdido, impassvel, o rosto idoso sem expresso, mas com lgrimas escorrendo-lhe pelas faces.
     Enquanto Fralie repetia as ltimas frases da cano, Tronie se juntava a ela, e depois Latie. Na repetio seguinte a frase mudou e Nezzie e Tulie, cuja voz 
era um contralto rico e grave, cantaram com elas. A frase variou uma vez mais, mais vozes somaram-se s delas, e a msica mudou de personagem novamente. Tornou-se 
a histria da Me, e uma lenda do povo, O mundo espiritual e seus primrdios. Quando as mulheres chegaram ao Ponto em que o Homem-Esprito nasceu, os homens participaram, 
a musica alternou-se entre as vozes dos homens e das mulheres, e um esprito amistoso de competio tomou conta deles.
     A msica se tornou mais rpida, mais rtmica. Em uma exploso de exuberncia, Talut tirou sua pele de passeio e se colocou no centro do circulo - com os ps 
em movimento, os dedos estalando. Entre risos, gritos de aprovao, ps batendo ao solo, palmas de mo batendo nas coxas, Talut foi encorajado a uma dana atltica 
de chutes e saltos altos, ao compasso da msica. Barzec, para no ser vencido, juntou-se a ele. Sua dana de rpidos movimentos mais elaborados, provocou mais gritos 
aplausos. Antes de parar, chamou Wymez, que recuou a princpio, mas depois, animado pelos outros, comeou uma dana cujos movimentos tinham um carter distintamente 
diferente para eles.
     Ayla ria e gritava com o resto das pessoas, gostando do canto, da msica e da dana, mas principalmente do entusiasmo e diverso que a enchiam de sensaes 
boas. Druwez saltou com uma exibio gil de acrobacia, depois Brinan tentou imit-lo. Sua dana no tinha a elegncia da donii - mais velho, mas foi aplaudido por 
seus esforos, o que encorajou o filho mais velho de Fralie, a juntar-se a ele. Ento Tusie resolveu queria danar. Barzec, com um sorriso tolo, segurou-lhe as mos 
na mo e danou com ela. Talut, tirando a idia de Barzec, encontrou Nezzie e a trouxe para o crculo. Jondalar tentou convencer Ayla a participar, E ela recuou. 
Ento, vendo Latie observar os danarmos com olhos brilhantes cutucou-o para que danasse com ela.
     - Quer me ensinar os passos, Latie? - pediu ele.
     Ela lanou um sorriso grato ao homem alto, o sorriso de Talut, pensou Ayla, novamente, e pegou as duas mos de Jondalar quando se movera em direo aos outros. 
Era esguia para seus doze anos, e se movia graciosamente. Comparando-a com as outras mulheres, com uma viso de forasteira, Ayla achou que ela seria, um dia, uma 
mulher muito atraente.
     Mais mulheres entraram na dana e, quando a msica mudou novamente, quase todo mundo se movia sob sua cadncia. As pessoas comearam a cantar, e Ayla se sentiu 
puxada para a frente, a fim de dar as mo e formar um circulo. Com Jondalar de um lado e Talut do outro, ela movia para frente e para trs, e rodopiava, danando 
e cantando, enquanto a msica os impelia cada vez mais depressa.
     Por fim, com um ltimo grito, a msica terminou. As pessoas riam falavam, inspiravam, os msicos e os danarmos igualmente.
     - Nezzie! A comida ainda no est pronta? Senti seu odor o dia inteiro, e estou faminto! - gritou Talut
     - Olhem para ele - disse Nezzie, sacudindo a cabea para o seu grandalho. - No parece estar faminto? - As pessoas riram. - Sim, a comida est pronta. Estvamos 
esperando apenas que todos estivesse prontos para comer
     - Sim, estou pronto - disse Talut.
     Enquanto algumas pessoas iam buscar seus pratos, aquelas que tinham cozinhado trouxeram a comida para fora. Os pratos de cada pessoa eram bem individuais. As 
travessas eram, em geral, de ossos chatos, plvicos ou do ombro do biso ou veado, as xcaras e tigelas podiam ser tecidas, cestas pequenas  prova dgua ou, s 
vezes, os ossos frontais em forma de cuia de veados, com os chifres removidos. Conchas de moluscos e outros bivalves, negociadas, juntamente com o sal, por pessoas 
que visitavam ou viviam perto do mar, eram usadas para pratos menores, conchas, e as menores, para colheres.
     Ossos plvicos de mamutes eram bandejas e travessas. A comida era servida com grandes conchas esculpidas de osso ou marfim, ou galhada, ou chifre, e com peas 
retas casualmente manipuladas como tenazes. Pinas retas menores eram utilizadas para comer juntamente com as facas de slex. O sal, raro e especial em regio to 
interior, era servido separadamente, de uma concha de molusco incomum e bonita.
     O assado de Nezzie estava to suculento e delicioso quanto o aroma anunciara que estaria, complementado pelos pequenos pes de cereal modo de Tulie, que foram 
colocados no assado quente para cozinhar. Embora duas aves no fossem grande coisa para alimentar o acampamento faminto, todos provaram as ptrmigas de Ayla. Cozidas 
no forno de cho, estavam to tenras que se despedaavam. Sua combinao de temperos, apesar de incomum ao paladar dos Mamutoi, foi bem recebida pelo Acampamento 
do Leo. Comeram tudo. Ayla concluiu que gostava do recheio de gros.
     Ranec trouxe seu prato perto do fim da refeio, surpreendendo a todos porque no era sua especialidade costumeira. Em vez disso, passou bolinhos fritos. Ayla 
experimentou um, depois estendeu a mo para outro.
     - Como faz? - perguntou. -  to bom!
     - A menos que tenhamos uma competio todas s vezes, acho que no ser fcil fazer os bolinhos novamente. Usei o cereal em p, misturei-o  gordura de mamute, 
depois acrescentei uvas-do-monte, convenci Nezzie a me ceder um pouco do seu mel, e cozinhei-os em pedras quentes. Wymez disse que o povo de minha me usava gordura 
de javali para cozinhar, mas no tinha certeza de como o faziam. J que no me recordo de ter visto um javali em dia nenhum, achei melhor optar pela gordura de mamute.
     - O gosto  quase o mesmo - disse Ayla -, mas nada  to saboroso como isto. Desmancha na boca. - Depois encarou especulativamente o homem de pele escura e 
olhos negros e cabelo muito crespo que era, apesar de sua aparncia extica, to Mamutoi quanto outro qualquer do Acampamento do Leo.
     - Por que cozinha?
     - Por que no? - Ele riu. - Somos apenas dois na Fogueira da Raposa, e gosto de cozinhar, embora fique contente de comer da fogueira de Nezzie quase sempre. 
Por que pergunta?
     - Os homens do Cl no cozinham.
     - Muitos homens no cozinham, se no precisam.
     - No. Os homens do Cl no so capazes de cozinhar. No sabem como. No tm cabea para a cozinha. - Ayla no estava segura de ser clara, mas Talut se aproximou, 
ento, servindo doses de sua bebida fermentada e ela notou que Jondalar a espiava, tentando no parecer aborrecido.
     - Mas voc se superou.  o melhor assado que j comi.
     - Exagerando de novo. Diz isso para eu no chamar voc de gluto.
     - Ora, Nezzie - disse Talut pousando seu prato. Todos sorriam, trocando olhares significativos. 
     - Quando digo que voc  a melhor, falo com sinceridade. - Ele a pegou no colo e roou o nariz em seu pescoo.
     - Talut! Seu grande urso! Ponha-me no cho!
     Ele fez como ordenado, mas acariciou-lhe o seio e mordiscou-lhe o lbulo da orelha.
     - Acho que tem razo. Quem precisa de mais assado? Acho que terminarei o jantar com voc.
     No consegui uma promessa antes? - respondeu ele com fingida inocncia.
     - Talut! Voc  to mau quanto um touro enfurecido!
     - Primeiro sou um carcaju, depois um urso, e agora sou um auroque.
     - Riu, soltando um berro. - Mas voc  a leoa. Venha para a minha fogueira - disse ele, fazendo gestos como se fosse peg-la no colo e carreg-la at a habitao.
     De repente, ela cedeu e riu.
     - Oh, Talut! Como a vida seria montona sem voc!
     Talut sorriu e o amor e compreenso em seus olhos, quando se encararam, disseminavam o seu afeto. Ayla sentiu o lampejo, e no fundo sua alma teve a impresso 
de que sua unio viera de aprenderem a aceitar um ao outro como eram, durante uma vida inteira de experincias partilhadas.
     Mas o contentamento deles trouxe a ela pensamentos inquietantes. -- que conheceria, algum dia, essa aceitao? Compreenderia algum to bem Permaneceu sentada 
ruminando seus pensamentos, fitando o outro lado do rio, e dividiu um momento de silncio com os outros, enquanto a amplitude da paisagem vazia encenava uma exibio 
espantosa.
     As nuvens ao norte tinham aumentado seu territrio quando o Acampamento do Leo terminou sua festa, e apresentavam suas superfcies refletoras a um sol que 
se punha rapidamente. Num esplendor flagrante glria, proclamavam seu triunfo atravs do horizonte distante, ostentando sua vitria com estandartes fulgurantes de 
escarlate e laranja - negligenciando o aliado sombrio, a outra parte do dia. A exibio majestosa de cores voadoras, resplandecente em seu esplendor cor de bronze, 
era uma celebrao de curta vida. A marcha inexorvel da noite esgotava o brilho voltil, e vencia as tonalidades gneas convertendo-se em tons carmins e cornalina. 
O rosa flamejante que esvanecia-se em alfazema enfumaada sobrepujado por prpura acinzentada, e afinal cedeu ao negro fuliginoso. O vento ficou mais forte com a 
aproximao da noite, e o calor e proteo da moradia de terra acenavam. Na luz que enfraquecia, pratos individuais eram limpos por cada pessoa com areia e lavados 
com gua. O resto do assado de Nezzie foi colocado em uma tigela e a grande pele de cozinhar foi limpa do mesmo jeito e pendurada sobre a armao para secar. Dentro, 
a roupa de passeio foi tirada e pendurada em cabides e as fogueiras foram atiadas e avivadas. Hartal, o beb de Tronie, alimentado e satisfeito, foi dormir rapidamente, 
mas a menina de trs anos, Nuvie, lutando para manter os olhos abertos, queria reunir-se aos outros que comeavam a se agrupar na Fogueira do Mamute. Ayla a pegou 
no colo e segurou-a quando deu passos incertos, depois carregou-a de volta a Tronie, completamente adormecida, antes que a jovem me sequer deixasse sua fogueira.
     Na Fogueira da Gara, Ayla reparou que o filho de dois anos de Fralie, Tasher, queria mamar, apesar de ter comido do prato da me. Ele se agitou e choramingou, 
o que convenceu Ayla de que o leite da me secara. Acabara de adormecer, quando comeou uma discusso entre Crozie e Frebec, acordando-o. Fralie, cansada demais 
para gastar energia zangando-se, pegou-o ao colo, mas Crisavec, de sete anos, estava carrancudo.
     Ele saiu com Brinan e Tusie quando eles passaram. Encontraram Rugie e Rydag, e as cinco crianas, mais ou menos da mesma idade, comearam imediatamente a falar 
com sinais manuais e palavras, rindo baixinho. Amontoaram-se num estrado de cama vazio, prximo ao que Ayla dividia com Jondalar.
     Druwez e Danug estavam juntos, prximos  Fogueira da Raposa. Latie se encontrava perto, de p, mas ou eles no a tinham visto, ou no falaram com ela. Ayla 
a viu dar meia-volta e, afinal, com a cabea baixa, arrastar os ps ao andar devagar em direo s crianas mais novas. A menina ainda no era uma mulher jovem, 
Ayla adivinhava, mas no estava longe disso. Era uma poca em que as meninas queriam ter outras meninas para conversar, mas no havia garotas de sua idade no Acampamento 
do Leo, e os meninos a ignoravam.
     - Latie, senta comigo? - perguntou ela. Latie se alegrou e acomodou-se ao lado de Ayla.
     O resto das pessoas da Fogueira dos Auroques atravessou a habitao comunal ao longo do corredor. Tulie e Barzec se reuniram a Talut, que conferenciava com 
Mamut. Deegie sentou-se do outro lado de Latie e sorriu-lhe.
     - Onde est Druwez? - perguntou. - Eu sempre soube que, se quisesse encontr-lo, tinha apenas que achar voc.
     - Oh, ele est conversando com Danug - disse Latie. - Agora, esto Sempre juntos. Fiquei muito contente quando meu irmo voltou, pensei que ns trs teramos 
tanto sobre o que falar... Mas eles querem somente falar um com o outro.
     Deegie e Ayla trocaram um olhar, e uma expresso sagaz passou de uma para a outra. Chegara a poca em que as amizades feitas em criana tinham desaparecido. 
Ela estendeu uma tigela de osso e observou Talut ench-la com a bebida. Ela no gostara muito da bebida da primeira vez que provou, mas todos pareciam gostar tanto 
que achou melhor experimentar de novo.
     Depois de Talut servir a todos, ele pegou seu prato e foi se servir do assado pela terceira vez.
     - Talut! Vai comer mais? - falou Nezzie, no tom de no muita censura que Ayla comeava a reconhecer, como a forma de Nezzie dizer que estava contente com o 
grande chefe. Precisavam ser examinadas sob nova luz, e adaptadas aos padres dos relacionamentos adultos, quando se conheceriam como mulheres e homens mas essa 
fase podia ser muito confusa e solitria. 
     Ayla havia sido exclui e afastada, de uma forma ou de outra, durante a maior parte de sua vida. Ela entendia o que significava ser solitria, mesmo quando cercada 
por pessoas que a amavam. Mais tarde, em seu vale, ela encontrara um meio fcil de aliviar uma solido desesperada, e recordou o anseio e nos olhos da garota sempre 
que olhava para os cavalos.
     Ayla fitou Deegie, depois Latie para inclu-la na conversa.
     - Um dia muito ocupado. Muitos dias assim. Preciso de ajuda. Poderia me ajudar, Latie? - perguntou Ayla.
     - Ajudar? Claro. O que quer que eu faa?
     - Antes, eu escovava os cavalos todos os dias, cavalgava. Agora, no tenho tanto tempo, mas os cavalos precisam. Pode me ajudar? Eu mostro como e voc me ajuda.
     Os olhos de Latie se arregalaram e arredondaram.
     - Quer que a ajude a tomar conta dos cavalos? - indagou em sussurro surpreso. - Oh, Ayla, eu posso?
     - Pode. Enquanto eu ficar aqui, ser uma grande ajuda - respondeu Ayla.
     Todos se tinham reunido na Fogueira do Mamute. Talut e Tulie e Outros falavam sobre a caada dos bises com Mamut. O velho havia realizado a Busca, e discutiam 
se devia faz-la novamente. Como a caada tivera tanto sucesso, perguntavam-se se outra seria possvel breve. Ele concordou em tentar.
     O grande chefe serviu mais doses de sua bebida fermentada, que fizera do amido de razes de tifceas, enquanto Mamut se preparava para a Busca, e encheu a tigela 
de Ayla. Ela tomou a maior parte da bebida que ele lhe dera l fora, mas sentiu-se um pouco culpada por jogar um pouco fora. Desta vez cheirou-a, agitou-a algumas 
vezes, respirou fundo e engoliu-a. Talut sorriu e tomou-a tambm. 
     Encheu a tigela de Ayla mais vez, quando passou e a encontrou vazia. Ela no queria, mas era tarde mais para recusar. Fechou os olhos e engoliu depressa a bebida 
forte. Acostumava-se mais ao paladar, mas ainda no podia compreender por todos pareciam gostar tanto da bebida.
     Enquanto esperava, sentiu uma tonteira, os ouvidos zuniram, e percepes se toldaram. No notou quando Tornec comeou uma batida ritmada tonal sobre o osso 
de omoplata de mamute; em vez disso, parecia acontecer dentro dela. Ayla sacudiu a cabea e tentou prestar ateno. Concentrou-se em Mamut e observou-o engolir alguma 
coisa, e teve uma vaga sensao de que no era segura. Quis det-lo, mas permaneceu onde estava. Ele era Mamut, devia saber o que fazia.
     O homem velho, alto e magro, com a barba branca e cabelo comprido branco sentou-se de pernas cruzadas atrs de outro tambor de caveira. Ergueu um martelo de 
osso e, aps uma pausa para ouvir, tocou com Tornec. Depois, comeou uma cano cantada. O canto foi entoado pelos outros e prontamente, a maior parte das pessoas 
ficou profundamente envolvida numa seqncia hipnotizvel que consistia de frases repetitivas, cantadas em uma batida vibrante com pouca variao do tom, alternando 
com rufos de tambor arrtmicos que tinham mais mudana de tom do que as vozes. Outro tocador de tambor juntou-se a eles, mas Ayla s percebeu que Deegie no estava 
mais ao seu lado.
     O som dos tambores combinava com a batida na cabea de Ayla. Depois, achou que ouvia mais do que apenas o canto e os rufos dos tambores. Os tons instveis, 
as cadncias diversas, as alteraes de altura e volume na batida dos tambores comearam a sugerir vozes, vozes que falavam, dizendo algo que ela quase era capaz 
de compreender, mas no inteiramente. Tentou concentrar-se, esforou-se para ouvir, mas sua mente no estava clara e, quanto mais tentava, mais distante da compreenso 
pareciam ficar as vozes dos tambores. Por fim, ela desistiu. Cedeu  tonteira que parecia trag-la.
     Ento, ouviu os tambores e subitamente foi arrastada para longe.
     Ela viajava rapidamente pelas plancies congeladas e desertas. Na paisagem rida estendida sob ela, os aspectos mais distintos quase se encontravam envolvidos 
por um vu de neve soprado pelo vento. Lentamente, tornou-se ciente de que no estava sozinha. Um companheiro viajante contemplava a mesma cena e, de forma inexplicvel, 
exercia um grau de controle sobre sua velocidade e direo.
     Ento, fracamente, como uma aura de farol distante, um ponto de referncia, ela ouviu vozes cantando e tambores falando. Num instante de nitidez, ouviu uma 
palavra pronunciada em destacado vibrante que aproximava, se no reproduzia exatamente, a altura, tom e ressonncia de uma voz humana.
     Zzlloooow. Depois, novamente, Zzlloooow heeerrrr.
     Sentiu sua rapidez diminuir e, abaixando os olhos, viu alguns bises amontoados no abrigo de uma margem de rio elevada. Os grandes animais permaneciam em resignao 
estica sob a nevasca impelida pelo vento, a neve agarrando-se aos plos emaranhados, as cabeas abaixadas como se foradas pelos chifres negros macios que se estendiam. 
Somente o vapor soprando dos focinhos em seus rostos distintamente entorpecidos dava uma pista de que viviam, eram seres vivos, e no caractersticas da regio.
     Ayla sentiu-se arrastada para mais perto, suficientemente prxima para cont-los e notar animais isolados. Um filhote dava alguns passos para se aninhar junto 
 me; uma velha vaca, cujo chifre esquerdo estava quebrado na ponta, sacudia a cabea e bufava; um touro escavava o terreno, empurrando a neve para um lado, focinhando 
depois a poro exposta de capim murcho. Ouviu-se um uivo a distncia; talvez, do vento.
     A paisagem se ampliou de novo quando eles recuavam, e ela vislumbrou quadrpedes silenciosos movendo-se com firmeza e determinao. O rio corria entre afloramentos 
idnticos abaixo dos bises reunidos. Rio acima, a plancie aluvial onde os bises procuraram abrigo estreitava-se entre margens altas e o rio corria por um desfiladeiro 
escarpado de rocha recortada, derramando-se depois em cachoeiras e pequenas cascatas. A nica sada era um desfiladeiro rochoso, ngreme, um escoadouro para enchentes 
primaveris, que levava de volta s estepes.
     Hhooomme.
     A prolongada vogal da palavra ressoava no ouvido de Ayla com vibraes intensificadas, e ela se movia de novo, correndo pelas plancies.
     - Ayla! Est bem? - perguntou Jondalar.
     Ayla sentiu um sobressalto espasmdico deslocar seu corpo. Ento, abriu os olhos para ver um outro par, muito azul, fitando-a com uma ruga de preocupao na 
testa.
     - Hum... Sim, acho que sim.
     - O que aconteceu? Latie disse que voc caiu sobre a cama, depois ficou rgida e em seguida comeou a se agitar. Ento, adormeceu, e ningum foi capaz de acord-la. 
     - No sei...
     - Voc veio comigo, Ayla,  claro. - Ambos se voltaram ao ouvir a voz de Mamut.
     - Fui com voc? Aonde? - interrogou Ayla.
     O velho lanou-lhe um olhar penetrante. Ela est assustada, No  de admirar, ela no esperava aquilo. E muito amedrontador da primeira vez, quando se est 
preparado, mas no pensei em prepar-la. No suspeitei de que sua capacidade natural fosse to grande. Ela nem sequer utilizou os somuti. Seu dom  poderoso demais. 
Deve ser treinada, para sua prpria proteo, mas quanto posso lhe dizer agora? No quero que pense em seu talento como um fardo que deve carregar a vida toda. Quero 
que saiba que  uma ddiva, embora envolva grande responsabilidade... Mas Ela, em geral, no concede Suas Ddivas queles que no podem aceit-las. A Me deve ter 
um propsito especial para esta jovem.
     - Onde acha que fomos, Ayla? - perguntou o velho feiticeiro.
     - No tenho certeza. L fora... Eu estava sob uma nevasca e vi biso... Com chifre quebrado... Perto do rio.
     - Viu claramente. Fiquei surpreso quando a senti comigo. Mas devia ter compreendido que talvez acontecesse, eu sabia que voc possua potencial. Tem um dom, 
Ayla, mas precisa de treinamento, de orientao.
     - Um dom? - perguntou Ayla, sentando-se. Sentiu um calafrio e por um instante, um choque de medo. No queria dom algum. Queria, apenas um companheiro e filhos, 
como Deegie ou outra mulher qualquer.
     - Que tipo de dom, Mamut?
     Jondalar viu seu rosto plido. Ela parece to assustada, e to vulnervel, pensou, abraando-a.
     Queria apenas abra-la, proteg-la e am-la. Ayla aconchegou-se ao calor do homem e sentiu sua apreenso. Mamut notou as interaes sutis e ajuntou-as s suas 
consideraes sobre a jovem mulher misteriosa que aparecera subitamente no meio deles. Por que, pensou, no meio deles?
     No acreditava que fosse o acaso que conduzira Ayla ao Acampamento do Leo. Casualidade ou coincidncia no figuravam largamente em sua concepo do mundo. 
Mamut estava convencido de que tudo tinha um propsito, uma orientao dirigente, uma razo por existir, quer ele compreendesse ou no qual era, e estava seguro 
de que a Me tinha uma razo para dirigir Ayla at eles. Ele fizera algumas adivinhaes sagazes sobre ela, e agora que sabia mais sobre sua formao, perguntava-se 
se parte do motivo por que ela havia sido enviada para eles, era ele mesmo. Sabia que era provvel que ele, mais do que ningum, a compreendesse.
     - No estou certo sobre que tipo de dom, Ayla. Uma ddiva da Me pode adquirir diversas formas. Parece que voc tem um dom para a cura. provavelmente, seu jeito 
com os animais tambm  um dom.
     Ayla sorriu. Se a magia de cura que ela aprendera com Iza era um dom, no se importava com isso. E se Whinney e Racer e Nenm eram ddivas da Me, ela era grata. 
J acreditava que o Esprito do Grande Leo da Caverna enviara-os a ela. Talvez a Me tivesse algo a ver com aquilo, tambm.
     - E pelo que soube hoje, diria que tem um dom para a Busca. A Me tem sido generosa com Suas Ddivas a voc - disse Mamut.
     A testa de Jondalar enrugou-se de preocupao. Ateno demais de Doni no era necessariamente desejvel. Tinham-lhe dito, muitas vezes, o quo dotado ele era; 
no lhe dera muita felicidade. De repente, lembrou-se das palavras do velho curandeiro de cabelos brancos que servira a Me pelo povo dos Sharamudoi. O Shamud lhe 
dissera, uma vez, que a Me o favorecera tanto que nenhuma mulher era capaz de recus-lo, nem sequer a Prpria Me o faria - que esse era seu dom -, mas preveniu-o 
para ser cauteloso. Ddivas da Me no eram uma bno pura, sempre colocavam a pessoa em dvida com Ela. Isso significava que Ayla estava em dvida com a Me?
     Ayla no tinha certeza se gostava muito da ltima ddiva.
     - No conheo Me, ou ddivas. Acho que o Leo da Caverna, meu totem, enviou Whinney.
     Mamut pareceu surpreso.
     - O Leo da Caverna  seu totem?
     Ayla notou sua expresso e recordou como havia sido difcil para o Cl acreditar que uma mulher pudesse ter um poderoso totem masculino protegendo-a.
     - Sim. Mog-ur me disse. O Leo da Caverna me escolheu e me marcou. Eu lhe mostro - explicou Ayla. Ela desatou a tira de couro da Cintura das calas e abaixou 
a roupa o suficiente para expor a coxa esquerda e as quatro cicatrizes paralelas feitas por uma garra aguada, prova do seu encontro com um leo de caverna.
     As marcas eram antigas, cicatrizadas havia muito tempo, observou Mamut. Ela devia ser muito jovem. Como uma menina havia escapado de um leo de caverna?
     - Como conseguiu essa marca? - indagou ele.
     - No lembro... Mas tive sonho.
     - Um sonho? - encorajou-a Mamut, interessado.
     - Ele volta, s vezes. Estou em um lugar escuro, pequeno. A luz de uma abertura pequena. Ento... - fechou os olhos e alguma coisa bloqueia a luz. Fico assustada. 
Depois, a grande pata do leo aparece, com garras afiadas. Eu grito, acordo.
     - Tive um sonho sobre lees de caverna recentemente - Mamut. -  por isso que me interessei tanto por seu sonho. Sonhei com um bando de lees de caverna, tomando 
sol nas estepes num dia quente vero. Havia dois filhotes. Um deles, uma fmea, tentava brincar com macho, um animal grande com crina avermelhada. Ela estendeu a 
pata; e bateu-lhe no rosto gentilmente, mais como se quisesse apenas toc-lo. Grande macho a empurrou para um lado, depois a manteve segura com a pata dianteira 
abaixada e lambeu-a com sua comprida lngua grossa.
     Tanto Jondalar quanto Ayla ouviam, seduzidos.
     - Ento, de repente - continuou Mamut -, houve uma perturbao. Um rebanho de renas correu diretamente at eles. A princpio, pensei que atacavam... Muitas 
vezes os sonhos tm significado mais profundo do que parecem... Mas estas renas estavam em pnico, e quando viram os lees se espalharam. No processo, o irmo da 
fmea foi atropelado. Quando terminou, a leoa tentou fazer o pequeno macho se erguer, mas no consegui reanim-lo. Ento, afinal, ela partiu somente com a pequena 
fmea e o resto do bando.
     Ayla estava sentada em estado de choque.
     - O que h, Ayla? - interrogou Mamut.
     - Nenm! Nenm era irmo. Persegui renas, caando. Depois tirei o pequeno filhote, ferido. Levei para a caverna, curei-o, criei-o como beb.
     - O leo da caverna que voc criou tinha sido pisado pelas renas? Foi a vez de Mamut sentir um choque. Aquilo no podia ser apenas coincidncia ou semelhana 
de local. Aquilo tinha um significado importante Ele havia sentido que o sonho do leo da caverna deveria ser interpreta por seus valores simblicos, mas havia mais 
significado ali do que ele imaginara. Ultrapassava a Busca, ia alm de sua experincia anterior. Ele teve que pensar profundamente a respeito, e sentia que precisava 
saber mais.
     - Ayla, se no se importa de responder...Foram interrompidos por uma discusso em voz alta.
     - Voc no se importa com Fralie! Nem sequer pagou um Preo Noiva decente! - guinchou 
     Crozie.
     - E voc no se importa com nada seno o seu status! Estou cansado de ouvir sobre o Preo de Noiva baixo. Paguei o que voc pediu, quanto mais ningum pagaria.
     - O que quer dizer, ningum mais pagaria? Voc me suplicou por isso e disse que cuidaria dela e de seus filhos. Disse que me acolheria bem em sua fogueira.
     - E no a acolhi? No? - gritou Frebec.
     - Chama isso de me acolher bem? Quando mostrou seu respeito? Quando me honrou como me?
     - Quando voc me mostrou respeito? Voc questiona tudo o que digo!
     - Se dissesse, alguma vez, uma coisa inteligente, ningum precisaria discutir. Fralie merece mais. Olhe para ela, cheia de bno da Me...
     - Mame, Frebec, por favor, parem de brigar - interrompeu Fralie.
     - S quero descansar...
     Ela parecia abatida e plida, e preocupava Ayla.  medida que a discusso aumentava, a curandeira que havia nela compreendia como a briga infelicitava a mulher 
grvida. Levantou-se e foi impelida  Fogueira da Gara.
     - No vem que Fralie est preocupada? - disse Ayla quando a velha e o homem pararam apenas o tempo suficiente para que ela falasse. - Ela precisa de ajuda, 
vocs no ajudam. Fazem Fralie ficar doente. No  bom discutir, para mulher grvida. Faz com que ela perca o beb.
     Tanto Crozie quanto Frebec a olharam, surpresos, mas Crozie se recuperou depressa.
     - Est vendo, eu no lhe disse? No se importa com Fralie. Nem se quer deixa que ela fale com esta mulher que sabe alguma coisa a respeito. Se ela perder o 
beb, a culpa ser sua!
     - O que ela sabe a respeito? - escarneceu Frebec. - Criada por um bando de animais sujos, o que pode ela saber de remdios? Depois, traz animais para c. Ela 
no passa de um animal, ela mesma! Voc tem razo, no deixarei Fralie perto desta abominao. Quem sabe que espritos malignos ela trouxe para esta moradia? Se 
Fralie perder o beb, ser culpa dela! Ela e seus cabeas-chatas amaldioados pela Me!
     Ayla recuou, cambaleando, como se recebesse um golpe fsico. A fora do ataque vituperativo tirou-lhe o ar e deixou o resto do acampamento sem fala. No silncio 
de aturdimento, ela arquejou um grito estrangulado, soluante, virou-se e saiu correndo da moradia. Jondalar agarrou sua parka e a dele e correu atrs.
     Ayla empurrou a pesada cortina da entrada exterior em arco e saiu para o vento que uivava. A tempestade sinistra que ameaara o dia inteiro no trouxe chuva 
ou neve, mas rugia com feroz intensidade alm das paredes grossas da habitao de terra. Sem barreira para deter sua rajada selvagem, a diferena em presses atmosfricas 
causada pelas grandes muralhas de gelo glacial ao norte gerava ventos com fora de furaco atravs das vastas estepes descampadas.
     Ela assobiou para Whinney e ouviu um relincho prximo como resposta. A gua e seu filhote apareceram, saindo da escurido do lado protegido da habitao comunal.
     - Ayla! Espero que no pretenda cavalgar nesta ventania - disse Jondalar, saindo da habitao.
     - Tome, eu trouxe sua parka. Est frio aqui fora. J deve estar congelando.
     - Oh, Jondalar, no posso ficar aqui! - gritou ela.
     - Vista sua parka, Ayla - insistiu ele, ajudando-a com a vestimenta sobre a cabea. Depois, tomou-a nos braos. Ele havia esperado uma cena como a que Frebec 
acabara de fazer, havia muito tempo. Ele sabia que aconteceria, provavelmente, quando ela falou to francamente sobre o seu background. - No pode partir agora. 
No neste vendaval. Para onde vai?
     - No sei, no importa - soluou ela. - Para longe daqui.
     - E Whinney? E Racer? No  bom estarem aqui fora neste tempo.
     Ayla se agarrou a Jondalar sem resposta mas, em outro nvel de conscincia, ela havia observado que os animais procuraram abrigo perto da habitao de terra. 
Aborrecia-a no ter uma caverna para lhes oferecer ou proteo contra o mau tempo, como estavam acostumados. E Jondalar tinha razo. Ela no podia partir, possivelmente, 
numa noite como aquela.
     - No quero ficar aqui, Jondalar. Assim que o tempo melhorar quero voltar ao vale.
     - Se quiser, Ayla, voltaremos. Depois que melhorar. Mas, agora, vamos entrar novamente.
     - Veja, quanto gelo est sobre seus plos - disse Ayla, tentando afastar com a mo os sincelos de gelo que pendiam, emaranhados, sobre o plo comprido e entrelaado 
de Whinney. A gua bufou, levantando uma nuvem fumegante de vapor quente no ar frio da manh que se dissipou rapidamente sob a ao do vento cortante. A tempestade 
havia cessado, mas as nuvem baixas ainda pareciam ameaadoras.
     - Mas os cavalos ficam sempre do lado de fora no inverno. E no vivem em cavernas, Ayla - falou Jondalar, tentando parecer razovel,
     - E muitos morrem no inverno, embora permaneam em lugares abrigados, quando o tempo  ruim. Whinney e Racer sempre tiveram local quente e seco quando o quiseram. 
No vivem com um bando ...esto habituados a ficar fora o tempo todo. Isto no  um bom lugar par eles... e tambm no  bom lugar para mim. Voc disse que podamos 
embora a qualquer momento. Quero voltar para o vale.
     - Ayla, no fomos bem recebidos aqui? A maioria das pessoas no foi bondosa e generosa?
     - Sim, fomos bem acolhidos. Os Mamutoi tentam ser generosos com seus hspedes, mas somos apenas visitantes aqui, e  hora de partir.
     A testa de Jondalar tinha uma ruga de preocupao quando baixou a cabea e arrastou seu p.
     Queria dizer uma coisa, mas no sabia exatamente como.
     - Ayla... Ah... Eu lhe disse que algo assim talvez acontecesse se voc... Se voc contasse sobre... Ah... Sobre as pessoas com quem viveu. A maioria no tem 
a mesma opinio... Que voc... Sobre elas. - Levantou a cabea.
     - Se no tivesse dito nada...
     - Eu teria morrido se no fosse o Cl, Jondalar! Est dizendo que eu devia me envergonhar do povo que cuidou de mim? Acha que Iza era menos humana que Nezzie? 
- esbravejou Ayla.
     - No, no, eu no quis dizer isso, Ayla. No estou dizendo que voc devia se envergonhar, estou dizendo apenas... Isto ... No precisa falar deles com pessoas 
que no compreendem.
     - No estou certa de que voc compreenda. Sobre quem voc acha que eu devia falar quando as pessoas perguntam quem sou? Quem  meu povo? De onde venho? No 
sou mais Cl... Broud amaldioou-me; para eles, estou morta... mas desejaria poder ser! Ao menos, aceitaram-me, afinal, como curandeira. No me impediriam de ajudar 
algum que precisasse de auxlio. Sabe como  terrvel ver essa mulher, Fralie, sofrer, e no ter permisso para ajudar? Sou uma curandeira, Jondalar! - exclamou 
com um grito de desamparo e frustrao, e voltou-se para o cavalo, zangada.
     Latie saiu pela entrada da habitao de terra e se aproximou ansiosa mente ao ver Ayla com os cavalos.
     - O que posso fazer para ajudar? - perguntou, sorrindo largamente. Ayla recordou o oferecimento que ela fizera para ajudar na tarde anterior, e tentou se controlar.
     - Agora, acho que no preciso de ajuda. No vou ficar, voltarei para o vale, imediatamente - disse, falando na lngua da menina.
     Latie ficou arrasada.
     - Oh... Bem... Acho que estou atrapalhando, ento - disse, comeando a voltar para a arcada da entrada.
     Ayla notou o desapontamento dela.
     - Mas, cavalos precisam de plo escovado. Cheio de gelo. Quem sabe voc possa ajudar hoje?
     - Oh, sim! - a garota voltou a sorrir. - O que posso fazer?
     - V, ali, no terreno perto da moradia, talos secos?
     - Quer dizer, este cardo? - perguntou Latie, pegando uma haste rija com a parte superior redonda, espinhosa, seca.
     - Sim, peguei na margem do rio.  parte de cima d uma boa escova. Quebre, assim. Enrole a mo com pequeno pedao de couro. E mais fcil de segurar - explicou 
Ayla. Depois, guiou a menina at Racer e mostrou-lhe como devia segurar o cardo para limpar o emaranhado plo do Potro. Jondalar permaneceu prximo para manter o 
animal calmo at ele se acostumar com a menina estranha, enquanto Ayla voltava a quebrar e escovar o gelo agarrado a Whinney.
     A presena de Latie fez cessar temporariamente a conversa de Ayla sobre partir, e Jondalar ficou grato por isso. Sentia que havia dito mais do que deveria e 
no falou de forma adequada. Agora, procurava palavras.
     No queria que Ayla partisse naquelas circunstncias. Talvez ela jamais quisesse deixar o vale novamente se fosse embora agora. Embora a amasse muito, no sabia 
se poderia suportar passar o resto de sua vida sem ela e viver com qualquer outra pessoa. Tampouco acreditava que ela fosse disso. Tem convivido to bem, pensou 
ele. Ela no teria dificuldade em lugar algum, mesmo com os Zelandonii. Se, ao menos, ela no falasse mas, tem razo. O que deve dizer quando algum pergunta qual 
 o seu povo? Ele sabia que se a levasse para casa consigo, todos perguntariam.
     - Voc sempre escova os plos deles para tirar o gelo, Ayla? - interrogou Latie.
     - No, nem sempre. No vale, os cavalos entram na caverna quando h mau tempo. Aqui, no existe lugar para cavalos - replicou Ayla. - Eu partirei breve. Voltarei 
para o vale quando o tempo melhorar.
     Dentro da moradia, Nezzie havia atravessado a fogueira de cozinhar. e o vestbulo, a caminho da sada mas, quando se acercou do arco exterior, ouviu-os falando 
l fora e parou para escutar. Ela temia que Ayla talvez desejasse partir depois do contratempo da noite anterior, e isso significava que no haveria mais aulas de 
linguagem por sinais para Rydag e o acampamento. A mulher j notava a diferena na forma como as pessoas o tratavam, agora, que podiam falar-lhe. Exceto Frebec, 
claro. Lamento ter pedido a Talut para convid-los a juntar-se a ns... pensou consigo mesma, exceto que, onde Fralie estaria agora, se eu no o tivesse feito? Ela 
no est bem; esta gravidez  difcil para ela.
     - Por que tem que partir, Ayla? - perguntou Latie. - Podamos fazer um abrigo para eles aqui.
     - Ela tem razo. No seria difcil construir uma tenda ou alpendre, ou alguma coisa perto da entrada para proteg-los das piores neves e ventos - ajuntou Jondalar.
     - Acho que Frebec no gosta de ter animal to perto - disse Ayla.
     - Frebec  s uma pessoa, Ayla - falou Jondalar.
     - Mas Frebec  Mamutoi. Eu no sou.
     Ningum refutou sua declarao, mas Latie corou, envergonhada de seu acampamento.
     Dentro, Nezzie correu de volta  Fogueira do Leo. Talut, que acabava de acordar, ps de lado as peles, pendurou as grandes pernas sobre a beira do estrado-cama 
e sentou-se. Coou a barba, estendeu os brao amplamente e abriu a boca num bocejo terrvel. Depois, fez uma careta de dor e segurou a cabea com as mos por um 
instante. Ergueu os olhos, Nezzie e sorriu mansamente.
     - Bebi demais a noite passada - anunciou ele. Levantando-se, tendeu a mo para a tnica e vestiu-a.
     - Talut, Ayla est planejando partir assim que o tempo melhorar disse Nezzie.
     O homem grande franziu as sobrancelhas.
     - Eu temia isso. E pena. Eu esperava que passassem o inverno conosco.
     - No podemos fazer nada? Por que o mau humor de Frebec deveria afast-los quando todos querem que fiquem?
     - No sei o que podemos fazer. Falou com ela, Nezzie?
     - No. Ouvi-a falando l fora. Disse a Latie que no havia lugar para abrigar os animais aqui, e eles estavam acostumados a entrar em sua caverna quando o tempo 
estava ruim. Latie disse que podamos fazer um abrigo e Jondalar sugeriu uma tenda ou algo perto da entrada. Ento, Ayla falou que achava que Frebec no gostaria 
de ter um animal to perto, e sei que ela no falava dos cavalos.
     Talut se dirigiu  entrada e Nezzie o seguiu.
     - Provavelmente, poderamos fazer algo para os cavalos - disse ele -, mas, se ela quiser ir, no podemos obrig-la a ficar. Ela no  sequer Mamutoi, e Jondalar 
 Zel... Zelan... o que quer que seja.
     Nezzie o deteve.
     - No podamos faz-la Mamutoi? Ela diz que no tem povo. Podamos adot-la, depois voc e Tulie realizariam a cerimnia para que entrasse para o Acampamento 
do Leo.
     Talut refletiu.
     - No estou certo, Nezzie. No se pode fazer algum Mamutoi. Todos teriam que concordar e precisaramos de boas razes para explicar ao Conselho, na Reunio 
de Vero. Alm disso, voc disse que ela est de partida - falou Talut. Depois, afastou a cortina para um lado e se apressou em direo  vala.
     Nezzie ficou fora do arco de entrada, observando as costas de Talut e depois mudou a direo do olhar para a mulher alta e loura que escovava o plo espesso 
do cavalo cor de feno. Parando para estud-la cuidadosamente, Nezzie se perguntou quem era ela, realmente. Se Ayla perdera a famlia na pennsula ao sul, podiam 
ter sido Mamutoi. Vrios acampamentos passavam o vero perto do mar Beran, e a pennsula no ficava muito distante mas, de algum modo, a mulher mais velha duvidava 
disso. Os Mamutoi sabiam que era territrio dos cabeas-chatas e, como regra, permaneciam distantes. E havia alguma coisa nela que no parecia ser de uma Mamutoi. 
Talvez sua famlia tivesse sido Sharamudoi, aquelas pessoas do rio, a oeste, com quem Jondalar havia ficado, ou talvez Sungaea, o povo que vivia ao nordeste, mas 
ela no sabia se eles viajavam tanto para o sul, at o mar. Talvez seu povo houvesse sido estrangeiro, viajando de algum outro lugar.
     Era difcil dizer, mas uma coisa era certa. Ayla no era cabea-chata... e no entanto, eles a aceitaram.
     Barzec e Tornec saram da habitao, seguidos de Danug e Druwez. Fizeram saudaes matinais e Nezzie, da maneira como Ayla lhes ensinara; isso estava ficando 
comum no Acampamento do Leo e Nezzie o encorajava. Rydag saiu em seguida, fez seu cumprimento e sorriu para ela. Nezzie acenou e retribuiu o sorriso, mas quando 
ela o abraou, seu sorriso desaparecera. Rydag no parecia bem. Estava ofegante e plido, e parecia mais cansado que o usual. Talvez estivesse doente.
     - Jondalar! A est voc - disse Barzec. - Fiz um daqueles arremessadores vamos experiment-lo l nas estepes. Eu disse a Tornec que um pouco de exerccio o 
ajudaria a melhorar da dor de cabea, porque bebeu demais ontem  noite. Quer ir conosco?
     Jondalar lanou um olhar a Ayla. No era provvel que resolvessem alguma coisa naquela manh, e Racer parecia muito feliz pela ateno que Latie lhe dava.
     - Muito bem, vou buscar o meu - disse Jondalar.
     Enquanto esperavam, Ayla observou que Danug e Druwez pareciam evitar os esforos de Latie para conseguir sua ateno, embora o garoto ruivo e desengonado sorrisse 
timidamente para ela. Latie vigiava o irmo e o primo com olhar infeliz quando eles se afastaram com os homens.
     - Podiam ter-me chamado para ir tambm - resmungou ela, baixinho, voltando-se depois com determinao para escovar Racer.
     - Quer aprender a atirar lanas, Latie? - perguntou Ayla lembrando-se dos dias passados, quando ela observava a partida dos caadores, desejosa de poder ir 
com eles.
     - Podiam ter-me chamado. Sempre veno Druwez em arcos, mas eles nem mesmo olharam para mim - disse Latie.
     - Eu mostrarei, Latie, se quiser. Depois dos cavalos escovados - disse Ayla.
     Latie ergueu os olhos para Ayla. Lembrou-se das exibies surpreendentes da mulher com a funda e o arremessador de lana, e notara o riso de Danug para ela. 
Ento, um pensamento lhe ocorreu. 
     Ayla tentava chamar a ateno para si mesma, ela ia em frente, apenas, e fazia o que queria, mas era to boa no que fazia, que as pessoas prestavam ateno 
nela.
     - Eu gostaria que me mostrasse, Ayla - falou. Depois, perguntando aps uma pausa: - Como conseguiu ficar to boa? Quero dizer, com funda e o arremessador de 
lanas.
     Ayla refletiu um instante e disse depois:
     - Eu queria muito, e treino... muito.
     Talut veio subindo do rio, o cabelo e barba molhados, os olhos semi cerrados.
     - Oh, minha cabea - disse ele, com gemido exasperado.
     - Talut, por que molhou a cabea? Ficar doente, com este tempo. - disse Nezzie.
     - Estou doente. Afundei a cabea na gua fria para tentar me livra desta dor de cabea. Oh!
     - Ningum o obrigou a beber tanto. V para dentro e se enxugue.
     Ayla olhou para ele com preocupao, um pouco surpresa de Nezzie tivesse to pouca pena dele. 
     Ela tambm se sentira um pouco de com dor de cabea ao acordar. Teria sido por causa da bebida? A bebida fermentada de que todos gostavam tanto?
     Whinney levantou a cabea e se agitou. Depois, lhe deu um relincho.
     O gelo sobre o pelo dos animais no lhes fazia mal, embora uma quantidade grande pudesse pesar. Mas gostavam de ser escovados e da ateno, e a gua notara 
que Ayla havia parado, perdida em seus pensamentos;
     - Whinney, pare com isso. Quer apenas mais ateno, no ? - disse ela, usando a forma de comunicao que empregava, em geral, com o animal.
     Latie, embora j houvesse ouvido antes, estava ainda um pouco assombrada com a imitao perfeita do som de voz do cavalo que Ayla fazia e reparou na linguagem 
de sinal, agora que estava mais acostumada a ela, embora no estivesse segura de compreender os gestos.
     - E capaz de falar com cavalos! - exclamou a menina.
     - Whinney  amiga - disse Ayla, pronunciando o nome da gua da forma que Jondalar fazia, porque as pessoas do acampamento pareciam mais  vontade ouvindo uma 
palavra em lugar de um relincho. - Por muito tempo, foi minha nica amiga. - Deu tapinhas carinhosos na gua, depois examinou o plo do potro e acariciou-o tambm. 
- Acho que chega de escovar. Agora, pegamos o arremessador de lanas e vamos treinar.
     Entraram na habitao de terra, passando por Talut, que tinha aparncia infeliz, a caminho da quarta fogueira. Ayla pegou seu arremessador e um punhado de lanas 
e, a caminho da sada, notou o resto do ch de mileflio que ela preparara para sua dor de cabea matinal. A uma bela seca da flor e as folhas quebradias e frgeis 
da planta ainda se agarravam a uma haste que crescera junto ao cardo. O mileflio, picante e aromtico quando fresco, que crescera perto do rio, perdia sua fora 
com a chuva e o sol, mas lembrou-se de alguns que havia preparado e secado anteriormente. Ela teve uma perturbao de estmago juntamente com a dor de cabea, por 
isto decidiu us-lo tambm, assim como a casca de salgueiro.
     Talvez ajudasse Talut, pensou, embora pelos seus lamentos, ela se perguntasse se o preparado de ergotina, que fazia para dores de cabea particularmente fortes, 
seria melhor. Era um remdio muito forte, no entanto.
     - Tome isto, Talut. Para dor de cabea - disse ela a caminho da sada.
     Ele sorriu sem vontade, pegou a tigela e bebeu, no esperando grande coisa, mas contente pela compaixo que ningum mais parecia disposto a lhe oferecer.
     A mulher loura e a menina subiram juntas a encosta, dirigindo-se  trilha pisada onde as competies tinham ocorrido. Quando chegaram ao terreno plano das estepes, 
viram que os quatro homens que tinham subido antes treinavam em uma extremidade; elas se dirigiram ao lado oposto. 
     Whinney e Racer as seguiram. Latie sorriu para o potro castanho-escuro quando abanou o rabo para ela e sacudiu a cabea. Depois, ele se ps a pastar ao lado 
da me, enquanto Ayla mostrava a Latie como arremessar Uma lana.
     - Segure assim - comeou Ayla, pegando o estreito implemento de madeira que tinha cerca de 60 centmetros de comprimento em posio horizontal. Ela colocou 
o primeiro e segundo dedos de sua mo direita nas alas de couro. - Depois, coloque a lana - continuou, descansando a haste da lana, talvez de 1,8 metro de comprimento, 
em um bojo escavado na extenso do implemento. 
     Ela ajustou o gancho, esculpido como uma escora, na extremidade da lana, tomando cuidado para no esmagar penas. Ento, mantendo a lana firme, puxou-a para 
trs e arremessou-a, A longa extremidade livre do arremessador se ergueu, acrescentando impulso e fora, e a lana voou com velocidade e potncia. Ela deu o implemento 
a Latie.
     - Assim? - indagou a menina, segurando o arremessador da maneira como Ayla havia explicado. - A lana descansa nesta cavidade, coloco os dedos atravs das alas 
para segur-la e ponho a ponta contra esta parte de trs.
     - timo. Arremesse agora.
     Latie jogou a lana a boa distncia.
     - No  difcil - disse ela, satisfeita consigo mesma.
     - No, no  difcil arremessar lanas - concordou Ayla. - E difcil fazer a lana chegar ao lugar onde voc quer que chegue.
     - Quer dizer, ser precisa. Como fazer o dardo entrar na argola.
     Ayla sorriu.
     - Sim.  necessrio prtica para fazer o dardo passar por argola. - Viu Frebec acercando-se para olhar o que os homens faziam e, de repente, ela se tornou consciente 
de sua fala. 
     Ainda no fala corretamente. Precisava treinar, pensou. Mas, por que isso era importante Ela no ia ficar.
     Latie treinou enquanto Ayla lhe dava instrues, e as duas se entreteram tanto, que no perceberam que os homens se tinham acerca e parado de treinar para observ-las.
     - Muito bem, Latie! - gritou Jondalar depois que ela atingiu o se alvo. - Talvez voc se torne melhor do que todo mundo! Acho que e; garotos cansaram de treinar 
e quiseram vir ver voc, em vez disso.
     Danug e Druwez pareciam embaraados. Havia alguma verdade provocao de Jondalar, mas o sorriso de Latie era radiante.
     - Serei melhor que todo mundo. Vou treinar at ser - disse ela.
     Resolveram que tinham treinado o suficiente para um dia e descer de volta  habitao de terra. 
     Quando se aproximaram da arcada de presa de mamute, Talut saa apressado.
     - Ayla! A est voc. O que havia naquela bebida que me deu? Interrogou ele, avanando na direo dela.
     Ela recuou um passo.
     - Mileflio com um pouco de alfafa e uma pequena folha de framboesa e...
     - Nezzie! Ouviu isso? Descubra como ela faz a bebida. Fez minha dor de cabea desaparecer! Sinto-me um homem novo! - Olhou ao redo - Nezzie?
     - Ela desceu at o rio com Rydag - disse Tulie. - Ele parecia -cansado esta manh, e Nezzie achou que ele no devia ir longe demais. ele disse que queria ir 
com ela... No estou certa sobre o sinal.., ou talvez que queria estar com ela... Eu disse que iria para ajudar a carreg-lo, o para trazer a gua de volta. Estou 
a caminho.
     O comentrio de Tulie atraiu a ateno de Ayla por mais de um motivo. Ela sentiu preocupao com a criana, porm, mais que isso, detectou uma mudana clara 
na atitude de Tulie em relao ao menino. Agora, ele era Rydag, no apenas o menino, e ela falava sobre o que ele havia dito para ela, Rydag se tornara pessoa.
     - Bem... - Talut hesitou, surpreso por um momento ao saber que Nezzie no se encontrava nas adjacncias; depois, censurando-se por esperar que estivesse. Riu 
baixinho. - Voc me dir como se faz  bebida, Ayla?
     - Sim, direi.
     Parecia encantado.
     - Se vou preparar a bebida fermentada, ento, tenho que ter um remdio para a manh seguinte.
     Ayla sorriu. Apesar de todo o tamanho, havia alguma coisa encantadora no enorme chefe de cabelo vermelho. Ela no tinha dvida de que ele poderia ser temvel, 
se encolerizasse. Era to gil e rpido, quanto forte e, certamente, no lhe faltava inteligncia, mas havia ternura nele. Ele resistia  clera. Embora no fosse 
contra fazer uma piada  custa de outra pessoa, ria muito freqentemente, tambm, de suas prprias fraquezas. Enfrentava os problemas humanos de sua gente com preocupao 
verdadeira e sua compaixo se estendia alm de seu prprio acampamento.
     De repente, um lamento agudo chamou a ateno de todos para o rio.
     O primeiro olhar de Ayla a fez descer correndo a encosta; vrias pessoas a seguiram. Nezzie estava ajoelhada, inclinada sobre um pequeno vulto, gemendo angustiada. 
Tulie estava de p ao seu lado, parecendo confusa e indefesa. Quando Ayla chegou, viu Rydag inconsciente.
     - Nezzie? - com a expresso, indagou o que ocorrera.
     - Subamos a encosta - explicou Nezzie. - Ele comeou a ter problema para respirar. Resolvi que era melhor carreg-lo, mas enquanto colocava o saco de gua 
no cho, ouvi-o gritar de dor. 
     Quando ergui os olhos, ele jazia ali, assim.
     Ayla se ajoelhou e examinou Rydag com cuidado, colocando a mo e depois o ouvido sobre seu peito, tocando-lhe o pescoo perto do maxilar. Fitou Nezzie com olhos 
perturbados, depois se voltou para a chefe.
     - Tulie, carregue Rydag para a habitao, para a Fogueira do Mamute. Depressa! - ordenou.
     Ayla voltou correndo  frente e atravessou rapidamente as arcadas. Correu at o estrado ao p de sua cama e remexeu seus pertences at encontrar uma bolsa incomum 
feita de pele inteira de lontra. Virou seu contedo sobre a cama e procurou entre a pilha de pacotes e pequenos sacos que continha, examinando a forma do recipiente, 
a cor e o tipo de corda que o mantinha fechado, e o nmero e espao dos ns em cada pacote.
     Sua mente disparava.  o corao dele, sei que o problema  o corao dele. No parecia bem. O que devo fazer? No sei muito sobre o corao. Ningum no cl 
de Brun tinha problemas de corao. Devo recordar o que Iza explicou E aquela outra curandeira na Reunio de Cls. Havia duas pessoas em seu acampamento com problemas 
cardacos. Pense primeiro, dizia sempre Iza, o que est exatamente errado. Ele est plido e inchado. Tem dificuldade para respirar e sente dor. Seu batimento  
fraco. Seu corao deve trabalhar mais, fazer maiores esforos. O que  melhor? Talvez, a datura? Acho que no. E o helboro? Beladona? Meimendro-negro? Dedaleira? 
Dedaleira... folhas de dedaleira. E muito forte. Pode mat-lo. Mas ele morrer sem alguma coisa forte o bastante para fazer seu corao trabalhar novamente. Ento, 
quanto usar? Devo ferv-la ou fazer uma infuso? Oh, queria lembrar o modo como Iza fazia. Onde est minha dedaleira? No tenho nenhuma?,.
     - Ayla, o que h? - Ela ergueu a cabea e viu Mamut ao seu lado.
     - E Rydag... Seu corao. Vo trazer o menino e procuro... Planta. Haste comprida... Flores penduradas... Purpreas, manchas vermelhas dentro. Folhas grandes, 
como pele, do lado de baixo. Fao corao... Bater Sabe? - Ayla se sentia sufocada por sua falta de vocabulrio, mas ela havia sido mais clara do que imaginava.
     - Claro, a digital purprea, dedaleira  outro nome. E muito forte...
     - Mamut observou Ayla fechar os olhos e respirar fundo.
     - E, mas necessria. Preciso pensar, quanto... Aqui est a sacola! Iza disse para ficar sempre com ela.
     Neste instante, Tulie entrou carregando o menino. Ayla tirou uma pele de sua cama, colocou-a ao solo perto do fogo, e ordenou  mulher que deitasse ali. Nezzie 
estava atrs de Tulie, e todos se amontoavam ao redor.
     - Nezzie, tire a parka. Abra as roupas. Talut, h gente demais aqui, abra espao - ordenou Ayla, sem sequer compreender que ela dava ordens. Abriu a pequena 
bolsa de couro que segurava e cheirou o contedo Ergueu os olhos para o velho feiticeiro, preocupada. Depois, com um olhar  criana inconsciente, seu rosto endureceu 
com determinao. - Mais preciso de fogo forte. Latie, pegue pedras para cozinhar, tigela de e outra para beber.
     Enquanto Nezzie desapertava as roupas do menino, Ayla amontoou mais peles para colocar atrs dele e levantar sua cabea. Talut fazia as pessoas do acampamento 
recuarem para dar ar a Rydag, e espao para Ayla trabalhar. Latie avivava ansiosamente o fogo que Mamut havia feito, tentando fazer as pedras se aquecerem mais depressa.
     Ayla verificou o pulso de Rydag. Era difcil de achar. Colocou o ouvido sobre o peito do menino. 
     Sua respirao era baixa e forada. Ele precisava de ajuda. Ela recuou a cabea para abrir sua passagem de ar. Depois colou a boca  dele para insuflar os pulmes 
do garoto, como fizera com Nuvie.
     Mamut a observou por algum tempo. Ela parecia muito jovem para ter tanta habilidade para curar e, com certeza, houvera um instante de indeciso, mas este passara. 
Agora ela estava calma, concentrada na criana dando ordens com segurana, tranqila.
     Ele sacudiu a cabea concordando consigo mesmo, depois se sentou atrs do tambor de crnio de mamute e comeou uma cadncia media acompanhada por um canto baixo 
que, estranhamente, teve o efeito de aliviar parte da tenso que Ayla sentia. O canto de cura foi rapidamente entoado pelo resto do acampamento; aliviava as tenses 
e todos sentiram que contribuam de forma benfica. Tornec e Deegie entraram para o grupo com seus instrumentos, depois Ranec apareceu com anis que chocalhavam, 
feitos de marfim. A msica dos tambores, o canto e a vibrao dos anis no eram altos ou dominantes mas, ao contrrio, tranqilos e vibrantes.
     A gua j fervia. Ayla mediu uma quantidade de folhas de dedaleira secas na palma da mo e espalhou-as na gua que borbulhava na tigela. Esperou, ento, deixando
as folhas se encharcarem e tentou permanecer calma, at, afinal, a cor e seu senso intuitivo lhe dizerem que estava pronta a infuso. Derramou uma parte em uma tigela.
Depois, colocou a cabea de Rydag em seu colo e fechou os olhos um momento. Aquele medicamento no devia ser usado negligentemente. A dosagem errada mataria a criana 
e a fora das folhas de cada planta variava.
     Ayla abriu os olhos para ver dois outros de um azul vivo, cheios de amor e preocupao, retribuindo-lhe o olhar, e lanou a Jondalar um sorriso fugaz de gratido. 
Levou a tigela  boca e mergulhou nela a lngua, testando a fora do preparado. Depois, levou a bebida amarga aos lbios da criana.
     Ele engasgou ao primeiro gole, mas despertou ligeiramente. Tentou sorrir para Ayla, em sinal de reconhecimento, mas fez uma careta de dor, em vez disso. Ela 
o fez beber mais, devagar, enquanto observava cuidadosamente suas reaes: mudanas na cor e temperatura da pele, o movimento dos olhos, a profundidade de sua respirao. 
As pessoas do Acampamento do Leo tambm observavam, com ansiedade. No tinham compreendido quanto a criana passara a significar para elas at sua vida ser ameaada. 
Ele havia crescido na companhia deles, era um deles e, fazia pouco tempo, comearam a entender que Rydag no era diferente de ningum.
     Ayla no estava certa de quando o ritmo e o canto cessaram, mas o som calmo de Rydag respirando profundamente soou como grito de vitria no silncio absoluto 
da habitao cheia de tenso.
     Ayla notou um rubor leve quando ele respirou fundo pela segunda vez, e sentiu sua apreenso decrescer um pouco. A msica recomeou com um compasso diferente, 
uma criana gritou, vozes murmuraram. Ela pousou a cuia, verificou a pulsao no pescoo dele, sentiu-lhe o peito. Ele respirava com mais facilidade e menos dor. 
Ela ergueu a cabea para Nezzie ela viu sorrindo para ela atravs de olhos cheios de lgrimas. No estava sozinha.
     Ayla segurou o menino at ter certeza de que ele descansava confortavelmente, e segurou-o depois somente porque tinha vontade. Se ela se micerrasse os olhos, 
quase poderia esquecer as pessoas do acampamento. Quase era capaz de imaginar aquele menino, to parecido com seu filho, Como a criana a quem dera realmente  luz. 
As lgrimas que molharam-lhe a face eram tanto por si prpria, pelo filho que ansiava ver, quanto pela criana em seus braos.
     Afinal, Rydag adormeceu. A provao havia exigido muito dele e de Ayla tambm. Talut pegou-o ao colo e carregou-o para sua cama. E Jondalar a ajudou a levantar-se. 
Ele a abraou, enquanto ela se aconchegava a ele, sentindo-se extenuada e grata pelo apoio.
     Havia lgrimas de alvio nos olhos da maioria das pessoas do acampamento reunido, mas era difcil encontrar palavras apropriadas. No sabiam o que dizer  jovem 
mulher que salvara a criana. 
     Enviaram sorrisos, sacudiram a cabea de forma aprovadora, tocaram-na com carinho, murmuraram alguns comentrios, pouco mais que simples sons do que suficiente 
para Ayla. Naquele momento, ela se sentiria mal com palavras de gratido ou elogio em demasia.
     Depois de Nezzie certificar-se de que Rydag estava confortavelmente acomodado, foi falar com Ayla.
     - Pensei que ele tinha morrido. No acredito que esteja apenas dormindo - disse ela. - Esse remdio foi bom.
     Ayla concordou com um gesto de cabea.
     - , mas forte. Porm, ele deve tomar todos os dias um pouco, no muito. Deve tomar com outro remdio. Eu misturarei para ele. Voc como ch, mas ferve um pouco 
primeiro. Eu mostrarei. Darei a ele pequena tigela de manh, outra antes de dormir. Ele vai urinar mais  noite... At a inchao diminuir.
     - Esse remdio far com que fique bom, Ayla? - perguntou Nezzie com voz esperanosa.
     Ayla estendeu a mo para a dela e encarou-a.
     - No, Nezzie. Nenhum remdio pode curar Rydag - respondeu com voz firme onde havia uma ponta de tristeza.
     Nezzie balanou a cabea, concordando. Ela soubera o tempo todo mas o medicamento de Ayla realizara uma recuperao to milagrosa ela no pudera deixar de ter 
esperana.
     - Remdio ajudar. Rydag se sentir melhor, sem tanta dor - continuou Ayla. - Mas no tenho muito, deixei a maior parte dos remdios no vale. No pensei que 
ficaramos longe muito tempo.
     Mamut conhece a dedaleira, talvez tenha alguma.
     Mamut falou:
     - Meu talento  para Busca, Ayla. Tenho pouco dom para a cura mas o Mamut do Acampamento do Lobo  um bom curandeiro. Podem mandar algum perguntar se ele tem 
alguma, depois que o tempo melhora No entanto, isso levar alguns dias.
     Ayla esperava ter suficiente quantidade do estimulante de feito de folhas de dedaleira, para durar at algum poder conseguir ir porm, desejava ainda mais 
ter o resto de seu preparado consigo. No estava segura em relao aos mtodos de outra pessoa. Ela sempre era mui cuidadosa em secar as grandes folhas encrespadas 
devagar, num local fresco e seguro longe do sol, para reter o mximo possvel do princpio ativo. Verdade, desejava ter todos os seus remdios de ervas cuidadosamente 
parados, mas ainda estavam estocados em sua pequena caverna no vale Exatamente como Iza fizera, Ayla sempre carregava sua sacola de remdios de pele de lontra, que 
continha algumas razes e cascas de rvores, folhas, flores, frutas e sementes. Mas isso era pouco mais do que primeiros socorros para ela. Possua uma farmacopia 
inteira em sua caverna, embora tivesse vivido sozinha e l no encontrasse uso para os remdios.
     Era o treinamento e o hbito que a fizeram juntar plantas medicinais quando apareciam nas estaes passageiras. Era quase to automtico quanto andar. Em seu 
ambiente, ela conhecia muitos outros usos para os vegetais, desde fibras para cordas at alimento, mas eram as propriedades medicinais que a interessavam mais. Mal 
podia passar por uma planta, que sabia possuir propriedades medicinais, sem peg-la, e ela conhecia centenas delas.
     Estava to familiarizada  vegetao, que plantas desconhecidas sempre a intrigavam. Procurava semelhanas com plantas conhecidas e entendia as categorias dentro 
de classificaes mais amplas. Era capaz de identificar tipos e famlias relacionados, mas sabia bem que a aparncia similar no significava necessariamente reaes 
iguais, e experimentava cautelosamente em si mesma, provando e testando com saber e experincia.
     Tambm era cuidadosa com as doses e mtodos de preparao. Ayla sabia que uma infuso, preparada pelo derramamento de gua fervente sobre vrias folhas, flores 
ou framboesas e frutas semelhantes, deixando- as maceradas, extraa as essncias e princpios aromticos e volteis. A fervura, que causava cozimento, extraa os 
princpios resinosos, amargos, extrativos, e era mais eficaz sobre materiais duros como cascas de rvores, razes e sementes. Ela sabia como extrair as resinas, 
goma e leos essenciais de uma erva, como fazer cataplasmas, emplastros, tnicos, xaropes, ungentos ou pomadas utilizando gorduras ou agentes para engrossar. Sabia 
como misturar ingredientes, e como tonificar ou diluir, segundo a necessidade.
     O mesmo processo de comparao que se aplicava aos vegetais revelava as semelhanas entre animais. O conhecimento de Ayla do corpo humano e de suas funes 
era o resultado de uma longa histria de concluses tiradas de ensaio e erro, e de uma compreenso ampla da anatomia animal proveniente de retalhar os animais caados. 
Seu relacionamento com os seres humanos podia ser visto quando acidentes ou danos eram sofridos.
     Ayla era botnica, farmacutica e mdica; sua magia consistia de um saber esotrico que passou e se aperfeioou de gerao aps gerao, durante centenas, milhares, 
talvez milhes de anos de colhedores e caadores, cuja prpria existncia dependia de um conhecimento profundo da terra onde viviam e de seus produtos.
     Desta fonte inacabvel de histria no-registrada, passada a ela por meio do treinamento que recebera de Iza, e ajudada por um dom analtico inato e uma percepo 
intuitiva, Ayla podia diagnosticar e tratar a maior parte das doenas e males. Com uma lmina de slex aguada como navalha, ela realizava at mesmo pequenas cirurgias 
ocasionalmente, mas a sua medicina dependia mais dos complexos princpios ativos de plantas medicinais. Era hbil e seus remdios, eficazes, mas ela no podia realizar 
uma grande cirurgia para corrigir um defeito congnito do corao.
     Enquanto observava o menino adormecido que parecia tanto com seu filho, Ayla sentiu gratido e alvio enormes por saber que Durc, forte e saudvel ao nascer 
- mas isso no diminua a dor de ter que dizer a Nezzie que nenhum remdio podia curar Rydag.
     Depois,  tarde, Ayla vasculhou seus embrulhos e sacolas de ervas para preparar a mistura que havia prometido a Nezzie fazer. Mamut a observava em silncio, 
de novo. Agora, quase ningum poderia ter dvida de sua capacidade de curar, incluindo Frebec que tinha que reconhec-lo, embora, talvez no quisesse ainda admiti-lo, 
e Tulie, que no havia falado mas que, o velho sabia, fora bastante ctica a respeito. Ayla parecia ser uma jovem comum, bastante atraente mesmo para seus velhos 
olhos, mas estava convencido de que havia muito mais poder nela do que qualquer pessoa imaginava; ele duvidava de que ela prpria conhecesse a extenso total do 
seu potencial.
     Que vida difcil - e fascinante - ela tem vivido, refletiu ele. Ela parece to jovem, mas j  muito mais velha em experincia do que a maioria das pessoas 
sero, um dia. Quanto tempo viveu com eles? Como ela se tornara to perita na medicina deles? Perguntou-se. Ele sabia que tal conhecimento no era em geral ensinado 
a uma pessoa estranha, e ela forasteira, mais do que a maioria das pessoas poderia compreender havia seu dom inesperado para a Busca. 
     Que outros dons jaziam ocultos. Que saber ainda no fora usado? Que segredos, no revelados?
     Sua fora vem  tona numa crise; ele se lembrou como Ayla havia dado ordens a Tulie e Talut. At a mim, pensou com um sorriso, e ningum rejeitou. A liderana 
 um dom natural nela. Que adversidade provou para ter tal presena to jovem? A Me tem planos para ela, estou certo disso, mas e o rapaz, Jondalar? Certamente, 
 bem dotado, mas seus talentos no so extraordinrios. Qual  o propsito Dela para ele?
     Ela afastava os pacotes de ervas quando, de repente, Mamut examinou com mais ateno a bolsa de remdios de pele de lontra. Era familiar podia fechar os olhos 
e quase viu uma to semelhante, que lhe trouxe uma torrente de recordaes.
     - Ayla, posso ver isso? - pediu, querendo ver mais de perto.
     - Isto? Minha bolsa de remdios? - indagou ela.
     - Sempre me perguntei como eram feitas.
     Ayla entregou-lhe a bolsa incomum, notando os inchaos de artrite nas mos longas, finas, velhas.
     O idoso feiticeiro examinou a sacola cuidadosamente. Mostrava sinal de uso; Ayla devia t-la, havia muito tempo. Fora feita, no por costura ou juntando pedaos, 
mas da pele de um nico animal. Em vez de cortai a barriga da lontra, que era a maneira comum de tirar a pele de um animal, somente a garganta fora cortada, deixando 
a cabea presa por uma tira costas. Os ossos e entranhas eram extrados atravs do pescoo e o envoltrio do crebro era esvaziado, ficando um pouco achatado. Toda 
a era, ento, tratada e pequenos buracos tinham sido feitos a intervalos, redor do pescoo, com uma sovela de pedra, para que uma corda passasse atravs deles como 
cordo. O resultado era uma bolsa de pele de lontra macia, impermevel, com os ps e rabo ainda intactos, e a cabea usada como tampa.
     Mamut lhe devolveu o objeto
     - Voc fez isso?
     - No. Iza fez. Era curandeira do cl de Brun, minha... Me. Ensinou-me desde garotinha, onde as plantas cresciam, como fazer remdios, como usar os medicamentos. 
Ela estava doente, no foi  Reunio de Cls Brun precisava de curandeira. Uba era jovem demais, eu era a nica.
     Mamut concordou com um gesto de cabea, depois encarou-a com olhar penetrante.
     - Que nome acabou de dizer?
     - Minha me? Iza?
     - No,o outro.
     Ayla refletiu um instante
     - Uba?
     - Quem  Uba?
     - Uba...  irm. No irm verdadeira, mas como irm para mim.  filha de Iza. Agora,  curandeira... e me de..
     - Esse  um nome comum? - interrompeu Mamut em uma voz que continha uma ponta de excitao,
     - No... acho que no... Creb deu nome a Uba. A me da me de Iza tinha o mesmo nome. Creb e Iza tinham a mesma me
     - Creb! Diga-me, Ayla, este Creb tinha um brao defeituoso e mancava?
     - Sim - respondeu Ayla, intrigada. Como Mamut sabia?
     - E havia um outro irmo? Mais jovem, porm forte e saudvel.
     Ayla franziu a testa diante das perguntas ansiosas de Mamut
     - Sim, Brun. Era o lder
     - Santa Me! No acredito! Agora compreendo
     - Eu no compreendo - disse Ayla.
     - Ayla, venha. Sente-se. Quero lhe contar uma histria
     Ele a conduziu a um local perto da fogueira, prximo  sua cama. Empoleirou-se na beira do estrado, enquanto ela se sentava sobre uma esteira no cho e erguia 
os olhos, na expectativa.
     - Certa vez, muitos e muitos anos atrs, quando eu era muito jovem. Tive uma estranha aventura que mudou minha vida - comeou Mamut. Ayla sentiu um formigamento 
estranho, repentino, exatamente sob a pele e teve a sensao de que quase sabia o que ele ia dizer
     - Manuv e eu somos do mesmo acampamento. O homem que sua me escolheu para companheiro era meu primo. Crescemos juntos e, como os jovens fazem, falvamos sobre 
fazer uma jornada juntos, mas no vero em que amos viajar, ele adoeceu. Ficou muito doente. Eu estava ansioso para partir, planejvamos a viagem havia anos e esperava 
que ele melhorasse, mas a doena perdurava. Afinal, perto do fim do vero, resolvi viajar sozinho. Todos me aconselharam o contrrio, mas eu estava inquieto.
     Planejramos margear o mar Beran, e depois seguir o litoral leste do grande mar do Sul, quase do mesmo modo que Wymez fez. Mas, a estao j terminava e, assim, 
resolvi tomar um atalho atravs da pennsula com conexo leste para as montanhas.
     Ayla balanou a cabea afirmativamente. O cl de Brun usara aquela rota para a Reunio de Cls.
     - No contei a ningum sobre o meu plano. Era terra dos cabeas-chatas e eu sabia que encontraria muitas objees. Pensei que, se fosse cauteloso, poderia evitar 
qualquer contato, mas no contava com o dente. Ainda no estou certo sobre como aconteceu. Eu caminhava por uma margem elevada de um rio, quase um penhasco, e a 
prxima coisa que me lembro foi que escorreguei e ca. 
     Devo ter ficado inconsciente por algum tempo. Era fim de tarde quando voltei a mim. Minha cabea doa e nada estava muito claro, porm, pior estava meu brao. 
O osso estava deslocado e o brao... Quebrado, e eu sentia muita dor.
     Cambaleei ao longo do rio por algum tempo, inseguro sobre meu destino. Eu havia perdido meu bornal e nem sequer pensava em procur-lo No sei por quanto tempo 
caminhei, mas estava quase escuro quando vi afinal, uma fogueira. No refleti que estava na pennsula. Quando vi algumas pessoas perto dela, encaminhei-me em sua 
direo.
     Posso imaginar a surpresa quando tropecei no meio delas, mas naquele momento eu estava to desvairado que ignorava onde me encontrava. Minha surpresa aconteceu 
mais tarde. Despertei num ambiente desconhecido, sem imaginar como havia chegado ali. Quando descobri um cataplasma na minha cabea e meu brao numa tipia, lembrei-me 
de ter cado e pensei em como tivera sorte por ter sido encontrado por um acampamento com um bom curandeiro, e ento a mulher apareceu. Talvez possa imaginar Ayla, 
como fiquei chocado ao descobrir que estava no acampamento de um cl.
     A prpria Ayla sentia um choque
     - Voc! Voc  o homem com o brao quebrado? Conhece Creb Brun? - perguntou Ayla, incrdula.
     Uma onda de emoo a invadiu e lgrimas saram dos cantos de seu olhos. Era como uma mensagem do seu passado.
     - Ouviu falar de mim?
     - Iza me contou que, antes de nascer, a me de sua me curou um homem com um brao quebrado. Homem dos Outros. Creb tambm contou. Disse que Brun me deixou 
ficar com o Cl porque aprendeu com esse homem... Com voc, Mamut... Que os Outros tambm so homens - Ayla se calou, fitou o rosto enrugado, de cabelos brancos, 
do velho vulnervel. - Iza caminha no mundo dos espritos agora. Ela no era nascida quando voc apareceu... E Creb... Era menino, no ainda escolhido por Ursus. 
Creb era velho quando morreu... Como voc ainda vive?
     - Eu tenho me perguntado por que a Me resolveu me conceder tanto tempo. Acho que Ela acabou de me dar uma resposta.
     - Talut? Talut, est dormindo? - cochichou Nezzie ao ouvido do grande chefe enquanto o sacudia.
     - Hein? O que h? - perguntou ele, despertando abruptamente.
     - Psiu, no acorde todo mundo. Talut, no podemos deixar Ayla ir embora, agora. Quem cuidar de Rydag da prxima vez? Acho que devamos adot-la, torn-la parte 
de nossa famlia, torn-la Mamutoi.
     Ele levantou a cabea e viu os olhos brilhantes de Nezzie, um reflexo dos carves em brasa da fogueira limitada.
     - Sei que gosta do menino, Nezzie. Eu tambm gosto. Mas seu amor por ele  motivo para tornar uma estranha um de ns? O que eu diria aos Conselhos?
     - No se trata apenas de Rydag. Ela  curandeira. Uma boa curandeira. Os Mamutoi tm tantas curandeiras que possamos nos dar ao luxo de deixar uma to boa partir? 
Veja o que aconteceu em apenas poucos dias. Ela salvou Nuvie, impedindo que se asfixiasse at morrer... Sei que Tulie disse que isso podia ser somente uma tcnica 
que Ayla aprendera, mas sua irm no pode dizer o mesmo sobre Rydag. Ayla sabia o que fazia. Era medicina de Cura. Ela est certa em relao a Fralie, tambm. At 
eu posso ver que esta gravidez  difcil para ela, e toda essa discusso e brigas no ajudam. E sua dor de cabea?
     Talut sorriu.
     - Isso foi mais do que mgica de Cura, foi surpreendente!
     - Psiu! Acordar todos! Ayla  mais do que curandeira. Mamut diz que ela  uma buscadora no-treinada tambm. E veja seu jeito com os animais, eu no duvidaria 
que seja, alm disso, uma chamadora. Pense que benefcio seria um acampamento se ela no apenas pudesse buscar animais, para caar, mas tambm chamar os animais 
para ela?
     - Voc no sabe, Nezzie. Est apenas supondo.
     - Bem, no tenho que supor em relao  sua percia com aquelas armas. Voc sabe que ela conseguiria um bom Preo de Noiva se fosse Mamutoi, Talut. Com tudo 
o que ela tem para oferecer, diga-me, o que acha que ela valeria como filha de sua fogueira?
     - Hum... Se fosse Mamutoi, e a filha da Fogueira do Leo... Mas, talvez ela no queira se tornar Mamutoi, Nezzie. E o rapaz, Jondalar?  claro que existe um 
sentimento forte entre eles.
     Nezzie havia pensado nisso por algum tempo e estava pronta:
     - Pergunte a ele tambm.
     - Os dois! - explodiu Talut, sentando-se.
     - Ei, fale baixo!
     - Mas ele tem um povo. Diz que ele  Zel... Zel... o que quer que seja.
     - Zelandonii - cochichou Nezzie. - Mas seu povo vive muito distante daqui. Por que ele desejaria fazer uma viagem to longa se pode encontrar um lar conosco? 
Pode lhe perguntar de qualquer forma, Talut. Aquela arma que ele inventou pode ser um motivo suficiente para satisfaze os Conselhos. E Wymez diz que ele  um perito 
fabricante de ferramentas Se seu irmo lhe der uma recomendao, sabe que os Conselhos no negaro.
     -  verdade... mas, Nezzie - falou Talut, deitando-se de novo - como sabe que eles querero ficar?
     - No sei, mas voc pode perguntar, no pode?
     A manh estava no meio quando Talut saiu da habitao comunal e Ayla e Jondalar afastando os cavalos do acampamento. No havia mas o gelo claro ainda perdurava 
em manchas de branco cristal, e suas cabeas eram coroadas por vapor a cada exalao. A esttica serpenteava ar seco e gelado. A mulher e o homem estavam vestidos 
para o com parkas de pele e capuzes amarrados com firmeza ao redor dos pescoos e calas de pele que eram enfiadas em sapatos, e estes presos ao redor da beirada 
das calas, e amarrados.
     - Jondalar! Ayla! Vo embora? - gritou ele, correndo para alcan-los.
     Ayla respondeu afirmativamente com um gesto de cabea, o que' o sorriso de Talut desaparecer, e Jondalar explicou:
     - Vamos apenas levar os cavalos para fazer exerccio. Vejo voc depois de meio-dia.
     Deixou de mencionar que tambm procuravam um pouco de privacidade, um local em que pudessem ficar a ss por algum tempo a fim de discutir, sem interrupo, 
se voltariam para o vale de Ayla. Ou, em vez na cabea de Jondalar, convencer Ayla a desistir de ir.
     - timo. Eu gostaria de providenciar algumas sesses de treinamento com aqueles arremessadores de lanas quando o tempo melhorar. Eu gostaria de ver como funcionam 
e o que eu faria com um deles - falou Talut.
     - Acho que talvez fique surpreso - replicou Jondalar, sorrindo - ao ver como funcionam bem.
     - No sozinhos. Estou certo de que funcionam bem, com qualquer um de vocs, mas  preciso certa habilidade, e talvez no haja muito tempo para treinar antes 
da primavera. - Talut fez uma pausa, refletindo,
     Ayla esperava, a mo sobre a cernelha da gua, bem abaixo de sua curta, dura. Uma luva de pele grossa com separao apenas para o r pendia por um cordo da 
manga de sua parka. O cordo era puxado cima por meio da manga, por uma ala na parte de trs do pescoo, descendo pela outra manga e preso  outra luva. Com o cordo 
preso a e se fosse necessrio a agilidade da mo nua, as luvas podiam ser tiradas rapidamente, sem medo de perd-las. Numa terra de frio muito rigoroso e ventos 
fortes, uma luva perdida podia significar uma mo perdida, ou uma vida perdida. O potro bufava e cabriolava com excitao, e se jogava contra Jondalar, impacientemente. 
Pareciam ansiosos para se pr a caminho, esperavam que ele terminasse apenas por cortesia; Talut sabia disso. Resolveu, de qualquer maneira, prosseguir.
     - Nezzie conversou comigo na noite passada, e esta manh falei com alguns outros. Seria til ter algum por perto para nos mostrar como usar essas armas de 
caa.
     - Sua hospitalidade tem sido mais que generosa. Sabe que eu ficaria feliz em mostrar a qualquer um como usar o arremessador de lanas.  muito pouco por tudo 
o que tem feito - disse Jondalar.
     Talut sacudiu a cabea, concordando, depois continuou.
     - Wymez me disse que voc  um timo quebrador de slex, Jondalar Os Mamutoi sempre podem utilizar algum que possa fabricar ferramentas de boa qualidade. E 
Ayla tem muitos talentos que beneficiariam o acampamento. No  apenas perita com o arremessador de lanas e sua funda... voc tinha razo... - virou-se de Jondalar 
para Ayla - ...ela  uma curandeira. Gostaramos que vocs ficassem.
     - Eu esperava passar o inverno com vocs, Talut, e agradeo seu oferecimento, mas no estou seguro do que Ayla sente a respeito - respondeu Jondalar, sorrindo, 
sentindo que o oferecimento de Talut no poderia ter sido feito em melhor ocasio. Como poderia ela partir agora? Com certeza o convite de Talut significava mais 
que a maldade de Frebec
     Talut continuou, dirigindo suas palavras  jovem.
     - Ayla, voc no tem povo agora e Jondalar mora distante, talvez mais longe do que deseja viajar, se puder encontrar um lar aqui. Gostaramos que vocs dois 
ficassem, no apenas durante o inverno, mas sempre. Convido-os a se tornarem um de ns e falo por mais pessoas alm de mim. 
     Tulie e Barzec desejariam adotar Jondalar na Fogueira dos Auroques, e Nezzie e eu queremos que se torne a filha da Fogueira do Leo. J que Tulie  chefe, e 
eu sou chefe, isso lhes daria uma posio elevada entre os Mamutoi.
     - Quer dizer que deseja nos adotar? Quer que nos tornemos Mamutoi? - deixou escapar Jondalar, um pouco aturdido e corado de surpresa.
     - Voc me quer? Quer me adotar? - perguntou Ayla. Ela ouvira a conversa, a testa enrugada em concentrao, no inteiramente segura de que acreditava no que 
escutava. - Quer fazer Ayla de Nenhum Povo, Ayla dos Mamutoi?
     - Sim. - O homem grande sorriu.
     Jondalar procurava palavras. Hospitalidade para visitantes talvez fosse uma questo de costume e de orgulho, mas nenhum povo tinha o costume de convidar estranhos 
para se juntarem  sua tribo, e famlia, sem sria reflexo.
     - Eu...- hum... No sei o que dizer... - falou ele. - Estou muito honrado. Ser convidado  um grande elogio.
     - Sei que precisam de algum tempo para pensar a respeito. Os dois -disse Talut. - Eu ficaria surpreso, se no pensassem. No mencionamos isso a todas as pessoas 
do acampamento e o acampamento inteiro deve concordar, mas isso no deve ser problema com tudo o que vocs trazem, e Tulie e eu falamos por vocs. Eu queria lhes 
perguntar primeiro. Se concordarem convocarei uma reunio.
     Observaram, em silncio, o grande chefe voltar  habitao de terra Tinham planejado encontrar um lugar para conversar, cada um esperando resolver os problemas 
que, sentiam, tinham comeado a surgir entre si. convite inesperado de Talut havia acrescentado uma dimenso inteiramente nova aos seus pensamentos, s decises 
que precisavam tomar, na verdade s suas vidas. Sem dizer palavra, Ayla montou Whinney e Jondalar subiu atrs dela. Com Racer acompanhando-os, comearam a subir 
a encosta atravessaram o campo aberto, cada um perdido em seus pensamentos.
     Ayla estava comovida de forma indescritvel com o convite de Talut Quando ela vivia com o Cl, muitas vezes se sentiu alienada, mas isso t era nada em comparao 
ao vazio doloroso,  desesperada solido que conhecera sem eles. Desde o momento em que deixou o Cl at o instante eu que Jondalar chegou, pouco mais do que uma 
estao antes, ela estivera sozinha. No tivera ningum, nem a sensao de relacionamento ntimo nem lar, famlia ou povo, e sabia que jamais veria seu cl novamente. 
Por causa do terremoto que a deixara rf, antes de ser encontrada pelo Cl, o terremoto no dia em que foi expulsa, deu  sua separao um sentido profundo de irrevogabilidade.
     Sustentando seu sentimento, havia um medo elementar enorme, u combinao do terror primordial de terra deslocada e o sofrimento convulsivo de uma menina pequena 
que perdera tudo, at sua lembrana daqueles a quem havia pertencido. No existia nada que Ayla temesse ma; do que movimentos de deslocamentos de terra. Sempre pareciam 
assinale mudanas to abruptas e violentas em sua vida quanto as mudanas ocasionavam na terra. Era quase como se a prpria terra lhe dissesse o esperar... ou estremecesse 
de piedade.
     Mas, depois da primeira vez em que ela perdeu tudo, o Cl tornara-si seu povo. Agora, se quisesse, poderia ter um povo de novo. Podia tornar-si Mamutoi; no 
estaria sozinha.
     Mas, e Jondalar? Como ela poderia escolher um povo diferente c' dele? Ser que ele quereria ficar e se tornar Mamutoi? Ayla duvidava. Lava segura de que ele 
queria voltar a seu prprio lar. Mas ele temera todos os Outros se comportassem em relao a ela como Frebec o  Ele no queria que ela falasse do Cl. E se ela 
fosse com ele e no a aceitassem? Talvez o povo de Jondalar fosse como Frebec. Ela no deixar de mencion-los, como se Iza e Creb e Brun e seu filho fossem pessoas 
quem devesse se envergonhar. Ela no teria vergonha das pessoas amava.
     Ser que ela queria ir para o lar de Jondalar e arriscar-se a ser trata como animal? Ou desejava permanecer ali, onde era querida e aceita?' Acampamento do 
Leo havia at recebido uma criana mista, como filho... De repente, um pensamento lhe ocorreu. Se tinham aceitado um aceitariam outra? Uma criana que no era fraca 
ou doente? Que era capa de aprender a falar? O territrio dos Mamutoi se estendia at o mar Beran. Talut no dissera que algum tinha um Acampamento do Salgueiro 
ali? Pennsula onde o Cl vivia no era muito alm. Se ela se tornasse Mamute. Talvez, um dia, pudesse... Mas, e Jondalar? E se ele partisse? Ayla sentiu uma dor 
forte na boca do estmago ao pensar nisso. Ela suportaria viver sem Jondalar? Perguntou-se enquanto lutava com sentimentos diversos.
     Jondalar tambm lutava com desejos conflitantes. Mal considerou o oferecimento que lhe foi feito, exceto que desejava encontrar um motivo para recusar que no 
ofendesse Talut e os Mamutoi. Ele era Jondalar, dos Zelandonii, e sabia que seu irmo tivera razo. Jamais poderia ser outra coisa. 
     Queria ir para casa, mas era uma dor importuna, mais do que uma grande urgncia. Era impossvel pensar em quaisquer outros termos. Seu lar era to distante 
que levaria um ano para viajar at ele.
     Seu turbilho mental era sobre Ayla. Embora jamais lhe houvesse faltado parceiras dispostas, a maioria mais do que desejosa de formar um lao mais duradouro, 
ele nunca havia conhecido uma mulher que quisesse tanto quanto Ayla. Nenhuma das mulheres de seu povo, e nenhuma das que encontrara em suas viagens, fora capaz de 
provocar nele aquele estado que vira em outros, mas no havia, ele mesmo, sentido, at encontr-la. Amava-a mais do que imaginava ser possvel. Ela era tudo o que 
sempre desejava em uma mulher, e mais ainda. No suportava o pensamento de viver sem ela.
     Mas tambm sabia o que significava desonrar-se. E as qualidades dela que o atraam - sua combinao de inocncia e sabedoria, de honestidade e mistrio, de 
autoconfiana e vulnerabilidade - eram o resultado das mesmas circunstncias, que poderiam lev-lo novamente a sentir a dor da infelicidade e exlio.
     Ayla fora criada pelo Cl, pessoas diferentes de forma inexplicvel. Para a maioria das pessoas que ele conhecia, aqueles que Ayla chamava de Cl no eram seres 
humanos. Eram animais, mas no como os outros animais criados pela Me para suas necessidades. Embora no admitidas, as semelhanas entre eles eram reconhecidas, 
porm as bvias caractersticas humanas do Cl no provocavam sentimentos ntimos de fraternidade. Em vez disso, eram vistos como ameaa e suas diferenas eram enfatizadas. 
Para pessoas como Jondalar, o Cl era considerado como uma espcie bestial indescritvel, nem sequer includa no panteo de criaes da Grande Me Terra, como se 
houvesse sido gerada de algum grande mal insondvel.
     Havia, porm, maior reconhecimento de sua humanidade mtua em ao do que em palavra. A raa de Jondalar havia ido para o territrio do Cl no h muitas geraes 
antes, ocupando freqentemente bons locais para viver, perto de reas de caa e forragem abundante, e obrigando o Cl a ir para outras regies. Mas, exatamente como 
bandos de lobos dividem um territrio entre si e defendem-no mutuamente, no de outros animais de rapina ou predatrios, a aceitao dos limites dos territrios 
de cada um era um acordo tcito de que eram da mesma espcie.
     Quando percebeu seu sentimento por Ayla, Jondalar viera a compreender que toda vida era uma criao da Grande Me Terra, inclusive Os cabeas-chatas. Mas, embora 
a amasse, estava convencido de que Ayla Seria rejeitada por seu povo. Era mais do que sua ligao com o Cl que a tornava pria. Seria considerada como abominao 
indescritvel, que c condenada pela Me, porque havia dado  luz um filho de espritos mistos, parcialmente animal e parcialmente humano.
     O tabu era comum. Todas as pessoas que Jondalar havia conhecido c suas viagens acreditavam nisso, embora algumas mais firmemente que outras, Certas pessoas 
nem sequer admitiam a existncia de um filho ilegtimo, outra pensavam na situao como piada desagradvel. Por isto, ficara to chocado ao encontrar Rydag no Acampamento 
do Leo. Estava certo de que no foi fcil a Nezzie e, na verdade, ela suportara o impacto de dura crtica e preconceito. Somente algum serenamente confiante e 
seguro de sua posio poderia ousar encarar seus difamadores e, por fim, a humanidade e compaixo genunas de Nezzie prevaleceram. Mas at Nezzie no mencionara 
o filho perdido a quem Ayla lhe falara, quando tentava persuadir os outros a aceitar. Ayla ignorava o sofrimento de Jondalar quando Frebec a tinha ridicularizado, 
embora ele houvesse esperado mais motejos. No entanto, s sofrimento era mais do que apenas empatia por ela. Todo o confronto colrico lhe lembrou outra poca, quando 
suas emoes o tinham desencaminhado, e exps uma dor profunda e enterrada. Porm, pior ainda, sua reao inesperada. Isso causava sua angstia agora. Jondalar ainda 
revirava de culpa porque, por um momento, se sentira mortificado por e ligado a ela quando Frebec gritou sua acusao. Como podia ele amar mulher e sentir vergonha 
dela?
     Desde a poca terrvel de sua juventude, Jondalar lutara para se controlar, mas parecia incapaz de conter os conflitos que o atormentava agora. Queria levar 
Ayla para casa consigo. Desejava que ela conhecesse Dalanar e o povo de sua caverna, e sua me, Marthona, e seu irmo velho, e irm mais nova, e seus primos, e Zelandonii. 
Queria que eles a recebessem bem, para fixar sua prpria fogueira com ela, um local onde pudesse ter filhos que talvez fossem do seu esprito. No havia mais ningum 
na terra que ele quisesse, no entanto, se encolhia sob o pensamento do desprezo que cairia sobre ele, talvez, por trazer para casa tal mulher e relutava em exp-la 
a isso.
     Especialmente, se no fosse necessrio. Ao menos, se ela no falasse sobre o Cl, ningum saberia. No entanto, o que poderia dizer quando algum perguntasse 
quem era o seu povo? De onde ela vinha? As pessoas que a criaram eram as nicas que conhecia, a menos... Que ela aceitasse o oferecimento de Talut. Ento, poderia 
ser Ayla dos Mamutoi, exatamente como se houvesse nascido entre eles. A maneira peculiar de Ayla pronunciar algumas palavras seria apenas um sotaque. 
     Quem sabe? Pensou. Talvez ela seja Mamutoi. Seus pais podiam ser. Ela ignora quem eram.
     Mas, se ela se tornar Mamutoi, talvez resolva ficar. E se o fizer? Seria capaz de ficar? Poderia aprender a aceitar este povo como o meu? Thonolan o fez. Ser 
que ele amou Jetamio mais do que amo Ayla? Mas, Sharamudoi eram o seu povo. Ela nasceu e l foi criada. Os Mamutoi no. so o povo de Ayla, mais do que so o meu. 
Se ela pudesse ser feliz aqui poderia ser feliz com os Zelandonii. Mas, se ela se tornar um deles, talvez no queira ir para casa comigo. No teria dificuldade em 
encontrar algum aqui... Estou certo de que Ranec no se importaria, de modo algum.
     Ayla o sentiu apert-la possessivamente, e perguntou-se por que motivo. Notou uma fila de galharia quebrada  frente, pensou que ali havia um riacho e apressou 
Whinney nessa direo. Os cavalos farejaram a gua e no precisaram de muito estmulo. Quando chegaram  corrente, Ayla e Jondalar desmontaram e procuraram um local 
confortvel para sentar.
     O curso dgua tinha um espessamento nas margens que, sabiam, era apenas o comeo. O limite branco que fora construdo, camada aps camada, fora das guas escuras 
ainda redemoinhando no centro, cresceria at o trmino da estao, e se fecharia at a corrente turbulenta ficar imvel, mantida em suspenso at o ciclo mudar. 
Ento, as guas irromperiam novamente em manifestao de liberdade.
     Ayla abriu uma pequena, bolsa de couro, cru, em que havia colocado comida para ambos, um pouco de carne-seca que achava ser de auroques, e uma cestinha de uvas-do-monte 
e ameixas cidas. 
     Tirou um ndulo cinza brnzeo, de pirita e um pedao de slex para fazer uma pequena fogueira a fim de ferver gua para o ch. Jondalar maravilhou-se de novo 
com a facilidade com que ela fez o fogo com a pirita. Era magia, um milagre. Ele jamais vira algo assim antes de conhec-la.
     Ndulos de pirita - pedras-de-fogo - espalhavam-se pela praia rochosa do vale de Ayla. Sua descoberta de que uma centelha quente sobrevivia o suficiente para 
acender um fogo, e podia ser tirada de uma pirita golpeando-a com slex, fora um acidente, mas Ayla estava pronta para aproveit-la. Seu fogo se apagara. Ela sabia 
como fazer uma fogueira pelo processo trabalhoso que a maioria das pessoas usava, torcendo um pau contra uma base, ou plataforma, de madeira at a frico provocar 
calor suficiente para produzir brasa ardente. Assim, ela compreendeu como aplicar o princpio quando pegou um pedao de pirita, por engano, em vez de seu martelo 
de pedra de moldar slex, e conseguiu a primeira fagulha.
     Jondalar havia aprendido a tcnica com Ayla. Trabalhando com slex, ele produzira pequenas centelhas muitas vezes, mas pensava nelas como o esprito vivo da 
pedra liberado como parte do processo. No lhe ocorreu tentar fazer uma fogueira com as fagulhas. Mas, ento, ele no se encontrava sozinho num vale, lutando para 
sobreviver; em geral, estava cercado de pessoas que quase sempre tinham um fogo aceso. As centelhas que produzia apenas com slex usualmente no tinham vida bastante 
para acender um fogo, de qualquer forma. Foi a combinao casual de Ayla, de slex e pirita que criou a centelha que podia converter-se em fogo. Ele entendeu imediatamente 
o valor do processo e das pedras-de-fogo, contudo, e os benefcios a serem usufrudos pela capacidade de fazer fogo to depressa e facilmente.
     Enquanto comiam, riram das cabriolas de Racer atraindo sua me para uma brincadeira de venha me pegar e, depois, dos dois cavalos rolando de costas, as pernas 
dando chutes no ar, sobre uma margem arenosa protegida do vento e aquecida pelo sol. Evitaram cuidadosamente qualquer assunto.
     - Latie gostaria de ver os dois cavalos brincando desse jeito, eu... - disse Jondalar.
     - . Ela gosta de cavalos, no ?
     - Gosta de voc tambm, Ayla. Tornou-se uma admiradora. - hesitou, depois continuou: - 
     Muitas pessoas gostam de voc e a admira aqui. No precisa, realmente, voltar para o vale e viver sozinha, no.
     Ayla abaixou os olhos para a tigela em suas mos, girou o resto de contedo com os resduos das folhas, e bebeu um gole pequeno.
     -  um alvio ficar a ss novamente. Eu no sabia como poderia sentir bem afastando-me de todos, e h algumas coisas na caverna dos que eu gostaria de ter. 
Mas, voc tem razo. Agora, que conheci os Ouros, no quero viver sozinha o tempo todo. Gosto de Latie, Deegie e Tornec... E Nezzie, de todos... Exceto Frebec.
     Jondalar suspirou com alvio. A primeira e maior barreira fora ultrapassada.
     - Frebec  apenas um. No pode deixar uma pessoa estragar tudo Talut... E Tulie... No teriam feito o convite para ficarmos se no gostassem de voc, e no 
sentissem que voc tinha alguma coisa valiosa para oferece.
     - Voc tem uma coisa valiosa para oferecer, Jondalar. Quer ficar se tornar um Mamutoi?
     - Eles foram bondosos conosco, muito mais do que a hospitalidade exige. Eu poderia ficar, certamente durante o inverno, e at mais tempo e ficaria feliz em 
lhes dar qualquer coisa que pudesse.Mas eles no necessitam de meu trabalho como quebrador de slex. Wymez  muito melhor do que eu, e em breve Danug ser igualmente 
bom. E j lhes mostrei o arremessador de lanas. Viram como  feito. Com prtica, poderiam us-lo, basta apenas quererem. E sou Jondalar dos Zelandonii...
     Calou-se e seus olhos assumiram uma expresso vaga como se vissem atravs de uma grande distncia. Depois, tornou a desviar o olhar, de volta e sua testa se 
franziu enquanto tentava pensar em alguma explicao.
     - Devo voltar... Um dia... Ao menos para contar  minha me a morte do meu irmo... E dar a Zelandonii a chance de encontrar seu rito e gui-lo at o mundo 
seguinte. Eu no poderia me tornar Jondalar dos Mamutoi sabendo disso, no posso esquecer minha obrigao.
     Ayla olhou-o atentamente. Sabia que ele no queria ficar. No por causa de obrigaes, embora, ele pudesse senti-las. Ele queria ir para casa.
     - E voc? - perguntou Jondalar, tentando manter o tom de voz expresso neutros. - Quer ficar e tornar-se Ayla dos Mamutoi?
     Ela fechou os olhos, procurando uma forma de se expressar, sentindo que no sabia palavras suficientes, ou as palavras certas, ou que palavras no eram suficientes.
     - Desde que Broud me amaldioou, no tenho tido povo, Jondalar. Tenho-me sentido vazia por isso. Gosto dos Mamutoi e os respeito. Sinto-me bem com eles. O Acampamento 
do Leo ... Como o cl de Brun... A maioria das pessoas  boa. No sei quem era meu povo antes do Cl, acho que nunca saberei, mas s vezes,  noite, penso... Gostaria 
que fosse Mamutoi.
     Ela olhou firmemente para o homem, para o cabelo louro liso contra a pele escura do capuz, para o rosto atraente que ela achava to bonito, embora ele lhe tivesse 
dito que essa no era a palavra adequada para um homem, para seu corpo forte, sensvel, e mos grandes, expressivas, e os olhos azuis que pareciam to ansiosos e 
perturbados.
     - Mas, antes dos Mamutoi voc chegou. Tirou o vazio de mim e encheu-me de amor. Quero estar com voc, Jondalar.
     A ansiedade abandonou os olhos de Jondalar, substituda agora pelo afeto tranqilo a que ela estava acostumada no vale, e depois pelo desejo magntico, arrebatador, 
que fazia o corpo de Ayla responder com um desejo prprio. Sem qualquer vontade consciente, ela foi impelida para ele, sentiu sua boca encontrar a dela e seus braos 
cercarem-na.
     - Ayla, minha Ayla, amo-a tanto - gritou ele num soluo estrangulado, cheio de angstia e alvio.
     Manteve-a apertada ao peito, mas suavemente, enquanto permaneciam sentados ao solo, como se no quisesse solt-la nunca, mas tivesse medo de que ela se libertasse. 
Afrouxou seu abrao o suficiente para levantar o rosto de Ayla para o seu, e beijou-lhe a testa, e os olhos, e a ponta do nariz. Depois, a boca, e sentiu seu desejo 
crescer. Estava frio, no tinham um lugar onde se abrigar ou aquecer, mas ele a queria.
     Ele desatou o cordo do capuz de Ayla, e encontrou seu pescoo, enquanto as mos enfiavam-se sob sua parka e tnica e descobriam a pele clida e seios fartos, 
com os mamilos duros, eretos. Um gemido baixo escapou dos lbios de Ayla quando ele os acariciou, apertando e puxando firmemente. Jondalar desfez o lao do cordo 
das calas de Ayla, e enfiou a mo sob elas encontrando o pbis. Ela fez presso contra ele, quando Jondalar tocou a fenda quente, mida, e sentiu latejar, contrair-se.
     Depois, ela procurou, sob a parka e tnica de Jondalar, o seu cordo e desatou-o. Estendeu a mo at o membro rijo, palpitante, e esfregou as mos ao longo 
de seu fuste. Ele soltou um suspiro alto de prazer quando ela se inclinou e tomou-o na boca. Ela sentiu a pele lisa com a lngua, e tomou posse dele o mximo possvel. 
Depois, empurrou-o para fora e tomou-o de novo, ainda esfregando o fuste quente, curvado, com as mos.
     Ela o ouviu gemer, comear a gritar e depois respirar fundo e afast-la gentilmente.
     - Espere, Ayla, quero voc - disse ele.
     - Eu teria que tirar minha cala e protetor dos ps para isso  falou ela.
     - No, no precisa, est frio demais aqui. Vire-se. Lembra?
     - Como Whinney e seu garanho - cochichou Ayla.
     Ela se virou e se ps de joelhos. Por um instante, a posio a fez remeno dos pensamentos que estavam em suas mentes, mas o riso deixou-os a ambos, e o isolamento 
e privacidade lhes recordaram os dias intimidade no vale. Quando tomavam ch quente, estavam prontos a s aventurar em assuntos mais difceis.
     - O riacho ainda tem gua...
     - Quero estar com voc.
     Recordar, no Whinney e seu garanho ansioso, mas Broud, quando fora agachada ao cho e forada. O toque amoroso de Jondalar, todavia, no e a mesma coisa. 
Abaixou o cinto, desnudando as ndegas firmes e uma abertura que acenava para ele como uma flor para as abelhas, com suas ptalas macias e profunda garganta rosada. 
O convite era quase excessivo, sentiu uma onda de presso que doa, desejando libertar-se. Aps um instante para se conter, ele se curvou mais para mant-la aquecida 
enquanto acariciava as ndegas macias, e explorava a cavidade convidativa e sulcos e dobras de umidade clida e prazer com seu toque gentil, experiente, os gritos 
de Ayla e uma nova fonte de calor lhe dizerem que no se contivesse mais.
     Ento, ele separou os dois montculos gmeos e guiou sua virilidade para ela e pronta para a entrada profunda e desejosa de sua feminilidade, com todo prazer 
agonizante que provocou um grito dilacerante de ambos. Ele recuou quase inteiramente, e penetrou de novo, puxando-a para si, e deleitou-se e... Seu amplexo profundo. 
Mais uma vez retirou-se e penetrou repetidamente at que, afinal, em uma grande exploso, a liberao gloriosa aconteceu.
     Aps alguns golpes que prolongaram o limite final, e ainda no fundo da calidez da mulher, ele passou os braos em volta dela e fez os dois rolarem de lado. 
Manteve-a perto, cobrindo-a com o seu corpo um momento, enquanto descansavam.
     Afinal, separaram-se e Jondalar se sentou. O vento era mais forte, Jondalar lanou um olhar para as nuvens macias com apreenso.
     - Devia me limpar um pouco - disse Ayla, levantando-se. - Esta calas novas so de Deegie.
     - Quando voltarmos, pode deix-las fora para congelar e depois...
     - Est ficando muito rpida com as palavras, mulher. Terei dificuldade de me igualar a voc, em minha prpria lngua! - Ele colocou os braos em volta da cintura 
de Ayla, e abaixou os olhos at ela, um olhar cheio de amor e orgulho. - Voc  boa com a linguagem, Ayla. Mal acredito como aprende depressa. Como faz isso?
     - Tenho que aprender. Este  meu mundo, agora. No tenho povo. Estou morta para o Cl, no posso voltar.
     - Poderia ter um povo, poderia ser Ayla dos Mamutoi. Se quiser. Quer?
     - Ainda assim, poder estar comigo. S porque algum adota voc no significa que no poder partir... Um dia. Podamos ficar aqui... Por algum tempo. E se 
algo me acontecesse... Sabe, poderia... talvez no fosse mau ter um povo. Pessoas que a querem.
     - Voc quer dizer que no se importaria?
     - Importar-me? No, claro que no, se  isso que voc quer.
     Ayla pensou notar alguma hesitao, mas ele parecia sincero.
     - Jondalar, sou apenas Ayla. No tenho povo. Se fosse adotada, teria algum. Seria Ayla dos Mamutoi. - Ela recuou, afastando-se dele. - Preciso pensar sobre 
isso.
     Ela deu meia-volta e caminhou para o fardo que carregara. Se vou partir com Jondalar breve, eu no deveria concordar, refletiu. No seria justo. Mas, ele disse 
que gostaria de ficar. Por algum tempo. Talvez, depois que viver com os Mamutoi mude de idia e queira fazer daqui o seu lar. Ela se perguntou se estava tentando 
encontrar uma desculpa.
     Enfiou a mo na parka em busca do seu amuleto e enviou um pensamento ao seu totem. Leo da Caverna, eu gostaria que houvesse uma maneira de saber o que  certo. 
Amo Jondalar, mas quero ter um povo, tambm. Talut e Nezzie querem adotar-me, querem me fazer a filha da Fogueira do Leo... do Leo. E do Acampamento do Leo! Oh, 
Grande Leo da Caverna, ser que voc tem guiado meus passos o tempo todo, e eu no prestei ateno?
     Ela girou sobre os calcanhares. Jondalar ainda estava de p onde ela o deixara, observando-a em silncio.
     - J resolvi! Vou fazer isso! Vou ser Ayla do Acampamento do Leo dos Mamutoi!
     Ela notou a ruga fugidia em seu rosto antes de ele sorrir.
     - timo, Ayla. Fico contente por voc.
     - Oh, Jondalar. Ser certo? Ser que tudo dar certo?
     - Ningum pode responder a isso. Quem poderia saber? - disse ele, aproximando-se, com um olhar erguido para o cu que escurecia. - Espero que sim... Para ns 
dois. - Agarraram-se um ao outro por um instante. - Acho que devemos voltar.
     Ayla estendeu a mo para a bolsa de couro cru a fim de arrumar as coisas nela, mas algo atraiu sua ateno. Ps um joelho em terra, e pegou uma substncia slida 
dourada. Esfregando-a, examinou-a com ateno.
     - Est gelada, Ayla!
     - Eu sei. Andarei depressa.
     Caminhando com cuidado sobre o gelo, agachou-se perto da gua e lavou-se com as mos. Ao retroceder um passo na margem, Jondalar por trs e enxugou-a com a 
pele de sua parka.
     - No quero que isso congele - disse ele com um largo sorriso, quanto lhe dava tapinhas com a pele e depois a acariciava.
     - Acho que saber mant-la bastante quente - disse ela com um sorriso, amarrando o cordo e endireitando sua parka.
     Aquele era o Jondalar que ela amava. O homem que era capaz de faz-la sentir-se ardente e trmula por dentro com um olhar apenas, ou com o toque de suas mos; 
o homem que conhecia seu corpo melhor do que ela e podia trazer  tona sentimentos que ela ignorava existir; o homem que a fizera esquecer o sofrimento da primeira 
penetrao forada de Broud e lhe ensinou o que eram os prazeres, e como deveriam ser. O Jondalar que ela amava era brincalho, e carinhoso, e amoroso. Era assim 
que ele havia sido no vale, e agora, quando estavam sozinhos. Por que ele era to diferente no Acampamento do Leo?
     Completamente encerrado dentro da pedra lisa, que comeara a se aquecer sob o toque, estava um inseto de asas.
     - Jondalar! Veja isto. J viu algo igual?
     Jondalar pegou a substncia slida, olhou-a com ateno,encarou Ayla com espanto.
     -  mbar. Minha me tem um igual, e lhe d grande valor. Ela talvez seja ainda mais valioso. - Viu que Ayla o fitava, parecendo surpreendida. No achou que 
havia dito alguma coisa to surpreendente assim O que , Ayla?
     - Um sinal. E um sinal do meu totem, Jondalar. O esprito do ui Leo da Caverna est me dizendo que tomei a deciso certa. Ele quer eu me torne Ayla dos Mamutoi!
     A fora dos ventos se intensificou quando Ayla e Jondalar cavalga de volta, e embora fosse apenas pouco mais de meio-dia, a luz do sol enfraquecida pelas nuvens 
de solo seco de loesse levantando-se do terreno congelado. Mal podiam ver o caminho atravs da poeira soprada pelo vento. Os relmpagos estalavam ao redor deles 
no ar seco e gelado, e o trovo bombava e retumbava. Racer empinou, amedrontado, quando um n tilou e um estalo de trovo soou prximo. Whinney bufava nervoso.
     Desmontaram para acalmar o potro, e continuaram a p, conduzindc dois animais.
     Quando chegaram ao acampamento, ventos tempestuosos arrastas um vendaval de poeira que escurecia o cu e crestava suas peles. Ao se a ximarem da habitao 
de terra, um vulto emergiu da obscuridade cr. pelo vento, segurando-se em algo que se agitava e retorcia como se tiv vida.
     - A esto vocs. Eu comeava a me preocupar - gritou Talut do uivo e do trovo.
     - O que est fazendo? Podemos ajudar? - perguntou Jc
     - Fizemos um alpendre para os cavalos de Ayla quando parec viria uma tempestade. Eu no sabia que seria uma tempestade seca. O v derrubou o alpendre. Acho que 
 melhor trazer os animais para deni Podem ficar na rea da entrada - disse Talut.
     - Isso acontece muitas vezes? - perguntou Jondalar, agarrando L extremidade do grande couro que deveria ter sido uma proteo contJ vento.
     - No. Alguns anos no temos qualquer tempestade seca. Ela sar assim que tivermos neve - disse Talut -, e ento, teremos apena vasca! - terminou com uma risada. 
Enfiou-se, abaixado, na comunal, depois manteve afastada a pesada cortina de couro de para que Ayla e Jondalar pudessem levar os cavalos para dentro.
     Os cavalos estavam nervosos por entrar no local estranho cheiC odores to pouco conhecidos, mas gostavam menos ainda da ruidosa tania, e confiavam em Ayla. 
O alvio foi imediato assim que saran vento, e acalmaram-se depressa. Ayla se sentiu grata a Talut por sua pi cupao com eles, embora um pouco surpresa. Ao atravessar 
a segun.
     o vento ainda assolava fora da habitao de terra, chocalhando as cober turas sobre os buracos de sada da fumaa e inchando as pesadas cortinas. gajadas repentinas 
enviavam poeira voando, e faziam com que o fogo na fogueira de cozinhar se avivasse. As pessoas estavam reunidas em grupos casuais ao redor do espao da primeira 
fogueira, terminando a refeio da 0 tomando ch de ervas, esperando que Talut comeasse.
     Por fim, ele se levaniou e deu largos passos em direo  Fogueira do Leo. Quando voltou, carregava um basto de marfim, mais alto do que ele, grosso na parte 
inferior, afinando ao alto. Era decorado com um ob jeto pequeno, com raios como uma roda, que fora preso ao basto a um tero mais ou menos do comprimento, de cima 
para baixo. Penas de gara brancas estavam presas  metade superior, formando um leque em semi crculo, enquanto entre os raios da metade inferior sacos enigmticos, 
marfim esculpido e pedaos de pele oscilavam de tiras de couro. Exami nando melhor, Ayla viu que o basto era feito de uma nica e comprida presa de mamute que, 
por algum mtodo desconhecido, havia sido endi reitada. Como, perguntou-se Ayla, algum conseguira tirar a curva de uma presa de mamute?
     Todos silenciaram e voltaram sua ateno para o chefe. Ele olhou para Tulie e ela balanou a cabea afirmativamente. Depois, ele bateu a extremidade do basto 
no solo quatro vezes.
     - Tenho um assunto srio a apresentar ao Acampamento do Leo - comeou Talut. - Uma coisa que diz respeito a todos, portanto, falo com o Basto Falante, para 
que todos ouam com ateno e ningum interrompa. Quem desejar falar sobre este assunto pode pedir o Basto Falante.
     Houve um murmrio de excitao enquanto as pessoas endireitavam O corpo e ficavam atentas.
     - Ayla e Jondalar vieram para o Acampamento do Leo no h muito tempo. Quando contei os dias que estiveram aqui, fiquei surpreso Por ter sido to pouco tempo. 
Eles j se sentem como velhos amigos, como Se pertencessem ao acampamento. Acho que a maioria de vocs sente o mesmo. Por causa de sentimentos to afetuosos de amizade 
por nosso pa rente, Jondalar, e sua amiga Ayla, eu esperava que eles prolongassem sua Visita e pretendia convid-los a passar o inverno aqui. Mas, no curto tempo 
4Ue estiveram aqui, mostraram mais do que amizade. Os dois trouxeram conhecimento e percia valiosos, e os ofereceram a ns sem reserva, como fossem um de ns.
     . Wymez recomenda Jondalar como um hbil trabalhador em slex. partilhado seu conhecimento livremente com Danug e Wymez. Mais 4 isso, trouxe consigo uma nova 
arma de caa, um arremessador de lanas aumenta tanto o alcance quanto a fora de uma lana.
     cada, Ayla notou como ela estava fria. Os gros de poeira que a picavam 3 distrado, mas a 
     temperatura abaixo de zero e o vento forte a ti am gelado at os ossos.
     Houve gestos afirmativos de cabea e comentrios de aprovao, e Ayla observou, de novo, que os Mamutoi raramente permaneciam sentados em silncio, mas expressavam-se 
com comentrios em participao ativa.
     - Ayla traz muitos dons incomuns - continuou Talut. - Ela  hbil e precisa com o arremessador de lanas e com sua prpria arma, a funda. Mamut diz que ela 
 uma buscadora, embora sem treinamento, e Nezzie acha que pode ser tambm uma chamadora. Talvez no, mas  verdade c  capaz de fazer com que cavalos lhe obedeam, 
e permitam que ela monte. Ela at nos ensinou a falar sem palavras, o que nos ajudou a preender Rydag de uma nova maneira. Mas, talvez, o mais importante: e.  uma 
curandeira. J salvou as vidas de duas crianas.., e tem um maravi Ihoso remdio para dores de cabea!
     O ltimo comentrio provocou uma onda de riso.
     - Os dois trazem tanto, que no quero que o Acampamento do Le ou os Mamutoi os percam. 
     Pedi-lhes para ficar conosco, no apenas rante o inverno, mas sempre. Em nome de Mut, Me de Todos... - Talu bateu uma vez no solo com o basto, firmemente 
- . . .peo que eles s juntem a ns, e que vocs os aceitem como Mamutoi.
     Talut fez um gesto afirmativo de cabea para Ayla e Jondalar. se levantaram e aproximaram-se com a formalidade de uma cerimnia parada. Tulie, que esperara 
a um lado, acercou-se para ficar de p ao lado do irmo.
     - Peo o Basto Falante - disse ela.
     Talut o passou para ela.
     - Como chefe feminina do Acampamento do Leo, declaro que con cordo com os comentrios de Talut. Jondalar e Ayla seriam adies valiosai ao Acampamento do Leo, 
e aos Mamutoi. - Encarou o homem alto louro. - Jondalar - falou, batendo o Basto Falante trs vezes -, Tr' e Barzec o convidaram a ser um filho da Fogueira dos 
Auroques. Falamo por voc. O que diz, Jondalar?
     Ele se acercou dela, segurou o basto que lhe foi oferecido e bateu- trs vezes.
     - Sou Jondalar da Nona Caverna dos Zelandonii, filho de Marth ex-lder da Nona Caverna, nascido na fogueira de Dalanar, lder dos 1 zadonii - comeou ele.
     Desde que era uma ocasio formal, resolveu usar seu discurso mais e. rimonioso e citar seus primeiros laos, o que provocou sorrisos e sinais aprevadores de 
cabea. Todos os nomes estrangeiros davam um aspecto extici e importante  cerimnia. - Estou grandemente honrado por seu convite, mas devo ser jus e dizer que 
tenho grandes obrigaes. Um dia preciso voltar para os landonii. Tenho que contar  minha me sobre a morte de meu irmo, preciso contar a Zelandoni, nosso Mamut. 
Assim, poder ser feita r Busca do seu esprito, para gui-lo para o mundo dos espritos. No qt partir. Quero ficar com vocs, meus amigos e parentes, por quanto 
tempi puder. - Jondalar devolveu o basto a Tulie.
     - Estamos tristes por no poder entrar para nossa fogueira, Jondalar, mas compreendemos suas obrigaes. Tem o nosso respeito. Do momento em que somos parentes, 
atravs de seu irmo que era companheiro de Tholie,  bem-vindo, para ficar o tempo que desejar - falou Tulie, depois passou o Basto Falante para Talut
     Ayla - disse Talut, batendo o basto trs vezes no sdo -, Nezzie e eu queremos adot-la como filha da Fogueira do Leo. Falamos por voc Como voc fala?
     Ayla pegou o basto e bateu-o no cho trs vezes.
     - Sou Ayla. No tenho povo. Estou honrada e feliz por ser convidada a me tornar uma de vocs. Eu sentiria orgulho em ser Ayla dos Mamutoi - disse ela, em uma 
fala cuidadosamente ensaiada.
     Talut pegou novamente o basto e bateu-o quatro vezes.
     - Se no h objees, encerrarei esta reunio especial...
     - Peo o Basto Falante - disse uma voz da audincia
     Todos pareceram surpresos ao ver Frebec se acercar
     Ele pegou o basto do chefe, bateu-o trs vezes
     - No concordo. No q.uero Ayla - disse
     As pessoas do Acampamento do Leo silenciaram, aturdidas. Depois, houve um tumulto de surpresa e choque. O chefe havia apadrinhado Ayla, com a chefe plenamente 
de acordo. Embora todos conhecessem os sentimentos de Frebec por Ayla, ningum mais parecia compartilh-los. E ainda mais, Frebec e a Fogueira da Gara mal pareciam 
em posio de objetar Tinham sido aceitos pelo Acampamento do Leo recentemente, depois de vrios Outros acampamentos os terem recusado, somente porque Nezzie e 
Talut argumentaram em seu favor. A Fogueira da Gara tivera um elevado Status, antes, e existiram pessoas em outros acampamentos que quiseram apadrinh-los, mas 
sempre houvera dissidentes, e no podia haver dissidente algum. Todos tinham que concordar. Afinal, parecia ingratido de Frebec opor-se ao chefe depois do apoio 
que este lhe dera, e ningum esperara isso, menos ainda Talut.
     O alvoroo morreu rapidamente quando Talut tirou o Basto Falante de Frebec, ergueu-o e sacudiu-o, invocando o seu poder.
     - Frebec tem o basto. Que ele fale - disse Talut, devolvendo o basto de marfim.
     Frebec bateu no solo trs vezes e continuou:
     - No quero Ayla porque acho que ela no ofereceu o suficiente para Se tornar uma Marnutoi. - Houve uma objeo dissimulada a esta declarao, especialmente 
depois das frases e'ogiosas de Talut, mas no o suficiente para interromper o orador - Convidamos qualquer estranho pra para uma visita a se tornar um Mamutoi?
     Mesmo com a limitao do Basto Falante, era difcil para o acampamento evitar falar
     - O que quer dizer com ela no tem nada a oferecer? E sua habilidade para a caa? - gritou Deegie, com justa raiva. Sua me, a chefe no aceitara Ayla  primeira 
vista. Somente aps cuidadoso exame concordara com Talut. Como o tal Frebec podia se opor?
     - E da, se ela caa? Todos que caam se tornam um de ns? - desafiou Frebec. - Essa no  uma boa razo. Ela no caar por muito r' tempo, de qualquer maneira. 
No, depois que tiver filhos.
     - Ter filhos  mais importante! Isso lhe dar mais status - esbravejou Deegie.
     - Acha que no sei disso? Nem sequer sabemos se ela pode ter f e, se no tiver filhos, no ter grande valor, afinal de contas. Mas no falvamos de filhos, 
falvamos sobre caar. S porque ela caa, no  L bom motivo para torn-la Mamutoi - argumentou Frebec.
     - E o arremessador de lanas? No pode negar que  uma arma valor, e ela  boa nisso e j mostrou aos outros como us-lo - disse Tornec.
     - Ela no trouxe a arma. Foi Jondalar, e ele no se juntar a
     Danug falou:
     - Talvez ela seja uma buscadora, ou uma chamadora. Pode fazer cavalos obedecerem-lhe, e chega at a mont-los.
     - Cavalos so alimentos. A Me quis que ns cassemos os cavalos e no vivssemos com eles. Nem sequer estou certo se  correto mon E ningum tem certeza sobre 
o que ela . Talvez seja uma buscadora, ta uma chamadora. Talvez seja a Me na terra, mas talvez no. Desde qua' talvez  uma razo para tornar algum um de ns? 
- Ningum 1 capaz de objetar a isso. Frebec comeava a se divertir e a gostar da ateno que recebia.
     Mamut olhava para Frebec com alguma surpresa. Embora o feiticeiro discordasse totalmente dele, tinha que reconhecer que os argumentos Frebec eram inteligentes. 
Era pena que fossem mal dirigidos.
     - Ayla ensinou Rydag a falar, quando ningum imaginava que e fosse capaz - gritou Nezzie, entrando na discusso.
     - Falar! - escarneceu ele. - Pode chamar um bando de sinais manuais de falar, se quiser, mas eu no. No imagino nada mais estpido que fazer gestos inteis 
para um cabea-chata. No  razo para a t-la. No mximo,  motivo para no aceit-la.
     - E apesar do bvio, suponho que ainda no acredita que ela  uma curandeira - comentou Ranec. 
     - Compreende, espero, que se expuis Ayla, talvez lamente quando no houver ningum para ajudar Fralie a  luz?
     Ranec sempre havia sido uma anomalia para Frebec. Apesar de ter elevado status e fama como escultor, Frebec no sabia o que fazer homem de pele escura, e se 
sentia pouco  vontade perto dele. Frebec sempre tivera a sensao de que Ranec era desdenhoso ou caoava dele quando usava aquele tom de ironia sutil. No gostava 
daquilo, e alm disso, havia alguma coisa provavelmente anormal naquela pele negra.
     - Est certo, Ranec - disse Frebec em voz baixa. - No creio que ela seja uma curandeira. Como algum que cresceu com aqueles animais poderia aprender a ser 
curandeira? E Fralie j teve bebs. Por que seria diferente desta vez? A menos que ter essa mulher-animal aqui lhe traga m sorte. Esse menino cabea-chata j diminui 
o status do acampamento. No vem isso. Ela apenas o diminuir mais. Por que algum quereria uma mulher criada por animais? E o que as pessoas pensariam se algum 
viesse aqui e encontrasse cavalos dentro de uma habitao? No, no quero uma mulher-animal que viveu com os cabeas-chatas, sendo membro do Acampamento do Leo.
     Houve um grande alvoroo sobre estes comentrios a respeito do Acampamento do Leo, mas Tulie ergueu a voz acima do tumulto.
     - Qual sua base para dizer que o status deste acampamento de cresceu? Rydag no tira meu status de mim, ainda sou uma voz de liderana no Conselho de Irms. 
Talut tampouco perdeu sua posio.
     - As pessoas esto sempre dizendo esse acampamento com o menino cabea-chata. Eu me envergonho de dizer que sou membro - gritou Frebec.
     Tulie mostrou sua altura ao lado do homem de constituio bastante franzina.
     - Pode ir embora quando quiser - falou, a voz muito fria.
     - Agora, veja o que fez - gritou Crozie. - Fralie est esperando um filho, e ir obrig-la a partir, neste frio, sem ter lugar algum para onde ir. Por que concordei 
com sua unio? Por que acreditei que algum que pagou um Preo de Noiva to baixo, seria suficientemente bom para ela? Minha pobre filha, pobre Fralie...
     Os lamentos da velha foram abafados pelo nvel geral do rudo das vozes colricas e discusses de que Frebec era o alvo. Ayla deu meia-volta e caminhou para 
a Fogueira do Mamute. Notou que Rydag observava a reunio com grandes olhos tristonhos, da Fogueira do Leo, e dirigiu-se a ele, ento. Sentou-se ao seu lado, escutou-lhe 
o corao e olhou para ele com ateno, a fim de se certificar de que ele estava bem. Depois, sem tentar conversar, porque no sabia o que dizer, pegou-o ao colo. 
Manteve-o ali, balanando-o para diante e para trs, cantarolando uma salmodia montona, baixinho. Ela havia ninado seu filho assim, outrora, e depois, sozinha em 
sua caverna do vale, muitas vezes havia-se balanado para dormir da mesma maneira.
     - Ningum respeita o Basto Falante? - esbravejou Talut, dominando o resto do furor. Seus olhos brilhavam. Ele estava zangado. Ayla nunca o havia visto to 
zangado, mas ela admirou seu autocontrole quando voltou a falar: - Crozie, no expulsaramos Fralie para o frio e voc insulta a mim e ao Acampamento do Leo sugerindo 
que o faramos.
     A velha olhou para o chefe de boca escancarada. Ela no pensava, realmente, que eles expulsariam Fralie. Estivera apenas reprovando Frebec no imaginara que 
aquilo seria tomado como insulto. Ela teve a decncia de corar de vergonha, o que surpreendeu algumas pessoas, mas ela compreendia os melhores pontos de comportamento 
aceito. O status de Fralie afinal, viera dela em primeiro lugar. Crozie era muito estimada por si - pria, ou havia sido, at perder tanto, e tornar todos ao seu 
redor, e e mesma, to infelizes. Ela ainda podia reivindicar a distino, se no a queza.
     - Frebec, talvez sinta embarao por ser um membro do Acampamento do Leo disse Talut -, mas se este acampamento perdeu qualquer status,  porque foi o nico 
acampamento que o aceitou. 
     Como Tu' disse, ningum o est forando a ficar. E livre para partir quando quis mas no o expulsaremos, no com uma mulher doente que ter um f neste inverno. 
Talvez no tenha estado perto de mulheres grvidas muita vezes, antes, mas quer compreenda ou no, a doena de Fralie  mais c gravidez. At eu sei disso.
     Mas essa no  a razo por que convoquei esta reunio. No impo sua opinio, ou a nossa, ainda  um membro do Acampamento do Lc Eu declarei meu desejo de adotar 
Ayla na minha fogueira, de torn-la 1. mutoi. Mas, todos devem concordar, e voc se ops.
     Agora, Frebec estava constrangido. Uma coisa era se sentir importan1 objetando e contrariando todo mundo, mas Talut acabava de lhe lembr como se sentira humilhado 
e desesperado, quando tentava encontrar r acampamento para estabelecer nova fogueira, com sua valiosa nova r lher, que era mais desejvel e lhe trouxera mais status 
do que jamais tive na vida.
     Mamut observava-o de perto. Frebec nunca fora particularmei ilustre. Tinha pouco status, desde que sua me possua pouco para lhe nenhuma realizao para seu 
crdito, e poucas qualidades ou dons  de qualquer mrito verdadeiro. No era odiado, mas tampouco era r amado. Parecia ser um homem bastante medocre, de capacidade 
mc.
     Mas mostrava habilidade na argumentao. Embora falsos, seus a sentimentos tinham lgica. Talvez ele tivesse mais inteligncia do que se pensara e, aparentemente, 
tinha aspiraes elevadas. Unir-se a Fralie fora uma grande proeza para um homem como ele. Ele deveria ser observado com mais ateno.
     Mesmo fazer uma proposta a uma mulher como ela revelava certa e ousadia. O Preo de Noiva era a base do valor econmico entre os Mamut as noivas eram o padro 
da moeda. A posio de um homem em sua sociedade originava-se da mulher que lhe dera  luz e da mulher ou mulher que fosse capaz de atrair - por status, habilidade 
na caa, ou - dom ou charme - para viver com ele.
     Encontrar uma mulher de s vado, desejosa de tornar-se sua mulher, era como descobrir grandes riquezas, e Frebec no ia deix-la escapar.
     Mas, por que ela o havia aceitado? pensou Mamut. Certamente, havia outros homens que tinham feito propostas; Frebec havia somado s dificuldades dela. Ele tinha 
to pouco a oferecer, e Crozie era to desagradvel que o acampamento de Fralie os havia expulsado, e o acampamento de Frebec os tinha recusado. Depois, os outros 
acampamentos, um aps o outro, os havia recusado, mesmo com uma mulher grvida, de alto status. E todas s vezes, por seus sentimentos de pnico, Crozie piorava 
as coisas, repreendendo-o e censurando-o, e tornando-os ainda menos desejveis.
     Frebec fora grato ao Acampamento do Leo quando este dissera sim, mas fora um dos ltimos que ele havia tentado. No porque no tivessem posio elevada, mas 
porque eram considerados como tendo uma variedade incomum de membros. Talut tinha a capacidade de ver o incomum como especial, mais do que como estranho. Ele havia 
conhecido o status durante a vida inteira, procurava algo mais, e encontrou-o no incomum. Veio a sentir prazer naquela qualidade e encorajou-a no seu acampamento. 
O prprio Talut era o maior homem que algum j vira, no somente entre os Mamutoi, mas tambm entre os povos vizinhos. Tulie era a maior e mais forte mulher. Mamut 
era o homem mais velho. Wymez era o melhor britador de slex, Ranec no apenas o homem mais escuro, mas o melhor escultor. E Rydag era a nica criana cabea-chata. 
Talut queria Ayla, que era muito estranha com os seus cavalos, e sua habilidade e dons, e no se importaria com Jondalar, que viera do local mais distante.
     Frebec no queria ser incomum, especialmente desde que se via unicamente como o mais insignificante de todos. Procurava ainda posio entre os comuns, e comeara 
tornando o mais comum uma virtude. Era Mamutoi, portanto, melhor do que todos que no o eram, melhor do que algum diferente. Ranec, com sua pele escura - e seu- 
esprito mordaz, satrico - no era, realmente, Mamutoi. Nem sequer nascera entre eles, mas Frebec sim, e era certamente melhor do que aqueles animais, aqueles cabeas-chatas. 
O menino que Nezzie amava tanto no tinha status algum desde que sua me era uma cabea-chata.
     E Ayla, que veio com os seus cavalos e seu desconhecido alto, j havia atrado o desdenhoso Ranec, que todas as mulheres queriam apesar da sua diferena, ou 
por causa dela. Ela nem sequer olhara para Frebec, como se soubesse que ele no era nada que valesse a sua ateno. No importava que ela fosse hbil, ou talentosa, 
ou bonita; ele era, seguramente, melhor do que ela; ela no era uma Mamutoi, e ele era um deles. E alm disso, ela vivera com os cabeas-chatas. Agora, Talut queria 
torn-la uma Mamutoi.
     Frebec sabia que ele era a causa da cena desagradvel que irrompera. Havia provado que era importante o bastante para mant-la fora, mas havia encolerizado, 
mais do que nunca, o grande chefe, e era um pouco assustador ver o grande urso to zangado. Talut podia peg-lo do cho e parti-lo ao meio. No mnimo, Talut podia 
faz-lo ir embora. Ento, por quanto tempo ele manteria sua mulher de status elevado?
     No entanto, apesar de toda a sua clera controlada, Talut tratava Frebec com mais respeito do que estava acostumado a receber. Seus comentrios no tinham sido 
ignorados ou deixados de lado.
     - Se suas objees so razoveis, no importa - continuou Tr' friamente. - Acredito que ela tem tantos dons incomuns que podia trazer benefcios para ns. 
Voc duvidou disso, e disse que ela no tem nada c valor a oferecer. No sei o que poderia ter oferecido, possivelmente, uma pessoa no pudesse discutir, se desejasse...
     - Talut - disse Jondalar -, desculpe minha interrupo enquanto est segurando o Basto 
     Falante, mas acho que sei de uma coisa que i pode ser discutida.
     - Sabe?
     - Sim, acho que sim. Posso falar a ss com voc?
     - Tulie, quer segurar o basto? - disse Talut, caminhando depois para a Fogueira do Leo com Jondalar. Um murmrio de curiosidade c seguiu.
     Jondalar se acercou de Ayla e lhe falou. Ela sacudiu a cabea, concordando, e colocando Rydag no cho, levantou-se e correu para a Fogueira do Mamute.
     - Talut, quer apagar todos os fogos? - disse Jondalar.
     - Todos? - Talut franziu atesta. - Est frio l fora, e ventoso. poderia ficar frio aqui dentro, rapidamente.
     - Eu sei, mas acredite-me. Valer a pena. Para Ayla demonstrar i da melhor maneira,  necessrio 
     estar escuro. No ficar frio por mui tempo.
     Ayla voltou com algumas pedras nas mos. Talut desviou o olhar d jovem para Jondalar, e de novo para ela. Depois, sacudiu a cabea, dando. Sempre se podia fazer 
um fogo de no mesmo que e esforo. Voltaram para a fogueira de cozinhar, e 1 falou com ililie, c particular. Havia alguma discusso, e Mamut foi chamado; depois 
Tlilie conversou com Barzec. Barzec fez sinal a Druwez e Danug, e todos os trs v... tiram parkas, pegaram cestas grandes, entrelaadas apertadamente, e saran
     O murmrio da conversa estava repleto de excitao. Alguma coisa especial acontecia e o acampamento se encontrava cheio de expectativa quase da forma como ficava 
antes de uma cerimnia especial. No esperavam consultas secretas e uma demonstrao misteriosa.
     Barzec e os meninos voltaram rapidamente com cestas cheias de barro Depois, comeando na extremidade da Fogueira dos Auroques, m os carves empilhados ou pequenos 
fogos de sustentao em cada um buracos de fogo e derramaram o barro solto sobre eles para abafar chamas.
     As pessoas do acampamento ficaram nervosas quando compreenderam o que ocorria.
     A medida que a habitao comunal escurecia com cada fogueira  era apagada, todos pararam de falar e a habitao ficou em silncio. O vento alm das paredes 
uivava mais alto, e as rajadas eram mais frias e traziam consigo um frio mais forte e ameaador. O fogo era apreciado e compreerdido, mesmo se tido como certo, s 
vezes, mas sabiam que sua vida dependia dele quando viram as fogueiras se apagando.
     Afinal, somente o fogo da grande fogueira de cozinhar permaneceu:
     Ayla tinha seus materiais de fazer fogo prontos ao lado da lareira e, ento, com um gesto afirmativo de cabea de Talut, Barzec, sentindo o momento dramtico, 
derramou a terra sobre o fogo enquanto as pessoas arquejavam.
     Num instante, a moradia estava imersa na escurido. No era apenas ausncia de luz, mas plenitude de escurido. Um negrume sufocante, inflexvel, profundo ocupava 
todo espao vazio. No havia estrelas, orbe cintilante, ou nuvem nacarada, luminosa. No se podia ver a mo levada  frente dos olhos. No havia dimenso, ou sombra, 
ou vulto de preto sobre preto. O sentido da viso perdeu todo o seu valor.
     Uma criana gritou e foi acalmada pela me. Depois, ouviram-se respirao, rudo de passos arrastados, e uma tosse. Algum falou em voz baixa e a resposta foi 
dada por outro, de voz mais grave. O odor de osso queimado era forte, mas estava misturado a inmeros outros cheiros, fragrncias e aromas: couro curtido, alimento 
que se encontrava cozido, e alimento estocado, esteiras de capim, ervas secas e o odor de gente, de ps e corpos e hlitos quentes.
     O acampamento esperava no escuro, pensando. No exatamente assustado, mas um pouco apreensivo. Parecia ter-se passado um longo tempo, e eles comearam a ficar 
inquietos. O que demorava tanto?
     A escolha do momento fora deixada por conta de Mamut. A segunda natureza do velho feiticeiro era criar efeitos dramticos, e quase um instinto conhecer exatamente 
o momento certo. Ayla sentiu um tapinha em seu ombro. Era o sinal por que esperava. Tinha um pedao de pirita em uma das mos, slex na outra e havia no cho,  
sua frente, uma pequena pilha de lanugem de estramnio. Na escurido total da habitao, ela fechou os olhos e respirou fundo, depois golpeou a pirita com o slex.
     Uma grande centelha brilhou e, na escurido total, a pequenina claridade iluminou exatamente a jovem ajoelhada ao cho por um momento, provocando um arquejo 
surpreso e sons de espanto do acampamento. Depois, apagou-se. Ayla golpeou de novo, desta vez mais perto da isca que preparara. A centelha caiu sobre o material 
rapidamente inflamvel. Ayla inclinou-se mais para soprar, e em um instante, converteu-se em chamas, e ela ouviu os ahs e ohs e exclamaes de pasmo.
     Ela alimentou pequenas aparas de galhos de uma pilha prxima, e quando se incendiaram, gravetos e galhos maiores. Depois, sentou-se e observou enquanto Nezzie 
retirava a terra e cinzas da fogueira de cozinhar e transferia a chama para ela. Regulando o registro do cano que trazia o vento do exterior, ela comeou a queimar 
o osso. A ateno das pessoas do acampamento tinha-se concentrado no processo, mas depois de o fogo ser avivado, compreenderam quo pouco tempo fora necessrio para 
isso. Era magia! O que ela havia feito para criar um fogo to depressa?
     Talut bateu o Basto Falante trs vezes com a extremidade grossa.
     - Agora, algum tem mais objees contra Ayla se tornar uma Mamutoi e um membro do 
     Acampamento do Leo? - perguntou.
     - Ela nos mostrar como fazer essa mgica? - indagou Frebec.
     - Ela no apenas mostrar como prometeu dar uma de suas pedras-de-fogo para cada fogueira deste acampamento - replicou Talut.
     - No tenho mais objees - disse Frebec.
     Ayla e Jondalar vasculharam seus sacos de viagem para reunir todas as piritas que tinham com eles e escolheram seis das melhores. Ela havia tornado a acender 
os fogos de cada fogueira na noite anterior, mostrando-lhes o processo, mas estava cansada e era tarde demais para procurar pedras-de-fogo em seus bornais antes 
de ir dormir.
     As seis pedras, amarelo-acizentadas com brilho metlico, faziam uma pequena pilha, insignificante, sobre o estrado da cama, no entanto uma delas fora a causa 
da diferena entre a aceitao e rejeio de Ayla. Ao ver as pedras, ningum imaginaria que magia jazia oculta na alma daquelas rochas.
     Ayla as pegou e, segurando-as nas mos, ergueu os olhos a Jondalar.
     - Se todos me queriam, por que deixariam que uma s pessoa me mantivesse de fora? - perguntou.
     - No estou certo - disse ele -, mas todos em um grupo como este tm que conviver com os demais. Se uma pessoa realmente no gosta de outra, isto pode causar
muito problema, especialmente quando o tempo mantm as pessoas dentro de casa durante muitos dias. As pessoas acabam tomando partido, discusses podem levar a brigas,
e algum pode ficar ferido, ou pior. Isso leva  clera e ento, algum quer se vingar. s vezes, a nica maneira de evitar mais tragdia  separar o grupo... Ou
pagar um preo alto e enviar o encrenqueiro embora...
     Sua testa se franziu com o sofrimento, enquanto ele fechava os olhos por um instante e Ayla se perguntou qual seria o motivo de sua tristeza.
     - Mas Frebec e Crozie discutem o tempo todo, e as pessoas no gostam disso - falou ela.
     - O resto do acampamento sabia sobre isso antes de os aceitar, ou ao menos fazia alguma idia. Todos tiveram a chance de dizer no, por isto ningum pode culpar 
ningum. Uma vez tendo concordado com alguma coisa, voc tende a sentir que deve resolver o caso, e sabe que  apenas durante o inverno. E mais fcil fazer mudanas 
no vero.
     Ayla sacudiu a cabea, concordando. No estava inteiramente certa de que ele queria que ela se tornasse Mamutoi, mas mostrar a pedra-de-fogo fora idia dele, 
e funcionara. Os dois caminharam para a Fogueira do Leo a fim de entregar as pedras. Talut e Tulie conversavam. Nezzie e Mamut falavam alguma coisa ocasionalmente, 
porm ouviam mais que outra coisa.
     - Aqui esto as pedras-de-fogo que prometi - disse Ayla quando perceberam sua aproximao.
     - Podem dar as pedras hoje.
     - Oh, no! - exclamou Tulie. - Hoje no. Vou guard-las para a cerimnia. Falvamos justamente sobre isso. Elas sero parte das ddivas. Temos que lhes dar 
um valor para podermos planejar o que mais ser necessrio dar. Elas devem ter um valor muito alto, no s por si mesmas, mas para negociar, e pelo status que daro
a voc.
     - Que ddivas? - perguntou Ayla.
     - Quando algum  adotado - explicou Mamut -,  costume trocar presentes. A pessoa que  adotada recebe presentes de todos e, em nome da fogueira que a est 
adotando, so distribudas ddivas para o resto das fogueiras do acampamento. Podem ser pequenas, apenas uma troca de prenda, ou muito valiosas. Depende das circunstncias.
     - Acho que as pedras-de-fogo tm valor suficiente para ser um presente para cada fogueira - disse Talut.
     - Talut, eu concordaria com voc se Ayla fosse Mamutoi e seu valor estivesse estabelecido - disse Tulie -, mas neste caso, estamos tentando fixar seu Preo 
de Noiva. O acampamento se beneficiar se pudermos justificar um valor elevado para ela. Desde que Jondalar recusou ser adotado, ao menos por enquanto... - O sorriso 
de Tulie, mostrando que no tinha qualquer animosidade por ele, era quase um galanteio, mas de forma alguma recatado. Expressava, simplesmente, a convico de que 
ela era atraente e desejvel. - Ficarei feliz em contribuir com alguns presentes para a distribuio.
     - Que tipo de presentes? - perguntou Ayla.
     - Oh, apenas presentes... Podem ser muitas coisas - disse Tulie. - As peles so bonitas, e roupas... Tnicas, calas, botas ou o couro para faz-las. Deegie 
faz couro lindamente tingido. mbar e conchas, e contas de marfim para colares e ornamentos de roupas. Presas longas de lobos e outros carnvoros so bastante valiosas. 
Da mesma forma, esculturas de marfim. Slex, sal...  bom dar alimento, principalmente quando pode ser estocado. Qualquer coisa bem-feita, cestas, esteiras, cintos, 
facas. Acho importante dar tanto quanto possvel. Assim, quando todos mostrarem os presentes na Reunio, parecer que voc tem uma abundncia, para exibir seu status. 
No importa, realmente, se a maior parte for doada por Talut e Nezzie para voc.
     - Voc e Talut e Nezzie no tm que dar por mim. Eu tenho coisas para dar - disse Ayla.
     - Sim, claro, tem as pedras-de-fogo. E so muito valiosas, mas no causam muita impresso. Mais tarde, as pessoas compreendero seu valor, porm, as primeiras 
impresses fazem diferena.
     - Tulie tem razo - falou Nezzie. - A maioria das jovens passa anos acumulando e fazendo presentes para dar em seus matrimnios, ou se so adotadas.
     - Muitas pessoas so adotadas pelos Mamutoi? - indagou Jondalar.
     - No forasteiros. - respondeu Nezzie -. Mas os Mamutoi adotam, muitas vezes, outros Mamutoi. Todo acampamento precisa de uma irm ou irmo para ser a chefe 
ou o chefe, mas nem todo homem tem sorte suficiente de ter uma irm como Tulie. Se alguma coisa acontece a um ou outro, Ou se um jovem ou uma jovem desejam comear 
um novo acampamento, uma irm ou irmo podem ser adotados. Mas, no se preocupe. Tenho muitas coisas que voc pode dar, Ayla, e mesmo Latie ofereceu algumas de suas 
coisas para Ayla dar.
     - Mas tenho coisa para dar, Nezzie. Tenho coisas na caverna do vale - falou Ayla. - Passei anos fazendo essas coisas.
     - No  necessrio voltar... - disse Tulie, pensando consigo mesma que, o que quer que Ayla tivesse seria muito primitivo, com seu background de cabea-chata. 
Como ela poderia dizer  jovem que seus presentes no seriam, provavelmente, adequados? Poderia ser inconveniente.
     - Quero voltar - insistiu Ayla. - Preciso de outras coisas. Minhas plantas que curam. Alimento estocado. E alimento para os cavalos. - Voltou-se para Jondalar. 
- Quero voltar.
     - Acho que podemos. Se nos apressarmos e no pararmos pelo caminho, creio que poderamos... se o tempo melhorar.
     - Em geral, depois da primeira onda de frio como esta, temos tempo bom - falou Talut. - E imprevisvel, contudo. Pode mudar a qualquer momento.
     - Bem, se tivermos tempo bom, talvez corramos o risco de voltar ao vale - disse Jondalar e foi recompensado por um dos belos sorrisos de Ayla.
     Havia outras coisas que ele queria, tambm. Aquelas pedras-de-fogo tinham causado boa impresso, e a praia rochosa na curva do rio no vale de Ayla estivera 
cheia delas. Um dia, esperava ele, voltaria e partilharia com seu povo tudo o que havia aprendido e descoberto: as pedras-de-fogo, o arremessador de lanas e, para 
Dalanar. O truque de Wymez de aquecer slex. Um dia...
     - Voltem depressa - gritou Nezzie, acenando com a palma virada para si, e dando adeus.
     Ayla e Jondalar retriburam o aceno. Estavam montados, os dois, em Whinney, com Racer amarrado a uma corda, atrs, e olharam para o povo do Acampamento do Leo 
que se reunira para v-los partir. Ayla, excitada como estava por voltar ao vale que fora seu lar durante trs anos, sentiu uma ponta de tristeza ao deixar aquela 
gente que j parecia uma famlia.
     Rydag, de p a um lado de Nezzie, e Rugie do outro, agarravam-se  mulher enquanto acenavam.
     Ayla no pde deixar de notar quo pouca semelhana existia entre eles. Uma era uma pequena imagem de Nezzie, o outro parcialmente Cl. No entanto, tinham sido 
criados como irmo e irm.
     Com um repentino insight, Ayla lembrou-se de que Oga havia amamentado Durc, juntamente com seu prprio filho, Grev, os dois, irmos de leite. Grev era totalmente 
Cl e Durc apenas parcialmente; a diferena entre eles fora igualmente grande.
     Ayla fez presso com as pernas sobre Whinney e mudou de posio, como sua segunda natureza, mal pensando que guiava a gua. Viraram-se e comearam a subir a 
encosta.
     A viagem de volta no foi de lazer, como havia sido quando deixaram o vale. Viajavam firmemente, sem fazer excurses secundrias exploratrias, ou desvios para 
caar, nem paradas prematuras para relaxar ou usufruir prazeres. Esperando regressar, tinham observado pontos de referncia quando vinham do vale, alguns afloramentos, 
terras altas e formaes rochosas, vales e riachos, porm, a mudana de estao havia alterado a paisagem.
     Em parte, a vegetao mudara o seu aspecto. Os vales protegidos onde pararam tinham assumido uma variao de estao que provocava uma sensao inquietante 
de desconhecido. O salgueiro e o vidoeiro rtico tinham perdido as folhas e seus galhos raquticos, tremendo ao vento, pareciam murchos e sem vida. Conferas - espruce 
branco, lano, pinheiro - vigorosas e arrogantes em sua fora verde-cristalizada, eram proeminentes, em vez disso, e mesmo as plantas ans isoladas nas estepes, 
contorcidas pelo vento, ganhavam substncia, comparativamente. Porm, mais confusas eram as mudanas nos contornos da superfcie daquela terra frgida peri glacial, 
realizadas pela permafrost.
     Permafrost - camada do solo permanentemente gelada qualquer parte da crosta terrestre, da superfcie ao leito rochoso profundo, que permanece congelada o ano 
inteiro, foi causada naquela terra distante das regies polares, h tanto tempo atrs, por camadas de gelo que abarcaram o continente - com 1,5 quilmetro ou 2, 
ou mais de altura. Uma interao complexa de clima, superfcie e condies subterrneas criou e manteve o solo congelado. O sol influenciou, e a gua parada, vegetao, 
densidade de solo, vento e neve.
     As temperaturas anuais mdias somente alguns graus mais baixas do que aquelas que, mais tarde, conservariam as condies temperadas, eram suficientes para provocar 
a invaso da terra por geleiras macias e a formao da permafrost mais ao sul. Os invernos eram longos e frios, e tempestades ocasionais traziam neve forte e nevascas 
intensas, mas a queda de neve durante a estao era relativamente pouca, e muitos dias eram claros. Os veres eram curtos, com poucos dias quentes, to quentes que 
desvirtuavam a proximidade de qualquer massa glacial, mas em geral eram nublados e frios, com pouca chuva.
     Embora uma poro do solo estivesse sempre congelada, a permafrost no era permanente, nem condio imutvel; era to inconstante e caprichosa quanto as estaes. 
Nos rigores do inverno, quando havia um congelamento slido por toda parte, a terra parecia passiva, dura e estril, mas no era o que aparentava. Quando a estao 
mudava, a superfcie amaciava somente algumas polegadas onde a cobertura espessa do terreno, ou solos densos, ou sombra demasiada resistiam ao calor suave do vero. 
Mas a camada ativa se degelava vrios metros sobre encostas ensolaradas de cascalho bem seco, com pouca vegetao.
     No entanto, a camada fofa era uma iluso. Sob a superfcie, a garra de ferro do inverno ainda imperava. O gelo impenetrvel dominava e, com o degelo e as foras 
da gravidade, os solos saturados e seu fardo de rochas e rvores deslocavam-se, deslizavam e corriam atravs da camada de solo lubrificada pela gua ainda congelada, 
abaixo. Aconteciam quedas e desmoronamentos quando a superfcie se aquecia e, onde o degelo de vero no encontrava sada, apareciam brejos, pntanos e lagos.
     Quando o ciclo mudava uma vez mais, a camada ativa acima do solo congelado endurecia de novo, mas sua aparncia fria e gelada disfarava um corao inquieto. 
As presses e cargas extremas provocavam deslocamento, compresso e deformao. O terreno congelado se partia e rachava e, depois, se enchia de gelo que, para aliviar 
a presso, era expulso como gelo cuneiforme. As presses enchiam os buracos de lama e faziam com que o lodo fino crescesse em bolhas de aluvio e borbulhas congeladas. 
Quando a gua gelada se expandia, montes e colinas de gelo lodoso - pingos - projetavam-se de terras baixas, pantanosas, alcanando alturas de 60 metros e dimetros 
de mais de 100 metros.
     Quando Ayla e Jondalar voltaram sobre seus passos, descobriram que o relevo da paisagem havia mudado, tornando os pontos de referncia enganadores. Alguns riachos 
que pensavam recordar tinham desaparecido. Tinham congelado mais perto de sua nascente e secado corrente abaixo. 
     Colinas de gelo apareceram onde no havia nenhuma antes, originrias de brejos de vero e terras baixas pantanosas onde subsolos densos, de textura fina, provocavam 
uma drenagem pobre. Filas de rvores cresciam em talik - ilhas de camadas no-congeladas cercadas por permafrost - dando, s vezes, uma impresso falsa de um pequeno 
vale, onde no conseguiram se lembrar de ter visto um.
     Jondalar no estava familiarizado com o terreno geral e mais de uma vez recorreu  melhor memria de Ayla. Quando estava insegura Ayla se guia  orientao 
de Whinney. A gua a havia trazido para casa mais de uma vez antes, e parecia saber aonde ia. s vezes, cavalgando os dois a gua, outras revezando-se ou caminhando 
para que o animal descansasse, avanaram at serem obrigados a parar para passar a noite. Ento, acamparam simplesmente com uma pequena fogueira, sua tenda de couro 
e peles de dormir. Cozinharam cereal partido, seco, fazendo uma papa, e Ayla fermentou uma bebida quente de ervas.
     De manh, tomaram ch quente para aquecer enquanto se preparavam para continuar, e durante o caminho comeram carne moda seca e amoras secas misturadas com 
gordura e com a forma de bolinhos. Exceto por uma lebre que Ayla caou, acidentalmente, com sua funda, no caaram. Mas suplementaram os alimentos que Nezzie lhes 
dera para a viagem, com as sementes ricamente oleosas e nutritivas das pinhas do pinheiro-manso, juntadas em locais onde pararam e atiradas ao fogo para se abrir 
com um estalo.
      medida que o terreno  sua volta mudava, tornando-se rochoso e mais acidentado, com ravinas e desfiladeiros ngremes, Ayla sentia uma excitao crescente. 
O territrio tinha algo familiar, como a paisagem ao sul e oeste do seu vale. Quando viu um escarpado com um padro especial de colorao nas camadas, seu corao 
saltou.
     - Jondalar! Veja! Veja aquilo! - gritou, apontando. - Estamos quase l!
     At Whinney parecia excitada, e acelerou o passo, sem precisar ser instigada. Ayla observou,  procura de outro ponto de referncia, um afloramento de pedra 
com uma forma distinta, que lhe lembrava uma leoa agachada. Quando o encontrou, viraram para o norte at chegarem  beira e uma encosta escarpada juncada de cascalho 
e rochas soltas. Pararam e olharam da borda. Ao fundo, um riacho, correndo em direo leste, cintilava ao sol enquanto se derramava sobre pedras. 
     Desmontaram e desceram com cuidado. Os cavalos partiram, depois pararam para beber gua. Ayla encontrou as pedras projetando-se da gua, com apenas um espao 
amplo para pular, que sempre havia usado. Tomou um gole de gua tambm, quando alcanaram o lado oposto.
     - A gua est mais doce aqui. Veja como est clara! - exclamou ela.
     - No est enlameada, pode-se ver o fundo. E veja, Jondalar, os cavalos esto aqui!
     Jondalar sorriu afetuosamente diante da exuberncia de Ayla, sentindo uma sensao semelhante, embora mais amena, de chegada ao lar  vista do comprido vale 
familiar. Os ventos fortes e gelo das estepes pincelavam a cavidade protegida com um toque mais claro, e at desprovida de folhas de vero, uma vegetao mais rica 
e viosa era aparente. A encosta escarpada, que acabavam de descer, precipitava-se para uma muralha de pedra pura, enquanto avanava descendo em direo ao vale, 
 esquerda. A larga orla de moita cerrada e rvores ladeava a margem oposta do riacho que corria ao longo de sua base. Depois, atinava em uma campina de feno dourado 
ondulando sob o sol da tarde. O campo plano de capim alto subia gradualmente para as estepes  direita, mas estreitava-se e se tornava mais escarpado na extremidade 
distante do vale, at se tornar a outra muralha de uma garganta estreita.
     Na metade da descida, um pequeno bando de cavalos de estepe tinha parado para pastar e olhava para eles. Um deles relinchou. Whinney sacudiu a cabea e respondeu. 
O grupo os observou se acercarem, at estarem bem prximos. Ento, quando o estranho odor dos seres humanos continuou a progredir, eles deram meia-volta juntos e, 
com cascos soando no terreno e rabos abanando, galoparam, subindo a encosta suave para as estepes descampadas acima. Os dois seres humanos montados em um dos animais 
que traziam, pararam para v-los partir. O mesmo fez o potro amarrado a uma corda.
     Racer, com a cabea erguida e as orelhas levantadas, seguiu os cavalos at onde era possvel. 
     Depois, ficou parado com o pescoo esticado e as narinas abertas, vigiando-os. Whinney relinchou para ele enquanto recomeavam a descer o vale e ele voltou 
e seguiu a me.
     Quando se apressaram, subindo a corrente em direo  extremidade estreita do vale, puderam ver o riacho fazendo uma curva abrupta ao redor de uma muralha saliente 
e uma praia rochosa,  direita. Do lado oposto havia uma grande pilha de pedras, madeira trazida pela corrente, e ossos, chifres, e presas de todo tipo. Alguns eram 
esqueletos das estepes, outros eram restos de animais apanhados em enchentes, carregados rio abaixo, e atirados contra a muralha.
     Ayla mal podia esperar. Escorregou das costas de Whinney e subiu correndo uma trilha estreita e ngreme, ao lado da pilha de ossos, em direo ao alto da muralha, 
que formava uma salincia em frente a uma cavidade diante do penhasco rochoso. Ela quase correu para dentro, mas controlou-se no ltimo minuto. 
     Aquele era o lugar onde havia vivido sozinha e sobrevivera porque nunca, por um momento sequer, esquecera de ficar alerta em relao a um perigo possvel. As 
cavernas no eram usadas apenas por homens. Acercando-se, sorrateira, ao longo da muralha exterior, ela tirou a funda da cabea e parou para pegar alguns pedaos 
de rocha.
     Cuidadosamente, examinou o interior. Viu apenas escurido, mas seu olfato detectou um odor leve de madeira queimada h muito tempo atrs, e um cheiro um pouco 
mais recente de carcaju. Mas, esse tambm era antigo. Ela entrou pela abertura e deixou seus olhos se habituarem  luz fraca. 
     Depois, olhou ao redor.
     Sentiu a presso de lgrimas enchendo seus olhos e lutou para cont-las, em vo. Ali estava, a sua caverna. Estava em casa. Tudo era to familiar, no entanto, 
o local onde vivera durante tanto tempo parecia abandonado e esquecido. A luz que entrava pela abertura acima da entrada, mostrava-lhe que seu olfato estava certo, 
e uma inspeo mais atenta provocou um arquejo de tristeza. A caverna estava uma baguna. Um animal, talvez mais de um, havia entrado realmente, e deixara a evidncia 
espalhada por toda parte. Ela no tinha certeza de quanto dano fora causado.
     Jondalar apareceu na entrada, ento. Acercou-se, seguido por Whinney e Racer. A caverna tambm fora o lar da gua, e o nico que Racer conhecera at chegarem 
ao Acampamento do Leo.
     - Parece que tivemos um visitante - disse ele quando viu o estrago.
     - Este lugar est uma confuso!
     Ayla suspirou longamente e limpou uma lgrima.
     -  melhor eu fazer um fogo e acender tochas, para podermos ver o quanto foi danificado. Mas, primeiro,  melhor eu descarregar Whinney para ela poder descansar 
e pastar.
     - Acha que devemos solt-los assim? Racer parecia estar pronto para seguir aqueles cavalos. Talvez devssemos prend-los - disse Jondalar, hesitante.
     - Whinney sempre andou solta - disse Ayla, sentindo-se um pouco chocada. - No posso prend-la, ela  minha amiga. Ela fica comigo porque quer. Uma vez, ela 
foi viver com um bando de cavalos, quando queria um garanho, e senti muita falta dela. Eu no sabia o que faria se no tivesse Nenm. Mas ela voltou. Ela ficar 
e, se o fizer, Racer tambm far o mesmo, ao menos at crescer. Nenm me deixou. Racer talvez me deixe tambm, como os filhos deixam as fogueiras das mes quando 
crescem. Mas cavalos so diferentes de lees. Acho que se ele se tornar um amigo, como Whinney, talvez fique.
     Jondalar balanou a cabea afirmativamente.
     - Muito bem, voc os conhece melhor do que eu. - Afinal, Ayla era uma perita. A nica perita quando se tratava de cavalos. - Por que eu no fao o fogo e voc 
livra Whinney de seus fardos, ento?
     Enquanto ia aos locais onde Ayla sempre guardara os materiais para fazer um fogo e madeira, sem compreender quo familiar a caverna se tornara para ele no curto 
vero que vivera ali com ela, Jondalar se perguntou como poderia fazer, de Racer, um bom amigo. Ele ainda no compreendia completamente como Ayla se comunicava com 
Whinney, de forma que ela ia para onde Ayla desejava quando cavalgavam, e permanecia perto, embora tivesse liberdade para ir embora. Talvez ele jamais aprendesse, 
mas gostaria de tentar. Ainda assim, at aprender, no faria mal prender Racer a uma corda, ao menos quando viajavam por locais onde poderia haver outros cavalos.
     Um exame da caverna e de seu contedo contou a histria. Um carcaju ou uma hiena, Ayla no podia dizer qual, desde que ambos tinham estado na caverna em ocasies 
diferentes, e seus rastros estavam misturados, havia atacado um dos esconderijos de carne-seca e acabado com ela. Uma cesta de cereal que pegaram para Whinney e 
Racer, que havia ficado bastante exposta, fora mastigada em vrios lugares. Uma variedade de pequenos roedores - a julgar pelos rastros - ratazanas, lagmios, esquilos, 
gerbos e hamsters grandes - tinha levado os alimentos e quase no restava uma s semente Encontraram um ninho repleto com o saque sob uma pilha de feno prxima, 
porm, a maior parte das cestas de cereais e razes e frutas secas, que tinham sido colocadas em buracos feitos no cho de terra da caverna, ou protegidas por pilhas 
de pedras postas sobre elas, sofreram muito menos dano.
     Ayla ficou contente por terem decidido colocar as peles e couros macios que ela fizera, durante anos, em uma cesta forte e escond-la em um monte de pedras. 
A grande pilha de pedras se mostrara resistente aos animais saqueadores, porm o couro deixado exposto, restos das roupas que Ayla fizera para Jondalar e para ela 
prpria antes de partirem, fora despedaado. Outro monte de pedras que continha, entre outras coisas, um recipiente de couro cru cheio de gordura, cuidadosamente 
derretida estocada em pequenas pores semelhantes a salsichas, de intestinos de veados, fora alvo de assaltos repetidos. Um canto da bolsa de couro cru havia sido 
dilacerado por dentes e garras, uma salsicha aberta, mas o monte de pedras havia resistido.
     Alm de atacar o alimento estocado, os animais tinham rondado outras reas de armazenagem, derrubado grande quantidade de xcaras e tigelas de madeiras feitas 
 mo e polidas, arrastado cestas e esteiras entrelaadas e tecidas em desenhos e padres sutis, defecado em vrios locais e, em geral, destrudo tudo o que encontraram. 
Mas o dano real era muito menor do que parecera a princpio, e tinham ignorado essencialmente a grande farmacopia de Ayla, de remdios de ervas secas e conservadas.
      noite, Ayla se sentia muito melhor. Tinham feito limpeza e colocado a caverna em ordem, determinado que a perda no era muito grande, cozinhado e feito uma 
refeio e at explorado o vale para ver que mudanas tinham ocorrido. Ayla sentiu-se finalmente  vontade com um fogo na lareira, peles de dormir espalhadas sobre 
feno limpo na vala vazia que havia usado como cama, e Whinney e Racer confortavelmente instalados em seu lugar do outro lado da entrada.
     - E difcil acreditar que estou de volta - disse ela, sentando-se numa esteira diante do fogo, ao lado de Jondalar. - Sinto como se tivesse ficado longe uma 
vida inteira, mas no foi tanto assim.
     - No, no foi muito tempo.
     - Aprendi muito, talvez seja por isto que parece muito tempo. Foi bom voc ter-me convencido a ir com voc, Jondalar, e estou contente por termos conhecido 
Talut e os Mamutoi. Sabia que eu tinha medo de encontrar os Outros?
     - Eu sabia que voc se preocupava com isso, mas tinha certeza de que assim que conhecesse algumas pessoas, gostaria delas.
     - No era apenas conhecer pessoas. Era conhecer os Outros. Para o Cl, era isto o que eles eram e, embora me tivessem dito, a vida toda, que eu nascera dos 
Outros, ainda pensava em mim como Cl. Mesmo quando fui amaldioada e soube que no poderia voltar, tinha medo dos Outros. Depois que Whinney veio viver comigo, 
foi pior. Eu no sabia o que fazer. Temia que eles no me deixassem ficar com ela, ou a matassem para se alimentar. E tinha medo de que no me permitissem caar. 
Eu no queria viver com pessoas que no me deixassem caar, se eu quisesse, ou que talvez me obrigassem a fazer alguma coisa que eu no queria fazer - falou Ayla.
     De repente, a lembrana de seus temores e ansiedades encheram-na de desconforto e energia nervosa. Ela se levantou e caminhou at a boca da caverna, afastou 
o pesado protetor contra o vento e saiu para o topo da muralha saliente que formava um amplo prtico para a caverna. Estava frio e claro l fora. As estrelas, rijas 
e cintilantes, brilhavam no cu escuro com uma fora to intensa quanto o vento. Ela se abraou e esfregou os braos enquanto caminhava para a extremidade da salincia.
     Comeou a tremer e sentiu uma pele envolvendo seus ombros; virou-se para encarar Jondalar. Ele a tomou nos braos e ela se aninhou no seu calor.
     Ele se inclinou para beij-la, depois disse:
     - Est frio aqui fora. Volte para dentro.
     Ayla o deixou conduzi-la para o interior, mas parou em seguida ao couro pesado, que usara como quebra-ventos desde seu primeiro inverno.
     - Esta era minha tenda... No, a tenda de Creb - corrigiu-se. - Ele nunca a usou, no entanto. Era a tenda que usei quando fui uma das mulheres escolhidas para 
acompanhar os homens em suas caadas, a fim de retalhar a carne e ajudar a carreg-la. Mas no me pertencia, pertencia a Creb. Trouxe comigo quando parti porque 
achei que Creb no se importaria. No podia perguntar a ele. Estava morto, mas no me teria visto, se estivesse vivo. Acabara de ser amaldioada. - As lgrimas comearam 
a escorrer por seu rosto, embora ela no parecesse not-las. - Eu estava morta, mas Durc me viu. Ele era pequeno demais para saber que no devia me ver. Oh, Jondalar, 
eu no queria deix-lo! - Ela soluava agora. - Mas eu no podia traz-lo comigo, eu no sabia o que poderia me acontecer.
     Ele hesitava sobre o que dizer, ou fazer. Por isto, abraou-a apenas e a deixou chorar.
     - Quero ver Durc de novo. Toda vez que vejo Rydag penso em Durc. Eu queria que ele estivesse aqui comigo, agora. Eu gostaria que ns dois fssemos adotados 
pelos Mamutoi.
     - Ayla,  tarde. Est cansada. Venha para a cama - disse Jondalar, levando-a para as peles de dormir. Mas se sentia inquieto. Tal pensamento era irreal e ele 
no queria encoraj-la.
     Ela se virou, obediente e deixou que ele a guiasse. Em silncio, ele a ajudou a tirar as roupas, depois sentou-a e empurrou-a suavemente para trs, e cobriu-a 
com as peles. Colocou mais lenha e empilhou os carves na lareira para que durassem mais. Depois, se despiu rapidamente, e enfiou-se na cama ao lado dela. Abraou-a 
e beijou-a suavemente, mal tocando-lhe os lbios com os dele.
     O efeito foi atormentador e ele sentiu a resposta trmula de Ayla. Com o mesmo toque leve, quase fazendo ccegas, ele comeou a beijar-lhe o rosto; as faces, 
os olhos fechados e depois os lbios macios e carnudos novamente. Estendeu a mo e inclinou o maxilar de Ayla para trs e acariciou-lhe o pescoo da mesma maneira. 
Ayla se obrigou a jazer imvel e, em vez de sentir ccegas, arrepios de um fogo esquisito acompanharam o toque rpido de Jondalar e puseram fim ao seu humor tristonho.
     As pontas dos dedos dele traaram a curva do ombro de Ayla e deslizaram pelo comprimento do seu brao. Depois, lentamente, com um toque sutil, subiu a mo pelo 
interior do brao da jovem. Ela estremeceu com um espasmo que encheu cada nervo com expectativa rpida. Enquanto seguia o contorno do corpo de Ayla descendo a mo 
experiente, examinou o mamilo macio. Este se ergueu pronto e firme, enquanto um choque intenso de prazer a percorria.
     Jondalar no pde resistir e se inclinou para tom-lo na boca. Ela o apertou contra si enquanto ele sugava e puxava e mordiscava, sentindo uma umidade clida 
entre as coxas enquanto as sensaes agudas enviavam ferroadas correspondentes bem no fundo. Ele sentiu o odor da pele da jovem e tambm uma plenitude arrebatadora 
em seus rins ao pressentir que ela estava pronta. Ele jamais parecia capaz de conseguir o suficiente dela, e Ayla parecia estar sempre pronta para ele. Nenhuma vez, 
que ele se lembrasse, ela o rejeitara. No importavam as circunstncias, dentro ou fora de casa, em peles quentes ou cho frio, sempre que ele a queria, ela estava 
ali para ele, no apenas aquiescendo, mas como parceira ativa, desejosa. Somente durante seu perodo mensal  que ficava um pouco reprimida, como se sentisse timidez, 
e ele se controlava, respeitando seus desejos.
     Quando estendeu a mo para acariciar-lhe a coxa e ela se abriu para ele, Jondalar sentiu uma tal urgncia que poderia t-la possudo no mesmo instante, mas
queria que o ato durasse. Estavam num local quente e seco, sozinhos e, provavelmente, pela ltima vez em todo o inverno. No que ele hesitasse na habitao comunal 
dos Mamutoi, mas estarem sozinhos, os dois, dava uma qualidade especial de liberdade e intensidade a seus prazeres. A mo dele encontrou-lhe a umidade, depois seu 
pequeno e ereto centro de prazer, e ele ouviu a respirao dela explodir em arquejos e gritos quando a acariciou e friccionou. Desceu mais a mo e penetrou com dois 
dedos, explorando-lhe as profundezas, enquanto ela arqueava as costas e gemia. Oh, como ele a desejava, pensou, mas ainda no!
     Ele soltou-lhe o mamilo e descobriu-lhe a boca, levemente aberta. Beijou-a com firmeza, amando o toque sensual lento da lngua que encontrou a dele, quando 
procurava a dela. Ele recuou por um momento, para exercitar algum controle antes de ceder inteiramente ao prprio impulso esmagador e  bela, vida mulher que amava. 
Examinou-lhe o rosto at ela abrir os olhos.
     A luz do dia os olhos dela eram cinza-azulados, a cor do slex, mas agora estavam escuros e to cheios de desejo e amor que a garganta de Jondalar doeu com 
a sensao que surgiu das profundezas de seu ser. Ele tocou-lhe a face com a parte de trs da ponta do dedo indicador, contornou-lhe o maxilar e correu-o pelos lbios 
dela. No se fartava de olh-la, toc-la, como se quisesse gravar seu rosto na memria. Ela ergueu a cabea para ele, para olhos to vividamente azuis que pareciam 
violceos sob a luz da lareira, e to irresistveis com seu amor e desejo que ela quis fundir-se neles. Se quisesse, no teria sido capaz de recus-lo, e ela no 
queria.
     Ele a beijou, depois desceu a lngua clida pelo pescoo e pela depresso entre os seios. Com as duas mos, segurou-lhe as mamas, procurou um mamilo e sugou-o. 
Ela massageou os ombros dele e braos, gemendo suavemente enquanto ondas de uma sensao de dormncia atravessavam-lhe o corpo.
     Ele percorreu-lhe o corpo com a boca, molhou-lhe a cavidade do umbigo com a lngua e sentiu depois a textura de plo macio. Ela arqueou um pouco o corpo, num 
convite e, com a lngua sensvel e mida, ele encontrou o topo da fenda e depois o pequeno centro de prazer. Ela gritou quando ele o alcanou.
     Ela se sentou, ento, enroscando-se at encontrar o membro rijo dele, tomou-o na boca o mximo possvel, enquanto suas mos se estendiam at os testculos macios.
     Ele sentiu a presso crescer, o mpeto dos rins, e as pulsaes latejantes do membro pleno, enquanto provava-lhe o sexo e tornava a descobrir suas dobras e 
arestas e tambm sua profundidade adorvel. Quase no conseguia o bastante. Queria tocar cada parte de Ayla, provar cada parte, queria mais e mais dela, sentia sua 
calidez e sua sensao arrebatadora, e as duas mos da jovem movendo-se para cima e para baixo por seu dardo longo e cheio. Ele ansiava por penetr-la.
     Com supremo esforo, ele se afastou, virou-se e encontrou novamente a fonte de sua feminilidade, explorou-a com mos experientes. Depois se inclinou para seu 
centro, focinhando-o at a respirao de Ayla se converter em espasmos e gritos. Ela sentiu o aparecimento, o crescimento de tenso rara e inexprimvel. Chamou-o, 
estendeu as mos para ele, e depois ele se ergueu entre as coxas da mulher e, com um tremor de expectativa e controle penetrou-a, afinal, e exultou em sua afetuosa 
acolhida.
     Ele se controlara durante tanto tempo que levou um momento para gozar. Penetrou-a de novo, profundamente, deleitando-se com a mulher maravilhosa que era capaz 
de aceitar todo o seu tamanho. Com desembarao, Jondalar investiu outra vez, e repetiu o ato, mais depressa, alcanando nveis mais altos, enquanto ela se erguia 
para encontr-lo, movendo-se em harmonia com ele, golpe a golpe. Em seguida, com gritos agudos, ele sentiu a onda vindo, surgindo dentro dela, e eles investiram 
na arrancada final esmagadora de energia e prazer, e alvio.
     Ambos estavam esgotados demais, sensualmente exaustos, para se mover. Ele estava espalhado sobre ela, mas Ayla sempre amara essa parte, o peso do corpo de Jondalar 
sobre o seu. Ela sentiu o seu fraco odor, nele, lembrando-se de como fora amada e por que estava to deliciosamente entorpecida. Ainda sentia a pura maravilha inesperada 
dos prazeres. Ayla no soubera que seu corpo podia experimentar tanto deleite e jbilo. Ela s conhecera a degradao de ser possuda com dio e desprezo. At surgir 
Jondalar, ela ignorava que existisse outra maneira.
     Ele afinal se ergueu, beijando-lhe um dos seios e acariciando-lhe o umbigo com o nariz, enquanto recuava e se levantava. Depois, ela ficou de p tambm e se 
dirigiu para os fundos, deixando cair algumas pedras de cozinhar no fogo.
     - Quer pr um pouco de gua naquela cesta de cozinhar, Jondalar? Acho que a bolsa grande de gua est cheia - disse ela a caminho do canto distante da caverna 
que ela usava quando estava frio demais para sair, a fim de fazer suas necessidades.
     Quando voltou, pegou as pedras quentes do fogo como havia aprendido com os Mamutoi, e deixou-as cair na gua que estava em uma cesta  prova dgua. As pedras 
sibilaram e soltaram vapor enquanto aqueciam a gua. Ela as pegou e recolocou-as no fogo, acrescentando outras que estavam quentes.
     Quando a gua ferveu, ela tirou algumas pores de gua com uma concha, colocou numa bacia de madeira e, de seu suprimento de ervas, adicionou algumas flores 
secas de ceanoto, tipo lils. Um perfume forte, aromtico encheu o ar e, quando mergulhou uma tira macia de couro, a soluo de saponina espumou levemente. Mas no 
precisaria lavagem e deixaria somente um aroma agradvel. Ele a observou de p perto do fogo enquanto ela enxugava o rosto e lavava o corpo, deleitando-se com sua 
beleza, enquanto ela se movia, e desejando poder recomear.
     Ela deu a Jondalar um pedao de pele absorvente de coelho e lhe passou a bacia. Enquanto ele se limpava - era um costume que ela desenvolvera depois que Jondalar 
chegara, que ele adotou - examinou novamente suas ervas, contente por ter todo o seu suprimento disponvel. Selecionou combinaes individuais para um ch para cada 
um deles. Para ela, comeou com sua fibra dourada usual e raiz de antlope, perguntando-se, novamente, se devia parar de tom-lo e ver se um beb comearia a crescer 
dentro dela. Apesar das explicaes de Jondalar, ela ainda acreditava que era um homem, no os espritos, que dava origem ao desenvolvimento da vida. Mas, qualquer 
que fosse a causa, a magia de Iza parecia funcionar, e sua maldio de mulher, ou melhor, seu perodo mensal, como Jondalar chamava, ainda vinha regularmente. Seria 
bom ter um beb nascido de prazeres com Jondalar, pensou ela, mas talvez fosse melhor esperar. Se ele resolver tornar-se um Mamutoi tambm, ento, talvez.
     Em seguida, procurou cardo para seu ch, um fortificante do corao e respirao, e bom para o leite materno, mas resolveu usar, em vez disso, damiana, que 
ajudava a manter os ciclos da mulher em equilbrio. Depois, selecionou trevo-dos-prados e frutos da roseira para a sade geral e sabor. Para Jondalar, pegou jinso, 
para resistncia, energia e equilbrio do homem. Acrescentou labaal amarelo, um tnico e purificador; depois, raiz de alcauz, porque notara que Jondalar franzia 
atesta, o que normalmente era sinal de que estava preocupado ou estressado por algum motivo, e para adoar a bebida. Tambm colocou umas gotas de camomila, tambm 
para os nervos.
     Ps em ordem e arrumou as peles novamente, e deu a Jondalar sua tigela, a de madeira que ela fizera e de que ele gostava tanto. Depois, com um pouco de frio, 
os dois voltaram para a cama, terminaram seu ch e se aconchegaram um ao outro.
     - Voc cheira bem, como flores - disse ele, respirando no ouvido de Ayla e mordiscando o lbulo de sua orelha.
     - Voc tambm.
     Ele a beijou, suavemente; depois, prolongou o beijo com mais sentimento.
     - O ch estava bom. O que havia nele? - perguntou, beijando seu pescoo.
     - Apenas camomila e algumas coisas para que se sinta bem e para que tenha fora e resistncia. No sei os nomes que d a todas elas.
     Ele a beijou, ento, com mais ardor e ela respondeu. Ele se ergueu sobre um cotovelo e abaixou os olhos para ela.
     - Ayla, tem idia de como voc  surpreendente?
     Ela sorriu e sacudiu a cabea.
     - Todas as vezes que quero voc, est pronta para mim. Jamais me deixou de lado ou me rejeitou, embora quanto mais eu a possuo, mais parea querer voc.
     - Isso  surpreendente? Que eu deseje voc tantas vezes quanto voc me queira? Voc conhece meu corpo melhor do que eu, Jondalar. Voc me fez sentir prazeres 
que eu no sabia que existiam. Por que no iria querer voc sempre que me quer?
     - Mas, para a maioria das mulheres, h alguns momentos em que no esto dispostas, ou apenas no lhes convm. Quando est um frio intenso l fora nas estepes, 
ou na margem mida de um rio, quando a cama quente se encontra a alguns passos de distncia. Mas voc nunca diz no. Nunca diz espere.
     Ela fechou os olhos e, quando os abriu, havia uma leve ruga em sua testa.
     - Jondalar, fui criada assim. Uma mulher do Cl nunca diz no. Quando um homem lhe faz o sinal, onde quer que ela esteja, ou o que quer que esteja fazendo, 
pra e responde  necessidade dele. Qualquer homem, mesmo se ela o odiar, como eu odiava Broud. Jondalar, voc s me d alegria e prazer. Adoro quando me quer, a 
qualquer hora, em qualquer lugar. Se voc me quer, no h momento em que eu no esteja pronta para voc. Sempre quero voc. Eu amo voc.
     Ele a abraou, de repente, e apertou-a tanto que ela mal podia respirar.
     - Ayla, Ayla - gritou num sussurro rouco, a cabea enterrada no pescoo da jovem -, pensei que jamais me apaixonaria. Todos encontravam uma mulher para companheira, 
para fazer uma fogueira e uma famlia. Eu estava envelhecendo, apenas. At Thonolan encontrou uma mulher na Jornada. Por isto ficamos com os Sharamudoi. Conheci 
muitas mulheres. Gostei de muitas mulheres, mas havia sempre alguma coisa que faltava. Pensei que era eu. Pensei que a Me no me deixaria amar. Achei que era meu 
castigo.
     - Castigo? Por qu? - perguntou Ayla.
     - Por... Por algo que aconteceu muito tempo atrs.
     Ela no pressionou. Isso tambm fazia parte de sua educao.
     Uma voz o chamou, a voz de sua me, porm distante, hesitante atravs de um vento intermitente. Jondalar estava em casa, mas o lar era estranho; familiar, contudo, 
desconhecido. Ele estendeu a mo para o lado. O local estava vazio! Em pnico, levantou-se de um salto, completamente desperto.
     Olhando ao redor, Jondalar reconheceu a caverna de Ayla. O protetor contra o vento  entrada havia-se soltado numa extremidade e agitava-se ao vento. Rajadas 
de ar frio entravam na pequena caverna, mas o sol penetrava pela entrada e um buraco acima dela. Ele vestiu rapidamente calas e tnica, e notou ento a xcara fumegante 
de ch perto da lareira e, a seu lado, um graveto novo com sua casca removida.
     Ele sorriu. Como ela fazia aquilo? Pensou. Como ela conseguia sempre ter ch quente pronto e esperando por ele quando acordava? Ao menos ali, na caverna de 
Ayla, ela o fazia. No Acampamento do Leo havia sempre alguma coisa acontecendo, e as refeies eram geralmente divididas com os outros. Ele tomava sua bebida matinal 
to freqentemente na Fogueira do Leo ou na fogueira de cozinhar, como na Fogueira do Mamute, e depois uma outra pessoa sempre se juntava a eles. L ele no notou 
se Ayla tinha sempre uma bebida quente esperando por ele quando acordava mas, quando refletiu a respeito, percebeu que sim. Nunca era do feitio de Ayla falar sobre 
aquilo. A bebida sempre estava l, apenas, como tantas outras coisas que ela fazia para ele, sem ter que jamais pedir.
     Ele pegou a xcara e bebeu um gole. Havia hortel no ch - ela sabia que ele gostava de hortel de manh -, camomila tambm, e algo mais que no podia discernir 
exatamente. O ch tinha cor avermelhada, quem sabe, frutos da roseira?
     Como  fcil voltar aos velhos hbitos, pensou. Sempre fora um jogo para ele tentar adivinhar o que havia no ch da manh de Ayla. Pegou o graveto e mastigou 
uma ponta enquanto saa, e usou a ponta mastigada para limpar os dentes. Encheu a boca com um gole de ch enquanto caminhava para a salincia das rochas para urinar. 
Atirou fora o graveto e cuspiu o ch. Depois, ficou de p,  borda, meditando, observando sua corrente fumegante fazer um arco em direo ao solo.
     O vento no era forte e o sol matinal, refletindo na rocha de cor clara, dava impresso de calor. Ele atravessou a superfcie acidentada at a ponta protuberante 
e olhou o riacho abaixo. O gelo se amontoava ao longo de suas margens, mas o rio ainda corria rapidamente ao redor da curva acidentada, que mudava a sua costumeira 
direo sul para o leste, por alguns quilmetros, antes de voltar ao seu curso para o sul. A sua esquerda, o vale tranqilo se estendia ao lado do rio e ele reparou 
em Whinney e Racer pastando por perto. A paisagem rio acima,  sua direita, era inteiramente diversa. Alm da pilha de ossos, ao p da muralha, e da praia rochosa, 
altos paredes de pedra se fechavam e o rio corria no fundo de uma garganta profunda. Ele se lembrou de ter subido o rio a nado, uma vez, at onde pudera ir, at 
a base de uma queda dgua agitada.
     Viu Ayla surgir quando ela subiu a trilha escarpada e sorriu.
     Onde esteve?
     Mais alguns passos e sua pergunta foi respondida sem que ela dissesse uma palavra. Ela carregava duas ptrmigas gordas, quase brancas, pelos ps emplumados.
     - Eu estava plantada a, onde voc est, quando as vi na campina. - disse Ayla, mostrando as aves. - Achei que seria bom ter carne fresca, para variar. Fiz 
um fogo na minha cavidade de cozinhar, l na praia. Vou depenar as aves e comear a cozinh-las depois que acabarmos a refeio da manh. Oh, aqui est outra pedra-de-fogo 
que encontrei!
     - H muitas na praia? - interrogou ele.
     - Talvez no tantas quanto antes. Tive que procurar esta.
     - Acho que descerei at l, mais tarde, e procurarei mais algumas.
     Ayla entrou para acabar de preparar a refeio da manh que inclua cereais cozidos com mirtilos vermelhos que encontrara ainda presos a arbustos sem folhas. 
As aves no deixaram muitos, e ela teve que escolher, diligentemente, para reunir alguns punhados, mas estava contente por t-los colhido.
     - Era isso! - exclamou Jondalar quando terminava outra xcara de ch. - Voc ps mirtilos vermelhos no ch! Hortel, camomila, e mirtilos vermelhos.
     Ela sorriu, concordando, e ele ficou feliz consigo mesmo por ter solucionado a pequena charada.
     Depois da refeio matinal, os dois desceram para a praia e enquanto Ayla preparava as aves para assar no forno de pedras, Jondalar comeou a procurar os pequenos 
ndulos de pirita de ferro que se espalhavam pela praia. Ele ainda procurava quando ela subiu de volta  caverna. Ele tambm encontrou pedaos de slex de bom tamanho 
e os separou. No meio da manh, acumulara uma pilha de pedras-de-fogo e estava entediado de fitar a praia rochosa. Caminhou ao redor da muralha saliente e vendo 
a gua e o potro a alguma distncia, vale abaixo, dirigiu-se a eles.
     Quando se aproximou mais, notou que os dois olhavam na direo das estepes. Vrios cavalos se encontravam no alto da encosta, tambm olhando para eles. Racer 
deu alguns passos em direo ao bando selvagem, com o pescoo arqueado e o focinho tremendo. Jondalar reagiu sem pensar.
     - Vamos, saiam daqui! - gritou, correndo na direo deles, sacudindo os braos.
     Os cavalos, surpresos, saltaram para trs, relinchando e bufando, e se afastaram depressa. O ltimo, um garanho castanho, investiu contra o homem; depois, 
recuou como se desse um aviso, antes de galopar atrs dos outros.
     Jondalar se virou e caminhou de volta na direo de Whinney e Racer. Ambos estavam nervosos. Tambm tinham ficado espantados e sentido o pnico da cavalhada. 
Jondalar deu tapinhas carinhosos em Whinney e ps o brao em volta do pescoo de Racer.
     - Tudo bem, garoto - disse ao potro -, eu no queria assustar voc. S no queria que eles o atrassem para segui-los, antes de termos uma chance para nos tornarmos 
bons amigos. - Coou e alisou o animal com afeto. - Imagine como seria cavalgar um garanho como aquele castanho - refletiu alto. - Seria difcil mont-lo, e ele 
tambm no me deixaria co-lo assim, no ? O que eu teria que fazer para que me deixe mont-lo e ir aonde eu quiser? Quando devo comear? Devo tentar montar voc 
agora, ou esperar? Voc ainda no  totalmente adulto, mas ser, breve. E melhor eu perguntar a Ayla. Ela deve saber. Whinney sempre parece compreend-la. Pergunto-me 
se me entende, Racer?
     Quando Jondalar voltou  caverna, afinal, Racer o seguiu, dando-lhe encontres, alegremente, e focinhando sua mo, o que agradou muito ao homem. O potro parecia 
querer ser amigo. Racer seguiu Jondalar durante todo o caminho de volta e subiu a trilha at a caverna.
     - Ayla, tem alguma coisa que eu possa dar a Racer? Algum gro? - perguntou Jondalar assim que entrou.
     Ayla estava sentada perto da cama com uma variedade de pilhas e montes de objetos espalhados ao seu redor.
     - Por que no d a ele algumas daquelas pequenas mas daquela tigela ali? Eu examinei algumas - disse ela -, e aquelas esto amassadas.
     Jondalar pegou um punhado das frutas pequenas, redondas, e deu-as a Racer, uma de cada vez. 
     Depois de mais algumas carcias no potro, Jondalar caminhou at Ayla. Foi seguido pelo cavalo amistoso.
     - Jondalar, tire Racer da! Pode pisar em alguma coisa!
     Ele se virou e esbarrou no potro.
     - J chega, Racer - disse o homem, voltando com ele para o outro lado da abertura da caverna, onde o jovem animal e sua me costumavam ficar. Mas quando Jondalar 
quis se afastar, foi seguido de novo. Levou outra vez Racer para o seu lugar, mas no teve sorte em faz-lo ficar. - Agora que ele se mostra to amigo, como o fao 
parar?
     Ayla estivera observando as cabriolas, sorrindo.
     - Pode tentar pr um pouco dgua em sua tigela, ou algum gro em sua tina de comida.
     Jondalar fez as duas coisas, e quando o cavalo se distraiu o suficiente, afinal, voltou para perto de Ayla, atento s suas costas para certificar-se de que 
o potro no estava mais atrs dele.
     - O que est fazendo? - perguntou.
     - Estou tentando resolver o que levar comigo e o que abandonar aqui - explicou ela. - O que acha que devo dar a Tulie na cerimnia de adoo? Tem que ser uma 
coisa especialmente bonita.
     Jondalar examinou as pilhas e montes de coisas que Ayla fizera para se ocupar, durante as noites vazias e invernos rigorosos e longos que passara sozinha na 
caverna. Mesmo quando vivia com o Cl, ela se tornara respeitada pela sua habilidade e qualidade do seu trabalho e, durante os anos que passara no vale, tivera pouco 
mais a fazer. Dedicou tempo extra e ateno cuidadosa a cada plano, para que durasse. Os resultados eram evidentes.
     Ela pegou uma tigela de uma pilha. Era enganadoramente simples. Quase perfeitamente circular e fora feita de uma nica pea de madeira. A qualidade do acabamento 
era to delicada que quase parecia ter vida. Ela lhe contara como fazia as tigelas. O processo era essencialmente o mesmo que qualquer dos que ele conhecia; a diferena 
era o cuidado e ateno ao detalhe. Primeiro, ela estriava a forma rstica com uma enx de pedra, depois esculpia melhor com uma faca de slex. Com uma pedra arredondada 
e areia, aplainava tanto o interior quanto o exterior at quase no se sentir uma ondulao sequer, e dava um acabamento final  pea com um polimento feito com 
cavalinha.
     Suas cestas, quer tecidas frouxamente ou impermeveis, possuam a mesma qualidade de simplicidade e percia artesanal. No se usavam corantes ou cores, mas 
o interesse textural fora criado pela mudana do modo de entrelaamento e pela utilizao de variaes de cor natural das fibras. As esteiras tinham a mesma caracterstica. 
As espirais de corda e cordes de nervos e crtex, no importava de que tamanho fossem, eram iguais e uniformes, assim como as longas tiras cortadas numa espiral 
de um nico couro.
     O couro cru que ela curtia era macio e flexvel, porm, mais que todo, ele estava impressionado com as peles. Era uma coisa tornar a pele de veado malevel 
raspando a superfcie spera da pele no exterior, assim como raspando o interior mas, com a sobra de pele, os couros eram normalmente mais duros. Os de Ayla eram 
no somente suntuosos no lado da pele, mas aveludados e macios e fofos no interior.
     - O que vai dar a Nezzie? - perguntou ele.
     Alimento, como aquelas mas, e recipientes para guard-las.
     -  uma boa idia. O que pensava dar a Tulie?
     - Ela tem muito orgulho do couro de Deegie, por isso, acho que no lhe darei couro, e no quero lhe dar alimento, como a Nezzie. Nada prtico demais. Ela  
a chefe. Deve ser uma coisa especial para usar, como mbar ou conchas, mas no tenho nada especial assim - disse Ayla.
     - Tem, sim.
     - Pensei em dar-lhe o mbar que encontrei, mas  um sinal do meu totem. No posso dar.
     - No falo do mbar. Provavelmente, ela tem muito mbar. D-lhe pele. Foi a primeira coisa que ela mencionou.
     - Mas ela deve ter muitas peles tambm.
     - No to bonitas e especiais como as suas, Ayla. Somente uma vez na vida eu vi uma coisa como elas. Tenho certeza de que ela nunca viu. A pele que vi foi feita 
por uma cabea-chata - uma mulher do Cl.
      noite, Ayla havia tomado algumas decises duras, e o acmulo de anos de trabalho estava dividido em duas pilhas. A maior seria abandonada, juntamente com 
a caverna e o vale. A menor era tudo o que levaria consigo... E suas lembranas. Foi um processo angustioso, s vezes agonizante, que a fez sentir-se vazia. Seu 
estado de esprito passou para Jondalar, que se encontrou pensando mais em seu lar e seu passado e sua vida, do que o fizera por muitos anos. Sua mente continuou 
desviando-se para recordaes dolorosas que ele pensava ter esquecido, e desejava poder esquecer. Perguntou-se por que motivo se lembrava agora.
     A refeio noturna foi silenciosa. Fizeram comentrios espordicos, e muitas vezes ficaram calados, cada um ocupado por seus pensamentos particulares.
     - As aves esto deliciosas, como sempre - disse Jondalar.
     - Creb gostava delas assim.
     Ela havia mencionado aquilo antes. As vezes ainda era difcil de acreditar que ela aprendera tanto com os cabeas-chatas com quem vivera. Quando ele pensava 
a respeito, contudo, se perguntava: por que eles no saberiam cozinhar to bem quanto qualquer outra pessoa?
     - Minha me  boa cozinheira. Provavelmente, ela tambm gostaria das aves.
     Jondalar estivera pensando muito na me, ultimamente, refletiu Ayla. Ele disse que acordara, naquela manh, sonhando com ela.
     - Quando eu era criana, havia alimentos especiais que ela gostava de cozinhar.., quando no estava ocupada com os assuntos da caverna.
     - Assuntos da caverna?
     - Ela era a lder da Nona Caverna.
     - Voc me disse isso, mas eu no compreendi. Quer dizer que ela era como Tulie? Uma chefe?
     - Sim, algo parecido. Mas no havia Talut, e a Nona Caverna  muito maior do que o Acampamento do Leo. Muito mais pessoas. - Ele parou, fechou os olhos, concentrado. 
- Talvez quatro pessoas para cada uma.
     Ayla tentou pensar sobre quantas pessoas seriam, depois decidiu que solucionaria isso mais tarde, com marcas no solo, mas perguntou-se como tantas pessoas podiam 
viver juntas o tempo todo. Parecia ser quase suficiente para uma Reunio de Cls.
     - No havia mulheres lderes no Cl - disse ela.
     - Marthona se tornou lder depois de Joconnan. Zelandoni me disse que ela era uma parte to grande de sua liderana que, depois que morreu, todos se voltaram 
para ela. Meu irmo, Joharran, nasceu na fogueira dele. Ele  lder agora, mas Marthona ainda  uma conselheira... ou era, quando parti.
     Ayla franziu a testa. Ele havia falado deles antes, mas ela no compreendera bem todos os seus relacionamentos.
     - Sua me era companheira de... Como disse? Joconnan?
     - Era.
     - Mas voc sempre fala de Dalanar.
     - Nasci na fogueira dele.
     - Ento, sua me foi companheira de Dalanar tambm.
     - Sim. Ela j era lder quando se uniram. Eram muito ntimos, as pessoas ainda contam histrias sobre Marthona e Dalanar, e cantam canes tristes sobre o seu 
amor. Zelandoni me contou que eles se gostavam muito. Dalanar no queria dividi-la com a caverna. Ele passou a odiar o tempo que ela passava em seus deveres de liderana, 
mas ela sentia que tinha uma responsabilidade. Por fim, eles se separaram e ele partiu. Mais tarde, Marthona fez uma nova fogueira com Willomar, e deu  luz Thonolan 
e Folara. Dalanar viajou para o nordeste, descobriu uma mina de slex e conheceu Jerika. E fundou ali a Primeira Caverna dos Lanzadonii. - Ficou calado por algum 
tempo. Parecia sentir necessidade de falar sobre sua famlia. Assim, Ayla ouviu, embora ele repetisse algumas coisas que j contara antes. Ela se levantou, serviu 
o resto do ch, acrescentou lenha ao fogo e depois se sentou sobre as peles na beira da cama. Observou a luz trmula das chamas mover sombras atravs do rosto pensativo 
de Jondalar.
     - O que significa, Lanzadonii? - perguntou.
     Jondalar sorriu.
     - Significa apenas... pessoas... filhos de Doni... filhos da Grande Me Terra que vivem no nordeste, para ser exato.
     - Voc viveu l, no? Com Dalanar?
     Ele fechou os olhos. Seu maxilar se moveu enquanto cerrava os dentes e sua testa se contorcia de dor. Ayla havia visto aquela expresso antes e refletiu. Ele 
havia falado sobre aquela fase de sua vida durante o vero, mas aborrecia-o e ela sabia que ele se reprimia. Ela sentiu uma tenso no ar, uma grande presso crescendo 
e concentrando-se em Jondalar, como uma dilatao da terra aprontando-se para explodir de grandes profundezas.
     - Sim, vivi l - disse ele -, durante trs anos. - Ficou de p em um salto, de repente, derramando o ch e caminhou para a parede do fundo da caverna com passos 
largos. - O Me, foi terrvel! - Encostou o brao erguido na parede e pousou a cabea nele, no escuro, tentando manter-se controlado. Por fim, voltou, abaixou os 
olhos para o local molhado onde o lquido penetrara no solo de terra dura e pousou um dos joelhos no cho para pegar a tigela. Revirou-a nas mos e fitou o fogo.
     - Foi to ruim assim viver com Dalanar? - perguntou Ayla, afinal.
     - Viver com Dalanar? No. - Parecia surpreso com o que ela dissera. - No foi isso que foi ruim. Ele ficou contente em me ver, recebeu-me bem em sua fogueira, 
ensinou-me minha ocupao juntamente com Joplaya, tratou-me como adulto... e jamais disse uma palavra a respeito.
     - A respeito do qu?
     Jondalar respirou fundo:
     - Da razo por que fui mandado para l - falou, e olhou para a tigela em sua mo.
     Enquanto o silncio crescia, a respirao dos cavalos enchia a caverna, e os rudos altos do fogo ardendo e estalando ressoavam nas paredes de pedra. Jondalar 
pousou a tigela e se levantou.
     - Sempre fui grande para minha idade e mais amadurecido do que outros de minha idade - comeou ele, atravessando a extenso do espao vazio ao redor do fogo 
e voltando novamente. - Amadureci jovem. No tinha mais de onze anos quando a donii apareceu-me pela primeira vez num sonho... e ela tinha o rosto de Zolena.
     L estava o nome dela de novo. A mulher que havia significado tanto para ele. Jondalar falara sobre ela, mas apenas brevemente e com tristeza evidente. Ayla 
no compreendera o que causara tanta angstia nele.
     - Todos os jovens a queriam para sua mulher-donii, todos a queriam para ensin-los. Eles deviam quer-la, ou algum como ela... - ele se virou e encarou Ayla 
- ...mas no se esperava que a amassem! Sabe o que significa apaixonar-se por sua mulher-donii?
     Ayla sacudiu a cabea.
     - Ela deve lhe mostrar, lhe ensinar, ajud-lo a compreender a grande Ddiva da Me, para prepar-lo quando chegar sua vez de converter uma menina em mulher. 
Todas as mulheres devem ser mulheres-donii ao menos uma vez, quando so mais velhas, exatamente como todos os homens devem partilhar os Primeiros Ritos de uma jovem, 
ao menos uma vez.  um dever sagrado em honra de Doni. - Ele abaixou os olhos. - Mas uma mulher-donii representa a Grande Me; voc no se apaixona, nem a quer como 
companheira. - Tornou a levantar os olhos para Ayla. - Entende isso?  proibido.  como se apaixonar por sua me, como querer sua irm por companheira. Desculpe-me, 
Ayla.  quase como querer uma cabea-chata para companheira!
     Ele se virou e em poucos passos encontrava-se  entrada. Afastou o quebra-vento para um lado, depois curvou os ombros, mudou de idia e voltou. Sentou-se ao 
lado dela com o olhar perdido na distncia.
     - Eu tinha doze anos e Zolena foi minha mulher-donii e eu a amei. E ela me amou. A princpio, era apenas o fato de que ela parecia saber exatamente como me 
agradar mas, depois, foi mais. Eu podia falar-lhe sobre qualquer coisa; gostvamos de estar juntos. Ela me ensinou sobre as mulheres, sobre o que lhes agradava e 
aprendi bem porque a amei e quis agrad-la. Amava satisfaz-la. No pretendamos nos apaixonar, nem sequer dissemos um ao outro, no comeo. Depois, tentamos guardar 
segredo. Mas eu a queria para minha companheira. Queria viver com ela, queria que seus filhos fossem filhos da minha fogueira.
     Ele pestanejou e Ayla viu uma umidade brilhante nos cantos de seus olhos enquanto ele fitava o fogo.
     - Zolena dizia sempre que eu era muito jovem, que ia esquecer. A maioria dos homens tem no mnimo quinze anos, antes de comear a procurar seriamente uma mulher 
para companheira. No me sentia jovem demais, mas no importava o que eu queria. No podia t-la. Ela era minha mulher-donii, minha conselheira e professora, e no 
devia deixar que eu me apaixonasse por ela. Culparam-na mais do que a mim, porm isso piorou a coisa. Ela no teria sido acusada, de modo algum, se eu no tivesse 
sido to estpido! - exclamou Jondalar, explodindo. - Outros homens tambm a queriam. Sempre. Quer ela os quisesse ou no. Um a estava sempre importunando... Ladroman. 
Ela havia sido sua mulher-donii h alguns anos antes. Imagino que no posso culp-lo por desej-la, mas ela no se interessava mais por ele. Ele comeou a nos seguir, 
vigiando-nos. Ento, uma vez, encontrou-nos juntos. Ameaou-a, disse que, se ela no fosse com ele, contaria a todos sobre ns.
     Ela tentou rir dele, disse para que fosse em frente, no havia nada a contar, ela era apenas minha mulher-donii. Eu devia ter feito o mesmo, mas quando ele 
caoou de ns com palavras que dissramos em particular, encolerizei-me. No... no fiquei zangado apenas. Descontrolei-me e bati nele.
     Jondalar afundou o punho no solo ao seu lado, depois outra vez e mais outra.
     - Eu no podia parar de bater nele. Zolena tentou deter-me. Finalmente teve que chamar algum para me afastar. Foi bom ela ter feito isso. Acho que o teria 
matado.
     Jondalar se levantou e comeou a caminhar de um lado para o outro novamente.
     - Ento, tudo veio a pblico. Cada detalhe srdido. Ladroman contou tudo, em pblico... diante de todos. Fiquei constrangido ao descobrir por quanto tempo ele 
nos vigiara e o quanto ouvira. Zolena e eu fomos interrogados... - corou apenas ao lembrar - ...e denunciados, mas odiei ela ter sido responsabilizada. O que piorou 
tudo foi eu ser filho de minha me, a lder da Nona Caverna, e eu a desgracei. Toda a caverna estava em tumulto.
     - O que ela fez? - perguntou Ayla.
     - Fez o que devia. Ladroman estava muito ferido, havia perdido vrios dentes. Isso dificultava a mastigao e as mulheres no gostam de homens sem dentes. Minha 
me teve que pagar uma multa enorme por mim, como indenizao e, quando a me de Ladroman insistiu, ela concordou em me mandar embora.
     Ele se calou e fechou os olhos. A testa estava franzida com a dor da recordao.
     - Chorei aquela noite. - A confisso era obviamente difcil para ele. - Eu no sabia para onde iria. No sabia que mame enviara um mensageiro a Dalanar para 
pedir-lhe para me aceitar.
     Ele respirou e continuou:
     - Zolena partiu antes de mim. Ela sempre se sentira atrada pelas zelandonia, e se reuniu Aquelas Que Servem a Me. Tambm pensei em servir, talvez como escultor... 
achei que tinha algum talento para a escultura, naquela poca. Mas Dalanar mandou um recado e a prxima coisa que me dei conta foi de Willomar me levando para os 
Lanzadonii. Eu realmente no conhecia Dalanar. Ele partiu quando eu era criana e s o via nas Reunies de Vero. Eu no sabia o que esperar, mas Marthona fez o 
que era certo.
     Jondalar parou de falar e se sentou perto do fogo de novo. Ento, pegou um galho partido, seco e quebradio, e juntou-o s chamas.
     - Antes de eu viajar, as pessoas me evitavam, insultavam-me - continuou ele. - Algumas afastavam os filhos quando eu estava perto, para que no ficassem expostos 
 minha m influncia, como se olhar para mim os corrompesse. Sei que merecia aquilo, o que fizramos fora terrvel, mas eu queria morrer.
     Ayla esperou em silncio, observando-o. No compreendia inteiramente os costumes de que ele falava, mas sofria por ele com uma empatia nascida de sua prpria 
dor. Ela tambm havia desafiado tabus e pago duras conseqncias, mas tirara uma lio disso. Talvez porque ela fosse to diferente, para comear, havia aprendido 
a questionar se o que fizera havia sido realmente to mau. Ela viera a compreender que no era errado, para ela, caar com funda ou lana ou qualquer coisa que quisesse, 
s porque o Cl acreditava que era errado as mulheres caarem, e no se odiava porque enfrentara Broud contra toda tradio. 
     - Jondalar - falou, sofrendo por ele quando o homem abaixou a cabea, derrotado, e recriminando-se -, voc fez uma coisa terrvel... - ele concordou com um 
gesto de cabea -... Quando espancou um homem. Mas, o que voc e Zolena fizeram que era errado? - perguntou.
     Ele a encarou, admirado com a pergunta. Havia esperado menosprezo, desdm, o tipo de desprezo que sentia por si prprio.
     - No compreende. Zolena era minha mulher-donii. Desonramos a Me. Ns A ofendemos. Foi vergonhoso.
     - O que foi vergonhoso? Ainda no sei o que vocs fizeram que foi to errado.
     - Ayla, quando uma mulher assume o aspecto da Me, para ensinar a um jovem, tem uma grande responsabilidade. Ela o est preparando para a virilidade, para ser 
o criador de mulher. Doni fez responsabilidade do homem abrir uma mulher, apront-la para receber os espritos mistos da Grande Me Terra, de modo que a mulher possa 
tornar-se me. l um dever sagrado. No  um relacionamento comum, rotineiro, que qualquer um pode ter em qualquer momento, no  uma coisa a se considerar com negligncia 
- explicou Jondalar.
     - Voc considerou-a com negligncia?
     - No! Claro que no!
     - Ento, o que fez de errado?
     - Profanei um rito sagrado. Apaixonei-me...
     - Apaixonou-se. E Zolena se apaixonou. Por que isso era errado? Esses sentimentos no o fazem sentir-se bem e animado? No planejou isso. Aconteceu apenas. 
No  natural se apaixonar por uma mulher?
     - Mas no essa mulher - protestou Jondalar. - Voc no compreende.
     - Tem razo, no compreendo. Broud me forou. Foi cruel e odioso, e foi isso que deu prazer a ele. Depois voc me ensinou o que os prazeres deveriam ser, no 
dolorosos, mas excitantes e bons. Amar voc tambm me faz sentir bem e animada. Pensei que o amor sempre fazia a pessoa se sentir assim, mas agora voc me diz que 
pode ser errado amar algum, e pode causar grande sofrimento.
     Jondalar pegou outro pedao de lenha e o colocou no fogo. Como faz-la entender? Voc pode amar sua me tambm, mas no quer que seja sua companheira, e no 
quer que sua mulher-donii tenha os filhos de sua fogueira. Ele no sabia o que dizer, mas o silncio era forado.
     - Por que deixou Dalanar e voltou? - perguntou Ayla aps algum tempo.
     - Minha me mandou-me... No, foi mais que isso. Eu queria voltar. Por melhor que Dalanar fosse para mim, por mais que eu gostasse de Jerika e de meu primo, 
Joplaya, no era o meu lar. Eu no sabia se podia regressar um dia. Estava muito preocupado com minha volta, mas queria ir. Jurei nunca mais me descontrolar, jamais 
me encolerizar outra vez. Ficou contente por ir para casa?
     - No era a mesma coisa, mas, depois dos primeiros dias, foi melhor do que eu imaginava. A famlia de Ladroman deixara a Nona Caverna e, sem ele l para lembrar 
a todos, as pessoas esqueceram o caso. No sei o que eu teria feito se ele ainda estivesse l. Era bem terrvel nas Reunies de Vero. Todas as vezes que o via, 
lembrava-me da desgraa. Houve muito falatrio quando Zolena voltou um pouco mais tarde. Eu tinha medo de rev-la, mas queria fazer isso. No podia evitar, Ayla, 
mesmo depois de tudo aquilo, acho que ainda a amava. - Seu olhar suplicava compreenso.
     Ele se levantou de novo e comeou a andar de um lado para o outro.
     - Mas ela havia mudado muito. J havia subido nas categorias das zelandonia. Era realmente Uma Que Serve a Me. No quis acreditar, no incio. Queria ver o 
quanto ela mudara, ver se sentia alguma coisa por mim, ainda. Queria estar sozinho com ela, e planejei como fazer isso. Esperei at o festival seguinte para Honrar 
a Me. Ela devia ter adivinhado. Tentou evitar-me, depois mudou de idia. Algumas pessoas ficaram escandalizadas no dia seguinte, embora fosse inteiramente adequado 
partilhar prazeres com ela num festival. - Ele riu com desdm. - No precisavam preocupar-se. Ela disse que ainda se importava comigo, queria o melhor para mim, 
mas no era a mesma coisa. No me desejava mais, realmente.
     A verdade  disse ele com amarga ironia - que ela se importa comigo, acho. Somos bons amigos agora, mas Zolena sabia o que queria... e conseguiu-o. No  Zolena 
agora. Antes de eu iniciar minha jornada, ela se tornou Zelandoni, Primeira entre Aquelas Que Servem a Me. Parti com Thonolan pouco depois. Creio que foi por isso 
que parti.
     Caminhou para a entrada de novo e ficou l, de p, olhando para fora, por cima da parte superior do protetor contra ventos consertado. Ayla ergueu-se e se reuniu 
a ele. Ela fechou os olhos, sentindo o vento no rosto, e ouviu a respirao uniforme de Whinney e a mais nervosa de Racer. Jondalar respirou fundo, depois voltou 
e se sentou em uma esteira perto do fogo, mas no fez meno de dormir. Ayla o seguiu, pegou a grande sacola de gua e virou um pouco numa cesta de cozinhar. 
     Depois, colocou algumas pedras no fogo para esquentar. Ele no parecia pronto para dormir ainda. No terminara.
     - A melhor coisa ao voltar para casa foi Thonolan - disse ele, retomando o fio da histria. - Ele crescera enquanto eu estava fora, e depois que voltei nos 
tornamos bons amigos e comeamos a fazer muitas coisas juntos...
     Jondalar se interrompeu e seu rosto se encheu de tristeza. Ayla recordou como a morte do irmo fora dura para ele. Ele se curvou ao lado dela, os ombros vergados, 
esgotado e exausto, e ela compreendeu que provao fora, para ele, falar sobre o passado. Ela no estava certa sobre o que provocara o assunto, sabia que alguma 
coisa estivera crescendo dentro dele.
     - Ayla, ao voltar, acha que podemos encontrar... O lugar onde Thonolan foi... morto? - perguntou ele, virando-se para ela, os olhos brilhantes e a voz trmula.
     - No estou segura, mas podemos tentar. - Ela acrescentou mais pedras  gua e pegou ervas calmantes.
     De repente, ela se lembrou, com toda a preocupao e medo que sentira ento, da primeira noite de Jondalar na caverna, quando no tinha certeza se ele viveria. 
Ele havia chamado o irmo e, embora ela no houvesse compreendido as palavras, entendeu que queria ver o homem que estava morto. 
     Quando ela o fez compreender, afinal, ele passara sua dor torturante nos braos dela.
     - Naquela primeira noite, sabe quanto tempo fazia que eu chorava? - perguntou ele, surpreendendo-a, quase como se soubesse o que ela estivera pensando mas, 
depois, ele andara falando sobre Thonolan. - No chorava desde ento, desde que minha me me disse que eu tinha que ir embora. Ayla, por que ele teve que morrer? 
- disse, com voz suplicante, tensa. - Thonolan era mais jovem que eu! No devia ter morrido to novo! Eu no podia suportar saber que ele morrera. Depois que comecei, 
parecia incapaz de parar. No sei o que teria feito se voc no estivesse aqui, Ayla. Nunca lhe disse isso antes. Acho que estava envergonhado porque... Porque perdi 
o controle de novo.
     - No h vergonha na dor, Jondalar... Ou no amor.
     Ele desviou o olhar dela.
     - Acha que no? - A voz dele tinha um vislumbre de desprezo por si mesmo. - Mesmo quando voc o usa em seu benefcio e magoa outra pessoa?
     Ayla franziu a testa, intrigada.
     Ele se virou e encarou o fogo novamente.
     - No vero, depois que regressei, fui escolhido na Reunio de Vero para Primeiros Ritos. Fiquei preocupado, a maioria dos homens fica. Voc se preocupa em 
machucar uma mulher, e no sou um homem pequeno. H sempre testemunhas para verificar que uma moa foi aberta, mas tambm para ver se no foi machucada, realmente. 
Voc se preocupa porque, talvez, no ser capaz de provar sua virilidade, e tero que encontrar outro homem no ltimo instante, e voc ficar envergonhado. Podem 
acontecer muitas coisas. Tenho que agradecer a Zelandoni. - Seu riso era sarcstico. - Ela fez exatamente o que uma mulher-donii deve fazer. Ela me aconselhou... 
E ajudou-me.
     Mas, pensei em Zolena naquela noite, no na Zelandoni que ela desejava ser. Ento, vi a garota assustada e compreendi que ainda estava mais preocupada do que 
eu. Realmente, ela ficou com medo quando me viu pronto, pleno. Muitas mulheres ficam, na primeira vez. Mas lembrei-me do que Zolena me ensinou, como faz-la ficar 
pronta, como limitar-me e controlar-me, como lhe dar prazer. O resultado foi maravilhoso, porque a vi mudar de garota assustada para uma mulher entregue, desejosa. 
Ela ficou to grata, e to amorosa... senti que a amei, naquela noite.
     Fechou os olhos, a testa com a ruga de dor que Ayla havia visto tanto, recentemente. Depois, tornou a erguer-se de um salto e a caminhar para l e para c.
     - Nunca aprendo! No dia seguinte, eu sabia que no a amava, realmente, mas ela me amava! Ela no devia se apaixonar por mim, mais do que eu devia apaixonar-me 
por minha mulher-donii. Devia torn-la mulher, ensinar-lhe sobre os prazeres, no fazer com que me amasse. Tentei no ferir seus sentimentos, mas pude notar seu 
desapontamento quando a fiz compreender, afinal.
     Ele voltava da abertura da caverna com passos largos, e deteve-se diante da jovem, e quase gritou para ela.
     - Ayla,  um ato sagrado fazer de uma menina, uma mulher, um dever, uma responsabilidade, e cometi nova profanao! - Comeou a andar. - No foi a ltima vez. 
Disse a mim mesmo que jamais faria aquilo novamente, mas aconteceu do mesmo jeito na vez seguinte. Prometi a mim mesmo que no aceitaria mais o papel, no o merecia. 
Mas da prxima vez que me escolheram, no pude dizer no. Eu o queria. Escolheram-me com freqncia e comecei a esperar por aquilo, pelos sentimentos de amor e afeto 
naquela noite, embora eu me odiasse no dia seguinte por usar as jovens mulheres e o rito sagrado da Me em meu benefcio.
     Ele parou e se agarrou a um dos suportes da armao de secar ervas de Ayla, e abaixou os olhos para ela.
     - Mas, depois de dois anos, compreendi que algo estava errado e soube que a Me me castigava. Os homens da minha idade encontravam companheiras, fixavam-se, 
exibiam os filhos de suas fogueiras. Mas eu no conseguia encontrar uma mulher para amar assim. Conheci muitas mulheres. Gostava delas por sua companhia e seus prazeres, 
mas somente senti amor quando no devia, nos Primeiros Ritos... E somente naquela noite - curvou a cabea.
     Ele levantou os olhos, surpreso, quando ouviu um riso suave.
     - Oh, Jondalar! Mas voc amou. Voc me ama, no ama? No compreende? No estava sendo punido, esperava por mim. Eu lhe disse que meu totem o guiou a mim, talvez 
a Me tambm o tenha feito, mas voc teve que percorrer um longo caminho. Teve que esperar. Se tivesse amado antes, nunca teria vindo. Nunca me teria encontrado.
     Aquilo podia ser verdade? Perguntou-se ele. Queria acreditar que sim. Pela primeira vez, em anos, sentiu o fardo, que pesava sobre seu esprito, mais leve e 
uma expresso de esperana atravessou-lhe o rosto.
     - E Zolena, minha mulher-donii?
     - Acho que no foi errado am-la, mas mesmo que tenha sido contra seus costumes, voc foi punido, Jondalar. Foi mandado embora. Est acabado agora. No precisa 
ficar recordando isso, castigando-se - Mas, as jovens nos Primeiros Ritos, que...
     A expresso de Ayla endureceu.
     - Jondalar, sabe como  terrvel ser forada, a primeira vez? Sabe o que  odiar e ter que suportar o que no  um prazer, mas uma coisa dolorosa e feia? Talvez 
voc no devesse se apaixonar por aquelas mulheres, mas deve ter sido um sentimento maravilhoso para elas serem tratadas gentilmente, sentir os prazeres que voc 
sabe dar to bem, e se sentirem amadas na primeira vez. Se deu a elas mesmo um pouco do que me deu, ento, deu a elas uma bela lembrana para levarem consigo a vida 
inteira. Oh, Jondalar, voc no magoou as jovens. Fez exatamente o que era certo. Por que acha que foi escolhido tantas vezes?
     O fardo de vergonha e desprezo por si prprio que ele havia carregado no fundo de si mesmo durante tanto tempo comeou a desaparecer. Pensou que talvez existisse 
uma razo para sua vida, que suas experincias dolorosas da infncia tinham algum propsito. Na catarse da confisso, ele viu que talvez suas aes no tivessem 
sido to desprezveis quanto imaginara, que talvez ele fosse til - e queria ser til.
     Mas a bagagem emocional que arrastara consigo durante tanto tempo era difcil de desfazer. Sim, afinal, havia encontrado uma mulher para amar, e era verdade 
que ela era tudo que ele sempre quisera, mas e se a levasse para casa e ela dissesse a algum que fora criada por cabeas-chatas? Ou pior, que tinha um filho misto? 
Uma abominao? Seria ele insultado, novamente, juntamente a ela, por trazer uma mulher assim? Corou sob o pensamento.
     Era justo para ela? E se a desprezassem e a injuriassem? E se ele no ficasse ao lado dela? E se deixasse que eles se comportassem assim? Estremeceu. No, pensou. 
Ele no os deixaria fazer tal coisa a Ayla. Ele a amava. Mas, e se deixasse?
     Por que Ayla era a mulher que ele encontrara para amar? Sua explicao parecia simples demais. Sua crena de que a Grande Me o estava punindo por seu sacrilgio 
no podia ser deixada de lado to facilmente. Talvez Ayla tivesse razo, talvez Doni o houvesse conduzido at ela, mas ser que no era um castigo que aquela bela 
mulher que ele amava no fosse mais aceitvel para seu povo, do que a primeira mulher que ele amara? Ser que no era ironia que aquela mulher que ele encontrara, 
afinal, fosse uma pria, que dera  luz uma abominao?
     Mas os Mamutoi tinham crenas semelhantes e no expulsaram Ayla. O Acampamento do Leo ia adot-la, mesmo sabendo que ela fora criada pelos cabeas-chatas. 
At tinham acolhido uma criana mista. Talvez ele no devesse tentar lev-la para casa. Talvez ela fosse mais feliz se ficasse. 
     Talvez ele devesse ficar tambm, deixar que Tulie o adotasse e se tornar um Mamutoi. Sua testa se enrugou. Mas ele no era Mamutoi. Era Zelandonii. Os Mamutoi 
eram boas pessoas e seus costumes eram semelhantes, mas no eram o seu povo. O que ele podia oferecer a Ayla ali? No tinha parentesco nem famlia entre aquelas 
pessoas. Mas, o que ele podia lhe oferecer se a levasse para casa?
     Estava indeciso entre tantos caminhos que, de repente, se sentiu exausto. Ayla viu seu rosto flcido, os ombros curvados.
     -  tarde, Jondalar. Beba um pouco disto e vamo-nos deitar - disse ela entregando-lhe uma xcara.
     Ele concordou com um gesto de cabea, tomou a bebida quente, tirou as roupas e arrastou-se para as peles. Ayla deitou-se ao lado dele, observando-o at as rugas 
de sua testa desaparecerem e sua respirao se tornar profunda e regular, mas o sono demorou mais a chegar para ela. A infelicidade de Jondalar a perturbou. Ela 
ficou contente por ele lhe ter contado sobre si mesmo e sua vida quando mais jovem. Ela acreditava, havia muito tempo, que alguma coisa no fundo dele lhe causava 
grande angstia, e talvez falar a respeito aliviasse parte de seu sofrimento. Mas alguma coisa ainda o incomodava. Ele no lhe contara tudo, e ela se sentia inquieta 
ao pensar nisso.
     Ficou acordada, tentando no perturb-lo, desejando dormir. Quantas noites havia passado sozinha naquela caverna, incapaz de dormir? Ento, lembrou-se do manto. 
Escorregando silenciosamente para fora da cama, vasculhou sua trouxa e pegou um pedao velho de couro macio, e encostou-o ao rosto. Era uma das poucas coisas que 
ela trouxera do entulho da caverna do Cl, antes de partir. Ela o usara para ajudar a carregar Durc quando beb, e para sustent-lo sobre seu quadril quando era 
um pouco maior. Ela no sabia por que trouxera o pedao de couro. No fora necessidade, contudo, mais de uma vez, quando estava sozinha, ela se havia embalado com 
ele para dormir. Mas no desde a chegada de Jondalar.
     Ela enrolou o couro velho e macio em uma bola, colocou-a sobre o ventre e enrolou-se nela. 
     Depois, fechou os olhos e foi dormir.
     -  muita coisa, mesmo com o travois e cestas sobre Whinney. Preciso de dois cavalos para levar tudo isto! - exclamou Ayla, examinando a pilha de trouxas e 
objetos bem amarrados que desejava levar consigo. - Terei que deixar mais coisas aqui, mas j examinei tudo tantas vezes, no sei mais o que abandonar. - Olhou ao 
redor, tentando encontrar alguma coisa que lhe desse uma idia para a soluo do seu dilema.
     A caverna parecia abandonada. Tudo que era til e que no iam levar fora colocado de volta aos buracos de estocagem e montes de pedras, s para o caso de quererem 
voltar, um dia, embora nenhum dos dois acreditasse que o fizessem. Tudo o que estava  vista era uma pilha de refugos. 
     At o suporte de secar ervas de Ayla se encontrava vazio.
     - Voc tem dois cavalos.  pena que no possa usar ambos - disse Jondalar, vendo os dois animais em seu lugar, perto da entrada, mascando feno.
     Ayla examinou os cavalos, especulativamente. O comentrio de Jondalar a fizera pensar.
     - Ainda penso nele como o filhote de Whinney, mas Racer est quase to grande quanto a me. 
     Talvez ele possa levar uma carga pequena.
     Jondalar se interessou imediatamente.
     - Tenho me perguntado quando ele seria bastante grande para fazer algumas das coisas que Whinney faz, e como voc o ensinaria a faz-las. Quando montou Whinney 
pela primeira vez? E o que fez voc pensar nisso, em primeiro lugar?
     Ayla sorriu.
     - Eu s estava correndo com ela, um dia, desejando poder correr mais rapidamente e, de sbito, ocorreu-me a idia. Ela ficou um pouco assustada no comeo e 
galopou, mas me conhecia. Quando se cansou, parou e no pareceu se importar. Foi maravilhoso! Era correr como o vento!
     Jondalar a observava enquanto ela recordava sua primeira cavalgada, os olhos brilhando e a respirao ofegante com a excitao da lembrana. Ele se sentira 
da mesma maneira quando Ayla o deixou montar Whinney pela primeira vez, e ele partilhou a sua excitao. Foi tomado de um repentino desejo por ela. Nunca deixava 
de se surpreender por ser capaz de, to fcil e inesperadamente, ser levado a quer-la. Mas, o pensamento de Ayla estava em Racer.
     - Pergunto-me quanto tempo levaria para ele se acostumar a carregar alguma coisa. Eu montava Whinney antes de comear a faz-la carregar alguma coisa, ou seja, 
no levou muito tempo. Mas, se ele comeasse com um pequeno fardo, talvez se habituasse mais depressa a levar um cavaleiro mais tarde. Vejamos se encontro alguma 
coisa com que treinar.
     Ela vasculhou a pilha de refugo, tirando peles, algumas cestas, pedras extras que usava para lixar tigelas e ferramentas de britar slex, e as varetas que marcara 
para saber quantos dias passara no vale.
     Fez uma pausa, um instante, segurando uma vareta, e colocou cada dedo de uma das mos sobre as primeiras marcas, como Creb lhe havia mostrado tanto tempo atrs. 
Ela engoliu em seco pensando em Creb. Jondalar havia usado as marcas nas varetas para confirmar o tempo que ela estivera ali, e para ajud-la a colocar, em suas 
palavras de contagem, o nmero de anos de sua vida. Tinha dezessete anos ento, no incio do vero; no fim do inverno ou primavera, teria mais um ano. Ele havia
dito que tinha 21 anos, e rindo, se chamou de velho. Ele iniciara sua jornada h trs anos antes, na mesma poca em que ela deixara o Cl.
     Ela reuniu tudo e se dirigiu para fora, assobiando para que Whinney e Racer seguissem-na. No campo, ambos passaram algum tempo alisando e coando o potro. Depois,
Ayla pegou um couro. 
     Deixou que o animal o cheirasse e mastigasse, e esfregou-o com ele. Em seguida, colocou-o sobre seu lombo, e deixou-o pender. O potro agarrou a ponta do couro 
com os dentes e puxou-o, depois entregou-o a Ayla para brincar um pouco mais. Ela tornou a colocar o couro em seu dorso. Da vez seguinte, Jondalar colocou o couro 
sobre o lombo do animal, enquanto Ayla pegou uma longa tira de couro enroscada e se ocupou com ela, fazendo alguma coisa. Colocaram o couro sobre Racer e deixaram 
que o puxasse mais algumas vezes. Whinney relinchou, bufou, observando com interesse, e recebeu alguma ateno tambm.
     Da vez seguinte em que Ayla colocou o couro sobre Racer, ps tambm uma longa tira de couro, estendeu a mo sob o potro para agarrar a ponta solta, e amarrou 
o couro com ela. Desta vez, quando Racer foi puxar o couro com os dentes, ele no saiu imediatamente. A princpio, ele no gostou e tentou tir-lo corcoveando, mas 
depois encontrou uma ponta solta e comeou a arranc-la com os dentes at pux-la de sob a tira. Ps-se a desloc-la com os dentes at desat-la. Pegou o couro com 
os dentes e deixou-o cair aos ps de Ayla, depois arrancou atira. Ayla e Jondalar riram, enquanto Racer empinava, a cabea erguida, parecendo orgulhoso de si mesmo.
     O potro permitiu que Jondalar amarrasse o couro nele de novo e caminhou com ele no dorso, antes de comear a brincar de pux-lo e tir-lo. Ento, parecia estar 
perdendo o interesse. Ayla amarrou o couro sobre ele de novo e o potro deixou-o ficar enquanto ela o acariciava e lhe falava. Depois, ela estendeu a mo para o mecanismo 
de treinamento que havia construdo, duas cestas amarradas juntas, de modo que pendesssem de ambos os lados, com pedras para adicionar peso, e varas projetando-se 
como as extremidades dianteiras de paus de travois.
     Ela o colocou ao longo do dorso de Racer. Ele abaixou as orelhas e virou a cabea para olhar. No estava acostumado com peso sobre o dorso, mas tinha sido dirigido 
e puxado tantas vezes em sua vida, que estava habituado a sentir alguma presso e peso. No era uma experincia totalmente estranha, porm, mais importante, ele 
confiava na mulher, e sua me tambm. Ela deixou o carregador de cestas no local enquanto acariciava e coava e falava com o potro e, depois, tirou-o com a tira 
e o couro. Ele o cheirou de novo, depois o ignorou.
     - Talvez tenhamos que ficar um dia a mais para que ele se acostume, e ainda repetirei tudo mais uma vez, mas acho que dar certo - disse Ayla, sorrindo de prazer
enquanto voltavam a p  caverna. - Talvez no puxe uma carga sobre paus, como Whinney faz, mas acho que Racer poder carregar alguma coisa sobre o dorso.
     - S espero que o tempo permanea bom por mais alguns dias - disse Jondalar.
     - Se no tentarmos cavalgar, podemos colocar um feixe de feno onde sentamos, Jondalar. Eu o amarrei bem firme - disse Ayla, gritando para o homem que dava uma 
ltima busca  procura de pedras-de-fogo na praia rochosa, abaixo. Os cavalos tambm estavam na praia. Whinney, equipada com a carga do travois e cestas alm de 
um fardo volumoso coberto de pele em sua anca, esperava pacientemente. Racer estava mais arisco em relao s cestas penduradas em seus flancos, e o pequeno fardo 
amarrado sobre seu dorso. Ainda no estava acostumado a carregar qualquer carga, mas o cavalo de estepe era a raa original, um cavalo robusto, resistente, acostumado 
a viver no deserto e excepcionalmente forte.
     - Pensei que fosse trazer cereal para eles. Por que quer feno? H mais capim l fora do que todos os cavalos podem comer.
     - Mas quando neva muito ou, pior, quando o gelo forma uma crosta na superfcie,  difcil para eles chegar ao capim, e cereal demais pode faz-los inchar. E 
bom ter suprimento de feno  mo para alguns dias. Os cavalos podem morrer de fome no inverno.
     - Voc no deixaria aqueles cavalos morrerem de fome, mesmo se tivesse que quebrar o gelo e cortar o capim voc mesma, Ayla - disse Jondalar com uma risada-, 
mas no me importo de andarmos ou montarmos. - Seu sorriso desapareceu ao levantar os olhos para o cu azul, claro. - De qualquer maneira, levaremos mais tempo para 
voltar do que levamos para chegar aqui, com os cavalos carregados como esto.
     Segurando na mo mais trs pedaos das pedras de aparncia incua, Jondalar comeou a subir a trilha escarpada para a caverna. Quando chegou  entrada, encontrou 
Ayla de p, fixando o interior com lgrimas nos olhos. Ele colocou as piritas numa bolsa perto de sua mochila e, em seguida, foi ficar de p ao lado dela.
     - Este era o meu lar - disse ela, vencida pela perda quando a finalidade da mudana lhe ocorreu. 
     - Este era o meu lugar. Meu totem me conduziu para c, deu-me um sinal. - Estendeu a mo para a bolsinha de couro que usava em volta do pescoo. - Eu estava 
s, mas fiz o que queria fazer aqui, e o que tinha que fazer. Agora, o Esprito do Leo da Caverna quer que eu v embora. 
     - Ergueu os olhos para o homem alto, ao seu lado. - Acha que voltaremos, um dia?
     - No - respondeu ele. Havia um tom de depresso em sua voz. Ele olhava a pequena caverna, mas via outro local e outra poca. - Mesmo se voltar ao mesmo local, 
no  o mesmo.
     - Ento, por que voc quer voltar agora, Jondalar? Por que no ficar aqui, tornar-se um Mamutoi?
     - No posso ficar.  difcil de explicar. Sei que no ser o mesmo local, mas os Zelandonii so meu povo. Quero mostrar-lhes as pedras-de-fogo. Quero mostrar-lhes 
como caar com o arremessador de lanas. Quero que vejam o que pode ser feito com o slex que foi aquecido. Todas estas coisas so importantes e valiosas e podem 
trazer muitos benefcios. Quero que meu povo as conhea. - Abaixou o olhar para o solo e sua voz era um sussurro: - Quero que me vejam e achem que valho a pena.
     Ela observou os olhos perturbados, expressivos, e desejou poder remover o sofrimento que via ali.
     - O que eles pensam  to importante? No  mais importante voc saber que tem valor? - disse ela.
     Ento, recordou que o Leo da Caverna era seu totem tambm, escolhido pelo Esprito do animal poderoso exatamente como ela havia sido. Sabia que no era fcil 
viver com um totem poderoso, os testes eram difceis, mas as ddivas e o saber interior sempre valiam a pena. Creb lhe havia dito que o Grande Leo da Caverna nunca 
escolhia algum que no valesse a pena.
     Em vez da mochila menor, de um s ombro dos Mamutoi, colocaram sacos de viagem pesados, semelhantes ao que Jondalar usara antes, destinados ao uso sobre as 
costas, com tiras de couro sobre os ombros. Certificaram-se que os capuzes de suas parkas estavam livres para serem colocados ou tirados. Ayla havia acrescentado 
correias presas  testa, que podiam ser usadas para apoio adicional, se quisessem, embora em geral ela dispensasse a correia em favor do uso da sua funda enrolada 
ao redor da cabea. Seu alimento, materiais para acender um fogo, tenda e peles de dormir estavam guardados dentro.
     Jondalar tambm carregava dois ndulos de slex, de bom tamanho, escolhidos cuidadosamente entre vrios que encontrara na praia, e uma bolsa cheia de pedras-de-fogo. 
Numa ala presa ao seu flanco, ambos carregavam lanas e arremessadores de lanas. Ayla levava vrias pedras de atirar em uma bolsa e, sob a parka, presa a uma tira 
de couro que amarrava ao redor da tnica, estava sua sacola de remdios de pele de lontra.
     O feno que Ayla havia convertido num fardo redondo, encontrava-se amarrado  gua. Ela fez uma avaliao crtica dos dois animais, verificando suas pernas, 
postura, conduta para ter certeza de que no estavam sobre carregados. Com um ltimo olhar do alto da trilha escarpada, comearam a descer o vale extenso. Whinney 
seguindo Ayla, Jondalar puxando Racer por uma corda. Atravessaram o riacho perto das alpondras. Ayla pensou em retirar parte da carga de Whinney para facilitar-lhe 
a subida da encosta de cascalho, mas a gua robusta o fez sem grande dificuldade.
     Uma vez no alto das estepes ocidentais, Ayla seguiu um caminho diferente do da vinda. Ela fez uma curva errada, depois retrocedeu, at encontrar o que procurava. 
Por fim, alcanaram um desfiladeiro emparedado, salpicado por grandes pedras pontiagudas, que tinham sido aparadas de muralhas de granito cristalino pelo gume cortante 
do gelo, do calor e do tempo. Observando Whinney em busca de sinais de nervosismo - o desfiladeiro fora, antes, lar de lees da caverna - avanaram, atrados para 
a encosta de cascalho solto na extremidade distante.
     Quando Ayla os encontrara, Thonolan j estava morto e Jondalar gravemente ferido. Exceto por um pedido ao Esprito do Leo da Caverna para guiar o homem para 
o outro mundo, ela no tivera tempo para ritos fnebres, mas no podia deixar o corpo exposto aos animais predatrios. Ela o arrastara at a extremidade, pegando 
sua lana pesada, do tipo usado pelos homens do Cl, empurrou para o lado uma rocha que reprimia um acmulo de pedras soltas. Ela se angustiara quando o cascalho 
cobriu o corpo ensangentado, sem vida, de um homem que ela no conhecia, e agora, jamais conheceria; um homem como ela, um homem dos Outros.
     Jondalar ficou de p na base da encosta desejando que houvesse alguma coisa que ele pudesse fazer para reconhecer o local onde seu irmo fora enterrado, Talvez 
Doni j o houvesse encontrado, desde que Ela o chamou para Si to cedo, mas ele sabia que Zelandoni tentaria encontrar este local de descanso do esprito de Thonolan, 
e gui-lo, se pudesse. Mas, como ele poderia dizer a ela onde era o local? Ele nem sequer pudera encontr-lo.
     - Jondalar? - disse Ayla. Ele olhou para ela e reparou que ela tinha uma bolsinha de couro na mo. - Voc me disse que seu esprito deveria voltar para Doni. 
No conheo os meios da Grande Me Terra, s conheo o mundo espiritual dos totens do Cl. Pedi ao meu Leo da Caverna para gui-lo at l. Talvez seja o mesmo local, 
ou talvez sua Grande Me saiba sobre esse local, mas o Leo da Caverna  um totem poderoso e seu irmo no est sem proteo.
     - Obrigado, Ayla. Sei que fez o melhor que pde.
     - Talvez voc no compreenda, exatamente como no compreendo Doni, mas o Leo da Caverna  seu totem tambm, agora. Ele escolheu voc, como me escolheu, e marcou 
voc, como me marcou.
     - Voc me disse isso antes. No estou certo do que significa.
     - Ele tinha que escolher voc, quando o escolheu para mim, Somente um homem com um totem do Leo da Caverna  bastante forte para uma mulher com um totem do 
Leo da Caverna, mas existe alguma coisa que voc deve saber. Creb sempre me dizia que no  fcil viver com um totem poderoso. Seu Esprito testar voc, para saber 
se voc tem valor. Ser muito difcil, mas voc ganhar mais do que sabe. - Ela ergueu a bolsinha. - Fiz um amuleto para voc. No precisa us-lo  volta do pescoo, 
como eu fao, mas deve guard-lo com voc. Coloquei um pedao de ocre vermelho nele, assim poder conservar uma parte do seu esprito e uma parte do seu totem, mas 
acho que seu amuleto devia conter mais uma coisa.
     Jondalar franziu a testa. No queria ofend-la, mas no estava certo de querer aquele amuleto do totem do Cl.
     - Acho que devia pegar um pedao de pedra do tmulo de seu irmo. Uma parte do seu esprito ficar com ele, e voc pode levar a pedra de volta a seu povo.
     As rugas de consternao se aprofundaram na testa dele. Depois, de repente, desapareceram. Claro! Aquilo talvez ajudasse Zelandoni a encontrar aquele local 
em um transe. Talvez os totens do Cl valessem mais do que imaginava. Afinal, Doni no criara os espritos de todos os animais?
     - Ayla, como sabe exatamente o que fazer? Como aprendeu tanto onde cresceu? Sim, guardarei isto e porei uma pedra do tmulo de Thonolan na bolsinha - disse 
ele.
     Olhou para a subida ngreme de cascalho solto, contra a muralha em um equilbrio tnue, criada pelas mesmas foras que partiram os blocos e lminas de pedra 
das partes laterais escarpadas do desfiladeiro. De repente, uma pedra, cedendo lugar  fora csmica da gravidade, rolou entre outras e caiu aos ps de Jondalar. 
Ele a pegou. A primeira vista, parecia ser igual aos outros pedaos pequenos de granito partido e rocha sedimentar. Mas quando a virou, ficou surpreso ao ver uma 
opalescncia brilhante onde a pedra se quebrara. Luzes vermelhas faiscantes cintilavam do centro da pedra branca leitosa, e riscas vivas de azuis e verdes danavam 
e resplandeciam ao sol enquanto ele a virava de um lado para o outro.
     - Ayla, veja isto - disse ele, mostrando-lhe o pequeno pedao de opala. - Voc jamais adivinharia, pensaria que era somente uma pedra comum, mas veja aqui, 
onde foi partida. As cores parecem vir do fundo, e so muito vivas. Parece quase ter vida.
     - Talvez tenha, ou talvez seja uma parte do esprito de seu irmo - respondeu ela.
     Um redemoinho de ar frio enroscou-se sob a beira da tenda baixa; um brao exposto foi trazido, rapidamente, para debaixo de uma pele. Uma brisa cortante assobiou 
atravs da abertura; uma ruga de preocupao vincou uma testa adormecida. Uma rajada atingiu a borda da abertura com um estalo agudo e balanou-a para diante e para 
trs, abrindo caminho para correntes de ar que rugiam e que despertaram completamente Ayla e Jondalar, no mesmo instante. Jondalar amarrou a ponta solta embaixo, 
mas o vento, aumentando firmemente com a progresso da noite, tornou o sono inquieto e intermitente enquanto arquejava e gemia, arfava e uivava ao redor do pequeno 
abrigo de couro.
     De manh, lutaram para dobrar o couro da tenda sob o vento tempestuoso e prepararam-se rapidamente, no se dando o trabalho de acender uma fogueira. Em vez 
disso, beberam gua fria do riacho gelado e prximo e comeram alimentos trazidos para a viagem. O vento diminuiu no meio da manh, mas havia uma tenso na atmosfera 
que os fez duvidar de que
     o pior havia passado.
     Quando o vento recomeou, perto do meio-dia, Ayla notou um aroma novo, quase metlico no ar, mais como uma ausncia de odor, do que um odor verdadeiro. Ela 
fungou, voltando a cabea, testando, avaliando.
     - H neve no vento - gritou Ayla para ser ouvida acima do rugido. - Posso cheir-la.
     - O que disse? - perguntou Jondalar, mas o vento fustigou suas palavras e Ayla compreendeu seu significado, mais pelas formas que sua boca tomou quando ele 
falou, do que por ouvi-lo. Ela parou para deix-lo ficar ao seu lado.
     - Posso sentir o cheiro da neve a caminho. Temos que encontrar um lugar onde nos abrigarmos antes de ela chegar - disse Ayla, examinando a extenso ampla, plana, 
com olhar preocupado. - Mas, onde encontraremos abrigo aqui?
     Jondalar estava igualmente preocupado enquanto observava as estepes vazias. Depois, se lembrou do riacho quase congelado perto do local onde tinham acampado 
na noite anterior. Eles no tinham atravessado, o riacho ainda se encontrava  sua esquerda, no importava quanto serpenteasse. Ele se esforou para ver atravs 
da nuvem de poeira, mas nada estava claro. De qualquer maneira, ele se virou para a esquerda.
     - Vamos tentar encontrar aquele riacho - falou. - Talvez haja rvores ou margens altas ao longo dele, que nos daro alguma proteo. - Ayla concordou com um 
gesto de cabea, seguindo-o. Whinney tampouco protestou.
     A qualidade sutil no ar que a mulher havia detectado, e pensado que era odor da neve, fora um aviso preciso. Pouco tempo depois, uma peneira clara pulverulenta 
redemoinhou e soprou em um padro errtico, definindo e dando forma ao vento. Imediatamente, deu lugar a flocos maiores que dificultaram ainda mais a visibilidade.
     Mas quando Jondalar pensou ter visto o contorno de formas indistintas erguendo-se  frente, e parou para tentar decifr-las, Whinney avanou e todos seguiram 
seu comando. As rvores curvadas e um anteparo de moita cerrada marcavam a extremidade de uma cascata. O homem e a mulher podiam agachar-se atrs delas, mas a gua 
continuou descendo a corrente, at alcanarem uma curva onde a gua havia penetrado fundo numa margem de solo firme. L, ao lado da ribanceira baixa, fora da fora 
total do vento, Whinney instigou o potro e ficou de p no exterior para proteg-lo.
     Ayla e Jondalar retiraram depressa os fardos dos animais e armaram sua pequena tenda quase sob os ps da gua. Depois, arrastaram-se para dentro para esperar 
a tempestade.
     Mesmo no abrigo da margem, fora da fora direta do vento, a tempestade ameaava-os. O vendaval atroador soprava de todas as direes ao mesmo tempo, e parecia 
determinado a encontrar um meio de entrar.
     Teve sucesso, muitas vezes. Correntes de ar e rajadas penetraram sob as beiradas ou passaram atravs de rachaduras no couro que cobria a entrada, ou pelo buraco 
para sada da fumaa, onde sua cobertura era amarrada, muitas vezes trazendo neve. A mulher e o homem rastejavam sob as peles para se manterem aquecidos, e falavam. 
Incidentes de sua infncia, histrias, lendas, pessoas que conheceram, costumes, idias, sonhos, esperanas. Jamais pareciam deixar de ter coisas para dizer. Quando 
a noite chegou, partilharam os prazeres e depois dormiram. Num momento, no meio da noite, o vento parou de atacar a tenda.
     Ayla acordou e jazeu com os olhos abertos, examinando o interior obscuro, combatendo um pnico crescente. Ela no se sentia bem, tinha dor de cabea, e a imobilidade 
abafada pesava no ar viciado da tenda. Alguma coisa estava errada, mas ela no sabia o que era. Sentia que a situao era familiar, ou uma lembrana, como se ela 
j houvesse estado ali antes, mas no exatamente isso. Era mais como um perigo que devia reconhecer. Mas o qu? De repente, no suportou mais e sentou-se, puxando 
as cobertas quentes do homem deitado ao seu lado.
     - Jondalar! Jondalar! - Ela o sacudiu, mas no precisava faz-lo. Ele acordou no momento em que ela se sentou de um salto.
     - Ayla! O que ?
     - No sei, alguma coisa est errada!
     - No vejo nada errado - disse ele. No via, mas alguma coisa, obviamente, incomodava Ayla. 
     Ele no estava habituado a v-la to perto do pnico. Em geral ela era to calma, to completamente controlada, mesmo quando se encontrava em perigo iminente. 
Nenhum predador de quatro patas era capaz de trazer um terror to abjeto aos seus olhos. - Por que acha que h alguma coisa errada?
     - Tive um sonho. Estava em um lugar escuro, mais escuro do que a noite, e eu estava com asfixia, 
     Jondalar. No podia respirar!
     Uma expresso conhecida de preocupao se espalhou pelo rosto dele quando olhou ao redor da tenda mais uma vez. No era do temperamento de Ayla amedrontar-se 
tanto; talvez alguma coisa estivesse errada. Estava escuro na tenda, mas no totalmente. Uma luz fraca penetrava. Nada parecia fora do lugar, o vento no havia quebrado 
nada, nem partido nenhuma corda. Na verdade, nem sequer ventava. No havia movimento algum. Tudo estava absolutamente imvel...
     Jondalar afastou as peles, se deslocou at a entrada. Abriu a proteo da tenda, expondo uma parede branca que desmoronou no interior da barraca, mas mostrou 
apenas mais parede branca alm.
     - Estamos enterrados, Jondalar! Estamos enterrados na neve! - Os olhos de Ayla arregalavam-se de pavor e sua voz se partiu com o esforo de tentar mant-la 
sob controle.
     Jondalar estendeu a mo para ela e abraou-a.
     - Est tudo bem, Ayla. Est tudo bem - murmurou, de forma alguma seguro de que estava
     - Est to escuro que no posso respirar!
     Sua voz soou estranha, to distante, como se viesse de muito longe, e ela se tornou flcida em seus braos. Ele a deitou sobre as peles, e notou que seus olhos 
estavam fechados, mas ainda continuava gritando naquela voz distante, estranha, que estava escuro e no podia respirar. Jondalar estava perdido, assustado por ela, 
e temendo-a um pouco. Algo estranho acontecia, uma coisa mais do que seu sepultamento na neve, por mais que isso fosse amedrontador.
     Ele notou sua mochila perto da abertura, parcialmente coberta pela neve, e fixou-a por um momento. De repente, arrastou-se sobre ela. Afastando a neve, sentiu 
a ala lateral de couro e encontrou uma lana. Ficando de joelhos, desatou a cobertura do buraco para fumaa que ficava perto do meio. Com a ponta da lana remexeu 
a neve. Um monte caiu sobre as peles de dormir, e depois a luz do sol e uma rajada de ar fresco atravessaram a pequena tenda.
     A mudana em Ayla foi imediata. Ela relaxou visivelmente e logo abriu os olhos.
     - O que fez? - indagou.
     - Enfiei uma lana atravs do buraco de fumaa e atravessei a neve. Teremos que escavar para sair daqui, mas a neve pode no estar to funda quanto parece. 
- Olhou para ela atentamente, preocupado. - O que aconteceu com voc, Ayla? Fiquei nervoso. Voc repetia que no podia respirar. Acho que desmaiou.
     - No sei, talvez tenha sido a falta de ar puro.
     - No me pareceu to ruim assim, no tive grande dificuldade para respirar. E voc estava realmente com medo. Acho que nunca a vi to assustada.
     Ayla se sentia pouco  vontade diante do interrogatrio dele. Ela se sentia estranha, um pouco tonta ainda, e parecia recordar sonhos desagradveis, mas no 
era capaz de explic-lo.
     - Lembro que, uma vez, a neve cobriu a abertura da pequena caverna em que fiquei quando tive que deixar o cl de Brun. Acordei no escuro e o ar estava viciado. 
Deve ter sido isso.
     - Imagino que isso poderia amedrontar voc, se acontecesse de novo - disse Jondalar, mas de alguma forma, no acreditava naquilo, e Ayla tambm no.
     
     O homem grande, de barba ruiva, ainda estava trabalhando l fora, embora o crepsculo se convertesse rapidamente em escurido. Foi o primeiro a ver a estranha 
procisso no alto da encosta e comeando a descer. Primeiro vinha a mulher, avanando com esforo e cansao atravs da neve funda, seguida por um cavalo cuja cabea 
pendia de exausto, com uma carga no dorso e arrastando o travois atrs de si. O potro, tambm carregando fardos, era conduzido por uma corda puxada pelo homem que 
seguia a gua. Caminhava com mais facilidade, j que a neve fora pisada por aqueles que vinham  frente, embora Jondalar e Ayla tivessem trocado de lugar no trajeto, 
para descansar um ao outro.
     - Nezzie! Esto de volta! - gritou Talut ao comear a subir para encontr-los, e pisar a neve para Ayla, para os ltimos passos da jornada. Ele os conduziu, 
no para a entrada em arco conhecida, na frente, mas para o meio da habitao comunal. Para surpresa dos recm-chegados, havia sido construda uma nova adio  
estrutura durante sua ausncia. Era semelhante  sala da entrada, porm maior. Dali, uma outra entrada se abria, diretamente, para a Fogueira do Mamute.
     - Isso  para os cavalos, Ayla - anunciou Talut quando entraram, com um largo sorriso de auto-satisfao, diante da expresso de incredulidade assombrada de 
Ayla. - Eu sabia, depois daquela ltima tempestade de neve, que um alpendre no seria suficiente. Se voc, e seus cavalos, vo viver conosco, precisvamos de alguma 
coisa mais slida. Acho que devemos chamar o local de fogueira dos cavalos!
     As lgrimas encheram os olhos de Ayla. Ela estava cansadssima, grata por ter chegado, afinal, e se encontrava esmagada. Ningum jamais tivera tanto trabalho 
porque a queria. Enquanto vivera com o Cl nunca se sentira totalmente aceita, nunca sentira que pertencia ao lugar. Estava certa de que jamais teriam permitido 
que ficasse com os cavalos, muito menos, construdo uma casa para eles.
     - Oh, Talut - falou com emoo na voz. Depois, ergueu os braos, passou-os pelo pescoo de Talut e encostou seu rosto frio contra o dele. Ayla sempre parecera 
a ele to reservada, que sua expresso espontnea de afeto foi uma surpresa adorvel. Talut a abraou e deu-lhe tapinhas carinhosos s costas, sorrindo com prazer 
bvio e sentindo-se muito presumido.
     A maioria do Acampamento do Leo se reuniu  volta deles no novo anexo, dando boas-vindas  mulher e ao homem como se ambos fossem membros maduros do grupo.
     - Estvamos ficando preocupados com vocs - disse Deegie -, especialmente depois que nevou.
     - Teramos regressado antes se Ayla no quisesse trazer tanto consigo - disse Jondalar. - Nos ltimos dois dias, no estava certo se conseguiramos chegar.
     Ayla j comeara a descarregar os cavalos, pela ltima vez e, enquanto Jondalar a ajudava, os fardos misteriosos despertavam grande curiosidade.
     - Trouxe alguma coisa para mim? - perguntou Rugie afinal, fazendo a pergunta em que todos pensavam.
     Ayla sorriu para a garotinha.
     - Sim, eu trouxe alguma coisa para todos - respondeu ela, fazendo todos se perguntarem que presente ela havia trazido para cada um deles.
     - Para quem  isso? - perguntou Tusie, quando Ayla comeou a cortar os cordes do pacote maior. Ayla levantou os olhos para Deegie e as duas sorriram, tentando 
no deixar a irm mais nova de Deegie notar sua diverso um pouco benevolente, ao ouvir as inflexes e tom de voz de Tulie na voz da filha mais nova.
     - At trouxe alguma coisa para os cavalos - disse Ayla  menina enquanto cortava as ltimas cordas e o feixe de feno se escancarou. - Isto  para Whinney e 
Racer.
     Depois de espalhar o feno para os animais, comeou a desatar o fardo no travois.
     - Devia levar o resto para dentro.
     - No precisa fazer isso agora - falou Nezzie. - Nem sequer tirou suas roupas de passeio. Venha e beba alguma coisa quente, e coma algo tambm. Tudo ficar 
bem aqui, por enquanto.
     - Nezzie est certa - disse Tulie. Estava to curiosa quanto o resto do acampamento, mas os pacotes de Ayla podiam esperar. - Vocs dois necessitam de descanso 
e devem comer alguma coisa. Parecem exaustos - Jondalar sorriu, grato, para a chefe, quando seguiu Ayla ao interior da moradia.
     De manh, Ayla encontrou muitas mos para ajud-la a levar os fardos para dentro, mas Mamut havia sugerido tranqilamente que ela conservasse seus presentes 
escondidos at a cerimnia daquela noite. Ayla sorriu, concordando, compreendendo rapidamente o elemento de mistrio e expectativa que ele implicava, mas suas respostas 
evasivas s insinuaes de Tulie para que lhe mostrasse o que havia trazido aborreceram a chefe, embora no quisesse demonstr-lo.
     Assim que os fardos e trouxas foram empilhados num dos estrados de cama vazios e as cortinas fechadas, Ayla se arrastou para o espao privado cercado, acendeu 
trs candeias de pedra e espalhou-as para ter boa iluminao, e examinou e arrumou os presentes que trouxera. Fez algumas pequenas mudanas em suas escolhas anteriores, 
acrescentando ou trocando alguns itens, mas quando apagou as candeias e saiu, fechando as cortinas atrs de si, estava satisfeita.
     Saiu pela nova abertura, um espao ocupado antes por uma parte de um estrado-cama sem uso. O cho do novo anexo era mais alto do que o da habitao de terra, 
e trs degraus largos de 10 centmetros de altura tinham sido feitos para um acesso mais fcil. Ela parou para olhar ao redor do anexo. Os cavalos tinham desaparecido. 
Whinney estava acostumada a afastar um protetor contra o vento, de pele, com o focinho, e Ayla s lhe mostrara uma vez como se fazia. Racer aprendeu o truque com 
a me. Obedecendo a uma necessidade impulsiva de ver se os animais estavam bem - como uma me com os filhos, uma parte de sua mente estava sempre ligada aos cavalos 
- a jovem atravessou o espao fechado para a arcada de presa de mamute, empurrou a pesada cortina de pele e olhou para fora.
     O mundo havia perdido toda forma e definio; cor firme, sem sombra ou forma se espalhava atravs da paisagem em dois tons: azul-vivo, vibrante, era o cu sem 
qualquer sinal de nuvem; e branco, da neve completamente alva, refletindo um resplandecente sol de fim de manh. Ayla perscrutou contra o brilho do branco; a nica 
evidncia da tempestade que reinara durante dias. Devagar, enquanto seus olhos se habituavam  claridade, e uma sensao prvia de distncia e profundidade informavam 
sua percepo, os detalhes se encaixaram. A gua, ainda se encrespando no meio do rio, cintilava mais do que as margens brancas cobertas de neve, que se misturavam 
a cacos de gelo brancos, embotados pela neve, nas margens do rio. Perto, misteriosos montes brancos assumiam as formas de ossos de mamute e pilhas de barro.
     Ela avanou alguns passos do lado de fora para verificar na curva do rio onde os cavalos gostavam de pastar, fora do alcance da vista. Estava quente ao sol 
e a superfcie da neve brilhava com um vislumbre de degelo. Os cavalos teriam que escavar a camada profunda, macia e fria para encontrar o capim seco encoberto por 
ela. Quando Ayla se preparava para assobiar, Whinney apareceu, ergueu a cabea e a viu. Relinchou uma saudao enquanto Racer surgiu de trs da me. Ayla retribuiu 
o relincho.
     Quando a jovem deu meia-volta para ir embora, reparou que Talut a observava com uma expresso peculiar, quase de admirao.
     - Como a gua soube que voc tinha sado? - perguntou ele.
     - Acho que no sabia, mas cavalos tm bom olfato, sentem o cheiro longe. Bons ouvidos tambm. Ouvem longe. Ela v tudo o que se move.
     O homem grande concordou com um gesto de cabea. Ela fazia parecer to simples, to lgico, mas ainda assim... Ele sorriu, ento, contente por eles estarem 
de volta. Esperava a adoo de Ayla com ansiedade. Tinha muito a oferecer, seria bem-vinda e valiosa entre as mulheres Mamutoi.
     Ambos voltaram para o novo anexo e, quando entraram, Jondalar apareceu vindo da moradia comunal.
     - Vi que seus presentes esto todos prontos - disse ele, com um largo sorriso enquanto caminhava com passos grandes em sua direo. Gostava da expectativa causada 
pelos misteriosos pacotes de Ayla e de participar da surpresa. Havia ouvido Tulie expressar preocupao sobre a qualidade dos presentes, mas ele no tinha dvidas. 
Seriam incomuns para os Mamutoi, porm, bonito artesanato era bonito artesanato e ele estava certo de que a arte de Ayla seria reconhecida.
     - Todo mundo est se perguntando o que voc trouxe, Ayla - disse Talut. Ele adorava a expectativa e excitao tambm, ou mais do que todos.
     - No sei se meus presentes so satisfatrios - disse Ayla.
     - Claro que so. No se preocupe com isso, O que quer que tenha trazido ser o bastante. Somente as pedras-de-fogo so suficientes. Mesmo sem as pedras-de-fogo, 
somente voc seria suficiente - disse Talut, depois acrescentando com um sorriso: - Dar-nos razo para ter uma grande comemorao poderia ser suficiente!
     - Mas voc diz que h trocas de presentes, Talut. No Cl, para uma troca, tinha que se dar uma coisa do mesmo tipo, do mesmo valor. O que pode ser suficiente 
para dar a voc, a todos, que fizeram este lugar para os cavalos? - disse Ayla, olhando  sua volta. -  como uma caverna, mas vocs fizeram. No sei como as pessoas 
podem fazer uma caverna como esta.
     - Eu tambm j me perguntei sobre isso - disse Jondalar.  Devo confessar que nunca vi nada igual, e j vi muitos abrigos, abrigos de vero, abrigos construdos 
no interior de uma caverna ou sob uma salincia rochosa, mas sua habitao  to slida quanto a prpria rocha.
     Talut riu.
     - Tem que ser, para se viver aqui, especialmente no inverno. Com a fora que o vento sopra, qualquer coisa mais leve seria posta abaixo. - Seu sorriso desapareceu, 
e uma expresso suave de algo prximo ao amor tomou conta de seu rosto. - A terra dos Mamutoi  terra rica, rica em caa, em peixe, em alimentos que crescem.  uma 
terra bonita, forte. Eu no queria viver em outro lugar... - O sorriso voltou. - Mas aqui se precisa de abrigos firmes, e no tem muitas cavernas.
     - Como faz uma caverna, Talut? Como faz um lugar como este? - interrogou Ayla, lembrando-se de como Brun havia procurado a caverna adequada para seu cl, e 
como ela se sentira sem lar at encontrar um vale que tinha uma caverna habitvel.
     - Se quiserem saber, vou contar. No  um grande segredo! - disse Talut, sorrindo com prazer. Estava encantado com a admirao bvia deles. - O resto da habitao 
 feito da mesma maneira, mais ou menos mas, para este acrscimo, comeamos medindo uma distncia a passo, da parede exterior da Fogueira do Mamute. Quando alcanamos 
o centro da rea que achamos ser de bom tamanho, colocamos uma vara no solo... Era ali que seria a lareira, se resolvssemos que precisaramos de um fogo aqui. Depois, 
medimos a mesma distncia com uma corda, amarramos uma ponta  vara, e com a outra ponta marcamos um crculo para saber onde seria a parede.
     Talut demonstrou o que explicava, atravessando a distncia com passos largos e amarrando uma corda imaginria e uma vara no-existente.
     - Em seguida, cortamos a relva e depois a retiramos com cuidado para poup-la e depois escavamos a extenso do tamanho do meu p. - Para esclarecer melhor seus 
comentrios, Talut ergueu um p inacreditavelmente comprido, mas surpreendentemente estreito e bem-feito enfiado em um sapato macio e bem ajustado. - Depois, marcamos 
a largura da bancada... O estrado que pode ser cama ou depsito... E mais espao para a parede. Da orla interior da bancada, escavamos mais fundo, cerca de dois 
ou trs ps meus, para aprofundar o meio para o cho. A terra foi empilhada igualmente em toda a volta, no exterior, em uma borda que ajuda a sustentar a parede.
     -  preciso escavar muito - disse Jondalar, lanando um olhar ao recinto. - Eu diria que a distncia de uma parede  outra , talvez, de trinta ps seus, Talut.
     Os olhos do chefe se arregalaram, surpresos.
     - Tem razo! Medi exatamente isso. Como descobriu?
     - Um palpite apenas - disse Jondalar, dando de ombros.
     Era mais que um palpite era outra manifestao de sua compreenso instintiva do mundo fsico. 
     Ele podia julgar exatamente  distncia apenas com os olhos, e media o espao com as dimenses do prprio corpo. Conhecia a extenso do seu passo e a largura 
de sua mo, o alcance do seu brao e do seu palmo; podia calcular uma frao contra a espessura do polegar, ou a altura de uma rvore atravessando sua sombra ao 
sol. No era uma coisa que soubesse ser um dom com que nascera e desenvolvera com o uso. Nunca lhe ocorreu questionar aquilo.
     Ayla tambm pensou que era muita escavao. Ela havia escavado sua parte de armadilhas e conhecia o trabalho envolvido, e estava curiosa.
     - Como cava tanto, Talut?
     - Como a pessoa cava? Usamos picaretas para romper o barro, ps para retir-lo, exceto a relva compacta da superfcie. Ns a cortamos com a borda aguada de 
um osso achatado.
     Sua expresso intrigada deixava claro que ela no entendera. Talvez desconhecesse as palavras para as ferramentas na lngua dele, pensou Talut e, saindo pela 
porta, voltou com alguns implementos. Todos tinham cabos compridos. Um tinha um pedao de osso de costela de mamute preso a ele, tendo sido raspado at formar uma 
ponta aguada em uma extremidade. Parecia uma enxada com uma comprida lmina curva. Ayla examinou-a cuidadosamente.
     - Acho que  como um pau de escavar  disse, ela, olhando para Talut em busca de confirmao.
     Ele sorriu.
     - Sim,  uma picareta. s vezes tambm usamos paus pontudos de cavar. So mais fceis de fazer quando se est com pressa, mas a picareta  mais fcil de usar.
     Depois, ele mostrou-lhe uma enxada feita da larga disposio palmada de um chifre gigante de um megcero, partido no sentido do comprimento atravs do centro 
mole, depois moldado e aguado. Utilizavam os chifres de animais novos; os chifres de um veado maduro gigante podiam atingir 3,3 metros de comprimento, e eram grandes 
demais. O cabo estava preso por meio de uma corda forte enfiada em trs partes de buracos abertos no centro. Era um implemento usado com o lado esponjoso para baixo, 
no para escavar, mas para retirar e jogar fora o bom solo de loesse solto pela picareta ou, se quisessem, para a neve. Ele tambm tinha uma segunda enxada, com 
uma forma mais de concha, feita da parte exterior de marfim lascado de uma presa de mamute.
     - So enxadas - disse Talut, dizendo-lhe o nome. Ayla sacudiu a cabea, concordando. Ela havia usado pedaos achatados de osso e chifres quase da mesma forma, 
mas suas enxadas no tiveram cabos. - Estou contente porque o tempo permaneceu bom durante certo perodo depois que vocs partiram - continuou o chefe. - Se estivesse 
como agora, no teramos escavado tanto. O terreno j est duro sob a superfcie. Ano que vem, poderemos cavar mais fundo e fazer alguns buracos de estocagem tambm, 
talvez at um banho de vapor quando voltarmos da Reunio de Vero.
     - No iam caar novamente, quando o tempo melhorasse? - indagou Jondalar.
     - A caada ao biso foi muito bem-sucedida, e Mamut no tem tido muita sorte na Busca. Tudo que ele parece encontrar so os poucos bises que perdemos, e no 
vale a pena ir atrs deles. 
     Resolvemos fazer o anexo, em vez disso, para construir um lugar para os cavalos, j que Ayla e sua gua eram to teis.
     - Picareta e enxada facilitam, Talut, mas  trabalho... Muita escavao - disse Ayla surpresa e um pouco conquistada.
     - Tivemos muita gente trabalhando, Ayla. Quase todos acharam que era uma boa idia e quiseram ajudar... A lhe dar boas-vindas.
     A jovem sentiu uma sbita onda de emoo e fechou os olhos para controlar as lgrimas de gratido que ameaavam cair. Jondalar e Talut notaram e viraram para 
o lado por considerao.
     Jondalar examinou as paredes, ainda intrigado com a construo.
     - Parece que escavaram tambm entre o estrado - comentou.
     - Sim, para os principais esteios - disse Talut, apontando para seis enormes presas de mamute, encravadas na base com ossos menores - partes de espinhas dorsais 
e falanges - com suas pontas apontadas para o centro Estavam colocados a intervalos regulares ao redor da parede, de ambos os lados dos dois pares de presas de mamute, 
que eram usadas para as entradas em arco. As presas fortes, longas e curvas eram os principais elementos estruturais da habitao.
     Quando Talut, dos Caadores de Mamutes, continuou a descrever a construo da habitao de terra parcialmente subterrnea, Ayla e Jondalar se tornaram ainda 
mais impressionados. Era muito mais complexa do que tinham imaginado. A meio caminho entre o centro e os suportes de parede de presas, havia seis estacas de madeira 
- rvores pontiagudas, desprovidas de casca e bifurcadas no alto. Em volta do exterior do anexo, fixados contra o fundo da borda, crnios de mamute permaneciam eretos 
no solo, escorados por omoplatas, ilacos, ossos da espinha dorsal e vrios ossos longos estrategicamente colocados, pernas e costelas. A parte superior da parede, 
consistindo principalmente de omoplatas, ilacos e presas menores de mamute, unia-se no telhado que era sustentado por vigas de madeira estendidas atravs e entre 
o crculo externo de presas, e o crculo interior de estacas. O mosaico de ossos, todos escolhidos deliberadamente e alguns ajustados at a forma conveniente, era 
encravado e golpeado sobre as presas robustas, criando uma parede curva que se unia como peas engatadas de um quebra-cabeas.
     Havia madeira disponvel de vales  beira de rios, mas os ossos de mamute eram em maior suprimento para os fins de construo. Os mamutes que eles caavam, 
porm, contriburam somente com pequena poro dos ossos usados. A grande maioria de seus materiais de construo era selecionada de uma pilha de ossos na curva 
do rio. Alguns ossos vinham mesmo de carcaas, despojadas por animais que se alimentavam de carnia, encontradas nas estepes prximas, mas os pastos abertos eram 
mais importantes para fornecer materiais de outra variedade.
     A cada ano, os rebanhos migratrios de renas deixavam cair seus chifres para dar lugar aos do ano seguinte, e todos os anos eram ajuntados. Para completar a 
moradia, os chifres das renas eram unidos uns aos outros a fim de fazer um vigamento forte de suportes entrelaados para um telhado abobadado, deixando no centro 
uma abertura para a fumaa sair.
     Depois, galhos de salgueiros do vale do rio eram amarrados juntos, formando um capacho espesso que era colocado em toda a extenso preso seguramente sobre e 
ao redor dos chifres, e revestindo a parede de osso a fim de criar uma base vigorosa sobre o telhado e a parede. Em seguida, um telhado de capim ainda mais espesso, 
sobreposto para desviar a gua, era preso aos salgueiros, at o solo. No topo do telhado de capim, havia uma camada de relva compacta. Parte da relva vinha do solo 
que tinha sido escavado para o acrscimo, e parte da terra prxima.
     As paredes de toda a estrutura eram de 60 a 90 centmetros de espessura, mas uma camada final de material permanecia para completar o anexo.
     Estavam de p do lado de fora, admirando a nova estrutura, quando Talut terminou sua explicao detalhada da construo da habitao de terra.
     - Eu esperava que o tempo melhorasse - disse ele, fazendo um gesto amplo em direo ao cu azul-claro. - Precisamos terminar isto. Sem terminar, no estou certo 
de quanto tempo durar.
     - Quanto tempo dura uma habitao? - perguntou Jondalar.
     - O tempo que eu viver, s vezes mais. Mas habitaes de terra so casas de inverno. Em geral, partimos no vero, para a Reunio de Vero e a grande caa ao 
mamute, e outras viagens. O vero  para viajar, reunir plantas, caar ou pescar, negociar ou visitar. Deixamos a maior parte de nossas coisas aqui quando partimos, 
porque voltamos todos os anos. O Acampamento do Leo  nosso lar.
     - Se espera que esta parte seja o lar dos cavalos de Ayla por muito tempo, ento,  melhor terminarmos enquanto temos chance - interrompeu Nezzie. Ela e Deegie 
pousaram a grande e pesada pele com gua que tinham trazido do rio parcialmente congelado.
     Ranec chegou, ento, carregando ferramentas de escavar e arrastando uma grande cesta cheia de terra molhada compacta.
     - Nunca ouvi falar de ningum construindo uma moradia, ou mesmo parte dela, to no fim da estao  disse, ele.
     Barzec estava exatamente atrs dele.
     - Ser um teste interessante - falou, pousando uma segunda cesta de lama escorregadia, que tinham escavado de um determinado local ao longo da margem do rio. 
Danug e Druwez apareceram ento, cada um carregando cestas adicionais da lama mida.
     - Tronie fez um fogo - disse Tulie, pegando a pesada pele de gua trazida por Nezzie e Deegie, sozinha. - Tornec e alguns outros esto em pilhando neve para 
derreter, assim que tivermos a gua quente.
     - Quero ajudar - disse Ayla, perguntando-se que auxlio poderia prestar. Todos pareciam saber exatamente como agir, mas ela no fazia idia alguma do que acontecia, 
muito menos o que poderia fazer para ajudar.
     - Sim, podemos ajudar? - perguntou Jondalar.
     - Claro,  para o cavalo - comentou Deegie -, mas deixe-me dar alguma coisa minha, velha, para voc usar, Ayla. E um trabalho confuso. Talut ou Danug tm algo 
para Jondalar?
     - Encontrarei alguma coisa para ele - disse Nezzie.
     - Se estiverem to dispostos a ajudar depois que terminarmos, podem vir e auxiliar a construir a nova moradia que Tarneg e eu faremos para iniciar nosso acampamento... 
Depois que eu me unir a Branag - acrescentou Deegie, sorrindo.
     - Algum acendeu fogos nos banhos de vapor? - perguntou Talut.
     - Todos querero limpar-se depois disto, especialmente se vamos ter uma celebrao esta noite.
     - Wymez e Frebec os acenderam esta manh. Esto arranjando mais gua agora - disse Nezzie. 
     - Crozie e Mamut saram com Latie e as crianas para conseguir ramos frescos de pinheiro, a fim de que os banhos tenham um aroma gostoso. Fralie tambm queria 
ir, mas no gostei da idia de ela subindo e descendo colinas. Assim, perguntei-lhe se podia tomar conta de Rydag. Ela est vigiando Hartal tambm. Mamut est ocupado 
preparando alguma coisa para a cerimnia desta noite tambm. Tenho a impresso de que ele est planejando algum tipo de surpresa.
     - Oh... Mamut me pediu, quando eu saa, para dizer que os sinais so favorveis para uma caada dentro de poucos dias, Talut. Ele quer saber se voc deseja 
que ele faa uma Busca - falou Barzec.
     - Os sinais so favorveis para uma caada - disse o grande chefe.
     - Vejam esta neve! Macia no subsolo, derretendo na superfcie. Se conseguirmos um bom congelamento, ter uma crosta de gelo, e os animais sempre ficam presos 
quando a neve est nesta condio. Sim, acho que seria uma boa idia.
     Todos tinham caminhado em direo  lareira, onde uma grande pele, cheia com gua gelada do rio, havia sido apoiada sobre uma armao diretamente sobre as chamas. 
A gua do rio era apenas para iniciar o processo de derretimento da neve que estava depositada. Enquanto derretia, cestas de gua eram tiradas e derramadas em outra 
pele grande, manchada e suja que revestia uma depresso no terreno. A terra especial tirada de uma margem do rio era acrescentada e misturada  gua para formar 
uma massa espessa de argila macia e viscosa.
     Vrias pessoas subiram no topo do anexo novo, recm-coberto de relva, com cestas  prova dgua da melhor lama, macia e fluida e, com conchas, comearam a derram-la 
pelos lados. Ayla e Jondalar observavam, e logo se reuniram aos outros. Mais pessoas, no cho, espalhavam a lama certificando-se de que toda a superfcie possua 
uma camada espessa.
     A argila lisa e firme, lavada e convertida em pequenas partculas pelo rio, no absorveria gua. Era impermevel. Chuva, granizo ou neve derretida, nada podia 
penetrar. Era impermevel, mesmo molhada.  medida que secava, e com uso prolongado, a superfcie se tornava bastante dura e era usada com freqncia como um local 
acessvel de estocagem de objetos e implementos. Quando o tempo estava agradvel, era um local onde repousar, visitar, expor-se em discusso em voz alta, ou sentar-se 
tranqilamente e meditar. As crianas subiam quando os visitantes chegavam, para observar sem estarem no caminho e todos usavam o poleiro quando se precisava de 
uma audincia ou havia alguma coisa para ver.
     Misturaram mais argila e Ayla carregou uma cesta pesada para cima, derramando-a sobre a borda e salpicando-se. No importava, ela j estava coberta de lama, 
como todo mundo. Deegie tinha razo, era um trabalho sujo. Quando terminaram os lados, afastaram-se da borda e comearam a revestir o topo, mas quando a superfcie 
da abbada foi coberta por lama molhada e escorregadia, tornou-se traioeiro caminhar ali.
     Ayla derramou a ltima lama de sua cesta e observou-a escorregar de vagar para o solo. Virou-se para ir embora, sem olhar com cuidado onde pisava. Antes que 
se desse conta, seus ps deslizaram. Ela caiu com um chape na argila fresca e macia que acabara de derramar, e foi resvalando e escorregando sobre a borda arredondada 
do telhado e pela parte lateral do anexo para os cavalos, soltando um grito involuntrio.
     No instante seguinte, encontrou-se segura por braos fortes exatamente quando atingia o solo e, surpresa, olhou para o rosto sorridente, salpicado de lama de 
Ranec.
     - Essa  uma maneira de espalhar a lama na parte lateral - disse ele, firmando-a, enquanto ela recuperava o equilbrio. Depois acrescentou, ainda segurando-a: 
- Se quiser repetir esperarei por voc aqui.
     Ela sentiu calor no local em que ele tocava a pele fria do seu brao, e estava inteiramente consciente do corpo do homem pressionando contra ela. Seus olhos 
escuros, brilhantes e penetrantes, estavam cheios de um anseio que provocava uma resposta espontnea do mago de sua feminilidade. Ela tremeu de leve e sentiu o 
rosto corar antes de baixar os olhos, e depois se afastar do seu toque.
     Ayla lanou um olhar a Jondalar, confirmando o que esperava ver. Ele estava zangado. Seus punhos estavam apertados e as tmporas palpitando. Ela desviou o olhar 
rapidamente. Agora, compreendia um pouco mais a clera de Jondalar, entendendo que era uma expresso do medo do homem - temor de perda, temor de rejeio - mas ela 
sentiu uma ponta de irritao diante da reao dele, apesar de tudo. No pde evitar o escorrego, e era grata por Ranec ter estado ali, casualmente, para segur-la. 
Corou de novo, lembrando-se de sua resposta ao toque demorado do homem. Tambm no pudera evitar aquilo.
     - Venha, Ayla - disse Deegie. - Talut falou que  suficiente e que os banhos de vapor esto quentes. Vamos limpar esta lama e nos aprontarmos para a celebrao. 
E para voc.
     As duas jovens entraram na habitao de terra atravs do novo anexo. Quando chegaram  Fogueira do Mamute, Ayla se virou, de repente, para a outra mulher.
     - Deegie, o que  banho de vapor?
     - Nunca tomou um?
     - No - respondeu Ayla, balanando a cabea.
     - Oh, voc adorar! Tambm pode tirar as roupas enlameadas na Fogueira dos Auroques. Em geral, as mulheres usam o banho de vapor dos fundos. Os homens gostam 
deste. - Quando falou, indicou uma arcada alm da cama de Manuv enquanto atravessavam a Fogueira da Rena e entravam na Fogueira da Gara.
     - No  para estocagem?
     - Achou que todos os recintos laterais eram para estocagem? Imagino que no poderia saber, no ? Voc parece to parte de ns que  difcil lembrar que realmente 
no est aqui h tanto tempo assim. - Ela parou, ento, e virou-se para Ayla. - Estou contente porque ser um de ns, acho que voc estava destinada a isso.
     Ayla sorriu timidamente.
     - Tambm estou contente, e feliz por voc estar aqui, Deegie. E bom conhecer mulher... jovem.., como eu.
     Deegie sorriu tambm.
     - Eu sei. Gostaria que voc tivesse vindo antes. Irei embora depois do vero. Quase detesto ir. Quero ser chefe do meu prprio acampamento, como minha me, 
mas sentirei falta dela e de voc, e de todos.
     - Vai para muito longe?
     - No sei, no resolvemos ainda - respondeu Deegie.
     - Por que ir para longe? Por que no construir uma moradia nova aqui perto?
     - No sei. A maioria das pessoas no faz isso, mas acho que eu poderia fazer. No pensei nisso - disse Deegie, com uma estranha expresso de surpresa. Depois, 
quando chegaram  ltima fogueira da habitao comunal, ela ajuntou: - Tire essas roupas sujas e deixe-as empilhadas aqui.
     Deegie e Ayla despiram as roupas enlameadas. Ayla podia sentir o calor irradiando-se de trs de uma cortina de couro vermelho, suspensa de uma arcada bastante 
baixa de presa de mamute, na parede mais ao fundo da estrutura. Deegie se agachou e entrou primeiro. Ayla a seguiu, mas parou um instante antes de entrar com a cortina 
afastada para um lado, tentando ver o interior.
     - Entre depressa e feche a cortina! Est deixando o calor escapar! - gritou uma voz do interior fumegante, fracamente iluminado, um pouco enfumaado.
     Ela se apressou, deixando a cortina cair em seu lugar atrs dela, mas em vez de frio, sentiu o calor assalt-la. Deegie conduziu-a por uma escada rstica feita 
de ossos de mamute, colocada contra a parede de barro de uma escavao que tinha cerca de 90 cm de profundidade. Ayla ficou de p no fundo, sobre um cho coberto 
por uma pele macia, profundamente estacada, esperando que seus olhos se adaptassem, depois olhou ao redor. O espao que havia sido escavado era de cerca de dois 
metros de largura e trs de comprimento. Consistia de duas partes circulares unidas, cada uma com um teto abobadado baixo - de onde ela estava em p, cerca de apenas 
7 ou 10 centmetros acima de sua cabea.
     Carves quentes de osso espalhados pelo cho da parte maior brilhavam intensamente. As duas jovens atravessaram a porta menor para se reunirem s outras e Ayla 
viu que as paredes, eram cobertas por peles e o cho do espao maior era revestido com ossos de mamute espaados cuidadosamente. Dava-lhes um local para caminhar 
acima dos pedaos de carves ardentes. Mais tarde, quando derramaram gua no cho para fazer vapor, ou para lavar, a gua escorreu para a terra abaixo dos ossos, 
o que mantinha os ps acima da lama.
     Havia mais carves empilhados na lareira, no centro. Eles forneciam calor e a nica fonte de luz, exceto um esboo desmaiado de luz do dia ao redor do buraco 
de fumaa coberto. Mulheres nuas encontravam-se ao redor da lareira, sentadas em bancos improvisados, feitos de ossos achatados estendidos atravs de outros suportes 
de osso de mamute. Recipientes de gua se alinhavam ao longo de uma parede. Cestas grandes, fortes, entrelaadas, impermeveis, continham gua fria, enquanto o vapor 
vinha dos estmagos de grandes animais sustentados por armaes de chifres. Algum pegou uma pedra em brasa da lareira com dois ossos chatos e deixou-a cair em um 
dos estmagos cheios de gua. Uma nuvem de vapor com aroma de pinheiro se elevou e envolveu o recinto.
     - Aqui, sente-se entre Tulie e eu - disse Nezzie, movendo seu corpo robusto para um lado, e abrindo espao. Tulie se afastou para o lado oposto. Era uma mulher 
grande tambm, mas a maior parte do seu tamanho era pura massa muscular, embora sua forma feminina plena no deixasse dvidas quanto ao seu sexo.
     - Quero tirar um pouco de lama primeiro - disse Deegie. - Provavelmente, Ayla tambm quer. 
     Viram quando ela escorregou?
     - No. Voc se machucou, Ayla? - perguntou Fralie, parecendo preocupada e levemente pouco  vontade com sua gravidez adiantada.
     Deegie riu antes que Ayla pudesse responder.
     - Ranec a pegou e no pareceu infeliz a respeito, tampouco. - Houve sorrisos e gestos aprovadores de cabea.
     Deegie pegou uma bacia de crnio de mamute, misturou gua quente e fria nela, tirando acidentalmente um ramo de pinheiro da gua quente e de um montculo escuro, 
uma substncia mole, separando um punhado para Ayla e outro para si mesma.
     - O que  isto? - perguntou Ayla, sentindo a textura luxuriosamente macia e sedosa do material.
     - L de mamute - disse Deegie. - O plo oculto que desenvolvem no inverno. Eles o perdem em grandes maos, toda primavera, atravs do comprido plo exterior. 
Fica preso em arbustos e rvores. s vezes, voc pode encontr-lo no solo. Mergulhe na gua e use para retirar a lama.
     O cabelo tambm est enlameado - disse Ayla -, deve ser lavado.
     - Lavaremos mais tarde, depois de suar um pouco.
     Lavaram-se em ondas de vapor, depois Ayla se sentou entre Deegie e Nezzie. Deegie se recostou e fechou os olhos, suspirando satisfeita, mas Ayla, perguntando-se 
por que elas estavam sentadas juntas, suando, observou todas no recinto. Latie, sentada do lado oposto a Tulie, sorriu para ela. Ayla lhe retribuiu o sorriso.
     Houve movimento  entrada. Ayla sentiu um vento frio e compreendeu como ela estava quente. Todas olharam para ver quem chegava. Rugie e Tusie desceram, seguidas 
por Tronie, segurando Nuvie.
     - Tive que amamentar Hartal - disse Tronie. - Tornec queria lev-lo para um banho de vapor e eu no o queria bisbilhotando.
     Ayla se perguntou se no havia permisso para os homens irem ali, nem mesmo os bebs machos?
     - Todos os homens esto no banho de vapor, Tronie? Talvez eu deva ir buscar Rydag - falou Nezzie.
     - Danug o levou. Acho que os homens decidiram que queriam todos os machos desta vez - disse Tronie. - Mesmo as crianas.
     - Frebec levou Tasher e Crisavec - disse Tusie.
     - J  hora de ele se interessar mais por aqueles meninos - resmungou Crozie. - No foi essa a nica razo por que voc se uniu a ele, Fralie?
     - No, me, no foi  nica razo.
     Ayla ficou surpresa. Jamais ouvira Fralie discordar da me antes, mesmo brandamente. Ningum mais pareceu notar. Talvez ali, com as outras mulheres, Fralie 
no tivesse que se preocupar sobre tomar partido. Crozie estava sentada de olhos fechados, recostada; era surpreendente como a filha se parecia com ela. Na verdade, 
parecia-se demais. Exceto pela barriga de mulher grvida, Fralie estava to magra que era quase como se tivesse a idade da me, observou Ayla. Seus tornozelos estavam 
inchados. Isso no era bom sinal. Ela gostaria de poder examinar Fralie. Depois, compreendeu que talvez pudesse faz-lo, ali.
     - Fralie, os tornozelos incham muito? - perguntou, um pouco hesitante. Todas se sentaram, eretas, esperando a resposta de Fralie, como se compreendessem, de 
repente, o que acabara de ocorrer a Ayla. At Crozie observou a filha sem dizer palavra.
     Fralie abaixou os olhos para os ps, parecendo examinar os tornozelos inchados, refletindo. Ento, ergueu a cabea.
     - Sim, tm inchado ultimamente - respondeu.
     Nezzie soltou um suspiro de alvio audvel, alvio que todas as outras sentiram.
     - Ainda sente enjo de manh? - perguntou Ayla, inclinando-se para frente.
     - No fiquei to enjoada assim com os dois primeiros.
     - Fralie... Deixaria que eu examinasse voc?
     Fralie olhou para as mulheres, ao seu redor. Ningum disse uma palavra. Nezzie sorriu e sacudiu a cabea afirmativamente para ela, insistindo, em silncio, 
para que concordasse.
     - Muito bem - disse Fralie.
     Ayla se levantou depressa, examinou os olhos de Fralie, sentiu o cheiro de seu hlito, tocou-lhe a testa. Estava escuro demais para ver muita coisa, e quente 
demais no banho de vapor para perceber febre.
     - Quer deitar? - pediu Ayla.
     Todas saram do caminho para dar lugar a Fralie. Ayla a apalpou e ouviu, e examinou com meticulosidade e conhecimento bvio, enquanto as outras observavam com 
curiosidade.
     - Acho mais doente do que de manh - falou Ayla quando terminou. - Posso preparar alguma coisa, ajudar o alimento  no subir e voc se sentir melhor. Ajudar 
a inchao. Voc vai tomar?
     - No sei - respondeu Fralie. - Frebec vigia tudo o que como. Acho que est preocupado comigo, mas no quer confessar isso. Ele perguntar o que .
     Crozie estava sentada de lbios apertados, reprimindo claramente as palavras que queria dizer, temendo que, se o fizesse, Fralie tomasse o partido de Frebec 
e recusasse a ajuda de Ayla. Nezzie e Tulie se entreolharam. No era do temperamento de Crozie treinar tanto autocontrole.
     Ayla sacudiu a cabea afirmativamente:
     - Acho que sei um meio.
     - No sei sobre o resto de vocs, mas estou pronta para me limpar e sair - disse Deegie. - O que acha de um rpido mergulho na neve agora, Ayla?
     - Acho que seria bom. Estou quente.
     Jondalar abriu as cortinas que pendiam fechadas em frente ao estrado-cama que ele dividia com Ayla, e sorriu. Ela estava sentada, com as pernas cruzadas, totalmente 
nua, a pele rosada e brilhante, escovando o cabelo molhado.
     - Sinto-me muito bem - disse ela, sorrindo tambm. - Deegie disse que eu adoraria o banho de vapor. Voc gostou?
     Ele subiu na cama ao lado dela, deixando a cortina cair. Sua pele tambm estava rosada e brilhante, mas ele acabava de se vestir e havia penteado e amarrado 
o cabelo em uma dava na parte de trs do pescoo. O banho de vapor fora to repousante que ele at pensara em se barbear, mas apenas aparara a barba, em vez disso.
     - Sempre gosto deles - disse ele. Depois, no pde resistir. Tomou-a nos braos, beijou-a e comeou a acariciar-lhe o corpo clido. Ela respondeu ansiosamente, 
entregando-se ao abrao dele e Jondalar ouviu um gemido baixo, quando se inclinou para tomar um mamilo na boca.
     - Grande Me, mulher, voc  tentadora - disse ele ao recuar. - Mas o que diro as pessoas quando comearem a chegar na Fogueira do Mamute para sua adoo e 
nos encontrarem partilhando prazeres em vez de estarmos vestidos e prontos?
     - Podamos dizer para que voltassem depois - retrucou ela com um sorriso.
     Jondalar riu alto.
     - Acredito que voc diria, no  mesmo?
     - Bem, voc me deu o sinal, no foi? - disse ela com um sorriso malicioso.
     - Meu sinal?
     - Voc lembra. O sinal que um homem d a uma mulher quando ele a quer. Voc disse que eu sempre saberia, depois me beijou e me tocou assim. Bem, acabou de me 
dar seu sinal e, quando um homem d o seu sinal, uma mulher do Cl nunca recusa.
     -  realmente verdade que ela nunca recusa? - perguntou ele, ainda no totalmente capaz de acreditar.
     -  isso que ensinam a ela, Jondalar.  assim que se comporta uma mulher digna do Cl - respondeu ela, com uma seriedade perfeitamente normal.
     - Hum, quer dizer que a escolha  minha? Se eu dissesse vamos ficar aqui e partilhar prazeres, voc faria todos esperarem? - Ele tentava ficar srio, mas os 
olhos piscavam com deleite pelo que considerava a brincadeira particular dos dois.
     - Somente se me der o sinal - replicou ela, no mesmo tom.
     Ele a tomou nos braos e beijou-a de novo e, sentindo sua pele clida e uma resposta mais entusiasmada, quase sentiu a tentao de descobrir se ela brincava 
ou se realmente falava a srio, mas soltou-a com relutncia.
     - No se trata do que eu preferia fazer, mas acho melhor deixar voc se vestir. As pessoas estaro aqui breve, O que vai usar?
     - No tenho nada, realmente, exceto alguns agasalhos do Cl e o traje que tenho usado, e um par extra de leggings. Gostaria de ter. Deegie me mostrou o que 
vai vestir.  to bonito, nunca vi nada igual. Ela me deu uma de suas escovas depois que comecei a escovar o cabelo com cardo - disse Ayla, mostrando a Jondalar 
a escova dura de plo de mamute, enrolada apertadamente em uma extremidade com couro cru para formar o cabo, dando-lhe a forma de uma escova larga e afilada. 
     - Ela me deu alguns fios de contas e conchas tambm. Acho que vou usar no cabelo, como ela faz.
     -  melhor deixar que se apronte disse Jondalar, abrindo a cortina para sair. Inclinou-se para beij-la de novo, depois se levantou. Quando a cortina se fechou, 
ele ficou parado, fitando-a um pouco e uma ruga apareceu em sua testa. Ele gostaria de ter podido ficar com ela, e no ter que se preocupar com outras pessoas. Quando 
estavam no vale de Ayla, podiam fazer o que queriam, sempre. E ela no estaria se preparando para ser adotada por pessoas que viviam to longe do seu lar. E se ela 
quisesse permanecer ali? Ele tinha uma impresso angustiante que, depois daquela noite, nada seria igual.
     Ao se virar para afastar-se, Mamut o viu e o chamou. O jovem alto caminhou em direo ao velho feiticeiro.
     - Se no estiver ocupado, gostaria de sua ajuda - disse Mamut.
     - Ficarei contente em ajudar. O que posso fazer? - perguntou Jondalar.
     Mamut lhe mostrou quatro estacas compridas tiradas do fundo de um estrado de estocagem. 
     Examinando mais de perto, Jondalar viu que no eram de madeira, mas de marfim slido; presas curvas de mamute que tinham sido moldadas e endireitadas. Depois, 
o velho lhe deu uma marreta grande, com cabo, de pedra. Jondalar parou para examinar a ferramenta pesada parecida com um martelo, j que nunca havia visto uma igual 
antes. Era totalmente revestida de couro. Podia sentir que um entalhe circular havia sido chanfrado ao redor da grande pedra e que um junco flexvel de salgueiro 
fora enrolado ao redor do entalhe, depois preso a um cabo de osso. Toda a marreta fora envolvida, ento, com couro molhado, no-curtido, que tinha sido apenas raspado 
para limpar. O couro cru encolhia ao secar, encerrando tanto o cabo quanto a marreta de pedra em couro resistente e duro, mantendo-os assim firmemente unidos.
     O feiticeiro o conduziu em direo ao buraco do fogo e, erguendo uma esteira de capim, mostrou-lhe uma escavao, com cerca de 15 centmetros de largura, cheia 
de pequenas pedras e pedaos de osso. Eles os retiraram. Depois, Jondalar trouxe uma das estacas de marfim e enfiou a extremidade na abertura. Enquanto Mamut a mantinha 
ereta, Jondalar empilhou as pedras e ossos ao redor da estaca, firmando-os solidamente com a marreta de pedra. Quando a estaca se encontrava firmemente cravada no 
solo, colocaram outra, e depois outra, em um arco  volta, mas de alguma forma distante, da lareira.
     Ento o velho pegou um pacote e cuidadosamente, com reverncia, desembrulhou-o e retirou uma folha bem enrolada de um material fino, membranoso, de um tipo 
semelhante ao papel vegetal. Quando se abriu, Jondalar viu que vrios animais - um mamute, aves, e um leo da caverna, entre outros - e estranhos desenhos geomtricos 
tinham sido pintados nele. Eles o prenderam em volta das estacas erguidas de marfim, criando uma tela pintada translcida, afastada da fogueira. Jondalar recuou 
alguns passos para captar o efeito global; depois, examinou mais de perto, curioso. Os intestinos, depois de abertos, limpos e secos eram geralmente translcidos, 
mas aquela tela era feita de alguma outra coisa. Ele pensou saber de que material era, mas no estava seguro.
     - A tela no  feita de intestinos, ? Teriam que ser costurados juntos e aquela  uma nica pea. 
     O Mamut concordou com um gesto de cabea.
     - Ento, tem que ser a camada de membrana, da parte interior da pele de um animal muito grande, de alguma forma removida inteira.
     O velho sorriu.
     - Um mamute - falou. - linda fmea branca de mamute.
     Os olhos de Jondalar se arregalaram e ele tornou a olhar para a tela com assombro.
     - Cada acampamento recebeu uma parte da fmea branca, desde que ela entregou seu esprito durante a primeira caada de uma Reunio de Vero. A maioria dos acampamentos 
queria alguma coisa branca. Pedi esta, que chamamos de pele irreal. Tem menos substncia que qualquer das peas brancas e no pode ser exibida para que todos vejam 
seu poder bvio, mas acredito que o que  sutil pode ser mais poderoso. Este  mais que um pequeno pedao, este cercou o esprito interior do todo.
     Brinan e Crisavec irromperam, de repente, no espao, no meio da Fogueira do Mamute, descendo correndo do corredor das Fogueiras dos Auroques e da Gara, perseguindo 
um ao outro. Caram juntos em um monte, lutando, e quase furaram a tela delicada. Mas pararam quando Brinan notou a canela fina de uma perna comprida barrando-lhes 
a passagem. Eles ergueram os olhos diretamente para o desenho do mamute e ambos arquejaram. Depois, olharam para Mamut. Para Jondalar, o rosto do feiticeiro era 
sem expresso, mas quando os meninos de sete e oito anos voltaram o olhar para o velho feiticeiro, levantaram-se rapidamente e se esgueiraram com cuidado, caminhando 
para a primeira fogueira como se tivessem sido severamente censurados.
     - Pareciam contritos, quase assustados, mas voc no disse uma palavra e nunca tiveram medo de voc antes - falou Jondalar.
     - Eles viram a tela. s vezes, quando se considera a essncia de um esprito poderoso, pode-se ver o prprio corao.
     Jondalar sorriu e concordou com um gesto de cabea, mas no estava certo de compreender o que o velho feiticeiro queria dizer. Ele fala como um zelandoni, pensou 
o rapaz, de maneira obscura, como aqueles de sua raa faziam tantas vezes. Mesmo assim, ele no tinha certeza de desejar ver o prprio corao.
     Quando os meninos atravessaram a Fogueira da Raposa, fizeram um gesto de cabea para o escultor, que lhes sorriu. O sorriso de Ranec se tornou mais largo quando 
voltou sua ateno novamente  Fogueira do Mamute, que estivera observando por algum tempo. Ayla acabava de aparecer, e estava de p em frente  cortina, puxando 
sua tnica para endireit-la. Embora no se pudesse ver em sua pele escura, o rosto de Ranec corou ao ver a moa. Sentiu o corao martelar e uma tenso nos rins.
     Quanto mais a via, mais bela ela estava. Os longos raios de sol, infiltrando-se pela abertura para sada da fumaa, dirigiam sua luz cintilante para ela, de 
propsito, ou assim parecia a Ranec. Ele queria recordar aquele momento, para encher os olhos com a viso de Ayla. Ele pensava nela em hiprbole ardente. Seu cabelo 
farto, vioso, caindo em ondas suaves ao redor do rosto, era como uma nuvem dourada brincando com raios de sol; seus movimentos no conscientes de si mesmos possuam 
graa suprema. Ningum conhecia a ansiedade que havia tomado conta dele quando ela partira, ou a felicidade que sentiu por ela estar se tornando Mamutoi. Franziu 
a testa quando Jondalar a viu, caminhou na direo dela, abraou-a possessivamente e depois ficou de p entre eles, bloqueando-lhe a viso.
     Eles caminharam juntos at ele quando se dirigiram  primeira fogueira. Ela parou para olhar a tela, com admirao e espanto bvios. Jondalar a seguiu quando 
chegaram ao corredor, atravs da Fogueira da Raposa. Ranec viu Ayla corar com sentimento afetuoso ao v-lo, antes de abaixar os olhos. O rosto do homem alto ficou 
rubro quando viu Ranec, tambm, mas a expresso em seu olhar deixou claro que no havia prazer em sua emoo. Cada homem tentava fazer o outro baixar os olhos quando 
passaram um pelo outro - o cime e raiva violenta de Jondalar eram evidentes, Ranec esforava-se muito para parecer confiante e cnico. Os olhos de Ranec se dirigiram 
automaticamente depois para o olhar firme e fixo do homem atrs de Jondalar, o homem que era a essncia da espiritualidade para o acampamento e, por alguma razo, 
se sentiu um pouco desconcertado.
     Aproximaram-se da primeira fogueira e saram pelo vestbulo de entrada. Ayla comeou a compreender por que ela no havia notado os preparativos febris para 
a festa. Nezzie supervisionava a remoo de folhas murchas e relva fumegante de um buraco para assar, no solo, e os odores que se erguiam faziam todos ficar de gua 
na boca. Os preparativos tinham comeado antes de terem ido buscar argila no rio, e a comida estivera cozinhando durante todo o tempo em que trabalharam. Agora, 
s precisava ser servida ao acampamento de pessoas famintas.
     Certa variedade de razes redondas, amilceas duras, que se davam bem com cozimento demorado, saram primeiro, seguidas por cestas de uma mistura de tutano, 
uva-ursina e uma variedade de sementes partidas e modas, fedegosa, uma mistura de gros e sementes oleosas de castanhas. O resultado, aps horas de cozimento, era 
uma consistncia compacta como um pudim que retinha a forma da cesta depois que ela era removida e, embora no fosse doce, apesar de as uvas darem-lhe leve sabor 
de fruta, era deliciosamente rica. Um pernil inteiro de carne de mamute foi trazido em seguida, regado por si mesmo, pelo vapor e espessa camada de gordura, e partindo-se 
de to macio.
     O sol se punha e um vento cortante fez todos voltarem rapidamente para o interior da moradia, carregando a comida consigo. Desta vez, quando pediram a Ayla 
que escolhesse primeiro, ela no se mostrou to tmida. A festa era em sua homenagem e, embora ser o centro das atenes ainda no fosse fcil para ela, estava feliz 
pelo motivo da celebrao.
     Deegie veio sentar-se perto dela e Ayla no pde deixar de encar-la. O cabelo grosso, castanho-avermelhado, de Deegie estava puxado para trs e enrolado num 
coque que se avolumava ao alto de sua cabea. Um fio de contas redondas de marfim, cada uma esculpida e furada a mo, havia sido enrolado com o cabelo e realava 
como foco contrastante. Ela usava um vestido longo e solto, de couro flexvel - Ayla achou que era uma tnica comprida - que caa em pregas suaves da cintura com 
faixa, tingido de marrom-escuro com um acabamento bastante brilhante, polido. No tinha mangas, mas era largo nos ombros, dando a aparncia de mangas curtas. Uma 
franja de plo de mamute comprido, castanho-avermelhado, caa de seus ombros nas costas e de uma pala na frente em forma de V, pendendo at abaixo da cintura.
     O decote era contornado por uma fila tripla de contas de marfim e ao redor do pescoo ela usava um colar de conchas cnicas, separadas por tubos cilndricos 
de cal e pedaos de mbar. Em volta do brao direito, havia uma pulseira de marfim gravada com um padro alternativo em ziguezague. O padro era repetido em tons 
de vermelho-ocre, amarelo, e marrom no cinto, que era tecido com plo de animal, parte dele tingido. Presa ao cinto por uma ala estava uma faca de slex e cabo 
de marfim, numa bainha de couro cru e, suspensa de outra ala, a parte inferior de um chifre oco de auroque negro, uma tigela para beber, que era um talism da Fogueira 
dos Auroques.
     A saia fora cortada enviesada, comeando nos lados acima dos joelhos at uma ponta tanto na frente quanto atrs. Trs filas de contas de marfim, uma tira de 
pele de coelho e uma segunda tira de pele que tinha sido unida de dorsos listrados de vrios esquilos acentuavam a bainha enviesada e, pendendo dela, havia outra 
franja do comprido plo protetor externo do mamute lanoso, chegando  parte inferior da barriga da perna. Ela no usava perneiras e suas pernas apareciam atravs 
da franja, assim como as botas de cano alto, marrom-escuras, tipo mocassim, polidas para ter um brilho impermevel.
     Ayla se encontrou perguntando como faziam o couro brilhar. Todas as suas peles e couros possuam a textura macia natural de pele de gamo. Mas, principalmente, 
ela apenas fitava Deegie assombrada, e pensou que ela era a mulher mais bonita que j vira.
     - Deegie, isso  bonito... E uma tnica?
     - Pode chamar de tnica longa. Realmente  um vestido de vero. Eu o fiz para a Reunio do ano passado, quando Branag se declarou a mim pela primeira vez. Mudei 
de idia sobre o traje que iria usar. Eu sabia que ficaramos no interior e, com toda a comemorao, ficar quente.
     Jondalar veio reunir-se a elas e era bvio que ele tambm achava Deegie muito atraente. Quando sorriu para ela, o carisma que o tornava irresistivelmente sedutor 
no apenas transmitiu seu sentimento mas, de alguma forma, o intensificou e provocou a resposta invarivel. Deegie sorriu afetuosamente e convidativamente para o 
homem alto e atraente com os vivos olhos azuis.
     Talut se aproximou com uma grande travessa de comida  mo. Ayla arquejou, fitando-o. Ele usava um chapu fantstico, to alto em sua cabea, que roava o teto. 
Era feito de couro tingido de vrias cores, diversos tipos de pele, inclusive um comprido rabo peludo de esquilo pendurado em suas costas, e as extremidades dianteiras 
de duas presas de mamute relativamente pequenas projetando-se diretamente para cima de ambos os lados de sua cabea, e reunidas nas pontas como as arcadas de entrada. 
Sua tnica, que caa at os joelhos, era marrom-escura - ao menos as partes que ela podia ver eram marrons. A frente era to ricamente ornamentada, com um padro 
complexo de contas de marfim, dentes de animais e vrias conchas, que era difcil ver o couro.
     Alm disso, havia ao redor do pescoo de Talut um colar pesado de garras de leo da caverna e um dente canino, entremeados com mbar e, pendendo dele at o
peito, estava uma placa de marfim gravada com marcas enigmticas. Um cinto largo de couro negro, usado baixo, cercava-lhe a. cintura e se fechava na frente com laos
que pendiam em borlas. Pendendo dele por alas estava uma adaga, feita de ponta de presa de mamute alada e, para maior vantagem, entrecruzando o punho, uma bainha 
de couro cru com uma faca de slex de cabo de marfim, e um objeto redondo com a forma de uma roda e divises como raios de roda, de onde pendiam, por correias, bolsa, 
alguns dentes caninos e, mais proeminente, a ponta farta do rabo de um leo da caverna. Uma franja de plo comprido de mamute que quase varria o cho revelava, quando 
ele se movia, que suas perneiras eram to ornamentadas quanto sua tnica.
     Sua proteo para os ps, brilhante e preta, era particularmente interessante, no pela ornamentao, porque no havia nenhuma, mas pela falta de qualquer costura 
visvel. Parecia ser uma pea nica de couro macio moldado exatamente como seu p. Era mais um dos enigmas que Ayla queria decifrar, mais tarde.
     - Jondalar, vejo que encontrou as duas mais belas mulheres daqui! - exclamou Talut.
     - Tem razo - disse Jondalar, sorrindo.
     - Eu no hesitaria em apostar que estas duas poderiam sair-se bem em qualquer companhia - continuou Talut. - Voc viajou, o que tem a dizer?
     - Eu no discutiria isso. Tenho visto muitas mulheres, mas em lugar algum vi mais bonitas do que aqui - falou Jondalar, olhando diretamente para Ayla. Depois, 
sorriu para Deegie.
     Deegie riu. Gostava do papel secundrio, mas no havia dvida sobre onde estava o corao de Jondalar. E Talut sempre lhe fizera elogios extravagantes; ela 
era sua herdeira e descendente reconhecida, a filha de sua irm, que era a filha da me de Talut. Ele amava os filhos de sua fogueira e os sustentava, mas eram de 
Nezzie, e os herdeiros de Wymez, irmo dela. Ela havia adotado Ranec tambm, desde que a me dele morrera, o que o tornava filho da fogueira de Wymez e seu legtimo 
descendente e herdeiro, mas isso era uma exceo.
     Todas as pessoas do acampamento receberam bem a oportunidade de exibir sua elegncia e Ayla se esforava para no encarar uma ou outra. Suas tnicas eram de 
comprimentos diversos, com ou sem mangas, e em cores variadas, com decoraes individuais. Os homens tendiam a usar tnicas mais curtas, mais pesadamente ornamentadas 
e, em geral, usavam um acessrio na cabea, de algum tipo. As mulheres eram usualmente favorveis  bainha em forma de V, embora a de Tulie fosse mais como uma 
camisa cintada usada sobre perneiras. Era coberta, com desenhos intrincados e artsticos, por contas, conchas, dentes, marfim esculpido e, principalmente, pesados 
pedaos de mbar. Embora no usasse chapu, seu cabelo estava to primorosamente arranjado e ornamentado que era como se usasse um.
     Entre todas as tnicas, porm, a de Crozie era a mais incomum. Em vez de terminar em ponta na frente, era cortada enviesada em toda a frente, com uma ponta 
arredondada do lado direito e um corte arredondado do esquerdo. Mais surpreendente, ainda, era sua cor. Era branca, no branco-gelo ou marfim, mas realmente branca 
e com franja e ornamentao, entre outras coisas, de penas brancas da grande gara do norte.
     At as crianas estavam vestidas para uma cerimnia. Quando Ayla viu Latie de p na ponta do grupo que rodopiava ao seu redor e de Deegie, pediu a Latie para 
se aproximar e mostrar seu traje, convidando-a, na verdade, para se reunir a elas. Latie comentou, a caminho, que Ayla usava as contas e conchas que Deegie lhe dera, 
e achava que ia tentar us-las daquela forma. Ayla sorriu. Ela no fora capaz de pensar numa maneira de us-las e, por fim, apenas as torcera juntas e as enrolara 
ao redor da cabea, na extenso da testa, do modo como levava sua funda. Latie foi rapidamente includa na brincadeira geral e corou quando Wymez disse-lhe que ela 
estava bonita - um cumprimento extravagante de um homem lacnico. Assim que Latie se reuniu ao grupo, Rydag a imitou depressa. Ayla levou-o ao colo. Sua tnica era 
do mesmo modelo que a de Talut, porm muito menos ornamentada. Ele no poderia carregar o peso. O traje de cerimnia de Talut pesava vrias vezes mais o que Rydag 
pesava. Poucas pessoas seriam capazes de usar apenas seu enfeite de cabea.
     Mas Ranec demorou a aparecer. Ayla notou, vrias vezes, a sua ausncia e procurou-o mas, quando o viu, foi apanhada de surpresa. Todos tinham gostado de mostrar 
a Ayla seus trajes de festa s para ver a reao dela. Ranec a estivera observando e quis produzir um efeito especialmente memorvel. Assim, voltou  Fogueira da 
Raposa para mudar de roupa. Ele estivera observando da Fogueira do Leo e esgueirou-se para o lado dela enquanto Ayla estava entretida na conversa. Quando ela virou 
a cabea, de repente, ele estava ali e, pelo olhar aturdido da mulher, ele percebeu que havia conseguido o efeito desejado.
     O corte e estilo de sua tnica eram raros; seu corpo afunilado e mangas largas em leque davam-lhe uma aparncia distintamente diferente e traam a origem estrangeira 
da roupa. No era uma tnica Mamutoi. Era uma que ele havia comprado - e pago caro - mas sabia que precisava t-la desde o primeiro momento em que a vira. Um homem 
dos acampamentos do norte tinha feito uma expedio de negcios, alguns anos antes, a um povo ocidental que era parente distante dos Mamutoi, e o lder recebera 
a camisa como smbolo de laos mtuos e de futuras relaes amistosas. Ele no estava inclinado a ced-la, mas Ranec fora to persistente e afinal lhe oferecera 
tanto que ele no conseguiu recusar.
     A maioria dos trajes usados pelas pessoas do Acampamento do Leo tinham sido tingidos em tons de marrom, vermelho vivo e amarelo-escuro, e pesadamente decorados 
com contas de marfim levemente coloridas, dentes, conchas marinhas e mbar, realados por peles e penas. A tnica de Ranec era de um marfim-creme, quase to claro, 
porm mais rico do que o verdadeiro branco, e ele sabia que fazia um contraste surpreendente com sua pele escura, mas ainda mais assombrosa era a ornamentao. Tanto 
 frente quanto as costas da camisa foram usadas como fundo para um trabalho feito com espinhos de porco-espinho e cordes fortes que tinham sido tingidos com cores 
fortes, vivas, primrias.
     Na frente da camisa, estava um retrato abstrato de uma mulher sentada, feito de um arranjo de crculos concntricos em tons de vermelho, laranja, azul, preto 
e marrom; um conjunto de crculos representava seu ventre, dois mais eram seus seios. Arcos de crculos no interior de crculos representavam os quadris, ombros 
e braos. A cabea era um desenho baseado em um tringulo, com um queixo pontudo e o alto achatado, e linhas enigmticas em vez de feies. No meio dos crculos 
do seio e do estmago, obviamente destinados a representar o umbigo e os mamilos, estavam granadas vermelhas, vivas, e uma linha de pedras coloridas - turmalinas 
verdes e rosas, granadas vermelhas, guas-marinhas - tinha sido presa ao longo do alto achatado da cabea.  parte de trs da camisa mostrava a mesma mulher vista 
por trs, com pores de crculos ou crculos concntricos representando as ndegas e ombros. A mesma srie de cores se repetia vrias vezes ao redor das pontas 
em sino das mangas.
     Ayla apenas fitou, incapaz de falar. At Jondalar estava surpreso. Ele havia viajado muito, conhecera povos diferentes com muitas formas diversas de se trajar, 
tanto para fins dirios quanto cerimoniais. Havia visto bordado de espinhos e compreendia e admirava o processo de tingir e costurar, mas jamais vira uma roupa to 
imponente ou colorida antes, em sua vida.
     Quando ela se levantou, todos comearam a retirar a comida, raspar pratos e preparar-se para a cerimnia. Durante o longo inverno prximo, vrias festas e cerimnias 
aconteceriam para acrescentar interesse e mudana a um perodo relativamente inativo - a Celebrao de Irmos e Irms, a Festa da Longa Noite, a Competio do Riso, 
vrios festivais e comemoraes em honra da Me -, mas a adoo de Ayla era uma ocasio inesperada e, por isto, todos a receberam melhor ainda.
     Enquanto as pessoas comeavam a se deslocar para a Fogueira do Mamute, Ayla preparou os materiais para fazer fogo, como Mamut havia pedido. Depois, ela esperou, 
de repente, sentindo-se nervosa e excitada. A cerimnia geral lhe havia sido explicada e tambm o que esperavam dela, mas ela no fora criada com os Mamutoi. Atitudes 
aceitas e padres de comportamento no eram sua segunda natureza e, embora Mamut parecesse compreender e tentasse acalmar seus temores, ela se preocupava por fazer, 
talvez, algo inadequado.
     Estava sentada numa esteira perto do fogo, observando as pessoas. Com o rabo do olho, viu Mamut beber alguma coisa de um s gole. Notou que Jondalar estava 
sentado em seu estrado-cama, sozinho. Tinha aspecto preocupado e no parecia muito feliz, e ela se encontrou perguntando se estava fazendo a coisa certa ao se tornar 
uma Mamutoi. Fechou os olhos e enviou um pensamento silencioso ao seu totem. Se o Esprito do Leo da Caverna no quisesse, teria ele lhe dado um sinal?
     Ela notou que a cerimnia estava para comear quando Talut e Tulie
     - Ayla - disse Nezzie, tirando-lhe o prato -, Mamut quer v-la, - se aproximaram e ficaram de p a cada lado dela e Mamut derramou cinzas frias sobre o ltimo 
fogo que ardia na habitao. Embora houvesse acontecido antes, e o acampamento soubesse o que esperar, aguardar no escuro pelo fogo era uma experincia enervante. 
Ayla sentiu a mo em seu ombro e produziu a fasca para um coro de suspiros aliviados.
     Quando o fogo estava bem vivo, ela se levantou. Talut e Tulie deram um passo  frente, cada um de um lado da jovem, cada um segurando uma comprida haste de 
marfim. Mamut estava de p atrs de Ayla.
     - Em nome de Mut, a Grande Me Terra, estamos aqui para dar boas-vindas a Ayla na habitao do Acampamento do Leo dos Mamutoi. - comeou Tulie. - Mas fazemos 
mais do que acolher esta mulher no Acampamento do Leo. 
     Ela chegou aqui como estranha, queremos faz-la uma de ns, faz-la Ayla dos Mamutoi.
     Talut continuou:
     - Somos caadores do grande mamute lanudo que a Me nos deu para usar. O mamute  alimento,  roupa,  abrigo. Se honrarmos Mut, Ela far com que o Esprito 
do Mamute se renove e volte a cada estao. Se desonrarmos a Me, um dia, ou deixarmos de apreciar o Dom do Esprito do Mamute, este partir e jamais voltar. Assim 
nos contaram.
     - O Acampamento do Leo  como o grande leo da caverna; cada um de ns caminha sem medo e com orgulho. Ayla tambm caminha, destemida e orgulhosa. Eu, Talut, 
da Fogueira do Leo, chefe do Acampamento do Leo, ofereo a Ayla um lugar entre os Mamutoi no Acampa mento do Leo.
     -  uma grande honra que lhe  oferecida. O que a faz merecedora? - gritou uma voz entre o grupo reunido. Ayla reconheceu a voz de Frebec e ficou contente por 
lhe terem dito que isso faria parte da cerimnia.
     - Ayla provou seu valor pelo fogo que esto vendo. Ela descobriu um importante mistrio, uma pedra de onde se pode tirar fogo, e ofereceu esta magia gratuitamente, 
a cada fogueira - respondeu Tulie.
     - Ayla  uma mulher de muitos dons, de muitos talentos - acrescentou Talut  resposta. - Salvando a vida, ela demonstrou seu valor como hbil curandeira. Ao 
trazer alimento, provou seu valor como caadora hbil com uma funda, e com uma nova arma que trouxe consigo quando veio, um arremessador de lanas. Pelos cavalos 
alm daquela arcada, ela provou seu valor como domadora de animais. Ela traria estima para qualquer fogueira, e valor para o Acampamento do Leo. Ela  merecedora 
dos Mamutoi.
     - Quem fala por esta mulher? Quem ser responsvel por ela? Quem lhe oferecer o parentesco da fogueira? - gritou Tulie, em voz alta e clara, olhando para o 
irmo. Mas antes de Talut poder replicar, outra voz falou.
     - O Mamut fala por Ayla! O Mamut ser responsvel! Ayla  uma filha da Fogueira do Mamute! - disse o velho feiticeiro, com a voz mais grave, forte e dominadora 
do que Ayla jamais julgara possvel.
     Arquejos surpresos e conversas sussurrantes foram ouvidas no espao obscuro. Todos pensavam que ela seria adotada pela Fogueira do Leo. Aquilo era inesperado... 
Ou no? Ayla nunca dissera ser feiticeira, ou que queria ser; no se comportava como pessoa familiarizada com o desconhecido e ignorado; no estava treinada para 
controlar poderes especiais. No entanto, era curandeira. Tinha domnio extraordinrio sobre os cavalos, e talvez outros animais. Talvez fosse uma buscadora, talvez 
at uma chamadora. Ainda assim, a Fogueira do Mamute representava a essncia espiritual daqueles filhos da Terra que se chamavam de caadores de mamutes. Ayla no 
era capaz, se quer, de expressar-se totalmente em sua lngua, ainda. Como algum que no conhecia seus costumes, e que desconhecia Mut, poderia compreender as necessidades 
e desejos da Me para eles?
     - Talut ia adot-la, Mamut - disse Tulie. - Por que deveria ela ir para a Fogueira do Mamute? Ela no se tem dedicado a Mut, e no est treinada para Servir 
 Me.
     - Eu no disse que ela estava treinada, ou que estar um dia, Tulie, embora seja mais dotada do que pode imaginar e acho que o treinamento seria muito indicado, 
para o bem dela. No disse que ela ser uma filha da Fogueira do Mamute. Eu disse que ela  uma filha da Fogueira do Mamute. 
     Ela nasceu nela, oferecida pela prpria Me. Se ela resolver ser treinada ou no,  uma escolha que s ela pode fazer, mas no importa nada. Ayla no tem que 
se dedicar, est fora de suas mos. Treinada ou no, sua vida Servir  Me. Falo por ela, a menos que queira, no a aceitarei para treinamento. Quero adot-la como 
a filha da minha fogueira.
     Enquanto Ayla ouvia o velho, sentiu um arrepio repentino. No gostava da idia de que seu destino estava traado, fora de suas mos, escolhido para ela quando 
nascera. O que ele queria dizer com ela fora oferecida pela Me, que sua vida Serviria  Me? Seria ela escolhida pela Me tambm? Creb havia-lhe dito, quando 
ele explicava sobre totens, que havia uma razo por que o Esprito do Grande Leo da Caverna a escolhera. Disse que ela precisaria de proteo poderosa. O que significava 
ser escolhida pela Me? Era por isto que precisava de proteo? Ou significava que, se ela se tornasse Mamutoi, o Leo da Caverna no seria mais seu totem? No a 
protegeria mais? Era um pensamento inquietante. Ela no queria perder seu totem. Agitou-se, tentando afastar a sensao de premonio.
     Se Jondalar estivera sentindo inquietao em relao  adoo de Ayla, aquela sbita virada nos eventos o deixou menos  vontade, ainda. Ele ouviu os comentrios 
baixos das pessoas que o cercavam e se perguntou se era verdade que ela estava destinada a se tornar um deles. Talvez ela tivesse at sido Mamutoi antes de se perder, 
se Mamut dizia que ela nascera na Fogueira do Mamute.
     Ranec estava totalmente feliz. Quisera que Ayla se tornasse um deles mas, se fosse adotada pela Fogueira do Leo, seria irm dele. Ranec no desejava ser irmo 
dela. Queria unir-se a ela, e irmo e irm no podiam unir-se. J que ambos seriam adotados e, obviamente no tinham a mesma me, ele estava preparado para encontrar 
outra fogueira que o adotasse a fim de poder perseguir seu desejo, tanto quanto odiaria desistir de seus laos com Nezzie e Talut. Mas se ela fosse adotada pela 
Fogueira do Mamute, ele no precisaria faz-lo. Estava particularmente contente porque ela seria adotada como a filha de Mamut, e no como uma dedicada a Servir, 
embora nem isso o detivesse.
     Nezzie estava um pouco desapontada; j sentia como se Ayla fosse uma filha. Porm, mais importante para Nezzie era que Ayla ficasse com eles e, se Mamut a queria, 
isso a tornaria ainda mais aceitvel no Conselho da Reunio de Vero. Talut lanou-lhe um olhar e, quando ela concordou com um gesto de cabea, ele cedeu a Mamut. 
Tulie tampouco tinha qualquer objeo. Os quatro conferenciaram depressa e Ayla concordou. Por alguma razo que no podia definir exatamente, agradou-lhe ser a filha 
de Mamut.
     Quando a habitao escurecida silenciou de novo, Mamut ergueu a mo, a palma virada para trs, de frente para ele.
     - A mulher Ayla quer dar um passo  frente?
     O estmago de Ayla se revolveu e os joelhos fraquejaram quando se acercou do velho.
     - Quer ser uma dos Mamutoi? - perguntou ele.
     - Sim - cochichou ela, a voz partindo-se.
     - Honrar Mut, a Grande Me, venerar todos os seus Espritos e, especialmente, nunca ofender o Esprito do Mamute; far um esforo para ser digna dos Mamutoi, 
para trazer honrarias ao Acampamento do Leo e sempre respeitar Mamut e o significado da Fogueira do Mamute?
     - Sim - ela mal podia dizer mais. No estava segura sobre o que de veria fazer para realizar tudo aquilo, mas com certeza, tentaria.
     - Este acampamento aceita esta mulher? - perguntou Mamut ao grupo.
     - Ns a aceitamos - responderam juntos.
     - Existe algum aqui que a recuse?
     Houve longa pausa e Ayla no tinha certeza se Frebec no iria objetar, mas ningum retrucou.
     - Talut, chefe do Acampamento do Leo, quer gravar a marca? - entoou Mamut.
     Quando Ayla viu Talut tirar a faca da bainha, seu corao bateu de pressa. Aquilo era inesperado. Ela ignorava o que ele faria com a faca, mas, o que quer que 
fosse, ela estava certa de que no iria gostar. O grande chefe pegou o brao de Ayla, levantou sua manga, e pousou a faca de slex; depois, cortou rapidamente em 
linha reta o seu brao, fazendo sangrar. Ayla sentiu a dor, mas no se retraiu. Com o sangue ainda molhando a faca, Talut fez uma marca reta no pedao de marfim 
pendurado como placa em volta de seu pescoo, que Mamut segurava, fazendo uma estria avermelhada. Depois, Mamut pronunciou algumas palavras que Ayla no compreendeu. 
Ela no percebeu que ningum as entendeu, tambm.
     - Ayla faz parte, agora, do povo do Acampamento do Leo, uma entre os caadores de Mamute - disse Talut. - Esta mulher  e ser sempre Ayla dos Mamutoi.
     Mamut pegou uma pequena tigela e derramou um lquido que ardia sobre o corte em seu brao - ela compreendeu que era uma soluo anti-sptica para limpar -, 
depois ele a fez virar-se de frente para o grupo.
     - Bem-vinda seja, Ayla dos Mamutoi, membro do Acampamento do Leo, filha da Fogueira do Mamute. - Fez uma pausa, acrescentando: - Escolhida do Esprito do Grande 
Leo da Caverna.
     O grupo repetiu as palavras e Ayla compreendeu que era a segunda vez em sua vida que ela havia sido acolhida, aceita, e feita membro de um povo cujos costumes 
mal conhecia. Fechou os olhos, ouvindo as palavras ecoarem em sua mente. Depois, lhe ocorreu. Mamut havia includo o seu totem! Embora ela no fosse Ayla do Cl, 
no havia perdido seu totem! Ainda estava sob a proteo do Leo da Caverna. Porm, ainda mais: ela no era Ayla de Nenhum Povo; ela era Ayla dos Mamutoi.
     - Voc sempre pode reivindicar o abrigo da Fogueira do Mamute, onde quer que esteja, Ayla. Por favor, aceite esta lembrana, filha da minha fogueira - disse 
Mamut enquanto retirava um bracelete de marfim esculpido com linhas em ziguezague do brao e prendia as extremidades furadas no brao de Ayla, exatamente abaixo 
do corte. Ento, deu-lhe um abrao afetuoso.
     Ayla tinha lgrimas nos olhos quando foi para o estrado-cama, onde seus presentes estavam expostos, mas ela os afastou antes de pegar uma tigela de madeira. 
Era redonda, forte, mas de finura uniformemente requintada. A tigela no exibia desenho pintado ou esculpido, somente um padro sutil de fibras da madeira, mas com 
equilbrio simtrico.
     - Por favor, aceite o presente da tigela de remdio da filha da fogueira, Mamut - disse Ayla. - E, se permite, a filha da fogueira encher a tigela todos os 
dias com remdio para articulaes doloridas dos dedos e braos e joelhos.
     - Ah, eu daria boas-vindas a algum alvio da minha artrite neste inverno - disse ele com um sorriso, pegando a tigela e passando-a a Talut, que a examinou, 
sacudiu a cabea aprovando, e passou-a a Tulie.
     Tulie examinou-a de forma crtica, primeiro julgando que era um objeto simples porque no tinha o desenho adicional, nem pintado, nem esculpido, a que estava 
acostumada. Mas ao olhar com mais ateno, correndo as pontas dos dedos sobre o acabamento notavelmente liso, notando a forma perfeita e a simetria, teve que admitir 
que era realmente uma obra artesanal muito bem-feita, talvez a melhor do seu tipo que ela j vira. Quando a tigela foi passada de mo em mo, despertou interesse 
e curiosidade sobre os outros presentes que Ayla trouxera, j que cada pessoa comeou a se perguntar se todos os presentes seriam igualmente belos e raros.
     Talut avanou em seguida e deu a Ayla um grande abrao. Depois, presenteou-a com uma faca de slex de cabo de marfim, em uma bainha de couro cru tingido de 
vermelho, que era esculpida com um desenho intrincado, semelhante  faca que Deegie usava em seu cinto. Ayla pegou a faca, retirou-a da bainha e suspeitou imediatamente 
de que a lmina havia sido feita, provavelmente, por Wymez, e desconfiou de que Ranec esculpira e moldara o cabo.
     Ayla trouxe uma pilha pesada de pele escura para Talut. Ele sorriu largamente quando sacudiu a capa feita de uma pele inteira de biso e colocou-a sobre os 
ombros. A cabeleira espessa e a capa aos ombros faziam o homem grande parecer ainda maior do que era, e ele gostou do efeito. Depois, notou a maneira como a capa 
se prendia aos seus ombros e descia em dobras flexveis, e examinou com mais ateno o interior macio e malevel do manto que aquecia.
     - Nezzie! Veja isto - disse ele. - J viu pele mais macia? E aquece. Acho que no quero que isto se transforme em coisa alguma, nem mesmo uma parka! Vou usar 
exatamente como est!
     Ayla sorriu diante do deleite de Talut, satisfeita por seu presente ser to admirado. Jondalar estava recuado, observando acima de vrias cabeas que se amontoavam 
para ver, divertindo-se com a reao de Talut tambm. Ele a havia previsto, mas era bom ver que suas expectativas se tornavam reais.
     Nezzie deu um abrao afetuoso em Ayla, e depois um colar de conchas combinadas e gradualmente em espiral, cada uma separada, por pequenas partes cuidadosamente 
serradas, dos ossos duros e ocos das pernas da raposa rtica e, pendurado como um pingente na frente, um grande dente canino de um leo de caverna. Ayla o segurou 
enquanto Tronie o amarrava nas costas. Depois, ela abaixou os olhos e admirou-o, erguendo o dente do leo de caverna e se perguntando como conseguiram fazer a abertura 
atravs da raiz.
     Ayla afastou para um lado a cortina em frente ao estrado e trouxe uma cesta com tampa muito grande, e colocou-a aos ps de Nezzie. Parecia bastante simples. 
Nenhum capim de que fora feita havia sido tingido, e nenhum padro colorido de desenhos geomtricos ou figuras estilizadas de aves ou animais enfeitava os lados 
da tampa. Mas, examinando melhor, a mulher notou o desenho sutil, e viu como fora feito com percia. Ela sabia que era impermevel o bastante para ser uma cesta 
de cozinhar.
     Nezzie ergueu a tampa e examinou-a e todo o acampamento notou a sua surpresa. A cesta, dividida em partes por casca de vidoeiro flexvel estava cheia de alimentos. 
Havia pequenas mas consistentes, cenouras silvestres doces e apimentadas, descascadas, razes nodosas de amendoim, cerejas secas estocadas em buracos, botes de 
hemerocales secos, mas ainda verdes, ervilhaca redonda, verde, seca na vagem, cogumelos secos, hastes secas de cebolas verdes, e algumas pores e folhas secas no-identificveis. 
Nezzie riu calorosamente para Ayla ao examinar a seleo. Era um presente perfeito.
     Tulie se acercou em seguida. Seu abrao de boas-vindas no deixou de ser afetuoso, porm foi mais formal, e sua apresentao do presente dado a Ayla, embora 
no exatamente feita com um floreio, demonstrou um sentido adequado de cerimnia. O presente era um pequeno recipiente, primorosamente decorado. Fora esculpido na 
madeira, na forma de uma pequena caixa com os cantos arredondados. Desenhos de peixe foram esculpidos e pintados nela e pedaos de concha tambm colados sobre ela. 
O desenho total dava a impresso de gua cheia de peixes e plantas submarinas. Quando Ayla levantou a tampa, encontrou a finalidade de uma caixa to valiosa. Estava 
cheia de sal.
     Ela fazia alguma idia do valor do sal. Quando fora criada com o Cl, que vivia perto do mar Beran, ela havia aceito o sal como algo natural. Era bastante fcil 
de obter, e alguns dos peixes eram at defumados com ele, mas no interior, quando ela vivera em seu vale, no havia sal, e ela levara algum tempo para se acostumar 
com isso. O Acampamento do Leo era mais distante do mar do que o seu vale. O sal, assim como conchas marinhas, tinha que ser transportado por longa distncia. No 
entanto, Tulie havia-lhe dado a caixa inteira de sal. Era presente caro e raro.
     Ayla se sentiu adequadamente atemorizada quando exibiu seu presente para a chefe, e esperava que Jondalar estivesse certo ao sugerir o que seria apropriado. 
A pele que ela escolhera era de um leopardo da neve, um que tentara roubar-lhe um animal caado no inverno em que ela e Nenm aprendiam a caar juntos. Ela havia 
planejado assust-lo para que se afastasse mas o leo de caverna adolescente tinha outras idias. Ayla havia aturdido o felino maduro, embora pequeno, com urna pedra 
de sua funda quando parecia que aconteceria uma luta, e depois resolvera tudo com outra pedra.
     O presente foi obviamente inesperado, e os olhos de Tulie mostraram seu prazer, mas somente quando sucumbiu  tentao de atirar ao redor dos ombros a pele 
luxuriante e grossa de inverno, notou sua qualidade nica, a mesma qualidade que Talut observara na sua. Era inacreditavelmente macia do lado de dentro. Em geral, 
as peles eram mais rijas do que o couro Por sua natureza, a pele s podia ser trabalhada de um lado com as raspadeiras usadas para esticar e amaciar. Enquanto o 
mtodo dos Mamutoi para preservar peles tornava o material mais resistente e duradouro do que o de Ayla, que era coberto apenas de gordura, tambm tornava o couro 
menos macio e flexvel. Tulie ficou mais impressionada do que esperara, e resolveu que descobriria qual era o mtodo de Ayla.
     Wymez se aproximou com um objeto enrolado em urna pele macia. Ela abriu e prendeu a respirao. Era uma ponta de lana magnfica, como as que ela admirara tanto. 
Brilhava  luz do fogo como uma pedra preciosa facetada, e era muito valiosa. O presente de Ayla para ele era uma esteira de capim resistente para ele sentar-se 
quando trabalhava. A maior parte do trabalho de entrelaamento de Ayla em cestas e esteiras no tinha desenhos coloridos mas, no ltimo inverno, em sua caverna, 
ela comeara a experimentar capins diferentes que tinham variaes de cor naturais. O resultado, em combinao com seus padres comuns de tecer, foi uma esteira 
com um padro sutil, mas nitidamente estrelado. Ela ficara bastante satisfeita quando fez a esteira e, quando escolhia os presentes, os raios pontiagudos projetando-se 
do centro lembraram-lhe as belas pontas de lana de Wymez, e a textura entrelaada era sugestiva das pequenas estrias de lascas de madeira que ele descarnava. Ela 
se perguntou se ele notaria.
     Depois de examinar o presente, ele lhe enviou um dos seus raros sorrisos.
     - Isto  bonito, lembra-me o trabalho feito pela me de Ranec. Ela entendia de tecer com capins mais do que todos os que conheci. Imagino que deveria guard-la, 
pendur-la na parede, mas em vez disso, vou us-la. Sentarei nela enquanto trabalho. Ajudar a lembrar-me do meu propsito. - Seu abrao de boas-vindas no possua 
nada da reserva de sua maneira de falar. Ela compreendeu que, sob o aspecto tranqilo, Wymez era um homem de afeio amistosa e sentimento perceptivo.
     No havia seqncia especial, ou ordem, para dar os presentes, e a prxima pessoa que Ayla notou, de p perto do estrado, esperando para chamar sua ateno, 
foi Rydag. Ela se sentou perto dele e retribuiu seu abrao forte. Depois, ele abriu a mo e estendeu um comprido tubo redondo, o osso oco da perna de uma ave, com 
buracos feitos nele. Ela pegou-o e virou-o nas mos, incerta sobre seu propsito. Ele o pegou de novo, levou-o  boca e soprou. O apito emitiu um som alto, agudo. 
Ayla experimentou-o e sorriu. Depois, ela lhe deu um capuz impermevel de carcaju para o frio, feito no estilo do Cl, mas ela sentiu uma dor lancinante quando ele 
o colocou. Ele a recordava demais Durc.
     - Eu lhe dei um apito como esse, para me chamar quando precisar de mim. s vezes, ele no tem fora suficiente para gritar, mas consegue soprar o apito - explicou 
Nezzie -, mas ele mesmo fez esse.
     Deegie a surpreendeu com o traje que ela planejara usar naquela noite. Quando viu a expresso nos olhos de Ayla diante do traje, resolveu d-lo a ela. Ayla 
ficou sem palavras, e apenas fitou o presente at seus olhos se encherem de lgrimas.
     - Nunca tive nada para vestir que fosse to bonito.
     Ento, deu seu presente a Deegie, uma pilha de cestas e vrias tigelas de madeira lindamente acabadas, de vrios tamanhos, que podiam ser usadas como xcaras 
ou para sopas, ou mesmo para cozinhar, para que Deegie usasse em sua fogueira depois que se unisse a Branag. Em uma regio em que a madeira era relativamente rara 
e o osso e marfim mais comumente usados para utenslios, as tigelas eram um presente especial. Ambas estavam encantadas, e se abraaram com o afeto de irms.
     Frebec, para mostrar que no lhe dava um presente decente de m vontade, deu-lhe um par de botas de pele de cano alto, decoradas e encanudadas perto da parte 
superior, e ela ficou contente por ter escolhido uma de suas melhores peles de rena para ele. O plo da rena era oco, um tubo minsculo cheio de ar, e naturalmente, 
isolante. A pele de vero era a mais quente e mais leve, a mais prtica e confortvel para se usar durante o tempo frio, nas caadas e, portanto, a mais valiosa. 
Das peas que ela lhe deu podia-se fazer um traje completo de tnica e calas, que seriam to quentes, que seria necessrio apenas uma nica vestimenta externa, 
mesmo durante o tempo mais frio, liberando-o de peso volumoso. Ele observou a maciez de suas peles terminadas, como os outros tinham feito, mas no fez comentrio 
a respeito e seu abrao de boas-vindas foi frio.
     Fralie deu-lhe luvas de pele para combinar com as botas e Ayla presenteou a mulher grvida com uma bela tigela de cozinhar de madeira, cheia com uma bolsa de 
folhas secas.
     - Espero que goste deste ch, Fralie - disse, encarando-a, como se quisesse enfatizar as palavras. 
     - E bom tomar uma xcara de manh, assim que acordar, e talvez outra de noite, antes de dormir. 
     Se gostar, eu lhe darei mais quando este terminar.
     Fralie concordou com um gesto de cabea enquanto se abraavam. Frebec olhou para elas desconfiado, mas Ayla estava apenas dando um presente, e ele mal poderia 
reclamar do presente que o mais novo membro do Acampamento do Leo dera a Fralie, no ? Ayla no estava inteiramente feliz com as circunstncias. Ela preferiria 
cuidar de Fralie direta e abertamente, mas o subterfgio era melhor do que no ajud-la de modo algum, e Fralie se recusava a ficar numa situao, em que talvez 
parecesse que ela fazia uma escolha entre sua me e seu companheiro.
     Crozie avanou em seguida e balanou a cabea aprovadoramente para Ayla. Depois, entregou-lhe uma pequena sacola de couro, unida dos lados por uma costura e 
fechada na parte superior. A bolsa era tingida de vermelho, lindamente decorada com pequenas contas de marfim, e bordada em branco com tringulos de vrtices voltados 
para baixo. Pequenas penas de gara branca estavam enfileiradas ao redor da borda circular do fundo. Ayla a admirou, mas quando no fez qualquer meno de abri-la, 
Deegie lhe disse para faz-lo. Dentro havia cordes e correntes feitos de l de mamute, tendes, peles de animais e fibras vegetais, tudo cuidadosamente tecido em 
crculos ou em volta de pequenas falanges de osso. O saco de costura tambm continha lminas aguadas e sovelas para cortar e furar. Ayla ficou encantada. Ela desejava 
aprender o mtodo dos Mamutoi fazerem e decorarem roupas.
     Tirou de seu estrado uma pequena tigela de madeira com uma tampa bem ajustada e entregou-a  velha. Quando Crozie a abriu, olhou para Ayla com expresso intrigada. 
Estava cheia de puro sebo branco marmorizado, amolecido - gordura animal sem sabor, incolor, sem odor que havia sido derretida em gua fervente. Ela cheirou e sorriu, 
mas ainda estava intrigada.
     - Fao gua de rosa, de ptalas... Misturo... Com outras coisas - comeou a explicar Ayla.
     - Imagino que  isto que faz cheirar bem, mas para o que ? - perguntou Crozie.
     - E para as mos, rosto, cotovelos, ps. E bom, amacia - disse Ayla, pegando uma pequena quantidade e esfregando-a na mo velha, enrugada, seca, rachada da 
mulher. Depois da mo esfregada, Crozie tocou-a, em seguida fechou os olhos e sentiu lentamente a pele mais macia. Quando a velha abriu os olhos, Ayla achou que 
eles brilhavam mais, embora no houvesse nenhuma lgrima  mostra, mas quando a mulher lhe deu um abrao forte de boas-vindas, Ayla sentiu-a tremendo por dentro.
     Cada presente trocado fazia todos esperarem o prximo com maior ansiedade, e Ayla estava gostando tanto de dar quanto de receber. Seus presentes eram to incomuns 
para eles, quanto os deles o eram para ela, e era to divertido ver seus presentes bem-aceitos quanto se sentir desarmada pelos presentes que lhe eram dados. Ela 
jamais se sentira to especial, nunca a tinham feito sentir-se to bem acolhida, to querida. Se ela se permitisse pensar nisso, lgrimas de alegria ameaariam rolar.
     Ranec se demorava, esperando que todos os outros tivessem trocado presentes com Ayla. Queria ser o ltimo, assim seu presente no seria confundido com os outros. 
Entre todos os presentes especiais e nicos que ela recebera, ele queria que o seu fosse o mais lembrado. Ayla colocava suas coisas sobre o estrado que estava to 
cheio quanto quando ela comeara, quando viu o presente que havia escolhido para Ranec. Teve que refletir um momento antes de compreender que no trocara presentes 
com ele, ainda. Com o presente nas mos, ela se virou para olhar para ele, somente para se encontrar diante dos dentes de seu sorriso provocante.
     - Esqueceu de um para mim? - perguntou ele. Ele estava de p to perto, que ela podia ver as grandes pupilas negras e, pela primeira vez, fracas riscas de luz 
convergentes dentro dos olhos castanhos-escuros - seus olhos escuros penetrantes, transparentes, sedutores. Ela sentiu um calor emanando dele que a desconcertou.
     - No, ah... No esqueci... Aqui est - disse ela, lembrando-se que o presente estava em suas mos e erguendo-o. Ele abaixou os olhos e estes mostraram seu 
prazer diante das peles espessas, viosas, brancas, de inverno, de raposas rticas, que ela lhe estendeu. O momento de hesitao lhe deu a chance de se recompor 
e, quando ele tornou a olh-la, os olhos de Ayla tinham um sorriso provocante. - Acho que voc esqueceu.
     Ele riu, tanto porque ela foi muito rpida em entender e participar de sua brincadeira, quanto porque isso lhe dava uma abertura apropriada para apresentar 
seu presente.
     - No, no esqueci. Aqui - disse ele e exibiu um objeto que estivera escondendo atrs das costas. Ela olhou para a pea de marfim esculpido aninhada nas mos 
dele, e quase no acreditou no que viu. E mesmo quando ele a liberou das peles brancas que segurava, ela no estendeu a mo para o presente. Tinha quase medo de 
tocar nele. Ergueu a cabea para Ranec com assombro genuno.
     - Ranec - ela respirou, estendendo as mos ento, hesitando. Ele teve que coloc-lo em suas mos e depois ela o segurou como se fosse quebrar. -  Whinney! 
 como pegar Whinney e faz-la menor - exclamou ela, virando o primoroso cavalo de marfim esculpido, com uns 7 centmetros no mximo de comprimento, nas mos. Um 
toque de cor fora aplicado  escultura: amarelo-ocre sobre o plo, e preto nas pernas, na crina rgida e ao longo do dorso at o rabo para combinar com o colorido 
de Whinney. - Veja, as orelhas pequenas, exatamente iguais. E os cascos e o rabo. At sinais, como o seu plo. Oh, Ranec, como faz isso?
     Ranec no poderia se sentir mais feliz quando lhe deu um abrao de boas-vindas. A reao de Ayla foi exatamente aquela que ele esperava, at sonhara, e a expresso 
de amor nos olhos dele quando a encarou era to bvia que trouxe lgrimas aos olhos de Nezzie. Ela lanou um olhar a Jondalar e notou que ele tinha visto tambm. 
A angstia surgiu no semblante dele. Ela sacudiu a cabea, sabiamente.
     Depois da troca de todos os presentes, Ayla foi at a Fogueira dos Auroques com Deegie a fim de vestir seu novo traje. Desde que Ranec comprara a camisa estrangeira, 
Deegie tentara igualar a cor. 
     Afinal, chegara perto, e do couro cor de creme ela fizera uma tnica de mangas curtas e decote em V com bainha tambm em V, e perneiras para combinar, cintada 
com cordes de cores vivas tecidos a mo, semelhantes s cores dos desenhos da camisa. O vero passado ao ar livre deixou a pele de Ayla bastante bronzeada e seu 
cabelo louro mais claro, quase da cor do couro. O traje caa to bem nela como se houvesse sido feito sob encomenda.
     Com a ajuda de Deegie, Ayla recolocou o bracelete de marfim de Mamut; depois, acrescentou a faca de bainha vermelha de Talut e o colar de Nezzie, mas quando 
a jovem Mamutoi sugeriu que ela tirasse o saquinho de couro gasto, manchado, encrespado, de volta do pescoo, Ayla recusou com veemncia.
     - E meu amuleto, Deegie. Contm o Esprito do Leo da Caverna, do Cl, meu. Pequenas peas, como a escultura de Ranec  Whinney em tamanho menor. Creb me disse
que se eu perdesse meu amuleto, o totem no poderia me achar. Eu morreria - tentou explicar Ayla.
     Deegie refletiu por um momento, olhando para Ayla. Todo o efeito era estragado pelo saquinho de couro encardido. Mesmo a correia ao redor do pescoo estava
gasta, mas isso lhe deu uma idia.
     - Ayla, o que faz quando fica gasta? Essa tira de couro parece que vai se partir breve - disse Deegie.
     - Fao saquinho novo e correia nova.
     - Ento, no  o saquinho que  to importante, mas o que h dentro dele, no ?
     - ...
     Deegie olhou ao redor e, de repente, localizou o saco de costura que Crozie havia dado a Ayla. Ela o pegou, esvaziou-o de seus contedos com cuidado em um estrado, 
e estendeu-o a Ayla.
     - H alguma razo para no usar isto? Podemos prend-lo a um fio de contas... Um dos seus cabelos ser timo... E voc poder colocar ao redor do pescoo.
     Ayla pegou o saco bonito, decorado, da mo de Deegie examinou-o, passou depois a mo em volta do velho saquinho familiar de couro e teve a sensao de conforto 
que o amuleto do Cl lhe dava. Mas ela no era mais do Cl. No perdera seu totem. O Esprito do Leo da Caverna ainda a protegia, e os sinais que recebera ainda 
eram importantes, mas agora ela era Mamutoi.
     Quando Ayla voltou para a Fogueira do Mamute era, em cada centmetro, uma mulher Mamutoi, bela, bem-vestida, de status elevado e valor bvio, e todos os olhos 
mostraram expresses aprovadoras pelo mais novo membro do Acampamento do Leo. Mas dois pares de olhos mostravam mais que aprovao. Amor e desejo brilhavam em olhos 
escuros, sorridentes, cheios de ansiosa esperana, no menos que em olhos miseravelmente infelizes de um tom de azul incrivelmente vivo.
     Manuv, com Nuvie ao colo, sorriu afetuosamente para Ayla quando ela passou para guardar suas outras roupas e ela sorriu com alegria. Tambm, to cheia de jbilo 
e felicidade que imaginou no ser capaz de cont-las. Ela era Ayla dos Mamutoi e faria tudo o que pudesse para ser uma entre eles, integralmente. Ento, viu Jondalar 
falando com Danug, somente de costas, mas sentiu seu regozijo desaparecer. Talvez fosse a postura dele, ou a maneira como estavam seus ombros, mas algo em um nvel 
subconsciente a fez parar. Jondalar no estava feliz. Mas, o que ela poderia fazer a respeito naquele momento?
     Ela se apressou para pegar as pedras-de-fogo. Mamut lhe havia dito para esperar at mais tarde antes de d-las. Uma cerimnia apropriada investiria as pedras 
de importncia prpria e acentuaria seu valor. Ela pegou os ndulos pequenos, cinza-amarelados, de colorido metlico de pirita de ferro e levou-os com ela para a 
fogueira. No caminho, passou por trs de Tulie que conversava com Nezzie e Wymez, e ouviu-a dizer:
     - . . .Mas eu no imaginava que ela possua tantos bens. Vejam as peles, apenas. A pele de biso e as de raposa branca, e esta do leopardo da neve.., No se 
vem muitas delas por a...
     Ayla sorriu enquanto sua sensao de alegria voltava. Seus presentes tinham sido aceitos e apreciados.
     O velho feiticeiro no estivera ocioso. Enquanto ela trocara de roupa, Mamut fez o mesmo. Seu rosto estava pintado com linhas em ziguezague que acentuavam e 
realavam sua tatuagem, e ele usava como capa a pele de leo da caverna, o mesmo leo da caverna cujo rabo Talut exibia. O colar de Mamut era feito de pequenas partes 
ocas da presa de um mamute pequeno, entremeadas com dentes caninos de vrios animais diferentes, incluindo um leo da caverna que combinava com o dela.
     - Talut planeja uma caada, assim vou fazer uma Busca - disse-lhe o feiticeiro. - Junte-se a mim, se puder... E quiser. De qualquer maneira, prepare-se.
     Ayla concordou com um gesto de cabea, mas seu estmago se revolveu.
     Tulie aproximou-se da fogueira e lhe sorriu.
     Eu no sabia que Deegie ia lhe dar essa roupa - disse ela. - No estou certa de que aprovaria antes; ela trabalhou arduamente no traje, mas devo admitir que 
fica muito bem em voc, Ayla.
     Ayla sorriu apenas, incerta sobre como responder.
     - Foi por isso que eu dei, me - disse Deegie, aproximando-se com seu instrumento de caveira. - Eu tentava descobrir o processo para conseguir que o couro terminado 
resultasse to claro. Sempre posso fazer outro traje.
     - Estou pronto - anunciou Tornec quando chegou com seu instrumento de osso de mamute.
     - timo. Podem comear assim que Ayla entregar as pedras - disse Mamut. - Onde est Talut?
     - Est servindo sua bebida - respondeu Tornec, sorrindo -, e com grande generosidade. Ele disse que quer que esta seja uma celebrao adequada.
     - E ser! - exclamou o grande chefe. - Aqui est, Ayla, eu lhe trouxe uma taa. Afinal, voc  a razo para esta comemorao!
     Ayla provou a bebida, ainda achando que o sabor fermentado no era muito do seu gosto, mas todos os Mamutoi pareciam gostar. Ela resolveu que aprenderia a gostar 
tambm. Queria ser um deles, fazer o que faziam, gostar do que gostavam. Bebeu. Talut tornou a encher sua taa.
     - Talut lhe dir quando deve comear a dar as pedras, Ayla. Produza uma fasca pelo atrito antes de dar cada uma delas - instruiu Mamut. Ela concordou com um 
gesto de cabea, olhou para a taa em sua mo, depois bebeu o contedo, balanando a cabea diante da bebida forte e pousou a taa para pegar as pedras.
     - Ayla, agora, pertence ao Acampamento do Leo - disse Talut assim que todos se sentaram -, mas ela tem mais um presente. Para cada fogueira, uma pedra de fazer 
fogo. Nezzie  a zeladora do Acampamento do Leo. Ayla lhe dar a pedra-de-fogo para ela guardar.
     Ao caminhar em direo a Nezzie, Ayla esfregou a pirita de ferro com slex, produzindo uma fasca brilhante, e depois lhe entregou a pedra.
     - Quem  o zelador da Fogueira da Raposa? - continuou Talut enquanto Deegie e Tornec comearam a bater nos seus instrumentos de osso.
     - Eu. Ranec  o zelador da Fogueira da Raposa.
     Ayla lhe deu uma pedra e feriu-a. Mas, quando lhe entregou a pedra, ele cochichou em voz clida:
     - As peles de raposa so as mais macias e bonitas que j vi. Eu as porei em minha cama e pensarei em voc todas as noites, quando sentir sua maciez contra minha 
pele nua. - Tocou-lhe o rosto de leve, apenas, com as costas das mos, mas ela sentiu o contato como um choque fsico.
     Recuou, confusa, enquanto Talut perguntava pelo zelador da Fogueira da Rena, e teve que ferir a pedra-de-fogo duas vezes antes de conseguir uma centelha para 
Tronie. Fralie recebeu a pedra pela Fogueira da Gara e, quando Tulie pegou a sua, e Ayla deu uma a Mamut para a Fogueira do Mamute, ela se sentia tonta e desejando 
muito sentar-se perto do fogo onde Mamut indicou.
     Os tambores comearam a produzir seu efeito. O som era calmante e compulsivo ao mesmo tempo. A habitao estava escura - um fogo pequeno e difuso atravs da 
tela era a nica claridade. Ela podia ouvir uma respirao prxima, e olhou para ver de onde vinha. Agachado perto da fogueira estava um homem - ou era um leo? 
A respirao se tornou um rugido baixo, quase, mas no exatamente - para seu ouvido perceptivo - como o rugido de advertncia de um leo da caverna. O rufo de tambor 
vocalizado retomou o som, dando-lhe ressonncia e profundidade.
     De repente, com uma rosnadela selvagem, a figura do leo saltou, e a silhueta de um leo percorreu a tela. Mas, quase parou de um salto em uma resposta sobressaltada 
 reao no-intencional de Ayla. Ela desafiou o leo sombrio com um rugido to realista e to ameaador, que provocou um arquejo na maior parte das pessoas presentes. 
A silhueta recuperou sua postura de leo e respondeu com o rugido tranqilo de um leo que recuava. Ayla expressou uma rosnadela irada de vitria, depois comeou 
uma srie de hnk, hnk, hnk, roncos que diminuram como se o leo estivesse se afastando.
     Mamut sorriu consigo mesmo. Seu leo  to perfeito que enganaria um leo, pensou, satisfeito por ela ter-se unido a ele espontaneamente. Ayla no sabia por 
que o fizera, exceto que, depois de seu primeiro desafio improvisado, era divertido falar como um leo com Mamut. Ela no havia feito nada parecido desde que Nenm
deixara o seu vale. Os tambores tinham captado e realado a cena, mas agora acompanhavam o vulto que se movia sinuosamente pela tela. Ela estava bastante prxima
para ver que era Mamut quem produzia a ao, mas mesmo ela foi envolvida pelo efeito. Ela se perguntou, no entanto, como o velho normalmente rgido e artrtico era 
capaz de se mover com tanta facilidade. Ento, lembrou-se de v-lo engolindo alguma coisa antes, e desconfiou de que devia ter sido um analgsico forte. Provavelmente, 
ele sofreria as conseqncias no dia seguinte.
     De sbito, Mamut saltou de trs da tela e se agachou perto do tambor de caveira de mamute. Bateu nele rapidamente por curto tempo, depois parou abruptamente. 
Ergueu uma taa que Ayla no notara, bebeu e aproximando-se da jovem, ofereceu-lhe a bebida. Sem nem sequer refletir a respeito, Ayla tomou um pequeno gole, depois 
outro, embora o sabor fosse forte, almiscarado e desagradvel. Encorajada pelos tambores ruidosos, ela comeou a sentir logo os efeitos.
     As chamas saltitantes atrs da tela davam aos animais pintados nela uma sensao de movimento. Ela foi atrada por eles, concentrou ali toda a sua ateno, 
e ouviu somente ao longe as vozes do acampamento comeando a cantar. Um beb chorou, mas o som parecia vir de um outro mundo, enquanto era atrada pelo estranho 
movimento ondulante dos animais na tela. Eles pareciam quase to vivos quanto a msica dos tambores a enchia de cascos que martelavam, de bezerros que gritavam, 
de mamutes que trombeteavam.
     Ento, no estava mais escuro. Em vez disso, um sol brumoso olhava para uma plancie nevoenta. Um pequeno rebanho de bois almiscarados estava amontoado, uma 
nevasca rodopiando  sua volta. Quando ela se precipitou, sentiu que no estava sozinha. Mamut se encontrava com ela. A cena mudou. A tempestade passara, mas demnios 
da neve levados pelo vento gemiam atravs das estepes como aparies fantasmticas. Ela e Mamut se afastaram do deserto desolador. Ento, ela viu alguns bises de 
p, estoicamente, no lado abrigado de um vale estreito, tentando permanecer fora do alcance do vento. Ela corria  frente, disparando ao longo do vale do rio que 
atravessava ravinas profundas. Eles acompanharam um afluente que se estreitava num desfiladeiro de muralhas escarpadas  frente, e ela viu a trilha secundria familiar 
que subia o leito seco de um riacho peridico.
     E depois, ela se encontrava num local escuro, os olhos abaixados para uma pequena fogueira e pessoas reunidas ao redor de uma tela. Ouviu um canto lento, uma 
repetio contnua de som. Quando pestanejou e viu os rostos toldados, percebeu Nezzie e Talut e Jondalar fitando-a com expresses preocupadas.
     - Voc est bem? - perguntou Jondalar, falando Zelandonii.
     - Sim, sim. Estou bem, Jondalar. O que aconteceu? Onde eu estava? Voc ter que me contar.
     - Como se sente? - indagou Nezzie. - Mamut sempre gosta deste ch, depois.
     - Estou bem - falou ela, sentando-se e aceitando a xcara.
     Ela se sentia bem. Um pouco cansada, um pouco tonta, mas bem.
     - Acho que no foi to assustador para voc desta vez, Ayla - disse Mamut, aproximando-se.
     Ayla sorriu.
     - No, no estou assustada, mas o que fazemos?
     - Ns buscamos. Achei que voc era uma buscadora. Por isto  a filha da Fogueira do Mamute - disse ele. - Voc tem outros dons naturais, Ayla, mas precisa de 
treinamento, - Ele viu a ruga na testa dela. - No se preocupe com isso, agora. H tempo para pensar a respeito mais tarde.
     Talut serviu mais bebida fermentada a Ayla e alguns outros, enquanto Mamut lhes contou sobre a Busca, onde foram, o que encontraram. Ela engoliu depressa - 
no parecia to ruim assim-, depois se esforou para ouvir, mas a bebida pareceu subir-lhe  cabea rapidamente. Sua mente vagou e ela notou que Deegie e Tornec 
ainda tocavam seus instrumentos, mas com sons to ritmados e atraentes que ela teve vontade de se mover com eles. A msica a fez recordar a Dana das Mulheres do 
Cl, e ela achou difcil se concentrar em Mamut.
     Sentiu que algum a observava, e olhou ao redor. Perto da Fogueira da Raposa, viu Ranec fitando-a. Ele sorriu e ela retribuiu-lhe o sorriso. De repente, Talut 
enchia sua taa novamente. Ranec avanou e ofereceu sua taa para Talut ench-la. Este acedeu, depois voltou  discusso.
     - No est interessada nisto, est? Vamos ali, onde Deegie e Tornec esto tocando - disse Ranec em voz baixa, inclinando-se perto do ouvido dela.
     - Acho que no, eles falam sobre caa. - Ayla se voltou para a discusso sria, mas havia perdido tanto que no sabia em que ponto eles estavam, e eles no 
pareciam notar se ela ouvia ou no.
     -No perder nada. Eles nos contaro tudo depois. Oua aquilo - falou, calando-se em seguida para que ela ouvisse os sons musicais vibrantes vindos do lado 
oposto da fogueira. - No prefere ver como Tornec o faz? Ele  muito bom, realmente.
     Ayla se inclinou para o som, atrada pela batida ritmada. Lanou um olhar ao grupo que fazia planos, depois fitou Ranec e sorriu larga e radiantemente.
     - Sim, prefiro ver Tornec! - exclamou, sentindo-se satisfeita consigo mesma.
     Quando se levantaram, Ranec, de p perto dela, a deteve.
     - Deve parar de sorrir, Ayla - disse ele, o tom srio e severo.
     - Por qu? - perguntou ela com grande preocupao, o sorriso desaparecendo, indagando-se o que fizera de errado.
     - Porque voc  to encantadora quando sorri, que me faz perder o flego - disse Ranec, e era sincero, mas ajuntou: - E como falarei com voc se estiver sem 
ar?
     O sorriso de Ayla voltou diante do elogio. Depois, a idia de Ranec arquejar em busca de ar por causa do seu sorriso a fez rir baixinho. Era uma brincadeira, 
claro, pensou ela, embora no tivesse absoluta certeza de que ele brincava. Caminharam em direo  nova entrada para a Fogueira do Mamute.
     Jondalar os observou enquanto se aproximavam. Ele andara se divertindo com os ritmos e a msica enquanto esperava por ela, mas no gostou de ver Ayla caminhando 
na direo dos msicos com Ranec. Sentiu o cime crescer em sua garganta e teve uma necessidade urgente de atacar com violncia o homem que ousava assediar a mulher 
que ele amava. Mas Ranec, apesar de sua aparncia totalmente diferente, era Mamutoi e pertencia ao Acampamento do Leo. Jondalar era apenas um hspede. Eles se poriam 
ao lado de seu membro e ele estava sozinho. Tentou exercer controle e raciocinar. Ranec e Ayla apenas caminhavam juntos. Como ele podia objetar a isto?
     Ele tinha sentimentos confusos sobre a adoo de Ayla desde o incio. Queria que ela pertencesse a algum grupo de pessoas porque ela o desejava e, admitiu, 
ele, porque assim ela seria mais aceitvel para o seu povo. Ele vira como ela ficara feliz quando trocaram presentes e ficou satisfeito por ela, mas se sentiu distante 
e mais preocupado que nunca porque, talvez, ela no quisesse partir. Perguntou-se se ele devia ter permitido sua prpria adoo, afinal.
     Sentira-se parte da adoo de Ayla no comeo. Mas, agora, sentia-se como forasteiro, mesmo em relao a Ayla. Ela era uma entre eles. Aquela era a sua noite, 
a sua celebrao, sua e do Acampamento do Leo. Ele no lhe havia dado presente e no recebera um em troca. Sequer pensara nisso, embora agora quisesse t-lo feito. 
Mas ele no tinha presentes para dar a ela ou a ningum. Havia chegado ali sem nada, e no passara anos fazendo e juntando coisas. Aprendera muitas coisas em suas 
viagens e acumulara conhecimento, mas no tivera oportunidade para se beneficiar, ainda, de suas aquisies.
     Com uma carranca sombria, Jondalar observou-a sorrindo e rindo com Ranec, sentindo-se como um intruso indesejvel.
     Quando a discusso foi interrompida, Talut distribuiu mais de sua bebida fermentada, feita do amido de razes de tifceas e vrios outros ingredientes, com 
os quais fazia experimentos constantes. As festividades centralizadas em Deegie e Tornec se tornaram mais animadas. Eles tocaram msica, as pessoas cantaram, s 
vezes sozinhas, em outras, juntas. Alguns danaram, no o tipo de dana vivo que Ayla havia visto antes, l fora, mas uma forma sutil de movimento corporal feito 
de p num nico local, acompanhando o compasso muitas vezes com canto tambm.
     Ayla reparou em Jondalar muitas vezes, um pouco retrado, e caminhou em sua direo em diversas oportunidades, mas alguma coisa sempre a interrompia. Havia 
muita gente e todo mundo parecia querer chamar sua ateno. Ela no estava inteiramente auto-controlada, devido  bebida de Talut, e sua concentrao era facilmente 
interrompida.
     Ela tomou o lugar de Deegie uma vez, tocando o tambor com coragem e entusiasmo, e recordou alguns dos ritmos do Cl. Eram complexos, distintos e, para o Acampamento 
do Leo, incomuns e intrigantes. Se Mamut tinha alguma dvida sobre as origens de Ayla, as lembranas despertadas por sua msica a eliminou completamente.
     Depois, Ranec ficou de p e danou e cantou uma cano divertida, cheia de insinuaes e duplos sentidos sobre os prazeres de ddivas, dirigida a Ayla. Provocou 
sorrisos largos e olhares maliciosos, e foi suficiente para fazer Ayla corar. Deegie lhe mostrou como danar e cantar a resposta satrica mas, no fim, onde um vislumbre 
de aceitao ou rejeio devia termin-la, Ayla parou. Ela no podia fazer nem uma coisa nem outra. No compreendia exatamente as sutilezas da brincadeira e, embora 
no fosse sua inteno encoraj-lo, no queria que ele pensasse que ela no gostava dele, tampouco. Ranec sorriu. A cano, disfarada como humorstica, era muitas 
vezes usada como meio, que preservava a dignidade, de descobrir se o interesse era mtuo. Nem mesmo uma recusa clara o teria detido; ele a considerava nada menos 
que promissora.
     Ayla estava tonta com a bebida, o riso e a ateno. Todos queriam envolv-la, todos queriam falar-lhe, ouvi-la, abra-la e se sentirem ntimos. Ela no se 
lembrava de ter-se divertido tanto alguma vez, ou de ter-se sentido to excitada e amistosa, ou to querida. E todas as vezes que olhava ao redor encontrava um sorriso 
sedutor, radiante, e olhos escuros penetrantes concentrados nela.
      medida que a noite passava, o grupo comeou a diminuir. As crianas adormeceram e foram levadas para a cama. Fralie fora dormir mais cedo, por sugesto de 
Ayla, e o resto da Fogueira da Gara a seguiu pouco depois. Tronie queixando-se de dor de cabea - ela no se sentia bem quela noite - foi para a sua fogueira para 
amamentar Hartal e adormeceu. Jondalar tambm se esgueirou e saiu, ento. Estendeu-se no estrado-cama esperando por Ayla e observando-a.
     Wymez ficou incomumente loquaz depois de algumas taas da bebida de Talut, e contou histrias e fez comentrios provocantes, primeiro, a Ayla, depois a Deegie, 
em seguida, a todas as mulheres. Tulie comeou a ach-lo interessante, de repente, depois de todo aquele tempo e retribuiu as provocaes e brincadeiras. Acabou 
convidando-o a passar a noite na Fogueira dos Auroques consigo e Barzec. Ela no dividira sua cama com um segundo homem desde a morte de Darnev.
     Wymez resolveu que poderia ser uma boa idia deixar a fogueira de Ranec e talvez no fosse tolice deixar que soubessem que uma mulher podia escolher dois homens. 
Ele no estava cego para a situao que se desenvolvia, embora duvidasse que Ranec e Jondalar pudessem chegar a qualquer acordo. Mas a mulher grande parecia particularmente 
atraente naquela noite, e ela era uma chefe de alto valor, que tinha muito status para outorgar. Quem poderia dizer que mudanas ele quereria fazer, se Ranec decidisse 
alterar a composio da Fogueira da Raposa?
     No muito depois de os trs se dirigirem para o fundo da habitao, Talut provocou Nezzie para acompanh-lo  Fogueira do Leo. Deegie e Tornec se envolveram 
com testes com seus instrumentos, excluindo todos os outros, e Ayla pensou ouvir alguns de seus ritmos. Depois, compreendeu que ela e Ranec conversavam sozinhos, 
e ficou constrangida.
     - Acho que todos foram dormir - disse ela, com a voz um pouco arrastada. Ela sentia os efeitos da bebida fermentada, e se movia para frente e para trs no mesmo 
lugar. A maioria das luzes tinha-se apagado, e o fogo morria.
     - Talvez devssemos - disse ele, sorrindo. Ayla sentiu o convite no-falado brilhando em seus olhos, e foi atrada por ele, mas no sabia o que fazer.
     - Sim, estou cansada - disse ela, comeando a caminhar para sua cama.
     Ranec segurou-a pela mo e a deteve
     - Ayla. No v. - Seu sorriso desaparecera, e o tom de voz era insistente. Ela se virou e, no instante seguinte, os braos de Ranec a abraavam e sua boca era 
exigente sobre a dela. Ayla entreabriu os olhos e a resposta do homem foi imediata. Ele a beijou toda, a boca, o pescoo, abaixo do pescoo. Suas mos se estenderam 
para os seios dela, depois acariciaram-lhe os lbios, e as coxas, e tomaram seu montculo, como se ele no pudesse se saciar dela e a quisesse, inteira, imediatamente. 
Choques inesperados de excitao a percorreram. Ele a puxou para si e ela sentiu um volume duro e quente contra seu corpo, e um sbito calor prprio, entre as pernas.
     - Ayla, quero voc. Venha para minha cama - disse ele com insistncia e domnio.
     Com complacncia inesperada, ela o seguiu.
     Durante toda  noite, Jondalar havia observado a mulher que amava rir e brincar e danar com seu novo povo e, quanto mais observava, mais se sentia um estranho. 
Mas era o escultor atencioso de pele escura, em particular, que o irritava. Ele queria dar vazo  sua clera, avanar e levar Ayla para longe, mas aquele agora 
era o seu lar, aquela era  noite de sua adoo. Que direito tinha ele de interferir em sua comemorao? Ele s podia fingir que aceitava, se no que sentia prazer, 
mas estava infeliz e foi para o estrado-cama desejando o esquecimento no sono que no vinha.
     Do espao escuro, cercado, Jondalar observou Ranec abraar Ayla e conduzi-la em direo  sua cama e sentiu um choque de incredulidade. Como Ayla podia ir com 
outro homem quando ele a esperava? Nenhuma mulher escolhera outro homem quando ele a queria, e aquela era a mulher que ele amava! Sentiu vontade de saltar da cama, 
agarr-la, e dar um soco na boca sorridente de Ranec.
     Depois, imaginou o sangue e dentes quebrados e recordou a agonia e vergonha do exlio. Aqueles no eram sequer seu povo. Certamente o expulsariam, e na noite 
fria e gelada das estepes peri-glaciais no havia lugar aonde ir. E como ele poderia ir para algum lugar sem Ayla?
     Mas ela havia feito sua escolha. Ela escolhera Ranec, e era direito dela escolher qualquer um que quisesse. Somente porque Jondalar estava esperando no significava 
que Ayla tivesse que ir para ele, e no fora. Ela escolheu um homem do seu povo, um homem Mamutoi, que cantava e danava e namorava com ela, e com quem ela havia 
rido e se divertido. Podia culp-la? Quantas vezes ele havia escolhido algum com quem rira e se divertira?
     Mas, como ela fora capaz de fazer aquilo? Era a mulher que ele amava! Como ela pudera escolher outro homem, quando ele a amava? Jondalar se angustiou e desesperou, 
mas o que podia fazer? 
     Nada, a no ser engolir sua nusea amarga de cime e ver a mulher que amava acompanhar outro homem  cama.
     Ayla no pensava claramente, sua mente estava confusa devido  bebida de Talut, e no havia dvida de que se sentia atrada por Ranec, mas essas no foram s 
razes para ter ido com ele. Ela teria ido, de qualquer maneira. Ayla fora criada pelo Cl. Foi ensinada a ceder, sem discutir, a qualquer homem que lhe ordenasse, 
que lhe desse o sinal de que desejava ter relaes com ela.
     Se qualquer homem do Cl desse o sinal a qualquer mulher, ela devia prestar o servio, assim como lhe trazer gua ou alimento. Embora se levasse na conta de 
uma cortesia pedir, em primeiro lugar, os favores de uma mulher ao seu companheiro, ou ao homem com quem estava unida, isto no era uma exigncia, e seria considerado 
coisa natural. Um homem devia mandar em sua companheira, mas no exclusivamente. O elo entre uma mulher e um homem era naturalmente benfico, compassivo, e muitas 
vezes, aps algum tempo, afetuoso, mas era inconcebvel demonstrar cime ou qualquer outra emoo forte. Uma mulher no se tornava menos companheira de um homem 
porque prestara um pequeno favor a outro homem; e ele no amava menos os filhos de sua companheira. Ele assumia certa responsabilidade por eles, em termos de cuidado 
e treinamento, mas sua caa fornecida ao seu Cl, e todo alimento colhido ou caado, eram divididos.
     Ranec havia dado a Ayla o que ela viera a interpretar como o sinal dos Outros, uma ordem para satisfazer suas necessidades sexuais. Como qualquer mulher adequadamente 
criada pelo Cl, nunca lhe ocorreu recusar. Ela olhou uma vez na direo de sua cama, mas no viu os olhos azuis cheios de choque e sofrimento. Teria ficado surpresa, 
se os visse.
     O ardor de Ranec no esfriara quando caminharam para a Fogueira da Raposa, mas ele estava mais controlado porque Ayla se encontrava dentro de seus limites, 
embora mal pudesse acreditar nisso. Sentaram-se no estrado-cama de Ranec. Ela notou as peles brancas que havia dado a ele. Comeou a desatar seu cinto, mas Ranec 
a deteve.
     - Quero despi-la, Ayla. Sonhei com isto, e quero que seja exatamente assim - falou Ranec.
     Ela encolheu os ombros, satisfeita. J havia notado que Ranec era diferente de Jondalar, de certa forma, e estava curiosa. No era uma questo de julgar que 
homem era melhor, apenas observar as diferenas.
     Ranec olhou para ela durante algum tempo.
     - Voc  to bonita - disse ele, afinal, e se inclinou para beij-la. A boca era macia, embora pudesse endurecer quando a beijava com ardor. Ela reparou na 
mo escura contornada pela pele branca, e esfregou o brao dele suavemente. A pele dele era igual a qualquer outra.
     Ele comeou tirando as contas e conchas que ela tinha no cabelo; depois, correu a mo pelos cabelos, e os trouxe at seu rosto para senti-los e cheir-los.
     - Bonita, to bonita... - sussurrou.
     Desamarrou seu colar e depois o novo saquinho do amuleto, e os colocou cuidadosamente ao lado das contas na bancada de estocagem perto da cabeceira da cama. 
Em seguida, desatou o cinto de Ayla, levantou-se e puxou-a para que ficasse de p ao seu lado. De repente, ele lhe beijava a face e o pescoo de novo, e apalpava-lhe 
o corpo sob a tnica, como se no pudesse esperar. Ayla sentiu a excitao do homem. Os dedos dele acariciando-lhe o mamilo enviavam uma corrente de sensaes atravs 
dela. Ela se inclinou para ele, entregando-se.
     Ele parou, ento e, respirando fundo, ergueu a tnica por cima da cabea, e dobrou-a com cuidado ao lado das outras coisas de Ayla. Em seguida, apenas olhou 
para ela, como se tentasse memoriz-la. Virou-a de um lado, depois do outro, enchendo os olhos como se eles, tambm, precisassem de satisfao.
     - Perfeitos, perfeitos. Olhe para eles, cheios, no entanto bem-feitos, perfeitos - disse ele, correndo a ponta do dedo levemente ao longo do perfil do seio. 
Ela fechou os olhos e estremeceu com o toque terno. De sbito, uma boca morna sugava-lhe um mamilo e ela sentiu um choque no fundo de si mesma. - Perfeitos, to 
perfeitos... - murmurou ele, mudando para o outro seio. Pressionou o rosto entre eles; depois, com as duas mos os manteve juntos e sugou os dois bicos ao mesmo 
tempo, produzindo pequenos rudos de grunhidos deleitados. Ela arqueou o pescoo para trs e fez presso contra ele, sentindo ondas gmeas de emoo; depois, estendeu 
a mo at a cabea do homem e, reparando no cabelo to abundante e crespo, deixou que suas mos usufrussem a experincia nova.
     Ainda estavam de p quando ele recuou e olhou-a com um sorriso no rosto, enquanto desatava o cordo da cintura e abaixava as perneiras dela. No conseguiu resistir 
e sentiu a textura do cabelo crespo e louro, e tomou o pbis com as mos em taa para tocar a umidade clida; depois, a fez sentar-se. Removeu rapidamente sua camisa 
e colocou-a ao lado da dela; em seguida, ajoelhou-se diante da jovem e retirou um sapato tipo mocassim para uso caseiro.
     - Sente ccegas? - perguntou.
     - Um pouco. Na ponta.
     - Que tal isso? - ele esfregou-lhe o p, suave, mas firmemente, aplicando presso no peito do p.
     - E bom. - Ele lhe beijou o peito do p. - E bom - repetiu ela com um sorriso.
     Ele retribuiu o sorriso, depois tirou o outro sapato de Ayla, e esfregou-lhe o p. Puxou as perneiras e colocou-as com os sapatos e as outras coisas da jovem. 
Tomando-lhe as mos, ele a fez ficar de p novamente, de modo que ela permanecesse nua sob a ltima luz dos carves que se apagavam na Fogueira do Mamute. Ele a 
virou novamente, de frente e de costas, olhando-a.
     - O Me! To bonita, to perfeita. Exatamente como eu sabia que seria - cantarolou ele, mais para si mesmo do que para ela.
     - Ranec, no sou bonita - censurou ela.
     - Devia se ver, Ayla. Ento, no diria isso.
     - E bom voc dizer,  bom pensar assim, mas no sou bonita - insistiu Ayla.
     - E mais bela do que todas que j vi.
     Ela concordou, apenas, com um gesto de cabea. Ele podia pensar assim, se quisesse. Ela no poderia impedi-lo.
     Depois de encher os olhos, ele comeou a tocar primeiro, levemente, todo o corpo da jovem, contornando-o com as pontas dos dedos, de ngulos diferentes. Ento, 
com mais detalhe, traou a estrutura muscular sob a pele. De sbito, ele parou e tirou o resto das roupas, deixando-as onde caram, e tomou-a nos braos, querendo 
sentir o corpo de Ayla com o dele. Ela o sentiu tambm, seu corpo quente, compacto, musculoso, seu membro endurecido, ereto e palpitante. Ela inalou seu agradvel 
odor masculino. Ele beijou-lhe a boca, depois o rosto e pescoo, mordiscando-lhe os ombros com dentadas suaves que a fizeram estremecer, e murmurou num sussurro:
     - To bonita, to perfeita... Ayla, quero-a de todas as maneiras. Quero ver voc e toc-la e abra-la. O Me, to bonita!
     As mos de Ranec estavam sobre os seios dela de novo, e sua boca sobre os mamilos, sugando, depois mordiscando, depois sugando os dois, produzindo seus sons 
baixos de prazer. Ele tomou um dos seios na boca, tentando sug-lo o mximo possvel; depois avanou para o outro. Ajoelhou-se diante dela, roou o nariz por seu 
umbigo, e passou os braos ao redor das pernas da mulher e do par de ndegas, macias e redondas, acariciando-as e depois, a fenda entre elas. Cheirou-lhe o plo 
louro e, levemente, provocantemente, encontrou-lhe a rachadura com uma lngua molhada. Ela gemeu e ele sentiu sua resposta trmula...
     Ele se levantou, ento, e deitou-a na cama, sobre as peles muito macias, luxuosas, aconchegantes. Ele se arrastou para o lado dela, beijou-a com lbios macios, 
que mordiam, e no dentes, sugou e mordiscou-lhe os seios e, com a mo, acariciou e apalpou-lhe as dobras e gretas do sexo. Ela gemeu e gritou enquanto ele parecia 
tocar todos os pontos, ao mesmo tempo.
     Ele pegou a mo dela e colocou-a sobre seu rgo firme, cheio, ingurgitado. Ela se sentou, enroscou-se e esfregou a face contra ele, para deleite de Ranec. 
 luz fraca, ela podia ver o contorno de sua mo clara contra o negrume dele. Ele tinha a pele lisa. Seu odor de homem era diferente, contudo, semelhante, mas diferente, 
e seus plos eram como arame e encarapinhados. Ele gemeu com um doce xtase ao sentir uma umidade clida encerrar seu membro e uma sensao devastadora, irresistvel. 
Aquilo era mais do que ele imaginara, mais do que ousara sonhar. Pensou que jamais conseguiria conter-se quando ela comeou a usar tcnicas que havia aprendido to 
recentemente, a lngua envolvendo-o depressa, puxando-o e libertando-o, acrescentando golpes firmes ao membro ereto.
     - Oh, Ayla, Ayla! Voc  Ela! Eu sabia que era. Voc me honra.
     De repente, ele se sentou.
     - Quero voc, e no posso esperar. Por favor, agora - disse num sussurro rouco, contido.
     Ela rolou e se abriu para ele. Ranec montou e penetrou, emitindo um grito prolongado e trmulo. Depois, ele recuou e tornou a avanar, uma vez e outra e mais 
outra, sua voz crescendo em volume a cada investida. Ayla curvou o corpo para encontr-lo, tentando uma harmonia com os seus movimentos.
     - Ayla, estou pronto. Aqui est - gritou ele, retesando-se, em seguida. De repente, gemeu um grande suspiro de alvio, penetrou-a e libertou-a por mais algumas 
vezes e relaxou sobre ela. Ayla levou muito mais tempo para relaxar.
     Depois de algum tempo, Ranec ergueu o corpo, libertou-se e rolou de lado, e levantando-se sobre um cotovelo, abaixou o olhar para Ayla.
     - Temo no ter sido to perfeito quanto voc - disse ele.
     Ela franziu a testa.
     - No compreendo esse perfeito, Ranec. O que  perfeito?
     - Foi rpido demais. Voc  to maravilhosa, to perfeita naquilo que faz, fiquei pronto cedo demais. No podia esperar e acho que no foi to perfeito para 
voc - disse ele.
     - Ranec, esta  a ddiva do prazer, no ?
     - Sim,  um dos seus nomes.
     - Acha que no foi prazer para mim? Eu tive prazeres., Muitos.
     - Muitos, mas no o prazer perfeito. Se puder esperar acho que, com um pouco de tempo, estarei pronto novamente.
     - No  necessrio.
     - Talvez no seja necessrio, Ayla, mas eu quero - disse ele, inclinando-se para beij-la. - Eu quase poderia agora - acrescentou, acariciando-lhe o seio, o 
ventre e estendendo a mo at o pbis. Ela saltou sob o toque e ainda tremia. - Lamento, voc estava quase pronta. Se eu tivesse conseguido conter-me um pouco mais...
     Ela no respondeu. E beijava-lhe o seio, friccionando a pequena salincia dentro da fenda e, num instante, ela estava novamente pronta. Movia os quadris, pressionando-o 
contra ele, gritando. De repente, com uma onda e um grito veio o alvio, e ele sentiu um calor mido. Ela relaxou ento.
     Sorriu para ele.
     - Acho que, agora, so prazeres perfeitos - falou.
     - No exatamente, mas talvez da prxima vez. Espero que tenhamos muitas prximas vezes, Ayla - replicou ele, deitado de lado, prximo a ela, com a mo descansando 
sobre o ventre da jovem. 
     Ela franziu a testa, sentindo-se confusa. Perguntou-se se entendia mal alguma coisa.
     Na penumbra, ele podia ver sua mo escura sobre a pele clara, e sorriu. Ele sempre gostara do contraste entre sua cor escura e o branco da pele das mulheres 
que amava. Deixava uma impresso que nenhum outro homem podia causar, e as mulheres notavam isso. Sempre comentavam e jamais o esqueciam. Estava contente porque 
a Me resolvera lhe dar aquela cor escura. Tornava-o diferente, incomum, inesquecvel. Gostava da sensao do ventre de Ayla sob sua mo tambm, porm, ainda mais, 
gostava de saber que ela estava ali, ao lado dele, em sua cama. Ele havia esperado por aquele momento, desejado, sonhado e, mesmo agora, com ela ali, parecia-lhe 
impossvel.
     Um pouco depois, ele subiu a mo at os seios dela, acariciou-lhe um mamilo e sentiu-o endurecer. Ayla tinha comeado a cochilar, estava cansada e com um pouco 
de dor de cabea e, quando ele roou o nariz em seu pescoo e depois pousou a boca sobre a dela, ela compreendeu que ele a queria, tinha-lhe dado novamente o sinal. 
Sentiu um instante de aborrecimento e, por um momento, teve necessidade de recusar. Ficou surpresa, quase chocada e despertou completamente. Ele estava-lhe beijando 
o pescoo, alisando-lhe o ombro e brao, sentindo depois a plenitude e redondeza de seus seios. Quando ele levou um mamilo  boca, ela no estava mais aborrecida. 
Sensaes agradveis percorreram-lhe as profundezas, alcanando seu local de prazer perfeito. Ele mudou para o outro seio, afagando a ambos e sugando cada um de 
uma vez, produzindo seus rudos de prazer no fundo da garganta.
     - Ayla, bela Ayla - murmurou. Depois, se sentou e olhou-a na cama dele. - O Me! No acredito que esteja aqui. To adorvel! Desta vez ser perfeito, Ayla. 
Desta vez, sei que ser perfeito.
     Jondalar jazia rgido na cama, o maxilar apertado, querendo desesperadamente usar os punhos fechados contra o escultor, mas forando-se a no se mover. Ela 
havia olhado diretamente para ele, depois se virara e fora com Ranec. Toda vez que fechava os olhos, via o rosto de Ayla olhando diretamente para ele, depois afastando-se.
      sua escolha!  sua escolha, continuou repetindo a si mesmo. Ela disse que o amava, mas como poderia saber? Claro, ela podia ter gostado dele, at o amado 
quando estavam sozinhos no vale; ela no conhecia mais ningum, ento. Ele era o primeiro homem que conhecera. Mas, agora, que encontrara outros homens, por que 
no amaria outro? Tentou convencer-se de que era justo para ela conhecer outros e fazer sua escolha, mas no podia esquecer que naquela noite ela havia escolhido 
outro homem.
     Desde que voltara de sua estada com Dalanar, o homem alto, musculoso, quase belamente atraente, pudera escolher suas mulheres. Uma expresso convidativa de 
seus olhos irresistveis, e qualquer mulher que quisesse seria sua. Na verdade, elas faziam tudo o que era possvel para encoraj-lo. Seguiam-no, perseguiam-no, 
desejavam que ele as convidasse. E ele o fazia, mas nenhuma mulher fora capaz de igualar a lembrana de seu primeiro amor, ou derrotar o fardo de culpa por ele. 
Agora, a nica mulher no mundo que havia encontrado, afinal, a nica mulher que amava, estava na cama de outro.
     O simples pensamento de que ela havia escolhido outro provocava sofrimento, mas quando ele ouviu os sons inconfundveis de sua partilha de prazeres com Ranec, 
abafou um gemido, deu socos na cama e sua agonia dobrou. Era como um carvo ardente fervendo em seu estmago. Seu peito estava apertado, a garganta queimava, ele 
respirava em arquejos sufocados como se vapor enfumaado o abafasse. A presso fez rolar lgrimas dos cantos de seus olhos embora ele as contivesse, fechando os 
olhos to apertadamente quanto possvel.
     Afinal terminou e, quando ele teve certeza, relaxou um pouco. Mas ento recomeou e ele no pde suportar. Levantou-se de um salto, permaneceu um momento indeciso, 
depois saiu correndo em direo ao novo anexo. As orelhas de Whinney se ergueram e ela se voltou para ele, enquanto passava e atravessava a arcada externa para sair.
     O vento o jogou contra a habitao de terra. O frio repentino tirou-lhe o ar e despertou-o para que tomasse conscincia dos arredores. Olhou para a margem oposta 
do rio congelado e viu nuvens cruzando a lua, arrastando bordas em farrapos. Afastou-se alguns passos do abrigo. Rajadas de vento penetraram em sua tnica e, parecia, 
em sua pele e msculos at os ossos. Voltou ao interior, tremendo, caminhou lentamente pelo local dos cavalos e entrou de novo na Fogueira do Mamute. Retesou-se 
escutando, e nada ouviu a princpio. Depois vieram os sons de respirao, e gemido, e grunhido. Ele olhou para seu estrado-cama e depois virou-se para o anexo, sem 
saber que rumo tomar. No podia suport-lo ali dentro; no sobreviveria l fora. Afinal, no resistiu. Tinha que sair. Agarrando suas peles de dormir em viagem, 
atravessou novamente a passagem em arco para o anexo dos cavalos.
     Whinney bufou e agitou a cabea, e Racer, que jazia deitado, levantou a cabea do solo e saudou Jondalar suavemente. O homem se dirigiu aos animais, abriu as 
peles ao cho, ao lado de Racer, e deitou-se nelas. Estava frio no anexo, mas no to frio quanto l fora. No havia vento, algum calor se infiltrava, e os cavalos 
geravam mais. E a respirao deles abafava os sons de outra respirao pesada. Mesmo assim, ele permaneceu acordado a maior parte da noite, sua mente recordando 
sons, repetindo cenas reais e imaginrias, uma e outra vez.
     Ayla acordou quando as primeiras rstias de luz do dia penetraram atravs de rachaduras ao redor do buraco de sada da fumaa. Ela estendeu a mo para o outro 
lado da cama em busca de Jondalar e ficou desconcertada ao encontrar Ranec. Com a lembrana da noite anterior veio o conhecimento de que teria uma forte dor de cabea; 
os efeitos da bebida fermentada de Talut. Esgueirou-se para fora da cama, pegou as roupas que Ranec havia arrumado to bem, e correu para a prpria cama. Jondalar 
tampouco estava ali. Ela olhou ao redor, para as outras camas da Fogueira do Mamute. Deegie e Tornec dormiam em uma e ela se perguntou se eles tinham partilhado 
os prazeres. Depois, lembrou-se que Wymez fora convidado para a Fogueira dos Auroques e que Tronie no se sentia bem. Talvez Deegie e Tornec tivessem apenas achado 
mais conveniente dormir ali. No importava, mas ela se perguntou onde Jondalar estaria.
     Recordou que no o havia visto depois que a noite anterior havia avanado. Algum disse que ele fora dormir, mas onde estava ele agora? Reparou novamente em 
Deegie e Tornec. Ele tambm devia estar dormindo em uma fogueira diferente, pensou. Ficou tentada a verificar, mas ningum mais parecia estar acordado e de p, e 
ela no queria despertar nenhum deles. Sentindo-se inquieta, rastejou at a cama vazia, puxou as peles ao seu redor, e depois de algum tempo, adormeceu de novo.
     Da vez seguinte que acordou, a cobertura do buraco de fumaa fora afastada para um lado e a brilhante claridade do dia resplandecia no interior. Ela comeou 
a levantar-se, sentiu forte dor latejante na cabea, e voltou a deitar-se, fechando os olhos. Ou estou muito doente, ou isto  resultado da bebida de Talut, pensou. 
Por que as pessoas gostam de beber se isto as faz ficar doentes? Depois, refletiu sobre a celebrao. Ela no tinha uma lembrana exata de tudo, mas recordava os 
ritmos tocados, a dana e o canto, embora no soubesse realmente como. Ela havia rido muito, at de si mesma, ao descobrir que tinha pouca voz para cantar, no se 
importando, de forma alguma, por ser o centro de ateno. Isso no era do seu feitio. Normalmente, preferia permanecer nos bastidores e observar, e fazer seu aprendizado 
e treinamento em particular. Teria sido a bebida que mudara sua tendncia natural e fizera com que fosse menos cuidadosa? Mais ousada? Seria por isso que as pessoas 
bebiam?
     Ela tornou a abrir os olhos e depois se levantou com muito cuidado, segurando a cabea. Urinou na cesta noturna caseira - uma cesta entrelaada apertadamente, 
cheia, at a metade, do esterco seco, pulverizado, de animais de pasto das estepes, que absorvia lquido e matria fecal. Ela se lavou com gua fria. Depois, avivou 
o fogo e ajuntou pedras quentes de cozinhar. Vestiu-se com a roupa que havia feito antes de chegar ali, pensando nela agora como um traje simples, comum, embora, 
quando o fizera, parecesse a ela muito extico e complexo.
     Ainda se movendo com cuidado, tirou vrios pacotes de sua bolsa de remdios e misturou casca de salgueiro, mileflio, betnica e camomila em quantidades diversas. 
Derramou gua fria na cesta de cozinhar que usava para o ch da manh, acrescentou pedras quentes at a gua ferver, depois o ch. Em seguida, agachou-se diante 
do fogo e fechou os olhos enquanto esperava o ch ficar pronto. De repente, levantou-se abruptamente e se ps de p, sentindo a cabea latejar, mas ignorando o fato, 
e pegou novamente a bolsa de remdios.
     Quase esqueci, pensou, tirando os embrulhos das ervas anticoncepcionais secretas de Iza. Quer as ervas ajudassem seu totem a expulsar o esprito do totem de 
um homem, como Iza acreditava, ou de alguma forma resistissem  essncia de um rgo masculino, como ela suspeitava, no queria correr o risco de engravidar naquele 
momento. Tudo estava muito incerto. Ela quisera um beb de Jondalar, mas enquanto esperava pelo ch, comeou a pensar que aparncia teria um beb que fosse uma mistura 
de Ranec e sua. Seria como ele? Como ela? Ou teria um pouco de ambos? Provavelmente de ambos... Como Dure e Rydag. Eram mistos. Um filho escuro de Ranec pareceria 
diferente tambm, exceto, pensou, com uma ponta de amargura, que ningum o chamaria de abominao, ou o consideraria um animal. Ele seria capaz de falar e rir e 
chorar, como as outras pessoas.
     Sabendo como Talut apreciara seu remdio para dor de cabea da ltima vez em que ele tomara sua bebida fermentada, Ayla fez uma quantidade suficiente para vrias 
pessoas. Depois de beber sua poro, saiu  procura de Jondalar. O novo anexo que levava ao exterior, diretamente da Fogueira do Mamute, estava provando ser uma 
convenincia e, por alguma razo, ela ficou contente por no ter que atravessar a Fogueira da Raposa. Os cavalos estavam l fora mas, quando percorreu o recinto, 
notou a pele de dormir em viagem, de Jondalar, enrolada ao lado da parede e se perguntou, ao passar, como a pele fora parar ali.
     Ao afastar a cortina para o lado e atravessar o segundo arco, viu Talut, Wymez e Mamut conversando com Jondalar, de costas para ela.
     - Como vai a cabea, Talut? - perguntou ela, acercando-se.
     - Est me oferecendo o seu remdio mgico da manh seguinte?
     - Estou com dor de cabea e fiz um ch. H mais l dentro - disse ela; depois se virou para Jondalar com um sorriso largo e feliz, agora que o havia encontrado.
     Por um instante, seu sorriso teve idntica resposta, mas somente por um instante. Depois, o semblante de Jondalar ficou sombrio, com uma ruga na testa, e os 
olhos cheios de uma expresso que ela jamais vira ali antes. O sorriso de Ayla a abandonou.
     - Tambm quer ch, Jondalar? - interrogou, confusa e perturbada.
     - Por que acha que preciso? No bebi demais na noite passada, mas imagino que voc no reparou - replicou ele com voz to fria e distante que ela mal reconheceu.
     - Onde esteve? Procurei por voc, antes, mas no estava na cama.
     - Voc tambm no - disse ele. - Acho que pouco lhe importava saber onde eu estava. - Ele se virou e afastou-se. Ela olhou para os outros trs homens. Viu embarao 
no rosto de Talut. Wymez parecia pouco  vontade, mas no inteiramente infeliz. Mamut tinha uma expresso que ela no foi capaz de decifrar.
     - Ah... Acho que vou tomar o ch que ofereceu - disse Talut, inclinando-se depressa para entrar na habitao.
     - Talvez eu tambm deva tomar uma xcara - falou Wymez e seguiu-o.
     O que fiz de errado?, Pensou Ayla e a inquietao que sentia se converteu, ao crescer, em um n duro de sofrimento na boca do seu estmago.
     Mamut a observou, depois disse:
     - Acho que voc devia vir e falar comigo, Ayla. Mais tarde, quando pudermos ter um instante sozinhos. Talvez seu ch traga inmeros visitantes  fogueira agora. 
Por que no come alguma coisa?
     - No estou com fome - respondeu Ayla, o estmago revolvendo-se. No queria comear com seu novo povo fazendo alguma coisa errada, e perguntou-se por que Jondalar 
estava to zangado.
     Mamut sorriu de forma tranqilizadora.
     - Devia tentar comer alguma coisa. H sobra de carne de mamute da sua festa, e acho que Nezzie guardou um daqueles pes cozidos para voc.
     Ayla balanou a cabea, concordando. Ao caminhar em direo  entrada principal da habitao comunal, aborrecida e preocupada, procurou os cavalos com a parte 
de sua mente que estava sempre atenta a eles. Quando os viu, notou que Jondalar se encontrava com eles, e sentiu uma pequena sensao de alvio. Muitas vezes, os 
animais a tinham confortado quando estava perturbada e, embora no fosse um pensamento completamente formado, ela esperava que Jondalar se sentisse eventualmente 
melhor ao se voltar para os animais.
     Ela atravessou o vestbulo e entrou na fogueira de cozinhar. Nezzie estava sentada com Rydag e Rugie, comendo. Sorriu ao ver Ayla e se levantou. Apesar de seu 
corpo amplamente volumoso, Nezzie era ativa e graciosa em seus movimentos e, Ayla suspeitava, provavelmente bastante forte.
     - Coma um pouco de carne. Vou buscar o po que separei para voc. E o ltimo - disse Nezzie. - E pegue uma xcara de ch quente, se quiser. E de estramnio 
e hortel.
     Ayla partiu pedaos do po firme e mido para Rydag e Rugie quando se sentou com eles e com Nezzie, mas apenas provou a sua comida.
     - H algo errado, Ayla? - perguntou a mulher, sabendo que havia e imaginando a causa.
     Ayla a encarou com olhos perturbados.
     - Nezzie, conheo os costumes do Cl, no os costumes dos Mamutoi. Quero aprender, quero ser uma boa mulher Mamutoi, mas no sei quando ajo errado. Acho que 
fiz alguma coisa errada na noite passada.
     - Por que acha isso?
     - Quando fui l fora, Jondalar estava zangado. Acho que Talut no est feliz. Wymez tambm. Eles se afastaram depressa. Diga-me o que fiz de errado, Nezzie.
     No fez nada de errado, Ayla, a menos que ser amada por dois homens seja errado. Alguns homens so possessivos quando nutrem sentimentos fortes por uma mulher. 
No querem que elas estejam com outros homens. Jondalar acha que tem direito sobre voc e est zangado porque voc partilhou a cama de Ranec. Mas no  apenas Jondalar. 
Acho que Ranec sente o mesmo, e seria to possessivo como o outro, se pudesse. Eu o criei desde menino, e nunca o vi to atrado por uma mulher. Acho que Jondalar 
est tentando no mostrar como se sente, mas nada pode fazer e, se mostrou sua raiva, provavelmente embaraou Talut e Wymez. Talvez por isto tenham-se afastado, 
apressados.
     s vezes, gritamos um bocado, ou provocamos um ao outro. Orgulhamo-nos da hospitalidade e gostamos de ser amistosos, mas os Mamutoi no mostram muito seus 
sentimentos mais profundos. Pode causar problema. Tentamos evitar disputas, e brigas so desencorajadas. O Conselho de Irms censura at mesmo os ataques que os 
jovens gostam de fazer contra outros povos, como os Sungaea, e esto tentando conden-los. As Irms dizem que apenas levam a ataques como resposta, e as pessoas 
tm sido mortas. Dizem que  melhor negociar com eles do que atacar. O Conselho de Irmos  mais complacente. A maioria j praticou muitos ataques na juventude e 
diz que  apenas um meio de usar os msculos jovens e promover alguma excitao para si mesmos.
     Ayla no ouvia mais. A explicao de Nezzie, em lugar de esclarecer alguma coisa, somente a deixava mais confusa. Ser que Jondalar estava zangado porque ela 
respondera ao sinal de outro homem? Isso era motivo para se zangar? Nenhum homem do Cl se envolveria numa resposta emocional desse tipo. Broud foi o nico homem 
que sempre demonstrara o menor interesse por ela e assim mesmo porque sabia que ela odiava isso. Mas muitas pessoas se perguntavam por que ele se incomodava com 
uma mulher to feia e recebia bem uma demonstrao de interesse de outro homem. Quando pensou a respeito, compreendeu que Jondalar se aborrecera com o interesse 
de Ranec desde o incio.
     Mamut apareceu, vindo do vestbulo, caminhando com visvel dificuldade.
     - Nezzie, prometi encher a tigela de remdios de Mamut com medicamento para artrite - disse Ayla.
     Ela se levantou para ajud-lo, mas ele acenou, dispensando-a.
     - V na frente. Eu estarei l, apenas levarei um pouco mais de tempo.
     Ela atravessou depressa a Fogueira do Leo e a Fogueira da Raposa, aliviada por encontrar a ltima vazia, e ajuntou lenha ao fogo da Fogueira do Mamute. Enquanto 
procurava entre seus medicamentos, recordou as inmeras vezes que aplicara cataplasmas e emplastros, e fizera bebidas analgsicas para aliviar as articulaes doloridas 
de Creb. Era um campo de sua medicina que ela conhecia muito bem.
     Esperou at Mamut descansar confortavelmente, tomando goles de ch quente depois de ter acabado com a maioria de suas antigas dores, antes de fazer qualquer 
pergunta. Era calmante para ela, como para o velho feiticeiro, aplicar seu conhecimento, percia e inteligncia na prtica de sua arte, e aliviava parte do stress 
que ela andara sentindo. No entanto, quando pegou uma xcara de ch e sentou-se diante de Mamut, no sabia exatamente por onde comear.
     - Mamut, voc ficou muito tempo com o Cl? - perguntou, afinal.
     - Sim, leva bastante tempo para uma fratura sarar e, na poca, eu queria saber mais. Assim, fiquei at eles partirem para a Reunio de Cls.
     - Aprendeu os costumes do Cl?
     - Alguns.
     - Sabe sobre o sinal?
     - Sim, Ayla, sei sobre o sinal que um homem d a uma mulher. - Fez uma pausa, parecendo refletir, depois continuou: - Eu lhe direi uma coisa que jamais disse 
antes a algum. Havia uma jovem que ajudava a cuidar de mim enquanto meu brao consolidava, e depois fui includo em uma cerimnia de caa e cacei com eles; depois 
disso, ela me foi dada. Sei qual  o sinal e o que significa. Eu usei o sinal, embora no me sentisse  vontade sobre isso, no incio. Era uma mulher cabea-chata, 
e no muito atraente para mim, principalmente por eu ter ouvido muitas histrias sobre eles enquanto crescia. Mas eu era jovem e saudvel, e esperavam que me comportasse 
como um homem do Cl.
     Quanto mais tempo eu ficava, mais sedutora ela se tornava.., voc no tem idia de como pode ser atraente ter algum esperando, para satisfazer qualquer necessidade 
ou desejo seu. Somente mais tarde descobri que ela tinha um companheiro. Ela era uma segunda mulher, seu primeiro companheiro morrera. Assim, um dos outros caadores 
a aceitou, um pouco relutantemente, j que ela vinha de um cl diferente e no tinha filhos. Quando parti, no queria deix-la l, mas achei que ela seria mais feliz 
com um cl do que comigo e meu povo. E no estava certo de como seria recebido quando voltasse se trouxesse uma mulher cabea-chata comigo. Muitas vezes, tenho-me 
perguntado o que aconteceu com ela.
     Ayla fechou os olhos enquanto as lembranas a inundavam. Parecia estranho aprender coisas sobre seu cl com aquele homem, que ela conhecia havia to pouco tempo. 
Ela juntou a histria dele com o seu prprio conhecimento sobre a histria do cl de Brun.
     Ela nunca teve filhos, sempre foi segunda mulher, mas sempre foi aceita por algum. Morreu no terremoto, antes de eles me encontrarem.
     Ele concordou com um gesto de cabea. Tambm estava contente por ter uma pequena parte de seu passado revelada.
     - Mamut, Nezzie disse que Jondalar est zangado porque dividi a cama com Ranec.  verdade?
     - Acho que .
     - Mas Ranec me deu o sinal! Como Jondalar pode estar zangado se Ranec me deu o sinal?
     - Onde Ranec aprendeu o sinal do Cl? - perguntou Mamut, surpreso.
     - No o sinal do Cl, o sinal dos Outros. Quando Jondalar encontrou meu vale e ensinou-me os Primeiros Ritos e a Ddiva do Prazer da Grande Me Doni, perguntei 
qual era o seu sinal. Ele colocou a boca na minha, beijou-me. Disse que era assim que eu saberia que ele me queria; mostrou-me o seu sinal. Ranec me deu sinal na 
noite passada. Ento, ele disse Eu quero voc. Venha para minha cama. Ranec me deu o sinal. Ele deu ordem.
     Mamut olhou para o cu e disse:
     -  Me! - Depois, tornou a olhar para ela. Ayla voc no compreende. Certamente Ranec lhe deu o sinal de que queria voc, mas no era uma ordem.
     Ayla olhou para ele com grande aturdimento.
     - No compreendo.
     - Ningum pode mandar em voc, Ayla. Seu corpo lhe pertence,  sua escolha. Voc decide o que quer fazer e com quem quer faz-lo. Pode ir para a cama de qualquer
homem que escolher, contanto que ele queira... E no vejo muito problema a... Mas no tem que partilhar prazeres com qualquer homem que no queira. Jamais.
     Ela parou para refletir nas palavras dele.
     - E se Ranec der ordem de novo? Ele disse que me quer de novo, muitas vezes.
     - No duvido de que queira, mas no lhe pode dar ordem alguma. Ningum pode mandar em voc, Ayla. No contra a sua vontade.
     - Nem o homem que  meu companheiro? Nunca?
     - Acho que voc no continuaria unida a um homem sob estas circunstncias, por muito tempo, mas no, nem mesmo seu companheiro pode lhe dar ordens. Seu companheiro 
no  seu dono. Somente voc pode decidir.
     - Mamut, quando Ranec me der o sinal, no preciso ir?
     - Isso mesmo. - Olhou para a testa franzida de Avia. - Lamenta ter ido para a cama dele?
     - Lamentar? - Ela sacudiu a cabea. - No. No lamento. Ranec ... Bom. No  rude... como Broud. Ranec... Gosta de mim... Faz bons prazeres. No, no lamento 
por Ranec. Lamento por Jondalar. Lamento Jondalar estar zangado. Ranec faz bons prazeres, mas Ranec no ... Jondalar.
     Ayla virou a cabea para o lado enquanto se inclinava para o vento uivante, tentando proteger o rosto da rajada fria da neve trazida pela ventania. Cada passo 
cuidadoso  frente era violentamente combatido por uma fora tornada visvel apenas pela massa em redemoinho de gros brancos congelados atirados contra ela. Enquanto 
a tempestade de neve campeava, ela enfrentava chicotadas de bolinhas que picavam e mantinha os olhos abertos. Depois, se virava e dava mais alguns passos. Fustigada 
pela tempestade forte, ela olhou de novo. A forma lisa e arredondada  sua frente acenou, e ela ficou aliviada ao tocar, afinal, o slido arco de marfim.
     - Ayla, no devia ter sado nessa tempestade de neve! - exclamou Deegie. - Pode-se perder o caminho a alguns passos alm da entrada.
     - Mas a tempestade no pra h dias, e Whinney e Racer saram. Eu queria saber aonde foram.
     - Descobriu?
     - Sim. Eles gostam de se alimentar em um local na curva do rio. O vento l no sopra to forte, e a neve no cobre o capim seco com uma camada muito espessa. 
O vento sopra do outro lado. 
     Tenho cereal, mas no tenho mais capim. Os cavalos sabem onde h capim, mesmo quando a nevasca acontece. Darei gua aqui, quando eles voltarem - disse Ayla, 
batendo os ps, e sacudindo a neve da parka que acabava de tirar. Pendurou-a em um cabide perto da entrada para a Fogueira do Mamute, ao entrar.
     - Acreditam nisso? Ela saiu. Com este tempo! - anunciou Deegie a vrias pessoas reunidas na quarta fogueira.
     - Mas, por qu? - perguntou Tornec.
     - Os cavalos precisam comer e eu... - comeou a responder Ayla.
     - Achei que sumiu por muito tempo disse Ranec. - Quando perguntei a Mamut onde voc estava, ele disse que a vira entrando na fogueira dos cavalos, mas quando 
fui ver, voc no estava l.
     - Todos comearam a procurar voc, Ayla - disse Tronie.
     - Ento, Jondalar viu que sua parka no estava, e os cavalos tam pouco. Ele achou que voc poderia ter sado com os animais - falou Deegie -,ento resolvemos 
que era melhor procurar voc l fora. Quando olhei para ver como estava o tempo, vi voc chegando.
     - Ayla, devia avisar algum quando sair com mau tempo - disse Mamut, gentilmente.
     - No sabe que faz as pessoas se preocuparem quando sai em uma nevasca como esta? - falou Jondalar. com tom colrico.
     Ayla tentou responder, mas todos falavam ao mesmo tempo. Ela olhou para todos os semblante que a observavam e corou.
     - Lamento. No queria que se preocupassem. Vivi sozinha muito tempo, no tinha ningum para se preocupar comigo. Eu saa e voltava quando queria, no estou 
acostumada com as pessoas, com algum se preocupando - disse ela, olhando para Jondalar, depois para os outros. Mamut viu a testa de Ayla se enrugar quando o homem 
louro se afastou.
     Jondalar se sentiu corar e afastou-se das pessoas que se tinham preocupado com Ayla. Ela estava certa, ela vivera sozinha e cuidara muito bem de si mesma. Que
direito tinha ele de discutir suas aes ou censur-la por no dizer a ningum que ia sair? Mas ele temera desde o momento em que descobriu que ela no estava e, 
provavelmente, tivesse sado na nevasca. Ele havia visto mau tempo - invernos onde crescera eram excepcionalmente frios e desolados - mas nunca vira um clima to 
rigoroso. Aquela tempestade devastara sem interrupo por metade da estao, segundo parecia.
     Ningum temera mais pela segurana de Ayla do que Jondalar, mas ele no queria mostrar sua profunda preocupao. Estava tendo dificuldades em falar com ela
desde a noite da adoo. A princpio, ficara muito magoado por ela ter escolhido outro homem de que ele se afastara, e estava ambivalente em relao aos seus prprios 
sentimentos. Estava terrivelmente enciumado, no entanto, duvidava de seu amor por ela porque se havia envergonhado por t-la trazido.
     Ayla no partilhara as peles de Ranec outra vez, mas todas as noites Jondalar temia que o fizesse. Isso o deixava tenso e nervoso, e permanecia longe da Fogueira 
do Mamute at ela estar na cama. Quando, afinal, se juntava a ela no estrado de dormir, dava-lhe as costas e resistia  tentao de toc-la, temeroso de perder o 
controle, com medo de ceder e pedir-lhe para am-lo.
     Mas Ayla no sabia por que ele a evitava. Quando tentava falar com ele, Jondalar respondia com monosslabos, ou fingia estar adormecido; quando colocava um 
brao  volta dele, ele ficava rgido e frio. Parecia-lhe que ele no gostava mais dela, especialmente depois que trouxe peles separadas para dormir, de forma a 
ele no sentir o toque cauterizador do corpo dela prximo ao dele. Mesmo durante o dia ele ficava longe dela. Wymez, Danug e ele tinham construdo uma rea para 
trabalhar no slex na fogueira de cozinhar e ali ele passava a maior parte das horas do dia - no suportaria trabalhar com Wymez na Fogueira da Raposa, do lado oposto 
do acesso  cama em que Ayla havia deitado com Ranec.
     Pouco tempo depois, quando as investidas amistosas de Ayla tinham sido muitas vezes rejeitadas, ela se tornou confusa e hesitante, e se afastou dele. Somente 
ento, ele comeou afinal a compreender que  distncia crescente entre eles era culpa sua, mas no sabia como resolver o problema. Apesar de toda a sua experincia 
e conhecimento sobre mulheres.., no estava acostumado a se apaixonar. Encontrou-se relutando em dizer a Ayla como se sentia em relao a ela. Lembrava-se de jovens 
seguindo-o declarando-lhe seus sentimentos fortes por ele, quando no sentia o mesmo por elas. Ele ficara pouco  vontade, quisera fugir. No queria que Ayla se 
sentisse assim em relao a ele, por isto, conteve-se.
     Ranec sabia que eles no estavam partilhando prazeres. Estava dolorosamente consciente de Ayla a cada momento, embora tentasse no deix-lo bvio demais. Sabia 
quando ela ia dormir e quando acordava, o que comia e com quem falava, e passava o maior tempo possvel na Fogueira do Mamute. Entre aqueles que ali se reuniam, 
o humor de Ranec, s vezes, dirigido a um ou outro membro do Acampamento do Leo, era freqentemente motivo de risadas estridentes. Era escrupulosamente cuidadoso, 
contudo, para jamais denegrir Jondalar quer Ayla estivesse por perto ou no. O visitante estava ciente da habilidade de Ranec com as palavras, mas tal atributo jamais 
fora o ponto forte de Jondalar. A musculosidade compacta de Ranec e sua autoconfiana despreocupada tinham o efeito de fazer o homem alto, dramaticamente atraente, 
sentir-se como grande imbecil.
      medida que o inverno avanava, o mal-entendido no-resolvido de Jondalar e Ayla continuou a piorar. Jondalar temia perd-la inteiramente para o homem escuro, 
extico e envolvente. Continuou tentando convencer-se de que deveria ser justo, e deix-la fazer a escolha, de que no tinha qualquer direito de fazer exigncias. 
Mas ficava distante porque no queria presente-la com uma escolha que lhe daria a chance de rejeit-lo.
     Os Mamutoi no pareciam perturbados pelo mau tempo. Tinham muito alimento estocado e se ocupavam com suas diverses costumeiras de inverno, protegidos e seguros 
no interior de sua habitao comunal parcialmente subterrnea. Os membros mais velhos do acampamento tendiam a reunir-se ao redor da fogueira de cozinhar, bebericando 
ch quente, contando histrias, recordando, tagarelando e jogando jogos de azar com pedaos de osso ou carvo esculpido, quando no estavam ocupados com algum projeto. 
As pessoas mais jovens reuniam-se na Fogueira do Mamute, rindo e pilheriando, cantando e tocando instrumentos musicais, embora houvesse muita mistura entre todos 
e as crianas fossem bem-vindas em toda parte. Era tempo de lazer; a poca de fazer e consertar ferramentas e armas, utenslios e adornos; a poca para tecer cestas 
e esteiras, esculpir marfim, osso e chifre; fazer correias, cordas, cordes e redes, e a poca de fazer e enfeitar roupas.
     Ayla se interessava em saber como os Mamutoi preparavam seu couro e, principalmente, como o coloriam. Tambm estava intrigada com o bordado colorido, trabalho 
com contas e espinhos. As roupas decoradas e costuradas eram algo novo e incomum para ela.
     - Voc disse que me ensinaria como fazer o couro vermelho depois que eu aprontasse a pele. Acho que a pele de biso em que estou trabalhando est pronta - falou 
Ayla.
     - Pois bem, eu lhe mostro - disse Deegie. - Vejamos como est a pele.
     Ayla se dirigiu ao estrado de estocagem prximo  cabeceira de sua cama, desdobrou uma pele inteira e espalhou-a. Era inacreditavelmente macia ao toque, flexvel 
e quase branca. Deegie a examinou com ar crtico. Ela havia observado o processo de Ayla, sem comentrios, mas com grande interesse.
     Em primeiro lugar, Ayla cortava a pesada crina rente  pele com faca afiada, enrolando-a depois; deixava-a cair sobre um grande osso liso de perna de mamute 
e raspava-a, usando a extremidade levemente rombuda de uma lmina de slex. Raspava o interior para remover pedaos pendurados de gordura e vasos sangneos, e o 
exterior, contra a disposio do plo, retirando a camada externa de pele, que inclua tambm a superfcie do couro. Deegie a teria enrolado e deixado perto do fogo 
por alguns dias, permitindo que comeasse a soltar, a perder o plo. Quando estivesse pronta, o plo sairia, deixando atrs de si a camada externa de pele que se 
tornaria  superfcie do couro. Para fazer o couro mais macio, como Ayla fizera, ela teria amarrado a pea a uma armao para raspar o plo e a superfcie.
     O passo seguinte de Ayla incorporava uma sugesto de Deegie. Depois de embeber e lavar, Ayla planejara esfregar gordura na pele para amaci-la, como estava 
acostumada a fazer. Mas Deegie lhe mostrou como preparar uma papa fina dos miolos em putrefao do animal para molhar a pele, em vez disso. Ayla ficou surpresa e 
satisfeita com os resultados Podia sentir a mudana na pele, a maciez e elasticidade que o tecido cerebral dava, mesmo enquanto esfregava. Mas era depois de torcer 
completamente a pele que comeava o trabalho. O couro tinha que ser puxado e esticado constantemente enquanto secava, e a qualidade do couro pronto dependia de quo 
bem se trabalhava a pele nesta fase.
     - Tem uma boa mo para couro, Ayla. A pele de biso  pesada, e esta est muito macia. Parece maravilhosa. Resolveu o que quer fazer com ela
     - No - Ayla sacudiu a cabea-, mas quero fazer couro vermelho O que acha? Sapatos?
     -  bastante pesado para isso, mas o suficientemente macio para uma tnica. Vamos em frente e cobramos o couro. Pode pensar no que fazer com ele mais tarde 
- disse Deegie enquanto caminhavam juntas para a ltima fogueira, quando ela perguntou. - O que faria com esse couro agora? Se no fosse colori-lo?
     - Eu o poria sobre um fogo bem enfumaado para no endurecer de novo, se ficar molhado da chuva ou mesmo de nadar - disse Ayla.
     Deegie concordou com um gesto de cabea.
     - E isso que eu faria tambm. Mas o que vamos fazer com o couro far com que a chuva deslize por ele.
     Passaram por Crozie quando atravessaram a Fogueira da Gara, o que lembrou a Ayla uma coisa que ela tivera inteno de perguntar. - Deegie, sabe como fazer 
o couro branco tambm? Como a tnica que Crozie usou? Gosto de vermelho, mas depois gostaria de aprender a fazer o branco. Acho que conheo algum que gostaria de 
branco.
     -  difcil fazer branco, difcil tornar o couro realmente cor da neve. Acho que Crozie poderia lhe mostrar melhor do que eu. Voc precisaria de cr. Talvez 
Wymez tenha algum. O slex  encontrado no cr e, em geral, os pedaos que ele retira da mina ao norte tm uma cobertura de cr no lado externo - falou Deegie.
     As jovens voltaram para a Fogueira do Mamute com alguns pequenos piles e almofarizes, e vrios pedaos de material de colorir vermelho-ocre em diversos tons. 
Deegie colocou um pouco de gordura para derreter sobre o fogo, depois arrumou os fragmentos coloridos de material perto de Ayla. Havia pedaos de carvo para a cor 
negra, mangans para preto-azulado, e um brilhante amarelo sulfreo, em adio a ocres de muitas cores: marrons, vermelhos, castanhos-avermelhados, amarelos. Os 
piles eram as formas naturais de tigelas de alguns ossos, tais como o osso frontal de um veado, ou feitos de granito ou basalto, exatamente como eram as candeias 
de pedra. Os almofarizes eram moldados de osso ou marfim resistente, exceto um que era uma pedra naturalmente alongada.
     - Que tonalidade de vermelho quer, Ayla? Vermelho forte, vermelho-sangue, vermelho-terra, vermelho-amarelado; essa  uma espcie de cor do sol.
     Ayla no sabia que teria tantas opes.
     - No sei... Vermelho, vermelho respondeu.
     Deegie estudou as cores.
     - Acho que se pegarmos este  faloti, apanhando um pedao que era mais um vermelho-vivo, cor de terra -, e acrescentarmos um pouco de amarelo, para avivar mais 
o vermelho, talvez seja uma cor que voc goste.
     Ela colocou a pequena massa de ocre vermelho no pilo de pedra e mostrou a Ayla como tritur-la bem fina, depois moeu o pedao amarelo numa vasilha separada. 
Em uma terceira vasilha Deegie misturou as duas cores at ficar satisfeita com o tom. Depois ajuntou a gordura quente, que mudou e avivou mais a cor para uma tonalidade 
que fez Ayla sorrir.
     - Sim. Isso  vermelho. Vermelho bonito - disse ela.
     Em seguida, Deegie pegou uma comprida costela de veado, que fora cortada no sentido do comprimento, para que o osso poroso interno ficasse exposto na extremidade 
convexa. Usando o polidor de costela com o lado esponjoso para baixo, da pegou uma pincelada da gordura vermelha resfriada, e esfregou a mistura na pele preparada 
de biso, pressionando com fora enquanto segurava a pele em sua mo. Enquanto fazia o colorido mineral penetrar nos poros do couro, este adquiria um brilho suave. 
No couro granulado, a ferramenta de lustrar e os agentes de colorir teriam produzido um acabamento brilhante e spero.
     Depois de observar algum tempo, Ayla pegou outro osso de costela e copiou a tcnica de Deegie. Deegie a vigiou, fazendo algumas correes. Quando um canto do 
couro estava pronto, ela deteve Ayla por um momento.
     - Veja - falou, derramando algumas gotas dgua sobre o couro, enquanto mantinha o canto erguido. - Escorre, v? - A gua escorreu em gotas, no deixando marca 
no acabamento impermevel.
     - J resolveu o que far com seu pedao de couro vermelho? - perguntou Nezzie. para mostrar a Rydag e admir-la novamente, ela prpria. Era dela, porque ela 
havia curtido e tratado do couro, e jamais tivera uma coisa to grande que fosse vermelha, e o couro resultara notavelmente vermelho. - Vermelho era uma cor sagrada 
para o Cl. Eu a daria a Creb, se pudesse.
      o vermelho mais vivo que j vi. Certamente, pode-se ver a pessoa a grande distncia, ao usar uma roupa dessa cor.
     - Tambm  macio - Rydag falou por sinais. Ele vinha freqentemente visit-la na Fogueira do Mamute e ela lhe dava boas-vindas.
     - Deegie me ensinou a fazer ficar macio com miolos, primeiro - falou Ayla, sorrindo para o amigo. - Eu usava gordura antes. Difcil de fazer e mancha, s vezes. 
Melhor usar miolos de biso. - Fez uma pausa com expresso pensativa, depois perguntou: - Dar certo com todo animal, Deegie? - Ento, quando Deegie concordou com 
um gesto de cabea, ela disse:
     - Que quantidade deveramos usar? Quanto para a rena? E para o coelho? - Mut, a Grande Me, em sua infinita sabedoria - replicou Ranec em vez de Deegie, com 
um vislumbre de sorriso -, sempre d miolos suficientes a cada animal para preservar sua pele.
     A risada gutural suave de Rydag intrigou Ayla por um instante; depois ela sorriu:
     - Alguns no tm miolos suficientes para no ser apanhados?
     Ranec riu e Ayla se juntou a ele, satisfeita consigo mesma por compreender a piada oculta no significado da palavra. Ela se sentia mais  vontade com a lngua, 
agora.
     Jondalar acabando de entrar na Fogueira do Mamute, e vendo Ranec e Ayla rindo juntos, sentiu o estmago revolver-se como se desse um n.
     Mamut o viu fechar os olhos como se sofresse. Lanou um olhar a Nezzie
     e sacudiu a cabea.
     Danug, que viera atrs do trabalhador de slex visitante, observou-o parar, agarrar um suporte e abaixar a cabea. Os sentimentos de Jondalar e Ranec por Ayla 
e o problema que se desenvolvia por causa deles, eram bvios para todos, embora a maior parte das pessoas no o reconhecesse. No queriam interferir, esperando dar 
aos trs espao para resolver o caso sozinhos. Danug gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudar, mas estava desconcertado. Ranec era um irmo, desde que Nezzie 
o adotara, mas ele gostava de Jondalar e sentia empatia por sua angstia. Ele tambm tinha sentimentos fortes, embora indefinidos, pelo belo novo membro do Acampamento 
do Leo. Alm dos rubores inexplicveis e sensaes fsicas quando ele estava perto de Ayla, sentia uma afinidade por ela. Ela parecia estar to confusa sobre como 
controlar a situao quanto ele se sentia, muitas vezes, em relao s novas mudanas e complicaes em sua vida.
     Jondalar respirou fundo e endireitou o corpo; depois, avanou mais para o interior do recinto. Os olhos de Ayla o seguiram enquanto ele caminhava at Mamut 
e lhe entregava alguma coisa. Ela os viu trocarem algumas palavras. Depois, Jondalar saiu, rapidamente, sem lhe falar. Ela havia perdido o fio da conversa que tinha 
lugar  sua volta e, quando Jondalar saiu,
     - No - replicou Ayla. Ela havia desdobrado a pele inteira de biso ela correu para Mamut, no ouvindo a pergunta que Ranec lhe tinha feito, nem vendo a expresso 
fugaz de desapontamento no rosto dele. Ele fez uma brincadeira, que ela tampouco ouviu, para encobrir seu desalento. Mas Nezzie, que era sensvel s nuanas sutis 
dos sentimentos mais profundos de Ranec, notou a mgoa em seus olhos, e depois o viu firmar o maxilar e aprumar os ombros com resoluo.
     Ela queria aconselh-lo, dar-lhe a contribuio de sua experincia e a sabedoria de seus olhos, mas calou-se. Eles devem solucionar seus destinos, pensou.
     Como os Mamutoi viviam em locais acanhados por perodos prolongados de tempo, tinham que aprender a tolerar-se mutuamente. No havia realmente privacidade na 
habitao comunal, exceto a privacidade dos pensamentos de cada pessoa, e tinham muito cuidado para no se intrometer nos pensamentos particulares do outro. Evitavam 
fazer perguntas pessoais, ou insistir em ofertas no-pedidas de ajuda e conselho, ou intervir em disputas, a menos que lhes pedissem, ou se as altercaes se tornassem 
incontrolveis e um problema para todos. Em vez disso, se vissem o desenvolvimento de uma situao perturbadora, tornavam-se silenciosamente disponveis e esperavam 
com pacincia e indulgncia, at haver necessidade de um amigo para discutir preocupaes, temores e frustraes. No eram judiciosos ou altamente crticos, e impunham 
poucas restries ao comportamento pessoal se no magoasse ou perturbasse gravemente os outros. Uma soluo para um problema era aquela que funcionava e satisfazia 
todos os envolvidos. Eram gentis com as almas uns dos outros.
     - Mamut... - comeou Ayla, depois compreendeu que no sabia, exatamente, o que queria dizer. - Ah... Acho que agora  bom momento para fazer remdio para artrite.
     - No fao objeo - disse o velho, sorrindo. - No passo um inverno to confortvel h muitos anos. Se no por outra razo, estou contente por estar aqui, 
Ayla. Deixe-me guardar esta faca que ganhei de Jondalar, e me porei em suas mos.
     - Ganhou uma faca de Jondalar?
     - Crozie e eu apostvamos com os ossinhos de carneiros. Ele observava e parecia interessado, por isso o convidei a jogar. Ele disse que gostaria, mas nada tinha 
para apostar. Eu disse que contanto que tivesse sua arte, sempre teria alguma coisa, e que apostaria contra uma faca especial, que eu queria que fosse feita de uma 
certa maneira. Ele perdeu. Ele devia saber que no se aposta contra Um Que Serve. - Mamut riu baixinho. - Aqui est a faca. Ayla concordou com um gesto de cabea. 
Sua resposta satisfez a curiosidade dela, mas gostaria que algum pudesse lhe contar por que motivo Jondalar no queria falar com ela. O grupo de pessoas que estivera 
admirando o couro vermelho de Ayla se dispersou e deixou a Fogueira do Mamute, com exceo de Rydag, que se reuniu a Ayla e Mamut. Havia alguma coisa confortadora 
em v-la tratando o velho feiticeiro. Ele se acomodou a um canto da cama.
     - Primeiro, farei cataplasma quente para voc - disse Ayla, e comeou a misturar ingredientes em uma vasilha de madeira.
     Mamut e Rydag a observaram medir, misturar, esquentar a gua.
     - O que usa na cataplasma? -. Perguntou Mamut.
     - No conheo seus nomes para as plantas.
     - Descreva-as para mim. Talvez eu possa lhe dizer. Conheo algumas plantas e alguns remdios. 
     Tive que aprender alguns.
     - Uma planta, cresce mais alto que o joelho - explicou Ayla, pensando com cuidado sobre a planta. - Tem folhas grandes, no de um verde vivo, mas como poeira 
sobre elas. As folhas crescem junto com a haste primeiro, depois ficam grandes, em seguida se tornam pontiagudas. Sob a folha,  como pele macia. As folhas so boas 
para muitas coisas, e as razes tambm, especialmente, ossos quebrados.
     - Confrey! Deve ser confrey! O que mais h na cataplasma? - Isto  interessante, pensou.
     - Outra planta menor, no alcana o joelho. As folhas so como pequenas pontas de lana que Wymez faz, de um verde escuro e brilhante, permanecem verdes no 
inverno. O galho se projeta das folhas, tem pequenas flores, de cor clara, com pequenas manchas vermelhas dentro.  boa para inflamaes, erupes tambm - disse 
Ayla.
     Mamut sacudia a cabea.
     - As folhas permanecem verdes no inverno, flores manchadas. Acho que no conheo essa. Por que no cham-la apenas de gualtria manchada?
     Ayla concordou, balanando a cabea.
     - Quer conhecer outras plantas? - perguntou ela.
     - Sim, v em frente e descreva outra.
     - Planta grande, maior que Talut, quase rvore. Cresce em terras baixas, perto dos rios. Bagas escuras, purpreas permanecem na planta mesmo no inverno. Folhas 
novas so boas para comer, as grandes e velhas so muito fortes, podem causar doena. A raiz seca em cataplasma  boa para inchao, inchao vermelha tambm, 
e para a dor. Eu coloco bagas secas no ch que fao para sua artrite. Sabe o nome?
     - No, acho que no, mas contanto que voc conhea a planta, estou satisfeito - disse Mamut. - Seus remdios para a minha artrite tm ajudado. Voc  perita 
em medicamentos para os idosos.
     - Creb era velho. Era coxo e tinha dores de artrite. Aprendi a ajudar com Iza. Depois, ajudei outros no Cl. - Ayla fez uma pausa e ergueu os olhos de sua mistura. 
- Acho que Crozie tambm sofre de dores por causa da idade. Quero ajudar. Acha que ela se oporia, Mamut?
     - Ela no gosta de admitir as deficincias da idade. Era bela e altiva quando jovem, mas acho que tem razo. Voc poderia perguntar a ela, especialmente se 
puder pensar em uma maneira de no lhe ferir o orgulho  tudo o que lhe resta agora.
     Ayla concordou com um gesto de cabea Quando o preparado estava pronto, Mamut tirou a roupa.
     - Quando estiver descansando com o cataplasma - disse Ayla - tenho um p de raiz de outra planta que quero colocar sobre carves quentes para que cheire. Voc 
vai suar, e  bom para a dor. Ento, antes de dormir esta noite, tenho novo lquido para as juntas.. 
     Suco de ma e raiz forte...
     - Quer dizer rbano-picante? A raiz que Nezzie usa com a comida.
     - Acho que sim, com suco de ma e a bebida fermentada de Talut. Aquecer a pele por dentro e por fora.
     Mamut riu.
     Como conseguiu que Talut deixasse voc colocar sua bebida fora, sobre a pele, e no no interior?
     Ayla sorriu.
     - Ele gosta do remdio mgico da manh seguinte. Eu digo que sempre o prepararei para ele - falou ela, enquanto aplicava um cataplasma espesso, viscoso, quente 
nas articulaes doloridas do velho.
     Ele se recostou, confortavelmente, e fechou os olhos.
     Este brao parece bom - comentou Ayla, trabalhando sobre o brao que fora fraturado. - Acho que foi uma fratura grave.
     - Foi uma fratura grave - disse Mamut, abrindo os olhos. Lanou um olhar a Rydag, que assimilava tudo silenciosamente. Mamut nunca falara a ningum de sua experincia, 
com exceo de Ayla. Fez uma pausa; depois, balanou a cabea fortemente, com deciso.
     - E hora de voc saber, Rydag. Quando eu era um jovem e fazia uma jornada, ca por um penhasco e quebrei o brao. Fiquei tonto, e finalmente, vaguei at chegar 
a um acampamento de cabeas-chatas, pessoas do Cl. Vivi com elas por algum tempo.
     - Por isto voc aprende os sinais depressa! - Rydag sorriu. - Achei que era muito esperto.
     - Sou muito esperto, rapaz - disse Mamut, sorrindo -, mas tambm me lembrava de alguns deles, quando Ayla me fez recordar.
     O sorriso de Rydag se ampliou. Exceto por Nezzie e o resto de sua famlia da Fogueira do Leo, ele amava aquelas duas pessoas mais que a tudo no mundo, e nunca 
fora to feliz desde que Ayla chegara. Pela primeira vez na vida podia falar, podia fazer as pessoas compreend-lo, era capaz at de fazer algum sorrir. Observou 
Ayla trabalhando em Mamut, e at ele podia reconhecer o conhecimento e dedicao da jovem. Quando Mamut olhou em sua direo, ele fez o sinal:
     - Ayla  boa curandeira.
     - As curandeiras do Cl so muito inteligentes, ela aprendeu com elas. Ningum poderia ter feito um trabalho melhor em meu brao. A pele estava esfolada, com 
terra suja dentro, e aberta, com o osso fraturado projetando-se para fora. Parecia um pedao de carne. A mulher, Uba, limpou o brao e fixou-o, e sequer inflamou 
com pus e febre. Pude us-lo totalmente quando ficou bom, e somente nestes ltimos anos senti um pouco de dor de vez em quando. Ayla aprendeu com a neta da mulher 
que cuidou do meu brao. Disseram-me que ela era considerada a melhor - anunciou Mamut, observando a reao de Rydag.
     O garoto olhou para os dois curiosamenle, perguntando-se como podiam conhecer as mesmas pessoas.
     - Sim. E Iza era melhor, como sua me e av - disse Ayla, terminando. Ela no prestara ateno  comunicao silenciosa entre o menino co velho. - Ela sabia 
tudo que a me dela sabia, tinha as lembranas da me e da av.
     Ayla tirou algumas pedras da fogueira, aproximando-as da cama de Mamut, ergueu alguns carves em brasa com dois paus e os colocou sobre as pedras. Depois, salpicou 
raiz pulverizada sobre os carves. Foi buscar cobertas para Mamut conservar o calor, mas enquanto as enfiava  volta dele, ele se levantou em um cotovelo e olhou 
para a jovem pensativamente.
     - As pessoas do Cl so diferentes de uma forma que a maior parte dos indivduos no compreende. No se trata de que no falam, ou de que sua fala  diferente. 
A maneira como pensam  que  um pouco diversa. Se Uba, a mulher que cuidou de mim, era a av de sua Iza, e aprendeu das lembranas de sua me e av, como voc aprendeu, 
Ayla? Voc no tem as lembranas do Cl. 
     - Mamut notou um rubor de constrangimento e um rpido arquejo de surpresa antes de Ayla abaixar o olhar. - Ou tem?
     Ayla ergueu o olhar para ele de novo, depois abaixou-o.
     - No. No tenho as lembranas do Cl - respondeu.
     - Mas...?
     Ayla tornou a encar-lo.
     - O que quer dizer, mas? - ela perguntou, com a expresso cautelosa, quase assustada. Voltou os olhos para o cho novamente.
     - Voc no tem as lembranas do Cl, mas... Tem alguma coisa, no ? Alguma coisa do Cl?
     Ayla manteve a cabea inclinada. Como podia ele saber? Ela jamais contara a ningum, nem mesmo a Jondalar. Ela mal chegava a admitir a si prpria, porm, nunca 
mais fora  mesma depois. 
     Existiram aqueles momentos que lhe trouxeram inspirao...
     - Isso tem algo a ver com sua percia como curandeira? - indagou Mamut.
     Ela levantou os olhos e sacudiu a cabea.
     - No - retrucou, os olhos suplicando para que ele acreditasse nela.
     - Iza me ensinou, eu era muito jovem. Acho que no tinha a idade de Rugie ainda, quando ela comeou. Iza sabia que eu no tinha as lembranas, mas fez-me lembrar, 
fez-me contar-lhe uma e outra vez, at eu no esquecer mais. Ela era muito paciente. Algumas pessoas disseram a ela que era tolice me ensinar. Que eu no conseguiria 
me lembrar... Era estpida demais. Ela me disse que no, que eu era apenas diferente. Eu no queria ser diferente. Eu me obriguei a me lembrar. Eu disse a mim mesma, 
uma e outra vez, mesmo quando Iza no estava ensinando. Aprendi a me lembrar, do meu jeito. Depois, forcei-me a aprender depressa, para que eles no pensassem que 
eu era to estpida assim.
     Os olhos de Rydag estavam arregalados, redondos. Mais do que tudo, compreendia exatamente como ela se sentira, mas ignorava que alguma pessoa se tivesse sentido 
da mesma forma, principalmente algum como Ayla.
     Mamut olhou para ela com assombro.
     - Ento, decorou as memrias do cl de Iza! Isso  uma faanha. Elas recuam de gerao a gerao, no ?
     Rydag ouvia com ateno, pressentindo algo muito importante para ele.
     - Sim - disse Ayla -, mas no aprendi todas as suas lembranas. Iza no podia ensinar-me tudo o que sabia. Ela me disse que nem sequer ela sabia quanto conhecimento 
tinha, mas ensinou-me a aprender. Como testar, como tentar cuidadosamente. Ento, quando eu fiquei mais velha, ela disse que eu era sua filha, curandeira de sua 
linhagem. Perguntei como podia reivindicar sua linhagem? No era sua verdadeira filha, no era sequer Cl, eu no tinha memrias. Ento, ela me disse que eu tinha 
outra coisa, to boa quanto as memrias, talvez melhor. Iza achava que eu nascera de uma famlia de curandeiras dos Outros, da melhor linhagem, como a sua. Por isto
eu era curandeira de sua linhagem. Ela disse que eu seria a melhor, um dia.
     - Sabe o que ela queria dizer? Sabe o que possui?  perguntou, Mamut.
     - Sim, acho que sim. Quando algum no est bem, vejo o que est errado. Vejo expresso dos olhos, cor do rosto, odor da respirao. Reflito a respeito, s 
vezes sei apenas olhando, outras vezes, sei o que perguntar. Depois fao remdio para ajudar. Nem sempre  o mesmo remdio. As vezes, remdio novo, como a bebida 
fermentada no preparado para artrite.
     - Talvez sua Iza tivesse razo. Os melhores curandeiros possuem esse dom - disse Mamut. 
     Depois, um pensamento lhe ocorreu e ele prosseguiu:
     - Notei uma diferena entre voc e os curandeiros que conheo, Ayla. Voc usa remdios de plantas e outros tratamentos para curar. Os curandeiros Mamutoi invocam 
tambm o auxlio dos espritos.
     - No conheo o mundo dos espritos. No Cl somente, Mog-urs conhecem. Quando Iza queria ajuda dos espritos, pedia a Creb.
     O Mamut a fixou de forma penetrante.
     - Ayla, gostaria de ter a ajuda do mundo espiritual?
     - Gostaria, mas no tenho mog-ur a quem pedir.
     - No precisa pedir a ningum. Voc pode ser seu prprio mog-ur
     - Eu? Um mog-ur? Mas sou uma mulher. Uma mulher do Cl no pode ser um mog-ur - disse Ayla, aturdida com a sugesto.
     - Mas voc no  uma mulher do Cl. Voc  Ayla dos Mamutoi.  a filha da Fogueira do Mamute. Os melhores curandeiros Mamutoi conhecem os caminhos dos espritos. 
Voc  uma boa curandeira, Ayla, mas como ser a melhor se no puder pedir o auxlio do mundo espiritual?
     Ayla sentiu um grande n de ansiedade se apertar em seu estmago. Era curandeira, uma boa curandeira, e Iza dizia que ela seria a melhor algum dia. Agora, Mamut 
dizia que no poderia ser a melhor sem a ajuda dos espritos, e ele devia ter razo. Iza sempre pedia a ajuda de Creb, no pedia?
     - Mas, no conheo o mundo dos espritos, Mamut - disse Ayla, sentindo-se desesperada, quase em pnico.
     Mamut se inclinou para mais perto dela, sentindo que a ocasio era adequada, e extraindo de alguma fonte interior uma fora para compelir.
     - Conhece, sim - disse ele, o tom de voz autoritrio -, no  verdade, Ayla?
     Os olhos da jovem se arregalaram de medo.
     - No quero conhecer o mundo espiritual! - gritou.
     - Voc teme esse mundo apenas porque no o compreende. Posso ajud-la a compreender. Posso ajud-la a us-lo. Voc nasceu para a Fogueira do Mamute, para os 
mistrios da Me, no importa onde tenha nascido ou para onde v. No pode fazer nada, est atrada por esse mundo e ele a procura. No pode fugir, mas, com treinamento 
e compreenso,  capaz de control-lo. Pode fazer os mistrios trabalharem a seu favor. Ayla, no pode lutar contra o destino, e  seu destino Servir  Me.
     - Sou curandeira! Esse  o meu destino.
     - Sim, esse  o seu destino: ser uma curandeira. Mas isso  Servir  Me, e um dia, talvez seja chamada para servir de outra maneira. Precisa estar preparada, 
Ayla, sabe que algumas doenas no podem ser curadas com remdios e tratamento apenas. Como cura algum que no quer mais viver? Que medicamento d a algum  vontade 
de se recuperar de um acidente grave? Quando algum morre, que tratamento d queles que ficam?
     Ayla inclinou a cabea. Se algum tivesse sabido o que fazer por ela quando Iza morreu, talvez no houvesse perdido seu leite e no tivesse que dar seu filho 
para outras mulheres com filhos, para ser amamentado. Saberia ela o que fazer se isso acontecesse com algum de quem cuidava? O conhecimento do mundo espiritual 
a ajudaria, a saber, o que fazer?
     Rydag observava a cena tensa sabendo que havia sido esquecido momentaneamente. Temia mover-se, com medo de distra-los de alguma coisa muito importante, embora 
no estivesse certo do que fosse.
     - Ayla, o que teme? O que aconteceu que a fez se afastar? Conte-me - disse Mamut, a voz persuasiva, e afetuosa.
     Ayla ficou de p, de repente. Pegou as peles quentes e enfiou-as ao redor do velho feiticeiro.
     - Deve se cobrir, manter-se aquecido para a cataplasma fazer efeito  disse, ela, obviamente perturbada e preocupada. Mamut jazeu de costas, permitindo que 
ela completasse o tratamento sem objeo, compreendendo que ela precisava de tempo. Ela comeou a andar de um lado para o outro, nervosa e agitada, os olhos vagos 
fixando o espao ou alguma cena interior. Ela girou e o encarou.
     - Eu no tinha inteno! -.-- exclamou
     - No tinha inteno de qu? - perguntou Mamut
     - De entrar na caverna... Ver os mog-urs.
     - Quando entrou na caverna, Ayla? - Mamut conhecia as proibies contra mulheres participarem dos rituais do Cl. Ela deve ter feito alguma coisa que no devia, 
quebrado algum tabu, pensou ele.
     - Na Reunio de Cls.
     - Voc foi  Reunio de Cls? Eles fazem uma Reunio uma vez a cada sete anos, no  verdade?
     Ayla balanou a cabea, concordando.
     - H quanto tempo foi essa Reunio?
     Ela teve que parar, para pensar a respeito e a concentrao abriu um pouco sua mente.
     - Durc tinha nascido, ento, na primavera. No prximo vero, far sete anos! No prximo vero, haver Reunio de Cls. Cl ir  Reunio, trar Ura de volta. 
Ura e Durc sero companheiros. Meu filho ser homem, logo!
     -  verdade, Ayla? Ele ter apenas sete anos quando tiver uma companheira? Seu filho ser homem to cedo? - indagou Mamut.
     - No, no to jovem. Talvez mais trs ou quatro anos. Ele ... como
     Druwez. Ainda no  homem. Mas a me de Ura me pediu Durc, para Ura.
     Ela tambm  filha de espritos mistos. Ura viver com Brun e Ebra. Quando
     Durc e Ura tiverem idade suficiente, sero companheiros.
     Rydag fitava Ayla, incrdulo. No entendia claramente todas as implicaes, mas uma coisa parecia certa. Ayla tinha um filho, misto como ele, que vivia com 
o Cl!
     - O que aconteceu na Reunio de Cls sete anos atrs, Ayla? - interrogou Mamut, no querendo deixar o assunto morrer quando parecera to perto de conseguir 
que Ayla concordasse em comear o treinamento, embora ela houvesse mencionado alguns pontos intrigantes que ele gostaria de esclarecer. Estava convencido de que 
no era apenas importante, mas essencial para seu prprio bem, que isto acontecesse.
     Ayla fechou os olhos com expresso angustiada.
     - lza estava muito doente para ir. Ela disse a Brun que eu era uma curandeira, Brun realizava a cerimnia. Ela me disse como mastigar a raiz para preparar a 
bebida para os mog-urs. S disse, no podia me mostrar. Era sagrada... Demais para fazer para treinar, Os mog-urs no me queriam na Reunio de Cls, eu no era Cl. 
Mas ningum mais sabia, somente a linhagem de lza. Afinal, disseram sim. Iza medisse para no engolir o suco, quando mastigasse, para cuspir na tigela, mas eu no 
consegui, engoli um pouco. Mais tarde, fiquei confusa, entrei na caverna, segui as fogueiras, encontrei os, mog-urs. Eles no me viram, mas Creb viu.
     Ela se agitou de novo, andando de um lado para o outro.
     - Estava escuro, como um buraco fundo, e eu caa. Ela curvou os ombros, esfregou os braos como se sentisse frio. - Depois, Creb veio, como voc, Mamut, porm 
mais. Ele... Ele... Levou-me consigo.
     Ficou em silncio, ento, caminhando. Afinal, parou e falou de novo.
     - Depois, Creb ficou zangado e infeliz. E eu... Fiquei diferente. Nunca digo, mas s vezes, penso que volto l... E fico assustada.
     Mamut esperou para ver se ela terminara. Ele tinha alguma idia do que ela passara. Ele tivera a permisso de estar presente em uma cerimnia do Cl. Eles usavam 
certas plantas de forma nica, e ele havia experimentado algo insondvel. Ele havia tentado, mas nunca fora capaz de repetir a experincia, mesmo depois de se tornar 
Mamut. Ia dizer alguma coisa quando Ayla tornou a falar.
     - s vezes, quero jogar a raiz fora, mas Iza me disse que  sagrada.
     Ele levou um instante para registrar o significado das palavras de Ayla. Mas o choque da compreenso quase o fez ficar de p.
     - Est dizendo que tem a raiz com voc? - perguntou ele, achando difcil controlar sua excitao.
     - Quando parti, trouxe a bolsa de remdios. A raiz est na bolsa, em um saquinho vermelho especial.
     - Mas, ainda est boa? Voc disse que faz mais de trs anos que partiu. Ela no perdeu sua potncia durante esse tempo?
     - No, est preparada de modo especial. Depois de a raiz secar, se mantm muito tempo, muitos anos.
     - Ayla - comeou o Mamut, tentando dizer as palavras corretas-, talvez seja uma sorte voc ainda ter a raiz. Sabe, a melhor forma de vencer um temor  enfrent-lo. 
Gostaria de preparar essa raiz de novo? Somente para voc e eu?
     Ayla estremeceu sob o pensamento
     - No sei, Mamut. No quero, estou assustada.
     - No digo imediatamente - falou ele. - No at voc ter tido algum treinamento e estar preparada para isso. E deveria ser uma cerimnia especial, com significado 
profundo e importncia. Talvez o Festival de Primavera, o comeo de nova vida. - Ele a viu estremecer novamente. - E voc quem sabe, mas no tem que decidir agora. 
Tudo o que peo  que me permita iniciar o treinamento e a preparao. Quando a primavera chegar, se no se sentir pronta, poder dizer no.
     - O que  treinamento? - perguntou Ayla.
     - Em primeiro lugar, gostaria que aprendesse algumas canes e cnticos, e como usar a caveira de mamute. Depois, h o significado de alguns smbolos e sinais.
     Rydag a viu fechar os olhos e enrugar a testa. Esperava que ela concordasse. Ele acabara de saber mais sobre o povo de sua me do que nunca antes, mas queria 
saber mais. Se Mamut e Ayla planejavam uma cerimnia com rituais do Cl, tinha certeza de que saberia.
     Quando Ayla abriu os olhos, eles tinham expresso perturbada, mas ela engoliu com dificuldade e depois concordou com um gesto de cabea.
     - Sim, Mamut. Tentarei enfrentar o medo do mundo espiritual, se voc me ajudar.
     Quando Mamut se deitou outra vez, no notou que Ayla apertava o pequeno saco ornamentado que usava em volta do pescoo.
     - Hu, hu, hu! Trs! - gritou Crozie, rindo astutamente enquanto contava os discos com o lado marcado para cima, que tinham sido apanhados na tigela entrelaada
e vazia.
     - Sua vez de novo - disse Nezzie. Estavam sentadas ao cho, ao lado da abertura circular de solo de loesse seco que Talut utilizara para fazer o mapa de um
projeto de caada. - Ainda faltam sete. Aposto mais dois.
     - Ela traou mais duas linhas na superfcie alisada da cavidade de desenhar. Crozie pegou a tigela de vime e sacudiu os sete discos de marfim juntos.
     Os discos, que formavam levemente um bojo de forma a balanar sobre uma superfcie plana, eram lisos de um lado; o outro lado era esculpido com linhas e coloridos. 
Crozie, mantendo a grande tigela vazia perto do solo, atirou os discos para o ar. Depois, movendo a cesta com habilidade atravs da esteira com borda vermelha que 
limitava o campo de jogo, pegou os discos com a cesta. Desta vez, quatro discos tinham o lado marcado para cima e somente trs eram lisos.
     - Veja isso! Quatro! S faltam trs. Aposto mais cinco.
     Ayla, sentada em uma esteira prxima, bebericava ch de sua xcara de madeira, e observava a velha agitar os discos, juntos, na cesta novamente. Crozie jogou-os 
para o alto e pegou-os mais uma vez. Agora, cinco discos tinham o lado com marcas esculpidas visvel.
     - Ganhei! Quer jogar de novo, Nezzie?
     - Bem, talvez mais uma vez - disse Nezzie estendendo a mo para a cesta de vime e sacudindo-a. Ela atirou os discos para o alto e pegou-os com a cesta achatada.
     - L est o olho negro! - gritou Crozie, apontando para um disco que tinha o lado virado para cima colorido de negro. - Voc perdeu! Isso faz com que me deva 
doze. Quer jogar mais?
     - No, voc est com muita sorte hoje - disse Nezzie, levantando-se.
     - Que tal voc, Ayla? - perguntou Crozie. - Quer jogar?
     - No sou boa em jogo - replicou Ayla. - s vezes, no pego todos os discos.
     Ela havia observado o jogo muitas vezes enquanto o frio rigoroso da prolongada estao se tornava pior, mas jogara pouco, e apenas para praticar. Ela sabia 
que Crozie era uma jogadora sria, que no jogava para treinar apenas, e tinha pouca pacincia com jogadores indecisos ou inbeis.
     - Bem, que tal o jogo com ossinhos? No precisa de habilidade para jog-lo.
     - Eu jogaria, mas no sei o que apostar - disse Ayla.
     - Nezzie e eu jogamos por marcas e depois acertamos as contas.
     - Agora, ou depois, no sei o que apostar.
     - Certamente, voc tem alguma coisa que pode apostar - falou Crozie, um pouco impaciente para continuar a jogar. - Alguma coisa de valor.
     - E voc aposta alguma coisa do mesmo valor?
     A velha concordou com um gesto de cabea, bruscamente.
     - Claro.
     Ayla franziu a testa com concentrao.
     - Talvez... Peles, ou couro ou algo para fazer. Espere! Acho que sei de uma coisa. Jondalar jogou com Mamut e apostou sua percia. Ele fez uma faca especial 
quando perdeu. E bom apostar a percia, Crozie?
     - Por que no? -disse ela. -Vou marcar aqui - ajuntou, alisando a terra com o lado achatado da faca de desenhar. A mulher pegou dois objetos no cho ao seu 
lado e estendeu-os, um em cada mo. Se adivinhar, consegue uma marca. Se errar, eu ganho um ponto. A primeira que conseguir trs pontos ganha o jogo.
     Ayla olhou para os dois ossos de metacarpo de um boi almiscarado que ela segurava, um pintado de linhas vermelhas e pretas, o outro liso.
     - Devo pegar o liso, no ? - perguntou.
     - Exatamente - disse Crozie, com um brilho malicioso nos olhos.
     - Est pronta? - Esfregou as palmas uma na outra com os ossinhos dentro, mas olhou para Jondalar, sentado com Danug na rea de trabalho em slex. - Ele  realmente 
to bom como dizem? - interrogou, balanando a cabea na direo do homem.
     Ayla lanou um olhar na mesma direo, e viu a cabea loura de Jondalar inclinada perto da do garoto ruivo. Quando ela virou a cabea, Crozie tinha as duas 
mos atrs das costas.
     - Sim. Jondalar  bom - falou.
     Crozie tentara, propositadamente, desviar sua ateno para outro lugar, a fim de distra-la?, Perguntou-se. Olhou para a mulher com cuidado, observando a leve 
inclinao de seus ombros, a forma como mantinha a cabea, a expresso do rosto.
     Crozie trouxe as mos para a sua frente, de novo, e estendeu-as, fechadas ao redor dos ossinhos. 
     Ayla examinou o rosto enrugado, que se tornara vazio e inexpressivo, e as mos artrticas de ns dos dedos brancos. Uma das mos se encontrava um pouco mais 
perto do seu peito? Ayla es colheu a outra.
     - Perdeu! - regozijou-se Crozie, ao abrir a mo e mostrar o osso marcado de vermelho e preto. Traou uma linha curta no local de marcao.
     - Est pronta para tentar de novo?
     - Estou - respondeu Ayla.
     Desta vez, Crozie comeou a cantarolar baixinho enquanto esfregava os ossos um no outro, entre as suas palmas. Fechou os olhos, depois olhou para o teto e fitou-o, 
como se visse alguma coisa interessante perto da abertura para passagem da fumaa. Ayla ficou tentada a erguer os olhos e ver o que era to fascinante, e comeou 
a acompanhar o olhar de Crozie. Ento, lembrou-se do truque sagaz que fora usado para desviar sua ateno antes, e voltou a olhar para a mulher, a tempo de ver a 
velha astuciosa espiar as palmas das mos antes de escond-las atrs das costas. Um sorriso experiente de respeito rancoroso atravessou o seu rosto. O movimento 
de seus ombros e msculos dos braos dava a impresso de ao entre as mos escondidas. Crozie pensava que Ayla havia vislumbrado um dos ossos, e trocava-os de mos? 
Ou Crozie queria apenas que Ayla pensasse isso?
     Ayla refletiu que havia mais naquele jogo do que adivinhao, e era mais interessante jogar do que observar. Crozie lhe mostrou os punhos fechados novamente. 
Ayla olhou para ela com ateno, mas disfaradamente No era educado encarar os outros, em primeiro lugar, e em nvel mais sutil, no queria que Crozie soubesse 
o que ela procurava. Era difcil dizer, a mulher era perita no jogo, mas parecia que o outro ombro estava um pouco mais erguido, e que a outra mo estava um pouco 
 frente desta vez. Ayla escolheu a mo que pensou que Crozie desejava que escolhesse, a mo errada.
     - Ah! Perdeu de novo! - exclamou Crozie, animada, depois ajuntou mais depressa: - Est pronta?
     Antes de Ayla concordar com um gesto de cabea, Crozie tinha as mos para atrs das costas, e depois  sua frente para que adivinhasse, mas agora, inclinava-se 
para a frente. Ayla resistiu, sorrindo. A velha sempre mudava alguma coisa, tentando evitar dar algum sinal vlido. Ayla escolheu a mo que pensou ser a certa, e 
foi recompensada com uma marca no local de marcao. Da vez seguinte, Crozie mudou a posio novamente, abaixando as mos e Ayla errou.
     - Trs! Eu ganhei! Mas no pode realmente testar sua sorte com uma partida apenas. Quer jogar outra? - perguntou Crozie.
     - Quero, gostaria de jogar de novo - respondeu Ayla.
     Crozie sorriu, mas quando Ayla adivinhou acertadamente duas vezes seguidas, sua expresso era muito menos simptica. Franziu a testa enquanto esfregava as mos 
com os ossinhos nas palmas, pela terceira vez.
     Olhe l! O que  aquilo? - falou Crozie, apontando com o queixo em uma tentativa espalhafatosa de distrair a jovem.
     Ayla olhou e quando tornou a olhar para Crozie, a velha sorria outra vez. A jovem no se apressou em esconder a mo que continha o osso vencedor, embora houvesse 
decidido rapidamente. No queria que Crozie parecesse preocupada demais, mas havia aprendido a interpretar os sinais inconscientes do corpo, que a mulher fazia quando 
jogava, e ela sabia em que mo se encontrava o osso liso, to claramente como se Crozie lhe tivesse contado.
     No teria agradado a Crozie saber que ela se revelava to facilmente, mas Ayla possua uma vantagem rara. Estava acostumada a observar e interpretar detalhes 
sutis de postura e expresso como algo quase instintivo. Eles eram uma parte essencial da linguagem do Cl que comunicava nuanas e matizes de significado. Ela notara 
que as posturas e movimentos corporais tambm exprimiam um significado entre aquelas pessoas que se comunicavam, principalmente, com sons verbais, mas que isso no 
era proposital.
     Ayla estivera to ocupada tentando aprender a linguagem falada de seu novo povo, que no havia feito qualquer esforo verdadeiro para compreender sua linguagem 
inconsciente, no-falada. Agora, que se sentia  vontade, e embora no exatamente fluente, podia expandir sua comunicao para incluir os predicados da linguagem 
que no eram considerados, normalmente, parte da fala, O jogo que jogava com Crozie a fez comprender quanto podia aprender sobre seu prprio tipo de pessoa, aplicando 
o conhecimento e insight que havia aprendido com o Cl. E se o Cl no pudesse mentir por causa da impossibilidade de esconder a linguagem corporal, aqueles que 
ela conhecera como os Outros poderiam guardar segredos dela, ainda menos. Nem sequer sabiam que estavam falando. Ela no era totalmente capaz de interpretar os 
sinais corporais dos Outros, ainda... Mas estava aprendendo.
     Ayla escolheu a mo que continha o osso liso do boi almiscarado, e Crozie, com uma facada de irritao, marcou uma terceira linha para Ayla.
     - Agora, a sorte  sua - disse ela. - Como venci uma partida e voc outra, podemos dizer que empatamos e esquecer as apostas.
     - No - disse Ayla. - Apostamos a percia. Voc ganha a minha:  medicina. Eu a darei a voc. Quero sua arte. -
     - Que arte? - perguntou Crozie. - Minha habilidade no jogo? E o que fao de melhor hoje em dia, e voc j me venceu, Para que me quer?
     - No, no  o jogo. Quero fazer couro branco - disse Ayla.
     Crozie arquejou de surpresa.
     - Couro branco?
     - Couro branco, como a tnica que usou na adoo.
     - H anos que no fao couro branco - disse Crozie.
     - Mas  capaz de fazer?
     - Sou. - Os olhos de Crozie suavizaram-se com expresso distante.
     - Aprendi em menina, com minha me. Em uma poca era sagrado para a Fogueira da Gara, ou assim dizem as lendas. Ningum mais podia us-lo... - Os olhos da 
velha endureceram. - Mas isso foi antes de a Fogueira da Gara decair tanto em seu valor que at o Preo de Noiva  uma insignificncia. - Olhou duramente para a 
jovem. - O que  o couro branco para voc?
     -  bonito - disse Ayla, o que provocou uma nova expresso suave nos olhos de Crozie. - E o branco  sagrado para algum - terminou, os olhos fixos nas mos. 
- Quero fazer uma tnica especial, do modo que algum gosta. Tnica especial branca.
     Ayla no notou Crozie lanar um olhar a Jondalar, que naquele momento olhava para elas, casualmente. Ele desviou o olhar depressa, parecendo embaraado. A velha 
sacudiu a cabea para a jovem, que continuava de olhos baixos.
     - E o que ganho por isto? - perguntou Crozie.
     - Voc me ensinar? - indagou Ayla, erguendo a cabea e sorrindo. Notou um brilho de cobia nos olhos da velha, mas alguma coisa mais, tambm. Algo mais distante 
eterno. - Farei remdio para artrite - disse ela - como para Mamut.
     Quem disse que preciso de remdio? - rebateu Crozie. - No sou. de forma alguma, to velha quanto ele
     - No, no  to velha, Crozie, mas sente dor. Voc no diz que sente dor, faz outra queixa, mas eu sei, porque sou curandeira. O remdio no pode curar as 
articulaes e ossos doloridos, nada pode curar a doena, mas  capaz de faz-la sentir-se melhor. Cataplasma quente facilitar o movimento e inclinao do corpo, 
e farei remdio para dor, um para de manh, um pouco para outros momentos - disse Ayla. Depois, percebendo que a mulher precisava de algo para salvar as aparncias, 
acrescentou: - Preciso fazer remdio para voc, para pagar minha aposta. E a minha arte.
     Bem, acho que devo deix-la pagar sua aposta - falou Crozie - mas quero mais uma coisa.
     - O qu? Eu farei, se puder.
     Quero mais daquela gordura que deixa a pele, velha e seca, macia... E jovem - falou em voz baixa. 
     Depois, endireitou o corpo e declarou: - Minha pele sempre fica rachada no inverno.
     Ayla sorriu.
     - Eu farei isso. Agora, diga-me qual  a melhor pele para couro branco, e perguntarei a Nezzie o que h nos locais de congelamento.
     - Pele de veado. A da rena  boa, embora seja melhor us-la como pele, para aquecer. Qualquer veado serve, gamo, alce, megceros. Antes de conseguir a pele, 
contudo, precisar de outra coisa.
     - O qu?
     Ter de guardar sua urina.
     - Minha urina?
     - Isso mesmo. No apenas sua, mas de qualquer pessoa, embora a sua seja melhor. Comece a recolh-la agora, mesmo antes de descongelar uma pele de veado. Deve 
ser deixada onde estiver quente, por algum tempo - falou Crozie.
     - Em geral, urino atrs da cortina, na cesta com esterco de mamute e cinzas. E jogada fora. No use a cesta. Guarde a urina em uma bacia de crnio de mamute 
ou em uma cesta impermevel. 
     Algo que no vaze.
     - Por que a urina  necessria?
     Crozie fez uma pausa e avaliou a jovem diante dela antes de responder.
     - No estou mais jovem - disse, afinal-, e no tenho ningum exceto Fralie... Em geral, uma mulher transmite sua arte para os filhos e netos, mas Fralie no 
tem tempo e no se interessa muito em curtir couro... Ela gosta de costura e bordado com contas... E no tem filhas. Seus filhos... Bem, so jovens. Quem sabe? Mas 
minha me me legou o saber, e devo pass-lo.., Para algum. E trabalho difcil preparar couro cru, mas vi seu trabalho em couro. Mesmo as peles para agasalho e as 
peles simples que voc trouxe mostram habilidade e cuidado, e isso  necessrio para fazer o couro branco. No tenho pensado em faz-lo, h anos, e ningum mais 
mostrou muito interesse, mas voc sim. Por isto, eu lhe direi.
     A mulher se inclinou para frente e apertou a mo de Ayla.
     - O segredo do couro branco est na urina. Isso pode lhe parecer estranho, mas  verdade. 
     Depois de ser deixada em um local quente por algum tempo, ela muda. Ento, se voc mergulha peles nela, todos os restos de gordura que possam ter ficado, saem, 
e quaisquer manchas de gordura. O plo sair mais facilmente, a pele no apodrecer depressa, e permanece macia mesmo sem curar, ou seja, no ficar queimada pelo 
sol ou marrom. Na verdade, ela embranquece a pele, ainda no verdadeiramente branca, mas quase. Depois, quando o couro  lavado e torcido vrias vezes, e seco, est 
pronto para a cor branca.
     Se algum lhe houvesse perguntado, Crozie no poderia ter explicado que a uria, o principal componente da urina, se decompunha, se tornava amonaco, em um 
meio quente. Ela sabia apenas que se a urina fosse envelhecida, tornava-se outra coisa. Algo que dissolveria a gordura e agiria como alvejante, e no mesmo processo, 
ajudaria a preservar o couro do apodrecimento bacteriano. Ela no precisava saber por qu, ou conhecer a amnia, tinha apenas que saber que funcionava.
     - Temos cr? - perguntou Crozie.
     - Wymez tem. Ele disse que o slex que acabou de trazer era de um penhasco de calcrio, e ainda tem vrias pedras cobertas por ele - disse Ayla.
     - Por que perguntou a Wymez sobre cr? Como sabia que eu concordaria em lhe mostrar? - 
     indagou Crozie, desconfiada.
     - No sabia. H muito tempo que ando querendo fazer uma tnica branca. Se voc no me mostrasse, eu mesma iria tentar, mas no sabia sobre guardar a urina, 
e no teria pensado nisso. 
     Estou feliz porque me mostrar como fazer corretamente - disse Ayla.
     - Hmmf - foi o nico comentrio de Crozie, convencida, mas no querendo admiti-lo. - E certifique-se de que far aquele sebo macio e branco. - Depois acrescentou: 
- E faa um pouco para o couro tambm, acho que seria bom mistur-lo com o cr.
     Ayla segurou a cortina de um lado e olhou para fora. O vento de fim de tarde gemia e entoava um canto triste e lgubre, um acompanhamento adequado para a paisagem 
montona e gelada, e o cu cinzento e nublado. Ela ansiava por algum alvio do frio rido, mas a estao opressora parecia que jamais terminaria. Whinney bufou e 
ela deu meia-volta para ver Mamut entrando na fogueira dos cavalos. Ela lhe sorriu.
     Ayla sentira profundo respeito pelo velho feiticeiro desde o incio, mas, quando ele havia comeado a trein-la, seu respeito aumentou e se converteu em amor. 
Parcialmente, ela percebia forte semelhana entre o velho feiticeiro, alto e magro, e o mgico baixo, coxo, de um s olho do Cl, no em aparncia, mas no temperamento. 
Era quase como se tivesse encontrado Creb de novo, ou ao menos sua rplica. Ambos mostravam compreenso e reverncia profundas pelo mundo dos espritos, embora os 
espritos que venerassem tivessem nomes diferentes; os dois podiam dominar poderes terrveis, embora cada um fosse fisicamente frgil; e os dois eram sbios em relao 
s pessoas. Mas, talvez, a razo mais forte para o amor de Ayla fosse que, como Creb, Mamut lhe tinha dado boas-vindas, ajudara-a a compreender, e a aceitara como 
filha em sua fogueira.
     - Eu estava  sua procura, Ayla. Achei que talvez estivesse aqui, com seus cavalos - falou Mamut.
     - Eu estava olhando l para fora, querendo que fosse primavera- disse Ayla.
     - Esta  a poca em que a maioria das pessoas comea a desejar uma mudana, para ter alguma coisa nova para ver ou fazer. As pessoas ficam entediadas, dormem 
mais. Acho que  por isto que temos mais festas e comemoraes na ltima pane do inverno. A Competio do Riso ser breve. A maioria das pessoas gosta dela.
     - O que  Competio do Riso?
     - Exatamente o que parece. Todos tentam fazer os outros rir. Algumas pessoas usam roupas engraadas, ou usam a roupa s avessas, fazem caretas divertidas umas 
para as outras, fazem truques, mutuamente. E se algum fica zangado por isto, mais se ri dele ento. Quase todo mundo espera a festa com ansiedade, mas nenhuma celebrao 
 aguardada com tanta expectativa quanto o Festival de Primavera. Na verdade,  por este motivo que eu a procurava - disse Mamut. - H ainda muitas coisas que voc 
deveria aprender antes dele.
     - Por que o Festival de Primavera  to especial? - Ayla no tinha certeza se estava ansiosa a respeito.
     - Por muitas razes, imagino.  nossa comemorao mais solene e mais feliz. Marca o fim do frio rigoroso e prolongado, e o comeo do calor. Diz-se que se voc 
observar o ciclo das estaes durante um ano, compreender a vida. A maioria das pessoas conta trs estaes. A primavera  a estao de nascimento. A Grande Me 
Terra, no jorro de Suas guas de origem, as enchentes primaveris, cria nova vida outra vez, O vero, a estao quente,  a poca de crescimento e proliferao. O 
inverno  a pequena morte. Na primavera, a vida se renova, renasce. Trs estaes so suficientes para a maioria dos propsitos, mas a Fogueira do Mamute conta 
cinco, O nmero sagrado da Me  cinco.
     Apesar de suas restries iniciais, Ayla se encontrava fascinada pelo treinamento sobre o qual Mamut havia insistido. Ela estava aprendendo muito: idias novas, 
pensamentos novos, at novas maneiras de pensar. Era excitante descobrir e pensar sobre tantas coisas novas, ser includa em vez de excluda. O conhecimento dos 
espritos, dos nmeros, at mesmo o conhecimento de caada haviam sido mantidos longe dela quando vivera com o Cl; eram reserva dos somente aos homens. Apenas os 
mog-urs e seus aclitos os estudavam profundamente, e nenhuma mulher podia tornar-se mog-ur. As mulheres no eram sequer admitidas em discusses sobre conceitos 
como espritos e nmeros. A caa tambm fora tabu para ela, mas eles no proibiam as mulheres de ouvir; tinham suposto, apenas, que nenhuma mulher aprenderia.
     - Eu gostaria de repetir ainda as canes e cnticos que temos treinado, e quero comear mostrando-lhe algo especial. Smbolos. Creio que os achar interessantes. 
Alguns so sobre medicina.
     - Smbolos de medicina? - perguntou Ayla. Claro que se interessava. Entraram juntos na Fogueira do Mamute
     - Vai fazer alguma coisa com o couro branco? - perguntou Mamut, colocando esteiras ao lado do fogo, perto de sua cama. - Ou vai guard-lo, como o vermelho?
     - No sei ainda sobre o vermelho, mas quero fazer uma tnica especial com o branco. Estou aprendendo a costurar, mas me sinto desajeitada. Ele ficou to perfeito 
que no quero estragar o branco at eu ficar melhor. Deegie est me ensinando, e Fralie, s vezes, quando Frebec no dificulta as coisas para ela.
     Ayla partiu uns ossos e acrescentou-os s chamas enquanto Mamut apresentava uma parte oval bastante fina de marfim com uma grande superfcie curva. O contorno 
oval tinha sido gravado numa presa de mamute com um cinzel de pedra, depois repetido at se tornar um entalhe fundo. 
     Um golpe forte dado precisamente em uma extremidade soltou a lasca de marfim. Mamut pegou um pedao de carvo de lenha de osso da fogueira, enquanto Ayla conseguia 
um crnio de mamute e uma baqueta do feitio de um martelo, feito de chifre, e sentou-se ao lado dele.
     - Antes de praticarmos com o tambor, quero lhe mostrar alguns smbolos que usamos para nos ajudar a memorizar coisas, como canes, histrias, provrbios, lugares, 
ocasies, nomes, qualquer coisa que algum queira lembrar - comeou Mamut. - Voc nos tem ensinado smbolos e sinais manuais, e sei que notou que usamos certos gestos 
tambm, embora no tantos quanto o Cl. Acenos em despedida, ou dando boas-vindas a algum, se queremos que venha, e todo mundo compreende. Usamos outros smbolos 
manuais, principalmente quando descrevemos alguma coisa, ou contamos uma histria, ou quando Um Que Serve dirige uma cerimnia. Aqui est um que ser fcil. E semelhante 
a um smbolo do Cl.
     Mamut fez um movimento circular com a mo, a palma para fora.
     - isso significa tudo, todo mundo, todas as coisas - explicou. Depois, pegou um carvo de lenha. - Agora, posso fazer o mesmo gesto com este pedao de carvo 
sobre o marfim, v? - disse, desenhando um crculo. - Agora, esse smbolo significa tudo e sempre que o vir, mesmo se desenhado por outro Mamut, saber que significa 
tudo.
     O velho feiticeiro gostava de ensinar a Ayla. Ela era inteligente e aprendia depressa, porm, mais ainda, seu prazer em aprender era bem aparente! Enquanto 
ele explicava, o rosto dela revelava seus sentimentos, sua curiosidade e interesse, e o encantamento puro quando compreendia.
     - Jamais teria pensado nisso! Qualquer pessoa pode aprender esta experincia? - perguntou ela.
     - Alguns conhecimentos so sagrados, e somente aqueles ligados  Fogueira do Mamute podem receber o ensinamento, porm, a maior parte das coisas pode ser aprendida 
por qualquer pessoa que revele interesse. Muitas vezes, resulta que aqueles que mostram grande interesse dedicam-se, eventualmente,  Fogueira do Mamute. O saber 
sagrado , muitas vezes, escondido atrs de um segundo significado, ou mesmo um terceiro. A maioria das pessoas conhece este - desenhou outro crculo sobre o marfim 
-,significa tudo, mas tem outro significado. H muitos smbolos para a Grande Me, este  um deles. Significa Mut, A Criadora de Toda Vida. Muitos outros traos 
e formas possuem significado - continuou ele. - Este quer dizer gua - falou, traando uma linha em ziguezague.

     - Essa estava no mapa quando caamos os bises - disse Ayla. Achei que queria dizer rio.
     - Sim, pode significar rio. Como a linha  traada, ou onde  desenhada, ou o que acompanha o desenho pode mudar o significado. Se for assim - disse ele, fazendo 
outro ziguezague com algumas linhas adicionais -, significa que a gua no deve ser bebida. E, como o crculo, possui um segundo significado.  o smbolo para sentimentos, 
paixes, amor e, s vezes, para o dio. Tambm pode ser um lembrete para um provrbio que temos: o rio corre silencioso quando a gua  profunda.
     Ayla enrugou a testa, percebendo algum significado para ela no ditado.
     - A maioria dos curandeiros d significados aos smbolos para ajud-los a recordar, como lembretes para provrbios, exceto os provrbios que so sobre medicina 
ou cura, e em geral no so compreendidos por outra pessoa - disse Mamut. - No conheo muitos, mas quando formos  Reunio de Vero, voc encontrar outros curandeiros. 
Eles podero lhe dizer mais.
     Ayla se interessava. Lembrava-se de ter encontrado outras curandeiras na Reunio de Cls, e de como ela havia aprendido muito com elas. Partilharam seus tratamentos 
e remdios, at lhe ensinaram novos ritmos, porm melhor que tudo era ter outras pessoas com quem dividir experincias.
     - Eu gostaria de aprender mais - disse ela. - S conheo medicina do Cl.
     - Acho que tem mais conhecimento do que pensa, Ayla, certamente, mais que muitos curandeiros acreditaro, a princpio. Alguns poderiam aprender com voc, mas 
espero que compreenda que talvez leve algum tempo para ser completamente aceita. - O velho a observou enrugar a testa de novo, e desejou que houvesse algum modo 
de poder facilitar sua apresentao inicial. Ele podia pensar em vrias razes pelas quais no seria fcil para ela conhecer outros Mamutoi, especialmente, em grande 
nmero. Mas no havia necessidade de se preocupar com aquilo ainda, pensou ele, e mudou de assunto. - H uma coisa sobre medicina do Cl que eu gostaria de lhe perguntar. 
Tudo  apenas lembrana? Ou vocs tm meios para ajudar a recordar?
     - Como as plantas so, em semente, e broto e maduras; onde crescem, para que servem; como mistur-las, prepar-las e us-las: isso  da memria. Outros tipos 
de tratamentos tambm so lembrados. Penso em uma nova maneira de usar alguma coisa, mas isso  porque sei como us-la - falou ela.
     - No usa nenhum smbolo ou lembrete?
     Ayla refletiu um pouco, depois se levantou sorrindo e trouxe sua bolsa de remdios. Retirou o seu contedo, colocando-o diante de si, uma variedade de pequenos 
sacos e embrulhos cuidadosamente amarrados com cordes e pequenas tiras de couro. Ela pegou dois.
     - Este tem hortel - disse, mostrando um saquinho a Mamut - e este tem frutos da roseira.
     - Como sabe? Voc no os abriu, nem cheirou.
     - Eu sei porque a hortel tem um cordo feito da casca fibrosa de um certo arbusto, e existem dois ns em uma extremidade do cordo. O cordo do embrulho de 
frutos de roseira  do plo comprido de um rabo de cavalo, e tem trs ns seguidos, e juntos - falou Ayla. - Posso sentir a diferena pelo olfato tambm... Se no 
estiver resfriada, mas alguns remdios muito fortes quase no tm odor. Este  misturado s folhas com cheiro forte de planta com pouco remdio, de modo que no 
se use o remdio errado. Cordo diferente, ns diferentes, odor diferente, s vezes, embrulho diferente. So lembretes, no so?
     - Inteligente... Muito inteligente - disse Mamut. - Sim, so lembretes. Mas voc tem que lembrar os cordes e ns de cada um, no ? Mesmo assim,  uma boa 
maneira de ter certeza de que est utilizando o medicamento adequado.
     Os olhos de Ayla estavam abertos, mas ela jazia imvel. Estava escuro, exceto pela fraca luz noturna de fogos limitados. Jondalar subia na cama, tentando fazer 
o mnimo possvel de agitao enquanto se movia  volta dela. Ela havia pensado em ir para o lado de dentro uma vez, mas resolveu que no o faria. No queria tornar 
fcil para ele entrar e sair da cama, esgueirando-se silenciosamente. Ele rolou em suas peles separadas e jazeu de lado, de frente para a parede, imvel. Ela sabia 
que ele no adormeceria depressa, e ansiava para estender a mo e toc-lo, mas havia sido rejeitada antes e no queria correr esse risco de novo. Havia doido quando 
ele disse que estava cansado, ou fingiu dormir, ou no lhe respondeu.
     Jondalar esperou at o som da respirao de Ayla indicar que ela adormecera, afinal. Ento, rolou na cama, levantou-se em um cotovelo e encheu os olhos com 
a viso da jovem. Seu cabelo desgrenhado se espalhava sobre as peles, e um brao estava abandonado fora das cobertas, desnudando um seio. Uma calidez emanava dela, 
e um leve odor de mulher. Ele podia se sentir tremendo com o desejo de toc-la, mas estava seguro de que ela no quereria que ele a incomodasse quando dormia. Depois 
de sua reao zangada e confusa diante da noite de Ayla com Ranec, ele temia que ela no o quisesse mais. Ultimamente, sempre que se roavam acidentalmente, ele 
recuava. Vrias vezes, havia pensado em mudar para outra cama, at para outra fogueira, mas se j era to difcil dormir ao lado dela.., Muito pior seria dormir 
longe.
     Um fio delicado de cabelo jazia sobre o rosto da jovem e se movia a cada respirao dela. Ele estendeu a mo e afastou o cabelo gentilmente, depois se deitou 
com cuidado e permitiu-se relaxar. Fechou os olhos e adormeceu ao som da respirao de Ayla.
     Ayla despertou com a sensao de que algum a estava olhando. As fogueiras estavam acesas e a claridade do dia penetrava atravs da abertura para sada da fumaa 
parcialmente descoberta. Ela virou a cabea e viu os olhos penetrantes, escuros de Ranec observando-a da Fogueira da Raposa. Sorriu sonolentamente para ele, e foi 
recompensada por um sorriso largo, encantado. Estava certa de que o lugar a seu lado se encontrava vazio, mas estendeu a mo atravs das peles empilhadas apenas 
para ter certeza. Depois, afastou as cobertas e sentou-se. Sabia que Ranec esperaria at ela sair da cama e vestir-se antes de entrar na Fogueira do Mamute para 
uma visita.
     Ela ficara pouco  vontade quando se tornou consciente, pela primeira vez, de que ele a observava o tempo todo. De certa forma, era lisonjeiro e ela sabia que 
no havia malcia em sua ateno, mas no Cl era considerado descorts olhar, em meio s pedras que serviam como limite, a rea de moradia de outra famlia. No 
houvera mais real privacidade na caverna do Cl do que havia na habitao comunal dos Mamutoi, mas a ateno de Ranec era como uma invaso de sua privacidade - exatamente 
como era - e acentuava uma corrente oculta de tenso que ela sentia. 
     Algum estava sempre por perto. No fora diferente quando ela vivia com o Cl, mas no fora criada de acordo com os costumes daquelas pessoas. As diferenas 
eram sutis. Muitas vezes, mas, na proximidade ntima da habitao de barro, elas cresciam, ou ela se tornava mais sensvel a elas. Ocasionalmente, desejava poder 
fugir. Depois de trs anos de solido no vale, nunca imaginara que chegaria o momento em que desejaria ficar sozinha, mas havia ocasies em que ela ansiava pela 
solido e a liberdade da pessoa solitria.
     Ayla se apressou em sua costumeira rotina matinal, comendo algumas pequenas pores, apenas, da comida que sobrara da noite anterior. Os buracos de sada de 
fumaa abertos normalmente significavam que o tempo estava bom, e resolveu sair com os cavalos. Quando afastou a cortina que levava ao anexo, viu Jondalar e Danug 
com os animais, e parou para reconsiderar.
     Atender s necessidades dos cavalos quer no anexo, ou quando o tempo permitia, fora, dava-lhe alguma folga das pessoas quando queria um momento para si prpria, 
mas Jondalar tambm parecia gostar de passar o tempo com eles. Quando ela via Jondalar com os cavalos, geralmente ficava distante, porque ele deixava os animais 
com ela sempre que ela se reunia a eles, com comentrios balbuciados de que no queria interferir em sua convivncia com os cavalos. Ela queria lhe dar algum tempo 
com os animais. No apenas eles proporcionavam uma ligao entre ela e ele, como seu cuidado mtuo com os cavalos exigia comunicao, embora reservada. O desejo 
de Jondalar de estar com eles e a sensibilidade em relao aos cavalos fizeram com que Ayla pensasse que talvez ele necessitasse mais da companhia dos animais do 
que ela.
     Ayla avanou para a fogueira dos cavalos. Talvez, com Danug ali, Jondalar no se afastasse to depressa. Ao se aproximar, Jondalar j retrocedia, mas ela se 
apressou em dizer uma coisa que o manteria envolvido na conversa.
     - J pensou como vai ensinar a Racer, Jondalar. - perguntou, e sorriu, cumprimentando Danug.
     - Ensinar o qu? - interrogou Jondalar, um pouco desconcertado pela pergunta.
     - Ensin-lo a deixar que voc o monte.
     Ele estivera refletindo sobre isso. Na verdade, acabava de comentar com Danug no que esperava ser uma forma casual. No queria trair seu desejo cada vez maior 
de cavalgar o animal. Principalmente, quando se sentia frustrado por sua incapacidade de enfrentar a atrao clara de Ayla por Ranec, imaginava-se galopando pelas 
estepes no dorso do potro castanho, to livre quanto o vento, mas sem certeza de que ainda o seria. Talvez ela quisesse que Ranec cavalgasse o potro de Whinney agora.
     - Tenho pensado nisso, mas no sabia se... Como comear - disse Jondalar.
     - Acho que devia continuar fazendo o que comeou no vale. Acostume Racer com coisas sobre seu dorso. Acostume-o a carregar fardos. No estou segura de como 
ensin-lo a ir aonde voc deseja que v. Ele seguir uma corda, mas no sei como obedecer a uma corda quando voc estiver montado nele - disse Ayla, falando depressa, 
fazendo sugestes impulsivamente, tentando mant-lo envolvido.
     Danug a observava, depois olhou para Jondalar, querendo poder dizer ou fazer alguma coisa que resolvesse a situao, de repente, no apenas para eles, mas para 
todos. Um incmodo instante de silncio os cercou, inquietador, quando Ayla parou de falar. Danug se apressou a preencher a lacuna.
     - Talvez ele pudesse segurar a corda de trs, enquanto estiver montado no potro, em vez de segurar a crina de Racer - falou o rapazola.
     De sbito, como se algum houvesse golpeado um pedao de slex com pirita de ferro na habitao escura, Jondalar foi capaz de visualizar exatamente o que Danug 
havia dito. Em vez de recuar, parecendo que estava pronto para escapar diante da primeira oportunidade, ele fechou os olhos e enrugou a testa, concentrando-se.
     - Sabe, talvez d certo, Danug! - exclamou. Tomado de excitao por uma idia que talvez fosse a soluo de um problema que estivera tentando resolver, esqueceu, 
por um instante, sua incerteza em relao ao futuro. - Talvez eu possa amarrar alguma coisa ao seu cabresto e segurar detrs. Uma corda forte... Ou uma fina tira 
de couro... Duas delas, talvez.
     - Tenho algumas correias estreitas - falou Ayla, notando que ele parecia menos tenso. Ficou satisfeita pelo incontnuo de Jondalar no treinamento do potro, 
e curiosa de como a coisa funcionaria. - Vou busc-las para voc. Esto l dentro.
     Jondalar a acompanhou atravs da arcada interna em direo  Fogueira do Mamute. Ento, parou de repente quando ela se dirigiu  plataforma de estocagem para 
pegar as correias. Ranec falava com Deegie e Tronie, e se virou para lanar o sorriso vitorioso a Ayla. Jondalar sentiu o estmago revolver-se, fechou os olhos e 
cerrou os dentes. Comeou a recuar em direo  abertura. Ayla se voltou para entregar-lhe um rolo estreito de couro flexvel.
     - Isto  correia,  forte - disse ela, entregando-lhe o couro.  Fiz no ltimo inverno. - Ergueu a cabea para os perturbados olhos azuis que revelavam o sofrimento, 
a confuso, e a indeciso que o atormentava. - Antes de chegar ao meu vale, Jondalar. Antes de o Esprito do Grande Leo da Caverna escolher voc e o conduzir at 
l.
     Ele pegou o rolo e se apressou em sair. No podia ficar. Sempre que o escultor vinha  Fogueira do Mamute, ele tinha que sair. No era capaz de ficar por perto 
quando o homem escuro e Ayla estavam juntos, o que acontecia com mais freqncia recentemente. Ele havia observado de longe quando os jovens se reuniam no espao 
mais amplo do recinto de cerimnias para exibir seu trabalho, partilhar idias e arte. Ele os ouvia praticar msica e cantar, escutava suas brincadeiras e risos. 
E todas as vezes que ouvia o riso de Ayla unido ao de Ranec, estremecia.
     Jondalar colocou o rolo de couro perto do cabresto do potro, tirou sua parka do cabide no anexo, e saiu, sorrindo tristemente para Danug, no caminho. Escorregou-a 
pela cabea, amarrou o capuz ao redor do rosto, e enfiou as mos nas luvas que pendiam das mangas. Depois, caminhou para as estepes.
     O vento forte que impelia nuvens cinzentas atravs do cu era normal para a estao e o sol brilhando intermitentemente entre as nuvens muito irregulares parecia 
produzir pouco efeito sobre a temperatura que permanecia bem abaixo de zero. O manto de neve era escasso e o ar seco estalava e roubava umidade de seus pulmes, 
em nuvens de vapor, a cada respirao. Ele no ficaria fora muito tempo, mas o frio o acalmava com sua exigncia insistente de colocar a sobrevivncia  frente de 
qualquer outro pensamento. Ele ignorava por que reagia to violentamente a Ranec. Em parte, sem dvida, estava o medo de perder Ayla para ele, e tambm havia a visualizao 
dos dois juntos em sua imaginao. Porm, havia tambm uma culpa torturante sobre sua prpria hesitao em aceit-la totalmente e sem reservas. Parte dele acreditava 
que Ranec a merecia mais que ele. Mas uma coisa, ao menos, parecia certa. Ayla queria que ele, e no Ranec, tentasse aprender a montar Racer.
     Danug viu Jondalar comear a subir a encosta, depois deixou a cortina cair, e caminhou devagar para o interior. Racer relinchou e agitou a cabea quando o rapaz 
passou por ele, e Danug olhou para o potro e sorriu. Quase todos pareciam gostar dos animais agora, acariciando-os e conversando com eles, embora sem a familiaridade 
de Ayla. Parecia muito natural ter cavalos em um anexo da moradia. Como era fcil esquecer o assombro e surpresa que sentira quando vira os animais pela primeira 
vez. Atravessou a segunda arcada e viu Ayla de p ao lado de seu estrado-cama. Parou, depois se juntou a ela.
     - Ele est dando uma caminhada nas estepes - disse a Ayla. - No  uma boa idia sair sozinho quando est frio e ver, mas no est to mau tempo quanto acontece, 
s vezes.
     - Est tentando me dizer que ele estar bem, Danug? - Ayla lhe sorriu e ele se sentiu tolo por um instante. Claro que Jondalar estaria bem. Ele havia viajado 
muito, sabia cuidar de si mesmo. - Obrigada  disse ela -, por sua ajuda e por querer ajudar - estendendo a mo e tocando a dele. A mo de Ayla estava fria, mas 
o toque era clido, e ele sentiu-o com a especial intensidade que ela provocava nele, mas em um nvel mais profundo sentiu que ela oferecia algo mais: sua amizade.
     - Talvez eu saia para verificar algumas armadilhas que preparei - falou ele.
     - Tente deste jeito, Ayla - disse Deegie.
     Destramente, ela abriu um furo perto da extremidade do couro com um ossinho, um pequeno osso duro e resistente da perna de uma raposa rtica, que tinha uma 
ponta naturalmente aguada, que se tornara ainda mais pontiaguda com arenito. Depois, estendeu um pedao fino de fio de tendo pelo orifcio e, com a ponta do furador 
de costura, puxou-o atravs do buraco. Segurou-o com os dedos pela parte de trs do couro e atravessou o furador. Em um local correspondente, sobre outro pedao 
de couro que ela costurava  primeira pea, fez outro furo e repetiu o processo.
     Ayla pegou os pedaos de couro para treinamento. Usando um quadrado de pele resistente de mamute como dedal, passou o aguado osso de raposa rtica pelo couro, 
fazendo uma pequena perfurao. Depois, tentou colocar o furador fino sobre o orifcio e atravess-lo, mas no parecia capaz de dominar a tcnica, e se sentiu totalmente 
frustrada, outra vez.
     - Acho que nunca aprenderei isto, Deegie! - gemeu.
     - Tem apenas que praticar, Ayla. Fao isto desde menina. Claro que  fcil para mim, mas voc conseguir, se continuar se esforando. E a mesma idia como cortar 
uma pequena lasca com uma ponta de slex e atravessar a correia de couro para fazer roupas de trabalho, e voc faz isso muito bem.
     - Mas  muito mais difcil com o furador fino e buracos pequenos. No consigo passar o furador. Sinto-me to desajeitada! No sei como Tronie pode costurar 
com contas e espinhos, como faz - disse Ayla, olhando para Fralie, que girava um fino e comprido cilindro de marfim no encaixe de um bloco de arenito. - Eu esperava 
que ela me ensinasse, assim eu poderia enfeitar a tnica branca depois de pronta, mas no sei sequer se serei capaz de faz-la do jeito que quero.
     - Ser, Ayla. Acho que no h nada que no se possa fazer, se o deseja, realmente - disse 
     Tronie
     - Exceto cantar! - exclamou Deegie.
     Todas riram, inclusive Ayla. Embora sua voz, ao falar, fosse grave e agradvel, cantar no era um dos seus dons. Ela podia manter uma amplitude limitada de 
tons suficiente para um montono canto de embalar, e tinha bom ouvido para msica. Sabia quando desafinava e era capaz de assobiar uma melodia, mas qualquer habilidade 
vocal estava fora de seu alcance. O virtuosismo de algum como Barzec era uma maravilha total. Ela poderia ouvi-lo o dia inteiro, se ele consentisse em cantar tanto 
tempo. Fralie tambm tinha boa voz, cristalina, aguda, meiga, que Ayla adorava ouvir. Na verdade, a maior parte dos membros do Acampamento do Leo podia cantar, 
mas no Ayla.
     Faziam piadas sobre seu canto e voz, quando incluam comentrios sobre seu sotaque, embora fosse mais um maneirismo de fala do que um sotaque. Ela ria tanto 
quanto os outros. Era incapaz de cantar e sabia disso e, se brincavam em relao  sua voz, muitas pessoas tambm tinham individualmente elogiado sua fala. Eles 
encaravam como elogio o fato de ela se ter tornado to fluente em sua lngua, to rpida, e as troas sobre seu canto a faziam sentir que pertencia ao grupo.
     Todos tinham algum trao ou caracterstica que os outros achavam engraado: o tamanho de Talut, a cor de Ranec, a fora de Tulie. Somente Frebec se ofendia 
com as brincadeiras. Assim, caoavam dele pelas costas, em linguagem de sinais. O Acampamento do Leo tambm se tornara fluente, sem sequer refletir a respeito, 
em uma verso modificada da linguagem do Cl. Como resultado, Ayla no era a nica a sentir o calor da aceitao. Rydag tambm era includo na brincadeira.
     Ayla lanou um olhar em direo ao menino. Ele estava sentado em uma esteira com Hartal ao colo, mantendo o beb ativo, ocupado com uma pilha de ossos, principalmente, 
vrtebras de veado, para que ele no pudesse engatinhar atrs da me e espalhar as contas que ajudavam Fralie a bordar. Rydag era paciente com bebs. Brincava com 
eles e os entretinha tanto tempo quanto quisessem.
     Ele sorriu para Ayla.
     - Voc no  a nica que no pode cantar, Ayla - falou por sinais.
     Ela sorriu tambm. No, pensou, no era a nica que no podia cantar. Rydag no era capaz de cantar. Ou falar. Ou correr e brincar Ou at viver uma vida plenamente. 
Apesar do seu remdio, ela no sabia quanto tempo ele viveria. Podia morrer naquele dia, ou sobreviver vrios anos. Ela s podia am-lo cada dia que vivesse, e esperar 
poder am-lo no dia seguinte.
     - Hartal tambm no pode cantar! - ele fez sinais e riu com seu riso estranho, gutural.
     Ayla soltou uma risadinha, balanando a cabea com deleite confuso. Ele adivinhou o que ela pensava e fez uma graa inteligente e divertida.
     Nezzie estava de p perto da lareira e os observava. Talvez voc no cante, Rydag, mas pode falar agora, pensou. Ele passava uma corda grossa com vrias vrtebras
presas, pelo orifcio da medula espinhal, e chocalhava-as juntas para o beb. Sem as palavras de sinais manuais, e a percepo crescente, que elas trouxeram da inteligncia 
e compreenso de Rydag, ele jamais teria a permisso de assumir a responsabilidade de tomar conta de Hartal para que a me pudesse trabalhar, nem que fosse diretamente 
ao lado dela. Que diferena Ayla havia trazido para a vida de Rydag. Naquele inverno, ningum questionara sua humanidade essencial, exceto Frebec, e Nezzie estava 
certa de que era mais por teimosia do que por crena.
     Ayla continuou a lutar com o furador e o tendo. Se ela conseguisse apenas fazer com que os fios finos de tendo entrassem no buraco e sassem do outro lado... 
Tentou faz-lo do jeito que Deegie lhe ensinara, mas era uma habilidade que vinha de anos de experincia, e Ayla se encontrava muito longe disso. Ela deixou cair 
os pedaos para treino no colo, frustrada, e comeou a observar as outras fazendo contas de marfim.
     Um golpe forte em uma presa de mamute no ngulo adequado fazia com que uma parte curva, fina, se partisse. Cortavam-se entalhes na lasca grande com buris, como 
cinzis, gravando uma linha e refazendo-a vrias vezes at os pedaos compridos se partirem. Eram aparados e talhados, tornando-se cilindros toscos, com facas e 
raspadoras que tiravam longas lascas encrespadas, depois alisados com arenito mantido molhado para ser mais abrasivo. Usavam-se lminas aguadas de slex, com borda 
denteada e fixadas a um cabo comprido, para serrar os cilindros de marfim em panes menores, e depois suas extremidades eram alisadas.
     O passo final era fazer um orifcio no centro, para enfileir-los em um cordo ou costur-los em uma roupa. Isto era feito com ferramenta especial. O slex, 
cuidadosamente moldado em uma comprida e fina ponta por um ferramenteiro hbil, era inserido ento na extremidade de uma vareta estreita e comprida, perfeitamente 
reta e lisa. A ponta da broca manual era centralizada sobre um pequeno e grosso disco de marfim e, ento, da mesma forma que no processo de fazer fogo, a vareta 
era rodada para diante e para trs entre as palmas das mos, enquanto exercia presso para baixo, at um orifcio ser aberto.
     Ayla observou Tronie girar a vareta entre as palmas das mos, concentrada para fazer o orifcio corretamente. Ocorreu-lhe que elas tinham muito trabalho para 
fazer algo que no tinha utilidade aparente. As contas no ajudavam em nada o preparo ou estocagem do alimento, e no faziam as vestimentas, s quais eram pregadas, 
mais teis. Mas ela comeou a compreender por que as coisas tinham tanto valor. O Acampamento do Leo jamais poderia fazer tal investimento de tempo e esforo sem 
a segurana do conforto e aquecimento, e a garantia de alimento adequado. Somente um grupo bem organizado, cooperativo poderia planejar e estocar suficientes gneros 
de primeira necessidade adiantadamente, para assegurar o lazer de fabricar contas. Portanto, quanto mais contas usavam, tanto mais demonstravam que o Acampamento 
do Leo era um local prspero, agradvel para se viver, e tanto maior respeito e status poderiam exigir de outros acampamentos.
     Ela pegou o couro de seu colo e o furador de osso, e examinou o ltimo buraco que ela fizera um pouco maior; depois tentou passar o nervo pelo orifcio, com 
o furador. Conseguiu e puxou o tendo por trs, mas o trabalho no tinha a aparncia limpa dos pontos apertados de Deegie. Ela levantou os olhos de novo, desencorajada, 
e observou Rydag enfiar um segmento de espinha dorsal sobre uma corda por um buraco natural de sua medula espinhal. Ele pegou outra vrtebra e enfiou a corda bastante 
rija pelo orifcio.
     Ayla respirou fundo, e retomou seu trabalho mais uma vez. No era to difcil forar a ponta atravs do couro, pensou. Quase empurrava o osso Inteiro atravs 
da abertura. Se ao menos pudesse prender a fibra nele, refletiu, seria mais fcil...
     Parou e examinou o ossinho com ateno. Depois olhou para Rydag, unindo as pontas da corda e sacudindo o chocalho de espinha dorsal para Hartal. Viu Tronie 
girando a broca manual entre as palmas das mos, depois se virou para Fralie, que alisava um cilindro de marfim entalhado, com um pequeno bloco de arenito. Depois 
fechou os olhos, recordando Jondalar fazendo pontas de lana de osso em seu vale, no vero anterior...
     Olhou para o furador de costura de osso novamente.
     - Deegie! - gritou.
     - O qu? - perguntou a jovem, surpresa.
     - Acho que sei um meio de faz-lo!
     - Fazer o qu?
     Passar o furador pelo orifcio. Por que no fazer um buraco na ponta de trs de um osso com uma ponta aguada e depois passar a fibra pelo buraco? Como Rydag 
atravessa aquela corda pela espinha dorsal. Depois, pode-se empurrar o osso atravs do couro e o fio o seguir. O que acha? Daria certo? - indagou Ayla.
     Deegie fechou os olhos por um instante, depois pegou o furador da mo de Ayla e examinou-o.
     - Teria que ser um orifcio muito pequeno.
     - Os buracos que Tronie est fazendo naquelas contas so pequenos. Teria que ser muito menor?
     - Este osso  muito duro e resistente. No seria fcil abrir um buraco nele, e no vejo um bom local para um furo.
     - No podamos fazer algo com uma presa de mamute ou qualquer outro tipo de osso? Jondalar fabrica pontas compridas, estreitas, de lanas, com osso e alisa-os 
e agua-os com arenito, como Fralie est fazendo. No podemos fazer algo como uma pequena ponta de lana, e depois fazer um furo na outra extremidade? - perguntou 
Ayla tensa de excitao.
     Deegie refletiu de novo.
     - Teramos que pedir a Wymez ou outra pessoa para fazer um furador menor, mas... Talvez d certo, Ayla, acho que talvez d certo!
     Quase todos pareciam circular em volta da Fogueira do Mamute. Reuniam-se em grupos de trs ou quatro, conversando, mas a expectativa estava no ar. De algum 
modo, correra o boato de que Ayla iria fazer uma experincia com o novo puxador-de-fio. Vrias pessoas trabalharam na sua fabricao, mas desde que a idia original 
fora de Ayla, ela seria a primeira a us-lo. Wymez e Jondalar tinham trabalhado juntos para projetar um modo de fazer um perfurador de slex bastante pequeno para 
abrir o furo. Ranec escolhera o marfim e, usando suas ferramentas de escultor, havia moldado diversos cilindros muito pequenos, compridos, pontiagudos. Ayla as havia 
alisado e aguado como desejava, mas Tronie abrira o furo, realmente.
     Ayla podia sentir a excitao. Quando pegou o couro de praticar e o tendo, todos se agruparam ao seu redor, todo o fingimento de que a visita deles era apenas 
casual, esquecido. O tendo duro, seco de veado, marrom como couro velho e to grande quanto um dedo, parecia uma vareta de madeira. Foi golpeado at se tornar um 
feixe de fibras brancas de colgeno, que se separaram facilmente em filamentos de tendo, que podiam ser cordas grossas ou fio fino, excelente, dependendo do que 
ela desejava. Ela sentiu que o momento necessitava de drama e levou tempo examinando o tendo, depois finalmente retirou, puxando, um fino filamento. Molhou-o com 
sua boca para amaci-lo e uni-lo, depois com o puxador-de-fio na mo esquerda, examinou o furo pequeno com ar crtico. Poderia ser difcil passar o fio pelo buraco. 
O tendo comeava a secar e endurecer levemente, o que facilitava a tarefa. Ayla enfiou cuidadosamente o filamento de tendo no furo, e respirou com alvio, soltando 
um suspiro curto, ao pass-lo pelo orifcio, e ergueu a ponta de costurar de marfim com o fio pendendo de sua extremidade.
     Em seguida, pegou o pedao de couro usado que utilizara para treinar e enfiou a ponta perto de uma borda, fazendo um furo. Mas, desta vez, atravessou o furador 
e sorriu ao v-lo arrastando o filamento atrs de si. Manteve-o erguido para mostrar e houve exclamaes de assombro. Depois, apanhou outro pedao de couro que queria 
prender e repetiu o processo, embora tivesse que usar o quadrado de pele de mamute como um dedal para forar a ponta atravs do couro mais espesso e duro. Ela juntou 
as duas peas e depois deu um segundo ponto, e segurou os dois pedaos erguidos para exibi-los.
     - Funciona! - exclamou Ayla com um largo sorriso vitorioso.
     Ela entregou o couro e agulha a Deegie, que deu alguns pontos.
     - Funciona. Aqui, me, experimente voc - disse ela, entregando o couro e a agulha  chefe.
     Tulie tambm deu alguns pontos e sacudiu a cabea, aprovando, depois passou a agulha a Nezzie, que fez uma tentativa, em seguida foi a vez de Tronie. Esta entregou 
a agulha a Ranec que tentou perfurar as duas peas de couro de uma s vez e descobriu que o couro espesso era mais resistente  perfurao.
     - Acho que se fizer uma pequena ponta cortante de slex - disse ao entregar a agulha a Wymez -, seria mais fcil furar o couro pesado. O que acha?
     Wymez experimentou e concordou com um gesto de cabea.
     - Sim, mas este puxador-de-fio  muito inteligente.
     Todas as pessoas do acampamento experimentaram o novo implemento, e concordaram. Facilitava muito a costura ter alguma coisa que puxava o fio atravs do couro, 
em vez de empurr-lo.
     Talut segurou o pequeno apetrecho de costura e examinou-o de todos os ngulos, sacudindo a cabea com admirao. Uma comprida haste fina, com ponta de um lado, 
orifcio do outro, era uma inveno cujo valor se reconhecia imediatamente. Perguntou-se por que ningum havia pensado naquilo antes. Era simples, to bvio uma 
vez visto, e to eficiente!
     Dois pares de cascos avanavam em unssono atravs do solo duro. Ayla estava abaixada sobre a cernelha da gua, com os olhos semicerrados contra um vento frio 
que ardia em seu rosto. Ela cavalgava agilmente, a interao controlada de tenso em seus joelhos e quadris em harmonia perfeita com os msculos fortes, empenhados 
do cavalo a galope. Ela notou uma mudana no ritmo das batidas dos cascos do outro animal, e lanou um olhar a Racer. Ele havia ido  frente, mas, mostrando sinais 
inconfundveis de cansao, ele recuava. Ela fez Whinney reduzir a marcha gradualmente at parar, e o jovem garanho parou tambm. Os cavalos, envolvidos em nuvens 
de vapor de sua respirao difcil, abaixaram as cabeas. Os dois estavam cansados, mas havia sido uma boa corrida.
     Sentando-se ereta e acompanhando facilmente com o corpo o passo da gua, Ayla voltou em direo ao rio em marcha confortvel, usufruindo, da oportunidade de 
estar ao ar livre. Estava frio, mas era bonito, com a luz viva de um sol incandescente mais brilhante pelo gelo que cintilava e o branco de uma nevasca recente.
     Assim que Ayla sara da habitao comunal naquela manh, resolveu levar os cavalos para uma longa corrida, O prprio ar a atraiu para fora. Parecia mais leve, 
como se um fardo opressivo houvesse sido afastado. Ela achou que o frio no era to intenso, apesar de nada estar visivelmente mudado. O gelo continuava congelado, 
as pequenas bolas de neve carregadas pelo vento, duras como sempre.
     Ayla no tinha um meio absoluto de saber que a temperatura havia subido e que o vento soprava com menos fora, mas ela detectara as alteraes sutis. Embora 
pudesse ser interpretada como intuio, impresso, na verdade era uma sensibilidade aguada. Para pessoas Que viviam em climas de frio extremo, as condies mesmo 
um pouco menos rigorosas eram notadas, e muitas vezes saudadas com boas sensaes exuberantes. Ainda no era primavera, mas o domnio incansvel do frio profundamente 
esmagador havia diminudo, e o aquecimento pequeno, mas que se notava, trazia consigo a promessa de que a vida se agitaria de novo.
     Ela sorriu quando o garanho novo empinou  frente, o pescoo arqueado com orgulho e o rabo erguido. Ela ainda pensava em Racer como o filhote que ajudara a 
nascer, porm, ele no era mais um beb. Embora ainda no totalmente adulto, era maior que sua me e era um corredor. Gostava de correr e era ligeiro, mas havia 
uma diferena nos padres de corrida dos dois animais. Racer era invariavelmente mais rpido do que a me em uma corrida curta, distanciando-se facilmente dela na 
partida, mas Whinney possua mais resistncia. Ela era capaz de correr uma distncia maior e, se percorriam um trajeto longo, inevitavelmente ela alcanava o filho 
e saltava  frente dele.
     Ayla desmontou, mas parou momentaneamente antes de afastar a cortina e entrar na habitao de barro. Ela havia usado os cavalos, muitas vezes, como desculpa 
para se afastar e, naquela manh, ficara particularmente aliviada porque o tempo estava apropriado para uma longa corrida. Da mesma maneira que ficara feliz por 
ter encontrado pessoas novamente e por ter sido aceita como uma delas e includa em suas atividades, precisava ficar sozinha, ocasionalmente. Era verdade, especialmente, 
quando incertezas e mal-entendidos no solucionados aumentavam as tenses.
     Fralie andara passando grande parte do seu tempo na Fogueira do Mamute com os jovens, para aborrecimento crescente de Frebec. Ayla ouvira discusses na Fogueira 
da Gara, ou melhor, lamentaes de Frebec, queixando-se da ausncia de Fralie. Ela sabia que ele no gostava que Fralie ficasse muito amiga dela, e estava certa 
de que a mulher grvida se afastava mais para manter a paz. Ayla se aborrecia com isso, principalmente, desde que Fralie lhe havia confiado que andava urinando sangue. 
Ela prevenira a mulher de que poderia perder o beb se no descansasse, e prometeu-lhe um remdio, mas agora seria mais difcil tratar de Fralie, com Frebec rondando 
com ar desaprovador.
     Alm disso, havia sua crescente confuso em relao a Jondalar e Ranec. Jondalar estivera distante, mas, recentemente, parecia-se mais consigo prprio. Alguns 
dias antes, Mamut lhe pedira para ir falar com ele sobre uma determinada ferramenta que tinha em mente, mas o feiticeiro estivera ocupado o dia todo, e somente encontrara 
tempo para discutir seu projeto  noite, quando os jovens se reuniam, em geral, na Fogueira do Mamute. Embora se acomodassem com calma a um lado, o riso e troa, 
eram ouvidos sem dificuldade.
     Ranec estava mais atencioso que nunca e ultimamente andava pressionando Ayla, com o disfarce de provocao e brincadeira, para que ela fosse para sua cama de 
novo. Ela ainda achava difcil recus-lo diretamente; obedincia aos desejos de um homem era algo que fora inteiramente incutido nela para poder super-lo com facilidade. 
Ela ria dos gracejos dele - compreendia mais o humor agora, at a inteno sria o humor s vezes mascarava - mas fugia com habilidade do convite implcito causando 
um coro de risadas  custa de Ranec. Ele tambm ria, divertindo-se com o esprito de Ayla, e ela se sentia atrada para a sua amizade agradvel. Era bom estar com 
ele.
     Mamut notou que Jondalar tambm sorria, e sacudiu a cabea, aprovando. O quebrador de slex havia evitado a reunio de gente jovem, observando apenas as troas 
amistosas de longe, e o riso havia somente aumentado seu cime. Ele ignorava que era, muitas vezes, provocado pelas recusas de Ayla s propostas de Ranec, embora 
Mamut soubesse.
     No dia seguinte, Jondalar sorriu para ela, pela primeira vez em muito tempo, pensou Ayla, mas ela sentiu a respirao presa na garganta e o corao acelerar-se. 
Durante os dias seguintes, ele comeou a voltar para a fogueira mais cedo, nem sempre esperando at ela adormecer. Apesar de ela relutar em pression-lo, e de ele 
parecer hesitante em se aproximar dela, Ayla comeava a ter esperana de que ele superava o que quer que o incomodara. No entanto, ela temia ter esperanas.
     Ayla respirou fundo, depois afastou a cortina pesada e segurou-a para os animais entrarem. Depois de sacudir a parka e pendur-la, entrou. Para variar, a Fogueira 
do Mamute estava quase vazia. Somente Jondalar ali se encontrava conversando com Mamut. Ela ficou satisfeita, mas surpresa por v-lo, e compreendeu, ento, quo 
pouco o tinha visto ultimamente. Sorriu e correu para eles, mas a carranca de Jondalar abaixou os cantos de sua boca. Ele no parecia muito feliz em v-la.
     - Voc passou a manh fora sozinha! - explicou ele. - No sabe que  perigoso sair sozinha? Voc preocupa as pessoas. Breve, algum teria que ir sua procura. 
- Ele no disse que era ele prprio que estava preocupado, ou que era quem pensava em sair para procur-la.
     Ayla recuou diante da veemncia dele.
     - Eu no estava sozinha. Estava com Whinney e Racer. Levei-os para uma corrida. Precisavam correr.
     - Bem, voc no devia ter sado assim, quando est to frio.  perigoso sair s - falou ele um pouco claudicante, olhando para Mamut  espera de apoio.
     - Eu disse que no estava sozinha. Estava com Whinney e Racer, e o tempo est bom, ensolarado, no to frio. - Ficou desapontada com a raiva dele, sem compreender 
que a raiva encobria um medo dele por sua segurana que era quase insuportvel. - Saia sozinha no inverno antes, Jondalar. Quem pensa que saa comigo quando eu vivia 
no vale?
     Ela tem razo, pensou ele. Sabe como cuidar de si mesma. Eu no devia tentar lhe dizer quando e aonde pode ir. Mamut no parecia muito preocupado ao perguntar 
onde Ayla estava, e ela  a filha de sua fogueira. Devia ter prestado mais ateno ao velho feiticeiro, pensou Jondalar, sentindo-se tolo, como se tivesse feito 
uma cena por nada.
     - Hum... Bem... Talvez eu deva ir ver os cavalos - resmungou, virando de costas e correndo para o anexo.
     Ayla o acompanhou com o olhar, perguntando-se se ele pensava que ela no estava cuidando dos animais. Estava confusa e aborrecida. Parecia impossvel compreender 
Jondalar.
     Mamut a observava com ateno. A mgoa e infelicidade de Ayla eram evidentes. Por que acontecia de as pessoas envolvidas acharem to difcil compreender seus 
prprios problemas? Ele estava inclinado a confront-los e obrig-los a ver o que parecia bvio para todos os outros membros do acampamento, mas resistiu ao desejo. 
J havia feito tanto quanto achava que devia. Havia sentido, desde o incio, uma corrente oculta de tenso no homem dos Zelandonii, e estava convencido de que o 
problema no era to bvio quanto parecia. Era melhor deix-los resolver o caso por conta prpria. Todos aprenderiam mais com a experincia se tivessem que encontrar 
as prprias solues. Mas ele podia encorajar Ayla a falar-lhe a respeito ou ao menos, ajud-la a descobrir suas opes e saber quais eram seus prprios desejos 
e potencial.
     - Voc disse que no est to frio l fora? - perguntou Mamut.
     A pergunta levou um segundo para atravessar a confuso de outros pensamentos insistentes que a preocupavam.
     - O qu? Oh... Sim. Acho que sim. Realmente, no est mais quente, parece apenas no estar to frio.
     - Eu me perguntava quando Ela quebraria as costas do inverno - falou Mamut. - Achei que o dia se aproximava.
     - Quebrar as costas? No entendo.
     - E apenas um ditado, Ayla. Sente-se. Eu lhe contarei uma histria do inverno sobre a Grande e Generosa Me Terra, que criou tudo o que vive - disse o velho, 
sorrindo, e Ayla se sentou ao lado dele, sobre uma esteira perto do fogo.
     - Em uma grande luta, a Me Terra tirou uma fora vital, do Caos que  um vazio frio e imvel, como a morte, e com ela a Me criou a vida do calor, mas Ela 
sempre tem que lutar pela vida que criou. Quando o inverno se aproxima, sabemos que a luta comeou entre a Generosa Me Terra, que quer uma vida de calor, e a morte 
fria do Caos, mas primeiro, Ela deve cuidar de Seus filhos.
     Ayla agora se interessava pela histria, e sorriu de forma encorajadora.
     - O que Ela faz para cuidar de Seus filhos?
     - Ela coloca alguns para dormir, a outros veste com roupas quentes para que resistam ao frio, e pede a outros, ainda, que estoquem alimento e peles.  medida 
que esfria cada vez mais, a morte parece vitoriosa, e a Me  empurrada para mais e mais longe. Nos rigores da estao fria, quando a Me est encerrada na batalha 
de vida e morte, nada se move, nada muda, tudo parece estar morto. Para ns, sem um local quente onde viver e alimento estocado, a morte venceria no inverno; s 
vezes, se a batalha se prolonga mais do que o normal, isso acontece. Ento, ningum sai muito. As pessoas fazem coisas, ou contam histrias, ou conversam, mas no 
se movimentam muito e dormem mais.  por isto que se chamamos o inverno de pequena morte.
     Por fim, quando o frio j a carregou para o mais longe que Ela ir, a Me resiste. Ela fora e fora at quebrar as costas do inverno. Isso significa que a 
primavera voltar, mas no  primavera ainda. Ela teve uma longa luta, e deve descansar antes de produzir vida novamente. Mas voc sabe que Ela venceu. Pode sentir 
o cheiro da vitria, pode senti-lo no ar.
     - Eu senti! Eu senti, Mamut! Foi por isto que tive que levar os cavalos para uma corrida. A Me quebrou as costas do inverno! - exclamou Ayla.
     A histria parecia explicar exatamente como ela se sentia.
     - Acho que  hora de comemorao, no?
     - Oh, sim, acho que sim!
     - Quem sabe voc queira ajudar-me a prepar-la, bem? - esperou somente o tempo suficiente para Ayla concordar com um gesto de cabea.
     - Nem todas as pessoas sentem Sua vitria, ainda, mas breve sentiro. Ns dois podemos observar os sinais e depois resolver quando chegar o momento certo.
     - Que sinais?
     - Quando a vida comea a se agitar de novo, cada pessoa o sente de forma diferente Algumas ficam felizes e querem sair, mas ainda est muito frio para sair 
com freqncia, por isso, elas ficam impacientes ou irritadas. Querendo reconhecer os movimentos vitais dentro de si, mas ainda viro muitas tempestades. O inverno 
sabe que tudo est perdido e se enfurece mais nesta poca do ano, e as pessoas o sentem e se encolerizam tambm. Estou contente porque voc me alertou. Entre este 
momento e a primavera, as pessoas ficaro mais inquietas. 
     Acho que o notar, Ayla.  quando uma comemorao  melhor. D s pessoas uma razo para expressar felicidade em vez de raiva.
     Eu sabia que ela notaria, pensou Mamut, quando a viu enrugar a testa. Mal comecei a perceber a diferena, e ela j a reconheceu. Eu sabia que ela era bem-dotada, 
mas sua capacidade ainda me assombra, e estou certo de que ainda no descobri todo o seu alcance. Talvez eu nunca saiba; seu potencial pode ser muito maior que o 
meu. O que foi que ela disse sobre aquela raiz e a cerimnia com o Mog-ur? Eu gostaria de t-la preparada... A cerimnia de caa com o Cl! Aquilo me mudou, os efeitos 
foram profundos. Est ainda em mim. Ela tambm teve uma experincia... Ser que isso a mudou? 
     Salientou suas tendncias naturais? Pergunto-me... O Festival de Primavera, seria cedo demais para trazer  baila aquela raiz, novamente? Talvez eu deva esperar 
at ela trabalhar comigo na Celebrao de Quebrar as Costas... Ou a prxima... Haver tantas daqui at a primavera...
     Deegie desceu o corredor em direo  Fogueira do Mamute, usando roupa de passeio pesada.
     - Esperava encontrar voc, Ayla. Quero verificar aquelas armadilhas que coloquei, para ver se peguei alguma raposa branca para enfeitar a parka de Branag. Quer 
vir comigo?
     Ayla, acabando de acordar, ergueu os olhos para o buraco de sada da fumaa parcialmente descoberto
     - Parece que est bom l fora. Vou me vestir.
     Ela afastou as cobertas, sentou-se, espreguiou-se e bocejou. Depois foi para a rea sem cortina perto do anexo dos cavalos. No caminho, passou por um estrado-cama 
onde meia dzia de crianas dormiam, espalhadas uma sobre a outra, formando um monte, como um bando de filhotes de lobo. Ela viu os grandes olhos castanhos de Rydag 
abertos e sorriu para ele. Rydag fechou os olhos de novo, e aninhou-se entre a criana mais nova, Nuvie, com quase quatro anos, e Rugie que faria oito anos em breve. 
Crisavec, Brinan e Tusie tambm estavam na pilha, e ultimamente, ela havia visto o filho mais novo de Fralie, Tasher, com trs anos incompletos ainda, comeando 
a reparar nas outras crianas. Latie, quase uma mulher, notou Ayla, brincava cada vez menos com as crianas.
     Estas eram benevolentemente mimadas. Podiam comer e dormir onde e quando quisessem. Raras vezes observavam os direitos territoriais dos mais velhos; toda a 
habitao era delas. Podiam exigir a ateno de membros adultos do acampamento, e muitas vezes achavam que isso era bem recebido como uma interessante diverso; 
nenhuma delas tinha pressa especial ou algum lugar para ir. Onde quer que seus interesses as levassem, um membro mais velho do grupo estava pronto para ajudar ou 
explicar. Se elas queriam costurar peles, recebiam as ferramentas e tiras de couro, e fibras de nervo. Queriam-se fazer ferramentas de pedra, recebiam pedaos de 
slex e martelos de pedra ou osso.
     Elas lutavam e caam, e inventavam jogos que eram, muitas vezes, verses das atividades adultas. 
     Faziam suas prprias pequenas fogueiras, e aprendiam a usar o fogo. Fingiam caar, espetando com lana pedaos de carne dos recintos de congelamento e cozinhavam-nos. 
Quando brincavam de fogueira, chegando a imitar as atividades sexuais dos mais velhos, os adultos sorriam com indulgncia. Nenhuma parte da vida normal era isolada 
como algo a ser escondido ou reprimido; tudo era instruo necessria para se tornar um adulto. O nico tabu era a violncia, principalmente, violncia extrema ou 
desnecessria.
     Vivendo to juntos, tinham aprendido que nada podia destruir um acampamento ou povo como a violncia, particularmente quando estavam confinados na habitao 
comunal durante os invernos prolonga dos e rigorosos. Quer por acidente ou plano, todo costume, hbito, conveno ou prtica, mesmo se no abertamente dirigido para 
isso, destinava-se a manter a violncia a nvel mnimo. A conduta aprovada permitia um amplo crculo de diferenas individuais em atividades que no levavam, como 
regra,  violncia, ou que talvez pudessem ser sadas aceitveis para dar vazo a emoes fortes. A percia pessoal era fomentada. A tolerncia era encorajada; o 
cime ou inveja, embora compreendidos, eram desencorajados. As competies, incluindo discusses, eram usadas ativamente com alternativas, mas seguiam um ritual, 
eram estritamente controladas, e mantidas dentro de limites definidos. As crianas aprendiam rapidamente as regras bsicas. Gritar era aceitvel; pancada no era.
     Quando Ayla verificou o grande recipiente de gua, sorriu de novo diante das crianas adormecidas, que tinham estado acordadas at tarde na noite anterior. 
Ela gostava novamente de ter crianas por perto.
zD4E     - Eu devia ir buscar neve antes de sairmos. Temos pouca gua, e no neva h algum tempo. Neve limpa, aqui por perto, est se tornando difcil de encontrar.
     - No percamos tempo - disse Deegie. - Temos gua em nossa fogueira e Nezzie tambm.
     Podemos conseguir mais quando voltarmos. - Ela vestia as roupas quentes de passeio, para o frio, enquanto Ayla se vestia.
     - Tenho uma bolsa de gua e comida para levarmos, por isto, se no est com fome, podemos ir agora.
     - Posso esperar a comida, mas preciso fazer um pouco de ch quente - disse Ayla. A ansiedade de Deegie para sair a contagiava. Eles comeavam ainda, apenas, 
a deixar a habitao, e passar algum tempo sozinha somente com Deegie parecia divertido.
     - Acho que Nezzie tem ch quente, e acredito que ela no se importaria se tomssemos uma xcara.
     - Ela faz ch de hortel de manh. Vou apenas pegar alguma coisa para acrescentar a ele... Algo que gosto de tomar de manh. Creio que pegarei minha funda tambm.
     Nezzie insistiu para que as duas jovens comessem cereal cozido e quente tambm e lhes deu fatias de carne de seu assado da noite anterior para levar. Talut 
quis saber que caminho pretendiam seguir e a localizao geral das armadilhas de Deegie. Quando elas saram pela entrada principal, o dia havia comeado; o sol subira 
acima de um aglomerado de nuvens no horizonte e iniciara sua jornada atravs de um cu claro. Ayla notou que os cavalos j estavam fora. Ela no os culpou.
     Deegie mostrou a Ayla o movimento rpido do p que convertia a ala de couro, presa  armao circular alongada, tecida com vime de salgueiro resistente, em 
um engate adequado para raquetes de neve. Com um pouco de treino, Ayla j caminhava com passos largos atravs da parte superior da neve juntamente com Deegie.
     Jondalar as viu passar da entrada para o anexo. Com uma ruga na testa, olhou para o cu e pensou em segui-las, mas depois mudou de idia. Viu algumas nuvens, 
mas nada para pressagiar perigo. Por que ele ficava sempre to preocupado com Ayla quando ela deixava a habitao comunal? Era ridculo segui-la por toda parte. 
Ela no ia sair sozinha, estava com Deegie, e as duas jovens eram perfeitamente capazes de cuidar de si mesmas... Mesmo se nevasse, ou pior. Elas o veriam seguindo-as 
depois de algum tempo, e ento, ele estaria apenas atrapalhando, quando elas desejavam ficar sozinhas. Deixou a cortina cair, e virou-se para o interior, mas no 
foi capaz de afastar a sensao de que talvez Ayla estivesse em perigo.
     - Oh, veja, Ayla! - gritou Deegie, de joelhos, examinando a carcaa congelada de pele branca, pendendo de um lao apertado ao redor do pescoo.
     Coloquei outras armadilhas. Vamos v-las depressa.
     Ayla queria ficar e examinar o lao, mas acompanhou Deegie.
     - O que vai fazer com ela? - perguntou quando a alcanou.
     - Depende de quantas conseguir. Eu queria fazer uma franja em uma parka de pele para Branag, mas estou fazendo uma tnica, para ele tambm vermelha... No to 
viva quanto o seu couro vermelho. Ter mangas compridas e levar duas peles, e estou tentando combinar a cor da segunda pele com a da primeira. Acho que gostaria 
de decor-la com a pele e dentes de urna raposa branca. O que acha?
     - Acho que ficar bonita. - Avanaram na neve por algum tempo, e depois Ayla disse: - O que acha que seria melhor para uma tnica branca?
     - Depende. Quer outras cores, ou quer a tnica toda branca?
     - Acho que quero branca, mas no tenho certeza.
     - Pele de raposa branca seria bonito.
     - Pensei nisso, mas... Acho que no seria adequado - disse Ayla. No era tanto a cor que a perturbava. Ela lembrava que havia escolhido peles de raposa branca 
para dar a Ranec na cerimnia de adoo, e no queria recordaes daquele momento.
     Tinham feito saltar a segunda armadilha, mas estava vazia. O lao de tendo fora mordido e havia rastros de lobo. A terceira tambm apanhara uma raposa, e tinha 
aparentemente congelado na armadilha, porm fora mordida, a maior parte comida, na verdade, e a pele estava estragada. Novamente, Ayla assinalou rastros de lobo.
     - Parece que estou pegando raposas para os lobos - falou Deegie.
     - Parece que  um s lobo, Deegie - disse Ayla.
     Deegie comeava a temer no conseguir outra boa pele, mesmo se houvesse uma raposa presa na quarta armadilha. Correram para o local onde Deegie a armara.
     - Deve estar ali, perto daqueles arbustos - disse ela enquanto se aproximavam de um pequeno bosque -, mas no vejo...
     - L est, Deegie! - gritou Ayla, correndo  frente. - Parece em ordem tambm. E veja aquele rabo!
     - Perfeito! - Deegie suspirou com alvio. - Eu queria duas, ao menos. - Tirou a raposa congelada do lao, amarrou-a juntamente com a primeira raposa, e atirou-as 
sobre um galho de rvore. Sentia-se mais relaxada agora que havia apanhado duas raposas. - Estou com fome. Por que no paramos e comemos alguma coisa aqui?
     - Estou com fome, agora que voc falou nisso.
     Estavam numa ravina escassamente arborizada, mais matagal do que rvores, formada por um riacho que atravessara depsitos espessos de solo de loesse. Uma sensao 
de exausto triste e aborrecida impregnava o pequeno vale nos dias reduzidos do longo e rigoroso inverno. Era um local montono de brancos, pretos e cinzentos terrveis. 
A camada de neve, rompida pela vegetao rasteira do bosque, era antiga e compacta, perturbada por muitos rastros, e parecia usada e encardida. Os galhos quebrados 
expondo a madeira tosca mostravam os danos do vento, neve e animais famintos. Os salgueiros e amieiros pendiam prximos ao solo, inclinados pelo peso do clima e 
da estao, sobre arbustos vergados. Poucas btulas esguias permaneciam altas e finas, raspando ruidosamente galhos nus um no outro, sob o vento, como se clamando 
pelo toque eficaz do verde. Mesmo as conferas tinham perdido sua cor. Os pinheiros retorcidos, a casca com manchas de lquen cinza murchavam, e os lanos altos 
estavam escuros e se curvavam pesadamente com seu fardo de neve.
     Dominando uma encosta baixa havia um monte de neve provido de bambus compridos espetados com espinhos aguados - as hastes secas, lenhosas de estolhos que se 
tinham projetado no vero anterior para reivindicar novo territrio. Ayla anotou-o em sua mente, no como uma moita impenetrvel de urzes-brancas espinhosas, mas 
como um local onde procurar frutos, como amoras, morangos, e folhas medicinais na estao adequada. Ela viu alm da cena tristonha, cansada, a esperana que ela 
continha e, depois do longo confinamento, mesmo uma paisagem tediosa de inverno parecia promissora, especialmente com o sol brilhando.
     As duas jovens empilharam a neve para fazer assentos sobre o que seria a margem de um crrego, se fosse vero. Deegie abriu sua mochila e retirou o alimento 
que havia guardado ali e, mais importante, a gua. Abriu um embrulho de casca de vidoeiro e deu a Ayla um bolo compacto de alimento para viagem - a mistura nutritiva 
de frutas secas e carne e gordura, essencial para dar energia, com a forma de um bolinho.
     Mame fez alguns dos seus pes assados com pinhas na noite passada e me deu um - disse Deegie, abrindo outro embrulho e partindo um pedao para Ayla. Os pes 
eram o alimento favorito de Ayla agora.
     - Terei que perguntar a Tulie como se faz este po - disse Ayla, dando uma mordida antes de desembrulhar as fatias de carne assada de Nezzie e colocar algumas 
ao lado de cada uma delas. - Acho que estamos tendo uma festa aqui Tudo do que precisamos  de verduras frescas da primavera.
     - Tornariam a refeio perfeita. Mal posso esperar pela primavera. Quando temos a Celebrao de Quebrar as Costas, parece que fica cada vez mais difcil esperar 
- replicou Deegie.
     Ayla se divertia com a sada em companhia de Deegie e comeava a lazer calor na depresso rasa, protegida dos ventos. Ela desatou a correia na altura da garganta, 
afastou o capuz para trs, e depois endireitou a funda ao redor da cabea. Fechou os olhos e ergueu o rosto para o sol. Viu a imagem persistente e circular do orbe 
ofuscante contra o fundo vermelho de suas plpebras abaixadas, e sentiu o calor bem-vindo. Depois, tornou a abrir os olhos e pareceu ver com mais clareza.
     - As pessoas sempre lutam nas Celebraes de Quebrar as Costas? - perguntou. - Nunca vi ningum lutar sem mover os ps antes.
     - Sim,  para honrar...
     - Veja, Deegie! E primavera! - interrompeu Ayla, ficando de p em um salto e correndo em direo a um salgueiro prximo. Quando a outra mulher se juntou a ela, 
Ayla apontou para o vislumbre de botes inchados ao longo de um galho fino, e um, chegado cedo demais para sobreviver, havia irrompido em brilhante verde primaveril. 
As mulheres sorriam uma para a outra, admiradas, exuberantes com a descoberta, como se elas prprias tivessem inventado a primavera.
     O lao de armadilha de tendo ainda pendia perto do salgueiro. Ayla o segurou.
     - Acho que esta  uma boa maneira de caar. No precisa procurar os animais. Faz uma armadilha e volta mais tarde para peg-los, mas como faz isto e como sabe 
que pegar uma raposa?
     - No  difcil de fazer. Voc sabe como os tendes endurecem se so molhados e postos para secar, exatamente como o couro que no  curtido.
     Ayla concordou com um gesto de cabea.
     - Voc faz um pequeno lao na ponta - continuou Deegie, mostrando-lhe o lao. - Depois, pega a outra ponta e passa por ele para fazer outro lao, do tamanho 
suficiente apenas para uma cabea de raposa passar. Ento, voc o molha e deixa secar com o lao aberto, deforma que permanea aberto. Em seguida, tem que ir ao 
lugar onde esto s raposas, em geral onde voc as viu ou as pegou antes... Minha me me mostrou este lugar. Normalmente, h raposas aqui todos os anos, voc pode 
saber, se encontrar rastros. Muitas vezes, elas seguem as mesmas trilhas quando esto perto de suas tocas. Para colocar a armadilha, voc descobre uma trilha de 
raposa e, onde ela passar por arbustos ou perto de rvores, coloca o lao exatamente atravs da trilha, mais ou menos  altura de suas cabeas, e amarra-o assim, 
aqui e aqui. - Deegie demonstrou enquanto explicava. Ayla observava, a testa enrugada em concentrao. - Quando as raposas correm pela trilha a cabea atravessa 
o lao, e quando ela corre, o lao se fecha ao redor do seu pescoo. Quanto mais a raposa luta, mais apertado fica o lao. No leva muito tempo. Depois, o maior 
problema  encontrar a raposa antes de outra coisa o fazer. Danug me contava sobre a forma como as pessoas do norte armam os laos. Disse que elas inclinam uma rvore 
nova e amarram-na ao lao, de modo que se afrouxe assim que o animal  apanhado, e salte para cima quando a rvore volta  sua posio normal. Isso mantm a raposa 
fora do solo at voc voltar.
     - Acho uma boa idia - disse Ayla caminhando de volta aos assentos. Ela ergueu a cabea. Depois, de repente, para surpresa de Deegie, arrancou a funda da cabea 
e vasculhou o cho. - Onde h uma pedra? - cochichou. - L!
     Com um movimento to rpido que Deegie mal acompanhou, Ayla pegou a pedra, colocou-a na funda, girou-a e a fez voar. Deegie ouviu a pedra aterrissar, mas somente 
quando voltou para os assentos viu o objetivo do mssil de Ayla. Era um arminho branco, uma doninha pequena de cerca de 35 centmetros de comprimento total, mas 
12 centmetros eram um rabo peludo branco com ponta preta. No vero, o animal de pele macia, alongado, teria um rico plo marrom com o ventre branco, mas no inverno 
o arminho sinuoso, pequeno, se tornava branco sedoso, exceto pelo focinho preto, olhinhos vivos, e a ponta do rabo.
     - Estava roubando nosso assado! - exclamou Ayla.
     - Eu nem sequer o vi prximo  neve. Voc tem boa vista - disse Deegie. - E  to rpida com a funda! No sei por que precisa se preocupar com armadilhas, Ayla.
     - Uma funda  boa para a caa, quando voc v o que quer caar, mas uma armadilha pode caar para voc quando voc nem est presente. As duas so teis - replicou 
Ayla, considerando a questo com seriedade.
     Sentaram-se para terminar sua refeio. A mo de Ayla voltou a esfregar o plo macio e espesso do pequeno arminho, enquanto conversavam.
     - Arminhos tm a melhor pele - disse ela.
     - A maior parte das fuinhas compridas tambm - disse Deegie. - Martas, zibelinas, at carcajus tm boa pele. No to macia, mas a melhor para capuzes, se no 
quer o gelo agarrado ao seu rosto. 
     Mas  difcil peg-los com armadilha e no se pode realmente ca-los com uma lana. So rpidos e selvagens. Sua funda pareceu funcionar, embora eu no saiba, 
ainda, como voc o pegou.
     - Aprendi a usar a funda caando essa espcie de animais. S cacei carnvoros no comeo e aprendi primeiro seus hbitos.
     - Por qu?
     - Eu no devia caar, de forma alguma. Assim, no caava animais que serviam para alimento, somente aqueles que roubavam comida de ns.
     - Riu alto, com desdm e percepo. - Achei que isto resolveria tudo.
     - Por que no queriam que voc caasse?
     - As mulheres do Cl no tm permisso para caar... Mas, afinal, deixaram que usasse minha funda. - Ayla fez uma pausa rpida, recordando: - Sabe, matei um 
carcaju muito antes de matar um coelho.
     Sorriu com ironia.
     Deegie balanou a cabea, espantada. Que estranha infncia Ayla devia ter tido, pensou. Levantaram-se para ir embora e, enquanto Deegie ia buscar suas raposas, 
Ayla levantou o pequeno arminho branco, macio. Esfregou a mo ao longo do corpo do animal, at a ponta do rabo.
     - E isso o que quero! - exclamou, de repente. - Arminho!
     - Mas,  isso o que voc tem - falou Deegie.
     - No, quero dizer para a tnica branca. Quero enfeit-la com pele de arminho branco, e os rabos. 
     Gosto dos rabos com as pequenas pontas pretas.
     - Onde conseguir arminho suficiente para decorar uma tnica? - perguntou Deegie. - A primavera vai chegar, eles logo mudaro de cor novamente.
     - No preciso de muitos e, onde h um, em geral, h mais por perto. Vou ca-los, agora - disse Ayla. - Preciso de algumas boas pedras. - Comeou a abrir caminho 
na neve, procurando pedras perto da margem do riacho congelado.
     - Agora? - perguntou Deegie.
     Ayla parou e levantou a cabea. Quase havia esquecido a presena de Deegie em sua excitao. Ela poderia dificultar o rastreamento e a espreita da caa.
     - No precisa esperar por mim, Deegie. Volte. Eu sei o caminho.
     - Voltar? Eu no perderia isso por nada!
     - E capaz de ficar muito quieta?
     Deegie sorriu:
     - J cacei antes, Ayla.
     Ayla corou, sentindo que dissera a coisa errada.
     - Eu no queria dizer...
     - Sei que no - falou Deegie, e sorriu. - Acho que eu poderia aprender algumas coisas com algum que matou um carcaju antes de matar um coelho. Os carcajus 
so mais perversos, astutos, destemidos e rancorosos que qualquer outro animal, incluindo as hienas. Eu j os vi afastar leopardos de suas prprias caas, e chegam 
a enfrentar um leo da caverna. Tentarei ficar fora do seu caminho. Se achar que estou afugentando o arminho, diga-me, e esperarei por voc aqui. Mas no me pea 
para voltar.
     Ayla sorriu com alvio, pensando como era maravilhoso ter uma amiga que a compreendia to depressa.
     - Arminhos so to maldosos quanto carcajus, Deegie. Apenas, so menores.
     - H alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?
     - Ainda temos carne assada, talvez seja til, mas primeiro devemos encontrar rastros... Depois de eu ter um bom suprimento de pedras.
     Quando Ayla havia acumulado uma pilha satisfatria de msseis e os colocou na bolsa presa ao seu cinto, pegou a mochila e atirou-a sobre o ombro esquerdo. Depois, 
parou e estudou a paisagem, buscando o melhor local para comear. Deegie estava de p ao lado dela e a apenas um passo atrs, esperando que ela tomasse a frente. 
Quase como se pensasse alto, Ayla comeou a lhe falar em voz baixa.
     - Doninhas no fazem covas. Usam o que encontram, at mesmo a toca de um coelho... Depois que matam o coelho. s vezes, acho que no precisariam de uma toca, 
se no tivessem filhotes. Esto sempre em movimento: caando, correndo, subindo, erguendo-se e espiando, e sempre matando, dia e noite, mesmo depois de terem acabado 
de comer, embora possam abandonar o animal caado. Comem tudo, esquilos, coelhos, aves, ovos e carne fresca. Produzem um odor forte e com mau cheiro quando esto 
acuados, no para esguichar como o gamb, mas o odor  igualmente ruim, e fazem sons como este... - Ayla soltou um grito que era um berro parcialmente abafado e 
tambm uma espcie de grunhido. - Na poca de seus prazeres, assobiam.
     Deegie estava completamente assombrada. Ela havia aprendido agora mais sobre doninhas e arminhos do que aprendera durante a vida inteira. Ela nem sequer sabia 
que emitiam um som como aquele.
     - So boas mes, tm muitos filhos, duas mos... - Ayla parou para pensar no nome da palavra de contagem. - Dez, s vezes mais. Ou ento, poucos, apenas. Os 
filhotes ficam com a me at quase adultos. - Parou de novo para examinar a paisagem com ar crtico. - Nesta poca do ano, os filhotes talvez ainda estejam com a 
me. Procuramos rastros... Acho que perto do bambuzal. - Partiu em direo ao monte de neve que cobria mais ou menos a massa emaranhada de caules e estolhos que 
tinham germinado no mesmo local, havia muitos anos.
     Deegie a seguiu, perguntando-se como ela poderia ter aprendido tanto, sendo Ayla no muito mais velha que ela. Deegie havia notado que a fala de Ayla havia 
deslizado apenas um pouco - era o nico sinal de sua excitao - mas a fez compreender como Ayla falava bem agora. Raramente falava depressa, mas seu Mamutoi era 
quase perfeito, exceto pela maneira como pronunciava alguns sons. Deegie achava que talvez ela jamais perdesse aquele maneirismo de fala, e esperava realmente que 
no perdesse. Aquilo a tornava diferente... E mais humana.
     - Procure pequenos rastros com cinco unhas, s vezes apenas quatro aparecem, eles deixam os menores rastros de qualquer carnvoro, e as garras traseiras entram 
nos mesmos rastros que as dianteiras fizeram.
     Deegie se demorava atrs, no querendo pisar nos rastros delicados, observando. Ayla vasculhou, lenta e cuidadosamente, cada rea do espao  sua volta a cada 
passo que dava, o terreno coberto de neve e cada tora cada, cada galho de todos os arbustos, os troncos finos de vidoeiros nus e os ramos curvados de pinheiros 
com folhas escuras. De repente, seus olhos se detiveram em sua vigilncia constante, imobilizados por uma viso que prendeu sua respirao. Ela abaixou o p devagar 
enquanto estendia a mo para a mochila, a fim de pegar um grande pedao de carne de biso mal- passada, e pousou-o no solo  sua frente. Depois, recuou com cautela, 
e enfiou a mo na sacola de pedras.
     Deegie olhou alm de Ayla sem se mover, tentando ver o que ela via. Afinal, notou movimento, e depois, concentrou-se em vrias pequenas formas brancas que se 
moviam, sinuosamente, em direo a elas. Corriam com velocidade surpreendente embora estivessem subindo em um emaranhado de rvores derrubadas, escalando e descendo 
de rvores, atravs de moitas, entrando e saindo de pequenas cavidades e fendas, e devorando tudo o que encontravam em seu caminho. Deegie jamais havia observado 
os pequenos carnvoros vorazes antes, e olhava com fascinao arrebatada. Eles ficavam de p ocasionalmente, os brilhantes olhos negros alertas, os ouvidos atentos 
a qualquer som, mas arrastados infalivelmente pelo olfato para sua infeliz vtima.
     Enfiando-se em ninhos de ratazanas e ratos, sob razes de rvores em busca de rs e salamandras que hibernavam, e disparando atrs de pequenas aves com demasiada 
fome e frio para voar, o bando destruidor de oito ou dez pequenas doninhas brancas se aproximou. Com as cabeas movendo-se para frente e para trs, os olhos ansiosos 
de pequenas contas negras, saltavam com preciso mortal sobre o crebro, a nuca e a veia jugular. Atacando sem piedade, eram os mais eficazes assassinos sanguinrios 
do mundo animal, e Deegie ficou, de repente, muito contente por serem pequenas doninhas. No parecia haver razo para tal destruio leviana, a no ser um desejo 
de matar - exceto a necessidade de manter um corpo continuamente ativo estimulado do modo que a natureza lhes ordenava e destinava fazer.
     Os arminhos foram atrados para o pedao de carne mal-passada e, sem hesitao, comearam a cortar caminho em direo a ele. De sbito, houve confuso, pedras 
atiradas com fora aterrissavam entre os animais que comiam, derrubando alguns e, ento o inconfundvel odor de almscar encheu o ar. Deegie estivera to absorta 
observando os animais, que no vira os preparativos controlados de Ayla e seus arremessos rpidos.
     Ento, de algum lugar, um grande animal negro saltou entre os arminhos brancos, e Ayla ficou aturdida ao ouvir um uivo ameaador. O lobo avanou para a carne 
de biso, mas foi afastado por dois arminhos ousados e destemidos. Recuando um pouco, apenas, o carnvoro preto descobriu um arminho recentemente tornado inofensivo, 
e agarrou-o, em vez disso.
     Mas Ayla no tinha a inteno de deixar o lobo negro roubar-lhe o arminho; ela havia feito muito esforo para peg-los. Eram sua caa e ela os queria para a 
tnica branca. Quando o lobo se afastava com o pequeno arminho branco  boca, Ayla foi atrs. Os lobos tambm eram carnvoros. Ela os havia examinado to de perto 
quanto as doninhas quando ensinava a si mesma a usar uma funda. Ela os compreendia tambm. Pegou um galho cado enquanto corria atrs do animal. Um lobo solitrio, 
normalmente, cedia diante de um ataque determinado e talvez soltasse o arminho.
     Se fosse uma alcatia, ou mesmo apenas dois lobos, ela no teria tentado um ataque to imprudente, mas quando o lobo negro parou para mudar a posio do arminho 
em sua boca, Ayla o perseguiu como galho, para desferir-lhe um golpe firme. Ela no pensava no galho como arma, mas planejava apenas assustar o lobo e faz-lo largar 
o pequeno animal peludo que segurava na boca. 
     Mas Ayla foi quem ficou sobressaltada. O lobo deixou cair o arminho aos seus ps, e com um uivo maldoso e feio, saltou diretamente para ela.
     Sua reao imediata foi atravessar o galho diante dela como defesa, para conter o lobo que atacava, e sua rpida onda de energia lhe dizia para correr. Mas, 
no bosque arborizado, o galho frio e quebradio se partiu quando ela o girou e atingiu uma rvore. Ela ficou com um toco podre na mo, mas a ponta partida voou para 
a cara do lobo. Foi o suficiente para det-lo. O animal tambm estivera blefando, e no se encontrava muito ansioso para atacar. Parando para pegar o arminho morto, 
o lobo se afastou da ravina arborizada.
     Ayla estava assustada, mas zangada, e chocada, tambm. No podia deixar o arminho ser levado assim. Perseguiu o lobo mais uma vez.
     - Deixe! - gritou Deegie. - J conseguiu o suficiente! Deixe o lobo ficar com ele.
     Mas Ayla no ouviu, no prestava ateno. O lobo se dirigia para terreno aberto e ela estava bem atrs dele. Pegando outra pedra, e encontrando apenas duas, 
Ayla correu atrs do lobo. Embora esperasse que o grande carnvoro se distanciasse logo dela, tinha que fazer mais uma tentativa. Colocou uma pedra em sua funda 
e arremessou-a sobre o animal que fugia. A segunda pedra, que seguiu a primeira logo depois, terminou aquilo que a primeira comeara. As duas atingiram o alvo.
     Ela sentiu uma sensao de alegria quando o lobo caiu. Aquele no roubaria mais nada dela. Enquanto corria para pegar o arminho, resolveu que talvez levasse 
a pele do lobo tambm, mas quando Deegie a encontrou, Ayla estava sentada ao lado do lobo morto e do arminho, e no se movia. A expresso em seu rosto fez Deegie 
se preocupar.
     - O que h, Ayla?
     - Eu devia ter deixado a loba levar o arminho. Eu devia saber que havia uma razo para ela ir atrs da carne, embora o arminho a quisesse. Os lobos sabem como 
os arminhos so maldosos, e em geral, um lobo solitrio recua sem atacar em um local desconhecido. Eu devia ter deixado que ficasse com o arminho.
     - No entendo. Voc pegou o arminho de volta, e alm disso, a pele de uma loba. O que quer dizer com devia ter deixado que ficasse com o arminho?
     - Veja - disse Ayla, apontando para o ventre da loba. - Ela est amamentando, teve filhotes.
     - No  cedo para as lobas darem cria?
     - . Ela est fora da temporada e era solitria. Por isto tinha tanta dificuldade em encontrar alimento suficiente. E por isto ela veio atrs da carne e queria 
o arminho tambm. Veja suas costelas. Os filhotes tm tirado muito dela,  pouco mais que pele e ossos. Se vivesse com um bando, eles a ajudariam a alimentar os 
filhotes, mas se vivesse com um bando de lobos, no teria tido filhos. Somente a lder fmea de uma alcatia tem filhotes, em geral, e esta loba  da cor errada. 
Os lobos se acostumam com certas cores e marcas. Ela  como a loba branca que eu costumava observar quando aprendia sobre lobos. Tampouco gostavam dela. Ela estava 
sempre tentando se dar bem com a lder fmea e o lder macho, mas eles no a queriam por perto. Depois que o bando cresceu, ela se foi. Talvez estivesse cansada 
de ningum gostar dela.
     Ayla abaixou os olhos para a loba negra.
     - Como esta fez. Talvez por isto ela quis ter filhotes, porque estava solitria. Mas no devia ter tido to cedo. Acho que  a mesma loba negra que vi quando 
caamos os bises, Deegie. Ela deve ter deixado o bando para procurar um lobo solitrio a fim de comear seu prprio bando, porque os novos bandos comeam assim. 
Mas  sempre difcil para os solitrios. Os lobos gostam de caar juntos, e cuidam um do outro. O lder sempre ajuda a fmea lder com os filhotes. Devia v-los 
s vezes, gostam de brincar com os filhotes. Mas, onde est seu companheiro? Ser que ela encontrou um macho? Ser que ele morreu?
     Deegie estava surpresa por ver que Ayla lutava contra as lgrimas por causa de uma loba morta.
     - Todos morrem um dia, Ayla. Todos ns vamos voltar para a Me.
     - Eu sei, Deegie, mas em primeiro lugar ela era diferente e, em segundo, estava sozinha. Ela teria alguma coisa enquanto vivia, um companheiro, uma alcatia 
de que fazia parte, no mximo alguns filhotes.
     Deegie achou que comeava a compreender por que Ayla sentia to fortemente por causa de uma velha loba preta, esqueltica. Ela se colocava no lugar da loba.
     - Ela teve filhotes, Ayla.
     - E agora, eles tambm vo morrer. No tm um bando, nem sequer um macho, lder. Sem me, morrero. - De repente, Ayla se levantou de um salto. - No vou deix-los 
morrer!
     - O que quer dizer? No vai?
     - Vou encontr-los. Vou seguir o rastro da loba preta at sua cova.
     - Pode ser perigoso. Talvez haja outros lobos por perto. Como pode ter certeza?
     - Estou certa, Deegie. Tenho apenas que olhar para ela.
     - Bem, se no posso fazer com que mude de idia, tenho apenas uma coisa a dizer, Ayla.
     - O qu?
     - Se espera que eu percorra tudo o que  lugar atrs de rastros de lobo com voc, poder carregar seus arminhos - disse Deegie, tirando cinco carcaas de arminhos 
brancos de seu bornal. - Tenho o suficiente para carregar, com minhas raposas! - Deegie sorria de deleite.
     - Oh, Deegie - disse Ayla, retribuindo o sorriso com calor e afeto.
     - Voc os trouxe!
     As duas jovens se abraaram com toda a fora do seu carinho e amizade.
     - Uma coisa  certa, Ayla. Nada  montono perto de voc! - exclamou Deegie, ajudando Ayla a encher sua mochila com os arminhos. - O que vai fazer com a loba? 
Se no a levarmos, algum o far, e uma pele de lobo negro no  to comum assim.
     - Eu queria lev-la, mas primeiro vou encontrar seus filhotes.
     - Muito bem, eu a carrego - disse Deegie, iando a carcaa para o ombro. - Se tivermos tempo mais tarde, tirarei a pele dela. - Comeou a fazer mais uma pergunta, 
depois mudou de idia. Logo descobriria, exatamente, o que Ayla pretendia fazer se encontrasse algum filhote de lobo vivo.
     Tiveram que voltar ao vale para encontrar os rastros corretos. A loba havia feito um bom trabalho ao encobrir seu rastro, sabendo quo precria era a vida que 
ela deixava desprotegida. Deegie teve certeza, vrias vezes, de que tinham perdido a pista, e ela sabia rastrear, mas Ayla estava motivada a persistir at encontrar 
a pista de novo. Quando chegaram ao local em que Ayla tinha segurana de estar a cova, o sol mostrava que era o fim da tarde.
     - Tenho que ser honesta, Ayla. No vejo sinais de vida.
     - E assim que deve ser, se eles esto sozinhos. Se houvesse sinais de vida, seria um convite  encrenca.
     - Talvez tenha razo, mas se h filhotes ali, como vai faz-los sair?
     Acho que s existe nico meio. Terei que entrar para peg-los.
     No pode fazer isso, Ayla! Uma coisa  observar lobos de longe, outra  entrar em seus covis. E se houver l mais que filhotes? Pode haver outro lobo adulto 
por perto.
     - Viu algum outro rastro adulto alm dos da loba?
     - No, mas ainda no gosto da idia de voc entrar em uma cova de lobo.
     - No vim at to longe para ir embora sem descobrir se h filhotes por perto. Tenho que entrar, Deegie.
     Ayla pousou sua mochila e se dirigiu para a pequena e escura cavidade no solo. Fora escavada de um velho covil abandonado h muito tempo atrs, porque no era 
o local mais favorvel, mas era o melhor que a loba negra conseguiu encontrar depois que seu companheiro, um velho lobo solitrio, atrado para ela no cio antecipado, 
morreu em uma luta. Ayla se agachou e comeou a se introduzir furtivamente.
     - Espere, Ayla! - gritou Deegie. - Aqui est minha faca. Leve-a!
     Ayla concordou com um gesto de cabea, colocou a faca entre os dentes e comeou a entrar no buraco escuro. A princpio havia uma inclinao para baixo e a passagem 
era estreita. De repente, ela se encontrou presa e teve que recuar.
     - No - disse ela, tirando a parka por cima da cabea.  Vou tirar isso.
     Tremia de frio at estar no interior da toca, mas a primeira parte do tnel s dava para seu corpo passar. Perto do fundo, onde terminava o declive e era um 
local plano, havia mais espao, mas a cova parecia deserta. Com o corpo ainda bloqueando a claridade, ela levou algum tempo para seus olhos se acostumarem  escurido, 
mas s quando comeou a recuar foi que achou ter ouvido um som.
     - Lobo, lobinho, est a? - gritou; depois, lembrando-se das inmeras vezes em que havia vigiado e ouvido os lobos, emitiu um ganido suplicante. Ento, ouviu. 
Um chorinho fraco vinha do recesso mais profundo e escuro da cova, e Ayla sentiu vontade de gritar de jbilo.
     Ela rastejou para mais perto do som e ganiu de novo. O choro estava mais prximo, e ento, viu dois olhos brilhantes, mas quando estendeu a mo para o filhote, 
ele recuou e soltou um rosnado e ela sentiu dentes aguados morderem sua mo.
     - Ah, voc  valente! - exclamou Ayla e depois sorriu. - Ainda est vivo! Vamos, venha, lobinho. Tudo ficar bem. Venha - estendeu a mo para o filhote de novo, 
soltando seu ganido suplicante, e sentiu uma felpuda bola de pele.
     Segurando-a bem, puxou o filhote, bufando e lutando o tempo todo, para ela. Ento, recuou, saindo da toca.
     - Veja o que achei, Deegie! - exclamou Ayla, sorrindo, vitoriosa, enquanto erguia um lobinho cinzento e peludo.
     Jondalar estava fora da habitao, andando de um lado para o outro, entre a entrada principal e o anexo dos animais. Mesmo com a parka quente que usava, uma 
velha de Talut, sentia a queda da temperatura quando o sol descia ao encontro do horizonte. Ele havia subido a encosta vrias vezes na direo que Ayla e Deegie 
tinham tomado, e pensava em subi-la de novo.
     Esforara-se por acalmar sua ansiedade desde que as duas jovens partiram, naquela manh e, quando comeou a passear para l e para c, preocupado, no incio 
da tarde, os outros sorriram com condescendncia, porm, no estava mais sozinho em sua preocupao. Tulie j tinha subido a encosta algumas vezes, e Talut falava 
em formar um grupo para ir procurar as moas com tochas. 
     At Whinney e Racer pareciam nervosos.
     Quando o fogo brilhante no oeste escorregou para trs de um aglomerado de nuvens pendendo perto da extremidade da terra, o sol emergiu como um agudamente definido 
crculo cintilante e vermelho de luz; um circulo do outro mundo, sem profundidade ou dimenso, perfeito e simtrico demais para pertencer ao meio natural. Mas o 
orbe vermelho brilhante em prestava colorido s nuvens e um vislumbre de sade ao outro rosto parcialmente plido da outra companhia sobrenatural que estava baixa, 
no cu oriental.
     Exatamente quando Jondalar estava a ponto de subir novamente a encosta, dois vultos surgiram no topo, recortados contra um vivido fundo cor de alfazema que 
mudava gradualmente para anil. Uma nica estrela cintilava ao alto. Ele soltou um grande suspiro e curvou-se contra as presas em arco, sentindo-se aliviado com a 
repentina liberao da tenso. Estavam salvas. Ayla estava salva.
     Mas, por que tinham demorado tanto? Elas deviam saber que no era certo preocupar tanto os outros. Por que demoraram tanto? Talvez tivessem dificuldades. Ele 
devia t-las seguido
     - Elas esto aqui! Esto aqui! - gritava Latie.
     As pessoas saam correndo da habitao comunal parcialmente vestidas; aquelas que se encontravam do lado de fora e vestidas correram ao encontro das moas.
     - Por que demoraram tanto?  quase noite. Onde estavam? - perguntou Jondalar assim que Ayla alcanou a habitao
     Ela o encarou com surpresa.
     - Vamos faz-las entrar primeiro - disse Tulie. Deegie sabia que a me no estava satisfeita, mas elas tinham estado fora o dia todo, estavam cansadas, e esfriava 
depressa. As recriminaes viriam mais tarde, depois que Tulie se certificasse de que ela estava bem. Foram empurradas para o interior, diretamente atravs do vestbulo 
e para a fogueira de cozinhar.
     Deegie, grata por se livrar dos fardos, pegou a carcaa da loba negra que havia endurecido com a forma do seu ombro. Quando ela a deixou cair sobre a esteira, 
houve exclamaes de surpresa, e Jondalar empalideceu Elas tinham estado em apuros.
     - Isso  um lobo! - disse Druwez, olhando para a irm com medo.
     Onde arranjou esse lobo?
     - Espere at ver o que Ayla trouxe - disse Deegie, tirando as raposas brancas de seu bornal.
     Ayla tirava os arminhos congelados de seu saco com uma das mos, mantendo a outra cuidadosamente contra seu ventre, sobre a sua quente tnica de pele com capuz.
     - So arminhos muito bonitos - disse Druwez, no to impressionado com os pequenos arminhos brancos quanto estava com o lobo negro, mas no querendo ofender.
     Ayla sorriu para o garoto, depois desatou a tira de couro que prendera ao redor da parka e, estendendo a mo sob ela, retirou uma bolinha cinzenta de pele. 
Todos olhavam para ver o que tinha. De repente, a bolinha se moveu.
     O lobinho havia dormido confortavelmente contra o corpo quente de Ayla, sob sua roupa exterior, mas a claridade e o rudo, e os odores no-familiares o assustaram. 
O filhote chorou e tentou aninhar-se contra a mulher cujo odor e calor tinham-se tornado familiares. Ela colocou o filhote no cho da escavao de desenhar. O filhote 
ficou de p, deu alguns passos vacilantes. agachou-se prontamente em seguida e fez uma poa que foi rapidamente absorvida pela terra seca, macia.
     -  um lobo! - exclamou Danug.
     - Um filhote de lobo! - acrescentou Latie, os olhos cheios de deleite
     Ayla viu Rydag se aproximando para ver o animal. Ele estendeu a mo e o filhote a cheirou, e depois lambeu-a. O sorriso de Rydag era de alegria pura.
     - Onde conseguiu o lobinho? - perguntou por sinais a Ayla.
     -  uma longa histria - respondeu ela tambm por sinais - que contarei mais tarde. - Tirou sua parka rapidamente. Nezzie a pegou e lhe entregou uma xcara 
de ch quente. Ela sorriu, grata, e bebeu um gole.
     - No importa onde ela o encontrou. O que ela far com ele? - perguntou Frebec. Ayla sabia que ele compreendia a linguagem de sinais, embora ele afirmasse o 
contrrio. Obviamente, havia compreendido Rydag. Virou-se e encarou-o.
     - Vou cuidar dele, Frebec - disse, os olhos cintilantes, em desafio.
     - Eu matei a me dele... - fez um gesto em direo  loba negra -... E vou cuidar deste beb.
     - Isso no  um beb.  um lobo! Um animal que pode ferir as pessoas - disse ele.
     Raras vezes Ayla tomava uma posio to firme contra ele ou outra pessoa, e ele descobria que muitas vezes ela cedia em coisas pequenas para evitar conflito, 
se ele fosse suficientemente 
     desagradvel. No esperava um confronto direto, e no gostava daquilo, especialmente ao pressentir que no havia probabilidade de ele se sair bem.
     Manuv olhou para o filhote e depois para Frebec, o rosto partido em um largo sorriso:
     - Tem medo de que esse animal fira voc, Frebec?
     O riso rouco fez Frebec corar de raiva.
     - Eu no quis dizer isso. Quero dizer que os lobos podem ferir as pessoas. Primeiro, os cavalos, agora, lobos. O que vir depois? No sou animal e no quero 
viver com animais - falou. Depois se afastou, no estando pronto para testar se o resto do Acampamento do Leo preferiria ficar com ele, ou com Ayla e seus animais, 
se ele os obrigasse a fazer uma escolha.
     - Tem carne sobrando daquele assado de biso, Nezzie?
     - Deve estar faminta. Vou preparar um prato para voc jantar.
     - Para mim, no. Para o filhote - disse Ayla.
     Nezzie trouxe uma fatia de carne assada para Ayla, perguntando-se como um lobo to pequeno iria com-la. Mas Ayla se lembrava de uma lio que aprendera havia 
muito tempo: os bebs podem comer qualquer coisa que suas mes comam, porm deve ser um alimento mais macio e mais fcil de mastigar e engolir. 
     Uma vez, ela havia levado um filhote de leo da caverna ferido para o seu vale, e o alimentara com carne e caldo em vez de leite. Os lobos tambm eram carnvoros. 
Ela recordou que quando observava os lobos para aprender sobre eles, muitas vezes os lobos mais velhos mastigavam o alimento e o engoliam para lev-lo de volta ao 
covil. Depois, vomitavam-no para os filhotes. Mas ela no precisava mastigar a carne, ela tinha mos e uma faca afiada, podia cort-la.
     Depois de picar a carne at formar uma pasta com ela, Ayla a colocou em uma tigela e acrescentou gua quente, para que a temperatura se aproximasse  do leite 
materno- O filhote estivera cheirando as bordas da escavao de desenhar, mas parecia com medo de se aventurar alm dos seus limites. Ayla se sentou na esteira, 
estendeu a mo e, suavemente, chamou o lobinho. Ela tirara o filhote de um local frio e solitrio, e trouxe-lhe calor e conforto, e seu odor j estava associado 
a segurana. A bola felpuda de pele caminhou para a mo estendida de Ayla.
     Ela o pegou, primeiro, para examin-lo. Um estudo revelou que era um macho, e muito novo, provavelmente no mais que um ciclo completo de fases da lua se tinha 
passado, desde que ele nascera. Ela se perguntou se ele tivera irmos e, neste caso, quando morreram. Ele no estava ferido, de forma alguma visvel, e no parecia 
mal nutrido, embora a loba negra estivesse muito magra, com certeza. Quando Ayla pensava nas terrveis dificuldades que a loba tivera que enfrentar para manter aquele 
filhote vivo, ela se lembrou de uma provao que enfrentara, certa vez, e isso fortaleceu sua resoluo. Se pudesse, manteria o filhote da loba vivo, no importava 
o que fosse preciso, e nem Frebec, nem ningum mais iria det-la.
     Conservando o filhote ao colo, Ayla mergulhou o dedo na tigela de carne picada e manteve-o sob o focinho do lobinho. Ele estava com fome. Cheirou a carne, lambeu, 
e depois lambeu o dedo inteiro de Ayla. Ela repetiu o gesto e ele tornou a lamber. Ela o manteve ao colo e continuou a aliment-lo, sentindo seu pequeno ventre arredondar-se. 
Quando achou que ele comera o suficiente, colocou um pouco dgua sob seu focinho, mas ele apenas provou. Depois ela se ergueu e carregou-o para a Fogueira do Mamute.
     - Acho que encontrar algumas cestas velhas ali naquele banco - disse Mamut, acompanhando-a.
     Ela lhe sorriu. Ele sabia exatamente o que ela tinha em mente. Ela vasculhou por perto e encontrou um grande recipiente de cozinha de vime entrelaado, abrindo-se 
de um lado, e colocou-o sobre o estrado perto da cabeceira da sua cama. Mas, quando colocou o filhote dentro, ele chorou para sair. Ela o pegou e olhou ao redor 
de novo, incerta sobre o que funcionaria. Ficou tentada a lev-lo para sua cama, mas j passara por isso com filhotes de leo e cavalos em crescimento. Era difcil 
demais faz-los mudar de hbitos mais tarde, e alm disso, talvez Jondalar no quisesse dividir sua cama com um lobo.
     - Ele no est feliz na cesta. Provavelmente, quer sua me ou outros filhotes com quem dormir - disse Ayla.
     - D-lhe alguma coisa sua, Ayla - falou Mamut. - Alguma coisa macia, confortvel familiar. Voc  a me dele, agora.
     Ela concordou, com um gesto de cabea, e examinou sua pequena variedade de roupas. No tinha muitas. Seu belo traje que Deegie lhe dera, o que ela havia feito 
no vale antes de vir para ali, e algumas bugigangas que lhe foram dadas por outras pessoas, como troca. Ela tivera muitos agasalhos sobrando quando vivera com o 
Cl, e at no vale...
     Observou o bornal que trouxera do vale, abandonado num canto distante da plataforma de estocagem. Vasculhou-o e tirou uma capa de Durc, mas, depois de segur-la 
um pouco, dobrou-a e guardou-a novamente. No suportava ced-la. Depois encontrou seu antigo agasalho do Cl, uma pele grande e velha de couro macio. Ela havia usado 
uma igual, enrolada  sua volta e amarrada com urna tira de couro comprida, por tanto tempo quanto era capaz de lembrar, at o dia em que deixara o vale pela primeira 
vez com Jondalar. Parecia que tanto tempo se passara! Revestiu a cesta com a capa do Cl e colocou o filhote nela. Ele cheirou, depois se aninhou depressa e adormeceu 
rapidamente.
     De sbito, ela compreendeu o quanto estava cansada e faminta, e como suas roupas continuavam midas de neve. Tirou as botas molhadas e o forro feito de l feltrada 
de mamute, e trocou por um traje seco e a proteo para os ps, caseira e macia, que Talut lhe havia mostrado como fazer. Ela ficara intrigada com o par que ele 
usara na cerimnia de sua adoo e convencera-o a lhe ensinar como se fazia.
     As protees para os ps baseavam-se em uma caracterstica natural do alce ou veado: a perna traseira se curva to agudamente na articulao do jarrete que 
tem a forma natural de um p humano. A pele era cortada acima e abaixo da junta e tirada em uma s pea. Depois de curar, a extremidade inferior era costurada com 
nervo, no tamanho desejado, e a parte superior era enrolada e amarrada acima do tornozelo com cordes ou tiras de couro. O resultado era um sapato meia de couro 
sem costura, quente e confortvel.
     Depois de se trocar, Ayla foi para o anexo ver os cavalos, e tranqiliz-los, mas notou uma hesitao e resistncia na gua quando foi acarici-la.
     - Est sentindo o cheiro do lobo, no , Whinney? Ter que se acostumar com ele. Vocs dois. O lobo ficar aqui conosco, por algum tempo - estendeu as mos 
e deixou os dois animais cheirarem-nas. Racer recuou, bufou e agitou a cabea e cheirou novamente. Whinney colocou o focinho nas mos da mulher, mas as orelhas se 
abaixaram e se moveu, indecisa. - Voc se acostumou com Nenm, Whinney, pode acostumar-se com... Lobo. Eu o trarei aqui amanh, quando ele acordar. Quando voc vir
quo pequeno ele , saber que no pode lhe fazer mal.
     Quando Ayla voltou ao interior, viu Jondalar perto da cama, olhando para o filhote. Sua expresso era impenetrvel, mas ela pensou ver curiosidade e alguma 
coisa como ternura em seus olhos. Ele ergueu a cabea e viu-a, e sua testa se enrugou em uma forma familiar.
     - Ayla, por que ficaram fora tanto tempo? - perguntou ele. Todos se preparavam para ir procur-las.
     - No pretendamos ficar, mas quando vi que a loba negra que matei estava amamentando, tive que descobrir se havia filhotes vivos - respondeu Ayla.
     - Que diferena faz? Os lobos morrem o tempo todo, Ayla! - Ele havia comeado a falar em tom de voz razovel, mas seu medo pela segurana dela fazia sua voz 
elevar-se. - Foi estpido seguir o rastro de um lobo assim. Se tivesse encontrado um bando de lobos, eles a teriam matado. - Jondalar estivera descontrolado de preocupao, 
mas com o alvio veio a incerteza e uma ponta de raiva frustrada.
     - Faz diferena para mim, Jondalar  disse, ela, zangada, saltando em defesa do lobo. - E no sou estpida. Cacei muitos carnvoros antes de caar qualquer 
outra coisa. Conheo os lobos. Se houvesse um bando, eu no teria seguido o rastro da loba, inversamente, at sua cova. O bando teria tomado conta dos filhotes.
     - Mesmo sendo uma loba solitria, por que passou o dia inteiro procurando um filhote? - A voz de Jondalar soou mais alta, ele liberava suas tenses assim como 
tentava convenc-la a no correr tais riscos novamente.
     - Aquele filhote era tudo o que a loba tinha. No podia deix-lo morrer de fome porque matei sua me. Se algum no se tivesse importado comigo quando eu era 
criana, eu no estaria viva. Tambm tenho que me importar, mesmo com um lobinho. - A voz de Ayla tambm era alta.
     - No  a mesma coisa. Um lobo  um animal. Voc devia ter mais juzo, Ayla, e no arriscar a vida por causa de um filhote de lobo - gritou Jondalar. Ele no 
parecia faz-la compreender. - Este no  o tipo de clima para ficar fora o dia todo.
     - Tenho bom senso, Jondalar - disse Ayla com a raiva brilhando em seus olhos. - Fui eu que sai. No acha que sei como estava o tempo? No acha que sei quando 
minha vida est em perigo? Tomei conta de mim antes de voc chegar, e enfrentei perigos maiores. At cuidei de voc. No preciso que me diga que sou estpida e sem 
juzo.
     As pessoas que se reuniam na Fogueira do Mamute reagiam  discusso, sorrindo nervosamente, e tentando no dar importncia ao caso. Jondalar olhou ao redor 
e viu vrias pessoas sorrindo e conversando entre si, mas quem se salientava era o homem escuro de olhos penetrantes. Havia uma ponta de condescendncia em seu largo 
sorriso?
     - Tem razo, Ayla. No precisa de mim, no ? Para nada - rebateu Jondalar e, vendo Talut se acercar, perguntou: - Voc se importaria se eu me mudasse para 
a cozinha, Talut? Tentarei no incomodar ningum.
     - No, claro que no me importo, mas...
     - timo. Obrigado. - disse ele, e agarrou suas cobertas e pertences do estrado-cama que dividia com Ayla.
     Ayla ficou magoada, descontrolada ao pensar que ele talvez quisesse realmente dormir longe dela. Estava quase pronta a pedir que ele ficasse, mas o orgulho 
a manteve calada. Ele havia partilhado sua cama, mas fazia tanto tempo que no compartilhavam prazeres que ela estava certa de que ele deixara de am-la. Se ele 
no a amava mais, ela no o foraria a ficar, embora o pensamento desse um n de medo e dor em seu estmago.
     -  melhor levar sua parte de comida tambm - disse ela, enquanto ele enfiava coisas em uma mochila. Depois, tentando um meio de tornar a separao menos total, 
acrescentou: - Embora eu no saiba quem ir cozinhar para voc l. No  uma verdadeira fogueira.
     - Quem pensa que cozinhava para mim quando eu fazia minha jornada? Uma donii. No preciso de uma mulher para cuidar de mim. Eu mesmo cozinharei! - Ele se afastou, 
os braos carregados de pele, atravs da Fogueira da Raposa e da Fogueira do Leo, e atirou sua coberta de cama perto da rea de trabalhar em ferramentas. Ayla o 
viu sair, sem querer acreditar.
     A habitao fervilhava com conversas sobre sua separao. Deegie desceu correndo o corredor depois de ouvir a notcia, achando difcil acreditar. Ela e a me 
tinham ido para a Fogueira dos Auroques, enquanto Ayla alimentava o lobo e conversaram em voz baixa durante algum tempo. Deegie, que tambm trocara as roupas molhadas 
por outras, secas, parecia tanto calma quanto decidida. Sim, elas no deviam ter ficado fora tanto tempo, por sua prpria segurana como tambm pela preocupao 
que causaram aos outros, mas no, diante das circunstncias, ela no teria feito nada diferente. Tulie gostaria de ter falado com Ayla tambm, mas sentiu que no 
seria adequado, especialmente depois de ouvir a histria de Deegie. Ayla havia dito a Deegie para voltar antes de iniciarem o rastreamento sem sentido, e ambas eram 
adultas que deviam ser perfeitamente capazes de cuidar de si mesmas agora, mas Tulie jamais se preocupara tanto com Deegie em sua vida.
     Nezzie cutucou Tronie e ambas encheram pratos com comida quente e levaram para a Fogueira do Mamute, para Ayla e Deegie. Talvez as coisas se consertassem depois 
que comessem alguma coisa e tivessem a chance de contar sua histria.
     Todos tinham esperado para perguntar sobre o filhote de lobo, at as necessidades de alimento e aquecimento para as jovens e o animalzinho terem sido satisfeitas. 
Embora houvesse estado faminta, Ayla teve dificuldade, agora, de colocar alimento na boca. Continuou olhando na direo que Jondalar tomara. Todos pareceram encontrar 
o caminho para a Fogueira do Mamute, prevendo a narrativa de uma aventura excitante e incomum, que poderia ser contada e recontada. Todos queriam conhecer a histria, 
quer ela estivesse disposta a contar ou no, de como ela voltara para a habitao comunal com um filhote de lobo.
     Deegie comeou relatando as estranhas circunstncias das raposas brancas nas armadilhas. Ela estava bastante certa, agora, de que tinha sido a loba negra, enfraquecida 
e faminta, e incapaz de caar veados ou cavalos ou bises, que fora atrada para as armadilhas e tirara as raposas de l para se alimentar. Ayla sugeriu que a loba 
poderia ter seguido as pegadas de Deegie, de armadilha a armadilha, quando ela as colocou. Ento, Deegie contou sobre Ayla querer pele branca para fazer uma coisa 
para algum, mas no de pele de raposa branca, desta vez, e como ela seguira os rastros de arminhos brancos.
     Jondalar chegou depois de a histria comear, e tentava permanecer silenciosamente despercebido, sentado perto do fogo. J lamentava e se censurava por ter 
sado to depressa, mas sentiu o sangue deixar seu rosto ao ouvir o comentrio de Deegie. Se Ayla estava fazendo algo de pele branca para algum, e no queria raposa 
branca, devia ser porque j dera raposa branca para aquela pessoa. E ele sabia a quem ela dera peles de raposa branca em sua cerimnia de adoo. Jondalar fechou 
os olhos e apertou os punhos, no colo. Nem sequer queria pensar naquilo, mas no conseguia afastar os pensamentos de sua mente. Ayla devia estar fazendo algo para 
o homem escuro que ficava to atraente em pele branca; para Ranec.
     Ranec refletia tambm sobre quem era a pessoa. Suspeitava de que se tratava de Jondalar, mas esperava que fosse, talvez, outra pessoa, at mesmo ele. No entanto, 
teve uma idia. Quer ela estivesse fazendo alguma coisa para ele, ou no, ele podia, mesmo assim, fazer algo para ela. Lembrou-se da alegria de Ayla e de seu prazer 
por causa do cavalo esculpido que lhe dera, e animou-se com o pensamento de esculpir outra coisa para ela; uma coisa que a encantasse e a deleitasse de novo, especialmente 
agora, que o grande homem louro se mudara. A presena de Jondalar sempre agira como influncia restringente, mas se ele desejava abdicar de sua posio principal, 
deixando a cama e a fogueira de Ayla, ento, Ranec se sentia livre para persegui-la mais ativamente.
     O pequeno lobo gemeu em seu sono e Ayla, sentando-se  beira do estrado-cama, estendeu a mo e afagou-o a fim de acalm-lo. A nica vez na vida em que ele se 
sentira aquecido e seguro como agora fora quando se aninhara ao lado da me, e ela o havia deixado sozinho muitas vezes na cova fria e escura. Mas a mo de Ayla 
o havia tirado daquele lugar solitrio, triste e assustador, e lhe dera calor, alimento e uma sensao de segurana. Ele se acalmou sob o toque tranqilizador sem 
sequer acordar.
     Ayla deixou Deegie continuar a histria, ajuntando apenas comentrios e explicaes. No sentia grande vontade de falar, e era interessante que a histria de 
Deegie no fosse a mesma que ela teria contado. No era menos verdadeira, porm, vista de um ponto diferente, e Ayla ficou um pouco surpresa com algumas das impresses 
da companheira. Ela no havia visto a situao como to perigosa. Deegie estivera muito mais assustada por causa do lobo; ela no parecia compreend-los, realmente.
     Os lobos estavam entre os carnvoros mais dceis, muito previsveis, se prestasse ateno aos seus sinais - os arminhos eram muito mais sanguinrios e os ursos, 
mais imprevisveis. Era raro os lobos atacarem os homens.
     Mas Deegie no os via dessa maneira. Ela descreveu a loba como se atacasse Ayla maldosamente, e ela ficara com medo. Havia sido perigosa, mas mesmo se Ayla 
no a tivesse repelido, o ataque fora defensivo. Ela poderia ter sido ferida, mas provavelmente no seria morta, e a loba recuaria assim que pudesse pegar o arminho 
morto e fugir. Quando Deegie descreveu
     Ayla enfiando a cabea, primeiro, na cova da loba, o acampamento olhou para ela atemorizado. Ou era muito corajosa, ou muito louca, mas Ayla achava que no 
era nem uma coisa nem outra. Ela sabia que no havia lobos adultos por perto, no havia rastros. A loba negra era solitria, provavelmente distante de seu territrio, 
e estava morta agora.
     A narrativa vivida de Deegie das exploraes de Ayla fez mais do que causar terror em um dos ouvintes. Jondalar se tornou mais e mais agitado. Em sua mente, 
havia embelezado ainda mais a histria, visualizando Ayla no s em grande perigo, mas atacada por lobos, ferida e ensangentada, e talvez pior ainda. No suportava 
o pensamento e sua ansiedade anterior voltou com fora redobrada. Outras pessoas tinham sentimentos semelhantes.
     - No devia ter-se colocado em tal perigo - disse a chefe.
     - Me! - exclamou Deegie. A mulher havia dito antes, que no demonstraria suas preocupaes.
     As pessoas que ainda se encontravam presas  aventura, censuraram-na por interromper uma histria dramtica, contada com habilidade. Era mais excitante ainda 
por ser verdadeira e, embora fosse contada e recontada, j mais teria o impacto novo da primeira vez, O estado de esprito estava sendo estragado - afinal, ela estava 
de volta e segura, agora.
     Ayla olhou para Tulie, depois lanou um olhar a Jondalar. Ela o notara no instante em que ele voltara  Fogueira do Mamute. Estava muito zangado, e assim tambm 
parecia estar Tulie.
     - No corri esse perigo - disse Ayla.
     - No acha perigoso entrar em um covil de lobos? - indagou Tulie.
     - No, no havia perigo. Era o covil de uma loba solitria, e ela estava morta. S entrei para procurar seus filhotes.
     - Talvez, mas era necessrio ficar fora at to tarde, seguindo o rastro da loba? Estava quase escurecendo quando vocs voltaram - disse Tulie.
     Jondalar havia dito a mesma coisa.
     - Mas eu sabia que a loba tinha filhotes, ela estava amamentando. Sem me, eles morreriam - explicou Ayla, embora houvesse dito isso antes e pensasse que tinham 
compreendido.
     Ento, voc arrisca sua vida... - e a de Deegie, pensou, embora no o dissesse - ... Pela vida de um lobo? Depois que a loba preta a atacou, foi loucura continuar 
a persegui-la apenas para recuperar o arminho que ela havia levado. Devia ter desistido.
     - Discordo, Tulie - intrometeu-se Talut. Todos se voltaram para o chefe. - Havia um lobo faminto na vizinhana, um que j seguira Deegie quando ela colocou 
as armadilhas. Quem diz que o lobo no a seguiria at aqui? O tempo est mais quente, as crianas brincam mais, fora. Se o lobo ficasse desesperado, talvez atacasse 
uma das crianas, e ns no o teramos esperado. Agora sabemos que a loba est morta.  melhor assim.
     As pessoas sacudiam a cabea, concordando, mas Tulie no se dava por vencida to depressa.
     - Talvez tenha sido melhor que a loba fosse morta, mas no pode dizer que era necessrio ficar fora tanto tempo procurando o filhote. E agora, que encontrou 
o filhote, o que vamos fazer com ele?
     - Acho que Ayla fez o que era certo indo atrs da loba e matando-a, mas  uma pena que uma me que amamentava tivesse que ser morta. Todas as mes devem ter 
o direito de criar seus filhos, mesmo lobas. Porm, mais que isso, no foi um esforo inteiramente intil de Ayla e Deegie seguir a pista da loba at a toca, Tulie. 
Elas fizeram mais do que encontrar um lobinho. Desde que acharam somente os rastros de um animal, agora, sabemos que no h outros lobos famintos por perto. E se, 
em nome da Me, Ayla ficou com pena do filhote, no vejo mal algum nisso.  um lobo to pequenino!
     -  pequenino agora, mas no continuar pequeno, O que fazemos com um lobo totalmente adulto perto da habitao? Como sabe que no atacar as crianas, ento? 
- perguntou Frebec. - Breve haver um beb em nossa fogueira.
     - Considerando a percia de Ayla com animais, acho que ela saberia como impedir que o lobo ferisse algum. Porm, mais que isso, direi agora, como chefe do 
Acampamento do Leo, se houver sequer uma indicao de que aquele lobo possa ferir algum... - Talut encarou Ayla - ... Eu o matarei. Concorda com isso, Ayla?
     Todos os olhos se voltaram para ela. Ela corou e gaguejou a princpio. Depois, disse o que sentia.
     - No posso afirmar que este filhote no ferir ningum quando crescer. No posso sequer dizer se ele ficar aqui. Criei uma gua desde beb. Ela partiu para 
encontrar seu garanho e se juntou a um bando por algum tempo, mas voltou. Eu criei um leo da caverna at ele ficar adulto. Whinney era como uma bab para Nenm
quando era pequeno, e se tornaram amigos. Embora os lees da caverna cacem cavalos, e ele pudesse ter-me ferido facilmente, no ameaou nenhum de ns. Sempre foi
apenas o meu nenm.
     Quando Nenm foi embora em busca de uma companheira, no voltou, no para ficar, mas fazia visitas e s vezes o encontrvamos nas estepes. Jamais ameaou Whinney
ou Racer, ou a mim, mesmo depois de encontrar uma companheira e iniciar seu prprio grupo. Nenm atacou dois homens que entraram em seu covil, e matou um, mas quando 
eu lhe disse para ir embora e deixar Jondalar e seu irmo em paz, obedeceu. Um leo da caverna e um lobo so carnvoros. Vivi com um leo da caverna e observei os 
lobos. Acho que um lobo que cresce em companhia das pessoas de um acampamento jamais ir feri-las, mas digo aqui que se houver qualquer indcio de perigo para qualquer 
criana ou pessoa.. - engoliu algumas vezes - ..eu, Ayla dos Mamutoi, o matarei,.
     Ayla resolveu apresentar o filhote de lobo a Whinney e Racer na manh seguinte, de forma que se acostumassem com o odor e evitassem um nervosismo desnecessrio. 
Depois de dar de comer ao filhote, ela o carregou e levou-o para o anexo dos cavalos a fim de conhecer os dois eqinos. Embora no soubesse disso, vrias pessoas 
a tinham visto ir.
     Antes de se acercar dos cavalos com o pequeno lobo, no entanto, ela pegou um pedao seco de excremento dos cavalos, amassou-o e esfregou o filhote com a massa 
fibrosa. Ayla esperava que o cavalo de estepe se mostrasse inclinado  amizade com outro animal de caa recm-nascido, como ocorrera com o leo da caverna, mas Ayla 
recordava que Whinney havia aceitado melhor Nenm depois que ele rolara no esterco.
     Quando ela estendeu a pequena pele felpuda a Whinney, a gua recuou primeiro, mas sua curiosidade natural venceu. Ela avanou com cautela e cheirou, sentindo 
o odor familiar, confortador de cavalo juntamente com o cheiro mais perturbador de lobo. Racer tambm ficou curioso, e mostrou-se menos cauteloso. Embora tivesse 
uma precauo instintiva em relao a lobos, jamais vivera com uma cavalhada selvagem e nunca fora objeto de perseguio por um grupo de caadores eficientes. Ele 
se aproximou da coisa quente e viva, interessante, embora vagamente ameaadora e peluda que Ayla segurava nas mos em concha, e esticou a cabea parar uma inspeo 
mais de perto.
     Depois que os dois cavalos cheiraram suficientemente para se familiarizar com o filhote, Ayla o pousou ao solo diante dos grandes animais de pastagem e ouviu 
um arquejo. Ela lanou um olhar em direo  entrada da Fogueira do Mamute e viu Latie mantendo a cortina aberta. Talut, Jondalar e vrios outros se amontoavam atrs 
dela. No queriam perturb-la, mas tambm estavam curiosos, e no podiam resistir ao desejo de ver o primeiro encontro do filhote de lobo com os cavalos. Embora 
muito pequeno, o lobo era um predador, e cavalos eram a caa natural dos lobos. Mas cascos e dentes podiam ser armas formidveis. Os cavalos tinham fama de ferir 
ou matar lobos adultos que os atacavam, e podiam facilmente vencer um predador to pequeno.
     Os cavalos sabiam que no corriam perigo por causa do jovem caador e venceram rapidamente sua cautela inicial. Mais de uma pessoa sorriu ao ver o lobinho vacilante, 
no muito maior que um casco, erguendo a cabea para as pernas macias dos gigantes estranhos. Whinney abaixou a cabea e estendeu o focinho, recuou, depois moveu 
o focinho comprido novamente para o filhote. Racer se aproximou do interessante beb pelo outro lado. O filhote se encolheu e agachou-se ao ver as grandes cabeas 
se acercando dele. Mas do ponto de vista do filhote, o mundo era povoado por gigantes. Os homens, mesmo a mulher que dava-lhe de comer e o confortava, eram gigantescos 
tambm.
     Ele no detectou ameaa na respirao morna que soprava das narinas. largas. Para o olfato sensvel do lobo, o odor dos cavalos era familiar. impregnava os 
pertences e roupas de Ayla, e at a prpria mulher. O lobinho decidiu que os gigantes de quatro pernas faziam parte do seu bando tambm, e, com sua ansiedade normal, 
infantil, de agradar, ergueu-se para tocar com o pequeno focinho negro o focinho quente da gua.
     - Esto roando os focinhos! - Ayla ouviu Latie dizer em um cochicho alto.
     Quando o lobo comeou a lamber o focinho da gua,  maneira comum dos filhotes de lobo se aproximarem dos membros de sua alcatia, Whinney ergueu a cabea depressa. 
Mas estava intrigada demais para se afastar por muito tempo do surpreendente animal e logo aceitava as lambidas clidas e carinhosas do pequeno predador.
     Aps alguns momentos de travarem conhecimento, mutuamente, Ayla pegou o filhote para carreg-lo de volta para dentro. Fora um incio auspicioso, mas ela resolveu 
no abusar. Mais tarde, ela o traria para fora, para um passeio.
     Ayla havia visto uma expresso de ternura e diverso no rosto de Jondalar quando os animais se encontraram. Era uma expresso que lhe fora familiar antes, e 
que a encheu de uma onda inenarrvel de felicidade. Talvez ele quisesse voltar para a Fogueira do Mamute, agora, que tivera tempo para pensar a respeito. Mas quando 
ela entrou e lhe sorriu - seu largo e belo sorriso - ele desviou o rosto e abaixou os olhos; depois, seguiu Talut depressa at a rea de cozinhar. Ayla inclinou 
a cabea quando a alegria se evaporou, deixando um peso dolorido em seu lugar, convencida de que ele no mais se importava com ela.
     Nada estava mais longe da verdade. Ele lamentava ter agido to apressadamente, envergonhado por ter exibido um comportamento to imaturo, e certo de que no 
era mais bem-vindo depois de sua partida abrupta. No achava que o sorriso de Ayla fosse destinado a ele, realmente. Acreditava que era o resultado do encontro bem-sucedido 
dos animais, mas v-lo o encheu de agonia de amor e desejo, a tal ponto que no suportou estar perto dela.
     Ranec viu os olhos de Ayla acompanharem o homem grande que se retirava. Perguntou-se quanto tempo duraria sua separao, e que efeito teria. Embora tivesse 
quase medo de esperar, no podia deixar de pensar que a ausncia de Jondalar talvez aumentasse suas chances com Ayla. Ele tinha alguma noo de que era, em parte, 
uma causa de sua separao, mas sentia que o problema entre eles era mais profundo. Ranec tornava bvio o seu interesse por Ayla, e nenhum deles indicara que estava 
totalmente mal colocado. Jondalar no o havia enfrentado com uma declarao definitiva de sua inteno de se unir a Ayla em um vnculo exclusivo; havia apenas agido 
com raiva contida e se afastado. E da mesma forma que Ayla no o havia exatamente encorajado, tampouco o havia recusado.
     Era verdade, Ayla acolhia bem a companhia de Ranec. No tinha certeza por que Jondalar estava to distante, mas sentia, com segurana, que era alguma coisa 
que ela fazia, erradamente. A presena atenciosa de Ranec a fazia sentir que seu comportamento no podia ser inteiramente inadequado.
     Latie estava de p ao lado de Ayla, com os olhos brilhantes de interesse no lobinho que ela segurava. Ranec se juntou a elas.
     - Foi uma viso que jamais esquecerei, Ayla - disse Ranec. - Essa coisinha roando o focinho no da grande gua. O lobinho  valente.
     Ela ergueu a cabea e sorriu, to satisfeita como elogio de Ranec, como teria ficado se o animal fosse um filho seu.
     - O lobo estava amedrontado no incio. Os cavalos so muito maiores que ele. Estou contente porque ficaram amigos to depressa.
     -  esse o nome que vai lhe dar? Lobo? - perguntou Latie.
     - Ainda no pensei sobre isso, realmente. No entanto, parece um nome adequado.
     - No sou capaz de pensarem outro melhor - disse Ranec.
     - O que acha, Lobo? - perguntou Ayla, erguendo o filhote e olhando para ele. O animal avanou para ela depressa e lambeu-lhe o rosto. Todos sorriam.
     - Acho que ele gosta do nome - falou Latie.
     - Voc conhece animais, Ayla - disse Ranec. Depois com expresso interrogativa, ajuntou: - H uma coisa que eu gostaria de perguntar, todavia. Como sabia que 
os cavalos no iriam machuc-lo? Os lobos caam cavalos e j vi cavalos matarem lobos. So inimigos mortais. Ayla parou e refletiu.
     - No sei. Eu apenas tinha certeza, talvez por causa de Nenm. Lees da caverna matam cavalos tambm, mas devia ter visto Whinney com ele, quando era pequeno. 
Era to protetora, como uma me, ou ao menos uma tia. Whinney sabia que um filhote de lobo no poderia feri-la e Racer tambm pareceu saber. Acho que se voc comea 
quando so bebs, muitos animais podem ser amigos, e amigos de pessoas tambm.
     - E por isto que Whinney e Racer so seus amigos? - indagou Latie.
     - Sim, acho que sim. Tivemos tempo de nos acostumarmos um com o outro. Acho que  disso que Lobo precisa.
     - Acha que ele se acostumar comigo? - perguntou Latie, ansiosa, e Ayla sorriu ao perceber seu sentimento.
     - Aqui - disse, estendendo o filhote para a garota. - Segure-o. Latie aninhou o animalzinho clido e inquieto nos braos, depois inclinou a face para sentir 
a macia pele felpuda. Lobo lambeu seu rosto tambm, incluindo-a em seu bando.
     - Acho que ele gosta de mim - disse Latie. - Acabou de me beijar.
     Ayla sorriu diante da reao satisfeita. Ela sabia que essa simpatia era natural para os filhotes de lobo; as pessoas pareciam ach-la to irresistvel quanto 
os lobos adultos achavam. Somente quando os lobos cresciam  que se tornavam tmidos, defensivos e desconfiados de estranhos.
     A jovem observou o filhote com curiosidade, enquanto Latie o segurava. O plo do lobinho ainda era do tom cinza-escuro uniforme dos muito novos. Somente mais 
tarde o plo desenvolveria as listras claras e escuras da tpica colorao de um lobo adulto se tal acontecesse. Sua me fora preta, at mais escura que o filhote, 
e Ayla se perguntou de que cor Lobo seria.
     Todos voltaram s cabeas quando ouviram o guincho de Crozie.
     - Suas promessas no significam nada! Voc me prometeu respeito! Prometeu que eu sempre seria bem-vinda, de qualquer modo!
     - Sei o que prometi. No precisa me lembrar - gritou Frebec.
     A discusso no era inesperada. O inverno prolongado havia proporcionado tempo para fabricar e consertar, esculpir e tecer, contar histrias, cantar canes, 
jogar e tocar instrumentos musicais; entregar-se a todos os passatempos e diverses j inventados. Mas, quando a longa estao chegava ao fim, tambm era poca em 
que o confinamento rigoroso fazia com que os gnios se inflamassem. A subcorrente de conflito entre Frebec e Crozie causara relaes to tensas, que a maioria das 
pessoas sentia que uma exploso seria iminente.
     - Agora, diz que quer que eu v embora. Sou uma me, sem lugar para ir e voc quer que eu v. Isso  manter sua promessa?
     A batalha verbal era realizada ao longo do corredor, e logo alcanava a Fogueira do Mamute com fora total. O filhote, amedrontado pelo rudo e tumulto, saiu 
dos braos de Latie e desapareceu antes que ela pudesse ver para onde fora
     - Eu cumpro minhas promessas - disse Frebec - No me dou direito. O que eu quis dizer foi - Ele lhe fizera promessas, mas no soubera, antes, o que seria viver 
com a velha megera. Se pudesse ter apenas Fralie e no precisar conviver com a me dela, pensou, olhando ao redor, tentando pensar em algum modo de sair do canto 
em que Crozie o encurralara. - O que eu quis dizer foi. - Notou Ayla e encarou-a diretamente.
     - Precisamos de mais espao - A Fogueira da Gara no  o bastante grande para ns. E o que faremos quando o beb chegar? Parece haver bastante espao nesta 
fogueira, at para animais!
     - No  para os animais, a Fogueira do Mamute era deste tamanho antes de Ayla chegar - falou Ranec, vindo em defesa de Ayla - Todo mundo do Acampamento se rene 
aqui, tem que ser maior. Mesmo assim, fica apinhada Voc no pode ter uma fogueira to grande quanto esta.
     - Eu pedi uma deste tamanho? Eu disse apenas que a nossa no era suficiente. Por que o Acampamento do Leo precisa ceder espao aos animais, e no s pessoas?
     Mais gente se aproximava para ver o que acontecia.
     Voc no pode ocupar espao algum da Fogueira do Mamute -disse Deegie, deixando que o velho feiticeiro avanasse mais - Diga-lhe, Mamut.
     - Ningum cedeu espao ao lobo. Ele dorme em uma cesta, perto da cabeceira da cama dela - comeou Mamut em tom razovel. - Implica que Ayla tem esta fogueira 
toda para si, mas ela possui pouco espao que pode chamar de seu. As pessoas se renem aqui, quer exista uma cerimnia ou no, principalmente as crianas. H sempre 
algum por perto, inclusive Fralie e suas crianas, s vezes.
     - Eu disse a Fralie que no gosto que ela passe muito tempo aqui, mas ela diz que precisa de mais espao para espalhar seu trabalho. Fralie no teria que vir 
trabalhar aqui, se tivssemos mais espao em nossa fogueira.
     Fralie corou, e voltou para a Fogueira da Gara. Ela dissera aquilo a Frebec, mas no era inteiramente verdade. Ela tambm gostava de passar algum tempo na 
Fogueira do Mamute pela companhia, e porque o conselho de Ayla a havia ajudado em sua gravidez difcil. Agora, Fralie sentiu que teria que ficar afastada.
     - De qualquer maneira, eu no falava sobre o lobo - continuou Frebec -, embora ningum me perguntasse se eu queria dividir a moradia com esse animal. S porque 
uma pessoa quer trazer animais para c, no sei por que eu teria que viver com eles. No sou um animal e no cresci com eles, mas por aqui os animais valem mais 
que as pessoas. Todo este acampamento constri um recinto separado para cavalos, enquanto estamos espremidos na menor fogueira da habitao comunal!
     Um tumulto nasceu, com todos gritando ao mesmo tempo, tentando se fazer ouvir.
     - O que quer dizer com a menor fogueira da habitao? - trovejou Tornec. - No temos mais espao do que voc, talvez menos, e o nmero de pessoas  igual!
     - E verdade - falou Tronie. Manuv sacudia a cabea vigorosamente, concordando.
     - Ningum tem muito espao - disse Ranec.
     - Ele est certo! - concordou Tronie novamente, com mais veemncia. - Acho que at a Fogueira do Leo  menor que a sua, Frebec, e eles tm mais pessoas do 
que voc, e maiores tambm. Esto apertados, realmente. Talvez devessem ter parte do espao da rea de cozinhar. Se alguma fogueira o merece,  a deles.
     - Mas a Fogueira do Leo no est pedindo mais espao - tentou dizer Nezzie.
     Ayla olhou de uma pessoa para a outra, incapaz de compreender como todo o acampamento se envolvera, de repente, em uma discusso violenta, mas sentindo que, 
de algum modo, a culpa era toda sua.
     No meio de tudo, um berro potente soou subitamente, dominando toda a agitao e detendo todo mundo. Talut estava de p no meio da fogueira com segurana de 
lder. Seus ps estavam separados, e na mo direita estava o basto enigmaticamente decorado, comprido, reto, de marfim. Tulie se juntou a ele, emprestando sua presena 
e autoridade. Ayla se sentiu intimidada pelo par poderoso.
     - Eu trouxe o Basto Falante - disse Talut, erguendo o basto e sacudindo-o para poder dizer o que queria. - Discutiremos este problema de modo pacifico e o 
resolveremos imparcialmente.
     - Em nome da Me, que ningum desonre o Basto Falante  disse Tulie. - Quem falar primeiro?
     - Acho que Frebec deve falar primeiro - disse Ranec. - E ele que tem um problema.
     Ayla andara se esgueirando em direo  periferia, tentando escapar das pessoas ruidosas e que gritavam. Notou que Frebec parecia pouco  vontade e nervoso 
com toda a ateno hostil concentrada nele. O comentrio de Ranec carregara a forte implicao de que a confuso era inteiramente por culpa dele. Ayla, de p, um 
pouco escondida atrs de Danug, examinou Frebec com ateno pela primeira vez.
     Que tinha estatura mediana, talvez um pouco menos. Agora, que reparava nisso, ela era provavelmente um pouco mais alta que ele, mas tambm era mais alta que 
Barzec e, talvez da mesma altura de Wymez. Ela estava acostumada a ser mais alta que os outros e no prestara ateno nisso antes. Frebec tinha cabelo castanho claro, 
um tanto escasso, olhos de um tom de azul mdio e feies regulares, corretas, sem deformaes. Era um homem de aparncia comum e ela no encontrava nada que pudesse 
justificar seu comportamento belicoso e desagradvel. Havia momentos, quando Ayla era criana, em que desejara ser to parecida com o resto do Cl quanto Frebec 
parecia com o seu povo.
     Quando Frebec avanou e pegou o Basto Falante de Talut, Ayla viu Crozie, com o rabo do olho, com um sorriso de regozijo no rosto. Certamente, a velha era ao 
menos parcialmente culpada pelas aes de Frebec, mas era s isso? Tinha que haver mais alguma coisa. Ayla olhou para Fralie, mas no a viu entre as pessoas que 
se reuniam na Fogueira do Mamute. Ento, viu a mulher grvida observando da extremidade da Fogueira da Gara.
     Frebec pigarreou algumas vezes, depois, mudando a posio em que segurava o basto de marfim e agarrando-o com firmeza, comeou:
     - Sim, eu tenho um problema - olhou ao redor, nervoso, depois, carrancudo, endireitou mais o corpo. - Quero dizer, temos um problema. A Fogueira da Gara. No 
h espao suficiente. No temos lugar para trabalhar,  a menor fogueira da habitao...
     - No  a menor. E maior que a nossa! - falou Tronie sem se controlar.
     Tulie a fitou com severidade.
     - Ter uma chance de falar, Tronie, quando Frebec terminar.
     Tronie corou e resmungou desculpas. Seu embarao pareceu dar coragem a Frebec. Sua postura se tornou mais agressiva.
     - No temos espao suficiente agora, Fralie no tem lugar para trabalhar e... E Crozie precisa de mais espao. E breve haver outra pessoa. Acho que devamos 
ter mais espao. - Frebec devolveu o Basto a Talut e recuou um passo.
     - Tronie, pode falar agora - disse Talut.
     - Acho que... Eu estava apenas... Bem, talvez eu fale - disse, avanando um passo para pegar o Basto. - No temos mais espao do que na Fogueira da Gara e 
somos o mesmo nmero de pessoas. - Depois acrescentou, tentando conseguir a ajuda de Talut: - Creio que a Fogueira do Leo  menor...
     - Isso no  importante, Tronie - falou Talut. - A Fogueira do Leo no est pedindo mais espao e no estamos o suficientemente perto da Fogueira da Gara 
para sermos afetados pelo desejo de Frebec de ter mais espao. Voc, da Fogueira da Rena, tem o direito de falar, j que mudanas na Fogueira da Gara talvez causem 
alteraes no seu espao. Tem mais alguma coisa a dizer?
     - No, acho que no - respondeu Tronie, sacudindo a cabea e entregando o Basto.
     - Mais algum?
     Jondalar queria poder dizer alguma coisa que ajudasse, mas era um estranho e sentia que no devia se intrometer. Queria estar ao lado de Ayla, e lamentou ainda 
mais, agora, ter mudado o seu local de dormir. Ficou quase contente quando Ranec avanou e pegou o basto de marfim. Algum precisava falar em favor de Ayla.
     - No  terrivelmente importante, mas Frebec exagera. No posso dizer se eles precisam de mais espao ou no, mas a Fogueira da Gara no  a menor da habitao. 
A Fogueira da Raposa tem essa honra. Mas, somos apenas dois e estamos contentes.
     Houve murmrios, e Frebec lanou um olhar feroz ao escultor. Nunca houvera grande entendimento entre os dois homens. Ranec sempre achara que tinham pouco em 
comum e tendia a ignor-lo. Frebec tomou isto como desdm e havia alguma verdade nisso. Particularmente, desde que ele comeara a fazer comentrios depreciativos 
a Ayla, Ranec achou que Frebec valia pouco.
     Talut, tentando impedir outra discusso geral, levantou a voz e se dirigiu a Frebec.
     - Como acha que o espao da habitao deveria ser mudado para lhe dar mais conforto? - Entregou o comprido basto de marfim ao homem.
     - Eu nunca disse que queria tirar espao da Fogueira da Rena, mas se h lugar para animais eles tm mais espao do que precisam Acrescentou-se um anexo  habitao 
para os cavalos, mas ningum parece tomar conhecimento de que, breve, teremos mais uma pessoa. Talvez as coisas... pudessem ser mudadas - terminou Frebec, vacilante. 
No ficou feliz ao ver Mamut estender a mo para o Basto Falante.
     - Sugere que, a fim de haver mais espao na Fogueira da Gara, a Fogueira da Rena deveria se mudar para a Fogueira do Mamute? Isso seria um grande transtorno 
para eles. Quanto a Fralie vir trabalhar aqui, no est insinuando que ela se limita a viver na Fogueira da Gara, no ? Seria pouco saudvel, e a privaria do companheirismo 
que encontra aqui.  para c que se espera que ela traga seus projetos. Esta fogueira se destina a acomodar trabalho que precisa demais espao, do que existe na 
fogueira pessoal de qualquer um. A Fogueira do Mamute pertence a todos e  quase pequena, agora, para reunies.
     Quando Mamut devolveu o basto a Talut, Frebec parecia mais calmo, porm, se ps na defensiva, vivamente, quando Ranec pegou o basto de novo.
     - Quanto ao anexo para os cavalos, todos nos beneficiaremos com o espao, principalmente depois que se escavarem os depsitos de estocagem. Mesmo agora, tornou-se 
uma entrada conveniente para muitas pessoas. Observo que conserva ali as suas roupas de passeio, Frebec, e usa aquela entrada com mais freqncia do que o acesso 
principal - disse Ranec. - Alm disso, os bebs so pequenos, no ocupam muito espao. No creio que necessite de mais espao.
     - Como pode saber? - intrometeu-se Crozie. - Nunca teve nenhum beb nascente em sua fogueira. Eles ocupam espao, muito mais do que imagina.
     Somente depois de ter falado Crozie percebeu que, pela primeira vez, havia tomado o partido de Frebec. Franziu a testa, depois resolveu que talvez ele tivesse 
razo. Talvez precisassem de mais espao. Era verdade que a Fogueira do Mamute era local de reunies, mas parecia conceder a Ayla maior status porque vivia em uma 
fogueira to grande. Embora todos a houvessem considerado de Mamut quando ele viveu l sozinho, agora, exceto pelas reunies cerimoniais, todos a tratavam como se 
pertencesse a Ayla. Uma rea maior para a Fogueira da Gara poderia elevar o status de seus membros.
     Aparentemente todos encararam a interrupo de Crozie como um sinal para comentrio geral e, trocando um olhar experiente entre eles, Talut e Tulie permitiram 
que o alarido seguisse seu curso. s vezes, as pessoas precisavam desabafar. Durante a interrupo, Tulie encontrou o olhar de Barzec e, depois que tudo se acalmou, 
ele avanou um passo e pediu o basto. Tulie fez um gesto com a cabea, concordando, como se soubesse o que ele ia dizer, embora no se houvessem falado.
     - Crozie tem razo - disse ele, sacudindo a cabea em sua direo. Ela ficou mais ereta, aceitando o reconhecimento, e sua opinio sobre Barzec melhorou. - 
Os bebs ocupam espao, muito mais do que se poderia imaginar diante de seu tamanha talvez seja hora de algumas mudanas, mas no acho que a Fogueira do Mamute deva 
ceder espao. As necessidades da Fogueira da Gara esto crescendo, mas as necessidades da Fogueira dos Auroques so menores. 
     Branag foi viver no acampamento de sua mulher, e breve comear novo acampamento com Deegie. Ento, ela ir embora tambm. Por tanto, a Fogueira dos Auroques, 
compreendendo as necessidades de uma famlia em crescimento, ceder algum espao  Fogueira da Gara.
     -  satisfatrio para voc, Frebec? - perguntou Talut.
     -  - replicou Frebec, mal sabendo como responder a esta virada inesperada dos acontecimentos.
     - Ento, deixarei por sua conta resolver, entre vocs, quanto espao a Fogueira dos Auroques ceder, mas acho que  justo no haver mudanas at Fralie ter 
o seu beb. Concorda, Frebec?
     Frebec sacudiu a cabea afirmativamente, ainda desarmado. Em seu acampamento anterior, ele no sonharia em pedir mais espao; se o tivesse feito, teriam caoado 
dele. No tinha a prerrogativa, o status, para fazer tais pedidos. Quando a discusso com Crozie comeou, ele no estava pensando em espao, de forma alguma. Apenas 
procurara um meio de responder s acusaes insultuosas, embora verdadeiras, da mulher. Agora, ele se convencia de que a falta de espao havia sido a razo, o tempo 
todo, para a discusso e, por uma vez, ela havia ficado do lado dele. Ele sentiu a emoo do sucesso. Havia vencido uma batalha. Duas batalhas: uma com o acampamento, 
outra com Crozie. Quando as pessoas se dispersaram, ele viu Barzec falando com Tulie, e ocorreu-lhe que devia agradecer a eles.
     - Agradeo sua compreenso - disse Frebec  chefe e ao homem da Fogueira dos Auroques.
     Barzec usou as costumeiras negativas, mas no teriam ficado satisfeitos se Frebec no houvesse reconhecido a acomodao feita para ele. Sabiam muito bem que 
o valor de sua concesso ia muito alm de alguns metros de espao. Anunciava-se que a Fogueira da Gara tinha status para merecer tal doao da fogueira da chefe, 
embora fosse o status de Crozie e Fralie que considerassem quando Tulie e Barzec discutiram, previamente, uma mudana de limites, entre si. Eles j antecipavam as 
necessidades de mudana das duas famlias. Barzec havia pensado mesmo em abordar o assunto antes, mas Tulie sugeriu que esperassem um momento apropriado, talvez 
como um presente para o beb.
     Ambos sabiam que aquele era o momento. No fora necessrio mais que alguns olhares e gestos de cabea como sinais entre os dois. E j que Frebec havia conseguido 
uma vitria nominal, a Fogueira da Gara tinha, a obrigao moral de concordar com o ajuste dos limites. Barzec acabara de comentar como Tulie havia sido sbia quando 
Frebec se acercou para agradecer. Quando Frebec voltou  Fogueira da Gara, saboreava o incidente, calculando os pontos que vencera, exatamente como se fosse um 
dos jogos que o acampamento gostava de jogar, e ele contasse os pontos conquistados.
     Num sentido muito real era um jogo, o jogo muito sutil e inteiramente srio de posio comparativa, que  jogado por todos os animais sociais.  o mtodo pelo 
qual os indivduos se colocam - cavalos em uma cavalhada, lobos em uma alcatia, pessoas em uma comunidade - de forma apoderem viver juntos. O jogo coloca duas foras 
contrrias em oposio uma  outra, ambas igualmente importantes para sobreviver: autonomia individual e bem-estar da comunidade. O objetivo  alcanar equilbrio 
dinmico.
     As vezes e sob certas condies, os indivduos podem ser quase autnomos. Um indivduo  capaz de viver sozinho e no se preocupar com classe social, mas nenhuma 
espcie pode sobreviver sem interao entre os indivduos. O preo derradeiro seria mais final que a morte. Seria a extino. Por outro lado, a subordinao total 
do individuo ao grupo  igualmente devastadora. A vida no  esttica, nem imutvel. Sem individualidade no pode haver mudana, ou adaptao e, em um mundo inerentemente 
mutvel, qualquer espcie incapaz de se adaptar tambm est condenada.
     Os seres humanos em uma comunidade, quer seja to pequena quanto duas pessoas ou to grande quanto o mundo, e no importa que forma a sociedade assume, se colocaro 
de acordo com alguma hierarquia. Os costumes e cortesias comumente compreendidos podem ajudar a aliviar o atrito e diminuir o stress de manter um equilbrio funcional 
dentro deste sistema em mudana constante. Em algumas situaes, a maioria dos indivduos no necessitar comprometer muito de sua independncia pessoal para o bem-estar 
da comunidade. Em outras, as necessidades da comunidade talvez exijam o mximo sacrifcio pessoal do indivduo, mesmo da prpria vida.
     Nenhuma forma  mais certa que a outra, depende das circunstncias; porm, nenhum extremo pode ser mantido por muito tempo, tampouco uma sociedade perdura se 
algumas pessoas exercem sua individualidade  custa da comunidade.
     Ayla seguidamente se encontrava comparando a sociedade do Cl com a dos Mamutoi, e comeou a ter um vislumbre deste princpio enquanto refletia sobre os estilos 
diferentes de liderana de Brun e do chefe e da chefe do Acampamento do Leo. Ela viu Talut recolocar o Basto Falante no lugar habitual, e recordou que, ao chegar 
pela primeira vez ao acampamento Mamutoi, achava Brun um lder muito melhor que Talut. Brun teria simplesmente tomado uma deciso e os outros seguiriam sua ordem, 
quer gostassem ou no. Alguns sequer pensariam se gostavam ou no. Brun jamais tinha que discutir ou gritar. Um olhar penetrante ou uma ordem curta provocavam ateno 
imediata. Parecera-lhe que Talut no tinha controle sobre as pessoas ruidosas, briguentas, e que elas no o respeitavam.
     Agora, Ayla no tinha tanta certeza. Achava que era mais difcil liderar um grupo de pessoas que acreditavam que todos, homens e mulheres, tinham o direito 
de falar e ser ouvidos. Ainda pensava que Brun fora um bom lder para sua sociedade, mas perguntava-se se ele poderia ter chefiado aquelas pessoas que davam suas 
opinies to livremente. As vozes podiam elevar-se muito e haver rudo demais quando todos tinham uma opinio e no hesitavam em express-la, mas Talut jamais permitia 
que a situao ultrapassasse certos limites. Embora ele fosse forte, certamente, para ter forado sua vontade, preferia comandar por consenso e acordo, em vez disso. 
Recorria a certas sanes e crenas, e tinha tcnicas prprias para ter a ateno geral, mas era preciso ter um tipo diferente de fora para persuadir, em vez de 
obrigar. Talut ganhava respeito ao respeitar.
     Quando Ayla caminhou para um grupo de pessoas de p perto da escavao para o fogo, olhou ao redor procurando o filhote de lobo. Era um gesto subconsciente 
e quando no o viu, presumiu que ele encontrara um local onde se esconder durante o tumulto. - ... Certamente, Frebec conseguiu o que queria - dizia Tornec -, graas 
a Tulie e Barzec.
     - Estou contente, pelo bem de Fralie - disse Tronie, aliviada em saber que a Fogueira da Rena no seria invadida ou reduzida em seu tamanho. - Espero apenas 
que isso acalme Frebec por uns tempos. Realmente, ele comeou uma grande discusso desta vez.
     - No gosto de discusses assim - disse Ayla, recordando que a briga havia comeado com a reclamao de Frebec por seus animais terem mais espao que ele.
     - No se perturbe com isso - falou Ranec. - Foi um inverno prolongado. Alguma coisa assim sempre acontece nesta poca do ano.  um pouco de diverso, apenas, 
para criar alguma excitao.
     - Mas ele no precisava ter feito tanta confuso para conseguir mais espao - disse Deegie. - Ouvi mame e Barzec falando sobre isso muito antes de Frebec tocar 
no assunto. Eles iam dar espao  Fogueira da Gara como presente para o beb de Fralie. Tudo que Frebec tinha que fazer era pedir.
     Por isto Tulie  uma chefe to boa - disse Tronie. - Ela pensa em coisas como essa.
     - Ela  boa e Talut tambm - falou Ayla.
     - Sim, ele . - Deegie sorriu. - Por isto ainda  o chefe Ningum permanece chefe por tanto tempo, se no for capaz de liderar e ter o respeito de seu povo. 
Acho que Branag ser to bom quanto ele. Talut pde lhe ensinar.
     - Os sentimentos afetuosos entre Deegie e o irmo de sua me eram mais profundos do que o relacionamento formal que, juntamente com o status e a herana de 
sua me, garantiam  jovem uma elevada posio entre os Mamutoi.
     - Mas, quem se tornaria lder, se Talut no fosse respeitado? - indagou Ayla. - E como?
     - Bem... Ah... - comeou Deegie. Depois, os jovens se voltaram para Mamut a fim de que ele desse a resposta.
     - Se for o caso de antigos lderes entregarem a liderana ativa a uma irm e irmo mais jovens, que foram escolhidos... Parentes, em geral... H um perodo 
de aprendizado, depois uma cerimnia e finalmente os antigos lderes se tornam conselheiros - disse o feiticeiro e professor.
     - Sim. Foi isso que Brun fez. Quando era mais jovem, respeitava o velho Zoug e prestava ateno ao seu conselho e, quando ficou mais velho, entregou a liderana 
a Broud, o filho de sua companheira. Mas o que acontece se um acampamento perde o respeito por um lder? Um lder jovem? - perguntou Ayla, muito interessada.
     - A mudana no ocorreria depressa - falou Mamut -, mas as pessoas apenas no o procurariam, depois de certo tempo. Procurariam outro, algum que pudesse chefiar 
uma caada com mais sucesso, ou resolver melhor os problemas. s vezes, a liderana  abandonada, noutras um acampamento apenas se divide, alguns seguem o novo lder, 
e outros permanecem com o antigo. Mas, em geral, os lderes no abandonam suas posies ou autoridade facilmente, e isso pode causar problemas, at lutas. Ento, 
a deciso ficaria nas mos dos Conselhos. O chefe ou a chefe que dividiu a liderana com algum que causa encrenca ou  responsabilizado por um problema, raramente 
 capaz de iniciar um novo acampamento, embora possa no ser... - Mamut hesitou e seus olhos, Ayla percebeu, se fixaram na direo da velha da Fogueira da Gara, 
que falava com Nezzie -... Culpa dela. As pessoas querem lderes em quem possam confiar, e suspeitam daqueles indivduos que tm problemas... Ou viveram tragdias.
     Ayla sacudiu a cabea, concordando, e Mamut notou que ela compreendera, tanto o que ele havia dito quanto o que insinuara. A conversa continuou, porm a mente 
de Ayla havia retrocedido ao Cl. Brun havia sido um bom lder, mas o que o seu cl faria se Broud no o fosse? Ela se perguntou se eles se voltariam para um novo 
lder, e quem seria. Ainda se passaria muito tempo antes de o filho da companheira de Broud ter idade suficiente. Uma preocupao persistente que andara exigindo 
sua ateno irrompeu, de repente.
     - Onde est Lobo? - disse.
     Ela no o via desde a discusso e ningum o vira tampouco. Todos comearam a procurar. Ayla remexeu no seu estrado-cama, e depois todos os cantos da fogueira, 
mesmo na rea sem cortina, com a cesta de cinzas e esterco de cavalo, que ela havia mostrado ao filhote. Comeava a sentir o mesmo pnico que uma me sente quando 
d por falta do filho.
     - Aqui est ele, Ayla! - ouviu Tornec dizer, com alvio, mas sentiu o estmago revolver-se quando ele acrescentou: - Frebec est com ele. - A surpresa de Ayla 
chegou ao limite do choque enquanto o observava aproximar- se. Ela no era a nica a encarar o homem com incredulidade e assombro.
     Frebec, que nunca negligenciava uma chance de censurar os animais de Ayla, ou ela prpria, por sua ligao com eles, carregava o filhote com ternura nos braos. 
Entregou-lhe o lobinho, mas ela notou um instante de hesitao, como se ele se desfizesse do animalzinho com relutncia, e ela viu uma expresso mais terna em seus 
olhos, do que j vira antes.
     - Ele deve ter-se assustado - explicou Frebec. - Fralie falou, de repente, que ele estava l, na fogueira, chorando. Ela no sabia de onde ele viera. A maior 
parte das crianas l estava, tambm, e Crisavec o pegou e o colocou em uma plataforma de estocagem, perto da cabeceira de sua cama. Mas h um nicho fundo na parede, 
l, que entra pela encosta da colina. O lobo descobriu, rastejou at o fundo e no queria sair.
     - Com certeza, lembrou-se de sua cova - disse Ayla.
     - Foi o que Fralie disse. Era muito difcil para ela ir peg-lo, grande como est, e acho que tinha medo, depois de ouvir Deegie contar sobre voc ter entrado 
em um covil de lobos. Ela no queria que Crisavec l entrasse, tampouco. Quando cheguei, tive que entrar e tir-lo. - Frebec fez uma pausa, depois acrescentou, enquanto 
Ayla notava um tom de assombro em sua voz: - Quando o alcancei, ficou to contente de me ver que lambeu todo o meu rosto. Tentei faz-lo parar.
     Frebec assumiu uma atitude mais despreocupada e negligente, para esconder o fato de que ele estava obviamente comovido pela maneira naturalmente simptica do 
animal assustado.
     - Mas quando o coloquei ao cho, chorou e chorou at eu peg-lo no colo de novo. - Vrias pessoas se aglomeravam ao redor agora. - No sei por que ele escolheu 
a Fogueira da Gara ou a mim para socorr-lo quando procurava um local seguro.
     - Agora, ele imagina o acampamento como seu bando, e sabe que voc  um membro do acampamento, especialmente depois de tir-lo da cova que encontrou - retrucou 
Ayla, tentando reconstruir os eventos.
     Frebec sentia o ardor da vitria quando voltou  sua fogueira, e algo mais profundo que o fazia experimentar uma animao incomum; uma sensao de pertencer 
a um lugar, como um igual. Eles no o tinham ignorado apenas ou caoado dele. Talut sempre o ouvia, exatamente como se ele tivesse o status para garantir isso, e 
Tulie, a chefe, oferecera-se para ceder-lhe um pouco do seu espao. Crozie at tomara o seu partido.
     Um n subiu-lhe  garganta ao ver Fralie, sua mulher estimada, de status elevado, que tornara tudo isso possvel; sua bela mulher grvida que breve daria  
luz o primeiro filho de sua fogueira, a fogueira que Crozie lhe dera, a Fogueira da Gara. Ele ficara aborrecido quando ela lhe disse que o filhote estava escondido 
no nicho, mas ficou surpreso diante da aceitao pelo filhote, apesar de todas as suas palavras duras. At o beb lobo dava-lhe as boas-vindas, e depois s queria 
ser cuidado por ele. E Ayla disse que era porque o lobo sabia que ele era um membro do Acampamento do Leo. At um lobinho sabia que ele pertencia ao acampamento.
     - Bem,  melhor voc ficar com ele daqui por diante - aconselhou Frebec ao dar meia-volta para afastar-se. - E vigie-o. Do contrrio, poder ser pisado.
     Depois que Frebec se retirou, vrias pessoas que estavam por perto se entreolharam em total assombro.
     - Foi uma mudana! O que deu nele? - falou Deegie. - Se eu no o conhecesse bem, diria que ele gosta de Lobo, na verdade!
     - Eu no sabia que ele seria capaz disso - falou Ranec, sentindo mais respeito do que jamais tivera pelo homem da Fogueira da Gara.
     As criaturas de quatro patas do domnio da Me sempre tinham sido alimento, pele ou a personificao dos espritos para o Acampamento do Leo. Eles conheciam 
os animais em seu meio natural, conheciam seus movimentos e padres de migrao, sabiam onde procur-los e como ca-los. Mas as pessoas do acampamento nunca tinham 
conhecido animais individuais at Ayla chegar com a gua e o garanho jovem.
     A interao dos cavalos a Ayla e,  medida que o tempo passava, a outras pessoas em vrios graus, era fonte constante de surpresa. Jamais ocorrera a algum, 
antes, que esses animais responderiam a um ser humano, ou que poderiam ser domesticados para atender a um assobio ou levar um cavaleiro. Mas mesmo os cavalos, com 
todo o interesse e atrao, no provocaram o fascnio do lobinho no acampamento. Eles respeitavam os lobos como caadores e, ocasionalmente, adversrios. s vezes, 
um lobo era caado por causa de uma pele de inverno e, embora fosse raro, um homem era vtima ocasional de uma alcatia. A maior parte das vezes, lobos e homens 
tendiam a respeitar-se e evitar-se mutuamente.
     Mas os muito jovens sempre exercem uma atrao especial; so a fonte inata de sua sobrevivncia. Os bebs, inclusive os animais, tocam alguma corda interior 
que ressoa em resposta, mas Lobo - o nome pelo qual passou a ser conhecido - possua um charme especial. Desde o primeiro dia em que o peludo filhote cinza-escuro 
caminhou com passos vacilantes sobre o cho da habitao, atraiu a populao humana. Seus modos ansiosos de filhote eram irresistveis e logo se tornou o favorito 
do acampamento.
     Ajudou, embora as pessoas do acampamento no o percebessem, que os hbitos dos homens e dos lobos no fossem to diferentes. Ambos eram animais inteligentes, 
sociveis, que se organizavam dentro de um padro global de relacionamentos complexos e mutveis, que beneficiava o grupo enquanto acomodava as diferenas individuais. 
Devido s semelhanas de estruturas sociais e certas caractersticas que tinham evoludo, independentemente, em candeos e humanos um relacionamento nico se tornou 
possvel entre eles.

     A vida de Lobo comeou sob circunstncias incomuns e difceis. Como nico sobrevivente de uma ninhada nascida de uma loba solitria que perdera o companheiro, 
ele nunca conheceu a segurana de uma alcatia. Mais do que o conforto de irmos, ou de uma tia ou tio solcitos, que teriam permanecido por perto, no caso de a 
me sair por pouco tempo, ele havia experimentado a solido rara para um filhote de lobo, O nico outro lobo que conhecera fora  me, e sua lembrana dela se toldava 
 medida que Ayla tomava o seu lugar.
     Ayla, porm, era mais alguma coisa. Ao decidir manter e criar o filhote tornou-se a metade humana de um elo extraordinrio que se desenvolveu entre duas espcies 
completamente diferentes - dos candeos e dos humanos -, um elo que teria efeitos profundos e duradouros.
     Mesmo se houvesse outros lobos por perto, Lobo era novo demais quando foi encontrado para ter-se ligado a eles adequadamente Em sua idade, um ms, mais ou menos, 
ele teria apenas comeado a sair da cova para encontrar os parentes, os lobos a quem teria se associado pelo resto da vida. Em vez disso, ele se fixou nas pessoas, 
e nos cavalos, do Acampamento do Leo.
     Foi a primeira, mas no seria a ltima vez. Por acaso ou desgnio, enquanto a idia se espalhava, aconteceria de novo, muitas vezes, em inmeros locais. Os 
ancestrais de todas as raas domsticas caninas eram lobos, e conservaram no comeo suas caractersticas essenciais de lobo. Mas,  medida que o tempo passou, as 
geraes de lobos nascidas e criadas em um ambiente humano comearam a diferir dos candeos selvagens originais.
     Animais nascidos com variaes genticas normais na cor, forma e tamanho - um plo escuro, uma mancha branca, um rabo curvado para cima, um tamanho maior ou 
menor - que os teriam empurrado para a periferia ou para fora da alcatia, em geral, eram protegidos pelos homens. 
     Mesmo aberraes genticas na forma de pigmeus, anes, ou gigantes de ossos pesados, que no teriam sobrevivido na selva para a reproduo, eram protegidos 
e criados. Eventualmente, candeos incomuns ou aberraes eram criados para a preservao e fortalecimento de certas caractersticas desejveis para os homens, at 
a semelhana externa de muitos ces com o lobo ancestral ser to remota, realmente. Contudo, as caractersticas do lobo - inteligncia, proteo, lealdade e ludismo 
permaneciam.
     Lobo foi rpido em descobrir pistas de posio social relativa dentro do acampamento, como teria feito em uma alcatia, embora sua interpretao de status talvez 
no estivesse de acordo com as noes dos homens. Embora Tulie fosse a chefe do Acampamento do Leo, para Lobo, Ayla era a mulher mais importante; em uma alcatia, 
a me da ninhada era a lder e raramente permitia que outras fmeas tivessem filhos.
     Ningum no acampamento sabia exatamente o que o animal pensava ou sentia, ou se sequer tinha pensamentos e sentimentos que pudessem ser compreendidos pelos 
humanos, mas isso no importava. As pessoas do acampamento julgavam pelo comportamento e pelas aes de Lobo, ningum duvidava de que ele amava e idolatrava Ayla, 
ilimitadamente. Onde quer que ela estivesse ele sempre tinha conscincia dela, e a um assobio, um estalo dos dedos, um gesto de aceno, at a uma inclinao da cabea, 
ele estava a seus ps, a cabea erguida com adorao nos olhos, antecipando avidamente seu menor desejo. Era totalmente altrusta em suas respostas, e completamente 
clemente. Gania em desespero servil quando ela o censurava e se retorcia em xtases de deleite quando ela o acalmava. Vivia para a ateno de Ayla. Sua maior alegria 
era quando ela brincava ou corria com ele, mas at uma palavra ou um carinho eram suficientes para provocar lambidas excitadas e outros bvios sinais de devoo.
     Lobo no era to efusivo com mais ningum. Ele demonstrava, com a maioria, graus diversos de amizade ou aceitao, causando certa surpresa por poder demonstrar 
tal variedade de sentimentos. Sua reao a Ayla fortaleceu a percepo do acampamento de que ela possua uma capacidade mgica de controlar animais, e aumentou seu 
valor.
     O lobinho tinha um pouco mais de dificuldade em determinar quem era o lder masculino em seu grupo humano. Aquele que mantinha essa posio na alcatia era 
objeto da ateno mais solcita de todos os outros lobos. Uma cerimnia de saudao, em que o lder macho era cercado pelo resto do grupo vido para lamber-lhe o 
rosto, cheirar sua pele e ficar prximo, terminando freqentemente com uma maravilhosa cerimnia comunal de uivos, em geral, confirmava sua liderana. Mas o grupo 
de homens no oferecia essa deferncia a nenhum macho em particular.
     Lobo observou, contudo, que os dois grandes membros de quatro patas do seu bando no-convencional, saudavam o alto homem louro com mais entusiasmo do que qualquer 
outra pessoa, exceto Ayla. Alm disso, seu odor permanecia fortemente perto da cama de Ayla e da rea prxima, o que inclua a cesta de Lobo. Na ausncia de outras 
pistas, Lobo se inclinou a reconhecer a liderana do grupo em Jondalar. Sua tendncia se fortaleceu quando seus avanos amistosos foram recompensados com ateno 
afetuosa e ldica.
     A meia-dzia de crianas que brincavam juntas eram seus companheiros de ninhada e Lobo podia ser encontrado, muitas vezes, com elas, na Fogueira do Mamute. 
Assim que desenvolveram um respeito adequado por seus dentes pequenos e afiados, as crianas descobriram que Lobo gostava de ser tocado, acariciado e afagado. Tolerava 
excesso no-intencional e parecia saber a diferena entre Nuvie apert-lo com um pouco de excesso de fora quando o carregava, e Brinan puxar-lhe o rabo apenas para 
v-lo gritar. O primeiro era suportado com pacincia, o ltimo recompensado com uma mordida de retribuio. Lobo gostava de brincar e sempre conseguia meter-se no 
meio de lutas, e as crianas aprenderam depressa que ele amava ir buscar coisas que eram jogadas. Quando todas se amontoavam em uma pilha, cansadas, adormecendo 
onde quer que estivessem, o filhote de lobo estava entre elas, muitas vezes.
     Ayla, aps a primeira noite em que prometera jamais deixar o lobo ferir qualquer pessoa, tomou a deciso de trein-lo com propsito e ateno. No comeo, seu 
treinamento de Whinney fora casual. 
     Ela havia agido impulsivamente na primeira vez que montou a gua, e no soubera que estava, intuitivamente, aprendendo a dominar o animal,  medida que cavalgava. 
Embora agora estivesse ciente dos sinais que desenvolvera e os usasse conscientemente, seus meios de controle eram muito intuitivos, e Ayla acreditava que Whinney 
obedecia s suas ordens porque queria.
     Treinar o leo da caverna havia sido um pouco mais intencional. Quando ela encontrou o filhote ferido, sabia que um animal podia ser encorajado a seguir-lhe 
os desejos. Seus primeiros esforos de treinamento foram dirigidos ao controle do afeto indisciplinado do leozinho. Ela treinava pelo amor, da mesma forma que as 
crianas era criadas pelo Cl. Re compensava seu comportamento meigo com afeto, e o afastava firmemente ou se levantava e ia embora quando ele esquecia de recolher 
suas garras ou brincava com exagerada rudeza. Quando, por excitao, ele se inclinava para ela com entusiasmo descontrolado, aprendera a deter-se quando ela erguia 
a mo e dizia Pare! Com voz decidida. A lio foi to bem assimilada que, mesmo quando se tornou um leo da caverna totalmente adulto, quase to alto, porm mais 
pesado que Whinney, detinha-se diante de uma ordem de Ayla. Invariavelmente ela respondia com coaduras e carinhos afetuosos e, s vezes, um abrao completo, rolando 
com ele no solo. Ao crescer, ele aprendeu muitas coisas, at mesmo a caar com ela.
     Ayla logo compreendeu que as crianas podiam beneficiar-se de algum entendimento sobre os hbitos dos lobos. Comeou a contar-lhes histrias sobre a poca em 
que ela aprendia a caar e observar os lobos juntamente a outros carnvoros. Ela explicou que as alcatias tinham uma lder fmea, e um lder macho, como os Mamutoi, 
e lhes falou que os lobos se comunicavam com alguns gestos e posturas e tambm com sons vocais. Ela lhes mostrou, com as mos no cho e de joelhos, a postura de 
um lder - cabea erguida, orelhas levantadas, rabo esticado - e a postura de um que se aproximava de um lder - um pouco mais abaixado e lambendo o focinho do lder 
- ajuntando sons com imitao perfeita. Descreveu avisos de ficar longe e comportamento brincalho. O lobinho participava, muitas vezes.
     As crianas gostavam e freqentemente os adultos ouviam com igual prazer. Logo, os sinais do lobo estavam incorporados  brincadeira das crianas, mas ningum 
os usava melhor, ou com maior compreenso, do que a criana cuja prpria linguagem era falada principalmente por sinais. Um relacionamento extraordinrio se desenvolveu 
entre o lobo e o menino, surpreendendo as pessoas do acampamento, e fez Nezzie sacudir a cabea, espantada. Rydag no somente usava os sinais do lobo, inclusive 
muitos dos sons, mas parecia avan-los um passo  frente. Para as pessoas que observavam, pareciam inmeras s vezes em que eles falavam realmente um com o outro, 
e o animalzinho indicava saber que o menino exigia ateno e cuidado especiais.
     Desde o incio, Lobo foi menos indisciplinado, mais manso perto de Rydag e, em sua maneira de filhote, seu guardio. Exceto por Ayla, no havia outra companhia 
que Lobo preferisse mais. Se Ayla estivesse ocupada, ele procurava Rydag, e era encontrado, muitas vezes, dormindo em seu colo ou perto dele. Ayla no tinha absoluta 
certeza de como Lobo e Rydag vieram a se entender to bem. A habilidade inata de Rydag de ler nuanas sutis nos sinais do lobo talvez explicasse a capacidade do 
menino, mas como um animal poderia conhecer as necessidades de uma frgil criana?
     Ayla desenvolveu sinais de lobo modificados com outras ordens, para treinar o filhote. A primeira lio, depois de vrios acidentes, foi usar uma cesta de esterco 
e cinzas como os homens faziam, ou ir fora da moradia. Foi surpreendentemente fcil; Lobo parecia embaraado com suas confuses, e se encolhia quando Ayla o repreendia. 
A lio seguinte foi mais difcil.
     Lobo adorava mastigar couro, especialmente botas e sapatos, e tirar-lhe o hbito foi vergonhoso e frustrador. Sempre que ela o pegava em flagrante e o censurava, 
ele se arrependia e ficava ansioso para agradar, mas era teimoso e voltava ao couro novamente, s vezes no instante em que Ayla virava as costas. A proteo dos 
ps de qualquer pessoa corria um risco, porm, especialmente, as meias macias de couro, prediletas de Ayla. Lobo parecia no poder deix-las em paz. Ayla teve que 
pendur-las ao alto, onde ele no as podia alcanar ou teriam sido dilaceradas. Porm, embora objetasse  mastigao de suas coisas pelo lobinho, sentia-se muito 
pior quando ele estragava algo de outra pessoa. Ela era responsvel por sua vinda para a moradia, e achava que qualquer prejuzo causado por Lobo, fosse culpa dela.
     Ayla costurava as contas de terminao na tnica de couro branco quando ouviu uma agitao na Fogueira da Raposa.
     - Ei! Voc! D-me isso! - gritou Ranec.
     Ayla percebeu, pelo som, que Lobo havia feito alguma travessura, de novo. Correu para ver qual era o problema desta vez e viu Ranec e Lobo em luta por uma bota 
usada.
     - Lobo! Solte-a! - disse ela, deixando cair  mo em um gesto rpido a curta distncia do seu focinho.
     O filhote soltou a bota imediatamente e se agachou, com as orelhas levemente para trs e o rabo abaixado, e chorou de modo suplicante. Ranec colocou sua bota 
no estrado.
     - Espero que ele no tenha estragado sua bota - disse Ayla.
     - No importa,  velha - falou Ranec, sorrindo e acrescentou, com admirao: - Voc conhece lobos, Ayla. Ele faz exatamente o que voc manda.
     - Mas, somente enquanto estou perto e o vigio - disse ela, olhando para o animal. Lobo a observava, retorcendo-se na expectativa. - No instante em que dou as 
costas, ele mexe em outra coisa que no deve. Larga o objeto quando v que me aproximo, mas no sei como ensin-lo a no pegar as coisas dos outros.
     - Talvez precise de alguma coisa s dele - falou Ranec. Ento olhou Ayla com olhos negros ternos e acolhedores: - Ou talvez sua.
     O animal se erguia para ela, chorando em busca de sua ateno. Por fim, impaciente, ganiu algumas vezes.
     - Fique aqui! Fique quieto! - exclamou ela, zangada. Ele recuou, deitou-se sobre as patas e ergueu os olhos para ela, totalmente arrasado.
     Ranec observou, depois disse a Ayla:
     - Ele no suporta quando voc se zanga com ele. Quer que saiba que a ama. Acho que sei como ele se sente.
     Ele se aproximou e os olhos escuros se encheram de calor e necessidade que a tinham comovido tanto antes. Ayla sentiu uma resposta, como um formigamento, e 
recuou, corada. Ento, para encobrir a agitao, inclinou-se e pegou o lobinho que lambeu seu rosto, excitadamente, contorcendo-se de felicidade.
     - V como ele est feliz agora, sabendo que voc gosta dele? - falou Ranec. - Eu tambm ficaria feliz se soubesse que voc se importa comigo. Importa-se?
     - Hum... Claro que sim, Ranec - gaguejou Ayla, pouco  vontade.
     Ele exibiu um largo sorriso, e seus olhos cintilaram com uma ponta de malcia e algo mais profundo.
     - Seria um prazer lhe mostrar como fico feliz ao saber que voc gosta de mim - disse ele, colocando o brao em volta da cintura de Ayla, e aproximando-se mais.
     - Acredito em voc - disse ela, afastando-se. - No precisa me mostrar, Ranec.
     No era a primeira vez que ele fazia investidas. Em geral, eram disfaradas em gracejos que permitiam que ela soubesse como ele se sentia, enquanto dava a chance 
a Ayla de evit-los sem que nenhum dos dois perdesse o prestgio. Ela comeou a caminhar de volta, pressentindo uma confrontao mais sria e querendo evit-la. 
Tinha a impresso de que ele pediria para que fosse para a cama dele, e ela no sabia se poderia recusar um homem que lhe ordenava para ir para sua cama, ou mesmo 
fazia um pedido direto. Ela compreendia que era direito dela, mas a resposta obediente estava to arraigada que no tinha certeza se poderia ser de outra forma.
     - Por que no, Ayla? - disse ele, seguindo-a e emparelhando o passo com o dela. - Por que no deixa eu lhe mostrar? Dorme sozinha agora. No deveria dormir 
sozinha.
     Ela sentiu uma ponta de remorso, compreendendo que dormia sozinha, mas tentou no demonstr-lo.
     - No durmo sozinha - retrucou, pegando o lobinho.  Lobo dorme comigo em uma cesta bem aqui, perto da minha cabeceira.
     - No  a mesma coisa - disse Ranec. O tom de voz era srio e ele parecia pronto para insistir. 
     Depois parou e sorriu. No queria apress-la. Sabia que ela estava aborrecida. A separao acontecera havia pouco tempo. Tentou afastar a tenso. - Ele  pequenino 
demais para aquec-la... Mas devo admitir, ele  atraente - esfregou a cabea de Lobo com afeio.
     Ayla sorriu e colocou o filhote na cesta. Imediatamente, ele saltou para fora e depois para o solo; sentou-se e se coou; em seguida, dirigiu-se ao seu prato
de comida. Ayla comeou a dobrar a tnica branca para guard-la. Alisou o couro branco macio e a pele de arminho branco e endireitou os rabinhos com as pontas pretas,
sentindo o estmago se comprimir e um n formar-se em sua garganta. Seus olhos ardiam com as lgrimas que lutava para controlar. No, no era a mesma coisa, pensou.
Como poderia ser?
     - Ayla, sabe o quanto quero voc, o quanto gosto de voc - disse Ranec, de p atrs dela. - No sabe?
     - Acho que sim - disse ela, sem se virar, mas fechando os olhos.
     - Amo voc, Ayla. Sei que est indecisa agora, mas quero que saiba. Amei voc desde o primeiro momento que a vi. Quero partilhar minha fogueira com voc, unir-me 
a voc. Quero fazer voc feliz. Sei que precisa de tempo para refletir sobre isso. No estou pedindo que tome uma deciso, mas diga-me que pensar a respeito... 
Deixe-me faz-la feliz. Pensar?
     Ayla abaixou os olhos para a tnica branca em suas mos e sua mente se agitou. Por que Jondalar no quer mais dormir comigo? Por que parou de me tocar, de dividir 
prazeres, mesmo quando dormia comigo? Tudo mudou depois que me tomei Mamutoi. Ser que ele no queria que eu fosse adotada? Se no queria, por que no me disse? 
Talvez quisesse, disse que queria. Pensei que me amava. Talvez tenha mudado de idia. Talvez no me ame mais. Nunca me pediu para unir-me a ele. O que farei se Jondalar 
partir sem mim? O n em seu estmago era to duro quanto uma rocha. Ranec gosta de mim e quer que eu goste dele. Ele  bom, engraado, sempre me faz rir... E me 
ama. 
     Mas eu no o amo. Eu queria poder am-lo, talvez eu deva tentar.
     - Sim, Ranec, pensarei sobre isso - falou suavemente, mas sua garganta se apertou e doeu enquanto ela falava.
     Jondalar viu Ranec deixar a Fogueira do Mamute. O homem alto se tornara um vigia, embora se sentisse embaraado por isso. No era um comportamento adequado, 
quer nesta sociedade ou na sua, os adultos olharem fixamente ou se preocuparem indevidamente com as atividades comuns de outra pessoa, e Jondalar sempre havia sido 
especialmente sensvel s convenes sociais. Incomodava-o parecer to imaturo, porm, nada podia fazer. Tentava escond-lo, mas vigiava Ayla e a Fogueira do Mamute 
constantemente.
     O passo vivaz do escultor e o sorriso satisfeito quando voltou  Fogueira da Raposa encheram o visitante alto de horror. Sabia que tinha que ser alguma coisa 
que Ayla havia dito ou feito  causa para tal animao do homem dos Mamutoi e, com sua imaginao mrbida temeu o pior.
     Jondalar sabia que Ranec se tornara uma visita constante desde que ele deixara a Fogueira do Mamute, e censurava-se por ter criado essa oportunidade. Queria 
poder engolir suas palavras e toda a discusso tola, mas estava convencido de que era tarde demais para emendas. Sentia-se desamparado, mas, de certa forma, era 
um alvio haver alguma distncia entre eles.
     Embora no o admitisse a si mesmo, suas aes eram motivadas por mais do que um simples desejo de permitir a Ayla a escolha do homem que ela queria. Ele fora 
magoado to profundamente que parte dele queria retribuir o golpe; se ela podia rejeit-lo, ele podia fazer o mesmo tambm com ela. Mas ele precisava, alm disso, 
de uma chance de ver se era possvel superar o seu amor por ela. Perguntava-se, sinceramente, se no seria melhor para ela permanecer ali, onde era aceita e amada, 
do que voltar com ele para seu povo, e temia qual seria a sua prpria reao se sua gente a rejeitasse. Ele desejaria partilhar uma vida de exlio com ela? Desejaria 
ir embora, abandonar novamente seu povo, especialmente depois de fazer uma jornada to longa para regressar? Ou ele a rejeitaria tambm?
     Se ela escolhesse outro homem para amar, a, ele seria forado a deix-la, e no enfrentaria tal deciso. Mas o pensamento de Ayla amar outro homem o enchia 
de tanta dor no estmago, asfixia, n na garganta, sofrimento insuportvel, que ele no sabia se seria capaz de sobreviver, ou se queria faz-lo. Quanto mais lutava
consigo mesmo para no mostrar seu amor, tanto mais possessivo e ciumento se tornava, e mais odiava a si mesmo por isso.
     O turbilho de tentar resolver suas fortes emoes confusas cobrava o seu preo. Ele no era capaz de comer ou dormir, e parecia macilento e enfraquecido. As
roupas comeavam a ficar folgadas em seu corpo alto. No podia se concentrar, nem sequer em um novo e bonito pedao de slex. As vezes, perguntava-se se estava enlouquecendo,
ou possudo por algum esprito noturno pernicioso. Estava to torturado pelo amor por Ayla, pela dor de que ia perd-la e pelo medo do que aconteceria se no a deixasse,
que no suportava ficar muito perto dela. Tinha medo de perder o controle e fazer alguma coisa por que se lamentasse. Mas no podia deixar de vigi-la.
     O Acampamento do Leo era clemente em relao  pequena indiscrio de seu visitante. Eles estavam cientes de seus sentimentos por Ayla apesar das tentativas 
para escond-los. Todos, no acampamento, comentavam a situao difcil em que os trs jovens estavam envolvidos. A soluo para o seu problema parecia muito simples 
para aqueles que observavam do lado de fora. Ayla e Jondalar gostavam um do outro, obviamente, portanto, por que simplesmente no diziam um ao outro o que sentiam 
e depois convidavam Ranec para partilhar sua unio? Mas Nezzie sentia que no era to simples assim. A mulher sbia, maternal, achava que o amor de Jondalar por 
Ayla era forte demais para ser sustado pela falta de algumas palavras. Alguma coisa muito mais profunda estava entre eles.
     E ela, mais do que ningum, compreendia a fora do amor de Ranec pela jovem. Ela no acreditava que era uma situao que pudesse ser resolvida com uma unio 
partilhada. Ayla teria que fazer uma escolha.
     Como se a idia possusse algum poder impelente, desde que Ranec havia pedido a Ayla para pensar sobre dividir sua fogueira, e exps o fato obviamente doloroso 
de que, agora, ela dormia sozinha, ela no havia sido capaz de pensar em outra coisa. Ela se agarrara  convico de que Jondalar esqueceria suas palavras duras 
e voltaria, especialmente desde que, aparentemente toda vez que ela olhava para a rea de cozinhar, vislumbrava-o, entre as estacas de sustentao e objetos pendendo 
do teto nas fogueiras intermdias, quando ele se virava e afastava. Isso a fazia pensar que ele ainda se interessava o suficiente para olhar na sua direo. Mas 
cada noite que passava sozinha reduzia sua esperana.
     Pensar sobre isso... As palavras de Ranec se repetiam na mente de Ayla, enquanto esmagava bardana seca e folhas de samambaia para um ch para a artrite de Mamut, 
refletindo sobre o homem escuro e sorridente, e se perguntando se ela poderia aprender a am-lo. Mas o pensamento de sua vida sem Jondalar fazia seu estmago doer 
com um vazio estranho. Ela ajuntou gualtria fresca e gua quente s folhas esmagadas em uma tigela e levou para o velho.
     Sorriu quando ele lhe agradeceu, mas parecia preocupada e triste. Estivera distrada o dia inteiro. Mamut sabia que ela ficara perturbada desde que Jondalar 
se mudara, e gostaria de poder ajudar. 
     Havia visto Ranec falando-lhe antes e pensou em tentar conversar com ela a respeito disso, mas acreditava que nada acontecia na vida de Ayla sem uma finalidade. 
Estava convencido de que a Me havia criado suas dificuldades atuais por um motivo, e hesitava em interferir. Quaisquer provaes que ela e os dois rapazes passassem 
eram necessrias. Observou-a saindo para o anexo dos cavalos e ficou ciente quando ela voltou, algum tempo depois.
     Ayla protegeu o fogo, voltou para seu estrado-cama, despiu-se e se preparou para dormir. Era um sofrimento enfrentar a noite sabendo que Jondalar no dormiria 
ao seu lado. Ela se ocupou com pequenas tarefas para retardar a acomodao de si mesma entre as peles, sabendo que permaneceria acordada metade da noite. Por fim, 
pegou o filhote de lobo e colocou-o  beira da cama, afagando, acariciando e falando ao animalzinho clido e adorvel at ele adormecer em seus braos. Depois, o 
colocou na cesta, acariciando-o at se acalmar de novo. Para compensar a ausncia de Jondalar, Ayla esbanjava amor pelo lobinho.
     Mamut compreendeu que estava acordado e abriu os olhos. Mal podia distinguir formas vagas na escurido. A habitao estava silenciosa, a noite tranqila, cheia 
apenas com os sussurros leves, a respirao forte, e baixos roncos. Devagar, virou a cabea para o fraco brilho vermelho das brasas da fogueira, esforando-se para 
descobrir o que o havia tirado de um sono profundo para um despertar pleno. Ouviu a respirao contida perto, e um soluo abafado e afastou suas cobertas.
     - Ayla? Ayla, est sofrendo? - perguntou, suavemente, ela sentiu a mo clida em seu brao.
     - No - respondeu ela, a voz rouca da tenso. Seu rosto estava voltado para a parede.
     - Est chorando.
     - Desculpe, eu o acordei. Devia ter feito menos barulho.
     - Voc no fez barulho que me acordasse, foi sua necessidade que me despertou. A Me me chamou para ver voc, que est sofrendo. Est ferida por dentro, no 
?
     Ayla respirou fundo, dolorosamente, esforando-se para conter o choro que queria se expressar.
     - Sim - disse ela, e se virou para o velho, as lgrimas brilhando na luz fraca.
     - Ento, chore, Ayla. No deve prender o choro. Tem razo para estar sofrendo e tem o direito de chorar - falou Mamut.
     - Oh, Mamut - exclamou ela, um grande soluo se ouvindo; depois conteve o som ainda, mas com o alvio da permisso dele derramou silenciosamente o choro de 
seu sofrimento e angstia.
     - No se contenha, Ayla.  bom chorar - disse ele, sentando-se  beira da cama da jovem e dando-lhe tapinhas carinhosos. - Tudo se resolver como deve, como 
se destina a ser. Est tudo bem, Ayla.
     Quando ela parou, afinal, encontrou um pedao de couro macio para limpar o rosto e nariz, e sentou-se ao lado do velho.
     - Sinto-me melhor agora - falou.
     -  sempre bom chorar quando se sente necessidade, mas no est terminado, Ayla.
     Ayla inclinou a cabea.
     - Eu sei. - Depois se virou para ele e perguntou: - Mas, por qu?
     - Algum dia voc saber por qu. Acredito que sua vida  dirigida por foras poderosas. Voc foi escolhida para um destino especial. No  um fardo fcil o 
que voc carrega; veja o que j passou durante sua curta vida. Mas sua vida no ser de sofrimento somente, ter grandes alegrias.  amada, Ayla. Atrai amor para 
voc. Isso lhe  dado para ajud-la a suportar o fardo. Voc ter sempre amor... Talvez demasiado...
     - Pensei que Jondalar me amava...
     - No fique muito certa de que no a ama, mas muitas outras pessoas a amam, inclusive este velho - disse Mamut, sorrindo. Ayla sorriu tambm. - At um lobo 
e cavalos amam voc. No existiram muitos que a amaram?
     - Tem razo. Iza me amava. Era minha me. No importava que eu no tivesse nascido dela. Quando morreu, disse que me amava muito... Creb me amou... Embora eu 
o tenha desapontado...- e magoado. - Ayla parou por um momento, depois continuou: - Uba me amava... E Durc. - Parou de novo. - Acha que tornarei a ver meu filho, 
um dia, Mamut?
     O feiticeiro fez uma pausa antes de responder.
     - Quanto tempo faz que voc no o v?
     - Trs... No, quatro anos. Ele nasceu no comeo da primavera. Tinha trs anos quando parti.  quase da idade de Rydag... - De repente, Ayla olhou para o velho 
feiticeiro e falou com grande excitao. - Mamut, Rydag  uma criana mista, exatamente como meu filho. Se Rydag pode viver aqui, por que Durc no poderia? Voc 
foi at a pennsula e voltou, por que eu no poderia ir buscar Durc e traz-lo para c? No  to longe.
     Mamut franziu a testa, considerando sua resposta.
     - No posso responder a isso, Ayla, somente voc pode, mas deve refletir com muito cuidado antes de resolver o que  melhor, no s para voc, mas para seu 
filho. Voc  Mamutoi. Aprendeu a falar nossa lngua, e aprendeu muitos de nossos costumes, mas ainda tem muito o que aprender sobre nossos hbitos.
     Ayla no ouvia as palavras cuidadosamente escolhidas pelo feiticeiro. Sua mente j corria  frente.
     - Se Nezzie pde aceitar uma criana que nem sequer pode falar, por que no uma que  capaz de falar? Durc seria capaz, se tivesse uma lngua para aprender. 
Durc poderia ser um amigo para Rydag. Durc o ajudaria, correria e traria coisas para ele. Durc  um bom corredor.
     Mamut deixou-a continuar a recitao entusistica das virtudes de Durc at ela parar por conta prpria, e depois lhe perguntou:
     - Quando pretenderia ir busc-lo, Ayla?
     - Assim que puder. Esta primavera... No,  muito duro viajar na primavera, h muitas enchentes. Terei de esperar o vero. - Ayla fez uma pausa. - Talvez no. 
Este  o vero da Reunio de Cls. 
     Se eu no chegar l antes de eles partirem, terei que esperar sua volta. Mas, ento, Ura estar com eles...
     - A menina que foi prometida a seu filho? - indagou Mamut.
     - . Dentro de poucos anos, sero companheiros. As crianas do Cl crescem mais cedo do que as dos Outros... Do que eu cresci. Iza achava que eu jamais me tornaria 
mulher. Eu era to lenta em comparao com as meninas do Cl... Ura podia ser mulher, contudo, e pronta para ter um companheiro e sua prpria fogueira. - Ayla franziu 
atesta. - Era beb quando a vi e a Durc... A ltima vez que vi Durc... Era um menininho. Breve ser um homem, sustentando sua companheira, uma mulher que pode ter 
filhos. Eu nem mesmo tenho um companheiro. A companheira de meu filho pode dar  luz antes de mim.
     - Sabe qual  sua idade, Ayla?
     - No exatamente, mas sempre conto meus anos no fim do inverno, mais ou menos agora. No sei por qu. - Franziu a testa de novo. - Acho que  hora de eu ajuntar 
outro ano. Isso significa que devo estar... - Fechou os olhos para se concentrar nas palavras de contagem. - Tenho dezoito anos agora, Mamut. Estou envelhecendo!
     - Voc tinha onze quando seu filho nasceu? - perguntou ele, surpreso. Ayla concordou com um gesto de cabea. - Conheci algumas meninas que se tornaram mulheres 
com nove ou dez anos, mas  muito cedo. Latie ainda no  mulher, e est com doze anos.
     - Ela ser, breve. Afirmo-lhe - falou Ayla.
     - Acho que tem razo. Mas no  to velha, Ayla. Deegie tem dezessete e s se unir neste vero, na Reunio de Vero.
     -  verdade, e prometi que eu tomaria parte em seu Matrimnio. No posso ir a uma Reunio de Vero e a uma Reunio de Cls ao mesmo tempo.
     - Mamut a viu empalidecer. - No posso ir a uma Reunio de Cls, de qualquer maneira. Nem sequer estou certa de poder voltar para o Cl. Fui amaldioada. Estou 
morta. At Durc pode pensar que sou um esprito e ter medo de mim. Oh, Mamut! O que devo fazer?

     - Deve refletir sobre tudo isso com cuidado, antes de resolver o que  melhor - replicou ele. Ela parecia preocupada e ele decidiu mudar de assunto.
     - Mas, voc tem tempo. Ainda no  primavera. O Festival de Primavera acontecer antes de nos darmos conta, no entanto. J pensou na raiz e na cerimnia de 
que falou? Quer incluir isso no Festival de Primavera?
     Ayla sentiu um arrepio. A idia a amedrontava, mas Mamut estaria presente, para ajudar. Ele saberia o que fazer, e parecia to interessado em querer aprender 
sobre aquilo.
     - Est bem, Mamut. Sim, eu farei isso.
     Jondalar soube da mudana no relacionamento entre Ayla e Ranec imediatamente, embora no quisesse aceitar o fato. Observou-os durante vrios dias at no poder 
negar a si mesmo que Ranec quase vivia na Fogueira do Mamute e que sua presena era bem-vinda e apreciada por Ayla. No importava quanto ele tentava se convencer 
de que era melhor assim, e que ele havia feito o que era certo ao se mudar, no conseguia acalmar a dor de perder o amor de Ayla, ou vencer a mgoa de ser excludo. 
Apesar do fato de que fora ele quem se retirara e, voluntariamente, havia deixado a cama e a companhia da jovem, agora sentia que ela o estava rejeitando.
     Eles no precisaram de muito tempo, pensou Jondalar. Ele estava l no dia seguinte, rondando-a, e ela mal podia esperar que eu fosse embora para dar-lhe as 
boas-vindas. Deviam estar apenas esperando a minha partida. Eu deveria saber...
     Por que a est culpando? Foi voc quem saiu, Jondalar, disse a si mesmo. Ela no o mandou embora. Depois da primeira vez, ela no voltou para ele. Ela estava 
l, pronta para voc, e voc sabe disso...
     Assim, agora, ela est pronta para ele. E ele est ansioso. Pode culp-lo? Talvez seja melhor assim. Ela  querida aqui, esto mais habituados com cabeas-chatas... 
Cl. E  amada...Sim,  amada. No  isso que quer para ela? Ser aceita e ter algum que a ame...
     Mas, eu a amo pensou ele com um jorro de dor e angstia.  Me! Como suport-lo? Ela  a nica mulher que j amei dessa maneira. No quero que seja magoada, 
no quero que seja rejeitada. Por que ela?  Doni, por que tinha que ser ela?
     Talvez eu deva partir.  isso, eu partirei, pensou, alm da capacidade de refletir claramente naquele momento.
     Jondalar se dirigiu com passos largos  Fogueira do Leo e interrompeu Talut e Mamut, que discutiam o prximo Festival de Primavera.
     - Vou embora - desabafou. - O que posso fazer para negociar em troca de alguns suprimentos? - Tinha uma expresso manaca de desespero.
     Um olhar sagaz foi trocado pelo feiticeiro e o chefe.
     - Jondalar, meu amigo - falou Talut, batendo em seu ombro - ficaremos felizes em lhe dar quaisquer suprimentos de que necessite, mas no pode partir agora. 
A primavera est prxima, porm, olhe l fora, est soprando uma nevasca, e as nevascas de fim de estao so as piores.
     Jondalar se acalmou e compreendeu que seu impulso repentino de ir embora era impossvel. Ningum, em seu juzo perfeito, iniciaria uma longa jornada agora.
     Talut sentiu um relaxamento de tenso nos msculos de Jondalar, enquanto continuava falando.
     - Na primavera, haver enchente, e existem muitos rios para cruzar. Alm disso, no pode viajar para to distante de seu lar, passar o inverno com os Mamutoi 
e no caar mamutes com os Caadores de Mamutes, Jondalar. Se voltar, voc jamais ter outra chance. A primeira caada ser no incio do vero, pouco depois de todos 
irmos  Reunio de Vero. A melhor poca para comear a viajar seria em seguida. Voc me faria um grande favor se pensasse em ficar conosco at, ao menos, a primeira 
caada de mamutes. Eu gostaria que voc mostrasse seu arremessador de lanas.
     - Sim, claro, pensarei sobre isso - falou Jondalar. Depois, olhou para o grande chefe de cabelos ruivos. Encarou-o: - E obrigado, Talut. Tem razo. No posso 
partir agora.
     Mamut estava sentado de pernas cruzadas em seu local favorito para meditao, o estrado-cama perto do dele, que era usado como depsito para cobertas extras 
de cama, de pele de rena, peles e outras roupas de cama. No meditava tanto quanto pensava. Desde a noite em que fora despertado pelas lgrimas de Ayla, estava muito 
mais ciente do desespero de Ayla devido  mudana de Jondalar. A lamentvel infelicidade dela havia deixado uma impresso profunda nele. Embora ela conseguisse esconder 
a extenso de seus sentimentos da maioria das pessoas, ele estava mais consciente, agora, de pequenos detalhes do comportamento de Ayla que talvez passassem despercebidos 
antes. Apesar de gostar verdadeiramente da companhia de Ranec, e rir de suas piadas, Ayla estava vencida, e o cuidado e ateno esbanjados com Lobo e os cavalos 
tinham a caracterstica de anseio desolado.
     Mamut prestava maior ateno ao visitante alto e notou a mesma tristeza no comportamento de Jondalar. Ele parecia cheio de ansiedade e tormento, embora tambm 
tentasse escond-los. Aps o desesperado impulso de partir no meio de uma tempestade, o velho feiticeiro temia que o bom senso de Jondalar deixasse de existir diante 
do pensamento de perder Ayla. Para o velho feiticeiro, que lidava to intimamente com o mundo espiritual de Mut e Seus destinos, aquilo implicava uma compulso mais 
profunda do que simplesmente amor jovem. Talvez a Me tivesse planos para ele tambm; planos que envolviam Ayla.
     Embora Mamut relutasse em avanar, perguntou-se por que a Me lhe havia mostrado aquilo. Ela era a fora por trs de seus sentimentos mtuos. Apesar de ele 
estar convencido de que, posteriormente, Ela daria um jeito nas circunstncias segundo Lhe conviesse, talvez Ela quisesse que ele ajudasse nesse caso.
     Enquanto refletia se e como tornaria os desejos da Me conhecidos, Ranec entrou na Fogueira do Mamute, obviamente procurando por Ayla. Mamut sabia que ela levara 
o filhote do lobo para uma cavalgada em Whinney e no voltaria loga Ranec olhou ao redor, depois viu o velho e se acercou.
     - Sabe onde Ayla est, Mamut? - interrogou.
     - Sim. Ela saiu com os animais.
     - Perguntava-me por que eu no a via h algum tempo.
     - Voc tem visto muito Ayla, ultimamente.
     Ranec sorriu:
     - Espero ver muito mais ainda.
     - Ela no chegou aqui sozinha, Ranec. Jondalar no tem um interesse anterior?
     - Talvez tivesse, quando chegaram, mas ele desistiu. Saiu da fogueira - disse Ranec. Mamut notou que o tom era defensivo.
     - Acho que ainda existe um sentimento forte entre eles. No creio que a separao seja permanente se sua ligao profunda tiver uma chance de crescer novamente, 
Ranec.
     - Se est me dizendo para recuar, Mamut, lamento muito.  tarde demais. Tambm tenho um sentimento forte por Ayla. - A voz de Ranec se partiu com a emoo que 
sentia. - Mamut, amo Ayla, quero unir-me a ela, fazer uma fogueira com ela.  hora de me fixar com uma mulher e quero seus filhos na minha fogueira. Jamais conheci 
algum como ela.  tudo o que sonhei. Se puder convenc-la a concordar, quero anunciar nossa promessa no Festival de Primavera, e unir-me no Matrimnio este vero.
     - Est certo de que  o que quer, Ranec? - perguntou Mamut. Ele gostava de Ranec e sabia que Wymez ficaria satisfeito se o menino de pele escura, que ele trouxera 
de suas viagens, encontrasse uma mulher e se fixasse. - H muitas mulheres Mamutoi que acolheriam bem uma unio com voc, O que diria daquela bela jovem de cabelos 
ruivos com quem voc quase assumiu compromisso? Qual o nome dela? Tricie? - Mamut estava certo de que, se um rubor pudesse se revelar, o rosto de Ranec estaria rubro.
     - Eu direi... Eu direi que lamento. No posso fazer nada. No h mais ningum que eu queira, a no ser Ayla. Agora, ela  Mamutoi. Deve unir-se a um Mamutoi. 
Quero que este seja eu.
     - Se tiver que ser, Ranec - disse Mamut bondosamente-, ser, mas lembre-se disto: a escolha no  sua. No  sequer de Ayla. Ela foi escolhida pela Me para 
um objetivo e recebeu muitas ddivas. No importa o que voc decida, ou o que ela decida. Mut tem o primeiro direito sobre ela. Qualquer homem que se unir a ela, 
se une tambm com o seu propsito.
      medida que a terra antiga inclinou seu rosto setentrional gelado imperceptivelmente para mais perto do grande astro brilhante que ela circundava mesmo as 
regies prximas das geleiras sentiram um toque de calor suave e, lentamente, despertaram do sono de um inverno mais longo e rigoroso. 
     A primavera se agitou devagar a princpio, depois, com a pressa de uma estao cujo tempo era curto, retirou a camada congelada num mpeto exuberante que irrigou 
e avivou o solo.
     As gotas pingando de galhos e arcadas no primeiro calor de um meio- dia sem gelo se endureceram em pingentes quando as noites esfriaram. Nos dias gradualmente 
mais quentes que se seguiram, os veios longamente minguados cresceram, escorregaram sua garra gelada e perfuraram montes de neve, reduzidos a amontoados de lodo 
pela gua enlameada. Os regatos, ribeiros e crregos de neve e gelo derretidos se uniram em correntes para arrastar a umidade acumulada que fora mantida em suspenso 
fria. Os rios que se avolumavam desciam velhos canais e regos, ou abriam novos no loesse, s vezes ajudados e dirigidos por uma p de galhada ou uma concha de marfim.
     O rio limitado pelo gelo gemia e rangia em sua luta para afrouxar a garra do inverno enquanto o material derretido se derramava em sua corrente oculta. Ento, 
sem aviso, um estrondo potente, ouvido at na habitao comunal, seguido de um segundo estalo e depois de um rudo retumbante, anunciava que o gelo no detinha mais 
a cheia. Os pedaos de madeira e banquisas, saltitando, afundando, agitando-se, presos e arrastados pela rpida e poderosa corrente, marcavam o ponto crucial da 
estao.
     Como se o frio fosse levado tambm pela enchente, as pessoas do acampamento, to confinadas quanto o rio pelo frio rigoroso, deixavam a habitao comunal. Embora 
estivesse mais quente apenas por comparao, a vida interior restrita mudava para vigorosa atividade externa. Qualquer desculpa para sair era saudada com entusiasmo, 
mesmo a limpeza de primavera.
     As pessoas do Acampamento do Leo eram limpas, por seus prprios padres. Embora a umidade na forma de gelo e neve fosse abundante, era necessrio o fogo e 
grandes quantidades de combustvel para produzir gua. Mesmo assim, parte do gelo e da neve que derretiam para cozinhar e beber era usada para a lavagem, e eles 
tomavam banhos de vapor periodicamente. reas individuais eram geralmente bem organizadas, cuidavam bem de ferramentas e implementos, as poucas roupas que usavam 
no interior da habitao eram escovadas, s vezes lavadas e bem conservadas. Mas, no fim do inverno, o mau cheiro no interior da habitao era inacreditvel.
     Contribuindo para isso estava o alimento em vrias fases de preservao ou deteriorao, cozido, cru e podre; leos inflamveis, muitas vezes ranosos desde 
que pedaos recm-congelados de gordura eram, em geral, acrescentados ao leo velho nas lamparinas; cestas usadas para defecar, nem sempre despejadas imediatamente; 
recipientes de urina guardada para se tornar amonaco pela decomposio da uria atravs das bactrias; e as pessoas. Embora os banhos a vapor fossem saudveis e 
limpassem a pele, quase no eliminavam os odores normais do corpo, mas esse no era o seu propsito. O odor pessoal era parte da identidade de um indivduo.
     Os Mamutoi estavam acostumados com os ricos e fortes odores naturais da vida diria. Seu sentido do olfato era bem desenvolvido e usado, como a viso e audio, 
para manter a conscincia de seu meio. Nem mesmo os odores dos animais eram considerados desagradveis; eram naturais, tambm. Mas  medida que a estao esquentou, 
at os narizes habituados aos odores comuns da vida, comearam a notar as conseqncias de setenta e sete pessoas vivendo juntas em acomodaes prximas, por um 
perodo prolongado. A primavera era a poca em que as cortinas eram abertas para arejar a habitao, e o entulho acumulado de todo o inverno era limpo e jogado fora.
     No caso de Ayla, isso inclua remover, com uma p, os excrementos dos cavalos, do anexo. Os animais tinham resistido bem ao inverno, o que agradou a Ayla, mas 
no era um fato surpreendente. Os cavalos de estepe eram animais fortes, adaptados aos rigores dos invernos difceis. Embora tivessem que ir procura de forragem, 
Whinney e Racer tinham liberdade para ir e vir a um local de proteo bem alm daquele disponvel, em geral, para seus primos selvagens. Alm disso, recebiam gua 
e algum alimento Os cavalos amadureciam depressa no ermo, o que era necessrio, sob circunstncias normais, para a sobrevivncia, e Racer, como outros potros que 
nasceram na mesma poca, havia atingido o desenvolvimento total. Embora ainda fosse engordar um pouco mais nos prximos anos, era um jovem garanho robusto, ligeiramente 
maior que sua me.
     A primavera era tambm a poca de carncias. O suprimento de alguns alimentos, principalmente produtos vegetais preferidos, estava esgotado, e outros alimentos 
se encontravam escassos. Quando examinaram o estoque, todos ficaram contentes por terem ido  caada de bises. Se no o tivessem feito, talvez agora tivessem pouca 
carne. Mas embora a carne os alimentasse, deixava-os insatisfeitos. Ayla, recordando os tnicos de primavera de Iza para o cl de Brun, resolveu fazer alguns para 
o acampamento. Suas tisanas de vrias ervas secas, inclusive de labaa, rica em ferro, e frutos de roseira que evitavam o escorbuto, reduziram a falta oculta de 
vitamina que provocava o desejo por alimento fresco, mas no eliminaram o desejo. Todos estavam ansiosos pelas primeiras verduras frescas. A necessidade de seu conhecimento 
mdico, contudo, foi alm dos tnicos de primavera.
     A habitao comunal parcialmente subterrnea, bem isolada e aquecida por vrios fogos, lamparinas e calor natural dos corpos, era quente. Mesmo quando fora 
era extremamente frio, usavam poucas roupas dentro da moradia. Durante o inverno tomavam cuidado para vestir-se adequadamente antes de sair, mas quando a neve comeou 
a derreter, essa cautela desapareceu. 
     Embora a temperatura subisse apenas um pouco acima de zero, parecia fazer to mais calor, que as pessoas saam usando pouco mais que seus trajes caseiros. Com 
as chuvas primaveris e derretimento da neve, muitas vezes se molhavam e sentiam frio antes de voltar  habitao, o que diminua sua resistncia.
     Ayla estava mais ocupada tratando de tosses, resfriados e dores de garganta, nos dias mais quentes da primavera, do que estivera no maior rigor do inverno. 
A epidemia de resfriados e infeces respiratrias da primavera preocupou todos. At Ayla ficou alguns dias de cama para curar uma febre baixa e uma tosse forte. 
Antes de entrarem realmente na primavera, ela j havia tratado quase todos os membros do Acampamento do Leo. Dependendo da necessidade, ela forneceu chs medicinais, 
tratamentos de vapor, cataplasmas quentes para gargantas e peitos, e uma afabilidade simptica e convincente de enfermaria. Todos elogiavam a eficcia de seus medicamentos. 
No mnimo, ela fazia as pessoas se sentirem melhor.
     Nezzie lhe contou que eles sempre tinham resfriados de primavera, mas quando Mamut apareceu com a doena, pouco depois de Ayla, ela ignorou os sintomas que 
lhe restavam, para cuidar dele. Era um homem muito velho e ela se preocupava com ele. Uma grave infeco respiratria podia ser fatal.
     O feiticeiro, contudo, apesar de sua idade avanada, ainda possua energia e recuperou-se mais depressa do que alguns outros na habitao. Apesar de ter gostado 
da ateno dedicada de Ayla, ele insistiu com ela para que visse os outros que precisavam mais de seus cuidados, e que descansasse.
     Ela no precisou de insistncia quando Fralie apresentou febre, e uma tosse forte que sacudia seu corpo, mas sua vontade de ajudar no fez diferena. Frebec 
no permitiu que Ayla entrasse na fogueira para cuidar de Fralie. Crozie discutiu violentamente com ele e todos concordaram com ela no acampamento, mas ele foi inflexvel. 
Crozie chegou at a discutir com Fralie, tentando convenc-la a ignorar Frebec, sem resultado A mulher doente apenas sacudiu a cabea e tossiu.
     - Mas por qu? - perguntou Ayla a Mamut, tomando uma bebida quente com ele e ouvindo o ltimo espasmo de tosse de Fralie. Tronie havia levado Tasher, que ficava 
entre Nuvie e Hartal em idade, para sua fogueira. Crisavec dormia com Brinan na Fogueira dos Auroques. Assim, a mulher doente e grvida podia descansar, mas Ayla 
se preocupava todas as vezes que Fralie tossia. - Por que ele no me deixa ajud-la? Ele pode ver que outras pessoas se sentem melhor, e ela precisa disso mais que 
ningum. Tossir assim  penoso demais para ela, especialmente agora.
     - No  uma pergunta difcil, Ayla. Se uma pessoa acredita que os membros do Cl so animais,  impossvel acreditar que sabem alguma coisa sobre medicina. 
E se voc cresceu com eles, como poderia saber algo a respeito?
     - Mas eles no so animais! Uma curandeira do Cl  muito capaz.
     - Eu sei disso, Ayla. Sei melhor do que ningum que uma curandeira do Cl  perita. Acho que todos aqui sabem disso, agora, at Frebec. Ao menos apreciam sua 
capacidade, mas Frebec no quer recuar depois de toda a discusso. Ele teme ficar desacreditado.
     - O que  mais importante? O seu prestgio ou o beb de Fralie?
     - Fralie deve achar que o prestgio de Frebec  mais importante.
     - No  culpa de Fralie. Frebec e Crozie tentam fazer com que ela escolha entre eles, e ela no far isso.
     -  uma deciso de Fralie.
     - Esse  o problema. Ela no quer tomar uma deciso. Ela se recusa. 
     Mamut balanou a cabea.
     - No, ela est escolhendo, quer queira ou no. Mas a escolha no  entre Frebec e Crozie. Quanto tempo falta para ela dar  luz? - perguntou ele. - Para mim, 
parece pronta.
     - No tenho certeza, mas acho que ainda no est na hora. Ela parece maior porque  muito magra, mas o beb no se encontra em posio, ainda.  isso que me 
preocupa. Acho que  cedo demais.
     - No h nada que possa fazer, Ayla.
     - Mas se Frebec e Crozie no discutissem tanto sobre tudo...
     - Isso no tem nada a ver com o caso. No  esse o problema de Fralie, isso  entre Frebec e Crozie. Fralie no tem que se deixar ficar no meio do problema 
deles. Ela pode tomar suas prprias decises e, na verdade, est tomando. Est decidindo no fazer nada. Ou melhor, se seus temores so fundados... E acho que so... 
Ela est resolvendo se d  luz agora ou mais tarde. Talvez esteja escolhendo a vida para seu beb, e a morte... E pode estar correndo risco tambm. Mas a escolha 
 dela, e talvez exista mais nesse caso do que qualquer um de ns imagina.
     Os comentrios de Mamut permaneceram na mente de Ayla muito tempo depois de a conversa terminar, e ela foi para a cama ainda pensando neles. Ele estava certo, 
claro. Apesar dos sentimentos de Fralie por sua me e Frebec, a luta no era dela. Ayla tentou pensar em algum meio de convencer Fralie, mas havia tentado antes, 
e agora ela no tinha chance de falar com Fralie porque Frebec a mantinha longe de sua fogueira. Quando Ayla foi dormir, a preocupao pesava em sua cabea.
     Acordou no meio da noite, e jazeu imvel, ouvindo. No tinha certeza do que a havia acordado, mas pensou que foi o som da voz de Fralie gemendo na escurido 
da habitao de terra. Aps um silncio prolongado, ela resolveu que devia ter sido um sonho. Lobo chorou, e ela estendeu a mo para consol-lo. Talvez ele estivesse 
tendo um pesadelo e fora isso que a optar, a despertara. Sua mo paro antes de alcanar o filhote quando ela se es forou para ouvir o que achava ser um gemido abafado.
     Ayla afastou as cobertas e se levantou. Silenciosamente, deu volta  cortina e tateou seu caminho para a cesta a fim de urinar; depois enfiou uma tnica pela 
cabea e caminhou para a lareira. Ouviu uma tosse abafada, depois um espasmo de tossidelas que afinal se converteu em um lamento igualmente sufocado. Ayla avivou 
os carves, ajuntou um pouco de lascas de osso e gravetos at conseguir um fogo pequeno, depois deixou cair nele algumas pedras de cozinhar e estendeu a mo para 
a bolsa de gua.
     - Pode fazer ch para mim tambm - disse Mamut em voz baixa da escurido de seu estrado-cama, depois empurrou suas cobertas e sentou-se. - Acho que todos ns 
estaremos Logo de p.
     Ayla concordou com um gesto de cabea e derramou mais gua na cesta de cozinhar. Houve mais tossidelas, depois agitao e vozes sussurrantes na Fogueira da 
Gara.
     - Ela precisa de algo para acalmar a tosse, e algo para serenar o trabalho... Se no for tarde demais. Acho que vou olhar meus remdios - disse Ayla, pousando 
sua tigela de ch, depois hesitou: - S para o caso de algum pedir.
     Ela pegou um facho e Mamut a observou mover-se entre os suportes de plantas secas que ela trouxera do vale.  uma maravilha v-la praticar sua arte de curar, 
pensou Mamut. Ela  jovem para possuir tal habilidade, no entanto. Se eu fosse Frebec, ficaria mais preocupado com a juventude de Ayla e uma possvel inexperincia, 
do que com o seu passado. Eu sei que ela foi treinada pela melhor, mas como j pode saber tanto? Ela deve ter nascido com esse dom, e a curandeira, Iza, deve t-lo 
percebido desde o incio. Sua reflexo foi interrompida por outro acesso de tosse na Fogueira da Gara.
     - Aqui, Fralie, tome um gole dgua - disse Frebec, ansioso.
     Fralie sacudiu a cabea, incapaz de falar, tentando controlar a tosse. Ela estava de lado, erguida sobre um cotovelo, segurando um pedao de couro macio contra 
a boca. Seus olhos estavam embaciados de febre e o rosto vermelho de esforo. Ela lanou um olhar  me, que estava sentada  beira da cama do outro lado do corredor, 
fitando-a.
     A raiva de Crozie e sua infelicidade eram evidentes. Ela havia tentado tudo para convencer a filha a pedir ajuda: persuaso, discusso, diatribe; nada funcionava. 
At ela havia tomado remdio de Ayla para seu resfriado, e era estupidez de Fralie no usar a ajuda disponvel. Tudo por culpa daquele homem imbecil, Frebec, mas 
no adiantava falar a respeito. Crozie decidira no dizer mais uma s palavra.
     A tosse de Fralie cedeu, e ela caiu de costas na cama, exausta. Livre a outra dor, a que ela no queria admitir, no viesse desta vez. Fralie esperou, prendendo 
a respirao de forma a no perturbar coisa alguma, na expectativa amedrontada. Uma dor comeou na parte inferior de suas costas. Ela fechou os olhos e respirou 
fundo e tentou induzi-la a desaparecer. Colocou uma das mos sobre o lado do estmago dilatado, e sentiu os msculos se contrarem, enquanto a dor e sua ansiedade 
aumentavam.  cedo demais, pensou. O beb no poderia chegar seno dentro de outro ciclo lunar, no mnima.
     - Fralie? Est bem? - perguntou Frebec, ainda de p, com a gua Ela tentou lhe sorrir vendo sua infelicidade, sua sensao de desamparo.
     -  esta tosse - falou. - Todo mundo adoece na primavera.
     Ningum o compreendia, pensou ela, ainda menos sua me. Ele tentava tanto mostrar a todos que valia alguma coisa. Por isto ele no cedia, por isto discutia 
tanto, e se ofendia com tanta facilidade. Ele embaraava Crozie. Ele no compreendia que se mostrava o valor - o nmero e a qualidade de seus parentescos, e a fora 
de sua influncia - por quanto voc podia exigir que a famlia e o seu povo cedessem, de forma que todos pudessem v-lo. Sua me havia tentado mostrar a Frebec, 
dando-lhe o direito da Gara, no apenas a fogueira que Fralie lhe trouxe quando se uniram, mas o direito de reivindicar a Gara como seu direito inato.
     Crozie havia esperado concordncia com os seus desejos e pedidos, para mostrar que ele havia apreciado e entendido que a Fogueira da Gara, que ainda era dela 
no nome, embora ela possusse pouco mais, era dele de direito. Mas as exigncias dela podiam ser excessivas. Ela perdera tanto que era difcil ceder qualquer restante 
reivindicao sua a status, principalmente a algum que tinha to pouco. Crozie temia que ele o reduzisse e precisava de afirmao constante de que era apreciado. 
Fralie no envergonharia Frebec, tentando explicar. Era uma coisa delicada, algo que se crescia sabendo... Se sempre se possura. Mas Frebec jamais teve coisa alguma.
     Fralie comeou a sentir uma dor nas costas, de novo. Se ficasse deitada, imvel, talvez a dor desaparecesse... Se ela conseguisse evitar a tosse. Comeava e 
desejava poder conversar com Ayla, ao menos para tomar um remdio para a tosse, mas no queria que Frebec pensasse que ela estava tomando o partido de sua me. E 
explicaes longas apenas irritariam sua garganta, e poriam Frebec na defensiva. Ela recomeou a tossir, exatamente quando a contrao chegava ao auge. Ela abafou 
um grito de dor.
     - Fralie? ... Mais que tosse? - perguntou Frebec, olhando-a duramente. Achava que uma tosse no a faria gemer daquele jeito.
     Ela hesitou.
     - O que quer dizer? - perguntou.
     - Bem, o beb... Mas voc teve dois filhos, sabe como fazer estas coisas, no sabe?
     Fralie se perdeu em uma tosse dilacerante e quando recuperou o controle, esquivou-se  pergunta.
     A claridade comeava a surgir ao redor das bordas da tampa, do buraco de sada da fumaa, quando Ayla voltou para a cama a fim de acabar de se vestir. A maior 
parte do acampamento estivera acordada metade da noite. Primeiro foi  tosse incontrolvel que os acordou, mas logo se tornou claro que Fralie sofria de mais do 
que um resfriado. Tronie tinha algum trabalho com Tasher que queria voltar para a me. Ela o pegou ao colo e, em vez disso, levou-o  Fogueira do Mamute. Ele ainda 
choramingava, e Ayla o pegou e o carregou pela fogueira, mostrando-lhe objetos para distra-lo. O filhote de lobo a seguiu. Ela carregou Tasher atravs da Fogueira 
da Raposa e da Fogueira do Leo, e depois entrou na rea da cozinha.
     Jondalar a observou aproximar-se, tentando acalmar e consolar a criana, e seu corao bateu mais depressa. Em sua mente, ele desejava que ela se acercasse 
mais, mas estava nervoso e ansioso. Mal se tinham falado desde que ele se mudara, e ele no sabia o que dizer. Olhou ao redor esforando-se para pensar em algo que 
pudesse aquietar o beb, e viu um pequeno osso de uma sobra de assado.
     - Talvez ele queira mastigar isto - ofereceu Jondalar, quando Ayla entrou na grande cozinha comunal, estendendo-lhe o osso.
     Ela pegou o osso e colocou-o na mo da criana.
     - Tome. Gosta disto, Tasher?
     No havia carne no osso, mas ainda restava algum aroma. Tasher ps o osso na boca, provou, concluiu que gostava e se acalmou, afinal.
     - Foi uma boa idia, Jondalar - disse Ayla, segurando o menino de trs anos, de p perto dele e erguendo a cabea para o homem.
     - Minha me costumava fazer isso quando minha irmzinha ficava zangada - disse ele.
     Eles se entreolharam, ansiosos pela viso um do outro e enchendo os olhos, sem dizer nada, mas notando cada feio, cada sombra e cada trao, e todo detalhe 
de mudana. Ele perdeu peso, pensou Ayla. Parece abatido.
     Ela est preocupada, perturbada por causa de Fralie, e quer ajudar, pensou Jondalar.  Doni, ela  to bonita!
     Tasher deixou cair o osso e Lobo pegou-o.
     - Solte-o! - ordenou Ayla.
     O animal obedeceu com relutncia, pousou o osso no cho, mas ficou vigiando-o.
     -  melhor deixar Lobo ficar com o osso agora. Acho que Frebec no gostaria muito se voc desse o osso a Tasher, depois de Lobo t-lo colocado na boca.
     - No quero que Lobo fique pegando coisas que no so dele.
     - Ele no pegou, realmente. Tasher deixou cair. Provavelmente, Lobo pensou que era para ele - disse Jondalar, sensatamente.
     - Talvez tenha razo. Suponho que no faria mal deixar o osso com ele. - Ela fez um sinal e o lobinho se moveu e pegou o osso novamente. Depois, caminhou diretamente 
para as peles de dormir que Jondalar havia espalhado ao cho, perto da rea de trabalhar o slex. Ps-se  vontade em cima delas, e depois comeou a roer o osso.
     - Lobo, saia da - disse Ayla, partindo atrs dele.
     - Est bem, Ayla... Se no se importa. Ele vem muitas vezes e fica  vontade... Gosto muito dele.
     - No, no me importo - disse ela, depois sorriu. - Voc sempre foi bom com Racer tambm.
     Os animais gostam de voc, eu acho.
     - Mas no como gostam de voc. Eles adoram voc. Eu... - Parou, de repente. Sua testa se enrugou e fechou os olhos. Quando os abriu, endireitou mais o corpo 
e recuou um passo. - A Me lhe concedeu um dom raro - falou, o tom de voz e atitude muito mais formais.
     De sbito, ela sentiu lgrimas ardentes nos olhos e uma dor na garganta. Abaixou a cabea, depois recuou um passo tambm.
     - Ao que parece, acho que Tasher ter um irmo ou irm logo - disse Jondalar, mudando de assunto.
     - Infelizmente sim - disse Ayla.
     - Oh? Acha que ela no devia ter o beb? - indagou Jondalar, surpreso.
     - Claro que devia, mas no agora. E cedo demais.
     - Tem certeza?
     - No, no tenho. No permitiram que eu visse Fralie - disse Ayla.
     - Frebec?
     Ayla sacudiu a cabea afirmativamente.
     - No sei o que fazer.
     - No entendo por que ele ainda subestima sua capacidade.
     - Mamut diz que ele acha que cabeas-chatas no sabem nada sobre curar, por isso, no acredita que eu pudesse ter aprendido alguma coisa com eles. Acho que 
Fralie precisa de ajuda, realmente, mas Mamut diz que ela tem que pedi-la.
     - Mamut est certo, provavelmente, mas se ela vai ter o beb, na verdade, talvez pea ajuda.
     Ayla mudou Tasher de posio. O menino pusera um polegar na boca e parecia satisfeito com isso, por enquanto. Ela viu Lobo sobre as peles familiares de Jondalar, 
que tinham ficado, at recentemente, ao lado das dela. As peles e a proximidade do homem a fizeram lembrar o toque de Jondalar, o modo como ele a fazia sentir. Quando 
olhou para ele novamente, seus olhos continham desejo e Jondalar sentiu uma resposta to instantnea que ansiou estender a mo para ela, mas controlou-se. Sua reao 
confundiu Ayla. Ele havia comeado a olhar para ela do jeito que sempre provocava uma onda de formigamento bem no fundo de si mesma. Por que ele parara? Ela estava 
arrasada, mas havia sentido um momento de... Alguma coisa... Esperana, talvez. Talvez ela conseguisse encontrar um meio de chegar at ele, se continuasse tentando.
     - Espero que ela faa isso - disse Ayla -. Mas talvez seja tarde de mais para deter o trabalho de parto. - Comeou a se afastar e Lobo ficou de p para segui-Ia. 
Ela olhou para o animal, depois para o homem, fez uma pausa e perguntou: - Se ela me chamar, Jondalar, voc ficar com Lobo aqui? No posso deixar que ele me siga 
e fique atrapalhando na Fogueira da Gara.
     - Claro que sim - respondeu ele -, mas ele vir aqui?
     - Lobo, volte! - ordenou ela. O filhote olhou para ela com um pequeno ganido na garganta, parecendo interrogar. - Volte para a cama de Jondalar! - disse ela, 
erguendo o brao e apontando. - V para a cama de Jondalar! - repetiu. Lobo abaixou o rabo, agachou-se e voltou. Sentou-se em cima das peles, e vigiou Ayla. - Fique 
a! -ordenou ela. O filhote se abaixou, descansou a cabea nas patas e seus olhos a acompanharam quando ela se virou e deixou a fogueira.
     Crozie, ainda sentada em sua cama, observava Fralie gritar e se agitar. Afinal, a dor passou, e Fralie respirou fundo, mas isso provocou um acesso de tosse, 
e sua me notou uma expresso desesperada na filha. Crozie tambm se sentia desesperada. Algum tinha que fazer alguma coisa. Fralie estava em trabalho de parto 
e a tosse a enfraquecia. No havia mais muita esperana para o beb, nasceria cedo demais, e bebs que nasciam prematuros no sobreviviam. Mas Fralie precisava de 
alguma coisa para aliviar a tosse e a dor, e mais tarde, ela precisaria de alguma coisa para reduzir sua tristeza. No adiantara falar com Fralie, no com aquele 
homem estpido por perto. Ele no via que ela estava em apuros?
     Crozie examinou Frebec, que rondava a cama de Fralie parecendo desamparado e preocupado. Talvez estivesse, pensou ela. Talvez ela devesse tentar de novo, mas 
adiantaria alguma coisa falar com Frebec?
     - Frebec! - exclamou ela. - Quero falar com voc.
     O homem pareceu surpresa Crozie se dirigia a ele raras vezes pelo nome, ou anunciava que desejava lhe falar. Em geral ela apenas gritava com ele.
     - O que quer?
     - Fralie  teimosa demais para ouvir, mas agora, deve estar bem claro para voc que ela est tendo o beb...
     Fralie a interrompeu com um acesso de tosse sufocante.
     - Fralie, diga-me a verdade - falou Frebec quando a tosse cessou.
     - Est tendo o beb?
     - Eu... Eu acho que sim.
     Ele sorriu:
     - Por que no me disse?
     - Porque esperava que no fosse verdade.
     - Mas, por qu? - perguntou ele, aborrecido de repente. - No quer este filho?
     -  cedo demais, Frebec. Os bebs que nascem prematuros no vivem - respondeu Crozie pela filha.
     - No vivem? Fralie, alguma coisa no est bem?  verdade que o beb no viver? - perguntou Frebec chocado e em pnico. A sensao de que alguma coisa estava 
terrivelmente errada crescera dentro dele durante o dia inteiro, mas ele no quisera acreditar, e no imaginara que podia estar to errada assim.
     - Esta  a primeira criana da minha fogueira, Fralie. Seu beb, nascido na minha fogueira. - Ele se ajoelhou ao lado da cama e segurou a mo dela. - Este beb 
tem que viver. Diga-me que ele viver - suplicou. - Fralie, diga-me que este beb viver.
     - No posso lhe dizer. No sei. - A voz estava cansada e rouca.
     - Pensei que soubesse essas coisas, Fralie.  me. J tem dois filhos.
     - Cada um  diferente - cochichou ela. - Este tem sido difcil desde o incio. Eu estava preocupada em perd-lo. Havia tanto problema... Encontrar um local 
para se fixar... No sei. Acho apenas que  cedo demais para este beb nascer.
     - Por que no me disse, Fralie?
     - O que voc teria feito? - perguntou Crozie, o tom de voz contido, quase desesperanado. - O que podia fazer? Sabe alguma coisa sobre gravidez? Nascimento? 
Tosse? Dor? Ela no quis lhe contar porque voc no tem feito nada seno insultar aquela que poderia ajudar Fralie. Agora a criana morrer e no sei quo fraca 
Fralie est.
     Frebec se virou para Crozie:
     - Fralie? No pode acontecer nada com Fralie! Pode? As mulheres tm filhos o tempo todo.
     - No sei, Frebec. Olhe para ela, julgue voc mesmo.
     Fralie se esforava para controlar a tosse que ameaava voltar e a dor nas costas recomeava. Seus olhos estavam fechados e as sobrancelhas franzidas, O cabelo 
emaranhado e pegajoso, e o rosto 
     brilhante de suor. Frebec se levantou de um salto em direo  sada da fogueira.
     - Aonde vai, Frebec? - perguntou Fralie.
     - Vou buscar Ayla.
     - Ayla? Mas pensei...
     - Ela tem dito que voc tinha problemas desde que chegou aqui. Estava certa. Se sabia tanto, talvez seja uma curandeira. Todo mundo diz isso. No sei se  verdade, 
mas temos que fazer alguma coisa... A menos que voc no queira.
     - Chame Ayla - cochichou Fralie.
     A tenso e excitao atravessaram a habitao comunal quando Frebec desceu o corredor em direo  Fogueira do Mamute.
     - Ayla, Fralie est... - mal comeou ele, nervoso e preocupado demais para se importar com o seu prestgio.
     - Sim, eu sei. Pea a algum para chamar Nezzie para me ajudar, e traga aquele recipiente. 
     Cuidado, est quente.  um cozimento para a garganta - disse Ayla correndo para a Fogueira da Gara.
     Quando Fralie ergueu os olhos e viu Ayla sentiu, de repente um grande alivio.
     - A primeira coisa que temos que fazer  endireitar esta cama e deixar voc  vontade - disse Ayla, puxando a roupa de cama e cobertas e acolchoando-a com peles 
e travesseiros para apoio.
     Fralie sorriu e de repente notou que, por alguma razo, Ayla ainda falava com sotaque. No, no realmente um sotaque, pensou. Apenas, tinha dificuldade com 
alguns sons. Estranho como era fcil acostumar-se com algo assim. A cabea de Crozie apareceu em seguida e ela entregou a Ayla um pedao de couro dobrado.
     - Aqui est seu cobertor de dar  luz, Ayla. - Abriram-no e, enquanto Fralie mudava de posio, espalharam-no sob a mulher. - J era hora de chamarem voc, 
mas  tarde demais para deter o trabalho de parto agora - disse Crozie. - pena eu tinha o palpite de que este beb seria menina.  pena que v morrer.
     - No tenha tanta certeza disso, Crozie - falou Ayla.
     - Este beb est chegando cedo. Sabe disso.
     - Sim, mas no entregue ainda esta criana ao outro mundo. H coisas que podem ser feitas, se no for cedo demais... E se o parto correr bem. - Ayla abaixou 
os olhos para Fralie. - Vamos esperar e ver.
     - Ayla - disse Fralie, os olhos brilhando -, acha que h esperana.
     - Sempre h esperana. Agora, beba isto. Acalmar sua tosse e far com que se sinta melhor. 
     Ento, veremos quo adiantada voc est.
     - O que h nisso? - perguntou Crozie.
     Ayla examinou a mulher por um instante antes de replicar. Havia um tom de arrogncia implcito na pergunta, mas Ayla sentiu que a preocupao e interesse motivaram 
a frase. O tom da interrogao era mais um modo de falar, concluiu Ayla, como se estivesse acostumada a dar ordens. Mas podia ser mal interpretado como insensatez 
ou arrogncia o tom autoritrio assumido por uma pessoa que no estivesse em posio de liderana.
     - A casca interna de amora preta silvestre para acalm-la e aliviar a tosse e a dor de parto - explicou Ayla -, fervida com a raiz seca de actia, modas at 
virar p para ajudar os msculos dinmicos a trabalhar mais arduamente, a fim de apressar o nascimento. Ela est muito adiantada no trabalho de parto para det-lo.
     - Hum - vocalizou Crozie, sacudindo a cabea em sinal de aprovao. Estava to interessada em verificar a percia de Ayla quanto em conhecer os ingredientes 
exatos. Crozie ficou satisfeita com a resposta de Ayla, por ela no estar apenas dando um medicamento que algum lhe recomendara, mas por saber o que estava fazendo. 
No porque ela conhecia as propriedades das plantas, mas porque Ayla conhecia.
     Todos pararam por alguns instantes para visitar e oferecer apoio moral  medida que o dia avanava, mas os sorrisos encorajadores tinham um vislumbre de tristeza. 
Sabiam que Fralie enfrentava uma provao que tinha muito pouca esperana de um resultado feliz. O tempo se arrastava para Frebec. No sabia o que esperar e sentia-se 
perdido, inseguro. Nas vezes em que andara por perto de mulheres que davam  luz, no se lembrava de ter levado tanto tempo, e no lhe parecera que o nascimento 
era to difcil para outras mulheres. Todas elas se agitavam e esforavam, e gritavam daquele jeito?
     No havia espao para ele em sua fogueira com todas as mulheres l, e de qualquer forma, ele no era necessrio. Ningum sequer o notou na cama de Crisavec 
observando e esperando. Afinal, ele se levantou e se afastou, incerto sobre para onde ir. Resolveu que estava com fome e se dirigiu para a rea de cozinhar esperando 
encontrar sobra de assado ou alguma coisa. No fundo de sua mente, pensou em procurar Talut. Sentia necessidade de conversar com algum, partilhar aquela experincia 
com uma pessoa que o compreendesse. Quando chegou  Fogueira do Mamute, Ranec, Danug e Tornec estavam de p perto de uma escavao para fogo, conversando com Mamut, 
bloqueando parcialmente a passagem. Frebec parou, sem vontade de enfrent-los para pedir que dessem licena.
     Hesitou, mas no podia ficar ali de p para sempre, e atravessou o espao central da Fogueira do Mamute em direo a eles.
     - Como est ela, Frebec? - perguntou Tornec.
     Ele ficou vagamente sobressaltado pela pergunta amistosa.
     - Eu queria saber - retrucou.
     - Sei como se sente - disse Tornec com um sorriso torto. - Nunca me sinto mais intil do que quando Tronie est dando  luz. Odeio v-la sofrer e desejo sempre 
que houvesse algo que eu pudesse fazer para ajudar, mas nunca h.  uma coisa de mulher, ela tem que agir. Sempre me surpreendo depois como ela esquece o apuro e 
a dor assim que v o beb e sabe que ele ser... - Calou-se, compreendendo que havia falado demais. - Sinto muito, Frebec, eu no queria...
     Frebec franziu a testa, depois se virou para Mamut.
     - Fralie disse que ela achava que o beb estava chegando cedo de mais. Crozie disse que os bebs prematuros no sobrevivem. Isso  verdade? Este beb viver?
     - No posso responder a isso. Frebec. Est nas mos de Mut - disse o velho -, mas sei que Ayla no vai desistir. Depende de quo cedo. Os bebs que nascem cedo 
so pequenos e fracos, por isto morrem, geralmente. Mas no morrem sempre, especialmente se no for cedo demais, e quanto mais vivem, maiores sos suas chances. 
No seio que ela pode fazer, mas se algum  capaz de fazer qualquer coisa, Ayla  essa pessoa. Ela recebeu um dom poderoso e posso lhe assegurar, nenhuma curandeira 
poderia ter tido melhor treinamento. Sei por experincia prpria como as curandeiras do Cl so capazes. Uma delas me curou.
     - Voc! Voc foi curado por uma mulher cabea-chata? - perguntou Frebec. - No compreendo. Como? Quando?
     - Quando eu era jovem, em minha jornada - replicou Mamut.
     Os rapazes esperaram que ele continuasse sua histria, mas logo se tornou evidente que ele no daria mais informao alguma.
     - Velho - disse Ranec com um largo sorriso -, pergunto-me quantas histrias e segredos se escondem nos anos de sua longa vida.
     - Esqueci mais do que o total de sua vida, rapaz, e lembro-me de muita coisa. Eu era velho quando voc nasceu.
     - Quantos anos tem? - perguntou Danug. - Sabe?
     - Houve uma poca em que eu marcava minha idade, desenhando um lembrete em um couro, toda primavera, de um evento significativo que acontecia durante o ano. 
Enchi vrios, a tela cerimonial  um deles. Agora. estou to velho que no conto mais. Porm, eu lhe direi, Danug, quantos anos tenho. Minha primeira mulher teve 
trs filhos. - Mamut olhou para Frebec. - O primeiro a nascer, um menino, morreu. O segundo, uma menina, teve quatro filhos. O mais velho dos quatro era uma menina 
e ela cresceu para dar  luz Tulie e Talut. Voc, claro,  o primeiro filho da mulher de Talut. A mulher do primognito de Tulie talvez esteja esperando uma criana 
agora. Se Mut me conceder outra estao, talvez eu veja a quinta gerao.  essa a minha idade, Danug.
     Danug sacudiu a cabea. Era mais idade do que ele imaginara.
     - Voc e Manuv no so parentes, Mamut? - perguntou Tornec.
     - Ele  o terceiro filho da mulher de um primo mais jovem, assim como voc  o terceiro filho da mulher de Manuv.
     Nesse momento, pareceu haver alguma excitao na Fogueira da Gara e todos se viraram para olhar.
     - Agora, respire fundo - disse Ayla -, e faa fora mais uma vez. Est quase conseguindo.
     Fralie arquejou em busca de ar e fez um esforo, segurando as mos de Nezzie.
     - timo! timo! - encorajou Ayla. - A vem, a vem! timo! Pronto!
     -  uma menina, Fralie! - exclamou Crozie. - Eu lhe disse que desta vez seria mulher...!
     - Como est ela? - perguntou Fralie. - Est...
     - Nezzie, quer ajudar a remover as preas - disse Ayla, limpando muco da boca do beb, enquanto ele lutava para respirar. Havia um silncio terrvel. Depois 
um grito de vida miraculoso, emocionante.
     - Ela est viva! Ela est viva! - disse Fralie, lgrimas de alvio e esperana nos olhos.
     Sim, ela estava viva, pensou Ayla, mas era muito pequena. Jamais vira um beb to pequeno. Sim, estava viva, lutando e dando chutes, e respirando. Ayla colocou 
o beb de bruos atravessado sobre o ventre de Fralie, e lembrou a si mesma de que havia visto, apenas, recm-nascidos do Cl. Bebs dos Outros eram, provavelmente, 
menores. Ajudou Nezze com as preas, depois virou o beb e amarrou o cordo umbilical em dois lugares com os pedaos de tendo tingido de vermelho que havia preparado. 
Com uma faca afiada de slex cortou o cordo entre as amarraes. Para o melhor ou para o pior, a menina estava sozinha; um ser humano independente, vivo, respirando. 
Mas os prximos dias seriam crticos.
     Ayla examinou o beb cuidadosamente enquanto o limpava. A menina parecia perfeita, apenas excepcionalmente pequena e seu choro era fraco. Ayla a enrolou em 
um macio cobertor de pele e entregou-a a Crozie. Quando Nezzie e Tulie haviam retirado o cobertor de pano, e Ayla certificou-se de que Fralie estava limpa e com 
conforto, usando uma toalha absorvente de l de mamute, sua nova filha foi colocada na curva do brao de Fralie. Ento, ela fez sinal a Frebec para se aproximar 
e ver a primeira filha de sua fogueira. Crozie rondava.
     Fralie a desenrolou, depois levantou a cabea para Ayla com lgrimas nos olhos.
     - Ela  to pequena.. - falou, acariciando o beb.
     Em seguida, desatou a frente de sua tnica e ofereceu o seio  menina. A recm-nascida roou o nariz, encontrou o bico e pelo sorriso no rosto de Fralie, Ayla 
percebeu que a menina sugava. Mas dentro de alguns momentos, a criana soltou o bico e pareceu exausta com o esforo
     - Ela  to pequena. . viver? - perguntou Frebec a Ayla, porm, era mais uma splica.
     - Ela est respirando. Se for capaz de mamar, haver esperana, mas precisar de ajuda para viver. 
     Deve ser mantida aquecida e no poder usar a pouca fora que possui a no ser para mamar Todo o leite que tomar deve ser para crescer - disse Ayla. Depois 
olhou com severidade para Frebec e Crozie. - No pode haver mais discusso nesta fogueira, se querem que a menina viva. Ela ficar nervosa, e no podem deix-la 
ficar nervosa se desejam que ela cresa. No se deve permitir sequer que chore, porque no tem fora para isso. Desviar seu leite do crescimento.
     - Como impedir que ela chore, Ayla? Como saberei quando aliment-la se ela no chorar? - perguntou Fralie.
     - Crozie e Frebec devem ajudar voc porque a menina precisa ficar com voc o tempo todo, como se ainda no tivesse nascido, Fralie. Acho que a melhor maneira 
seria fazer um receptculo, um tipo de cesta, que manter a menina perto de seu seio. Assim, voc a manter aquecida. Ela ser confortada por sua proximidade e o 
som de seu corao, porque est acostumada a ele. Porm, mais importante ainda, sempre que quiser mamar, precisar apenas virar a cabea para alcanar seu peito, 
Fralie. Assim, ela no usar a fora de que necessita para crescer, com o choro.
     - E para troc-la? - perguntou Crozie.
     - Cubra sua pele com um pouco daquele sebo macio que lhe dei, Crozie. Farei mais. Use esterco seco, limpo, embrulhado ao seu redor para absorver sua urina e 
fezes. Jogue fora quando precisar troc-la, mas no mova muito a criana. E deve descansar, Fralie, e no se movimentar muito. Tambm lhe far bem. Precisamos tentar 
controlar sua tosse. Se a menina sobreviver durante os prximos dias, ento, todo dia que ela viver a tornar mais forte. Com sua ajuda, Frebec e Crozie, ela tem 
uma chance.
     Uma sensao de esperana moderada tomou conta da habitao, quando as cortinas se fecharam sobre um sol vermelho penetrante num aglomerado de nuvens pairando 
sobre o horizonte. A maioria das pessoas terminara a refeio da noite e atiava os fogos, limpava coisas, levava as crianas para a cama, e se reunia para a conversa 
noturna e por companhia. Vrias pessoas estavam sentadas ao redor da lareira da Fogueira do Mamute, mas a conversa era mantida em voz baixa, como se vozes altas 
fossem, de alguma forma, inadequadas.
     Ayla havia dado a Fralie uma suave bebida relaxante, e deixou-a para que dormisse. Ela no dormiria o suficiente nos prximos dias. A maior parte dos bebs 
se fixava em uma rotina de dormir por um tempo razovel antes de acordar para mamar. Porm, o beb de Fralie no podia mamar muito tempo de uma s vez, e assim, 
no dormia muito antes de precisar novamente de leite materno. Fralie teria que tirar cochilos curtos tambm, at o beb ficar mais forte.
     Era quase estranho ver Frebec e Crozie trabalhando juntos, ajudando-se a ajudar Fralie, e sendo extremamente corteses e controlados. Talvez no durasse, mas 
estavam se esforando e parte de sua animosidade parecia desaparecer.
     Crozie havia ido cedo para a cama. Fora um dia difcil e, ela no era mais jovem. Estava cansada e esperava levantar mais tarde a fim de auxiliar Fralie. Crisavec 
ainda dormia com o filho de Tulie, e Tronie estava com Tasher. Frebec ficou sentado sozinho na Fogueira da Gara, olhando para o fogo, sentindo emoes diversas. 
Estava ansioso em relao  criana, e sentia-se protetor do beb tambm, a primeira criana de sua fogueira, e temeroso. Ayla havia colocado a menina em seus braos 
para que a carregasse um pouco, enquanto ela e Crozie deixavam Fralie  vontade. Ele fitou a menina, espantado por algum to pequeno poder ser perfeito. As mos 
minsculas da criana tinham at unhas. Ele teve medo de se mover, medo de quebr-la, e ficou muito aliviado quando Ayla a pegou novamente. Contudo, relutou em entregar 
a menina.
     De repente, Frebec ficou de p e desceu o corredor. No queria ficar sozinho naquela noite. Parou  entrada da Fogueira do Mamute e olhou para as pessoas sentadas 
em volta do fogo. Eram os membros mais jovens do acampamento, e no passado, ele teria passado por eles a caminho da rea de cozinhar, para visitar Talut e Nezzie, 
ou Tulie e Barzec, ou Manuv, ou Wymez, ou ultimamente, Jondalar, e s vezes, Danug. Embora Crozie estivesse muitas vezes na rea de cozinhar, era mais fcil ignor-la 
do que enfrentar a possibilidade de ser ignorado por Deegie ou desprezado por Ranec. Mas Tornec fora amistoso antes, e sua mulher tinha dado  luz, e ele sabia como 
era. Frebec respirou fundo e caminhou em direo  lareira.
     Eles comearam a rir assim que ele alcanou Tornec, e por um mo mento, Frebec pensou que caoavam dele. Sentiu a tentao de sair.
     - Frebec! A est voc! - exclamou Tornec.
     - Acho que ainda sobrou algum ch - disse Deegie. - Vou lhe servir um pouco.
     - Todos me dizem que ela  uma menina bonita - falou Ranec. - E Ayla diz que ela tem uma chance.
     - Temos sorte por Ayla viver aqui - disse Tronie.
     - Sim, temos - concordou Frebec. Ningum falou nada por um instante. Era a primeira coisa boa que Frebec dizia de Ayla.
     - Talvez ela possa receber seu nome no Festival de Primavera - disse Latie. Frebec no a havia visto sentada ao lado de Mamut, na sombra - Isso seria uma sorte.
     - Sim, seria - disse Frebec, pegando a xcara que Deegie lhe dava e se sentindo um pouco mais  vontade.
     - Tomarei parte no Festival de Primavera tambm - anunciou ela, meio timidamente e meio orgulhosamente.
     - Latie  uma mulher - disse-lhe Deegie com o ar levemente condescendente de uma irm mais velha informando outro adulto que  instrudo.
     - Ela ter seus Ritos de Primeiros Prazeres na Reunio de Vero deste ano - ajuntou Tronie.
     Frebec sacudiu a cabea, concordando, e sorriu para Latie, incerto sobre o que dizer.
     - Fralie est dormindo, ainda? - perguntou Ayla.
     - Estava, quando sa.
     - Acho que tambm vou para a cama - disse ela, levantando-se. - Estou cansada. - Colocou a mo no brao de Frebec. - Voc me chamar quando Fralie acordar?
     - Sim, Ayla, chamarei... E... Hum... Obrigado  disse, ele sua veemente.
     - Ayla, acho que ela est crescendo - disse Fralie. - Estou certa de que pesa mais e comea a olhar em volta. Acho que tambm est mamando mais tempo.
     - Cinco dias se passaram, creio que ela est mais forte - disse Ayla.
     Fralie sorriu, depois lgrimas surgiram em seus olhos.
     - Ayla, no sei o que teria feito sem voc. Tenho-me culpado o tempo todo por no ter recorrido a voc mais cedo. Esta gravidez no ia bem desde o incio, mas 
quando mame e Frebec comeavam a discutir, eu no podia tomar partido.
     Ayla apenas concordou com um gesto de cabea.
     - Sei que mame pode ser difcil, mas ela perdeu tanto. Era uma chefe, sabe.
     - Eu imaginava.
     - Eu era a mais velha de quatro filhos, tinha duas irms e um irmo... Eu era mais ou menos da idade de Latie quando aconteceu. Mame me levou para o Acampamento 
do Veado a fim de conhecer o filho de sua chefe. Ela queria arranjar uma unio. Eu no queria ir, e no gostei dele quando o conheci. Era mais velho, e mais preocupado 
com o meu status do que comigo, mas antes de a visita terminar ela conseguiu me fazer concordar. Os preparativos foram feitos para nossa unio no vero seguinte. 
Quando voltamos ao nosso acampamento... Oh, Ayla, foi horrvel... - Fralie fechou os olhos, tentando controlar-se. - Ningum sabe o que aconteceu... houve um incndio. 
Era uma moradia antiga, construda pelo tio de mame. As pessoas disseram que o sap, e madeira e ossos devem ter ressecado. Acharam que o fogo devia ter comeado 
 noite.., ningum saiu...
     - Sinto muito, Fralie - disse Ayla.
     - No tnhamos para onde ir, assim, voltamos ao Acampamento do Veado. Lamentaram nossa sorte, mas no ficaram felizes com isso. Tinham medo do azar, e havamos 
perdido status. Quiseram romper o acordo, mas Crozie discutiu diante do Conselho de Irms e os fez manter a palavra. O Acampamento do Veado teria perdido influncia 
e status se tivesse recuado. Eu me uni naquele vero. Mame disse que eu devia, era tudo o que nos restava, mas nunca existiu muita felicidade na unio, exceto por 
Crisavec e Tasher. Mame sempre discutia com eles, principalmente com o meu homem. Ela estava habituada a ser chefe, a tomar decises e a ser respeitada. No foi 
fcil para ela perder isso. No era capaz de desistir. As pessoas comearam a achar que ela era uma pessoa amarga, implicante, que no parava de se queixar e no 
queriam estar por perto. - Fralie fez uma pausa, depois continuou: - Quando meu homem foi ferido por um auroque, o Acampamento do Veado disse que dvamos azar e 
nos obrigou a partir. Mame tentou arranjar outra unio para mim. Havia algum interesse. Eu ainda tinha meu status de nascimento, ningum pode tirar aquilo com que 
voc nasce, mas ningum queria mame. Diziam que ela dava azar, mas acho que apenas no gostavam de suas queixas, o tempo todo. Eu, contudo, no podia culp-la. 
Eles no compreendiam, apenas isso.
     O nico que fez uma proposta foi Frebec. Ele no tinha muito a oferecer, Fralie sorriu, mas ofereceu tudo o que tinha. Eu no estava segura sobre ele, a 
princpio. Ele jamais tivera muito status, e nem sempre sabe como agir... ele embaraa mame. Quer ter valor, assim tenta se fazer importante, dizendo coisas desagradveis 
sobre... outras pessoas. Resolvi ir com ele para tentar. Mame ficou surpresa quando voltamos e eu lhe disse que queria aceitar a proposta dele. Ela jamais compreendeu...
     Fralie olhou para Ayla, e sorriu gentilmente.
     - Pode imaginar o que  se unir a algum que voc no queira, e que jamais se importou com voc desde o comeo? Depois encontrar um homem que a desejava tanto 
que queria dar tudo que tinha, e prometer tudo que conseguisse, um dia? Na primeira noite, depois que fomos embora juntos, ele me tratou como... Um tesouro raro. 
No podia acreditar que tinha o direito de me tocar. Fez-me sentir... No posso explicar... Querida. Ele ainda  assim quando estamos sozinhos, mas ele e mame comearam 
a discutir imediatamente. Quando se tornou uma questo de orgulho entre eles, se eu ia procurar voc ou no, no consegui acabar com o amor-prprio de Frebec.
     - Acho que compreendo, Fralie.
     - Esforava-me para dizer a mim mesma que as coisas no estavam to mal assim, e que seu remdio me ajudou. Sempre acreditei que ele iria mudar de idia quando 
chegasse a hora, mas eu queria que fosse deciso dele, no uma coisa que eu o obrigasse a fazer.
     - Estou contente porque ele o fez.
     - Mas no sei o que eu teria feito se meu beb...
     - No podemos ter certeza ainda, mas acho que a menina est bem. Ela parece mais forte - falou Ayla.
     Fralie sorriu.
     - Escolhi um nome para ela, espero que deixe Frebec feliz. Resolvi cham-la Bectie.
     Ayla estava de p perto de uma plataforma de estocagem vazia, remexendo em uma variedade de vegetao seca. Havia pequenas pilhas de cascas de rvore, razes 
e sementes, pequenos montes de talos, tigelas de frutos, flores e folhas secas, e algumas plantas inteiras. Ranec se aproximou, tentando ser discreto sobre algo 
escondido atrs das costas.
     - Ayla, est ocupada? - perguntou Ranec.
     - No, no realmente, Ranec. Andei olhando meus remdios para ver o que precisarei. Sa hoje com os cavalos. A primavera est chegando mesmo...  minha estao 
favorita. Os brotos verdes esto surgindo, e salgueiros de amentilhos sedosos... Sempre adorei as pequenas flores flocosas. Breve, tudo estar verde.
     Ranec sorriu diante do seu entusiasmo.
     - Todo mundo espera ansiosamente o Festival de Primavera.  quando comemoramos vida nova, novos comeos e com o novo beb de Fralie e a nova feminilidade de 
Latie, temos muito o que celebrar.
     Ayla franziu a testa ligeiramente. Ela no estava segura de que aguardava com nsia sua participao no Festival de Primavera. Mamut a estivera treinando, e 
aconteceram algumas coisas muito interessantes, mas era um pouco assustador. Todavia, no tanto o quanto ela pensava que seria. Tudo daria certo. Ela sorriu de novo.
     Ranec a estivera observando, perguntando-se o que ela pensava, e tentando imaginar uma maneira de abordar o assunto que o trouxera ali.
     - A cerimnia poderia ser especialmente excitante este ano... - fez uma pausa, procurando as palavras corretas.
     - Suponho que tem razo - disse Ayla, ainda pensando em seu papel no festival.
     - No parece muito animada - disse ele, sorrindo.
     - No? Na verdade, estou ansiosa para que Fralie d o nome ao beb e estou muito contente por Latie. Lembro como fiquei feliz quando me tornei uma mulher, afinal, 
e como Iza ficou aliviada.  que Mamut est planejando uma coisa e no estou certa a respeito. Apenas isso.
     - Vivo esquecendo que no  Mamutoi h muito tempo. No sabe o que  um Festival de Primavera. No  de admirar que no esteja ansiosa, como todo mundo. - Mudou 
de posio, nervosamente, e abaixou os olhos; depois tornou a encar-la. - Ayla, voc poderia aguardar com mais expectativa, e eu tambm se... - Ranec parou de falar, 
decidiu mudar sua abordagem, e estendeu-lhe o objeto que escondera. - Fiz isto para voc.
     Ayla viu o que ele segurava. Ergueu a cabea, os olhos arregalados de surpresa e prazer ao ver o objeto.
     - Fez isto para mim? Mas, por qu?
     - Porque quis.  para voc, s isso. Pense nele como um presente de primavera - disse ele, insistindo para que ela o aceitasse.
     Ela pegou a escultura de marfim, segurando-a cuidadosamente, e examinou-a.
     - Esta  uma de suas figuras de mulher-ave - disse Ayla com espanto e prazer -, como uma que voc me mostrou antes, mas no  a mesma.
     Os olhos de Ranec brilharam.
     - Eu a fiz especialmente para voc, mas devia t-la avisado - disse com seriedade trocista -, coloquei magia nela, assim voc... Gostar dela, e daquele que 
a fez.
     - No precisava colocar magia na escultura para isso, Ranec.
     - Gosta dela, ento? Diga-me, o que acha? - perguntou Ranec, embora geralmente no pedisse a opinio das pessoas sobre seu trabalho. No lhe importava o que 
pensavam. Trabalhava para si mesmo e para agradar  Me, mas desta vez queria, mais do que tudo, agradar Ayla. Pusera seu corao, seu desejo e seus sonhos em cada 
entalhe que cortara, em cada linha esculpida, esperando que a escultura da Me fizesse uma mgica na mulher que ele amava.
     Ayla examinou o trabalho com ateno e notou o tringulo com o vrtice para baixo. Era o smbolo da mulher que ela aprendera e o motivo por que trs era o nmero 
do poder produtivo e sagrado para Mut. O ngulo era repetido como ziguezagues, no que seria a frente da escultura, se fosse uma mulher, ou as costas, se fosse uma 
ave. Todo o objeto era decorado com fileiras de ziguezagues e linhas paralelas num fascinante desenho geomtrico que era agradvel de se admirar por si s, mas que 
sugeria mais.
     - Est muito bem-feito, Ranec. Gosto, especialmente, da maneira como esculpiu estas linhas. O padro me lembra penas, de certa forma, mas tambm me faz pensar 
em gua, como nos mapas - disse Ayla.
     O sorriso de Ranec se alargou, com deleite.
     - Eu sabia! Sabia que voc veria isso! As penas do Seu esprito quando Ela se torna uma ave e voa de volta na primavera, e as guas de nascena da Me que encheram 
os mares.
     -  maravilhoso, Ranec, mas no posso aceitar - falou ela, tentando devolver a escultura.
     - Por que no? Fiz para voc - disse ele, sem pegar a obra.
     - Mas, o que posso lhe dar em troca? No tenho nada deste valor.
     - Se  isto que a preocupa, tenho uma sugesto. Voc tem uma coisa que quero, que vale muito mais do que este pedao de marfim - disse Ranec, sorrindo, com 
os olhos brilhantes de humor. -  amor. Ele ficou mais srio: - Una-se a mim, Ayla. Seja minha mulher. Quero partilhar uma fogueira com voc, quero que seus filhos 
sejam os filhos da minha fogueira.
     Ayla relutou em responder. Ranec notou sua hesitao e continuou falando, tentando persuadi-la.
     - Pense quanta coisa temos em comum. Voc  uma mulher Mamutoi, eu sou um homem 
     Mamutoi, mas ambos fomos adotados. E, se nos unssemos, nenhum de ns teria que se mudar para outro acampamento. Ambos poderamos ficar no Acampamento do Leo, 
e voc continuariacuidando de Mamute Rydag, e isso deixaria Nezzie feliz. Porm, mais importante, amo voc, Ayla, quero partilhar minha vida com voc.
     - Eu... No sei o que dizer.
     - Diga sim, Ayla. Vamos anunci-lo, incluir uma Cerimnia de Promessa no Festival de Primavera. Depois, podemos formalizar a unio no Matrimonial este ano, 
quando Deegie o fizer.
     - No estou certa... Acho que no...
     - No precisa responder j. - Ele havia esperado que ela concordasse imediatamente. Agora, compreendia que talvez levasse mais tempo, porm, no queria que 
ela dissesse no. - Diga-me apenas que me dar a chance de mostrar o quanto a amo, quanto a quero, como poderemos ser felizes juntos.
     Ayla recordou o que Fralie havia dito. Ela se sentia especial ao saber que um homem a queria, que havia um homem que se importava com ela e no a evitava o 
tempo todo. E gostava da idia de permanecer ali, onde as pessoas a amavam, pessoas que ela amava. O Acampamento do Leo era como sua famlia agora. Jondalar jamais 
ficaria. Ela sabia disso havia muito tempo. Ele queria voltar para o seu lar e, antes, quisera lev-la com ele. Agora, no parecia quer-la, de modo algum.
     Ranec era bom, ela gostava dele, e unir-se a ele significaria permanecer ali. E se ela ia ter outro beb, devia t-lo breve. Ela no era mais jovem. Apesar 
do que Mamut havia dito, dezoito anos pareciam muita idade para ela. Seria to maravilhoso ter outro filho, pensou. Como o beb de Fralie. Apenas mais forte. Ela 
podia ter um filho com Ranec. Ser que teria as feies de Ranec, os olhos negros penetrantes, os lbios macios, o nariz largo e curto, to diferente dos narizes 
grandes, finos, pontudos dos homens do Cl? O nariz de Jondalar estava entre eles em tamanho e forma... Por que ela pensava em Jondalar?
     Ento, uma idia lhe ocorreu que fez o corao bater mais depressa, de excitao. Se eu ficar aqui e me unir a Ranec, pensou, poderia ir buscar Durc! Talvez 
no prximo vero. No haver Reunio de Cls, ento. E Ura? Por que no traz-la tambm? Se eu for embora com Jondalar, sei que nunca mais verei Durc. Os Zelandonii 
vivem muito longe, e Jondalar no voltar para buscar Durc e lev-lo conosco. Se ao menos Jondalar ficasse, e se tornasse Mamutoi... Mas ele no far isso. Ela olhou 
para o homem escuro, e viu o amor nos olhos de Ranec. Talvez eu deva pensar sobre me unir a ele.
     - Eu disse que pensaria a respeito, Ranec - disse ela.
     - Sei que disse, mas se precisar de mais tempo para pensar em fazer uma Promessa, ao menos venha para a minha cama, Ayla. D-me uma chance de lhe mostrar o
quanto gosto de voc. Diga-me que far isso. Venha  minha cama, Ayla - insistiu, segurando-lhe a mo.
     Ela abaixou a cabea, tentando reconhecer-lhe os sentimentos. Sentia uma compulso forte, embora sutil, de obedecer. Embora a reconhecesse pelo que era, era 
difcil vencer a sensao de que devia ir para a cama dele. Porm, mais que isso, perguntou-se se devia dar-lhe uma chance, talvez fazer uma tentativa com ele, como 
Fralie fizera com Frebec.
     Ela sacudiu a cabea afirmativamente, os olhos ainda baixados.
     - Irei a sua cama.
     - Esta noite? - disse ele, trmulo de alegria e sentindo vontade de gritar.
     - Sim, Ranec. Se quiser. Irei  sua cama esta noite.
     Jondalar se posicionou de maneira que pudesse ver a maior parte da Fogueira do Mamute, olhando pelo corredor e atravs das reas abertas das fogueiras que os 
separavam. Ele se acostumam de tal maneira a vigiar Ayla, que quase no pensava mais nisso. Nem sequer o constrangia, era uma parte de sua insistncia. No importava 
o que ele fizesse, Ayla estava sempre no seu pensamento, muitas vezes exatamente  beira da percepo. Ele estava ciente de quando ela dormia, e quando estava acordada, 
quando comia e quando trabalhava em algum projeto. Estava ao par de quando saia e quem a visitava, e quanto tempo permaneciam. At fazia idia sobre o que conversavam.
     Sabia que Ranec havia passado ali a maior parte do seu tempo. Embora no gostasse de v-los juntos, tambm sabia que Ayla no tivera intimidades com ele, e 
parecia evitar qualquer contato ntimo. As aes de Ayla o tinham levado a uma certa aceitao da situao, e aliviaram sua ansiedade, de forma que estava despreparado 
para a viso de Ayla caminhando com Ranec em direo  Fogueira da Raposa, quando todos se aprontavam para dormir. A princpio, no conseguiu acreditar. Presumiu 
que ela ia apenas buscar alguma coisa e voltaria para sua prpria cama. A compreenso de que ela pretendia passar a noite como escultor no aconteceu seno quando 
ele a viu mandar Lobo ir para a Fogueira do Mamute.
     Mas, ao compreender, foi como um fogo explodindo em sua cabea espalhando a dor ardente e a clera por seu corpo. Estava arrasado. Seu primeiro impulso foi 
correr at a Fogueira da Raposa e arrancar Ayla dali. Teve vises de Ranec caoando dele e sentiu o desejo de esmagar aquele rosto sorridente, demolir o sorriso 
trocista, escarninho. Lutou para controlar-se e afinal, agarrou sua parka e saiu apressado.
     Jondalar inspirou grandes golfadas de ar frio, tentando moderar seu cime flamejante, e quase secou os pulmes com o frio. Uma onda de frio de incio de primavera, 
que desceu a temperatura  abaixo de zero, havia endurecido a neve enlameada, convertido riachos em pistas escorregadias e traioeiras, e transformado a lama em 
salincias e escavaes irregulares, tornando difcil caminhar. Ele escorregou na escurido e lutou desordenadamente para manter o equilbrio. Quando alcanou o 
anexo dos cavalos, voltou ao interior.
     Whinney bufou uma saudao e Racer resfolegou e cutucou-o na escurido e de afago. Jondalar havia passado muito tempo com os cavalos, inverno difcil, e mais 
ainda durante a primavera incerta. Eles receberam bem sua companhia e ele relaxou em sua presena clida, silenciosa. Um movimento da cortina interna chamou a ateno 
do homem. Ento, sentiu patas sobre sua perna e ouviu um choro suplicante. Abaixou-se e pegou o filhote de lobo.
     - Lobo! - exclamou, sorrindo, mas recuando quando o animal ansioso lambeu-lhe o rosto. - O que est fazendo aqui? - Ento, o sorriso desapareceu. -Ela o fez 
sair, no foi? Voc est acostumado com ela perto de voc, e sente falta. Eu sei como se sente.  difcil habituar-se a dormir sozinho depois que ela dormiu ao seu 
lado.
     Enquanto acariciava e alisava o lobinho, Jondalar sentia um alivio da tenso, e relutou em colocar o animal no cho.
     - O que devo fazer com voc, Lobo? Odeio mand-lo voltar. Acho que pode dormir comigo.
     Depois franziu a testa, compreendendo que estava diante de um dilema. Como ia voltar para sua cama com o filhote? Estava frio l fora e ele no tinha certeza 
se o animalzinho quereria sair com ele, mas se ao entrar atravessasse a Fogueira do Mamute teria que passar pela Fogueira da Raposa para chegar  sua cama. Nada 
no mundo o levaria a caminhar pela Fogueira da Raposa naquele momento. Jondalar gostaria de ter as peles de dormir consigo. Sem fogo, estava frio no anexo, mas dormir 
com as peles, entre os cavalos, o aqueceria o suficiente. No tinha escolha. Teria que levar o filhote para fora consigo e voltar pela entrada da frente.
     Acariciou os cavalos com tapinhas carinhosos, depois, aninhando o filhote perto do peito, afastou a cortina e saiu para a noite fria, O vento, mais acentuado 
quela hora, fustigou seu rosto com um tapa gelado, e abriu a pele de sua parka. Lobo tentou aconchegar-se mais e chorou, mas no fez qualquer movimento para fugir. 
Jondalar se moveu cuidadosamente sobre o solo congelado e sentiu alvio ao alcanar o arco da frente.
     A habitao estava silenciosa quando ele entrou na rea de cozinhar. Caminhou para as peles de dormir e colocou Lobo ao cho, satisfeito porque o animal parecia 
feliz em ficar. Rapidamente, tirou a parka e sapatos, depois se arrastou para as peles, levando o lobinho consigo. Ele havia descoberto que no era to quente no 
cho da rea aberta da fogueira quanto nos estrados cercados para dormir, e dormia com suas roupas caseiras, amassando-as. Levou alguns minutos para encontrar uma 
posio confortvel e se acomodar, mas em pouco tempo a trouxa quente de pele enroscada ao seu lado dormia.
     Jondalar no teve a mesma sorte. Assim que fechou os olhos ouviu os sons noturnos e enrijeceu, resistindo. Normalmente, a respirao, mudana de posio, cochicho, 
tosse eram rudos noturnos de fundo do acampamento facilmente ignorados, mas os ouvidos de Jondalar escutavam o que no queria ouvir.
     Ranec recostou Ayla s peles, depois olhou para seu corpo.
     - Voc  to bonita, Ayla, to perfeita! Quero-a tanto, quero que fique sempre comigo. Oh, Ayla... - disse ele, e se inclinou para respirar em seu ouvido e 
inspirar seu odor feminino. Ela sentiu a boca macia e carnuda do homem sobre a sua, e encontrou-se correspondendo.
     Um pouco depois, ele colocou a mo sobre o ventre da jovem, exercendo presso.
     Prontamente, estendeu a mo e tomou um seio e em seguida abaixou a cabea e sugou um mamilo endurecido com a boca. Ela gemeu ao sentir um formigamento interno 
e moveu seus quadris para ele. Ranec pressionou o corpo contra o dela e Ayla sentiu uma dureza quente ao lado da coxa, enquanto ele movia a boca para sugar o outro 
mamilo, produzindo pequenos rudos de prazer.
     Ele levou a mo pelos flancos e quadris, depois pela perna e subiu pela parte interna da coxa, encontrando as dobras midas e alcanando-lhe as entranhas. Ela 
sentiu-o vasculhar as entranhas e se ergueu contra ele. Ranec se moveu com calma at comprimir-se contra ela, enquanto sugava um dos seios e depois o outro e em 
seguida roava o nariz entre ambos.
     - Oh, Ayla! Minha bela mulher, minha mulher perfeita. Como me deixou pronto to depressa?  a vontade da Me, voc controla Seus segredos. Minha mulher perfeita...
     Sugava novamente, Ayla podia sentir a presso enquanto ele sorvia, e lhe provocava arrepios. Por dentro, ela sentia um movimento de penetrao e sada, at 
a mo de Ranec descobrir seu local de prazer. Ela gritou quando ele o friccionou ritmadamente, com mais firmeza e rapidez. De repente, estava pronta. Comprimiu-se 
contra ele mexendo os quadris, gritando e agarrando-o.
     Ele moveu-se entre as pernas dela enquanto ela as levantava, ajudando a gui-lo. Ela soltou um suspiro de prazer quando o sentiu penetrar. O corpo dele se movia 
para frente e para trs, sentindo a sensao crescer ao gritar o nome dela.
     - Oh, Ayla, Ayla, quero muito voc. Seja minha mulher, Ayla. Seja minha mulher - disse Ranec, enquanto uma grande onda se intensificava. Os gritos dela vinham 
em arquejos ritmados. Ele mexia mais e mais depressa at a onda clida de sensao indescritvel libertar-se e inund-los.
     Ayla respirou forte, tomando flego, enquanto Ranec se esparramava sobre ela. Fazia muito tempo que ela partilhara prazeres com ele. A ltima vez havia sido 
na noite de sua adoo, e ela compreendia, agora, que sentira falta daquilo. Ranec ficara to encantado por possu-la e to ansioso para agradar, que quase se esforou 
em demasia, porm, ela estivera mais preparada do que imaginou, e embora tudo acontecesse depressa, ela no se sentiu insatisfeita.
     - Foi perfeito para mim - cochichou Ranec. - Est feliz, Ayla?
     - Sim, prazeres com voc so bons, Ranec  disse, ela, e ouviu-o suspirar.
     Os dois jazeram imveis, usufruindo o resultado, mas os pensamentos de Ayla voltaram  pergunta dele. Estava feliz? No estava infeliz. Ranec era um homem bom 
e atencioso, e ela havia sentido prazer, mas... Alguma coisa faltava. No era o mesmo que com Jondalar, mas ela no sabia qual era a diferena.
     Talvez fosse apenas porque ela ainda no estava acostumada com Ranec, pensou, enquanto tentava mudar para uma posio mais confortvel. Ele comeava a pesar 
um pouco. Ranec, sentindo o movimento da jovem, ergueu-se, sorriu-lhe, depois rolou e deitou-se ao seu lado, virado para ela, aninhando-se perto dela.
     Ele roou o nariz no pescoo dela, e cochichou-lhe ao ouvido:
     - Amo voc, Ayla. Quero-a muito. Diga que ser minha mulher. Ayla no respondeu. No podia responder sim, e no responderia no.
     Jondalar cerrou os dentes e agarrou-se  sua pele de dormir, apertando-a com fora enquanto ouvia, contra a vontade, o murmrio, a respirao ofegante, e forte 
movimento ritmado da Fogueira da Raposa. Puxou as cobertas sobre a cabea, mas no conseguiu bloquear o som abafado da voz de Ayla gritando. Mordeu um pedao de 
couro para impedir-se de emitir quaisquer sons, mas, no fundo de sua garganta, a prpria voz gritava de dor e desespero total. Lobo, ouvindo o choro, aconchegou-se 
a ele e lambeu as lgrimas salgadas que o homem tentava conter  fora.
     No podia suport-lo. No era capaz de tolerar o pensamento de Ayla com Ranec. Mas era escolha dela, e dele. E se ela voltasse novamente  cama do escultor? 
Ele no suportaria ouvir aquilo outra vez. Mas o que podia fazer? Partir. Podia ir embora. Tinha que ir. No dia seguinte. De manh,  primeira claridade, ele partiria.
     Jondalar no dormiu. Jazeu rgido de tenso sob as peles quando compreendeu que eles descansavam apenas, e no tinham terminado. Afinal, quando os sons do sono 
apenas eram ouvidos na habitao, Jondalar ainda no dormia. Ouviu Ayla e Ranec uma e outra vez em sua mente, e visualizava-os juntos.
     Com o primeiro vislumbre de claridade delineando a abertura de sada da fumaa, antes de qualquer pessoa se agitar, Jondalar estava de p, guardando suas peles 
em um saco de viagem. Depois, vestindo a parka e calados, e pegando as lanas e o arremessador de lanas, caminhou silenciosamente at a primeira arcada e afastou 
a cortina. Lobo o seguiu, mas Jondalar disse-lhe para ficar num cochicho rouco e fechou a cortina atrs de si.
     Uma vez fora, colocou o capuz para enfrentar o vento forte e amarrou-o ao redor do rosto, deixando quase que apenas uma abertura para enxergar. Colocou as luvas 
que pendiam de suas mangas por cordes, mudou o saco de posio, e comeou a caminhar, subindo a encosta. O gelo era esmagado sob seus ps, e ele tropeou  luz 
fraca da manh cinzenta, cego pelas lgrimas ardentes, agora que estava sozinho.
     O vento soprava forte, e frio, quando chegou ao topo, fustigando-o com contracorrentes. Ele fez uma pausa, tentando decidir que caminho tomar, depois se virou 
para o sul, seguindo o rio. Era difcil caminhar. A geada fora suficiente para formar uma crosta de gelo sobre algumas das correntes que derretiam, e ele afundou 
at os joelhos e tinha que puxar os ps para fora a cada passo. Onde no havia neve acumulada pelo vento, o terreno era duro e rido, e muitas vezes, escorregadio. 
Ele escorregou e deslizou e caiu uma vez, machucando o quadril.
      medida que a manh avanava, no apareceu o brilho do sol no cu fortemente nublado. A nica evidncia de sua presena era a luz difusa, porm mais forte, 
sem sombra. Jondalar caminhava com dificuldade, os pensamentos eram voltados para dentro, mal prestava ateno ao ritmo que tomava.
     Por que no suportava o pensamento de Ayla e Ranec juntos? Por que era to difcil para ele deix-la fazer sua prpria escolha? Ser que ele a queria apenas 
para si mesmo? Ser que outros homens se sentiam assim, tambm? Sentiam aquela dor? Ser que era porque outro homem a tocava? Era medo a estar perdendo? Ou era mais 
que isso? Ser que sentia que mereci. Ela falava simplesmente sobre sua vida com o Cl, e ele a aceitara como qualquer outra pessoa, at imaginar o que seu povo 
poderia pensar. Ser que ela se sentiria igualmente livre, para falar de sua infncia com os Zelandonii? Ela se ajustava muito bem ao Acampamento do Leo. Eles a 
aceitaram sem reservas, mas ser que o fariam se soubessem sobre seu filho? Ele odiava pensar assim. Se sentia vergonha dela, talvez devesse desistir, mas no tolerava 
a idia de perd-la.
     Afinal, a sede penetrou nos recantos sombrios de sua introspeco Ele parou, estendeu a mo at o cantil e descobriu que esquecera de traz-lo. Na neve prxima 
acumulada pelo vento, ele quebrou a crosta de gelo e colocou um punhado de neve na boca, mantendo-a ali at derreter. Era a segunda natureza, ele nem sequer tinha 
que pensar sobre isso. Havia sido treinado desde a infncia, a no comer neve para matar a sede sem deixar derreter primeiro, de preferncia antes de coloc-la na 
boca. Engolir neve esfriava o corpo, e mesmo derret-la na boca era um ltimo recurso.
     O cantil que faltava o fez analisar sua situao por um instante. Ele tambm compreendeu que se esquecera de alimento, mas deixou isso de lado em seguida. Estava 
muito preso  lembrana, que vinha uma e outra vez, dos sons da habitao, e as cenas e pensamentos que criavam em sua mente.
     Ele chegou a uma extenso branca e mal parou antes de avanar com dificuldade at ela. Se houvesse observado os arredores, talvez visse que era mais do que 
neve acumulada pelo vento, mas ele no refletia. Depois dos primeiros passos, partiu a crosta e penetrou no em neve, mas afundou at os joelhos numa lagoa de gua 
parada. Seu calado de couro, revestido de sebo, era suficientemente  prova d'gua para suportar certa quantidade de neve, at derretida, mas no gua. O choque 
do frio afinal o arrancou de sua preocupao absorta. Avanou mais, quebrando mais gelo e sentiu o frio extra trazido pelo vento.
     Que coisa estpida para se fazer, pensou. Nem mesmo tenho roupas secas comigo. Ou alimento. Ou um recipiente de gua. Tenho que voltar. No estou preparado 
para viajar, de forma alguma. Em que andei pensando? Sabe muito bem no que pensava, Jondalar, disse a si mesmo, fechando os olhos enquanto o sofrimento o apertava.
     Sentia frio nos ps e parte inferior das pernas, e a umidade desconfortvel, lamacenta. Perguntou-se se devia tentar se secar antes de voltar. Compreendeu que 
no tinha uma pedra-de-fogo consigo, ou mesmo um apetrecho para fazer um fogo ou uma isca, e seu calado tinha revestimento de l feltrada de mamute. Mesmo molhado, 
no deixaria que seus ps congelassem, se continuasse andando. Voltou, censurando-se por sua estupidez, no entanto, odiando cada passo.
     Ao retroceder sobre seus passos, encontrou-se pensando no irmo. Lembrou o momento em que Thonolan ficara preso em areia movedia na foz do Grande Rio Me, 
e queria ficar l e morrer. Pela primeira vez, Jondalar compreendera plenamente por que Thonolan havia perdido a vontade de viver depois que Jetamio morreu. Seu 
irmo havia decidido ficar com o povo da mulher que amava, recordou. Mas Jetamio havia nascido do povo do rio, pensou. Ayla era tanto uma estranha, quanto ele o 
era para os Mamutoi. No, corrigiu-se. Isto no  verdade. Agora, Ayla  Mamutoi.
     Quando se aproximou da habitao viu um vulto volumoso caminhando em sua direo.
     - Nezzie estava preocupada com voc e me mandou procur-lo. Onde esteve? - perguntou Talut ao alcanar Jondalar
     - Fui dar uma caminhada.
     O grande chefe concordou com um gesto de cabea. No era segredo que Ayla havia partilhado prazeres com Ranec, porm a angstia de Jondalar tampouco era to 
particular quanto ele imaginava.
     - Seus ps esto molhados.
     - Quebrei o gelo de uma poa, pensando que era neve acumulada pelo vento.
     Enquanto se dirigiam para o Acampamento do Leo descendo a encosta, Talut disse:
     - Deve mudar as botas imediatamente, Jondalar. Tenho um par extra que darei a voc.
     - Obrigado - respondeu o rapaz, consciente, de repente, de que ele era, em grande parte, um forasteiro. No tinha nada seu e dependia inteiramente da boa vontade 
do Acampamento do Leo at para as roupas e suprimentos necessrios para viajar. No gostava da idia de pedir mais, porm no tinha escolha, se ia partir e, uma 
vez indo embora, no comeria mais o seu alimento, nem faria outras exigncias por conta deles.
     - A est - disse Nezzie quando ele entrou na moradia. - Jondalar! Est com frio e molhado! 
     Tire essas botas e me deixe dar-lhe alguma coisa quente para beber.
     Nezzie lhe trouxe uma bebida quente e Talut lhe deu um par de botas velhas e calas secas.
     - Pode ficar com elas - disse ele.
     - Sou grato, Talut, por tudo que tem feito por mim, mas preciso lhe pedir um favor Tenho que partir Necessito voltar para meu lar. Estou longe h muito tempo. 
 hora de partir, mas preciso de algum equipamento de viagem e alimento. Quando o tempo esquentar, ser mais fcil encontrar alimento pelo caminho, porm preciso 
de algum para comear.
     - Eu ficaria feliz em lhe dar o que precisa. Embora minhas roupas sejam um pouco grandes para voc, pode us-las. - O chefe grandalho sorriu, alisou a barba 
ruiva e farta, acrescentando: - Mas tenho uma idia melhor. Por que no pede a Tulie para vesti-lo?
     - Por que Tulie? - indagou Jondalar, intrigado.
     - Seu primeiro homem era mais ou menos do seu tamanho, e estou certo de que ela ainda tem muitas roupas dele. Eram da melhor qualidade, Tulie certificou-se 
disso.
     - Mas, por que ela me daria s roupas?
     - Voc ainda no recebeu sua reivindicao futura e ela est em dvida com voc. Se lhe disser que quer ser pago com roupas e alimentos para viajar, ela tomar 
providncias para voc ter o melhor que existe, a fim de livrar-se da obrigao - disse Talut.
     -  verdade - falou Jondalar com um sorriso. Ele havia esquecido a aposta que ganhara. Sentiu-se melhor ao saber que no estava inteiramente sem recursos. - 
Falarei com Tulie.
     - Mas no planeja partir, no ?
     - Planejo sim, o mais breve possvel - retrucou Jondalar.
     O chefe se sentou para uma conversa sria.
     - No  prudente viajar, ainda. Tudo est derretendo. Olhe o que aconteceu somente dando uma caminhada - disse Talut -, e eu esperava que voc nos acompanhasse 
 Reunio de Vero e caasse mamutes conosco.
     - No sei - disse Jondalar. Viu Mamut comendo perto de uma das fogueiras e lembrou-se de Ayla. Achou que no suportaria mais nenhum dia ali. Como poderia ficar 
at a Reunio de Vero?
     - O incio do vero  uma poca melhor para comear uma longa viagem.  mais seguro. Devia esperar, Jondalar.
     - Vou pensar - disse Jondalar, embora no tivesse inteno de ficar mais tempo do que o absolutamente necessrio.
     - E bom. Faa isso - falou Talut, levantando-se. - Nezzie me disse para certificar-me de que voc tomaria sua sopa quente como refeio matinal. Ela colocou 
as ltimas razes boas nela.
     Jondalar acabou de experimentar o calado de Talut, levantou-se e se dirigiu  fogueira onde Mamut terminava uma tigela de sopa. Saudou o velho depois pegou 
uma das tigelas empilhadas ali perto, e serviu-se. Sentou-se ao lado do feiticeiro, pegou sua faca de comida e espetou um pedao de carne.
     Mamut limpou sua tigela e pousou-a; depois se virou para Jondalar.
     - No pude deixar de ouvir que pretende partir logo.
     - Sim. Amanh ou depois, assim que me aprontar.
     -  cedo demais!
     - Eu sei. Talut disse que era uma poca ruim para viajar, mas j viajei em pocas ruins antes.
     - No  isso que quero dizer. Deve ficar at o Festival de Primavera - falou, com absoluta seriedade.
     - Sei que  uma grande ocasio, todo mundo fala a respeito, mas realmente preciso ir.
     - No pode. No  seguro.
     - Por qu? Que diferena far mais alguns dias? Haver ainda descongelamento e enchentes. - O jovem visitante no compreendia a insistncia do velho para que 
ficasse para um festival que no tinha significado especial para ele.
     - Jondalar, no tenho dvidas de que voc pode viajar com qualquer tempo. Eu no pensava em voc, pensava em Ayla.
     - Ayla? - falou Jondalar, a testa enrugada, enquanto seu estmago dava um n. - No entendo.
     Tenho treinado Ayla em algumas prticas da Fogueira do Mamute, e planejo uma cerimnia especial para este Festival de Primavera com ela. Usaremos uma raiz que 
ela trouxe do Cl. Ela a usou uma vez... Com a orientao do seu Mog-ur. Tenho experincia com vrias plantas mgicas que podem levar a pessoa para o mundo espiritual, 
mas jamais utilizei esta raiz, e Ayla nunca a usou sozinha. Ambos tentaremos alguma coisa nova. Ela parece ter... Algumas preocupaes, e... Certas mudanas talvez 
fossem perturbadoras. Se partir, poderia haver um efeito imprevisvel sobre Ayla.
     - Est dizendo que existe algum perigo para Ayla na cerimnia da raiz? - perguntou Jondalar, com os olhos cheios de aflio.
     - Sempre existe algum elemento de perigo ao se lidar com o mundo espiritual - explicou o feiticeiro -, mas ela viajou para l sozinha, e se ocorrer novamente, 
sem orientao ou treinamento, poderia ficar desnorteada.  por isto que a estou treinando, mas Ayla precisar da ajuda daqueles que tm sentimentos por ela, amor 
por ela.  essencial que voc esteja aqui.
     - Por que eu? - disse Jondalar. - No estamos... Mais juntos. H outros que tm sentimentos... Que amam Ayla. Outros que ela tambm ama.
     O velho se levantou.
     - No lhe posso explicar, Jondalar.  uma sensao, uma intuio. S posso dizer que quando o ouvi falar de partir, um pressentimento terrvel, sombrio me atingiu. 
No estou certo do que significa, mas eu... Preferia... No, falarei com mais firmeza. No parta, Jondalar. Se voc a ama, prometa-me que no ir embora seno depois 
do Festival de Primavera - disse Mamut.
     Jondalar se levantou e olhou para o rosto velho, inescrutvel do velho feiticeiro. No era do seu feitio fazer um pedido assim, sem motivo, mas por que era 
to importante que ele ficasse ali? O que Mamut sabia, que ele ignorava? O que quer que fosse, os temores de Mamut o encheram de apreenso. No podia partir se Ayla 
corria perigo.
     - Ficarei - disse. - Prometo que no partirei seno depois do Festival de Primavera.
     Passaram-se alguns dias antes de Ayla voltar  cama de Ranec, embora no fosse porque ele no a tivesse encorajado. Foi difcil para ela recus-lo  primeira 
vez que ele lhe pediu diretamente. Sua educao em criana havia sido to firme que ela sentiu que fizera uma coisa terrivelmente errada quando dissera no, e quase 
esperou que Ranec se zangasse. Mas ele encarou a recusa com compreenso e disse que sabia que ela precisava de algum tempo para pensar.
     Ayla soubera sobre a longa caminhada de Jondalar na manh seguinte, aps sua noite com o escultor escuro, e desconfiou que tinha algo a ver consigo. Era essa 
a maneira de Jondalar mostrar que ainda se importava com ela? Porm, Jondalar estava ainda mais distante. Ele a evitava sempre que era possvel e falava somente 
quando necessrio. Ela concluiu que devia estar enganada. Jondalar no a amava. Ela ficou desolada quando, afinal, comeou a aceitar isso, mas tentava no demonstr-lo.
     Em contrapartida, Ranec deixava totalmente claro que a amava. Continuou a pression-la para ir  sua cama e tambm a unir-se a ele em sua fogueira de uma maneira 
formalmente reconhecida; para ser sua mulher. Ela afinal consentiu em dividir a cama dele de novo, principalmente por causa de sua compreenso, mas no quis se comprometer 
a um relacionamento mais permanente. Passou vrias noites com ele, mas depois resolveu afastar-se de novo, desta vez achando mais fcil recusar. 
     Sentia que tudo se movia depressa demais. Ele queria fazer o anncio de sua Promessa no Festival de Primavera, que estava apenas a alguns dias de distncia. 
Ela queria tempo para refletir sobre isso. Gostava dos prazeres com Ranec, ele era amoroso e sabia agrad-la, e ela gostava dele. Gostava muito, na verdade, mas 
alguma coisa faltava. Ela o sentia como uma espcie indistinta de algo incompleto. Embora quisesse e desejasse am-lo, no o amava.
     Jondalar no dormia quando Ayla estava com Ranec, e a tenso comeava a ficar aparente. Nezzie achou que ele havia emagrecido mais, porm, nas roupas de Talut, 
que estavam folgadas nele, e com a barba de inverno no cuidada, era difcil dizer. Mesmo Danug notou que ele parecia cansado e abatido, e achou que conhecia a razo. 
Queria que houvesse alguma coisa que pudesse fazer para ajudar; gostava muito de Jondalar e Ayla, mas ningum podia ajudar. Nem mesmo Lobo, embora o filhote o consolasse 
mais do que ele imaginava. Sempre que Ayla se ausentava da fogueira, o filhote procurava Jondalar. Isto fazia com que o homem no se sentisse sozinho em sua dor 
e rejeio. Tambm passava mais tempo com os cavalos, at dormia com eles, s vezes, para fugir das cenas dolorosas na habitao, mas resolveu manter-se afastado 
quando Ayla estava por perto.
     Nos dias que se seguiram o tempo esquentou e tornou-se mais difcil, para Jondalar, evit-la. Apesar da neve enlameada e das cheias, ela cavalgava com mais 
freqncia e, embora ele tentasse esgueirar-se quando a via acercar-se do anexo, encontrou-se, vrias vezes, balbuciando desculpas e saindo depressa aps encontr-la 
por acaso. Muitas vezes levava Lobo e, ocasionalmente, Rydag, cavalgando com ela mas, quando queria estar livre de responsabilidade, deixava o filhote aos cuidados 
do menino, para deleite de Rydag. Whinney e Racer estavam inteiramente familiarizados e  vontade com o filhote, e Lobo parecia gostar da companhia dos cavalos, 
quer estivesse sobre o dorso de Whinney com Ayla, ou correndo ao lado, tentando acompanhar a gua. Era um bom exerccio e uma desculpa bem recebida para ela se afastar 
da habitao, que parecia pequena e restrita aps o prolongado inverno, mas no podia escapar do turbilho de seus fortes sentimentos, que girava  sua volta e em 
seu ntimo.
     Ela havia comeado a encorajar e dirigir Racer pela voz, assobio e sinais enquanto cavalgava Whinney, mas sempre que pensava que devia comear a acostum-lo 
a carregar um cavaleiro, pensava em Jondalar e adiava a ao. No era s uma deciso consciente como tambm uma ttica de retardamento, e um desejo forte de que 
tudo, de alguma forma, desse certo como antes ela havia esperado, e de que Jondalar o treinasse e o montasse.
     Jondalar pensava mais ou menos a mesma coisa. Num dos seus encontros casuais, Ayla o encorajara a levar Whinney para uma cavalgada, insistindo em que ela estava 
muito ocupada, e que a gua precisava de exerccio depois de longo inverno. Ele havia esquecido a excitao pura que era correr ao vento sobre o dorso de um cavalo. 
E quando viu Racer avanando a seu lado, e depois saltando  frente de sua me, sonhou em cavalgar o jovem garanho ao lado de Ayla e Whinney. 
     Embora normalmente pudesse conduzir a gua, achava que ela o tolerava simplesmente, e sempre se sentia pouco  vontade em relao a isso. Whinney pertencia 
a Ayla e, apesar de observar o garanho castanho e possuir um afeto verdadeiro por ele, em seu pensamento Racer tambm era de Ayla.
      medida que o tempo esquentava, Jondalar pensava mais em partir. Resolveu seguir o conselho de Talut e pedir equipamento de viagem e roupas necessrias a Tulie 
por conta da aposta que ganhara. Como o chefe havia sugerido, Tulie ficou encantada em pagar sua dvida to facilmente.
     Jondalar experimentava um cinto ao redor de sua nova tnica marrom-caf, quando Talut entrou na rea de cozinhar com passos largos. O Festival de Primavera 
seria dali a dois dias. Todos experimentavam adornos em preparao para o grande dia e relaxavam aps banhos a vapor e um mergulho no rio gelado. Pela primeira vez 
desde que safra de casa, Jondalar tinha excesso de roupa bem-feita, lindamente adornada, assim como mochilas, tendas e outros equipamentos de viagem. Ele sempre 
gostava de coisas de boa qualidade, e sua apreciao no era indiferente a Tulie. Ela suspeitara o tempo todo, e agora estava convencida, de que quem quer que os 
Zelandonii fossem, Jondalar vinha de pessoas de alto status.
     - Parece que foi feita para voc, Jondalar - falou Talut. - O trabalho em contas nos ombros cai muito bem.
     - Sim, as roupas caem bem, e Tulie foi mais que generosa. Obrigado pela sugesto.
     - Estou contente por voc ter resolvido no partir imediatamente. Gostar da Reunio de Vero.
     - Bem... Ah... Eu no... Mamut... - Jondalar lutava para encontrar palavras para explicar por que no havia partido como planejara.
     -... E me certificarei para que seja convidado para a primeira caada - continuou Talut, supondo que Jondalar havia ficado por causa de seu conselho e convite.
     - Jondalar? - disse Deegie, um pouco perplexa - De costas, pensei que era Darnev! - Caminhou e rodeou-o com um sorriso no rosto, examinando-o. Gostou do que 
viu. - Fez a barba - falou.
     - E primavera, achei que era o momento - disse ele, sorrindo, os olhos dizendo a Deegie que ela tambm era atraente.
     Ela ficou presa aos olhos azuis dele, a atrao era irresistvel; depois riu, achando que estava na hora de ele apresentar uma aparncia limpa e vestir roupas 
decentes. Ele vinha parecendo to negligente em sua barba hirsuta, malcuidada e roupas velhas de Talut, que ela esquecera quo atraente ele era.
     - Jondalar, a roupa fica muito bem em voc. Espere at chegar na Reunio de Vero. Um estranho sempre recebe muita ateno e acho que as mulheres Mamutoi querero 
fazer voc se sentir muito bem acolhido - disse Deegie com sorriso provocante.
     - Mas... - Jondalar desistiu de tentar explicar que no pretendia ir Reunio de Vero com eles. Poderia dizer-lhe mais tarde, quando partisse.
     Experimentou outro traje depois que saram, mais um adequado para viagem ou uso dirio, depois saiu  procura da chefe para agradecer-lhe novamente, e lhe mostrar 
como as roupas caam bem nele. Na rea da entrada, encontrou Danug, Rydag e Lobo acabando de entrar. O rapaz segurava Rydag com um brao e Lobo com o outro. Tinham 
uma pele enrolada ao redor de si e os cabelos de ambos ainda estavam midos. Danug havia carregado o menino desde o rio, depois de seus banhos de vapor. Colocou 
ambos no cho.
     - Jondalar, voc est muito bem - disse Rydag por sinais. - Est pronto para o Festival de Primavera?
     - Sim. E voc? - perguntou tambm por sinais.
     - Tenho roupas novas tambm. Nezzie fez para mim, para o Festival - replicou Rydag, sorrindo.
     - Para a Reunio de Vero tambm - acrescentou Danug. - Ela fez roupas novas para mim, e Latie e Rugie.
     Jondalar notou que o sorriso de Rydag desapareceu quando Danug falou sobre a Reunio de Vero. Ele no parecia esperar ansiosamente a grande reunio de vero, 
como os outros.
     Quando Jondalar afastou a pesada cortina e saiu, Danug cochichou com Rydag, no querendo que suas palavras fossem ouvidas:
     - Deviamos ter-lhe dito que Ayla est l fora? Todas as vezes que a v, ele foge dela.
     - No. Ele quer v-la. Ela quer v-lo. Fazem sinais certos, dizem palavras erradas - assinalou Rydag.
     - Tem razo, mas por que no vem isso? Como fazer um e outro entenderem?
     - Esquecendo as palavras, fazendo sinais - replicou Rydag com seu sorriso diferente do Cl, depois pegou o filhote de lobo e carregou-... consigo para o interior 
da moradia.
     Jondalar descobriu o que os garotos no lhe disseram no instante em que saiu. Ayla estava diante da entrada da frente com os dois cavalos. Ela acabara de dar 
Lobo a Rydag, para que o menino tomasse conta do animal, e ansiava por uma cavalgada longa, veloz, a fim de livrar-se da tenso que sentia. Ranec queria que concordasse 
antes do Festival de Primavera, e ela no se conseguia decidir. Esperava que o passeio a cavalo a ajudasse a pensar. Quando viu Jondalar, sua primeira reao foi 
oferecer-lhe a gua para montar, como havia feito antes, sabendo que ele adorava isso, e esperando que o amor de Jondalar pelos cavalos o trouxesse para mais perto 
dela. Mas ela queria montar. Estivera esperando por aquilo e estava pronta para o passeio.
     Quando olhou para ele, de novo, tomou flego. Ele havia raspado a barba com uma de suas aguadas lminas de slex, e parecia tanto com o homem que vivera com 
ela em seu vale no vero anterior, que seu corao martelou e o rosto corou. Ele reagiu aos seus sinais fsicos com sinais prprios inconscientes, e a atrao magntica 
de seus olhos a prendeu.
     - Voc tirou a barba - disse ela.
     Sem perceber, ela falara em Zelandonii. Ele demorou um pouco para compreender o que estava diferente, depois no pde deixar de sorrir. No ouvia sua lngua 
havia muito tempo. O sorriso a encorajou, e um pensamento ocorreu a ela.
     - Eu ia sair com Whinney e tenho pensado que algum precisa comear a acostumar Racer a um cavaleiro. Por que no vem comigo e tenta mont-lo?  um bom dia 
para isso. A neve quase desapareceu, capim novo est brotando, mas o solo ainda no est to duro, para o caso de algum cair - disse ela, apressando-se, antes que 
alguma coisa acontecesse que o fizesse mudar e ficar distante outra vez.
     - Bem... No sei - Jondalar hesitou. - Pensei que voc quereria mont-lo primeiro.
     Ele est acostumado a voc, Jondalar, e no importa quem o monte primeiro, ajudaria ter duas pessoas - Uma pode acalm-lo e mant-lo parado enquanto a outra 
monta.
     - Suponho que esteja certa - disse ele, enrugando a testa. No sabia se devia sair para as estepes com ela, mas no sabia como recusar e queria montar o cavalo. 
- Se quer realmente que eu monte, acho que posso faz-lo.
     - Vou buscar o cabresto e a rdea que fez para ele - disse Ayla, correndo para o anexo antes que ele mudasse de idia. - Por que no comea a subir a encosta 
com eles?
     Ele comeou a pensar melhor, porm ela havia desaparecido antes de ele poder reconsiderar. Chamou os cavalos e comeou a subirem direo s largas plancies 
 sua frente. Ayla os alcanou quando chegavam ao topo.
     Ela levava uma mochila e um saco de gua, alm do cabresto e uma corda. Quando atingiram as estepes, Ayla conduziu Whinney a um montculo que ela havia usado 
antes, quando deixava alguns membros do Acampamento do Leo, principalmente os mais jovens, cavalgar a gua. Com um salto treinado, ela montou no animal cor de feno.
     - Suba, Jondalar. Podemos cavalgar juntos.
     - Cavalgar juntos! - exclamou ele, quase em pnico. No havia pensado em cavalgar com ela, e estava pronto para fugir.
     - S at encontrarmos uma boa faixa aberta de solo plano. No podemos tentar aqui. Racer talvez corresse ravina adentro ou escorregasse encosta abaixo - falou 
ela.
     Ele se sentiu preso. Como poderia dizer que no cavalgaria com ela por uma distncia curta? Caminhou at o montculo e cuidadosamente sentou-se  gua com uma 
perna de cada lado, tentando recuar e evitar tocar em Ayla. No instante em que ele montou, ela guiou Whinney num trote rpido.
     No havia meio de evitar. Embora ele tentasse, no cavalo saltitante, no podia impedir de escorregar para perto dela. Sentia-lhe a calidez do corpo atravs 
da roupa, cheirava o odor agradvel e leve das flores secas para limpeza que ela usava ao lavar-se, misturado a seu aroma feminino familiar. A cada passo da gua, 
ele sentia-lhe as pernas, os quadris, as costas pressionados contra si, e sentia seu membro dilatar em resposta. Sua cabea girava, e lutou consigo mesmo para no 
beij-la ao pescoo, ou estender a mo ao redor da mulher e segurar um dos seios firmes e fartos.
     Por que havia ele concordado com aquilo? Por que no recusara? Que diferena faria se ele montasse Racer, um dia? Jamais cavalgariam juntos. Ele ouvira as pessoas 
falando; Ayla e Ranec iam anunciar sua promessa no Festival de Primavera e, depois, ele partiria e iniciaria sua longa jornada para casa.
     Ayla fez sinal  gua para parar.
     - O que acha, Jondalar? L est uma boa faixa plana.
     - Sim, parece boa - disse ele depressa, e passando a perna por trs do animal, saltou ao cho.
     Ayla ergueu a perna sobre a gua e escorregou para o lado oposto. Ela respirava depressa, o rosto estava corado, os olhos cintilantes. Havia sentido profundamente 
o odor do homem, derretido na calidez do corpo, e estremecido ao sentir o membro duro, quente. Pude sentir a necessidade dele, pensou ela. Por que ele estava com 
tanta pressa de se afastar de mim? Por que ele no me quer? Por que no me ama mais?
     Em lados opostos da gua, ambos tentavam se recompor. Ayla assobiou para Racer, um assobio diferente do que ela usava para chamar Whinney, e quando ela o acariciou 
e coou, e lhe falou, estava pronta para encarar Jondalar novamente.
     - Quer colocar o cabresto nele? - perguntou ela, conduzindo o jovem garanho para uma pilha de ossos grandes que havia visto.
     - No sei. O que voc faria? - perguntou ele, tambm controlado agora, e comeando a ficar excitado em relao a cavalgar o cavalo.
     - Nunca usei nada para guiar Whinney, exceto a forma como me movia, mas Racer est acostumado a ser conduzido pelas correias. Acho que as usaria - disse ela.
     Ambos colocaram o cabresto em Racer. Sentindo alguma coisa diferente, ele estava mais agitado que o normal, e eles o alisaram e afagaram para tranqiliz-lo. 
Empilharam dois ossos de mamute para que Jondalar tivesse alguma coisa onde ficar em p a fim de montar, depois levaram o cavalo para o seu lado. Por sugesto de 
Ayla, Jondalar esfregou-lhe pescoo, dorso e pernas, e inclinou-se sobre ele, coando-o e acariciando-o, e fazendo com que se familiarizasse, totalmente, ao toque 
do homem.
     - Quando subir nele pela primeira vez, segure-o ao redor do pescoo. Talvez empine para tentar atir-lo ao cho - disse Ayla, dando um conselho de ltima hora. 
- Mas ele se habituou a carregar um fardo quando voltou do vale para c; assim, talvez no demore muito a se habituar com voc. Segure a correia, para que no caia 
no solo e o faa tropear, mas eu o deixaria correr para onde quisesse at se cansar. Seguirei montada em Whinney. Est pronto?
     - Acho que sim - respondeu ele, sorrindo nervosamente.
     Jondalar ficou de p sobre os grandes ossos, inclinou-se para o animal peludo, robusto, falando-lhe, enquanto Ayla segurava-lhe a cabea. Depois, passou uma 
das pernas por seu dorso, acomodou-se e passou os braos pelo pescoo. Quando o garanho sentiu o peso, abaixou as orelhas para trs. 
     Ayla o soltou. Ele saltou sobre as patas traseiras uma vez e depois arqueou o dorso tentando deslocar o fardo, mas Jondalar se manteve firme. Em seguida, fazendo 
jus ao nome, o jovem garanho partiu num galope rpido pelas estepes.
     Jondalar semicerrou os olhos no vento frio e sentiu uma enorme onda de puro jbilo. Viu o terreno toldar-se sob si, e no conseguiu acreditar. Na verdade, cavalgava 
o garanho agora, e era exatamente to excitante quanto ele havia imaginado. Fechou os olhos e sentiu a fora enorme dos msculos juntando-se e retesando-se sob 
ele, e uma sensao de assombro mgico o inundou, como se pela primeira vez na vida partilhasse a maravilha e criao da Prpria Grande Me Terra.
     Sentiu o jovem garanho cansando-se e, ouvindo outros rudos de cascos, abriu os olhos para ver Ayla e Whinney correndo a seu lado. Sorriu, encantado e deleitado 
para Ayla, e o sorriso que ela lhe devolveu fez seu corao bater mais depressa. Tudo o mais se tornou insignificante naquele momento. Todo o mundo de Jondalar era 
uma cavalgada inesquecvel no dorso de um garanho veloz, e o sorriso dolorosamente bonito no rosto da mulher que ele amava.
     Afinal, Racer reduziu a marcha, depois parou. Jondalar desmontou de um salto. O garanho tinha a cabea pendendo at quase o solo, as patas separadas, os flancos 
elevando-se enquanto respirava com dificuldade. Whinney parou e Ayla saltou ao cho. Pegou alguns pedaos de couro macio em sua mochila, deu um a Jondalar para passar 
no animal suado, depois ela fez o mesmo em Whinney. Os dois animais exaustos se encostaram um ao outro em busca de tranqilidade.
     - Ayla, enquanto eu viver, jamais esquecerei essa cavalgada  falou Jondalar.
     Havia muito tempo que ele no relaxava tanto, e ela sentiu sua excitao. Olharam um para o outro, sorriram, riram, partilhando o momento maravilhoso. Sem pensar, 
ela ergueu a cabea para beij-lo, ele comeou a corresponder, depois, de repente, lembrou-se de Ranec. Enrijeceu, retirou os braos dela do seu pescoo.
     - No brinque comigo, Ayla - disse ele, a voz rouca, controlada enquanto a afastava.
     - Brincar com voc? - disse ela, a mgoa enchendo-lhe os olhos.
     Jondalar fechou os seus, cerrou os dentes, estremeceu com o esforo para tentar se controlar. Ento, de sbito, como barragem de gelo cedendo... Era demais. 
Ele a agarrou, beijou-a, um beijo rude, desesperado, que machucava a boca. No instante seguinte ela estava ao cho, as mos de Jondalar sob sua tnica, puxando o 
cordo.
     Ela tentou ajud-lo, desamarrar a roupa para ele, mas Jondalar no foi capaz de esperar. 
     Impacientemente, agarrou a cintura de suas macias perneiras de couro com as duas mos e, com a fora de paixo negada, que no mais podia ser negada, ela ouviu 
o rudo da roupa sendo rasgada nas costuras. Ele lutou com a abertura de suas calas; depois, estava sobre ela, selvagem em seu frenesi, enquanto seu dardo palpitante, 
duro, procurava e sondava.
     Ela estendeu a mo para ajud-lo, sentindo a prpria excitao crescer enquanto ela compreendia o que ele queria desesperadamente. Mas, o que o impelia a uma 
fria to ardente? O que lhe causava tal necessidade e nsia? Ser que no conseguia ver que ela estava pronta para ele? Ela estivera pronta para ele por todo o 
inverno. Nunca houve um momento em que no estivesse pronta para ele. Como se o seu corpo tivesse sido treinado desde a infncia para responder  necessidade dele, 
ao sinal dele, ele tinha apenas que quer-la para que ela o quisesse. Aquilo era tudo o que ela esperara. Lgrimas de carncia e amor estavam em seus olhos; ela 
havia esperado muito tempo para que ele a quisesse novamente.
     Com uma paixo tanto tempo negada quanto  dele, ela se abriu para ele, acolheu-o, deu-lhe o que ele pensou que tomava. Vibrou com a sensao do membro extenso 
e firme procurando suas profundezas, enchendo-a. Ele recuou e ela ansiou que ele voltasse, a enchesse de novo. Ela avanou ao encontro dele quando ele investiu outra 
vez; ela comprimiu-se contra a lana quente, sentiu bem no fundo de si um palpitar crescer. Ela arqueou as costas para sentir o movimento de Jondalar, para pressionar 
seu local de prazer contra ele, para encontr-lo mais uma vez.
     Ele gritou com a alegria inacreditvel de possu-la. Ele se sentira assim desde a primeira vez. Os dois se ajustavam, combinavam, a profundeza de Ayla com o 
tamanho dele, como se ela fosse feita para ele, e ele para ela.  Me!  Doni! Como ele sentira falta de Ayla! Como ele a havia querido, como ele a amava! Ele penetrou, 
sentiu a sua carcia mida e clida envolv-lo, tom-lo, estender-se em busca de mais at seu membro indo enterrar-se nela.
     Ondas enormes de prazer o inundaram, em movimentos combinados com os seus prprios. Ele mergulhou de novo, e outra vez, enquanto ela se estendia para ele, ansiava 
por ele, desejava-o. Com desembarao selvagem, sem restries, ele voltou, e voltou para ela, mais depressa, e ela o acolheu todas s vezes, sentiu sua tenso crescer 
com a dele at o cume, o clmax, a ltima onda de prazer quebrar-se sobre os dois.
     Ele descansou sobre ela, no meio das estepes descampadas, desabrochando com vida nova. Depois, de repente, ele a apertou, enterrou a cabea em seu pescoo e 
gritou seu nome.
     - Ayla, oh, minha Ayla, minha Ayla!
     Beijou-lhe o pescoo, a boca e um dos olhos fechados. Ento parou, to abruptamente quanto comeou. Ergueu o corpo e olhou para ela.
     - Est chorando! Eu a magoei! O Grande Me, o que fiz? - disse ele. Ficou de p em um salto e abaixou os olhos para ela, jazendo no solo nu, as roupas rasgadas. 
- Doni.  Doni, o que fiz? Eu a forcei. Como pude fazer isso? Com ela, que s conheceu este sofrimento no incio. Agora, eu a fiz sofrer.  Doni!  Me! Como me 
deixou fazer isso?
     - No, Jondalar! - exclamou Ayla, sentando-se. - Est tudo bem, voc no me magoou.
     Mas ele no a ouvia. Virou-lhe as costas, incapaz de olhar para ela, e se comps. No podia voltar. Afastou-se, zangado consigo mesmo, cheio de vergonha e remorso. 
Se no podia confiar em si mesmo para no magoar Ayla, teria que ficar longe dela e certificar-se de que ela permanecesse distante dele. Ela tem razo em escolher 
Ranec, pensou. No a mereo. Ele a ouviu levantar-se e dirigir-se aos cavalos. Ento, ouviu-a caminhar na direo dele e sentiu a mo dela em seu brao.
     - Jondalar, voc no...
     Ele deu meia-volta.
     - Fique longe de mim! Gritou, cheio de clera culposa contra si
     Ela recuou. Agora, o que ela tinha feito de errado?
     - Jondalar...? - disse, de novo, dando um passo na direo dele.
     - Fique longe de mim! No ouviu? Se no ficar longe de mim, talvez eu perca o controle e force voc novamente! - As palavras soaram como ameaa.
     - No me forou, Jondalar - disse ela quando ele se voltou e se afastou com passos largos. - No pode me forar. No existe momento em que eu no esteja pronta 
para voc...
     Mas os pensamentos de Jondalar estavam cheios de remorso e dio por si mesmo, e no a ouviu.
     Ele continuou andando, de volta ao Acampamento do Leo. Ela o viu afastar-se, tentando resolver sua confuso durante algum tempo. Depois, voltou at os cavalos. 
Pegou o cabresto de Racer e, segurando-se  crina ereta de Whinney, montou a gua e alcanou Jondalar rapidamente.
     - No vai caminhar at l, vai? - perguntou ela.
     Ele no respondeu a princpio, nem sequer se virou para olh-la. Se mesmo ela imaginava que ele iria montar Whinney junto a ela de novo... Pensou, quando ela 
parou ao seu lado. Com o rabo do olho, ele viu que ela conduzia o jovem garanho atrs de si, e finalmente virou-se para encar-la.
     Olhou-a com ternura e desejo. Ela parecia mais atraente, mais desejvel, e ele a amava mais que nunca, agora que tinha certeza de que havia estragado tudo. 
Ela ansiava por estar perto dele, por lhe dizer como fora maravilhoso, como ela se sentia realizada e completa, como ela o amava. Mas ele ficara to zangado, e ela 
estava to confusa, que no sabia o que dizer.
     Eles se fitaram, desejando-se, atrados mutuamente, mas seu grito silencioso de amor no foi ouvido nem no bramido do mal-entendido, nem no rudo de crenas 
culturalmente arraigadas.
     Acho que devia voltar montado em Racer - disse Ayla. -  muito distante para andar.
     Muito distante, pensou ele. Quanto tinha ele caminhado desde seu lar? Mas concordou com um gesto de cabea e seguiu-a at uma rocha ao lado do riacho. Racer 
no estava acostumado a ter cavaleiros. Ainda era melhor acalm-lo gentilmente. As orelhas do garanho foram para trs e ele fez algumas cabriolas, mas acalmou-se 
depressa e acompanhou a me como havia feito muitas vezes antes.
     Eles no falaram no trajeto de volta e, quando chegaram, ficaram contentes porque as pessoas estavam no interior da habitao, ou fora, mas a uma certa distncia 
dela. Nenhum dos dois tinha vontade de conversar casualmente. Assim que pararam, Jondalar desmontou e dirigiu-se  entrada da frente. Ele se virou quando Ayla entrava 
no anexo, achando que devia dizer alguma coisa.
     - Hum... Ayla?
     Ela parou e levantou a cabea.
     - Sabe, eu fui sincero. Jamais esquecerei esta tarde. Quero dizer, o passeio a cavalo. Obrigado.
     - No me agradea, Jondalar. Agradea a Racer.
     - Sim, bem, Racer no fez tudo sozinho.
     - No, voc o fez comigo.
     Ele comeou a dizer alguma coisa, depois mudou de idia, franziu a testa, abaixou a cabea e atravessou a arcada da frente.
     Ayla fitou, um pouco, o local onde ele estivera, fechou os olhos e lutou para engolir um soluo que ameaava uma torrente. Quando ela recuperou o controle, 
entrou. Embora os cavalos tivessem bebido gua de riachos ao longo do caminho, ela derramou gua em suas grandes tigelas, pegou os panos de couro macio e comeou 
a esfregar Whinney novamente. Ela colocou logo os braos ao redor da gua, encostando-se nela, sua testa sobre o pescoo peludo da velha amiga, a nica amiga que 
tivera quando vivia no vale. Racer logo se se encostou a ela, e ela ficou presa entre os dois animais, porm a presso familiar consolava.
     Mamut vira Jondalar entrar pela frente e ouviu Ayla e os animais no anexo. Teve a impresso clara de que alguma coisa estava muito errada. Quando ele a viu 
entrar na Fogueira do Mamute, sua aparncia desgrenhada o fez perguntar-se se ela havia cado e se machucado, porm era mais que isso. Alguma coisa a perturbava. 
Da sombra de seu estrado, ele a observou. Ela trocou de traje e ele notou-lhe a roupa rasgada. Algo devia ter acontecido. Lobo entrou correndo, seguido por Rydag 
e Danug, que orgulhosamente exibiu uma bolsa, como rede, cheia de peixes. Ayla sorriu e cumprimentou os pescadores, mas assim que se dirigiram  Fogueira do Leo 
para ali deixar os seus peixes e receberem mais elogios, ela pegou o lobinho ao colo e balanou-o para  frente e para trs. O velho ficou preocupado. Levantou-se 
e se aproximou do estrado-cama de Ayla.
     - Eu gostaria de repetir o ritual do Cl com a raiz - disse. - S para ter certeza de que fazemos tudo certo.
     - O qu? - disse ela, os olhos fixos nele. - Oh... Se quer, Mamut. - Colocou Lobo em sua cesta, mas ele saltou para fora imediatamente e foi para a Fogueira 
do Leo em busca de Rydag. No estava com vontade de descansar.
     Ela estivera, obviamente, absorta em algum pensamento que a deixava infeliz. Parecia que estivera chorando, ou a ponto de chorar.
     - Voc disse - comeou ele, tentando faz-la falar, e talvez desabafar -, que Iza contou-lhe como preparar a bebida.
     - Sim.
     - E ela lhe disse como se preparar. Tem tudo do que precisa?
     -  necessrio purificar-me. No tenho exatamente as mesmas coisas,  uma estao diferente, mas posso usar outras coisas para me limpar.
     - Seu Mog-ur, Creb, controlava a experincia para voc?
     Ela hesitou:
     - Sim.
     - Ele deve ter sido muito poderoso.
     - O Urso da Caverna era o seu totem. Escolheu-o, deu-lhe poder.
     - Havia outros envolvidos no ritual com a raiz?
     Ayla manteve a cabea ereta, depois sacudiu-a, concordando.
     Havia alguma coisa que ela no lhe contara, pensou Mamut, perguntando-se se era importante.
     - Eles o ajudavam a control-la?
     - No. A fora de Creb era maior do que de todos eles. Eu sabia, eu sentia isso.
     - Como podia sentir, Ayla? Jamais me contou. Pensei que as mulheres do Cl eram proibidas da participar dos rituais mais profundos.
     Ela tornou a abaixar os olhos.
     - Elas so - murmurou.
     Ele ergueu o queixo de Ayla:
     - Talvez deva me falar sobre isso, Ayla.
     Ela concordou com um gesto de cabea.
     - Iza jamais me mostrou como fazer, ela disse que era algo sagrado demais para ser desperdiado em treinamento, mas tentou me contar exatamente como agir. Quando 
chegamos  Reunio de Cls, os mog-urs no queriam que eu preparasse a bebida para eles. Disseram que eu no era do Cl. Talvez tivessem razo - ajuntou Ayla, abaixando 
a cabea de novo.
     - Mas no havia outra pessoa.
     Suplicava ela compreenso? Pensou Mamut.
     - Acho que preparei a bebida forte demais, ou fiz quantidade demasiada. Eles no beberam tudo. Mais tarde, depois da datura e da dana das mulheres, eu a encontrei.
Eu estava tonta, tudo o que pude pensar foi que Iza dissera que era sagrada demais para desperdiar. Assim, bebi. No lembro o que aconteceu depois disso e, no entanto,
jamais esquecerei. De certa forma, encontrei Creb e os mog-urs, e ele me levou de volta at o inicio das lembranas. Recordo a brisa da gua quente do mar, a escavao 
de argila... O Cl e os Outros, ambos viemos dos mesmos incios, sabia disso?
     - No estou surpreso - disse Mamut, pensando quanto ele teria dado por aquela experincia.
     - Mas eu tinha medo tambm, especialmente antes de Creb me descobrir, e guiar-me. E... Desde ento, no... Sou a mesma. s vezes meus sonhos me assustam. Acho 
que ele me mudou.
     Mamut concordava, balanando a cabea.
     - Isso poderia explicar - falou. - Eu me perguntava como voc podia fazer tanta coisa sem treinamento.
     - Creb tambm mudou. Durante longo tempo no foi  mesma coisa entre ns. Comigo, ele viu uma coisa que nunca vira antes. Eu o magoei, no sei como, mas magoei 
- disse Ayla, enquanto as lgrimas se avolumavam.
     Mamut a abraou enquanto ela chorava baixinho em seu ombro. Depois, as lgrimas ameaaram tornar-se um dilvio e ela soluou e estremeceu de tristeza mais recente. 
Sua infelicidade por causa de Creb trouxe lgrimas que estivera contendo, as lgrimas de sua tristeza, confuso e amor frustrado.
     Jondalar estivera observando da fogueira de cozinhar. Quisera acompanh-la, desculpar-se de alguma forma, e tentava pensar no que dizer a Mamut quando a conversa 
com Ayla terminasse. Quando viu Ayla chorando, teve certeza de que ela contara ao velho feiticeiro. O rosto de Jondalar queimava de vergonha. No podia deixar de 
pensar sobre o incidente nas estepes, e quanto mais pensava, mais a coisa piorava.
     E depois, disse a si mesmo, tudo o que voc fez foi afastar-se. Nem sequer tentou ajud-la, nem mesmo lhe disse que lamentava, ou como se sentia mal. Jondalar 
se odiou e quis ir embora, arrumar tudo e partir, e no enfrentar Ayla ou Mamut, ou qualquer pessoa de novo, mas havia prometido a Mamut que ficaria at depois do 
Festival de Primavera. Mamut j deve pensar que sou desprezvel, refletiu. No cumprir uma promessa seria to pior assim? Mas era mais do que a promessa o que o 
detinha. Mamut havia dito que Ayla talvez corresse perigo, e no importava o quanto se odiava, o quanto queria fugir, no podia deixar Ayla enfrentar qualquer perigo 
sozinha.
     - Sente-se melhor agora? - perguntou Mamut quando ela se sentou e enxugou os olhos.
     - Sim.
     E no foi ferida?
     Ayla ficou surpresa com a pergunta. Como ele sabia?
     - No, de modo algum, mas ele pensa que sim. Eu gostaria de poder compreend-lo - falou ela, as lgrimas ameaando rolar de novo. Depois, esforou-se para sorrir. 
- Eu no chorava tanto quando vivia com o Cl. Eles ficavam inquietos. Iza achava que eu tinha olhos fracos, porque ficavam cheios dgua quando eu estava triste, 
e sempre os tratava com medicamentos especiais quando eu chorava. Eu costumava perguntar-me se era apenas eu, ou se todos os Outros tinham olhos lacrimosos.
     - Agora, voc sabe. - Mamut sorriu. - As lgrimas nos foram dadas para aliviar a dor. A vida nem sempre  fcil.
     - Creb costumava dizer que um totem poderoso nem sempre  de convivncia fcil. Ele estava certo. O Leo da Caverna d proteo firme, mas tambm faz testes 
difceis. Sempre aprendi com eles, e sempre fui grata, mas no  fcil.
     - Mas  necessrio, acredito. Voc foi escolhida para uma finalidade especial.
     - Por que, Mamut? - gritou Ayla. - No quero ser especial. Quero ser apenas uma mulher, encontrar um companheiro, e ter filhos, como qualquer outra.
     - Voc deve ser o que deve ser, Ayla.  o seu fado, o seu destino. No teria sido escolhida se no fosse capaz de realiz-lo. Talvez seja uma coisa que s uma 
mulher pode fazer, mas no fique infeliz, menina. Sua vida no ser apenas provas e testes. Haver muita felicidade tambm. Talvez no resulte apenas no que deseja, 
ou no que acha que deveria ser.
     - Mamut, o totem de Jondalar  o Leo da Caverna tambm, agora. Ele foi escolhido e marcado, como eu. - Suas mos, inconscientemente, se estenderam para as 
cicatrizes em sua perna, mas estava coberta pelas perneiras. - Achei que ele estava escolhido para mim, porque uma mulher com um totem poderoso precisa ter um homem 
com um totem poderoso tambm. Agora, no sei. Acha que ele ser meu companheiro?
     - A Me  quem decide, e no importa o que voc fizer, no mudar isso. Mas se ele foi o escolhido, deve haver uma razo.
     Ranec soube que Ayla havia sado para cavalgar com Jondalar. Ele tambm fora pescar com alguns dos outros, mas preocupou-se o dia inteiro com que o homem alto, 
atraente, pudesse reconquist-la. Jondalar, com as roupas de Darnev, era uma figura arrebatadora, e o escultor, com sua sensibilidade esttica bem desenvolvida, 
estava bastante consciente da atrao inegvel do visitante, particularmente para as mulheres. Ficou aliviado ao ver que ainda estavam separados e pareciam to distantes 
quanto nunca antes, mas, quando ele pediu a Ayla para dormir com ele, ela replicou que estava cansada. Ele sorriu e lhe disse para descansar, satisfeito por ver 
que ela estava, ao menos, dormindo sozinha, j que no dormiria com ele.
     Ayla no estava to cansada quanto emocionalmente exausta quando foi para a cama e jazeu acordada durante longo tempo, refletindo. Estava contente porque Ranec 
no se encontrava na habitao quando ela e Jondalar regressaram, e grata porque ele no se zangara quando ela o recusara - ainda esperava clera, e castigo por 
ousar desobedecer. Mas Ranec no era exigente, e sua compreenso quase a fez mudar de idia.
     Ela tentou compreender o que havia acontecido e, mais ainda, seus sentimentos a respeito. Por que Jondalar a havia tomado, se no a queria? E por que fora to 
rude com ela? Fora quase como Broud. Depois, por que ela estava to pronta para Jondalar? Quando Broud a tinha forado, fora uma provao. Era amor? Sentia prazeres 
porque o amava? Mas Ranec a fazia sentir prazeres, e ela no o amava. Ou amava?
     Talvez amasse, de certa forma, mas no era esse o caso. A impacincia de Jondalar fazia a 
     experincia parecer-se com a de Broud, mas no era a mesma coisa. Ele foi rude e ansioso, mas no a forara. Ela sabia a diferena. Broud quisera apenas feri-la, 
e obrig-la a ceder. Jondalar a queria, e ela respondeu profundamente, com cada partcula de seu ser, e se sentiu satisfeita e completa. Ele a teria forado se ela 
no o quisesse? No, pensou, no teria.
     Estava convencida de que, se fizesse objeo, ele teria parado. Mas ela no objetou, ela o acolheu bem, desejando-o, e ele devia t-lo sentido.
     Ele a desejava, mas a amava? S porque queria partilhar prazeres com ela no significava que ele ainda a amava. Talvez o amor pudesse tornar os prazeres melhores, 
mas era possvel ter uma coisa sem outra. Ranec lhe mostrou isso. Ranec a amava, ela no tinha dvidas sobre isso. Ele queria unir-se a ela, queria fixar-se com 
ela, queria filhos seus. Jondalar jamais lhe pedira para se unir a ele, jamais dissera que queria filhos dela.
     No entanto, ele a tinha amado, um dia. Talvez ela sentisse prazeres porque ela o amava, embora ele no a amasse mais. Porm ele a desejava ainda, e a possura. 
Por que fora to frio depois? Por que a rejeitara de novo? Por que deixara de am-la? Antes, ela pensava que o conhecia. Agora, no o compreendia, de modo algum. 
Rolou sobre si mesma e enroscou-se em uma bola apertada, e chorou silenciosamente outra vez, chorou por querer que Jondalar a amasse novamente.
     - Estou contente por ter convidado Jondalar para a primeira caada de mamute - disse Talut a Nezzie quando se retiraram para a Fogueira do Leo. - Ele tem andado 
to ocupado fazendo aquela lana toda noite, que acho que quer ir, realmente.
     Nezzie olhou para ele, erguendo uma das sobrancelhas e sacudindo a cabea.
     - A caada de mamutes  a coisa em que menos pensa - disse ela. Depois, enfiou a pele ao redor da cabea loura adormecida de sua filha mais nova, e sorriu com 
ternura para o vulto de menina-mulher da filha mais velha, aninhada ao lado da mais nova. - No prximo inverno, teremos que pensar em um local separado para Latie. 
Ela ser uma mulher, mas Rugie sentir sua falta.
     Talut olhou para trs e viu o visitante raspando lascas de slex enquanto tentava ver Ayla atravs das fogueiras intermedirias. Quando no conseguiu, olhou 
para a Fogueira da Raposa. Talut virou a cabea e viu Ranec deitar-se sozinho, mas tambm ele olhava para a cama de Ayla. Provavelmente, Nezzie tem razo, pensou 
Talut.
     Jondalar havia ficado acordado at a ltima pessoa deixar a rea de cozinhar, trabalhando em uma comprida lmina de slex que ele proveria de cabo resistente, 
da mesma maneira que Wymez fazia, aprendendo a fabricar uma lana de caar mamutes dos Mamutoi, fazendo, primeiro, uma cpia exata de uma.  parte de sua mente que 
estava sempre ciente das nuanas de sua profisso j havia tido idias para aprimoramentos possveis ou, ao menos, experimentos interessantes, mas o trabalho era 
um processo familiar que exigia sua pouca concentrao, o que era igualmente bom. Ele no conseguia pensar em nada a no ser Ayla, e usava apenas o seu trabalho 
como uma forma de evitar companhia e conversa, e para ficar sozinho com os seus pensamentos.
     Sentiu grande alvio quando a viu ir para sua cama sozinha, mais cedo; achava que no suportaria v-la na cama de Ranec. Cuidadosamente, dobrou suas roupas 
novas, depois se enfiou entre peles de dormir novas, espalhadas sobre seu velho cilindro de viagem. Colocou as mos atrs da cabea e fitou o teto familiar demais 
da rea de cozinhar. Havia permanecido acordado muitas noites, examinando-o. Ainda sofria de remorso e vergonha, mas no, naquela noite, da dor ardente da necessidade, 
e tanto quanto se odiava por isso, lembrava-se do prazer da tarde. Refletiu a respeito, cuidadosamente recordando cada instante, examinando os detalhes em sua mente, 
saboreando devagar, agora, o que ele no tivera tempo de analisar antes.
     Estava mais relaxado do que desde a adoo de Ayla e mergulhou num cochilo parcial, meditando no sonho. Havia ele imaginado que ela estivera to ansiosa? Com 
certeza, ela no podia desej-lo tanto. Ser que ela havia realmente correspondido a tal sentimento? Procurando alcan-lo, como se o desejasse tanto quanto ele 
a desejava? Sentiu uma tenso na virilha ao pensar nela de novo, em penetr-la, em sua calidez profunda envolvendo-o completamente. Mas a necessidade era mais simples, 
mais parecida a um xito passado e ardente, no a dor vigorosa que magoava e que era uma combinao de desejo reprimido, amor imenso e cime forte. Ele pensou em 
satisfaz-la - adorava lhe dar prazer - e comeou a levantar-se para ir procur-la de novo.
     Foi somente quando afastou a coberta e sentou-se, quando comeou a agir de acordo com a urgncia trazida  tona por suas meditaes, seus devaneios ntimos, 
que as conseqncias da tarde o atingiram. No podia ir para a cama de Ayla. Nunca. Jamais poderia toc-la. Ele a havia perdido. No era mais uma questo de escolha. 
Ele destrura qualquer chance que tivera de ela o escolher. Ele a possuir a fora, contra a vontade dela.
     Sentando-se em suas peles de dormir, com os ps num capacho e os cotovelos apoiados sobre os joelhos dobrados, segurou a cabea abaixada e sentiu a agonia da 
vergonha. Seu corpo estremeceu em nusea silenciosa de nojo. De todas as coisas desprezveis que ele fizera em sua vida, aquele ato anormal era, de longe, o pior.
     No havia abominao pior, nem sequer o filho de espritos mistos, ou a mulher que deu  luz um, do que um homem que tomava uma mulher contra a vontade dela. 
A Grande Me Terra censurava-o, proibia-o. Tinha-se apenas que observar os animais de Sua criao para saber quo anormal era. Nenhum macho jamais possua a fmea 
contra sua vontade.
     Na poca propcia, talvez os veados lutassem um contra o outro para ter o privilgio de satisfazer as coras, mas quando o macho tentava possuir a fmea, ela 
precisava apenas de se afastar, se no o quisesse. Ele podia tentar e tentar, mas era necessrio que ela o permitisse, tinha que estar disposta. Ele no podia for-la. 
Era a mesma coisa com todos os animais. A loba ou a leoa convidavam o macho que escolhiam. Esfregavam-se nele, passando-lhe o odor tentador diante do focinho, e 
moviam o rabo para o lado quando ele montava. Porm, a fmea se encolerizava se qualquer macho tentasse cruzar contra a vontade dela. Ele pagava caro por sua audcia. 
Um macho podia ser persistente, mas a escolha era sempre da fmea. Era assim que a Me queria que fosse. Somente o homem forava uma mulher, apenas o homem anormal, 
abominvel.
     Aqueles Que Serviam a Me tinham dito muitas vezes a Jondalar que ele era favorecido pela Grande Me Terra e todas as mulheres sabiam disso. Nenhuma mulher 
podia rejeit-lo, nem mesmo a Prpria Me. Essa era sua ddiva. Mas mesmo Doni lhe daria as costas agora. Ele no pedira a Doni, nem a Ayla, nem a ningum. Ele a 
forara, possuindo-a contra sua vontade.
     Entre o povo de Jondalar, qualquer homem que cometesse tal per verso era evitado, ou pior. Durante sua infncia, os meninos conversavam entre si sobre serem 
dolorosamente castrados. Embora ele jamais conhecesse algum que o tivesse sido, acreditava que era um castigo adequado. Agora, era ele que devia ser punido. No 
que estivera pensando? Como pudera fazer tal coisa?
     E voc se preocupava com ela no ser aceita, disse a si mesmo. Temia que fosse rejeitada, e no tinha certeza se poderia suportar isso. Quem seria rejeitado 
agora? O que pensariam de voc, se soubessem? Especialmente depois do que acontecera antes. Nem mesmo Dalanar o aceitaria agora. Ele o expulsaria de sua fogueira, 
o afastaria, desprezaria todos os laos. Zolena ficaria horrorizada tambm. Marthona... Odiava pensar como sua me se sentiria.
     Ayla estivera conversando com Mamut, devia ter contado a ele, com certeza, por isto, ela havia chorado. Inclinou a testa contra os joelhos e cobriu a cabea 
com os braos. Ele merecia qualquer coisa que fizessem com ele. Ficou sentado, curvado, durante algum tempo, imaginando os castigos terrveis que lhe imporiam. Chegou 
at a desejar que fizessem alguma coisa horrvel com ele para alivi-lo do fardo de culpa que lhe pesava agora.
     Mas, finalmente, a razo prevaleceu. Ele compreendeu que ningum lhe havia dito uma palavra sobre o caso durante toda  noite. Mamut at lhe falou do Festival 
de Primavera, e no abordou o assunto. Ento, por que Ayla estivera chorando? Talvez chorasse por causa daquilo, mas nada tivesse dito. Ergueu a cabea e olhou atravs 
das fogueiras escuras na direo de Ayla. Seria possvel? De todas as pessoas, ela teria mais direito do que nenhuma de reivindicar uma compensao. Ela j havia 
tido mais do que uma cota justa de atos anormais, ao ser obrigada por aquele cabea-chata brutal... Que direito tinha ele de falar mal de qualquer outro homem? Ser 
que ele era melhor, por acaso?
     No entanto, ela havia guardado segredo. No o denunciou, no exigiu sua punio. Ela era boa demais para ele. Ele no a merecia. Era certo que ela e Ranec fizessem 
a Promessa, pensou. Mesmo que pensar nisso lhe provocasse um n apertado de dor, ele compreendeu que este era o seu castigo. Doni lhe havia dado o que ele mais desejara. 
Ela encontrou para ele a nica mulher que ele podia amar, mas no foi capaz de aceit-la. E agora, a perdera. Era sua culpa, aceitaria seu castigo, mas no sem tristeza.
     At onde era capaz de lembrar, Jondalar havia lutado por se controlar. Outros homens mostravam emoo - riam ou se encolerizavam, ou choravam - muito mais facilmente 
do que ele, mas, acima de tudo, ele resistia s lgrimas. Desde que fora mandado embora e perdera sua juventude terna e crdula, em uma noite de choro pela perda 
do lar e da famlia, s havia chorado uma vez, nos braos de Ayla, pela morte de seu irmo. Mas, novamente, naquela noite, ele chorou. Na habitao de barro escura, 
de pessoas que viviam a um ano de jornada de seu lar, ele chorou lgrimas silenciosas, incessantes, pela perda que sentia mais agudamente, entre todas. A perda da 
mulher amada.
     O longamente esperado Festival de Primavera era tanto uma celebrao de ano novo quanto uma festa de ao de graas. Realizado no no inicio, mas no auge da
estao, quando os primeiros brotos e botes verdes estavam bem desenvolvidos e podiam ser colhidos, marcava o comeo do ciclo anual para os Mamutoi. Com alegria
jubilosa e alvio inenarrvel, que s podiam ser totalmente apreciados por aqueles que viviam  margem da sobrevivncia, davam boas vindas ao verdor da terra que
garantia vida para si mesmos e para os animais com quem dividiam a terra.
     Nas noites mais escuras e frias do rigoroso inverno glacial, quando o prprio ar parecia congelar-se, a dvida de que o calor e a vida pudessem voltar um dia
podia nascer no corao mais crdulo. Na poca em que a primavera parecia mais remota, lembranas e histrias de antigos Festivais de Primavera punham fim a medos
arraigados e davam esperana renovada de que o ciclo de estaes da Grande Me Terra continuaria, realmente. Eles faziam cada Festival de Primavera to excitante
e memorvel quanto possvel.

     Para a grande Festa de Primavera, nada que sobrara do ano anterior seria comido. Os indivduos e pequenos grupos tinham sado durante dias para pescar, caar, 
colocar armadilhas e para colheita. Jondalar fizera bom uso de seu arremessador de lanas e estava satisfeito por contribuir com uma fmea grvida de biso, por 
si s, embora ela estivesse magra e ossuda. Todo produto vegetal comestvel que achavam era colhido: amentilhos de salgueiros e vidoeiros; os talos novos e abertos 
de fetos, assim como os velhos rizomas que podiam ser cozidos, descascados e pulverizados em farinha; a casca suculenta interior de cmbio de pinheiros e vidoeiros, 
doce com a nova seiva; algumas curberries negras prpuras, cheias de sementes duras, crescendo ao lado das pequenas flores rosas, no arbusto baixo, sempre carregado; 
e de reas abrigadas, onde tinham sido cobertas pela neve, lingonherries de um vermelho vivo, congeladas e degeladas em uma beleza suave, estendiam-se com as folhas 
escuras, coriceas, sobre galhos baixos em tufos.
     Botes, brotos, bulbos, razes, folhas, flores de todo tipo; a terra abundava com alimentos frescos, gostosos. Brotos e vagens novas de asclpia eram usados 
como verduras, enquanto a flor, cheia de um rico nctar, era utilizada como adoante. As novas folhas verdes do trevo, fedegosa, urtigas, raiz do abeto balsmico, 
dente-de-leo e alface eram cozidas ou comidas cruas; hastes de cardo e, especialmente, razes de cardo eram procuradas. Bulbos de lrio eram favoritos, e brotos 
de tifceas e hastes de junco. Razes doces, cheirosas de alcauz podiam ser comidas cruas ou assadas na brasa. Reuniam algumas plantas para a alimentao, outras 
principalmente pelo aroma, e muitas para fazer chs. Ayla conhecia as propriedades medicinais da maioria delas, e tambm juntava algumas para usar como medicamentos.
     Em declives rochosos, colhiam-se os novos brotos finos tubulares de cebola silvestre e, em locais secos, nus, pequenas folhas de labaa. Colhia-se unha-de-cavalo 
de terreno mido e aberto perto do rio. Seu sabor levemente salgado tornava-a til para tempero, embora Ayla colhesse algumas para tosse e asma. Verduras com sabor
de alho eram colhidas para dar gosto e aroma, como bagas de junpero bulbos de lrio-tigrino picantes, manjerico aromatizante, salva, tomilho, hortel, tlia que
crescia como um arbusto prostrado, e uma variedade de outras ervas e verduras, Algumas seriam secas e estocadas, outras, usadas para temperar o peixe fresco e os
vrios tipos de carnes trazidos de volta da festa.
     Os peixes eram em abundncia e preferidos nesta poca do ano, j que a maioria dos animais ainda se encontrava magra como resultado dos rigores do inverno. 
A carne fresca, porm, inclusive no mnimo um animal novo, simblico, nascido na primavera - este ano um tenro filhote de biso -, eram sempre includos na festa. 
Fazer um banquete com apenas os produtos frescos da terra mostrava que a Me Terra oferecia Sua generosidade total novamente, e que Ela continuaria a prover a subsistncia 
e a alimentar Seus filhos.
     Com a procura e a reunio de alimentos para a festa, a expectativa em relao ao Festival de Primavera crescia havia dias. At os cavalos a sentiam. Ayla notou 
que estavam nervosos. Pela manh, ela os levara para fora, a alguma distncia da habitao, a fim de limp-los e escov-los. 
     Era uma atividade que relaxava Whinney e Racer, e que a relaxava tambm, e lhe dava uma desculpa para sair sozinha a fim de refletir. Ela sabia que devia dar 
uma resposta a Ranec naquele exato dia. O dia seguinte seria o Festival de Primavera.
     Lobo estava enroscado perto, observando-a. Ele cheirou o ar, levantou a cabea e olhou, e sacudiu o rabo contra o terreno, assinalando a aproximao de algum 
que era amigo. Ayla virou e sentiu o rosto corar e o corao bater com fora.
     - Eu esperava encontrar voc sozinha, Ayla. Gostaria de lhe falar, se no se importa - disse Jondalar, em uma voz estranhamente contida.
     - No, no me importo.
     Ele estava barbeado, o cabelo claro puxado para trs, caprichosamente, e amarrado na nuca, e usava um dos trajes que Tulie lhe dera. Parecia to bem a Ayla 
- atraente, era a palavra que Deegie usava - que quase ficou sem ar, e sua voz estava presa na garganta. Porm, foi mais do que sua aparncia que comoveu Ayla. Mesmo 
quando ele usava as roupas gastas de Talut, parecia bonito para ela. Sua presena enchia o espao  sua volta e a emocionava, como se houvesse uma brasa cintilante 
que a aquecesse, mesmo mantendo-se distante. Era uma calidez que no era calor, porm maior, mais penetrante, e ela queria tocar essa calidez, ansiava para senti-la 
ao seu redor, e se inclinou para ele. Mas alguma coisa nos olhos de Jondalar a deteve, alguma coisa inegavelmente triste que ela nunca vira ali antes. Ficou de p, 
silenciosa, esperando que ele falasse.
     Ele fechou os olhos por um momento, reunindo seus pensamentos, inseguro sobre como comear.
     - Recorda quando estvamos juntos no vale, antes de voc ser capaz de falar bem, e queria me dizer uma coisa importante, certa vez, mas no sabia que palavras 
usar? Voc comeou a falar comigo por sinais - lembro que achei seus movimentos bonitos, quase como uma dana.
     Ela se lembrava muito bem. Estivera tentando lhe dizer o que gostaria de poder dizer-lhe agora, como se sentia em relao a ele, como ele a enchia com um sentimento 
para o qual ainda no tinha palavras. Mesmo dizer que o amava no era suficiente.
     - No estou certo de que existam palavras para dizer do que preciso. Sinto muito  apenas um som que sai de minha boca, mas no sei de que outra maneira diz-lo. 
Sinto muito, Ayla, mais do que posso dizer. Eu no tinha o direito de for-la, mas no posso desfazer o que j foi feito. S posso dizer que nunca mais acontecer. 
Partirei breve, assim que Talut achar que  seguro viajar. Este  o seu lar. As pessoas daqui gostam de voc... Amam-na. Voc  Ayla dos Mamutoi. Eu sou Jondalar 
dos Zelandonii. E hora de voltar para casa.
     Ayla no podia falar. Abaixou a cabea, tentando esconder as lgrimas que eram incapazes de conter, depois deu meia-volta e comeou a escovar Whinney, sem conseguir 
olhar para Jondalar. Ele ia embora. Ia para casa e no lhe pedira para acompanh-lo. No a queria. No a amava. Ela engoliu os soluos enquanto passava a escova 
no plo do cavalo. Desde que vivera com o Cl, ela jamais lutara tanto para conter as lgrimas, ou para escond-las.
     Jondalar ficou ali de p, fitando as costas de Ayla. Ela no se importa, pensou. Eu devia ter partido h muito tempo atrs. Ela lhe dera as costas; ele queria 
dar meia-volta e deix-la com seus cavalos, mas a linguagem corporal silenciosa dos movimentos dela enviou uma mensagem que ele no conseguiu converter em palavras. 
Era somente uma sensao, uma impresso de que alguma coisa no estava certa, mas que o fazia relutar em afastar-se.
     - Ayla...?
     - Sim - disse ela, mantendo-se de costas e lutando para impedir que sua voz se partisse.
     - H... Alguma coisa que eu possa fazer antes de partir?
     Ela no respondeu imediatamente. Queria dizer alguma coisa que o fizesse mudar de idia, e tentou, freneticamente, pensar em uma maneira de o aproximar mais 
de si, de mant-lo interessado. 
     Os cavalos. Ele gostava de Racer, gostava de mont-lo.
     - Sim, h falou afinal, esforando-se para a voz soar normal.
     Ele voltara para ir embora quando ela no respondeu, mas virou-se rapidamente.
     - Voc poderia ajudar-me a treinar Racer... Enquanto estiver aqui. No tenho tanto tempo quanto deveria, para lev-lo a passear - ela se permitiu dar meia-volta 
e encar-lo, outra vez.
     Ser que ele imaginava que ela parecia clida, que tremia?
     - No sei quanto tempo ficarei - disse ele -, mas farei o que puder. - Comeou a dizer mais alguma coisa, queria lhe dizer que a amava, e que ia partir porque 
ela merecia mais, merecia algum que a amasse sem reservas, algum como Ranec. Abaixou os olhos enquanto buscava as palavras certas.
     Ayla teve medo de no conseguir conter as lgrimas por muito mais tempo. Virou-se para a gua e comeou a escov-la de novo; depois largou a escova e montou, 
uma perna de cada lado, e comeou a cavalgar em uma s ao rpida. Jondalar ergueu a cabea e recuou alguns passos, surpreso, e observou Ayla e a gua galopando 
encosta acima, com Racer e o lobinho acompanhando-as. Ele permaneceu ali por longo tempo depois que eles desapareceram. Em seguida, caminhou lentamente de volta 
 habitao comunal.
     A expectativa e tenso eram to intensas  vspera do Festival de Primavera que ningum conseguiu dormir  noite. Tanto crianas quanto adultas ficaram acordados 
at tarde. Latie estava em estado de grande excitao, sentindo-se impaciente em um instante, e nervosa noutro, sobre a curta cerimnia de puberdade, que anunciaria 
que ela estava pronta para comear os preparativos para a Cerimnia de Feminilidade que aconteceria na Reunio de Vero.
     Apesar de ter atingido a maturidade fsica, sua feminilidade no estaria completa at a cerimnia que culminaria na Primeira Noite de Prazeres, quando um homem 
a abriria de forma que pudesse receber os espritos fertilizadores reunidos pela Me. Somente quando fosse capaz de ser me, seria considerada mulher sob todos os 
aspectos e, portanto, disponvel para estabelecer uma fogueira e unir-se a um homem para formar um vnculo. At l, ela viveria na condio intermediria de no-mais-criana, 
porm, ainda-no-mulher, quando aprenderia sobre a feminilidade, maternidade, e os homens, com mulheres mais velhas e Aqueles Que Serviam a Me.
     Os homens, exceto Mamut, tinham sido expulsos da Fogueira do Mamute. Todas as mulheres tinham-se ali reunido enquanto Latie era instruda para a cerimnia da 
noite seguinte, para oferecerem apoio moral, conselho e sugestes teis  mulher inexperiente. Embora estivesse ali como mulher mais velha, Ayla aprendia tanto quanto 
a jovem.
     - Voc no ter muito que fazer amanh  noite, Latie - explicava Mamut. - Mais tarde, ter outras coisas a aprender, mas isto  apenas para comunicar. Talut 
far a declarao, depois eu lhe darei a muta. Guarde-a em um local seguro at voc estar pronta para estabelecer sua prpria fogueira.
     Latie, sentada diante do velho, concordou com um gesto de cabea, sentindo-se tmida, mas gostando bastante de toda a ateno que recebia.
     - Entenda, depois de amanh, no deve nunca ficar sozinha com um homem, ou falar com um homem, sozinha at ser totalmente mulher - disse Mamut.
     - Nem com Danug ou Druwez? - perguntou Latie.
     - No, nem com eles - disse o velho feiticeiro, explicando que durante esta poca de transio, quando ela no tinha a proteo dos espritos guardis da infncia 
e tampouco a fora plena da feminilidade, era considerada muito vulnervel a influncias malignas. Ela teria que ficar sob a vigilncia de uma mulher o tempo todo, 
e no devia ficar sozinha sequer com o irmo ou o primo.
     - E Brinan? Ou Rydag? - perguntou a jovem.
     - Eles ainda so crianas - disse Mamut. - As crianas so sempre seguras. Tm espritos protetores pairando a sua volta, o tempo todo.  por isto que voc 
deve ser protegida agora. Seus espritos guardis a esto deixando, abrindo caminho para a fora vital, para que a fora da Me entre.
     - Mas Talut ou Wymez, no me fariam mal. Por que no posso falar com eles a ss.
     - Os espritos machos so atrados para a fora vital, exatamente como voc descobrir que os homens so atrados para voc, agora. Alguns espritos masculinos 
ficam enciumados do poder da Me. Talvez tentem tir-la de voc nesta poca, quando est vulnervel. No podem usar essa fora para criar vida, mas  uma fora poderosa.
Sem precauo adequada, um esprito masculino poder entrar e, mesmo se no roubar sua fora vital, talvez a prejudique ou subjugue. Ento, voc poder nunca ter
filhos, ou seus desejos podero tornar-se os de um homem, e voc querer partilhar prazeres com mulheres.
     Os olhos de Latie se arregalaram. Ela ignorava que fosse to perigoso.
     - Tomarei cuidado, no deixarei qualquer esprito macho se aproximar demais, porm... Mamut...
     - O que , Latie?
     - E voc, Mamut? Voc  homem.
     Vrias mulheres riram baixinho, e Latie corou. Talvez fosse uma pergunta idiota.
     - Eu teria feito a mesma pergunta - comentou Ayla.
     Latie lanou-lhe um olhar de gratido.
     -  uma boa pergunta - disse Mamut. - Sou homem, mas tambm A Sirvo. Seria provavelmente seguro falar comigo a qualquer momento e, naturalmente, para certos 
rituais quando represento Um Que Serve, voc ter que falar comigo a ss, Latie. Mas acho que ser boa idia no vir visitar-me ou falar comigo a menos que esteja 
acompanhada por outra mulher.
     Latie sacudiu a cabea, concordando, franzindo a testa seriamente, comeando a sentir a responsabilidade de um novo relacionamento com pessoas que ela havia 
conhecido e amado a vida toda.
     - O que acontece quando um esprito masculino rouba a fora vital? - perguntou Ayla, muito curiosa sobre estas crenas interessantes dos Mamutoi que eram um 
pouco semelhantes, no entanto, muito diferentes das tradies do Cl.
     - Neste caso, voc tem um feiticeiro poderoso - disse Tulie.
     - Ou um maldoso - falou Crozie.
     - E verdade, Mamut? - indagou Ayla. Latie parecia surpresa e intrigada, e at Deegie, Tronie e Fralie se voltaram para Mamut com interesse.
     O velho ps seus pensamentos em ordem, tentando escolher a resposta com cuidado.
     - Somos apenas Seus filhos - comeou. -  difcil para ns saber por que Mut, a Grande Me, escolhe alguns de ns para propsitos especiais. Sabemos apenas 
que Ela tem Suas razes. Talvez existam momentos em que Ela tenha necessidade de algum de fora excepcional. Algumas pessoas podem nascer com certos dons. Outras 
podem ser escolhidas mais tarde, mas ningum  escolhido sem o Seu conhecimento.
     Vrios olhos se desviaram para Ayla, tentando no ser conspcuos de mais.
     - Ela  a Me de todos - continuou ele. - Ningum A conhece inteiramente, em todas as Suas faces.  por isto que o rosto da Me  desconhecido, nas figuras 
que A representam. - Mamut se virou para a mulher mais velha do acampamento.
     - O que  o mal, Crozie?
     - O mal  o dano malicioso. O mal  a morte - replicou a velha com convico.
     - A Me  tudo, Crozie. O rosto de Mut  o nascimento da primavera, a generosidade do vero, mas tambm  a pequena morte do inverno. A fora da vida  Dela, 
mas a outra face da vida  a morte O que  a morte a no ser  volta para Ela a fim de renascer? A morte  um mal? Sem a morte, no pode haver vida. O mal  um dano 
malicioso? Talvez, mas mesmo aqueles que parecem praticar o mal, fazem-no por Suas razes. O mal  uma fora que Ela controla, um meio de realizar Seus fins;  apenas 
uma face desconhecida da Me.
     - Mas o que acontece quando uma fora masculina rouba a fora vital de uma mulher? - Perguntou Latie. Ela no queria filosofias, queria saber.
     Mamut olhou para ela especulativamente. Era quase uma mulher, tinha o direito de saber.
     - Ela morrer, Latie.
     A garota estremeceu.
     - Mesmo se for roubada. Alguma fora pode permanecer, suficiente para ela comear uma vida nova. A fora vital que reside em uma mulher  to poderosa que talvez 
ela no saiba que foi roubada, at ela dar  luz. Quando uma mulher morre ao ter um filho,  sempre porque um esprito macho roubou sua fora vital antes de ela 
ser aberta. E por isto que no  saudvel esperar demais pela cerimnia da Feminilidade. Se a Me tivesse aprontado voc no ltimo outono, eu teria falado com Nezzie 
para providenciar a reunio de alguns acampamentos a fim de ter uma cerimnia, de modo que voc no atravessaria o inverno, desprotegida, embora isso significasse 
que voc perderia a excitao da celebrao na Reunio de Vero.
     - Estou contente porque no terei que perd-la, mas... - Latie fez uma pausa, ainda mais preocupada com a fora vital do que com a celebrao - uma mulher sempre 
morre?
     - No, s vezes ela luta para conservar sua fora vital, e se for poderosa, talvez no apenas a conserve, mas tambm a fora masculina, ou parte dela. Ento, 
ela tem o poder de ambas em um corpo.
     - Essas so aquelas que se tornam feiticeiras poderosas. - disse Tulie.
     Mamut balanou a cabea, concordando.
     - Isso  verdade. Muitas vezes, a fim de aprender como usar a fora masculina e feminina, muitas pessoas se voltam para a Fogueira do Mamute em busca de orientao, 
e inmeras so chamadas para Servi-La. Em geral, so excelentes curandeiras ou viajantes no mundo da Me.
     - E o esprito masculino que rouba a fora vital? - perguntou Fralie, colocando seu beb novo ao ombro e dando-lhe tapinhas suaves. Ela sabia que era uma pergunta 
que sua me queria fazer.
     - Essa  que  m - falou Crozie.
     - No - disse Mamut, balanando a cabea. - No  verdade. A fora masculina  apenas atrada por uma fora vital feminina. Nada pode fazer e, em geral, os 
homens no sabem que sua fora masculina roubou uma fora vital feminina, at descobrirem que no se sentem atrados por mulheres, mas preferem a companhia dos homens. 
Os rapazes so vulnerveis, ento. No querem ser diferentes, no querem que ningum saiba que seu esprito masculino talvez tenha prejudicado alguma mulher. Muitas 
vezes, sentem enorme vergonha e em vez de virem  Fogueira do Mamute, tentam esconder o fato.
     - Mas existem alguns maus, entre eles, com grande poder - disse Crozie. - Poder para destruir um acampamento inteiro.
     - A fora masculina e feminina em um corpo  muito forte. Sem orientao, pode se tornar pervertida e maliciosa, e talvez queira causar doena a infortnio, 
e at morte. Mesmo sem esse poder, uma pessoa que deseja causar infortnio a uma outra pode faz-lo acontecer. Assim, os resultados so quase inevitveis, mas, com 
orientao adequada, um homem com ambas as foras pode-se tornar um feiticeiro to poderoso quanto uma mulher com as duas foras e, muitas vezes, toma o cuidado 
para usar seu poder apenas para o bem.
     - E se uma pessoa assim no quiser ser feiticeiro? - perguntou Ayla.
     - Talvez ela tenha nascido com seus dons, mas ainda sinta que foi empurrada para uma coisa que no tinha certeza de querer.
     - No precisam ser - respondeu Mamut. - Mas  mais fcil para eles encontrar companheirismo, outros como si mesmos entre Aqueles Que Servem a Me.
     - Lembra-se daqueles viajantes Sungaea que encontramos h anos atrs, Mamut? - perguntou Nezzie. - Eu era jovem, ento, mas no havia uma confuso em relao 
a uma de suas fogueiras?
     - Sim, eu me lembro, agora que falou a respeito. Acabvamos de voltar da Reunio de Vero, vrios acampamentos ainda viajavam juntos quando os encontramos. 
Ningum tinha certeza sobre o que esperar, houvera algum ataque, mas afinal tivemos uma fogueira amistosa com eles. Algumas mulheres Mamutoi ficaram preocupadas 
porque um Sungaea queria juntar-se a elas na casa da me deles. Foi difcil explicar para ser entendido, que a fogueira que pensvamos consistir de uma mulher 
e seus dois companheiros era, realmente, formada por um homem e seus dois companheiros, exceto que um deles era uma mulher e o outro era um homem. O Sungaea se referia 
a ele como ela. Tinha barba, porm usava roupas femininas e embora no tivesse seios, era me para uma das crianas. Certamente, agia como a me da criana. 
No estou certo se a criana lhe fora dada pela mulher daquela fogueira, ou por outra, mas disseram-me que ele experimentara todos os sintomas de gravidez, e a dor 
do parto.
     - Ele devia querer muito, ser uma mulher - comentou Nezzie. - Talvez no tenha roubado a fora vital de uma mulher, talvez tenha nascido no corpo errado. Isso 
tambm pode acontecer.
     - Mas, ele tinha dores de estmago em todo perodo da lua? - perguntou Deegie. - Este  o teste de uma mulher. - Todos riram.
     - Voc tem dores de estmago no perodo da lua? Posso lhe dar alguma coisa para ajudar, se quiser - disse Ayla.
     - Talvez eu pea, da prxima vez.
     - Quando tiver um filho, no ser to ruim, Deegie - falou Tronie.
     - E quando a mulher est grvida no precisa se preocupar com panos absorventes, e sobre sua colocao adequada - disse Fralie. - Mas a gente fica ansiosa para 
ter os filhos - ajuntou, sorrindo para o rosto adormecido de sua filha pequena, mas saudvel, e limpando uma gota de leite do canto de sua boca. Ergueu os olhos 
a Ayla, curiosa, de repente. - O que voc usou quando era... Mais jovem?
     - Tiras macias de couro. Funcionam bem, especialmente se voc precisa viajar, mas s vezes eu as dobrava ou acolchoava com l de carneiro selvagem ou pele ou 
at penugem de ave. s vezes, felpa macia de plantas, amassada. Jamais com esterco de mamute, antes, mas tambm funciona.
     Mamut tinha a capacidade de apagar sua presena e desaparecer ao fundo quando achava que devia, de forma que as mulheres o esqueciam e falavam livremente, de 
uma maneira que jamais fariam se outro homem estivesse presente. Ayla tinha conscincia dele, todavia, e observava-o, silenciosamente observando-as. Afinal, quando 
a conversa diminuiu, ele se dirigiu novamente a Latie.
     - Dentro de pouco tempo, voc querer encontrar um lugar para sua comunho com Mut. Preste ateno aos seus sonhos. Eles a ajudaro a encontrar o local adequado. 
Antes de visitar seu sacrrio pessoal, ter que jejuar e purificar-se, reconhecer sempre as quatro direes e o outro mundo, e o cu, e fazer ofertas e sacrifcios 
a Ela, principalmente se quiser Sua ajuda, ou uma bno Dela.  muito importante, quando chegar o momento, que queira ter um filho, Latie, ou quando souber que 
ter um. Ento, deve ir ao seu santurio pessoal e queimar um sacrifcio para Ela, uma ddiva que subir at Ela na fumaa.
     - Como saberei o que lhe dar? - perguntou Latie.
     - Pode ser algo que encontre ou uma coisa que faa. Voc saber o que  certo. Saber sempre.
     - Quando quiser um homem especial, poder pedir a Ela tambm - disse Deegie, com um sorriso conspiratrio. - No lhe posso dizer quantas vezes pedi por Branag.
     Ayla lanou um olhar a Deegie, e resolveu descobrir mais sobre sacrrios pessoais.
     - H tanto o que aprender! - exclamou Latie.
     - Sua me pode ajud-la, e Tulie tambm - falou Mamut.
     - Nezzie me pediu e concordei em ser a Mulher Guardi este ano, Latie - mencionou Tulie.
     - Oh, Tulie. Estou to contente... - disse Latie. - Ento, no me sentirei to sozinha.
     - Bem - disse a chefe, sorrindo da acolhida ansiosa da menina -, no  todo ano que o Acampamento do Leo tem uma nova mulher.
     Latie franziu a testa, concentrada, depois perguntou com voz suave.
     - Tulie, como ? Quero dizer, na tenda. Essa noite.
     Tulie olhou para Nezzie e sorriu:
     - Est um pouco preocupada com isso
     - Sim, um pouco.
     - No se preocupe. Tudo lhe ser explicado, voc saber o que esperar.
     -  algo parecido com a forma como Druwez e eu brincvamos em crianas? Ele saltava sobre mim to duramente... Acho que ele tentava ser Talut.
     - No realmente, Latie. Aquilo eram brincadeiras de crianas, vocs apenas brincavam, tentavam serem adultos. Todos os dois eram jovens ento, muito jovens.
     -  verdade, ramos muito jovens - disse Latie, sentindo-se muito mais velha agora. - So brincadeiras de criana pequena. Deixamos de brincar daquele jeito 
h muito tempo. Na verdade, no brincamos de mais nada. Ultimamente, nem Danug nem Druwez falam muito comigo.
     - Vo querer falar com voc - disse Tulie. - Estou certa disso, mas lembre, no deve falar com eles agora, no muito, e jamais fique sozinha na companhia deles.
     Ayla estendeu a mo para a grande bolsa de gua que pendia de uma tira de couro, em um cabide preso a uma das estacas de sustentao. Era feita, com o estmago 
de um veado enorme, um megcero, que havia sido curado para manter sua qualidade natural de impermeabilidade. Estava cheia at a abertura inferior, que estava dobrada 
e fechada. Um pedao pequeno de osso da pata dianteira, com um orifcio natural no meio, havia sido entalhado em toda a volta perto de uma extremidade. Para formar 
um bico, a pele da abertura do estmago do veado estava amarrada ao osso por meio de uma corda enrolada, apertadamente, ao seu redor, no encaixe.
     Ayla tirou a rolha - uma fina tira de couro que fora passada pela abertura e em que foram dados vrios ns em um local, serviu gua na cesta impermevel que 
usava para fazer seu ch da manh especial, e empurrou o n de volta ao bico para fech-lo. A pedra de cozinhar rubra estalou quando ela a deixou cair na gua. Mexeu-a 
algumas vezes, para retirar da pedra o mximo de calor possvel, e devolveu-a ao fogo, usando duas varetas lisas. Com as varetas midas, pegou outra pedra quente 
e deixou-a cair ngua. Enquanto a gua fervia, colocou nela uma quantidade medida de uma mistura de folhas secas, razes e, principalmente, talos como de videira, 
de fibra dourada, e deixou a gua impregnar-se.
     Havia sido especialmente cuidadosa em lembrar-se de tomar o remdio secreto de Iza. Esperava que a magia poderosa funcionasse por ela como havia feito por Iza 
durante tantos anos. No queria um beb agora. Estava insegura demais.
     Depois de se vestir, derramou a tisana em sua xcara pessoal, em seguida sentou-se a uma esteira perto do fogo e provou a bebida bastante amarga, de sabor pronunciado. 
Ela se acostumara ao sabor de manh. Era sua hora de despertar e fazia parte de sua rotina matinal. Ao tomar um gole, refletiu sobre as atividades que ocorreriam 
naquele dia. Aquele era o dia auspicioso que todos tinham esperado, ansiosos, o dia do Festival de Primavera.
     O evento mais feliz, para ela, seria a cerimnia de dar nome ao beb de Fralie. A menininha havia crescido e desenvolvido, e no precisava mais ficar sempre 
perto do seio materno. Estava suficientemente forte para chorar, agora, e podia dormir sozinha durante o dia, embora Fralie preferisse conserv-la perto e, muitas 
vezes, usasse a cesta para carregar a criana. A Fogueira da Gara estava muito mais feliz naqueles ltimos dias, no somente porque partilhavam a alegria do beb, 
mas porque Frebec e Crozie aprendiam que podiam conviver sem discutir a todo instante. No que ainda no existissem problemas, mas eles os enfrentavam melhor, e 
a prpria Fralie desempenhava um papel mais ativo na tentativa de mediao.
     Ayla pensava na criana de Fralie quando ergueu a cabea e viu Ranec observando-a. Aquele tambm era o dia que ele queria anunciar sua Promessa, e com um salto, 
ela se lembrou de que Jondalar lhe dissera que iria partir. De repente, encontrou-se recordando a noite terrvel em que Iza morrera.
     - Voc no  Cl, Ayla - dissera-lhe Iza. - Voc nasceu dos Outros, pertence a eles. V para o norte, Ayla. Encontre o seu povo. Encontre seu companheiro.
     Encontre seu companheiro... Pensou ela. Certa vez imaginara que Jondalar seria o seu companheiro, mas ele ia partir, ia para casa sem ela. Jondalar no a queria...
     Mas Ranec queria. Ela no estava mais to jovem; se ia ter um filho, deveria faz-lo logo. Tomou um gole do medicamento de Iza, e fez girar o resto do lquido 
e resduo, na xcara. Se ela deixasse de tomar o remdio de Iza, e partilhasse prazeres com Ranec, isso iniciaria um beb dentro dela? Podia experimentar e descobrir. 
Talvez devesse unir-se a Ranec. Viver com ele, ter os filhos de sua fogueira. Seriam bonitos bebs escuros com olhos negros e cabelo bem crespo? Ou seriam claros 
como ela? Ou ambas as coisas?
     Se ela ficasse ali, e se unisse a Ranec, no estaria to longe do Cl. Poderia ir buscar Durc e traz-lo. Ranec era bom para Rydag, talvez no se importasse 
de ter um filho misto em sua fogueira. Talvez ela pudesse adotar Durc formalmente, torn-lo Mamutoi.
     O pensamento de que poderia ser possvel ir buscar seu filho a encheu de ansiedade. Talvez fosse bom que Jondalar partisse sem ela. Se a levasse, ela jamais 
veria o filho. Mas, se ele fosse embora sem ela, ela jamais veria Jondalar de novo.
     A escolha fora feita para ela. Ficaria, se uniria a Ranec. Ela tentou pensar em todos os elementos positivos, convencer-se de que seria melhor permanecer. Ranec 
era um homem bom, e a amava e a queria. E ela gostava dele. No seria to terrvel viver com ele, ela poderia ter filhos. Seria possvel encontrar Dure e traz-lo 
para viver com eles. Um bom homem, seu prprio povo e, ela teria seu filho novamente. 
     Seria mais do que sonhara, de uma s vez, O que mais poderia querer? Sim, o que mais, se Jondalar ia embora...
     Direi a ele, pensou. Direi a Ranec que pode anunciar nossa Promessa hoje. Mas, ao levantar-se e caminhar para a Fogueira da Raposa, sua mente estava ocupada 
apenas de um pensamento. Jondalar ia embora sem ela. Ela nunca mais o veria. Mesmo enquanto a compreenso a atingia, sentiu o peso esmagador, e fechou os olhos para 
conter a tristeza.
     - Talut! Nezzie! - Ranec saiu correndo da habitao  procura do chefe e de sua me adotiva. Quando os viu, estava to excitado que mal podia falar.
     - Ela concordou! Ayla concordou! Vamos fazer a Promessa! Ayla e eu!
     Ele nem sequer viu Jondalar, e se o houvesse visto, no se teria importado. Ranec no podia pensar em nada exceto que a mulher que ele amava, a mulher que queria 
mais que a tudo no mundo havia concordado em ser dele. Mas Nezzie viu Jondalar, viu-o empalidecer e agarrar a presa curva de mamute da arcada em busca de apoio, 
e viu o sofrimento em seu rosto. Por fim, ele abandonou o local descendo em direo ao rio, e uma preocupao fugaz cruzou os pensamentos dela, O rio estava cheio 
e caudaloso. Seria fcil ser arrastado pelas guas ao tentar nadar.
     - Me, no sei o que usar hoje. No consigo me decidir - gemeu Latie, nervosa sobre a primeira cerimnia que reconheceria seu status elevado.
     - Vamos ver - disse Nezzie lanando um ltimo olhar ao rio. Jondalar no estava  vista.
     Jondalar passou a manh inteira caminhando ao longo do rio, sua mente em um turbilho, ouvindo uma e outra vez as palavras alegres de Ranec. Ayla concordara. 
Anunciariam sua Promessa na cerimnia daquela noite. Ele repetia a si mesmo que havia esperado aquilo o tempo todo, mas, diante do fato, compreendeu que no era 
verdade. Foi um choque muito maior do que imaginara que seria. Como Thonolan, depois de perder Jetamio, ele desejava morrer.
     Nezzie tinha alguma base para seus temores. Jondalar no descera em direo ao rio com qualquer propsito definido. Tomou aquela direo casualmente mas, assim 
que alcanou o rio turbulento, achou-o estranhamente atraente. Parecia oferecer paz, alvio para o sofrimento,  tristeza e a confuso, mas apenas o fitou. Alguma 
coisa igualmente irresistvel o deteve. Ao contrrio de Jetamio, Ayla no estava morta e, porque vivia, podia haver uma pequena chama de esperana. Porm, mais que 
isso, ele temia pela segurana da jovem.
     Encontrou um local isolado protegido por arbustos e pequenas rvores dando para o rio e tentou preparar-se para a provao das festividades da noite, que incluiriam 
a Cerimnia da Promessa. Disse a si mesmo que no era como se ela estivesse, na verdade, se unindo a Ranec naquela noite. Ela estava apenas prometendo criar uma 
fogueira com ele, um dia, no futuro, e ele tambm fizera uma promessa. Jondalar havia dito a Mamut que ficaria at depois do Festival de Primavera, porm, no foi 
 promessa que o deteve. Embora no tivesse idia do que era, ou do que poderia fazer, no era capaz de partir sabendo que Ayla enfrentava algum perigo desconhecido, 
mesmo se significasse ter que assistir  sua Promessa a Ranec. Se Mamut, conhecedor dos mtodos dos espritos, pressentia perigo para ela, Jondalar s podia esperar 
o pior.
     Ao redor de meio-dia, Ayla disse a Mamut que ia comear a preparar-se para a cerimnia da raiz. Elas tinham recapitulado os detalhes, vrias vezes at ela se 
sentir razoavelmente segura de que no havia esquecido nada importante. Ela havia reunido roupas limpas, uma pele macia de veado, absorvente, e vrias outras coisas, 
mas, em vez de sair pelo anexo, dirigiu-se  rea de cozinhar a caminho da sada. Ela queria ver Jondalar, e ao mesmo tempo esperava no v-lo, e ficou desapontada 
e aliviada ao ver somente Wymez na rea de fabricao de ferramentas. Ele disse que no via Jondalar desde cedo, aquela manh, mas estava feliz em lhe dar o pequeno 
ndulo de slex que ela queria.
     Quando ela chegou ao rio, subiu a corrente por certa distncia, procurando um local que parecesse adequado. Parou onde um pequeno riacho se reunia ao rio maior. 
O crrego havia rodeado um afloramento rochoso que formava uma margem elevada do lado oposto, bloqueando o vento. Uma proteo de rvores e arbustos, com brotos 
novos tornava-o um local isolado, cercado, e tambm proporcionava madeira seca da derrubada de rvores do ano anterior.
     Jondalar observava o rio de seu ponto de vista, isolado, mas estava to voltado a si mesmo que no via, realmente, a gua revolta, enlameada, rpida. Nem sequer 
tinha conscincia das sombras instveis enquanto o sol se elevava mais no cu, e ficou sobressaltado quando ouviu que algum se aproximava. No estava disposto a 
conversar, ou a tentar ser agradvel e amistoso naquele dia de celebrao para os Mamutoi e esgueirou-se rapidamente para trs de alguns arbustos a fim de esperar, 
sem ser visto, at a pessoa passar. Quando viu Ayla acercar-se, e depois, obviamente, decidindo ficar, no soube o que fazer. Pensou em afastar-se sorrateiramente, 
mas Ayla era uma excelente caadora. Ela o ouviria, ele estava certo. Depois, pensou em sair apenas dos arbustos, dando uma desculpa qualquer sobre suas necessidades, 
e seguindo o seu caminho, mas no fez uma coisa, nem outra.
     Ficou escondido e observou, esforando-se para permanecer to discreto quanto possvel. No podia fazer nada, nem sequer desviar o olhar, embora compreendesse 
logo que ela se preparava para o ritual pensando estar sozinha. A princpio, ele ficou apenas esmagado pela presena de Ayla, depois fascinado. Era como se fosse 
obrigado a observar.
     Ayla fez uma fogueira depressa com uma pedra-de-fogo e um pedao de slex e colocou nela pedras de cozinhar para aquec-las. Queria fazer seu ritual de purificao 
o mais igual possvel  maneira como era realizado no Cl, mas algumas mudanas eram inevitveis. Ela havia considerado em fazer o fogo da maneira do Cl, girando 
um pau seco entre as palmas das mos, contra um pedao liso de madeira, at criar uma brasa ardente. Mas, no Cl, as mulheres no deviam se encarregar do fogo, ou 
fazer uma fogueira para fins de ritual, de forma alguma, e ela resolveu que, se ia romper com a tradio o suficiente para fazer sua fogueira, poderia tambm usar 
sua pedra-de-fogo.
     As mulheres tinham permisso, contudo, para fazer facas e outras ferramentas de pedra, contanto que as ferramentas no fossem usadas como armas de caa ou para 
fabric-las. Ela decidira que precisava de um novo saquinho de amuleto. A bolsinha Mamutoi decorada que ela usava agora no seria apropriada para um ritual do Cl. 
Para fazer um saquinho de amuleto adequado do Cl, achou que precisava de uma faca do Cl, e por isto havia pedido a Wymez um ndulo inteiro de slex. Ela procurou 
perto da gua e encontrou uma pedra de rio redonda, do tamanho de um punho, para usar como martelo. Com ele, tirou a casca exterior branco-acinzentada do pequeno 
ndulo de slex, comeando o processo de mold-lo. Ela no fazia suas ferramentas havia algum tempo, mas no esquecera a tcnica e logo se envolveu na tarefa.
     Quando terminou, a pedra cinza-escura lustrosa tinha a forma de um tosco cilindro oval com uma parte superior achatada. Ela o examinou, retirou alguma lasca, 
depois mirou com cuidado e arrancou uma lasca da borda da tampa achatada, na extremidade estreita do cilindro oval, para fazer uma chapa notvel. Virando a pedra 
para posicion-la exatamente no ngulo certo, golpeou o local que havia talhado. Uma lasca bastante grossa se soltou, tendo a mesma forma que o topo oval formado 
antes, e um gume afiado como navalha.
     Embora usando apenas o martelo, e fazendo o trabalho com a facilidade e rapidez da experincia, ela havia fabricado uma faca perfeitamente til, muito afiada, 
que exigira controle cuidadoso e precioso, mas ela tencionava conserv-la. Era uma faca destinada a ser usada sem cabo e, com todas as boas ferramentas cortantes 
que tinha agora, a maioria com cabo, no tinha necessidade de uma faca do Cl, exceto para aquele uso especial. Sem parar para cegar o gume extremamente aguado, 
a fim de facilitar e tornar mais seguro o manuseio, Ayla cortou uma comprida tira da pele de veado que trouxera consigo e retalhou uma ponta, de onde tirou um pequeno 
crculo. Ento, pegou novamente o martelo. Depois de tirar dois pedaos de slex, a faca era agora um furador com ponta aguada. Ela o usou para fazer orifcios 
em toda volta do crculo de couro, e depois passou o cordo de couro por eles.
     Removeu a bolsinha decorada do pescoo, desfez o n e virara, os objetos sagrados os smbolos de seu totem na mo. Examinou-os um pouco, depois os apertou contra 
o seio, antes de coloc-los na nova bolsa mais simples, ao estilo do Cl, e apertar bem o cordo. Ela havia tomado a deciso de ficar com os Mamutoi e se unir a 
Ranec, mas, de alguma forma, no esperava encontrar um smbolo de seu Leo da Caverna, confirmando que era uma deciso correta.
     Com o amuleto terminado, ela se dirigiu ao crrego e colocou gua na cesta de cozinhar, e ajuntou as pedras quentes do fogo. Era cedo de mais no ano para encontrar 
saboeiro, e o campo estava aberto demais para cavalinha, que crescia em locais midos e sombrios. Ela precisava encontrar alternativas para os tradicionais agentes 
de limpeza do Cl.
     Depois de colocar as flores secas, de aroma agradvel, espumosas de coesianthus na gua quente ela acrescentou folhas de samambaia e algumas flores de aquilgia 
que colhera no caminho, e depois galhos de botes de vidoeiro pelo aroma de gualtria e ps o recipiente de lado. Tivera que pensar muito e arduamente para resolver 
o que usar, a fim de substituir o inseticida de pulga e piolho feito com o cido eqisseto que teria extrado com uma infuso do feto. Inadvertidamente Nezzie lhe 
havia dito como fazer.

     Ela se despiu depressa, depois pegou dois recipientes apertadamente entrelaados, cheios de lquido e se dirigiu ao rio. Um recipiente continha a mistura agradavelmente 
aromtica que ela acabava de fazer, o outro, urina velha.
     Jondalar havia-lhe pedido para ensinar-lhe s tcnicas do Cl para quebrar o slex, certa vez, antes, e ficara impressionado, mas estava fascinado ao v-la 
trabalhar, em sua privacidade imaginada, com tanta habilidade, segurana e tranqilidade. Ela trabalhava sem martelo de osso ou sovela, mas fabricava as ferramentas 
que desejava rapidamente, fazendo o trabalho parecer fcil, mas ele se perguntou se poderia fazer o mesmo utilizando um malho. Ele sabia que era necessrio grande 
controle; contudo, ela lhe contara que o fabricante de ferramentas do Cl, que lhe havia ensinado, era muito melhor do que ela. De repente, a avaliao de Jondalar 
sobre a capacidade de fabricar ferramentas dos cabeas-chatas aumentou.
     Ela tambm fez a bolsinha de couro depressa. O saquinho simples no era de grande utilidade, mas sua fabricao era engenhosa,  sua maneira. Somente quando 
observou Ayla segurar os objetos da bolsinha e notou a forma como os segurava, foi que percebeu uma aparncia melanclica, uma aura de tristeza e sofrimento envolvendo-a. 
Ela deveria estar cheia de alegria, no entanto parecia infeliz. Ele devia estar imaginando coisas.
     A respirao de Jondalar ficou presa na garganta quando ela comeou a se despir, e a viso de sua beleza plena, madura, o fez desej-la com uma necessidade 
que quase o esmagava. Mas o pensamento de suas aes indescritveis da ltima vez que desejara a jovem, o manteve afastado. Ela havia recomeado a usar tranas durante 
o inverno, em um estilo semelhante ao de Deegie e, quando soltou o cabelo comprido, ele se lembrou da primeira vez em que a vira nua, no calor do vero no vale, 
dourada e bonita e molhada aps um nado. Disse a si mesmo para no olhar, e teve a oportunidade de esgueirar-se quando ela entrou no rio, mas se sua vida dependesse 
disso, ele no teria, mesmo assim, sido capaz de se mover.
     Ayla comeou seu processo de limpeza com a urina velha. O fluido amoniacal era forte e tinha odor ativo, mas dissolvia leos e gordura de sua pele e cabelo, 
e matava qualquer pulga ou piolho que tivesse apanhado. Tendia at a clarear seu cabelo. As guas do rio, ainda cheias de neve derretida, estavam muito frias, mas 
o choque revigorava e a agitao do rio lodoso, arenoso, mesmo na margem mais calma, limpava e carregava a sujeira e leos, juntamente com o odor forte da amnia.
     O corpo de Ayla estava rosado da limpeza e da gua fria, e ela estremeceu ao sair, mas a mistura de aroma agradvel ainda estava quente e borbulhando na espuma 
escorregadia, rica em saponina, quando ela a esfregou em todo o corpo e cabelo. Desta vez ela se dirigiu para uma lagoa perto da foz do riacho, que continha gua 
menos enlameada do que o rio, para se lavar. Quando saiu, enrolou a pele macia de veado ao redor do seu corpo para secar-se, enquanto desembaraava o cabelo com 
sua escova resistente e um grampo de marfim. Era bom sentir-se limpa e fresca.
     Embora ele ansiasse para reunir-se a ela e desejasse satisfaz-la, sentiu certa alegria em encher os olhos com a viso de Ayla. Era mais do que ver seu corpo 
exuberante, rico em curvas femininas, no entanto, firme e bem-feito, com os msculos achatados, resistentes que implicavam fora. Jondalar gostou de observ-la, 
vendo seus movimentos naturalmente graciosos, e seu trabalho realizado com a facilidade da experincia e habilidade treinada. Quando fazia um fogo ou a ferramenta 
que queria, Ayla sabia exatamente como proceder e no perdia tempo. Jondalar sempre admirara sua percia e tcnica, sua inteligncia. Era parte da atrao de Ayla 
para ele. Entre todas as outras emoes, ele sentira falta de estar com ela e apenas observ-la preenchia uma necessidade de ficar perto dela.
     Ayla estava quase vestida quando o ganido do lobinho a fez erguer a cabea e sorrir.
     - Lobo! O que est fazendo aqui? Fugiu de Rydag? - perguntou, enquanto o filhote saltava sobre ela, satisfeito e excitado por t-la encontrado. Depois ele comeou 
a farejar por perto enquanto ela ajuntava as coisas.
     - Bem, agora que me achou, podemos voltar. Vamos, Lobo. Vamos! O que est procurando nesses arbustos... Jondalar!
     Ayla ficou muda diante do assombro que sentiu quando descobriu o que o lobinho estivera procurando, e Jondalar estava embaraado demais para falar, mas seus 
olhos ficaram presos, e falaram mais do que as palavras diriam. Mas, eles no acreditavam no que viam. Afinal, Jondalar tentou explicar.
     - Eu estava... Bem... Caminhando e... Bem...
     Desistiu, nem sequer tentando terminar a tentativa frustrada de uma desculpa. Deu meia-volta e se afastou rapidamente. Ayla o acompanhou de volta ao acampamento, 
em passo mais lento, subindo a encosta na direo da habitao comunal. O comportamento de Jondalar a confundia. Ignorava quanto tempo ele ali estivera, mas sabia 
que ele a observara, e perguntou-se por que se escondera dela. Ela no sabia o que pensar, mas, ao entrar na moradia atravs do anexo, em direo  Fogueira do Mamute, 
para encontrar Mamut a fim de poder terminar seus preparativos, lembrou-se do modo como Jondalar a havia olhado.
     Jondalar no voltou ao acampamento imediatamente. No estava certo de poder encar-la ou a qualquer pessoa naquele momento. Quando se aproximou da trilha que 
subia do rio para a habitao, virou-se e caminhou de volta, e logo se encontrou no mesmo local isolado.
     Caminhou para os restos da fogueira pequena, ajoelhou-se e sentiu o leve calor com a mo. Semicerrou os olhos, recordando a cena que observara secretamente. 
Quando abriu os olhos, examinou o centro da pedra que Ayla abandonara, e pegou-a. Depois, viu as lascas e pedaos que ela tirara da pedra, e ajustou alguns em seu 
antigo lugar, para estudar o mtodo mais detalhadamente. Perto de aparas de couro, viu o furador. Pegou-o e examinou-o. No era feito no estilo a que estava habituado. 
Parecia simples demais, quase tosco, mas era uma ferramenta boa, eficiente. E afiada, pensou, quando lhe cortou o dedo.
     A ferramenta fabricada por Ayla lembrou-lhe a moa, parecendo representar o enigma da jovem, suas contradies evidentes. Sua candura inocente, envolta em mistrio;
a simplicidade, impregnada de conhecimento antigo; a ingenuidade sincera, cercada pela profundidade e riqueza de sua experincia. Ele resolveu guardar a ferramenta,
para lembrar-se sempre de Ayla, e embrulhou-a nas tiras de couro a fim de lev-la consigo.
     O banquete teve lugar no calor da tarde, dentro da rea de cozinhar, mas com as cortinas da arcada, mesmo as do novo anexo, puxadas para trs e amarradas, a
fim de permitir a entrada de ar fresco e acesso fcil. Muitas das festividades realizavam-se do lado de fora, principalmente jogos e competies - a luta corpo a
corpo parecia ser um dos esportes prediletos da primavera -, canto e dana.
     Trocavam-se presentes para desejar sorte, felicidade e boa-vontade, em emulao da Grande Me Terra, que trazia novamente vida e calor para o solo, a fim de 
mostrar a apreciao das ddivas da terra que Ela lhes concedia. As ddivas normalmente eram pequenos itens como cintos e bainhas de facas, dentes de animais com 
orifcios na raiz ou talhadas para que um cordo passasse por eles a fim de ficarem suspensos como pendanis, e fios de contas que podiam ser usados assim, ou costurados 
em roupas. Naquele ano, a nova agulha era um presente preferido para dar e receber, juntamente s caixas de agulhas, pequenos tubos de marfim ou ossos ocos de aves, 
para guard-las. Nezzie havia feito a primeira caixa, que guardava com um quadrado de pele de mamute usado como dedal em sua bolsa de costura decorada. Vrias outras 
pessoas tomaram sua idia emprestado.
     As pedras-de-fogo de propriedade de cada fogueira eram consideradas mgicas e sagradas, e conservadas no nicho juntamente  figura da Me, mas Barzec cedeu 
vrios kits de iscas que projetou, que provocaram comentrios entusiasmados. Eram adequados para carregar e continham materiais especialmente fceis para acender 
com a centelha que comeava o fogo - fibras felpudas, esterco seco amassado, lascas de madeira - e tinham um lugar para a pirita e uma espcie de fuzil de pederneira 
quando se viajava.Com o vento frio da noite, o acampamento levou sua animao para o interior e fechou as pesadas cortinas isolantes. Houve um momento de calma, 
de trocar as roupas pelos trajes de cerimnia ou de acrescentar as peas finais de decorao, de encher novamente as taas com uma bebida favorita, um borbulhante 
ch de ervas ou a bebida fermentada de Talut Depois, todos se dirigiram  Fogueira do Mamute para a parte sria do Festival de Primavera.
     Ayla e Deegie acenaram para Latie, convidando-a a sentar-se com elas; agora, era quase uma delas, quase uma jovem mulher. Danug e Druwez olharam-na com timidez 
no-habitual quando ela passou por eles. Ela endireitou os ombros e manteve a cabea erguida, mas conteve-se e no falar com eles. Os olhos dos rapazes seguiram-na. 
Latie sorria ao sentar-se entre as duas mulheres, sentindo-se muito especial, e que fazia parte do ambiente.
     Latie havia sido companheira de brincadeiras e amiga dos rapazes quando crianas, mas no era mais criana, nem uma menina que devesse ser ignorada ou desprezada 
pelos jovens. Ela havia entrado no mundo magicamente atraente, levemente ameaador, e totalmente misterioso da mulher. Seu corpo mudara de formas, e ela podia provocar 
respostas e sentimentos inesperados e incontrolveis nos corpos masculinos somente ao passar por eles. At um olhar direto podia ser desconcertante.
     Porm, mais assustador era uma coisa de que apenas tinham ouvido falar. Ela podia fazer sangue sair de seu corpo sem ferimento, e aparentemente, sem dor e, 
de alguma forma, isso a tornava capaz de atrair a magia da Me para si mesma. Eles no sabiam por qu, somente sabiam que um dia ela traria vida nova do interior 
do seu corpo; um dia Latie faria filhos. Mas, primeiro, um homem teria que torn-la mulher. Este seria o papel deles - no com Latie, claro, ela era irm e prima, 
um parentesco muito prximo. Mas, um dia, quando fossem mais velhos e tivessem mais experincia, talvez fossem escolhidos para realizar essa importante funo porque 
embora ela pudesse fazer sangue, uma mulher no podia fazer filhos antes de um homem torn-la mulher.
     A Reunio de Vero seguinte seria esclarecedora para os dois jovens particularmente para Danug, j que era mais velho. Eles nunca eram pressionados, mas, quando 
estivessem prontos, existiriam mulheres que se tinham dedicado a honrar a Me por uma estao, que ficariam disponveis para rapazes, para dar-lhes experincia, 
e para ensinar-lhes os caminhos e alegrias misteriosas das mulheres.
     Tulie caminhou para o centro do grupo, segurando e agitando o Basto Falante, e esperou que as pessoas se calassem. Quando obteve ateno de todos, entregou 
o basto de marfim decorado a Talut, que estava em traje de cerimnia, incluindo seu adorno de cabea de presa de mamute. Mamut apareceu, vestido com uma capa ornamentada, 
de couro branco. Segurava uma haste de madeira destramente moldada que parecia ser uma nica pea, exceto que, em uma extremidade era um galho seco nu, sem vida, 
e na outra desabrochava com brotos verdes e pequenas folhas novas. Ele deu o galho a Tulie. Como chefe feminina, o Festival de Primavera devia ser aberto por ela. 
A primavera era a estao das mulheres; a poca de nascimento e nova vida, o momento de novos incios. Ela segurou o galho com as duas mos acima da cabea, fazendo 
uma pausa para um efeito total, depois o abaixou vivamente sobre o joelho, partindo-o em dois, simbolizando o fim do velho e o comeo do novo ano, e o incio da 
parte cerimonial da noite.
     - A Me sorriu para ns concedendo-nos grande ddiva no ciclo passado - disse Tulie. - Temos tanto a comemorar que ser difcil saber que evento importante 
usar para marcar a contagem do ano. Ayla foi adotada como Mamutoi, ou seja, temos uma nova mulher, e a Me escolheu Latie para tornar-se mulher. Assim, logo teremos 
outra. - Ayla ficou surpresa ao ver seu nome mencionado. - Temos uma nova menina e ela receber seu nome hoje, e far parte do nosso grupo, e anunciaremos uma nova 
unio. - Jondalar fechou os olhos e engoliu com dificuldade. Tulie prosseguiu: - Atravessamos bem o inverno, com sade, e esta  a poca de o ciclo recomear.
     Quando Jondalar ergueu os olhos, Tulie havia dado um passo  frente e segurava o Basto Falante. Ele viu Nezzie fazer sinal a Latie. Esta se levantou, sorriu 
nervosamente para as duas jovens que a tinham feito sentir-se to segura e se aproximou do homem grande, de cabelos ruivos, de sua fogueira. Talut lhe sorriu, com 
afeio amorosa e encorajamento. Ela viu Wymez de p ao lado de sua me. O seu sorriso, embora menos contagioso, era tambm cheio de orgulho e amor pela filha de 
sua irm, e sua herdeira, que logo se tornaria mulher. Era um momento importante para todos eles.
     - Sinto muito orgulho de comunicar que Latie, a primeira filha da Fogueira do Leo, ficou pronta para se tornar uma mulher - disse Talut -, e de anunciar que 
ela ser includa na Celebrao da Feminilidade na reunio deste vero.
     Mamut avanou at ela e lhe entregou um objeto.
     - Esta  sua muta, Latie - disse ele. - Com isto, como um lugar para a Me morar, voc pode estabelecer uma fogueira prpria, um dia. Guarde em local seguro.
     Latie pegou o objeto de marfim esculpido e voltou ao seu lugar; ficou encantada em mostrar sua muta aos que estavam por perto. Ayla estava interessada. Sabia 
que fora Ranec quem fizera porque ela possua uma igual e, lembrando das palavras que tinham sido ditas, comeou a compreender por que ele lhe dera o objeto. Ela 
precisava de uma muta para fixar uma fogueira com ele.
     - Ranec deve estar tentando alguma coisa nova - comentou Deegie, vendo a figura de mulher-ave. - Nunca vi uma assim antes. E muito incomum. No estou certa 
de compreender. A minha se parece mais com uma mulher.
     - Ele me deu uma igual  de Latie - disse Ayla. - Achei que era tanto uma mulher quanto uma ave, dependendo de como voc a olhasse.
     - Ayla pegou a muta de Latie e mostrou-a de perspectivas e ngulos diferentes. - Ele disse que queria que ela representasse a Me em Sua forma espiritual.
     - Sim, posso ver isso, agora que me mostrou - falou Deegie. Ela devolveu a pequena escultura a Latie, que a aninhou cuidadosamente nas mos.
     - Gosto dela. No  como a de todo mundo, e significa algo especial - disse Latie, contente por Ranec lhe ter dado uma muta que era nica. Embora ele no houvesse 
vivido, jamais, na Fogueira do Leo, Ranec tambm era seu irmo, mas era to mais velho que Danug que parecia mais tio do que irmo. Ela nem sempre o compreendia, 
mas olhou para ele e notou que era respeitado por todos os Mamutoi como um escultor. Ela ficaria contente com qualquer muta feita por ele, mas estava contente por 
ele ter decidido lhe dar uma igual  de Ayla. S daria a Ayla uma escultura que ele considerasse a melhor possvel.
     A cerimnia de dar o nome  menina de Fralie j havia comeado e as trs jovens voltaram sua ateno para ela. Ayla reconheceu a placa de marfim gravada com 
marcas talhadas que Talut segurava e sentiu um instante de preocupao, recordando sua adoo. Mas a cerimnia era obviamente bastante comum. Mamut devia saber o 
que fazer. Enquanto ela observava Fralie apresentar seu beb ao feiticeiro e ao chefe do Acampamento do Leo, Ayla se lembrou, de repente, de outra cerimnia semelhante. 
Fora primavera, ento, recordou, somente ela era a me e apresentara seu beb temerosamente, esperando o pior.
     Ouviu Mamut dizer:
     - Que nome escolheu para esta criana?
     E ouviu Fralie replicar:
     - Ela dever se chamar Bectie.
     Mas, em sua mente, Ayla ouviu Creb dizer Durc. O nome do beb  Durc.
     As lgrimas apareceram em seus olhos enquanto sentia gratido, novamente, e alvio, quando Brun aceitara seu filho e Creb lhe dera um nome. Ela ergueu os olhos 
e viu Rydag, sentado em meio a vrias crianas com Lobo ao colo, observando-a com os mesmos olhos grandes, castanhos, antigos que lhe lembravam tanto os de Durc. 
Ela sentiu um desejo repentino de ver seu filho outra vez, mas depois compreendeu uma coisa. Durc era misto, como Rydag, mas havia nascido no Cl, recebido um nome 
e sido aceito pelo Cl, criado pelo Cl. Seu filho era Cl, e ela estava morta para o Cl. Estremeceu e tentou afastar os pensamentos.
     O som de um berro horrorizado de beb chamou a ateno de Ayla para a cerimnia, novamente, O brao do bebe havia sido cortado com uma faca aguada, e uma marca 
talhada na placa de marfim. Bectie recebera um nome e se achava entre os Mamutoi. Mamut derramava a soluo forte sobre o pequeno corte, fazendo o beb, que nunca 
conhecera qualquer dor, expressar seu desprazer ainda mais alto, mas o grito zangado e insistente do beb trouxe um sorriso ao rosto de Ayla. Apesar de seu nascimento 
prematuro, Bectie era uma criana forte. Era saudvel o bastante para gritar, Fralie exibiu a filha para que todos a vissem, depois, embalando a criana, cantou 
uma cano de consolo e alegria em uma voz aguda e agradvel, que acalmou a menina. Quando terminou voltara ao seu lugar perto de Frebec e Crozie. Em poucos instantes 
Bectie recomeou a chorar, mas os gritos cessaram de repente, anunciando que ela havia adormecido, afinal.
     Deegie a cutucou e Ayla compreendeu que chegara o momento. Era a sua vez. Chamavam-na. Por um instante, foi incapaz de se mover. Depois, quis fugir, mas no 
havia lugar para onde ir. Ela no queria fazer aquela Promessa a Ranec, ela queria Jondalar, queria lhe pedir para no deix-la, mas, quando ergueu os olhos e viu 
o rosto ansioso, feliz e sorridente de Ranec, respirou fundo e se levantou. Jondalar no a queria e ela havia dito a Ranec que faria a Promessa. Relutante, Ayla 
caminhou para os co-lderes do acampamento.
     O homem escuro a viu aproximar-se, saindo das sombras para a claridade da fogueira central, e sua respirao ficou presa  garganta. Ela usava o traje de couro 
claro que Deegie lhe dera, aquele que era perfeito para ela, mas seu cabelo no estava tranado nem em coque, ou em um dos estilos complicados que incorporava contas 
e enfeites em geral usados pelas mulheres Mamutoi. Em deferncia  cerimnia da raiz do Cl, ela deixara os cabelos soltos e as ondas fartas, brilhantes, que caam 
abaixo dos ombros, cintilavam  luz do fogo e emolduravam seu rosto nico, lindamente esculpido com um halo dourado. Naquele momento, Ranec convenceu-se de que ela 
era a Me encarnada, incorporada ao corpo da perfeita Mulher-Espirito. Ele a desejava tanto para sua mulher que era quase uma dor, uma dor de desejo, e ele mal podia 
acreditar que aquela noite era verdadeira.
     Ranec no estava sozinho no assombro diante da beleza de Ayla. Quando ela avanou para a claridade do fogo, todo o acampamento foi apanhado de surpresa. A roupa 
Mamutoi, ricamente elegante, e a gloriosa beleza natural de seu cabelo formavam uma combinao surpreendente, realada pela claridade dramtica. Talut pensou no 
valor que ela acrescentaria ao Acampamento do Leo, e Tulie estava determinada a fixar um Preo de Noiva muito alto, mesmo que tivesse que contribuir, ela mesma, 
com metade, por causa do status que isso daria a todos eles. Mamut, j convencido de que ela estava destinada a Servir a Me de alguma forma importante, anotou o 
senso instintivo de oportunidade de Ayla, e tendncia natural para o dramtico, e percebeu que, um dia, ela seria uma fora com quem ajustar contas.
     Mas ningum sentiu mais o impacto de sua presena do que Jondalar. Ele ficou ofuscado por sua beleza, como Ranec, mas a me de Jondalar fora uma lder, e depois 
seu irmo, aps ela; Dalanar havia criado e era o chefe de um novo grupo, e Zolena alcanara o posto mais alto das Zelandonii. Ele crescera entre os lderes naturais 
de seu povo, e sentia as qualidades que eram notadas pelo feiticeiro e co-lderes do Acampamento do Leo. Como se algum lhe houvesse dado um chute no estmago e 
lhe tirado o ar, de repente compreendeu o que havia perdido.
     Assim que Ayla se colocou ao lado de Ranec, Tulie comeou:
     - Ranec dos Mamutoi, filho da Fogueira da Raposa do Acampamento do Leo, pediu a Ayla dos Mamutoi, filha da Fogueira do Mamute do Acampamento do Leo, e protegida 
pelo Esprito do Leo da Caverna, para se unirem e estabelecerem uma fogueira.  verdade, Ranec?
     - Sim,  verdade - respondeu ele, depois se virou para Ayla com um sorriso de total alegria.
     Talut se dirigiu a Ayla, ento.
     - Ayla dos Mamutoi, filha da Fogueira do Mamute do Acampamento do Leo, e protegida pelo Esprito do Leo da Caverna, concorda com esta unio com Ranec dos 
Mamutoi, filho da Fogueira da Raposa do Acampamento do Leo?
     Ayla fechou os olhos e engoliu antes de responder.
     - Sim - disse, afinal, em uma voz pouco audvel -, concordo.
     Jondalar, sentado ao fundo, perto da parede da habitao, fechou os olhos e apertou o maxilar at suas tmporas latejarem. Era sua culpa. Se ele no a tivesse 
forado, talvez ela no se voltasse para Ranec. Mas ela j se voltara para ele, j tinha partilhado sua cama. Desde o primeiro dia de sua adoo pelos Mamutoi, ela 
dividira a cama de Ranec. No, ele tinha que admitir, isso no era verdade. Depois da primeira noite, ela no dividiu a cama do escultor com ele, seno depois que 
eles tiveram aquela discusso estpida e ele, Jondalar, abandonara a Fogueira do Mamute. Por que discutiram? Ele no estava zangado com ela, apenas preocupado. Ento, 
por que sara da Fogueira do Mamute?
     Tulie se virou para Wymez, que estava de p ao lado de Ranec, perto de Nezzie. Ayla nem sequer o notara.
     - Aceita esta unio entre o filho da Fogueira da Raposa e a filha da Fogueira do Mamute?
     - Aceito esta unio e a acolho com alegria - replicou Wymez.
     - E voc, Nezzie? - perguntou Tulie. - Aceita esta unio, entre seu filho Ranec, e Ayla, e se conseguir um Preo de Noiva adequado?
     - Aceito a unio - respondeu a mulher.
     Talut falou em seguida, ao velho ao lado de Ayla:
     - Buscador Espiritual dos Mamutoi, ele que abandonou nome e fogueira, ele que foi chamado, ele que se dedicou  Fogueira do Mamute, ele que fala  Grande Me 
de todos, Aquele Que Serve Mut - disse o chefe, recitando cuidadosamente todos os nomes e ttulos do feiticeiro -, o Mamut concorda com uma unio entre Ayla, filha 
da Fogueira do Mamute, e Ranec, filho da Fogueira da Raposa?
     Mamut no respondeu imediatamente. Ele olhou para Ayla que se encontrava de p, a cabea inclinada. Ela esperou e quando ele no falou, ela o encarou. Ele examinou 
sua expresso, observou sua postura, e a aura ao seu redor.
     - A filha da Fogueira do Mamute pode se unir ao filho da Fogueira da Raposa, se desejar  disse, ele afinal. - No h nada para impedir essa unio. Ela no 
precisa de minha aprovao ou da aceitao de ningum. A escolha  dela. Mas ela continuar sempre a filha da Fogueira do Mamute.
     Tulie olhou o velho de soslaio. Sentia que havia mais em suas palavras do que parecia. Havia alguma coisa ambgua em sua resposta e ela se perguntou o que ele 
queria dizer, mas resolveu refletir sobre isso mais tarde.
     - Ranec, filho da Fogueira da Raposa, e Ayla, filha da Fogueira do Mamute, declararam sua inteno de se unirem. Desejam formar uma unio para misturar seus 
espritos, e partilhar uma fogueira. Todos os interessados concordaram - disse Tulie. Depois, voltou-se para o escultor. - Ranec, ao se unir, promete dar a Ayla 
a proteo de seu esprito masculino e a sua, cuidar dela quando for abenoada pela Me com nova vida, e aceitar seus filhos como os filhos de sua fogueira?
     - Sim, prometo.  o que mais quero no mundo - falou Ranec.
     - Ayla, ao se unir, promete cuidar de Ranec e lhe dar a proteo do poder de sua me, acolher bem a Ddiva de Vida da Me sem reservas, e partilhar seus filhos 
com o homem de sua fogueira? - perguntou Tulie.
     Ayla abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu, a princpio. Ela tossiu e pigarreou, depois replicou, mas sua resposta foi quase inaudvel.
     - Sim, prometo.
     - Todos ouvem e testemunham esta Promessa? - perguntou Tulie s pessoas reunidas.
     - Ouvimos e testemunhamos - respondeu o grupo.
     Depois, Deegie e Tornec comearam a tocar um ritmo lento em seus instrumentos de osso, mudando sutilmente o tom para acompanhar as vozes que cantavam.
     - Vocs se uniro no Matrimnio de Vero, de forma que todos os Mamutoi possam presenciar - disse Tulie. - Dem volta  fogueira trs vezes para ratificar a 
Promessa.
     Lado a lado, Ranec e Ayla caminharam devagar ao redor da fogueira, ao som da msica tonal e pessoas que cantavam. Estava feito. Tinham feito a Promessa. Ranec 
estava extasiado. Sentia como se seus ps mal tocassem o cho enquanto andava. Sua felicidade era to avassaladora que era impossvel acreditar que Ayla no a partilhasse. 
Ele havia notado uma certa relutncia, mas ele inventou desculpas, presumiu que fosse timidez, ou que ela estivesse cansada, ou nervosa. Ele a amava tanto que estava 
alm dele considerar que ela no o amava da mesma maneira.
     Mas Ayla sentia o corao pesado enquanto rodeava a fogueira, embora tentasse no demonstr-lo. Jondalar se curvou, incapaz de sustentar-se, como se seus ossos 
tivessem desmoronado, sentindo-se como um saco vazio, jogado fora. Mais do que tudo desejou partir, fugir da viso da bela mulher que amava, caminhando ao lado do 
homem de pele escura, sorridente e feliz.
     Quando completaram a terceira volta, houve uma pausa nas cerimnias para desejar felicidades e dar presentes a todos os celebrantes. Presentes para Bectie incluam 
o espao dado  Fogueira da Gara pela Fogueira dos Auroques, assim como um colar de mbar e conchas marinhas, e uma pequena faca em uma bainha decorada, que eram 
o comeo da riqueza que ela acumularia durante sua vida. Latie recebeu presentes pessoais, importantes para uma mulher, e uma bela e ricamente decorada tnica de 
vero de Nezzie, para ser usada durante as festividades na Reunio de Vero. Ela receberia muito mais presentes de parentes e amigos ntimos em outros acampamentos.
     Ayla e Ranec ganharam itens domsticos: uma concha esculpida de um chifre, um raspador de dois cabos usado para amaciar as partes internas das peles, com um 
entalhe para uma lmina substituvel, esteiras tecidas, xcaras, tigelas, travessas. Embora Ayla sentisse que ganhavam muitas coisas, elas eram apenas um sinal. 
Receberiam muito mais na Reunio de Vero, mas eles, e o Acampamento do Leo, tambm deviam dar presentes em troca. Presentes, pequenos ou valiosos, sempre incluam 
obrigaes, e o clculo de quem devia o que a que pessoa era um jogo complexo, mas interminavelmente fascinante.
     - Oh, Ayla, estou to contente porque nos uniremos na mesma poca! - exclamou Deegie. - Ser to divertido planej-lo com voc, mas voc voltar para c, e 
eu partirei para construir nova moradia. Sentirei sua falta no ano que vem. Seria to engraado saber quem a Me abenoar primeiro. Voc ou eu. Ayla, voc deve 
estar to feliz!
     - Suponho que sim - disse Ayla e depois sorriu, embora seu corao no se alegrasse.
     Deegie se perguntou o porqu da falta de entusiasmo de Ayla. De alguma forma, ela no parecia to excitada sobre ter sido prometida quanto ela, Deegie, havia 
ficado. Ayla tambm refletia. Devia estar feliz, queria estar feliz, mas tudo o que sentia era esperana perdida.
     Durante a confraternizao geral, Ayla e Mamut esgueiraram-se  Fogueira dos Auroques a fim de fazer os preparativos finais. Quando estavam prontos, voltaram 
pelo corredor, mas Mamut parou nas sombras entre a Fogueira da Rena e a Fogueira do Mamute. As pessoas formavam pequenos grupos, envolvidas profundamente em conversa, 
e o feiticeiro esperou que ningum olhasse naquela direo. Ento, fez um sinal a Ayla e moveram-se rapidamente para a rea cerimonial, permanecendo no escuro at 
o ltimo momento.
     Mamut, despercebido a princpio, ficou de p silenciosamente diante da fogueira perto da tela, com a capa fechada  sua frente com os braos cruzados ao peito, 
os olhos aparentemente fechados. Ayla, sentada de pernas cruzadas ao cho, aos ps de Mamut, com a cabea inclinada, tinha uma capa cada de seus ombros, tambm. 
Quando foram vistos, foi com a sensao estranha de que tinham, de repente, aparecido no meio deles. Ningum os vira aproximar-se. Apenas, estavam ali. As pessoas 
encontraram lugares para sentar, rapidamente, cheias de uma sensao de antecipao e excitao, preparadas agora para o mistrio e magia da Fogueira do Mamute, 
e curiosas em relao a esta nova cerimnia que havia sido preparada. Primeiro, todavia, Mamut queria estabelecer a presena do mundo espiritual, para mostrar a 
realidade elevada do sentido alterado em que ele funcionava, para aqueles que o conheciam somente por palavras, ou talvez, resultados. O grupo se calou. No silncio, 
o som da respirao aumentou, assim como o estalido do fogo. O ar em movimento era uma presena invisvel bafejando atravs das aberturas da lareira, e soltando 
um lamento mudo atravs dos buracos de sada da fumaa, parcialmente abertos. Assim, gradualmente, sem ningum notar que comeava, o vento que gemia se tornou uma 
salmdia sussurrante, depois um canto ritmado. Enquanto as pessoas agrupadas se juntavam ao canto, aumentando o tom ondulante com harmonias naturais, o velho feiticeiro 
comeou um movimento de dana gingado e elaborado. Ento, o tambor tonal acentuou o ritmo e o estalo de uma matraca, que parecia ser vrias braadeiras mantidas 
juntas e sacudidas.
     De repente, Mamut arrancou a capa e ficou de p totalmente nu diante do grupo. Ele no tinha bolsos, mangas, dobras secretas para esconder coisa alguma. Imperceptivelmente, 
pareceu crescer, diante dos olhos das pessoas presentes, sua presena bruxuleante, transparente, enchendo o espao. Ayla pestanejou, sabendo que o velho feiticeiro 
no havia mudado. Se ela se concentrasse, poderia ver a forma familiar do velho com a pele flcida e pernas e braos compridos, magros e ossudos, mas era difcil.
     Ele encolheu, voltando ao tamanho normal, mas parecia ter engolido ou incorporado, de algum modo, a presena bruxuleante, de maneira que o contornava com um 
brilho que o fazia parecer enorme. Ele estendeu as mos abertas diante de si. Estavam vazias. Bateu as mos uma  outra, uma vez, depois as manteve juntas. Seus 
olhos se fecharam, e no incio ficou imvel, mas tremia como se lutasse contra uma grande fora. Devagar, com imenso esforo, separou as mos. Uma forma negra, amorfa, 
apareceu entre ambas, e mais de um observador estremeceu. Tinha o sentido inefvel, o odor do mal; de alguma coisa odiosa, ftida e assustadora. Ayla sentiu os cabelos 
ficarem em p em sua nuca, e prendeu a respirao.
     Quando Mamut estendeu as mos, separadamente, a forma cresceu. O odor acre do medo nasceu do grupo sentado. Todos se encontravam eretos, inclinados  frente, 
cantando com uma intensidade pesarosa, e a tenso dentro da habitao era quase insuportvel. A forma se tornou mais escura, inchada, retorcida com vida prpria, 
ou melhor, a anttese da vida. O velho feiticeiro lutava, o corpo tremia com o esforo. Ayla se concentrou nele, temerosa por ele.
     Sem aviso prvio, Ayla se sentiu atrada, arrastada e, de repente, se encontrou com Mamut, em sua mente ou em sua viso. Ela via claramente agora, compreendia 
o perigo, e estava apavorada. Ele controlava uma coisa inenarrvel, incompreensvel Mamut a havia atrado tanto para proteg-la quanto para ajud-lo. Enquanto ele 
trabalhava para controlar a coisa, ela estava com ele, sabendo e aprendendo ao mesmo tempo. Quando ele forou as mos para se juntarem outra vez, o vulto diminuiu, 
e Ayla pde ver que ele empurrava o vulto de volta ao local de onde viera. Um estalo alto, como um trovo, soou na mente de Ayla quando as mos do feiticeiro se 
juntaram.
     Desaparecera. Mamut havia expulso o mal, e Ayla se tornou consciente de que Mamut havia invocado outros espritos para ajud-lo a lutar com a coisa. Ela percebeu 
vagos vultos de animais, espritos guardis, o Mamute e o Leo da Caverna, talvez at o Urso da Caverna, o prprio Ursus. Ento, ela voltou, sentada a uma esteira, 
olhando para o velho que era apenas Mamut, novamente. Ele estava fisicamente cansado, mas, mentalmente, sua capacidade estava aguada, afiada pela luta de vontades. 
Ayla tambm parecia ver mais claramente, e percebeu que os espritos guardis ainda estavam presentes. Ela havia tido treinamento suficiente para agora compreender 
que o propsito de Mamut havia sido afastar quaisquer influencias malvolas presentes que pudessem comprometer sua cerimnia. Elas seriam atradas para o mal que 
ele invocara, e expulsas com ele.
     Mamut fez sinal de silncio. O canto e o rufo de tambores cessaram. Era hora de Ayla iniciar a cerimnia da raiz do Cl, mas o feiticeiro queria enfatizar a 
importncia da ajuda do acampamento quando chegasse o momento de eles tornarem a cantar. Sempre que o ritual da raiz os possusse, o som do canto podia gui-los 
de volta.
     No silncio expectante da noite, Ayla comeou a tocar uma srie incomum de ritmos em um instrumento diferente de todos que tinham visto. Era exatamente o que 
parecia ser, uma grande tigela de madeira, esculpida de um pedao de madeira, virada de cabea para baixo. Ela a havia trazido consigo do vale, e a tigela surpreendia 
tanto pelo tamanho quanto pelo fato de ser usada como instrumento. As rvores suficientemente grandes para fornecer madeira para tal tigela no cresciam no terreno 
aberto, seco e ventoso das estepes. Mesmo o vale do rio periodicamente inundado, raramente desenvolvia rvores muito grandes, mas o pequeno vale onde ela vivera 
era protegido do pior dos ventos cortantes, e tinha mais do que o suficiente em gua para algumas conferas grandes. Uma fora derrubada por um raio, e Ayla fizera 
uma tigela de uma parte dela.
     Ayla usava uma vareta lisa de madeira para produzir o som. Embora pudesse conseguir certa variao no tom batendo em locais diferentes, no era um instrumento 
musical de percusso, como a omoplata e tambor de crnio ressoante o eram; era feita para cadncias. As pessoas do Acampamento do Leo estavam intrigadas, mas aquela 
no era a sua msica, e no se sentiam inteiramente  vontade com ela. Os sons rtmicos que Ayla produzia eram distintamente estrangeiros, mas como ela havia esperado, 
criavam uma atmosfera que combinava, uma atmosfera com a sensao do Cl. Mamut estava esmagado por lembranas do tempo que ele passara com eles. As batidas com 
que Ayla terminou no deram impresso de encerramento, mas criavam a sensao de que se esperava mais e deixavam uma expectativa suspensa no ar.
     Os membros do acampamento no sabiam o que esperar, mas, quando Ayla tirou a capa e levantou-se, ficaram surpresos pelos desenhos pintados em seu corpo, crculos 
vermelhos e negros. Exceto por algumas tatuagens faciais daqueles que pertenciam  Fogueira do Mamute, os Mamutoi decoravam suas roupas, no seus corpos. Pela primeira 
vez, o povo do Acampamento do Leo percebia o mundo de onde Ayla viera: uma cultura to estranha que no podiam compreend-la inteiramente. No era apenas um estilo 
diferente de tnica, ou escolha de cores predominantes, ou preferncia por um tipo de lana, ou mesmo uma linguagem diversa. Era uma maneira diferente de pensar, 
mas eles reconheciam que era um modo humano de pensar.
     Observavam com fascnio enquanto Ayla enchia a tigela de madeira, que ela dera a Mamut, com gua. Depois, pegou uma raiz seca em que eles no tinham reparado, 
e comeou a mastig-la. Foi difcil, a princpio. A raiz era velha e seca, e os sumos tinham que ser cuspidos  tigela. Ela no devia engolir nada. Quando Mamut 
havia perguntado, de novo, se a raiz ainda seria eficaz depois de tanto tempo, Ayla respondera que era provvel que fosse mais forte agora.
     Depois do que pareceu um tempo muito longo - ela recordou que parecera levar muito tempo da primeira vez -, cuspiu a polpa mastigada e o resto do suco na tigela 
de gua. Mexeu com um dedo at o lquido ficar aguado e esbranquiado. Quando achou que estava correto, entregou a tigela a Mamut.
     Com a batida de seu tambor e a agitao do chocalho, o feiticeiro assinalou o andamento certo para os tamborileiros e cantores manterem, e depois, com um gesto 
de cabea para Ayla, indicou que estava pronto. Ela estava nervosa, sua experincia anterior com a raiz tivera associaes desagradveis e ela recapitulou cada detalhe 
da preparao em sua mente, e tentou se lembrar de tudo o que Iza lhe dissera. Ela havia feito tudo o que pudera para que a cerimnia fosse o mais parecida possvel 
com o ritual do Cl. Ela respondeu a Mamut tambm com um gesto de cabea, e Mamut levou a tigela  boca e tomou o primeiro gole. Quando bebeu metade, deu o resto 
a Ayla. Ela bebeu a outra metade.
     O sabor era antigo, lembrana de terra frtil em densas florestas sombrias, primitivas, de estranhas rvores gigantescas e uma cobertura verde filtrando sol 
e luz. Ela comeou a sentir os efeitos quase imediatamente. Uma sensao de nusea a dominou, e uma impresso de vertigem. Enquanto a habitao girava e girava  
sua volta, sua viso toldou-se e o crebro pareceu expandir-se e ficar comprimido em sua cabea. De repente, a moradia desapareceu e ela estava em outro local, um 
lugar escuro. Sentiu-se perdida e leve um instante de pnico. Depois, teve a sensao de que algum lhe estendia a mo e compreendeu que Mamut se encontrava no mesmo 
local. Ayla ficou aliviada por encontr-lo, mas Mamut no estava em sua mente como Creb estivera, e ele no a dirigiu, nem a si prprio, como Creb havia feito. Ele 
no exercia controle algum, apenas estava ali, esperando para ver o que aconteceria.
     Fracamente, como se estivessem dentro da habitao comunal, e ela do lado de fora, Ayla ouviu o canto e rudo ressoante dos tambores. Ela focalizou sua ateno 
no som. Tinha um efeito de apoio, dava-lhe um ponto de referncia e uma impresso de no estar sozinha. A proximidade de Mamut tambm era uma influncia calmante, 
embora ela desejasse a fortemente orientadora, que lhe mostrara o caminho, antes.
     A escurido mudou gradualmente para cinza que se tornou luminoso, depois iridescente. Ela percebeu movimento, como se ela e Mamut sobrevoassem a paisagem novamente, 
mas no havia feies distintas, somente uma sensao de passagem atravs da nuvem opalescente, circundante. Aos poucos,  medida que sua velocidade aumentava, a 
nuvem nevoenta fundia-se numa pelcula fina de brilhantes cores do arco-ris. Ela escorregava por um comprido tnel translcido, com paredes como o interior de uma 
bolha, movendo-se mais e mais depressa, dirigindo-se diretamente para uma luz branca ardente, como o sol, mas fria como gelo. Ela gritou, porm no emitiu som algum, 
depois irrompeu na luz e atravs dela.
     Estava num vazio profundo, frio, negro que dava uma impresso assustadoramente familiar. Ela estivera ali antes, mas ento, Creb a havia encontrado e a tirado 
de l. Apenas vagamente, sentiu que Mamut ainda estava com ela, mas ela sabia que ele no podia ajud-la. O canto das pessoas no passava de uma reverberao indistinta. 
Ela estava certa de que, se parasse, jamais encontraria seu caminho de volta, mas estava incerta sobre se queria voltar. Naquele local no havia sensao, nem sentimento, 
somente uma ausncia que fazia com que visse sua confuso, seu amor doloroso, e sua infelicidade desesperada. O vazio negro era amedrontador, mas no parecia pior 
que a desolao que sentia em seu ntimo.
     Ela sentiu movimento de novo, e a escurido desapareceu. Estava outra vez em uma nuvem nevoenta, mas era diferente, mais espessa e pesada. A nuvem se partiu 
e um panorama se abriu diante dela, mas no tinha qualquer significado. No era a paisagem suave, casual, natural que conhecia. Estava cheia de formas e vultos desconhecidos; 
plana, regular, com superfcies achatadas e duras, e linhas retas, e grandes massas de cor brilhante, espalhafatosa, pouco natural. Algumas se moviam rapidamente, 
ou talvez apenas fosse impresso. Ela no sabia, mas no gostava desse lugar, e lutou para afast-lo dela, para fugir dele.
     Jondalar havia visto Ayla beber a mistura, e franziu a testa, preocupado, quando a viu cambalear, o rosto plido. Ela teve nuseas algumas vezes e depois caiu 
ao solo. Mamut tambm havia cado, mas no era raro o feiticeiro tombar quando ele ia longe, no outro mundo,  procura de espritos, quer comesse ou bebesse alguma 
coisa para ajud-lo, ou no. Mamut e Ayla estavam deitados de costas, enquanto o canto e rufo dos tambores continuavam. Ele viu Lobo tentar alcan-la, mas o filhote 
foi mantido longe. Jondalar compreendeu como Lobo se sentia. Ele queria correr para Ayla e at lanou um olhar a Ranec para ver sua reao, mas o Acampamento do 
Leo no parecia alarmado, e hesitou em interferir em um ritual sagrado. Em vez disso, comeou a cantar tambm. Mamut fizera questo de lhes dizer como o canto era 
importante.
     Depois de ter passado longo tempo, e nenhum deles ter-se movido, ele ficou mais temeroso por Ayla e pensou ver expresses preocupadas nos rostos de algumas 
das pessoas. Ele se levantou e tentou v-la, mas os fogos enfraqueceram e a habitao estava obscurecida. Ouviu um ganir e abaixou os olhos para Lobo. O filhote 
ganiu de novo e olhou para ele, suplicante. Partiu em direo a Ayla vrias vezes, e depois voltou para ele.
     Ouviu o relincho de Whinney no anexo. A gua parecia infeliz, como se pressentisse perigo. O homem alto foi ver qual era o problema. Era improvvel, mas um 
predador podia entrar sorrateiramente no anexo dos cavalos, e talvez pr em perigo os animais quando todos estavam ocupados. Whinney se agitou quando viu o homem. 
Jondalar no encontrou nada que pudesse ser responsvel pelo comportamento da gua, mas ela estava obviamente assustada por algum motivo. Nem mesmo os afagos e palavras 
consoladoras de Jondalar a acalmaram. Ela continuou voltada para a entrada da Fogueira do Mamute, embora nunca tivesse tentado entrar ali antes. Racer tambm estava 
inquieto, talvez sensvel ao nervosismo da me.
     Lobo estava aos ps de Jondalar de novo, uivando e ganindo, correndo em direo  entrada da Fogueira do Mamute, e depois de volta at ele novamente.
     - O que , Lobo? O que est incomodando voc?  E o que est perturbando Whinney, pensou. Depois lhe ocorreu o que talvez incomodasse os dois animais. Ayla! 
Deviam pressentir algum perigo para Ayla!
     Jondalar voltou ao interior a passos largos e viu vrias pessoas ao redor de Mamut e Ayla, agora, tentando despert-los. Incapaz de se controlar mais, ele correu 
para Ayla. Ela estava dura, rgida, com os msculos retesados, e fria. Mal respirava.
     - Ayla! - gritou Jondalar. -  Me, ela parece quase morta! Ayla!  Doni, no a deixe morrer! Ayla, acorde! No morra, Ayla! Por favor, no morra!
     Ele a segurou nos braos, gritando seu nome, com grande insistncia, repetidas vezes, suplicando-lhe para no morrer.
     Ayla se sentia deslizando para mais e mais longe. Tentou ouvir o canto e rufo dos tambores, mas eram como uma lembrana apagada. Depois, achou que ouvira seu 
nome. Esforou-se para ouvir. Sim, l estava de novo, o seu nome, falado com insistncia, com grande necessidade. Sentiu Mamut se aproximar mais, e juntos, concentraram-se 
no canto. Ela ouviu um leve murmrio de vozes, e sentiu-se atrada para o som. Depois, na distncia, ouviu a voz grave, vibrante, estancado dos tambores dizer a 
palavra h-h-o-o-m-m-m; agora, ouviu com mais clareza seu nome gritado com angstia e necessidade e amor esmagador. Sentiu um contato gentil alcan-la e tocar 
a essncia combinada dela e de Mamut.
     De repente, ela se movia, sendo puxada e empurrada ao longo de um nico filamento brilhante. 
     Teve a impresso de enorme velocidade. A nuvem pesada a cercou e desapareceu. Ela atravessou o vazio em um piscar de olhos, O arco-ris cintilante se tornou 
uma neblina cinza, e no instante seguinte, ela estava na habitao comunal. Abaixo dela, seu prprio corpo, incomumente imvel com uma palidez cinzenta, estava espalhado 
no cho. Ela viu as costas de um homem louro que a abraava, segurando-a. Ento, sentiu Mamut empurr-la.
     As plpebras de Ayla estremeceram, depois ela abriu os olhos e viu o rosto de Jondalar inclinado para ela. O medo intenso em seus olhos azuis mudou para um 
alvio imenso. Ela tentou falar, mas sua lngua estava grossa, e ela estava fria, gelada.
     - Voltaram! - ouviu Nezzie dizer. - No sei onde estiveram, mas esto de volta. E com frio! Tragam peles e alguma bebida quente.
     Deegie trouxe uma poro de peles de sua cama, e Jondalar saiu do caminho para que ela pudesse enfi-las ao redor de Ayla. Lobo veio correndo, saltando e lambendo-lhe 
o rosto, depois Ranec trouxe uma xcara de ch quente. Talut ajudou-a a sentar-se. Ranec segurou a bebida quente para que ela a levasse  boca, e ela sorriu, grata. 
Whinney relinchou do
     anexo e Ayla reconheceu o som de infelicidade e medo. A mulher se sentou, preocupada, e produziu um som igual ao do animal, para acalmar e tranqilizar a gua. 
Depois perguntou por Mamut e insistiu em v-lo.
     Foi ajudada a levantar-se, a pele envolvendo-lhe os ombros, e levada ao velho feiticeiro. Estava embrulhado em peles e segurava, tambm, uma xcara de ch quente. 
Sorriu-lhe, mas havia um vislumbre de preocupao em seus olhos. No querendo preocupar o acampamento indevidamente, ele tentara negligenciar a importncia de sua 
perigosa experincia, mas no queria que Ayla compreendesse mal o srio perigo que tinham corrido. Ela tambm queria falar a respeito, mas ambos evitaram referncias 
diretas  experincia. Nezzie percebeu, rapidamente, sua necessidade de falar e fez com que todos se retirassem, deixando-os a ss.
     - Onde estivemos, Mamut? - perguntou Ayla.
     - No sei, Ayla. Nunca estive l antes. Era outro lugar, talvez outra poca. Talvez no fosse um lugar real - falou ele, pensativo.
     - Devia ser - disse ela. - Aquelas coisas pareciam reais, e parte do local era familiar. Aquele lugar vazio, a escurido, eu estive l com Creb.
     - Acredito quando diz que seu Creb era poderoso. Talvez mais do que voc imagina, se podia dirigir e controlar aquele lugar.
     - Sim, ele era, Mamut, mas... - Um pensamento ocorreu a Ayla, mas ela estava incerta de poder express-lo. - Creb controlava aquele lugar, mostrou-me suas memrias 
e nossos comeos, mas acho que Creb nunca esteve onde estivemos, Mamut. Acho que ele no podia. Talvez tenha sido isso que me protegeu. Ele tinha certos poderes, 
e podia control-los, mas eram diferentes. O local a que fomos desta vez era um novo lugar. Ele no poderia ir a um lugar novo, s podia ir onde j estivera. Mas, 
talvez, visse que eu podia. Pergunto-me se isso foi o que o entristecia tanto.
     Mamut concordou com um gesto de cabea.
     - Talvez, porm, mais importante, aquele local era muito mais perigoso do que imaginei que seria. Tentei no mencionar isso, para no assustar todos. Se tivssemos 
ficado muito mais tempo l, no teramos sido capazes de voltar. E no voltamos por ns mesmos. Fomos ajudados por... Por algum que tinha um desejo... To forte 
que voltssemos, que venceu todos os obstculos. Quando a fora de vontade pura  dirigida para conseguir seu propsito, nenhuma barreira pode resistir, exceto, 
talvez, a prpria morte.

     Ayla franziu a testa, obviamente perturbada, e Mamut se perguntou se ela sabia quem os havia trazido de volta, ou compreendido por que o propsito coerente 
poderia ser necessrio para a sua proteo. Ela compreenderia com o tempo, mas no era ele quem devia lhe dizer. Ela tinha que descobrir sozinha.
     - Jamais irei quele lugar novamente - continuou ele. - Estou velho demais. No quero meu esprito perdido naquele vazio. Um dia, quando voc tiver desenvolvido 
seus poderes, talvez queira voltar l. Eu no a aconselharia, mas se for, certifique-se de que tem proteo poderosa. Certifique-se de que algum espera por voc, 
algum que possa cham-la de volta.
     Quando Ayla caminhou para sua cama, procurou Jondalar, mas ele havia recuado quando Ranec lhe trouxe o ch, e agora, estava permanecendo fora do caminho. Embora 
ele no houvesse hesitado em se aproximar quando sentiu que ela corria perigo, estava inseguro agora. Ela havia acabado de fazer a Promessa ao escultor dos Mamutoi. 
Que direito tinha ele de segur-la nos braos? E todos pareciam saber o que fazer, trazendo-lhes bebidas quentes e peles. Ele havia sentido que, porque a amava tanto, 
talvez tivesse ajudado de algum modo estranho, mas, quando refletiu sobre isso, comeou a ter dvidas. Ela estava voltando, provavelmente, quando ele a chamou, disse 
a si mesmo. Foi coincidncia. Eu estava l, s isso. Ela nem se lembrar.
     Ranec se dirigiu a Ayla quando ela acabou de falar a Mamut, e pediu-lhe para ir para a cama dele, no para ter relaes, somente para poder abra-la e mant-la 
aquecida. Mas ela insistiu em que ficaria mais confortvel em sua prpria cama. Afinal, ele concordou, mas jazeu acordado em suas peles durante bastante tempo, pensando. 
Embora tivesse sido evidente para todos, ele fora capaz de ignorar o interesse constante de Jondalar por Ayla, apesar de ter deixado a Fogueira do Mamute. Depois 
daquela noite, contudo, Ranec no podia negar os fortes sentimentos que o homem alto ainda nutria por ela, no depois de v-lo suplicar  Me pela vida de Ayla.
     Ele no tinha dvida de que Jondalar havia sido um instrumento para trazer Ayla de volta, mas no queria acreditar que ela correspondesse a esses sentimentos 
na mesma moeda. Ela havia-se prometido a ele naquela noite. Ayla seria sua mulher e partilharia sua fogueira. Ele tambm havia temido por ela, e o pensamento de 
perd-la, quer para algum perigo, quer para outro homem, s fazia com que a quisesse mais.
     Jondalar viu Ranec aproximar-se dela e respirou mais facilmente quando o homem escuro voltou a sua fogueira sozinho, mas, ento, rolou sobre si mesmo e puxou 
as peles sobre a cabea. Que diferena fazia se Ayla estava com ele ou no naquela noite? Ela iria para ele, afinal. Ela havia-se prometido a Ranec.
     Ayla contava sua idade, em geral, no fim do inverno, comeando seu novo ano com a estao da vida nova, e a primavera de seu dcimo oitavo ano fora gloriosa, 
com uma profuso de flores do campo e verduras frescas recm-nascidas. Foi bem-vinda como podia ser apenas, em um local de terras invernais incultas e geladas, mas, 
depois do Festival de Primavera, a estao amadureceu depressa. Quando as flores vivas das estepes murcharam, foram substitudas pela safra viosa, de crescimento 
rpido de capim novo - e os animais de pasto que trazia. As migraes sazonais tinham comeado.
     Animais numerosos e de muitas espcies migravam atravs das plancies descampadas. Alguns se reuniam em nmero incontvel, outros em pequenos rebanhos ou grupos 
familiares, mas todos tiravam seu sustento, sua vida, dos grandes pastos incrivelmente ricos, varridos pelo vento, e dos sistemas de rios alimentados pelas geleiras 
que atravessavam as pastagens.
     Grandes manadas de bises de chifres enormes cobriam colinas e de presses como uma massa viva, gritante, inquieta, ondulante, que deixava atrs de si terra 
pisada e nua. Gado selvagem, auroques, enfileiravam-se por quilmetros nas florestas amplas ao longo dos vales do rio principal, enquanto viajavam para o norte, 
s vezes misturados a rebanhos de alces e veados gigantescos com galhadas macias. Os tmidos cabritos monteses viajavam atravs de bosques ribeirinhos e florestas 
boreais em pequenos agrupamentos para os pastos de primavera e vero, juntamente aos insociveis alces americanos que tambm viviam nos pntanos e lagos de neve 
derretida das estepes. Cabras monteses e carneiros selvagens, em geral habitantes dos montes, dirigiam-se s plancies nas terras frias do norte, e misturavam-se, 
em locais onde os animais bebem gua, com pequenas famlias de antlopes ou grupos mais numerosos de cavalos das estepes. O movimento sazonal de animais peludos 
era mais limitado. Com sua espessa camada de gordura e pesados mantos duplos de plo, adaptavam-se  vida perto das geleiras e no sobreviviam a muito calor. Viviam 
o ano inteiro nas regies periglaciais das estepes, onde o frio era maior, porm seco, e a neve era pouca, sustentando-se no inverno do feno grosseiro e seco. O 
boi almiscarado semelhante ao carneiro era um habitante permanente do norte gelado, e movia-se em pequenos rebanhos dentro de territrio limitado. Rinocerontes peludos 
que se agrupavam, em geral, somente em famlias, e as manadas maiores de mamutes penugentos iam mais longe, todavia, permaneciam no norte durante o inverno. Nas 
estepes ao sul, levemente mais quentes e mais midas, neves profundas enterravam o alimento e faziam os animais pesados chapinhar. Eles se dirigiam ao sul na primavera 
para engordar no capim novo e tenro, mas, assim que esquentava, voltavam para o norte de novo.
     O Acampamento do Leo regozijou-se ao ver as plancies proliferando devida novamente, e comentou sobre cada espcie que aparecia, especialmente os animais que 
se desenvolviam no frio rigoroso. Esses eram aqueles que mais os ajudavam a sobreviver. Uma viso do enorme e imprevisvel rinoceronte, com dois chifres, o da frente 
comprido e grosso, e duas camadas de plo avermelhado, uma camada inferior de l macia e felpuda, e uma externa de comprido plo protetor, sempre trazia exclamaes 
de assombro.
     Nada, contudo, criava excitao maior entre os Mamutoi do que a viso de mamutes. Quando a poca de eles passarem se aproximava, algum do Acampamento do Leo 
estava sempre de vigia. Exceto de alguma distncia, Ayla no havia visto um mamute desde que vivia com o Cl, e estava mais excitada que todos quando Danug se acercou 
correndo encosta abaixo, uma tarde, gritando:
     - Mamutes! Mamutes!
     Ela estava entre os primeiros a sair correndo da habitao para v-los. Talut, que muitas vezes carregava Rydag empoleirado aos ombros, estivera nas estepes 
com Danug, e ela viu Nezzie com o menino sobre seu quadril, arrastando-se atrs. Ela comeou a recuar para ajudar, ento viu Jondalar tirar o garoto da mulher e 
coloc-lo sobre seus ombros. Recebeu sorrisos gentis de ambos. Ayla sorriu tambm, embora ele no a visse. A expresso continuava no rosto dela quando se virou para 
Ranec, que havia corrido para alcan-la. Seu sorriso terno, bonito, provocou nele um sentimento intenso de afeto e um desejo forte de que ela j fosse dele. Ela 
no conseguiu deixar de responder ao amor nos olhos escuros, brilhantes, e no sorriso atraente; O sorriso de Ayla permaneceu para ele.
     Nas estepes, o Acampamento do Leo observou com assombro silencioso os animais grandes, de plo emaranhado. Eram os maiores animais em sua terra - na verdade, 
seriam em qualquer regio. A manada, com vrios filhotes entre eles, passava perto, e a velha matriarca observou as pessoas com desconfiana. Tinha cerca de 3 metros 
de altura nos ombros, e uma cabea alta, arredondada e uma corcova na cernelha, usada para estocar gordura adicional para o inverno. Um dorso curto que descia abruptamente 
para a bacia completava o caracterstico e imediatamente reconhecido perfil. Seu crnio era grande em comparao ao tamanho, mais da metade do comprimento do tronco
relativamente curto, de cuja extremidade projetavam-se dois apndices da largura de dedos, mveis, sensveis, um superior e um inferior. O rabo era curto tambm
e as orelhas pequenas para conservar o calor.
     Os mamutes condiziam eminentemente com sua regio frgida. Sua pele era muito espessa, isolada por trs ou mais polegadas de gordura subcutnea, e revestida
com um manto inferior macio e compacto, com cerca de uma polegada. O plo exterior comprido, grosso, com cerca de vinte polegadas de comprimento, era marrom-avermelhado 
escuro, e pendia em camadas ordenadas sobre a espessa l penugenta de inverno, como protetor contra o vento e revestimento quente contra a umidade. Com molares eficientes, 
tipo raspadeiras, consumiam uma alimentao de inverno de capim seco, galhos e cascas de vidoeiros, salgueiros e lanos com tanta facilidade quanto a alimentao 
de vero que constava de capim verde, junas e ervas. As imensas presas dos mamutes, mais impressionantes que tudo, provocavam assombro e terror. Projetando-se juntas 
da mandbula inferior, primeiramente apontavam diretamente para baixo, depois se curvavam fortemente para fora, para cima e, afinal, para dentro. Nos machos velhos, 
uma presa podia atingir 4,80 metros de comprimento, mas ento, cruzavam-se na frente. Nos animais novos, as presas eram armas eficazes e ferramentas embutidas para 
desarraigar rvores e limpar a neve do pasto e alimentar-se, mas, quando as duas pontas se curvavam para cima e se sobrepunham, atrapalhavam e prejudicavam mais 
do que ajudavam.
     A viso dos enormes animais trouxe um fluxo de lembranas a Ayla, da primeira vez em que vira um mamute. Recordou ter desejado, ento, poder ca-los com os 
homens do Cl, e lembrou-se de que Talut a havia convidado para ir  primeira caada de mamutes com os Mamutoi. Ela gostava de caar, e a idia de que, talvez, se 
juntasse realmente aos caadores desta vez lhe deu um formigamento de antecipao. Comeou a ansiar realmente pela Reunio de Vero.
     A primeira caada da temporada tinha importante significado simblico. Embora os mamutes penugentos fossem majestosos e macios, o sentimento dos Mamutoi por 
eles ia muito alm da admirao por seu tamanho. Dependiam do animal para muito mais que alimento e, em sua necessidade e desejo de assegurara continuao das grandes 
bestas, conceberam um relacionamento especial com eles. Reverenciavam-nos, porque baseavam sua prpria identidade neles.
     Os mamutes no tinham verdadeiros inimigos naturais; nenhum carnvoro dependia deles regularmente para sua subsistncia. Os grandes lees de caverna, duas vezes 
o tamanho de qualquer felino grande, que normalmente caavam os animais de pastagem maiores - auroques, bises, veados gigantes, alces, alces americanos ou cavalos 
- e podiam matar um adulto, s vezes derrubavam um mamute novo, doente ou muito velho, mas nenhum predador quadrpede, sozinho ou em grupo, podia matar um mamute 
adulto em seu apogeu. Somente os Mamutoi, os filhos homens da Grande Me Terra, receberam o poder para caar a maior de Suas criaturas. Eles eram os escolhidos. 
Entre todas as Suas criaes, eles eram superiores. Eram os Caadores de Mamutes.
     Depois que a manada de mamutes passou, as pessoas do Acampamento do Leo a seguiram ansiosamente. No para caar, isso aconteceria mais tarde. Estavam atrs 
de sua l macia, felpuda das camadas inferiores de inverno, que se soltava atravs dos plos protetores externos mais grosseiros, em grandes punhados. A l naturalmente 
colorida, vermelho-escura, que era apanhada no solo e em moitas espinhosas que a pegavam e conservavam, era considerada uma ddiva especial do Esprito do Mamute.
     De acordo com a oportunidade, a l branca do carneiro selvagem que era libertada naturalmente na primavera, a l incrivelmente macia, marrom, felpuda do boi 
almiscarado e a l de camada interna, vermelha mais clara, do rinoceronte, tambm eram reunidas com grande entusiasmo. Em suas mentes, agradeciam e ofereciam estima 
 Grande Me Terra que dava aos Seus filhos tudo do que precisavam, abundantemente: produtos vegetais e animais e materiais como slex e argila. Eles s tinham que 
saber onde e quando procurar.
     Embora as verduras frescas - carboidratos - fossem acrescentadas entusiasticamente  sua alimentao, por toda a rica variedade disponvel, os Mamutoi caavam 
pouco na primavera e incio de vero, a menos que os estoques de carne fossem poucos. Os animais estavam magros demais. O inverno, demorado e rigoroso, os privara 
das fontes concentradas exigidas de energia, na forma de gordura. Suas perambulaes eram movidas pela necessidade de reabastecimento. Alguns bises machos eram 
apanhados, se o plo de sua nuca ainda fosse preto, indicando que ainda existia alguma gordura, e fmeas grvidas de vrias espcies, pela pele e carne tenra do 
feto que servia para a fabricao de roupas macias de beb ou roupas de baixo. A principal exceo era a rena.
     Grandes rebanhos de renas migravam para o norte, as fmeas com galhadas, com o filhote do ano anterior  frente, seguindo trilhas conhecidas para seus tradicionais 
terrenos de dar cria, seguidas pelos machos. Como acontece com outros animais em rebanho, suas fileiras eram reduzidas por lobos que se colocavam ao longo de seus 
flancos procurando o animal mais fraco e mais velho, e por vrias espcies de felinos: grandes linces, leopardos de corpos longos, e um ocasional leo de caverna 
macio. Os grandes carnvoros brincavam de anfitries com suas sobras, para uma enorme variedade de carnvoros secundrios e necrfagos, tanto quadrpedes quanto 
aves: raposas, hienas, ursos marrons, almiscareiros, pequenos gatos das estepes, carcajus, doninhas, corvos, milhafres, gavies, e muitos mais.
     Os caadores bpedes atacavam todos eles. O plo e penas de seus competidores de caa no eram desdenhados, embora as renas fossem a principal caa do Acampamento 
do Leo - no pela carne, apesar de no ser desperdiada. A lngua era considerada uma iguaria e grande parte da carne era seca para uso como alimento de viagem, 
mas eram as peles que eles queriam. Comumente de cor castanho-acinzentada, mas indo desde o branco leite at quase preto, com um tom marrom-avermelhado nos animais 
novos, o plo da maior parte das renas do norte era no s leve quanto quente. Porque seu plo era naturalmente isolado, no se podia encontrar melhor agasalho do 
que aquele feito com couro de rena, e era sem igual para roupa de cama e tapetes. Com rodeios e armadilhas, o Acampamento do Leo as caava todos os anos, para reabastecer 
seus suprimentos e para presentes que levavam consigo quando partiam em suas migraes de vero.
     Enquanto o Acampamento do Leo se preparava para a Reunio de Vero, a excitao era grande. Ao menos uma vez por dia, algum dizia a Ayla o quanto ela gostaria 
de conhecer algum parente ou amigo, ou quanto eles quereriam conhec-la. Rydag era o nico a quem parecia faltar entusiasmo para a reunio dos Acampamentos. Ayla 
nunca vira o menino to tristonho, e preocupou-se com sua sade.
     Ela o observou cuidadosamente durante vrios dias, e em uma tarde incomumente quente, quando ela saiu para ver vrias pessoas estenderem peles de renas, sentou-se 
ao lado dele.
     - Fiz remdio novo para voc, Rydag, para levar  Reunio de Vero - disse Ayla. -  mais fresco e talvez seja mais forte. Ter que me dizer se sentir alguma 
diferena para melhor ou pior - acrescentou ela, usando sinais manuais e palavras, como costumava fazer com ele. - Como se sente agora? Houve alguma mudana ultimamente?
     Rydag gostava quando Ayla conversava com ele. Embora fosse profundamente grato por sua nova capacidade de se comunicar com seu acampamento, a sua compreenso 
e uso da linguagem de sinais era simples e essencialmente direta com Ayla. Ele havia compreendido a linguagem verbal das pessoas desde muitos anos, porm, quando 
lhe falavam, tendiam a simplific-la para combinar com os sinais que usavam. Os sinais de Ayla estavam mais prximos em nuana e sentimento  fala verbal, e realavam 
as palavras.
     - No, sinto o mesmo - falou o garoto por sinais.
     - No est cansado?
     - No... Sim. Sempre um pouco cansado - sorriu. - No muito.
     Ayla sacudiu a cabea, concordando, examinando-o cuidadosamente, verificando algum sintoma visvel, tentando assegurar-se de que no havia mudana no estado 
dele, ao menos para o pior. Ela no viu qualquer sinal de deteriorao fsica, mas ele parecia abatido.
     - Rydag, alguma coisa o incomoda? Est infeliz?
     Ele encolheu os ombros e desviou o olhar. Depois voltou os olhos para ela.
     - No quero ir - disse, por sinais.
     - Aonde no quer ir? No entendo.
     - No quero ir  Reunio - disse ele, desviando o olhar outra vez.
     Ayla franziu a testa, mas no pressionou. Rydag no parecia querer falar a respeito, e entrou logo na habitao. Ela o seguiu atravs do vestbulo, tentando 
no parecer conspcua, e da rea de cozinhar viu-o deitar-se em sua cama. Estava preocupada com ele. Raramente se deitava durante o dia por sua livre vontade. Ela 
viu Nezzie entrar e parar para prender a cortina da frente. Ayla correu at ela, a fim de ajudar.
     - Nezzie, sabe o que h de errado com Rydag? Ele parece to... Infeliz - disse Ayla.
     - Eu sei. Ele fica assim nesta poca do ano.  a Reunio de Vero. No gosta dela.
     - Foi o que ele disse. Por qu?
     Nezzie fez uma pausa e olhou diretamente para Ayla.
     - Voc no sabe, realmente, no ? - A jovem sacudiu a cabea. Nezzie deu de ombros: - No se preocupe, Ayla. No h nada que possa fazer.
     Ayla atravessou a habitao pelo corredor e olhou para o garoto. Os olhos estavam fechados, mas ela sabia que ele no dormia. Ela sacudiu a cabea, desejando 
poder ajudar. Adivinhava que se tratava de algo relativo  diferena de Rydag, mas ele estivera na Reunio antes.
     Atravessou rapidamente a vazia Fogueira da Raposa e entrou na Fogueira do Mamute. De repente, Lobo irrompeu pela entrada da frente e estava nos calcanhares 
dela, saltando com alegria. Ela o fez parar com um gesto. Ele obedeceu, mas pareceu to magoado que ela compadeceu-se e lhe atirou o pedao bem mastigado de couro 
macio que um dia havia sido um de seus favoritos sapatos meias. Afinal, ela o dera a Lobo quando pareceu ser a nica maneira de faz-lo parar de roer as botas e 
sapatos das outras pessoas. Ele se cansou depressa do brinquedo velho e, agachando-se sobre as patas dianteiras, agitou o rabo e ganiu para ela. Ayla no conteve 
um sorriso, e resolveu que era um dia bonito demais para ficar dentro de casa. Em um impulso, pegou a funda e uma bolsa de pedras redondas que reunira, e fez sinal 
a Lobo para segui-la. Vendo Whinney no anexo, resolveu incluir a gua tambm.
     Ayla saiu pela entrada em arco do anexo, seguida pela gua cor de feno, e pelo lobinho cinzento, cujo plo e marcas eram tpicos de sua espcie, ao contrrio 
de sua me preta. Ela viu Racer na metade da descida em direo ao rio. Jondalar estava com ele, sem camisa sob o sol quente, e puxava o jovem garanho por uma corda. 
Como havia prometido, ele treinava Racer passando a maior parte do tempo nisso e, na verdade, tanto ele quanto o animal pareciam gostar do que faziam.
     Ele a viu e acenou-lhe para que esperasse, enquanto comeava a subir em direo  jovem. Era raro ele aproximar-se de Ayla, ou indicar que desejava lhe falar. 
Jondalar havia mudado desde o incidente nas estepes. No mais a evitava, exatamente, mas poucas vezes fazia um esforo para falar com ela, e quando o fazia era como 
estranho, reservado e polido. Ela esperara que o jovem garanho aproximasse Jondalar dela, porm, ele parecia at mais distante.
     Ela esperou, observando o homem alto, musculoso, atraente se acercar e, incontrolvel, o pensamento de sua afetuosa resposta  necessidade dele nas estepes, 
surgiu em sua mente. Em um instante, ela sentiu que o desejava. Era uma reao de seu corpo, alm do seu controle, mas quando Jondalar se aproximou, ela notou o 
rubor em seu rosto e os belos olhos azuis se encherem daquela expresso especial. Ela viu o volume de seu membro, embora no tivesse inteno de olhar para o local, 
e se encontrou corando.
     - Desculpe-me, Ayla. No quero incomod-la, mas senti que deveria lhe mostrar este novo freio que fiz para Racer. Talvez queira usar um em Whinney -disse Jondalar, 
mantendo a voz normal e desejando poder controlar o resto de si mesmo.
     - No me incomoda - disse Ayla, embora ele a perturbasse. Ela olhou para o dispositivo feito de tiras finas de couro, tranado, e presas com alas uma na outra.
     A gua ficara no cio no incio da estao. Pouco depois de Ayla notar a condio de Whinney, ouviu o relincho distinto de um garanho nas estepes. Apesar de 
Ayla ter encontrado a gua depois de ela ter ido viver com um garanho e uma cavalhada antes, no podia pensar em ceder Whinney a um cavalo. Talvez no tivesse sua 
amiga de volta desta vez. Ayla havia usado um tipo de cabresto e uma corda ao redor do pescoo para conter a gua - e o jovem garanho que havia demonstrado grande 
interesse e excitao - e os manteve dentro do anexo quando no podia estar com eles. Desde ento, continuou a usar o cabresto ocasionalmente, embora preferisse 
dar a Whinney a liberdade de ir e vir quando quisesse.
     - Como funciona? - perguntou Ayla.
     Ele demonstrou em Whinney, com um extra que tinha feito para ela. Ayla fez vrias perguntas em um tom aparentemente calmo, porm, mal prestava ateno. Estava 
muito mais consciente do calor de Jondalar quando ele se encontrava ao lado dela, e tambm de seu leve odor agradavelmente masculino. Ela parecia incapaz de deixar 
de encar-lo, de fixar suas mos, o movimento dos msculos sobre seu peito, e o volume de sua virilidade. Ela esperava que suas perguntas levassem a mais conversa, 
mas assim que ele acabou de explicar o mecanismo, afastou-se abruptamente. Ayla o viu suspender a camisa, montar Racer e, guiando-o com movimentos das rdeas novas, 
subir a encosta. Ela considerou, por um instante, em ir atrs dele montada em Whinney, depois mudou de idia. Se ele estava to ansioso para se afastar, significava 
que no a queria por perto.
     Ayla fitou Jondalar at ele ficar fora do alcance de sua vista. Lobo, ganindo ansiosamente para ela, afinal chamou sua ateno. Ela passou a funda ao redor 
da cabea, e verificou as pedras na bolsa. Depois, pegou o filhote de lobo e colocou-o sobre a cernelha de Whinney. Em seguida, montou e comeou a subir a encosta 
em uma direo diferente da que Jondalar havia seguido. Ela planejara caar com Lobo e talvez o fizesse. Lobo havia comeado a espreitar e tentar pegar ratos e caa 
pequena por conta prpria, e ela descobrira que ele era muito bom em levantar a caa para sua funda. Embora fosse acidental no incio, o lobo era rpido no aprendizado 
e j se tornava treinado em levantar a caa sob as ordens de Ayla.
     Ayla estava certa em um ponto. Jondalar partiu com tanta pressa no porque no queria ficar perto dela naquele momento, mas somente porque desejava ficar ao 
lado dela o tempo todo. Precisava fugir de suas prprias reaes diante da proximidade de Ayla. Ela estava prometida a Ranec, agora, e ele havia perdido qualquer 
direito que pudesse ter sobre ela. Ultimamente, ele comeara a cavalgar quando queria fugir de uma situao difcil, ou de um esforo para combater emoes conflitantes, 
ou apenas para pensar. Comeou a compreender por que Ayla havia tantas vezes se afastado, montando Whinney, quando alguma coisa a perturbara. Cavalgar atravs dos 
pastos abertos, uma perna de cada lado do garanho jovem, sentindo o vento no rosto, tinha um efeito tanto calmante quanto estimulante.
     Uma vez no alto das estepes, comandou Racer para um galope e inclinou-se para mais perto do pescoo forte que se estendia para frente. Tinha sido surpreendentemente 
fcil acostumar o cavalo a aceitar um cavaleiro, mas de muitas maneiras Ayla e Jondalar o tinham feito se habituar a isso por algum tempo. Era mais difcil resolver 
como fazer Racer compreender e querer ir aonde seu cavaleiro queria.
     Jondalar entendeu que o controle de Ayla sobre Whinney tinha funcionado to naturalmente que suas ordens eram ainda bastante inconscientes, mas ele comeou 
com a idia de treinar o cavalo. Suas indicaes eram muito mais determinadas, e enquanto treinava o cavalo, ensinava a si mesmo tambm. Aprendeu como se sentar 
sobre o animal, como trabalhar com os msculos fortes do garanho, no apenas saltar em seu dorso, e descobriu que a sensibilidade do animal  presso das coxas 
e mudanas de posio do corpo fazia com que se tornasse mais fcil dirigi-lo.
      medida que ganhou mais confiana e se tornou mais confortvel, cavalgava mais, o que era exatamente o tipo de treinamento necessrio, porm, quanto mais se 
ligava a Racer, maior afeio sentia por ele tambm. Gostara do cavalo desde o incio, mas ele ainda era de Ayla. Repetia a si mesmo que treinava Racer para ela, 
mas odiava pensar em abandonar o jovem garanho.
     Jondalar tinha planejado partir imediatamente depois do Festival de Primavera, no entanto, ainda continuava ali e no tinha certeza do motivo. Pensou em razes 
- ainda era muito cedo na estao imprevisvel, ele prometera a Ayla treinar Racer -, mas sabia que eram apenas desculpas. Talut pensava que ele permanecia para 
ir  Reunio de Vero com eles, e Jondalar no tentava corrigir essa impresso, apesar de dizer a si mesmo, repetidas vezes, que partiria antes que eles viajassem. 
Todas as noites, quando ia para a cama, e principalmente se Ayla ia para a Fogueira da Raposa, dizia a si mesmo que iria embora no dia seguinte, e adiava a partida 
todos os dias. Lutava consigo mesmo, mas quando pensava seriamente em arrumar sua bagagem e partir, lembrava-se de Ayla jazendo fria e imvel no solo, na Fogueira 
do Mamute, e no podia ir embora.
     Mamut havia-lhe falado no dia seguinte ao Festival, e lhe disse que a raiz havia sido forte demais para ele controlar. Era perigosa demais, falou o feiticeiro, 
ele jamais tornaria a us-la. Aconselhara Ayla a tambm no us-la, e preveniu-a de que precisaria de forte proteo se o fizesse. Sem diz-lo, na verdade, o velho 
insinuou que Jondalar, de alguma forma alcanara Ayla e era responsvel por traz-la de volta.
     As palavras do feiticeiro perturbaram Jondalar, mas tambm tirou delas uma estranha forma de consolo. Quando o homem da Fogueira do Mamute temera pela segurana 
de Ayla, por que lhe pedira para ficar? E por que Mamut dizia que fora ele quem a trouxera de volta? Ela estava prometida a Ranec e no havia dvida do sentimento 
do escultor por ela. Se Ranec estava ali, por que Mamut o queria? Por que Ranec no a trouxe de volta? O que o velho sabia? O que quer que fosse, Jondalar no podia 
suportar o pensamento de no estar ali se ela precisasse dele novamente, ou de deix-la enfrentar um perigo terrvel sem ele, porm, tampouco suportava o pensamento 
de Ayla viver com outro homem. Ele era incapaz de resolver se ia ou ficava.
     - Lobo, largue isso! - gritou Rugie, zangada e aborrecida. Ela e Rydag brincavam na Fogueira do Mamute, aonde Nezzie os mandara ir de modo que pudesse arrumar 
a bagagem. - Ayla! Lobo no quer largar minha boneca!
     Ayla estava sentada no meio de sua cama, cercada por pilhas ordenadas de suas coisas.
     - Lobo, solte! - ordenou. - Venha c! - fez um gesto.
     Lobo largou a boneca feita de tiras de couro e se dirigiu a Ayla com o rabo entre as pernas.
     - Aqui! - falou ela, batendo no local da cabeceira de sua cama onde ele dormia, em geral. O filhote saltou para a cama. - Agora, deite e no aborrea mais Rugie 
e Rydag. - Ele se deitou com a cabea sobre as patas, fixando-a com olhos tristonhos, arrependidos.
     Ayla voltou a remexer em suas coisas, mas logo parou e observou as duas crianas brincando no cho da Fogueira do Mamute, no querendo fit-las, mas intrigada. 
Elas brincavam de fogueiras, fingindo que dividiam uma fogueira como os homens e mulheres faziam. Seu filho era a boneca de couro, moldada em forma humana com 
uma cabea redonda, corpo, braos e pernas, enrolada em uma macia manta de pele. A boneca  que fascinava Ayla. Ela jamais tivera uma boneca; a gente do Cl no 
fazia imagens de qualquer tipo, desenhadas, esculpidas ou moldadas de couro, porm, a boneca a fez recordar um coelho ferido que uma vez levou para a caverna para 
Iza tratar. Ela havia aninhado e balanado o coelho da mesma maneira que Rugie segurava e brincava com a boneca.
     Ayla sabia que, geralmente, era Rugie quem iniciava as brincadeiras. s vezes brincavam que estavam unidos, outras eram lderes, um irmo e uma irm encarregados 
de seu prprio acampamento. Ayla observou a menininha loura e o menino de cabelos castanhos, consciente, de repente, das feies do Cl de Rydag. Rugie o considera 
seu irmo, pensou Ayla, mas duvidava de que seriam, algum dia, co-lderes de um acampamento.
     Rugie entregou a boneca a Rydag, depois se levantou e se afastou em alguma misso imaginria. Rydag a viu ir embora, depois colocou a boneca ao cho e ergueu 
a cabea para Ayla e sorriu, O menino no se interessava muito pelo beb imaginrio depois que Rugie no voltou em curto tempo. Ele preferia bebs reais, embora 
no se importasse de brincar com Rugie quando ela estava presente. Depois de algum tempo, Rydag se levantou e saiu tambm. Rugie havia esquecido a brincadeira e 
a boneca por certo tempo, e Rydag foi procur-la, ou encontrar outra coisa para fazer.
     Ayla voltou a escolher o que levaria para a Reunio de Vero. No ano anterior, parecia, ela havia vasculhado suas coisas demasiadas vezes, tomando decises 
sobre o que levar e o que deixar. Desta vez, preparava-se para viajar, e levaria somente o que pudesse carregar. Tulie j lhe falara sobre a utilizao dos cavalos 
e do travois para carregar presentes; aumentaria tanto o seu status quanto o do Acampamento do Leo. Ela pegou a pele que tingira de vermelho e sacudiu-a, tentando 
resolver se precisaria dela ou no. Jamais fora capaz de decidir o que fazer com a pele vermelha. No sabia o que faria com ela agora, mas vermelho era uma cor sagrada 
para o Cl, e alm disso ela gostava. Dobrou-a e colocou-a junto das outras poucas coisas que queria levar alm do que era essencial: o cavalo esculpido que ela 
amava tanto, que Ranec lhe dera em sua adoo, e a nova muta; a bela ponta de slex de Wymez; alguns adornos, contas e colares; seu traje que fora presente de Deegie, 
a tnica branca que ela fizera e a capa de Durc.
     Sua mente vagou enquanto remexia mais alguns itens, e encontrou-se pensando em Rydag. Teria ele realmente uma companheira, um dia, como Dure? Ela achava que 
no haveria nenhuma menina como ele na Reunio de Vero. Ela no estava certa de que ele atingiria a idade adulta sequer, refletiu. Sentia-se grata por seu filho 
ter sido forte e sadio, e porque teria uma companheira. O cl de Broud, agora, estaria se preparando para ir  Reunio de Cls, se j no houvessem partido. Ura 
esperava voltar com eles para se unir finalmente a Durc e, com certeza, odiando a idia de deixar seu prprio cl. Pobre Ura, seria difcil para ela deixar as pessoas 
que conhecia, para ir viver num lugar estranho, com um cl estranho. Um pensamento atravessou a mente de Ayla pela primeira vez. Ser que ela gostaria de Durc? Ele 
gostaria dela? Esperava que sim, porque no era provvel que tivessem outra chance.
     Pensando em seu filho, Ayla estendeu a mo para uma bolsinha que trouxera do vale, abriu-a e retirou o contedo. Seu corao falhou quando viu a escultura de 
marfim. Ela apegou. Era de uma mulher, mas no igual a qualquer das esculturas femininas que j vira, e compreendia, agora, como era incomum. A maioria das muta, 
exceto a mulher-ave simblica de Ranec, eram formas cheias, redondas, maternais, com somente uma salincia de corada como cabea. Todas se destinavam a simbolizar 
a Me, mas aquela era uma escultura de uma mulher magra, com o cabelo em muitas pequenas tranas, da maneira como costumava usar o seu. Mais surpreendente, tinha 
um rosto cuidadosamente esculpido, com queixo e nariz fino, e uma sugesto de olhos.
     Ela segurou a escultura na mo, e a pea se toldou diante de seus olhos quando todas as lembranas voltaram. Sem saber, as lgrimas rolavam por seu rosto. Jondalar 
a havia esculpido no vale. Quando a fez, disse que queria aprisionar seu esprito de forma que nunca se separassem. Por isto fez a escultura parecida com ela, embora 
ningum devesse fazer uma imagem  semelhana de uma pessoa real, por medo de capturar o esprito. Ele disse que queria que ela ficasse com a escultura, assim, ningum 
poderia us-la para propsitos perversos contra ela. Compreendeu que era a sua primeira muta. Jondalar deu-lhe depois de seus Primeiros Ritos, quando ele a havia 
tornado uma verdadeira mulher.
     Ela jamais esqueceria aquele vero em seu vale, apenas os dois, juntos Mas Jondalar ia embora sem ela. Ayla apertou a escultura de marfim contra o peito e desejou 
ir com ele. Lobo gania para ela, em solidariedade, avanando muito lentamente porque sabia que devia ficar onde estava. Ela estendeu a mo para ele e escondeu o 
rosto no plo do animal, enquanto ele tentava lamber suas lgrimas salgadas.
     Ela ouviu algum descendo o corredor e se sentou ereta, rapidamente, enxugou o rosto e lutou para se controlar. Virou-se como se procurasse alguma coisa atrs 
de si, quando Barzec e Druwez passaram, envolvidos em sua conversao. Depois, guardou a escultura na bolsinha novamente e, com cuidado, colocou-a sobre o couro 
vermelho vivo que ela havia tingido para lev-la consigo. No podia, jamais, abandonar sua primeira muta
     Mais tarde, naquela noite, quando o Acampamento do Leo se preparava para dividir uma refeio, Lobo rosnou de forma ameaadora e correu para a entrada da frente. 
Ayla ficou de p em um salto e correu atrs dele, perguntando-se o que podia estar errado. Vrios outros a seguiram. Quando abriu a cortina, ficou surpresa ao ver 
um desconhecido, um estranho muito assustado, retrocedendo enquanto um lobo quase adulto parecia pronto para atacar.
     - Lobo, venha c! - ordenou Ayla. O filhote recuou com relutncia, mas ainda encarava o homem desconhecido com os dentes  mostra e uma rosnadela baixa na garganta.
     - Ludeg! - exclamou Talut, dando um passo  frente, com um largo sorriso e um grande abrao de urso. - Entre. Entre. Est frio.
     - Eu... Ah... No sei - disse o homem, olhando de soslaio para o filhote. - H mais a dentro iguais a este?
     - No, no - respondeu Ayla. - Lobo no ferir voc. Eu no deixarei.
     Ludeg olhou para Talut, sem saber se acreditava na mulher estranha.
     - Por que tem um lobo em sua moradia?
     -  uma longa histria, que ser melhor contada ao lado de um fogo Venha, Ludeg. O filhote de lobo no machucar voc. Prometo - disse Talut, lanando um olhar 
significativo a Ayla, enquanto conduzia o rapaz atravs da arcada.
     Ayla sabia exatamente o que o olhar significava. Era melhor Lobo no ferir aquele desconhecido. Ela os acompanhou, fazendo sinal ao filhote para ficar ao seu 
lado, mas no sabia como lhe dizer para parar de rosnar. Era uma situao nova. Ela sabia que os lobos, embora muito afetivos e ligados aos seus bandos, tinham fama 
de atacar e matar desconhecidos que invadiam o seu territrio. O comportamento de Lobo era perfeitamente compreensvel, mas isso no o tornava aceitvel. Ele teria 
que se habituar com estranhos, quer gostasse ou no.
     Nezzie cumprimentou o filho de sua prima com afeio, pegou sua mochila e parka, e entregou-as a Danug para que as levasse para um estrado-cama vazio na Fogueira 
do Mamute; depois encheu um prato e encontrou um lugar para ele se sentar. Ludeg continuou lanando olhares cautelosos a Lobo, cheio de apreenso e nervosismo e, 
sempre que Lobo via o seu olhar, a rosnadela ameaadora em sua garganta se tornava mais forte. Quando Ayla o afagou, ele abaixou as orelhas e se deitou, mas no instante 
seguinte voltou a rosnar para o estranho. Ela pensou em conter Lobo com uma corda ao redor do seu pescoo, mas no imaginou que solucionaria alguma coisa. Somente 
deixaria o animal mais ansioso na defensiva, e em troca, poria o homem mais nervoso.
     Rydag hesitava, tmido diante do visitante, embora j o conhecesse, mas percebeu rapidamente o problema. Sentiu que a preocupao tensa do homem contribua 
para o problema. Talvez, se Ludeg visse que o lobo era amistoso, relaxaria. A maioria das pessoas se amontoavam na rea de cozinhar, e quando Rydag ouviu Hartal 
acordar, teve uma idia. Foi  Fogueira da Rena e consolou o beb, depois puxou-o pela mo e dirigiu-se com ele  rea de cozinhar, mas no em direo  sua me; 
em vez disso, caminhou com Hartal para Ayla e Lobo.
     Hartal havia desenvolvido, naqueles ltimos dias, forte atrao pelo filhote brincalho e, no instante em que viu o animal cinzento e peludo, riu de alegria. 
Encantado, Hartal correu at o filhote, mas seus passos de beb eram vacilantes. Tropeou e caiu sobre o animal. Lobo uivou, mas sua nica reao foi lamber o rosto 
do beb, o que fez Hartal dar risadinhas. Ele empurrou a lngua molhada e quente para longe, colocando as mozinhas gorduchas dentro das grandes mandbulas de dentes 
aguados. Depois, agarrou punhados de plo e tentou puxar Lobo para si.
     Esquecendo seu nervosismo, Ludeg fitava, com olhos arregalados de surpresa, o beb forando o animal a mover-se, porm, mais que isso, a aceitao gentil e 
paciente do carnvoro feroz. Lobo tampouco podia manter a vigilncia defensiva sobre o estranho diante do assalto, e no estava totalmente adulto para ser capaz 
da persistncia sustentada pelos membros adultos de sua espcie. Ayla sorriu para Rydag, sabendo imediatamente que ele havia trazido Hartal exatamente com aquele 
propsito, Quando Tronie veio e pegou o filho, Ayla segurou Lobo, resolvendo que estava na hora de ele ser apresentado ao estranho.
     - Acho que Lobo se acostumar com voc mais facilmente se deixar que sinta seu cheiro - disse ela ao rapaz.
     Ayla falava a lngua perfeitamente, mas Ludeg notou uma diferena na forma como pronunciava algumas palavras. Ele a examinou atentamente pela primeira vez, 
perguntando-se quem era. Ele sabia que ela no estivera como Acampamento do Leo no ano anterior, quando partiram. Na verdade, no se lembrava de t-la visto antes, 
e estava certo de que se lembraria de uma mulher to bonita. De onde ela viera? Ele ergueu a cabea e notou um estranho alto e louro, observando-o.
     - O que tenho que fazer? - perguntou ele.
     - Acho que se deixar apenas que ele cheire sua mo, ajudar. Ele gosta de ser acariciado tambm, mas eu no tentaria apressar as coisas. Ele necessita de um 
pouco mais de tempo para conhecer voc - falou Ayla.
     De forma bastante insegura, Ludeg estendeu a mo. Ayla colocou Lobo ao cho para deix-lo cheirar o rapaz, mas ficou perto, por precauo. Ela no achou que 
Lobo atacaria, mas no tinha certeza. Um pouco depois, o homem estendeu a mo para tocar o plo espesso, protetor. Jamais havia tocado um lobo vivo antes, e era 
bastante excitante. Sorriu a Ayla, e pensou de novo como ela era bonita quando lhe retribuiu o sorriso.
     - Talut, acho melhor contar minhas novidades depressa - disse Ludeg. - Creio que o Acampamento do Leo tem histrias que eu gostaria de ouvir.
     O grande chefe sorriu. Aquele era o tipo de interesse que ele recebia bem. Em geral, corredores apareciam com novidades para contar, e eram escolhidos tanto 
porque gostavam de contar uma boa histria quanto por sua capacidade em correr velozmente.
     - Conte, ento. Que notcias, traz? - perguntou Talut.
     - A mais importante  a mudana do local de reunio para a Reunio de Vero. O Acampamento do Lobo  o anfitrio. O local de Reunio que foi escolhido no ano 
passado foi inundado. Tenho outras notcias, notcias tristes. Parei no Acampamento Sungaea por uma noite. Existe doena, doena que mata. Alguns morreram, e quando 
parti, o filho e a filha da chefe estavam doentes. Havia dvidas sobre se viveriam.
     - Oh, isso  horrvel! - exclamou Nezzie.
     - Que tipo de doena tm? - perguntou Ayla.
     - Parece ser no peito. Febre alta, muita tosse e dificuldade para respirar.
     - A que distncia fica este lugar? - perguntou Ayla.
     - No sabe?
     - Ayla era uma visitante, mas foi adotada - disse Tulie. Depois se virou para Ayla: - No  muito longe.
     - Podemos ir l, Tulie? Ou algum pode me levar l? Talvez eu possa ajudar, se essas crianas esto doentes.
     - No sei. O que acha, Talut?
     -  fora do caminho para a Reunio de Vero, se esta vai ser no Acampamento do Lobo, e nem sequer so parentes, Tulie.
     - Acho que Darnev tinha parentes distantes nesse acampamento - falou Tulie. -  uma pena um jovem irmo e irm estarem to doentes!
     - Talvez devssemos ir, mas teramos que partir assim que pudermos - falou Talut.
     Ludeg havia ouvido com grande interesse.
     - Bem, agora que lhes dei as notcias, gostaria de saber sobre o novo membro do Acampamento do Leo, Talut. Ela  uma curandeira, realmente? E de onde veio 
o lobinho? Nunca ouvi falar de ter um lobo em uma moradia.
     - E no  s isso - disse Frebec. - Ayla tem dois cavalos: uma gua e um jovem garanho.
     O visitante olhou para Frebec com incredulidade, depois se recostou e preparou-se para ouvir as histrias que o Acampamento do Leo tinha para contar.
     Na manh seguinte a uma longa noite de narrao de histrias, Ludeg teve uma demonstrao da habilidade de montar de Ayla e Jondalar, e ficou convenientemente 
impressionado. Partiu para o acampamento seguinte pronto para espalhar a notcia da nova mulher Mamutoi, juntamente com a notcia da mudana do local da Reunio 
de Vero, O Acampamento do Leo planejou partir na manh seguinte, e o resto do dia foi passado em preparativos de ltima hora.
     Ayla resolveu carregar mais remdios do que geralmente levava em sua bolsa de medicamentos, e remexia seu estoque de ervas, conversando com Mamut enquanto ele 
arrumava sua bagagem. Ela pensava muito na Reunio de Cls, e vendo o velho feiticeiro poupar suas articulaes rgidas, lembrou-se de que as pessoas idosas do Cl, 
incapazes de fazer a longa viagem, eram deixadas para trs. Como Mamut suportaria a prolongada viagem? Ficou suficientemente preocupada para sair e procurar Talut 
a fim de perguntar.
     - Eu o carrego nas costas a maior parte do caminho - respondeu Talut.
     Ela viu Nezzie ajuntando mais um fardo  pilha de coisas que seriam puxadas sobre o travois, pelos cavalos. Rydag estava sentado ao cho, perto, parecendo desconsolado. 
De repente, Ayla foi procurar Jondalar. Ela o encontrou arrumando o bornal de viagem que Tulie lhe dera.
     - Jondalar! A est voc! - exclamou ela.
     Ele levantou a cabea, sobressaltado. Ela era a ltima pessoa que esperava ver naquele momento. Ele estivera pensando nela e como lhe diria adeus. Havia resolvido 
que chegara a hora, quando todos deixassem a habitao, para ele partir tambm. Mas, em vez de ir com o Acampamento do Leo para a Reunio de Vero, ele iria em 
direo oposta e iniciaria sua longa jornada de volta ao lar.
     - Sabe como Mamut vai  Reunio de Vero? - perguntou ela.
     A pergunta apanhou-o totalmente de surpresa. No era a coisa mais importante em seu pensamento. Ele nem sequer tinha certeza do que ela falava.
     - Bem... No... - respondeu.
     - Talut tem que carreg-lo s costas. E depois, h Rydag. Tambm tem que ser carregado. Eu estava pensando, Jondalar, voc tem treinado Racer, ele est acostumado 
a um cavaleiro agora, no ?
     - E.
     - E voc pode control-lo, ele ir para onde voc quiser, no?
     - Sim, acho que sim.
     - timo! Ento, no h razo para Mamut e Rydag no montarem os cavalos para ir  Reunio. Eles no podem conduzi-los, mas voc e eu podemos. Seria bem mais 
fcil para todos, e Rydag tem estado to infeliz ultimamente, talvez isto o animasse. Lembra como ele ficou excitado na primeira vez que montou Whinney? No se importa, 
no , Jondalar? No precisamos cavalgar, todos os outros iro a p - disse ela.
     Estava to contente e excitada com a idia, que era bvio que ela no havia pensado que ele pudesse no ir com eles. Como ele poderia recusar?, Pensou. Era 
uma boa idia e o Acampamento do Leo tinha feito tanto por ele, que lhe pareceu o mnimo que podia fazer.
     - No, no me importo de andar - respondeu. Sentiu uma estranha sensao de alegria ao ver Ayla dirigir-se a Talut, como se houvesse se livrado de um grande 
peso. Apressou-se a terminar a arrumao da bagagem; depois, pegando suas coisas, foi-se juntar aos outros. Ayla supervisionava o carregamento dos dois travois. 
Estavam quase prontos para partir
     Nezzie o viu acercar-se e lhe sorriu.
     - Estou contente porque resolveu vir conosco e ajudar Ayla com os cavalos. Mamut ficar muito mais confortvel, acho, e veja Rydag! Nunca o vi to feliz por 
ir a uma Reunio de Vero antes.
     Por que ele tinha a impresso, perguntou-se Jondalar, de que Nezzie sabia que ele havia pensado em ir embora?
     - E pense que impresso causaremos ao chegar no apenas com os cavalos, mas com cavaleiros - disse Barzec.
     - Jondalar, espervamos voc. Ayla no estava certa sobre quem deve montar qual cavalo - disse Talut.
      - Acho que no faz diferena - disse Jondalar. - Whinney  um pouco mais fcil de montar. Ela no faz voc saltar tanto.
     Notou que Ranec ajudava Ayla a equilibrar os fardos. Crispou-se internamente ao v-los rindo juntos, e compreendeu quo temporria era a sua recuperao. Ele 
apenas adiara o inevitvel, mas assumira um compromisso, agora. Depois de fazer gestos misteriosos e pronunciar palavras esotricas, Mamut cravou uma muta no solo, 
na entrada da frente, a fim de proteger a habitao, e depois, com a ajuda de Ayla e Talut, montou Whinney. Ele pareceu nervoso, mas era difcil saber. Jondalar 
achou que ele montava bem.
     Contudo, Rydag no ficou nervoso, j havia montado antes. Estava apenas excitado quando o homem alto o pegou ao colo e o colocou sobre o dorso de Racer. Rydag 
nunca montara o garanho. Sorriu para Latie, que o olhava, com uma mistura de preocupao pela segurana dele, prazer por sua nova experincia e apenas uma pontinha 
de inveja. Ela havia visto Jondalar treinar o animal, tanto quanto possvel, de alguma distncia, desde que era difcil convencer outra mulher a acompanh-la apenas 
para ficar por perto e observar havia desvantagens na vida adulta. Ela concluiu que treinar um cavalo novo no era necessariamente mgica. Era preciso apenas ter 
pacincia e, naturalmente, um animal para treinar.
     Uma ltima verificao no acampamento e eles comearam a subir a encosta. A meio caminho da subida, Ayla parou. Lobo tambm, observando-a em expectativa. Ela 
olhou para trs, para a habitao onde havia encontrado um lar e aceitao entre aqueles de sua prpria raa. Ela j sentia falta de sua segurana aconchegante, 
mas a moradia estaria ali quando voltassem, pronta para abrig-los de novo durante um longo e frio inverno. O vento soprou a cortina atravs da arcada de presas 
de mamutes na entrada, e ela viu o crnio do Leo da Caverna acima dela. O Acampamento do Leo parecia solitrio, sem seus moradores. Ayla dos Mamutoi estremeceu 
com uma repentina e angustiante tristeza.
     As pastagens imponentes, fonte abundante de vida naquela terra fria, exibiam ainda outra face do ciclo renovador quando o Acampamento do Leo viajou. As flores 
amarelas e violetas-azuladas da ltima iridescncia an murchavam, porm ainda estavam coloridas e as penias floresciam. Um vasto canteiro de botes vermelho-vivos 
enchia toda a depresso entre duas colinas, provocando exclamaes de assombro e admirao dos viajantes. Mas o que predominava eram o capim-do-campo novo e a festuca 
desenvolvida e estipas, tornando as estepes ondas de prata suavemente onduladas, realadas por sombras de salvas azuis. Somente mais tarde, quando o capim novo amadurecia 
e as estipas perdiam suas plumas  que as ricas plancies mudavam de prata para ouro.
     O filhote de lobo sentiu prazer em descobrir a multido de pequenos animais que viviam e cresciam na vasta plancie. Ele corria atrs de fures-bravos e arminhos 
- de plos marrons - e recuava quando predadores destemidos defendiam seu territrio. Quando ratos, ratazanas e musaranhos de plo aveludado, acostumados a fugir 
de raposas, enfiavam-se em buracos escavados pouco abaixo da superfcie, Lobo caava gerbos, hamsters, e ourios-cacheiros de orelhas compridas e espinhosos. Ayla 
ria diante da expresso sobressaltada do filhote quando um gerbo de rabo grosso, com patas dianteiras curtas e trs unhas compridas nas patas traseiras, afastava-se 
aos saltos e entrava na toca em que hibernara durante todo o inverno. Lebres, hamsters gigantes e gerbos grandes eram suficientes para uma refeio, e saborosos 
quando esfolados e espetados sobre uma fogueira,  noite. A funda de Ayla derrubou vrios animais que Lobo perseguiu.
     Os roedores de estepe que cavavam a terra eram benficos, soltando e revirando a superfcie do solo, mas alguns mudavam a caracterstica da terra com suas escavaes 
constantes. Quando o Acampamento do Leo viajava por terra, os buracos ubiquos de esquilos eram numerosos demais para se contar, e em algumas regies, tinham que 
dar a volta ao redor de centenas de montculos cobertos de capim, de 60 centmetros a 1 metro de altura, cada um deles uma comunidade de marmotas das estepes.
     Os esquilos eram a caa preferida de milhafres negros, embora os gavies de asas longas tambm se alimentassem de outros roedores, assim como de carnia e insetos. 
As aves sagazes em geral detectavam os esquilos ingnuos enquanto voavam alto, mas o milhafre tambm podia rondar como o francelho - o falco nativo - ou voar muito 
baixo para pegar sua vtima de surpresa. Alm de gavies e falces, a guia castanho-amarelada preferia o pequeno roedor prolfico. Numa ocasio, quando Ayla viu 
Lobo em uma atitude que a fazia prestar mais ateno, notou um dos grandes predadores marrons pousar perto de seu ninho no solo, trazendo um esquilo para seus filhotes. 
Ela observou com interesse, mas nem ela, nem o lobinho, perturbaram as aves.
     Um grande nmero de outras aves se sustentava da abundncia da terra vasta. Cotovias e caminheiros estavam em toda parte, nas estepes, galos silvestres, ptrmigas 
e perdizes, cortiolas e grandes betardas, e belas garas, cinza-azuladas com cabeas negras e tufos brancos de penas atrs dos olhos. Chegavam para fazer ninhos 
na primavera, desenvolviam-se com alimentao de insetos, lagartos e cobras, e partiam no outono em grandes formaes em V, trombeteando atravs do cu.
     Talut havia partido em uma marcha que estava habituado a usar quando viajava com todo o acampamento, a fim de no forar demais os membros mais lentos do grupo. 
Mas descobriu que se moviam muito mais depressa do que o comum. Os cavalos faziam a diferena. Carregando os presentes, produtos para serem negociados, e peles para 
tendas nos travois, e as pessoas que tinham que ser ajudadas, sobre seus dorsos, tinham tornado mais leve a carga de todos. O chefe estava satisfeito com sua marcha 
rpida, especialmente, desde que se desviavam do seu caminho, mas isso tambm apresentava um problema. Ele havia planejado o trajeto que fariam, e as paradas, para 
tirar proveito de alguns locais com bebedouros conhecidos. Agora, tinha que reconsiderar  medida que avanavam.

     Haviam parado perto de um riacho, embora ainda fosse o comeo do dia. As estepes, s vezes, cediam o lugar a bosques perto de gua, e eles acamparam num grande 
campo parcialmente cercado por rvores. Depois que Ayla removeu o travois de Whinney, resolveu levar Latie para uma cavalgada. A menina gostava de ajudar a cuidar 
dos cavalos, e os animais mostravam grande afeio em troca. Quando as duas montaram, cavalgando atravs de um pequeno arvoredo, uma mistura de espruce, vidoeiro, 
carpa, lano, chegaram a uma clareira florida, um pequeno prado vioso que era um pedao verdejante das estepes, cercado de rvores. Ayla parou e cochichou ao ouvido 
da jovem que estava  sua frente, com uma perna a cada lado da gua.
     - Fique muito quieta, Latie, mas olhe ali, perto da gua.
     Latie olhou o local indicado, franziu a testa a princpio, quando no conseguiu ver nada, depois sorriu ao ver uma antlope-fmea com dois filhotes levantar 
a cabea, cautelosa, mas insegura. Depois Latie viu vrios outros antlopes. Os chifres espiralados cresciam diretamente da cabea do pequeno antlope, curvando-se 
ligeiramente na ponta, e seu grande focinho sobranceiro lhe dava um rosto comprido distinto.
     O som das aves se tornou audvel quando as duas jovens permaneceram sentadas sobre o dorso da gua, em silncio, observando: o arrulho dos pombos, o canto alegre 
de toutinegras, o grito de um pica-pau. Ayla ouviu o belo som, como o da flauta, de um papafigo dourado, e respondeu, imitando-o to exatamente que confundiu a ave 
Latie gostaria de ser capaz de assobiar assim.
     Ayla deu um sinal a Whinney fazendo-a avanar lentamente em direo  abertura semelhante a um parque, no bosque. Latie quase tremeu de excitao, quando se 
aproximaram dos antlopes, e viu outra fmea com dois filhotes. De repente, houve uma mudana no vento e todos os antlopes levantaram as cabeas, e num instante, 
se dirigiam atravs dos bosques para as estepes amplas. Uma listra cinzenta os seguiu e Ayla percebeu quem os fizera fugir.
     Quando Lobo voltou, ofegante, e caiu ao cho, Whinney pastava tranqila, e as duas jovens estavam sentadas no prado ensolarado, colhendo morangos silvestres. 
Um punhado de flores coloridas se encontrava no solo ao lado de Ayla, flores de um vermelho-vivo com compridas ptalas finas que pareciam ter sido mergulhadas num 
corante vermelho brilhante, e maos de grandes captulos amarelos-dourados, misturados a brancos crstios felpudos.
     - Eu gostaria que houvesse bastante para levar alguns - disse Ayla, pondo outro morango pequeno, mas excepcionalmente doce e saboroso, na boca.
     - Teria que haver muito mais. Eu gostaria que houvesse mais, para mim - disse Latie com largo sorriso. - Alm disso, quero pensar que este  um lugar especial 
somente para ns, Ayla. - Colocou um morango na boca e fechou os olhos, saboreando. Sua expresso ficou pensativa: - Aqueles filhotes de antlopes eram realmente 
novos, no? Nunca estive to perto de filhotes assim.
     -  por causa de Whinney que podemos nos aproximar tanto. Os antlopes no temem cavalos. Mas Lobo - disse Ayla, olhando para o animal. Ele ergueu os olhos 
ao ouvir o seu nome. - Foi ele quem assustou os antlopes.
     - Ayla, posso perguntar uma coisa?
     - Claro, sempre pode perguntar o que quiser.
     - Acha que eu poderia encontrar um cavalo algum dia? Quero dizer, um potro que eu pudesse cuidar como voc fez com Whinney, de modo que ele se acostumasse comigo.
     - No sei. Eu no pretendia encontrar Whinney. Aconteceu, apenas. Seria difcil encontrar um potro. Todas as mes protegem seus filhos.
     - Se voc quisesse conseguir outro cavalinho, como faria?
     - Nunca pensei nisso... Acho que se quisesse um potro... Deixe-me pensar... Teria que pegar sua me. Lembra-se da caada de bises no ltimo outono? Se voc 
estivesse caando cavalos e levasse uma cavalhada para um cercado como aquele, no teria que matar todos eles. Poderia ficar com um ou dois. Talvez pudesse at separar 
um potro do resto, e depois libertar os outros, se no precisasse deles. - Ayla sorriu. - Agora, acho mais difcil caar cavalos.
     Quando voltaram, a maior parte das pessoas estava sentada ao redor de uma grande fogueira, comendo. As duas jovens se serviram e sentaram-se.
     - Vimos alguns antlopes - disse Latie. - At filhotes.
     - Acho que viram alguns morangos tambm - disse Nezzie seca mente, vendo as mos manchadas de vermelho da filha. Latie corou, lembrando-se de que quisera ficar 
com os morangos s para si.
     - No havia suficiente para trazer - disse Ayla.
     - No teria feito diferena. Conheo Latie e morangos. Ela  capaz de comer um campo inteiro, sem dividir com ningum, se tiver uma chance.
     Ayla notou o embarao de Latie e mudou de assunto.
     - Tambm colhi um pouco de unha-de-cavalo para a tosse, para o acampamento doente, e uma planta de flores vermelha... No sei o nome... Cuja raiz  muito boa 
para tosses e para expectorar o catarro do peito - disse ela.
     - Eu no sabia que colhia essas flores por este motivo - falou Latie.
     - Como sabe que eles esto com esse tipo de doena?
     - No sei, mas desde que vi as plantas, pensei que poderia colher algumas, especialmente j que estavam to doentes com aquele tipo de enfermidade. Quanto tempo 
levaremos para chegar l, Talut?
     -  difcil dizer - falou o chefe. - Estamos viajando mais depressa do que o usual. Devemos alcanar o Acampamento Sungaea dentro de um dia, mais ou menos. 
O mapa que Ludeg fez para mim era muito bom, mas espero no estarmos atrasados demais. A doena deles  pior do que pensei.
     Ayla franziu a testa:
     - Como sabe?
     - Encontrei sinais deixados por algum.
     - Sinais?
     - Venha comigo, vou-lhe mostrar - disse Talut, pousando sua xcara e levantando-se. Conduziu Ayla at uma pilha de ossos perto da gua. Ossos, particularmente 
ossos grandes como crnios, podiam ser encontrados por todas as plancies, mas ao se aproximarem Ayla compreendeu que no era um arranjo natural. Algum os havia 
empilhado propositadamente. Um crnio de mamute com presas quebradas havia sido colocado no alto do monte, de cabea para baixo.
     - Isto  sinal de ms notcias - disse Talut, apontando para o crnio.
     - Muito ms. V esta mandbula inferior com os dois ossos da espinha inclinados contra ele? A ponta da mandbula mostra que direo tomar, e o acampamento fica 
a dois dias de distncia.
     - Devem precisar de ajuda, Talut  por isso que colocam este sinal aqui?
     Talut apontou para um pedao de casca de vidoeiro queimada, pendendo da extremidade quebrada da presa esquerda.
     - V isto? - perguntou.
     - Sim. Est queimada, como se estivesse num fogo.
     - Significa doena, doena que mata. Algum morreu. As pessoas tm medo desse tipo de doena, e este  um lugar onde as pessoas param, muitas vezes. Esse sinal 
no foi posto aqui para pedir ajuda, mas para prevenir as pessoas e afast-las.
     - Oh, Talut! Eu preciso ir. Vocs no precisam, mas eu sim. Posso ir agora, cavalgando Whinney.
     - E o que dir a eles quando chegar l? - disse Talut. - No, Ayla. No deixaro que voc ajude. Ningum a conhece. No so sequer Mamutoi, so Sungaea. Falamos 
sobre isso. Sabamos que voc quereria ir. Tomamos este caminho e iremos com voc. Acho que podemos chegar l em um ou dois dias, por causa dos cavalos.
     O sol deslizava pela borda da terra quando o grupo de viajantes do Acampamento do Leo se acercou de um grande acampamento situado sobre um terrao natural 
amplo, a cerca de 9 metros acima de um rio grande, rpido. Pararam quando foram vistos por algumas pessoas que os fitaram, assombradas, antes de correrem para o 
interior de um dos abrigos. Um homem e uma mulher apareceram. Tinham os rostos vermelhos com uma pomada de ocre, e seu cabelo era coberto de cinzas.
      tarde demais, pensou Talut, quando ele e Tulie se acercaram do Acampamento Surigaea, seguidos por Nezzie e Ayla, que puxavam Whinney, com Mamut em seu dono. 
Era bvio que tinham interrompido alguma coisa importante. Quando os visitantes estavam a uns 3 metros de distncia, o homem com o rosto colorido de vermelho ergueu 
o brao e a mo, a palma virada para a frente Era o sinal claro para parar. Ele falou a Talut em uma linguagem diferente, no entanto, havia algo de familiar nela 
para Ayla. Ela sentiu que devia ser capaz de compreend-la.  uma semelhana com Mamutoi. Talut respondeu, em sua prpria lngua. Depois, o homem tornou a falar.
     - Por que o Acampamento do Leo dos Mamutoi vem aqui neste momento? - disse, falando Mamutoi agora. - H doena e grande tristeza neste acampamento. No viram 
os sinais?
     - Sim, vimos - replicou Talut. - Temos conosco uma filha da Fogueira do Mamute, uma perita curandeira. O corredor, Ludeg, que passou por aqui alguns dias atrs, 
nos contou sobre seus problemas. Ns nos preparvamos para viajar para nossa Reunio de Vero, mas primeiro, Ayla, nossa curandeira, quis vir aqui oferecer seus 
prstimos. Um de ns tinha parentesco com um de vocs; somos parentes. Viemos.
     O homem olhou para a mulher de p ao seu lado. Era claro que ela sofria e fazia algum esforo para se conservar firme.
     -  tarde demais - disse ela. - Eles esto mortos. - Sua voz desapareceu em um gemido, e ela chorou, angustiada. - Esto mortos. Meus filhos, meus bebs, minha 
vida, esto mortos.
     Duas pessoas se colocaram a cada lado da mulher e a levaram embora.
     - Minha irm sofreu uma grande dor - disse o homem. - Perdeu um filho e uma filha. A menina era quase mulher, o menino alguns anos mais novo. Todos estamos 
sofrendo.
     Talut sacudiu a cabea, solidrio.
     Realmente,  uma grande tristeza. Partilhamos sua dor, e oferecemos qualquer conforto que pudermos dar. Se for seu costume, gostaramos de ficar para somar 
nossas lgrimas s suas, enquanto so devolvidos ao seio da Me.
     - Sua bondade  apreciada, e sempre ser lembrada, mas ainda h doentes entre ns. Pode ser perigoso ficar. Pode ser perigoso terem vindo.
     - Talut, pergunte se eu posso ver os que esto doentes. Talvez eu possa ajud-los - disse Ayla.
     - Sim, Talut. Pergunte se Ayla pode ver os doentes - ajuntou Mamut. - Acho que ela ser capaz de dizer se  seguro, para ns, ficar aqui.
     O homem de rosto vermelho olhou duramente para o velho montado a cavalo. Ficara surpreso quando vira os cavalos, mas no queria parecer dominado pelo assombro, 
e estava to entorpecido por causa da tristeza que deixou a curiosidade de lado um instante, ao agir como porta-voz de sua irm, e do seu acampamento. Mas quando 
Mamut falou, a viso estranha de um homem montado em um cavalo foi, de repente, trazida  sua percepo com novo impacto.
     - Como aquele homem est sentado sobre um cavalo? - falou ele, de forma abrupta, afinal. - Por que o cavalo permite isso? E aquele outro, l atrs. -
     - E uma longa histria - disse Talut. - O homem  nosso Mamut, e os cavalos obedecem  nossa curandeira. Quando houver tempo, ficaremos felizes em lhe contar 
a respeito, mas, primeiro, Ayla gostaria de ver seus doentes. Talvez possa ajud-los. Ela ser capaz de nos dizer se os espritos malignos ainda permanecem e se 
ela pode cont-los e torn-los inofensivos; se para ns  seguro ficar aqui.
     - Diz que ela  capaz. Devo acreditar. Se  capaz de comandar o esprito do cavalo, deve possuir magia poderosa. Deixe-me falar com os que esto l dentro.
     - H um outro animal sobre o qual deve saber - disse Talut e se voltou para Ayla: - Chame-o, Ayla.
     Ela assobiou e antes mesmo de Rydag solt-lo, Lobo j se libertara. O homem Sungaea e outros espectadores ficaram surpresos quando o lobinho se acercou correndo, 
porm ainda mais assombrados ficaram quando parou aos ps de Ayla, e olhou para ela com nsia. A um gesto da mulher, ele se deitou sobre a barriga, mas sua ateno 
se concentrou nos desconhecidos, inquietamente.
     Tulie estivera observando com cuidado as reaes do Acampamento Sungaea e compreendeu, rapidamente, que forte impresso os animais dceis produziram. Tinham 
acentuado a importncia das pessoas a quem estavam ligados e do Acampamento do Leo como um todo. Mamut, pelo simples fato de montar a gua, havia adquirido prestgio. 
Eles o observavam com olhares desconfiados, e suas palavras foram bastante autoritrias, mas a resposta a Ayla foi ainda mais reveladora. Olhavam para ela com temor, 
e uma espcie de respeito e receio.
     A chefe compreendeu que ela havia-se habituado aos cavalos, mas recordou sua apreenso na primeira vez em que vira Ayla com os animais, e no era difcil se 
colocar no lugar daquelas pessoas. Ela estivera presente quando Ayla trouxe o lobinho para a habitao, e o vira crescer, mas, considerando Lobo como um estranho 
poderia olh-lo, compreendeu que no seria tomado por filhote. Podia ser jovem, mas, aparentemente, era um lobo adulto e a gua era madura. Se Ayla era capaz de 
dominar cavalos fortes e o esprito de lobos independentes, que outras foras seria capaz de controlar? Especialmente quando diziam que ela era a filha da Fogueira 
do Mamute, e uma curandeira.
     Tulie se perguntou que tipo de recepo teriam quando chegassem  Reunio de Vero, mas no ficou surpresa, de modo algum, quando Ayla foi convidada a examinar 
os membros doentes do acampamento. Os Mamutoi se prepararam para esperar. Quando Ayla saiu, dirigiu-se a Mamut, Talut e Tulie.
     - Acho que tm o que Nezzie chama a doena da primavera, febre e aperto no peito, e problema para respirar, exceto que adoeceram mais gravemente e mais tarde, 
na estao - explicou Ayla. 
     - Duas pessoas velhas morreram, mas  muito duro quando crianas morrem. No estou certa por que aconteceu. Em geral, os jovens so mais resistentes para se 
recuperar deste tipo de doena. 
     Todos os outros parecem ter ultrapassado a pior fase. Alguns tossem muito, e posso ajud-los a se sentir melhor, mas ningum parece estar gravemente doente 
agora. Eu gostaria de preparar alguma coisa para a me que perdeu os filhos. Ela sofre muito e no posso culp-la. No estou absolutamente certa, mas acho que no 
correremos perigo em ficar para o funeral. Creio que deveramos, contudo, ficar dentro de suas moradias.
     - Eu sugeriria que armssemos nossas tendas, se decidssemos ficar - falou Tulie. - L  bastante difcil para eles sem ter estranhos por perto o tempo todo, 
e nem sequer so Mamutoi. Sungaea so diferentes.
     Ayla acordou de manh ao som de vozes no muito distante de sua tenda. Levantou-se depressa, vestiu-se e espiou. Vrias pessoas cavavam uma vala comprida e 
estreita. Tronie e Fralie estavam l fora, sentadas perto do fogo, amamentando seus bebs. Ayla sorriu e se reuniu a elas. O cheiro de ch de salva vinha de uma 
cesta de cozinhar fervente Ela tirou uma xcara com uma concha e se sentou com as duas mulheres, bebericando o lquido quente.
     - Vo enterr-los hoje? - Fralie quis saber.
     - Acho que sim - replicou Ayla. - Creio que Talut no quis perguntar diretamente, mas tive essa impresso. No compreendo a lngua deles, embora entenda algumas 
palavras de vez em quando.
     - Devem estar cavando a sepultura. Pergunto-me por que a esto fazendo to comprida? - disse Tronie.
     - No sei, mas estou contente porque partiremos logo. Sei que  certo ficarmos, mas no gosto de funerais - disse Fralie.
     - Ningum gosta - falou Ayla. - Gostaria que tivssemos chegado aqui alguns dias antes.
     - Voc no sabe se poderia ter feito alguma coisa por aquelas crianas, de qualquer forma - falou Fralie.
     - Sinto muita pena da me - comentou Tronie. - J seria muito duro perder um filho, mas dois ao mesmo tempo... No sei se suportaria puxou Hartal contra si, 
mas o beb somente se contorceu para soltar-se.
     - Sim.  duro perder um filho - disse Ayla. Sua voz soou to triste que Fralie olhou-a, espantada. Ayla pousou a xcara e se ergueu. - Vi absinto crescendo 
aqui perto. A raiz produz um remdio muito forte. No a uso com freqncia, mas quero fazer algo para acalmar e relaxar a me e precisa ser forte.
     O Acampamento do Leo observou ou participou externamente de muitas atividades e cerimnias durante o dia, mas, ao se aproximar  noite, a atmosfera mudou, 
se tornou carregada com uma intensidade que atingiu at mesmo os visitantes. As emoes exaltadas provocaram gritos genunos de dor e tristeza dos Mamutoi quando 
as duas crianas foram carregadas solenemente para fora da habitao em esquifes tipo maca, e trazidas para que cada pessoa lhes desse um adeus.
     Quando as pessoas que carregavam as macas passaram, lentamente, pelos viajantes chorosos, Ayla notou que as crianas tinham sido vestidas com trajes lindamente 
feitos e ornados com refinamento, como se vestidas para um importante festival. Ela no pde deixar de ficar impressionada e intrigada. Pedaos de couro tingidos 
diferentemente e coloridos naturalmente, assim como peles, tinham sido costuradas, com cuidado formando intrincados padres geomtricos na confeco de tnicas e 
calas compridas, contornadas e realadas por partes slidas, adornadas com milhares de pequenas contas de marfim. Um pensamento desgarrado passou por sua mente. 
Todo o trabalho teria sido feito usando apenas um furador aguado? Talvez algum apreciasse a pequena agulha de marfim, de ponta fina, com o buraco na extremidade.
     Ela tambm reparou nos enfeites de cabea e cintos, e nos ombros das meninas, uma capa com desenhos fascinantes, trabalhados em um material que parecia ter 
sido feito de fios de l, dos animais lanosos de passagem por ali. Ela queria toc-la, examin-la com ateno e saber como fora feita, mas no seria adequado. Ranec, 
de p ao seu lado, reparou tambm na capa e comentou sobre o padro intrincado de espirais formando ngulo reto. Ayla esperava que, antes de partirem, pudesse descobrir 
mais sobre como era feita, talvez em troca de uma de suas agulhas de marfim.
     As duas crianas tambm estavam adornadas com adereos feitos de conchas, dentes caninos de animais, ossos; o menino at usava uma pedra grande e rara que fora 
furada para se converter em um pendani. Ao contrrio dos adultos, cujo cabelo estava despenteado e coberto de cinzas, o das crianas estava muito bem penteado em 
estilos elaborados - o menino de tranas, a menina com grandes coques de ambos os lados da cabea.
     Ayla no conseguia afastar a impresso de que as crianas se encontravam apenas dormindo e acordariam a qualquer momento. Pareciam jovens demais e muito sadias, 
com os rostos redondos, sem rugas, para morrer, para terem ido para o reino dos espritos. Ela sentiu um calafrio, e involuntariamente lanou um olhar a Rydag. Encontrou 
os olhos de Nezzie e desviou os seus. Os corpos das crianas foram finalmente levados  vala comprida e estreita. Foram colocados nela, uma cabea contra a outra. 
Uma mulher, com um adorno de cabea peculiar e uma comprida tnica de contas, ergueu-se e comeou um canto fnebre, alto que fez todos estremecerem. Ela usava muitos 
colares e pendentes ao redor do pescoo, que balanavam e chocalhavam quando ela se movia, e vrios braceletes de marfim nos braos, consistindo de argolas separadas 
de cerca de meia polegada de largura. Ayla percebeu que eram semelhantes quelas usadas por mulheres Mamutoi.
     Um rufo de tambor ecoou profundamente com o som familiar de um tambor de crnio de mamute. 
     A mulher, lamentando e cantando, comeou a dar voltas e balanar, erguendo-se na ponta dos ps, e levantando-os, s vezes de frente para locais diferentes, 
mas permanecendo em um s lugar. Enquanto danava, sacudia os braos com fora e ritmo fazendo com que as pulseiras chocalhassem. Ayla a havia conhecido e, embora 
no tivessem podido conversar, sentiu-se atrada a ela. Mamut explicara que no era uma curandeira como Ayla, mas algum que se comunicava com o mundo espiritual. 
Era a rplica dos Sungaea de Mamut - ou de Creb, compreendeu Ayla com um sobressalto. Era difcil para ela imaginar uma mulher mog-ur.
     O homem e a mulher de rostos vermelhos salpicaram ocre vermelho pulverizado sobre as crianas, fazendo Ayla pensar na pomada de ocre vermelha que Creb esfregara 
no corpo de Iza. Vrias outras coisas foram colocadas cerimoniosamente na sepultura: fustes de presa de mamute que tinha sido endireitada, lanas, facas de slex 
e adagas, esculturas de um mamute, um biso e, um cavalo  no to bem-feitas quanto s de Ranec, achou Ayla. Ficou surpresa em ver um comprido basto de marfim, 
decorado com uma escultura circular, com raios como uma roda, a que estavam presas penas e outros objetos, jazendo ao lado de cada criana. Quando o povo do acampamento 
se juntou ao lamentoso, choroso canto da mulher, Ayla se inclinou  frente e cochichou a Mamut:
     - Aqueles bastes se parecem com o de Talut. So Bastes Falantes?
     - Sim, so. Os Sungaea so parentes dos Mamutoi, mais prximos do que algumas pessoas desejam admitir - disse Mamut. - Existem diferenas, mas a cerimnia do 
funeral  muito parecida com a nossa.
     - Por que colocam Bastes Falantes em uma sepultura de crianas?
     - Elas recebem as coisas de que precisaro quando despertarem no mundo espiritual. Por serem filha e filho da chefe, so uma irm e um irmo que se destinavam 
a ser co-lderes, se no nesta vida, ento na outra - explicou Mamut. -  necessrio mostrar sua posio para no perderem status l.
     Ayla observou um pouco e, depois, quando comearam a cobrir a sepultura com terra, ela se dirigiu a Mamut novamente:
     - Por que so enterradas assim, cabea contra cabea?
     - So irmo e irm - respondeu ele, como se o resto se explicasse por si s. Depois viu a expresso intrigada de Ayla e continuou: - Poder ser uma longa jornada, 
difcil e confusa para o mundo dos espritos, principalmente para aqueles que so to jovens. Precisam poder se comunicar, para ajudar e consolar um ao outro, mas 
 uma abominao para a Me um irmo e irm partilharem prazeres. Se acordarem lado a lado podem esquecer que so irmo e irm, e ter relaes por engano, imaginando 
que dormiam juntos porque seu destino era se unirem. Assim, uma cabea contra a outra faz com que possam encorajar-se mutuamente durante a Jornada, e no se confundirem 
sobre seu relacionamento quando chegarem ao outro local.
     Ayla sacudiu a cabea concordando. Parecia lgico, mas enquanto via a sepultura ser coberta, desejou, ardentemente, que tivessem chegado ali h alguns dias 
antes. E uma vez no tivesse podido ajudar, mas poderia ter tentado.
     Talut parou  margem de um pequeno crrego, olhou para um e outro lados, depois consultou o pedao marcado de marfim que segurava na mo. Verificou a posio 
do sol, examinou algumas formaes de nuvens ao norte e cheirou o vento. Por fim, estudou a rea prxima.
     - Acampamos aqui esta noite - disse ele, tirando a mochila e o saco das costas. Caminhou em direo  irm enquanto ela decidia onde seria armada a primeira 
tenda, para que as vizinhas, que utilizavam parte dos mesmos suportes estruturais, tivessem suficiente terreno plano. - Tulie, o que acha de pararmos para negociar 
um pouco? Eu olhava estes mapas que Ludeg fez. A princpio, no me ocorreu, mas vendo onde estamos, olhe aqui - disse, mostrando-lhe dois pedaos diferentes de marfim 
com marcas riscadas neles -, este mapa mostra o caminho para o Acampamento do Lobo, o novo local de Reunio de Vero, e aqui est o atalho que traou para o Acampamento 
Sungaea. 
     Daqui, no nos desviaramos muito do nosso trajeto para visitar o Acampamento do Mamute.
     - Quer dizer o Acampamento do Boi-Almiscarado - falou Tulie com desdm. - Foi presuno deles dar nome novo ao seu acampamento. Todos tm uma Fogueira do Mamute, 
mas ningum deveria dar o nome do Mamute a um acampamento. Todos ns no somos Caadores de Mamutes?
     - Mas os acampamentos sempre recebem o nome de acordo com a fogueira do chefe, e seu novo chefe  o seu Mamut. Alm disso, isso no significa que no possamos 
negociar com eles... Se no tiverem viajado no vero. Sabe que eles so aparentados com o Acampamento do mbar, e sempre tm mbar para negociar - falou Talut, conhecendo 
a fraqueza da irm pelas pedras matizadas de dourado de resina petrificada. - Wymez diz que eles tm acesso a bom slex tambm. Temos muitos couros de rena, para 
no falar em algumas belas peles.
     - No sei como um homem pode estabelecer uma fogueira quando no tem, sequer, uma mulher, mas eu disse apenas que eles foram presunosos. Mas podemos negociar 
com eles. Claro que podemos parar, Talut.
     - A expresso da chefe mudou para um sorriso enigmtico. - Sim, por favor. Acho que seria interessante para o Acampamento do Mamute conhecer nossa Fogueira 
do Mamute.
     - timo. Ento,  melhor partimos - disse Talut, mas olhou-a com curiosidade, e sacudiu a cabea perguntando-se o que sua inteligente e astuta irm estava pensando.
     Quando o Acampamento do Leo chegou a um grande rio sinuoso abrindo um canal entre as margens escarpadas de solo de loesse, semelhante  paisagem perto de sua 
habitao comunal, Talut se dirigiu a um promontrio entre ravinas e examinou com cuidado o terreno circunjacente. Viu veados e auroques prximos  gua, na plancie 
aluvial abaixo, pastando num campo verde salpicado de pequenas rvores. A alguma distncia deles, notou uma grande pilha de ossos embaralhados contra uma margem 
elevada onde o rio fazia uma curva fechada. Pequenos vultos caminhavam depressa sobre o monte de ossos secos e ele viu vrios deles carregando pedaos de ossos.
     - Ainda esto aqui - anunciou. - Devem estar construindo.
     Os viajantes agruparam-se por uma encosta abaixo em direo ao acampamento situado em um largo terrao, no mais de 4,5 metros acima do nvel do rio, e se Ayla 
ficara surpresa na habitao do Acampamento do Leo, assombrou-se diante do Acampamento do Mamute. Em vez de uma habitao comunal grande, coberta de relva, parcialmente 
subterrnea, que Ayla comparara a uma caverna ou mesmo a uma toca do tamanho de um homem, neste acampamento vrias moradias individuais, redondas, estavam amontoadas 
no terrao. Elas tambm eram slidas e resistentes sob uma camada espessa de torres de relva coberta com argila, e pequenos canteiros de grama ao redor das bordas, 
mas no no topo. Fizeram lembrar a Ayla montes grandes, sem vegetao, de marmotas.
     Quando se aproximaram, ela compreendeu por que motivo os telhados eram nus. Exatamente como eles faziam, o Acampamento do Mamute tambm usava os telhados de 
suas moradias como plataformas de observao. Duas habitaes sustentavam uma multido de observadores e, embora os vigias tivessem voltado sua ateno para os visitantes, 
esta no era a razo para eles estarem no alto dos telhados arredondados. Quando o Acampamento do Leo deu volta a uma moradia e bloqueou-lhes a viso, Ayla viu 
o objeto do seu interesse, e ficou surpresa.
     Talut tinha razo. Estavam construindo. Ayla havia escutado os comentrios de Tulie sobre o nome que aquelas pessoas tinham escolhido para si prprias, porm, 
aps ver a habitao que faziam, o nome parecia bastante apropriado. Embora ela pudesse terminar parecida com todas as outras quando estivesse acabada, a forma como 
usavam ossos de mamute para vigas parecia reter uma qualidade especial do animal. Era verdade que o Acampamento do Leo havia utilizado ossos de mamute na viga de 
sus tentao de sua habitao, e selecionara alguns pedaos e os ajustara para que assentassem, mas os ossos usados naquela moradia faziam mais do que sustentar. 
Eram selecionados e arrumados de forma que a estrutura comunicasse a essncia do mamute, de um modo que expressava as crenas dos Mamutoi.
     Para criar o design, trouxeram grande nmero das mesmas partes do esqueleto de muitos mamutes da pilha de ossos abaixo. Comearam com um crculo, de cerca de 
4,80 metros de dimetro da base, de crnios de mamute colocados de modo que a superfcie slida da testa ficasse de frente para a parte interna. A abertura era a 
arcada conhecida, construda com duas grandes presas curvas de mamute, apoiadas de cada lado no encaixe de um crnio de mamute, e juntas ao alto. Ao redor da parte 
exterior e subindo at a metade dela, estava uma parede circular feita talvez de uma centena de mandbulas de mamute, as mandbulas inferiores em forma de V, empilhadas 
com os queixos pontudos para baixo, um sobre quatro de fundo.
     O efeito global destas pilhas em V colocadas Lado a lado era o conceito mais impressionante da construo, e o mais significativo. Juntas criavam um padro 
em ziguezague, semelhante quele usado para simbolizar a gua nos mapas. E., alm disso, como Ayla havia aprendido com Mamut, o smbolo de ziguezague para a gua 
era tambm o smbolo mais profundo para a Grande Me, Criadora da Vida. Representavam o tringulo com vrtice para baixo de Seu monte, a expresso exterior de Seu 
tero. O smbolo, multiplicado muitas vezes, representava toda a vida; no apenas a gua, mas as guas da Me que tinham inundado a terra e enchido os rios e mares 
quando Ela deu  luz toda a vida da terra. No podia haver dvida de que aquela seria a casa da Fogueira do Mamute.
     A parede circular no estava terminada, mas eles trabalhavam no resto da habitao, encravando omoplatas e ossos plvicos e pedaos de espinha em uma forma 
ritmadamente simtrica, contudo, apertadamente ajustada. No interior, uma estrutura aberta de madeira proporcionava apoio adicional para a construo e parecia que 
o telhado seria feito de presas de mamute.
     - Este trabalho  de um verdadeiro artista! - exclamou Ranec, avanando mais e admirando abertamente a obra.
     Ayla sabia que ele aprovaria. Viu Jondalar de p a curta distncia, segurando Racer pela corda. Compreendeu que ele estava igualmente impressionado e apreciava 
tambm a mente inspirada que imaginara o projeto. Na verdade, todo o Acampamento do Leo estava desconcertado, em busca de palavras. Mas, como Tulie desconfiara, 
o Acampamento do Mamute estava igualmente assombrado com os seus visitantes - ou melhor, os animais domesticados que viajavam com eles.
     Houve um perodo de tempo de olhares fixos, mutuamente maravilhados e surpresos, e depois, uma mulher e um homem, ambos um pouco mais jovens que os lderes 
do Acampamento do Leo, aproximaram-se para saudar Talut e Tulie. O homem estivera carregando pesados ossos de mamute encosta acima -aquelas no eram, de forma alguma, 
moradias temporrias que seriam carregadas de um local para outro, mas um acampamento permanente - e estava nu at a cintura e suado. O rosto era fortemente tatuado 
e Ayla teve que se obrigar a no encar-lo. Ele no tinha apenas um desenho em ziguezague na face esquerda, como o Mamut do Acampamento do Leo, mas um arranjo simtrico 
de ziguezagues, tringulos, e losangos, e espirais em ngulo reto em duas cores, azul e vermelho.
     A mulher havia estado trabalhando tambm, obviamente, e tambm estava nua da cintura para cima, mas em vez de calas, usava uma saia enrolada que caa exatamente 
abaixo de seus joelhos. No tinha tatuagens, mas o lado do nariz estava furado e ela usava um botoque feito de um pedao pequeno de mbar esculpido e polido atravs 
do orifcio.
     - Tulie, Talut, que surpresa! No os espervamos, mas em nome da Me, ns lhes damos boas-vindas, boas-vindas ao Acampamento do Leo - disse a mulher.
     - Em nome de Mut, agradecemos suas boas-vindas, Avarie - disse Tulie. - No tnhamos inteno de vir em uma hora inconveniente.
     - Estvamos aqui perto, Vincavec - ajuntou Talut -, e no poderamos seguir em frente sem parar aqui.
     - Uma visita do Acampamento do Leo nunca  inconveniente para ns - disse o homem -, mas como estavam aqui perto? Este no  o caminho para o Acampamento do 
Lobo, para vocs.
     - O corredor nos veio dizer que a Reunio ser realizada em outro local, e ele parou a caminho em um Acampamento Sungaea e nos contou que eles estavam doentes. 
Temos um novo membro, uma curandeira, Ayla da Fogueira do Mamute - falou Talut, fazendo um sinal a Ayla para que se aproximasse. -, e ela quis vir ver se podia ajudar. 
Estamos vindo de l.
     - Sim, conheo esse Acampamento Sungaea - disse Vincavec, depois se virou para Ayla. Por um momento, ela sentiu seus olhos penetrarem nos dela. Ayla hesitou 
um pouco, ainda desabituada a retribuir o olhar direto de um desconhecido, mas sentiu que aquela no era hora para timidez ou a modstia de uma mulher do Cl, e 
correspondeu ao olhar penetrante. De repente ele riu, e seus olhos cinza-claros brilharam de aprovao, e uma expresso apreciadora de sua feminilidade. Ela notou, 
ento, que ele era um homem muito atraente, no porque era bonito ou por qualquer feio determinada, embora as tatuagens o fizessem salientar-se, mas por causa 
de uma caracterstica de fora de vontade e inteligncia. Ele ergueu o olhar para Mamut, montado em Whinney.
     - Ento, continua conosco, velho - falou, obviamente satisfeito, depois ajuntou com um sorriso experiente -, e ainda apresenta surpresa. Desde quando se tornou 
um chamador? Ou precisamos de outro nome?
     - Dois cavalos e um lobo viajando como Acampamento do Leo? Isto  mais do que um Dom de Chamar.
     - Outro nome poderia ser adequado, Vincavec, mas no  meu dom. Os animais obedecem a Ayla.
     - Ayla? Parece que o velho Mamut encontrou uma filha valiosa. - Vincavec tornou a olhar para Ayla, com interesse bvio. No reparou na carranca de Ranec, mas 
Jondalar viu. Compreendeu o sentimento e, pela primeira vez, sentiu um estranho tipo de afinidade com o escultor.
     - Chega de conversar aqui, em p - disse Avarie. - Temos muito tempo para isso. Os viajantes devem estar cansados, e famintos. Devem permitir que eu providencie 
uma refeio para vocs e um lugar para descansarem.
     - Vemos que esto construindo uma nova habitao, Avarie. No precisam preocupar-se conosco. Um lugar para armar nossas tendas ser suficiente - disse Tulie. 
- Mais tarde, ficaramos contentes em partilhar uma refeio com vocs, e talvez lhes mostrar algumas peles e couros bonitos de rena que temos conosco.
     - Tenho uma idia melhor! - ribombou Talut, tirando seu fardo das costas e deixando-o cair onde ele se encontrava. - Por que no ajudamos vocs? Talvez tenham 
que me dizer onde colocar os ossos, mas sou bastante forte para carregar um ou dois ossos de mamute.
     - Sim, eu gostaria de ajudar - ofereceu-se Jondalar, avanando com Racer e pondo Rydag no solo. -  uma habitao rara, nunca vi nada igual.
     - Sem dvida, acolhemos com alegria sua ajuda. Alguns de ns esto com pressa para chegar  Reunio de Vero, mas uma moradia necessita de um vero para se 
erguer adequadamente, assim, tivemos que constru-la antes de partir. O Acampamento do Leo  muito generoso - disse Vincavec, perguntando-se quantos pedaos de 
mbar sua generosidade iria custar quando a negociao comeasse. Em seguida, concluiu que valeria a pena ter a moradia terminada, e fazer calar alguns dos que se 
queixavam.
     Vincavec no havia notado o alto homem louro no grupo de pessoas, a princpio, mas tornou a olhar para Jondalar, depois fitou Ayla que tirava os arreios de 
Whinney, livrando-a do travois. Ele era um estranho, como Ayla, e parecia to  vontade com os cavalos, quanto ela. Em contrapartida, o pequeno cabea-chata parecia 
se dar muito bem com o lobo, e no era mais estranho. Devia ter algo a ver com a mulher. O chefe-Mamut do Acampamento do Mamute voltou sua ateno a Ayla novamente. 
Observou o escultor de pele escura rondando-a; Ranec sempre soubera descobrir o belo e excepcional, pensou. Na verdade, ele agia de forma possessiva, mas, ento, 
quem era o estranho? No estava ligado  mulher? Vincavec lanou um olhar a Jondalar e viu que ele observava Ayla e Ranec.
     Alguma coisa acontecia ali, concluiu Vincavec, depois sorriu. Qualquer que fosse o relacionamento entre eles, se ambos estavam to interessados, era provvel 
que a mulher no estivesse ainda formalmente unida. Tornou a examinar Ayla. Era uma mulher arrebatadora, e uma filha da Fogueira do Mamute, uma curandeira, ou assim 
diziam, e certamente possua um dom nico com os animais. Uma mulher de alto status, sem dvida, mas de onde viera? E por que era sempre o Acampamento do Leo que 
aparecia com algum diferente?
     As duas chefes se encontravam de p no interior de uma quase completa, mas vazia e nova habitao. Embora o exterior estivesse coberto, o padro de ziguezague 
das paredes estava sutilmente aparente no interior.
     - Tem certeza de que no viajaro conosco, Avarie? - perguntou Tulie. Um novo fio de grandes contas de mbar adornava seu pescoo. - Ficaramos felizes em esperar
mais alguns dias, at estarem prontos.
     - No, vo em frente. Sei que todo mundo est ansioso para chegar  Reunio, e vocs j fizeram muito. A habitao est quase terminada e, sem vocs, jamais 
teramos progredido tanto.
     - Foi um prazer para ns trabalhar com vocs. Devo confessar, a nova habitao  imponente. E uma honra para a Me. Seu irmo  realmente notvel. Pode-se quase 
sentir a presena da Me dentro da casa. - Era sincera, e Avarie sabia disso. - Obrigada, Tulie, e no esqueceremos sua ajuda. E por isto que no queremos det-los 
mais. J esto atrasados porque ficaram para nos ajudar. Todos os melhores locais estaro ocupados.
     - Agora, no levaremos muito tempo para chegar l. Nossa carga  bastante leve. O Acampamento do Mamute conseguiu uma pechincha.
     Os olhos de Avarie se fixaram no colar novo da grande chefe.
     - No to boa pechincha quanto o Acampamento do Leo - disse. Tulie concordava. Acreditava que o Acampamento do Leo conseguira o melhor do negcio, mas era 
imprprio admiti-lo, assim, mudou de assunto.
     - Bem, esperamos ver vocs l. Se pudermos, marcaremos um lugar.
     - Agradeceramos, mas imagino que seremos os ltimos a chegar. Teremos que ficar com o que pudermos conseguir. No entanto, procuraremos vocs - disse Avarie, 
enquanto saam da habitao.
     - Partiremos de manh, ento - falou Tulie. As duas mulheres se abraaram, e encostaram os rostos um no outro, depois a chefe do Acampamento do Leo comeou 
a se dirigir para as tendas.
     - Oh, Tulie, no caso de eu no vir Ayla antes de partirem, por favor, agradea a pedra-de-fogo a ela novamente - disse Avarie, depois ajuntou com tom aparentemente 
casual: - J fixaram um Preo de Noiva para ela?
     - Temos pensado sobre isso, mas ela tem tanto a oferecer que  difcil - disse Tulie; depois se virou para continuar seu caminho. Aps alguns passos, deu meia-volta 
e sorriu: - Ela e Deegie se tornaram to ntimas que Ayla  quase como uma filha para mim.

     Tulie mal pde conter um sorriso ao se afastar. Ela achava que Vincavec andara prestando especial ateno em Ayla, e sabia que o comentrio de Avarie no fora 
casual. Ele havia mandado a irm faz-lo. No seria um mau acordo, pensou Tulie, e ter laos com o Acampamento do Mamute para vocs poderia ser benfico. Claro, 
Ranec tem prioridade. Afinal, eles esto prometidos, mas se algum como Vincavec fizesse uma proposta, no faria mal lev-la em considerao. No mnimo, aumentaria 
o valor de Ayla. Sim, Talut tivera uma boa idia ao sugerir que parassem e negociassem.
     Avarie a viu afastar-se. Ento, Tulie vai negociar, ela mesma, o Preo de Noiva. Foi o que pensei. Talvez devssemos parar no Acampamento do mbar no caminho, 
eu sei onde Me guarda a pedra bruta, e se Vincavec vai lutar por Ayla, precisar de tudo que puder conseguir. Nunca vi uma mulher negociar melhor do que Tulie, 
pensou Avarie com admirao e m vontade. Ela no dera muita importncia  grande chefe do Acampamento do Leo, antes, mas naqueles ltimos dias que tiveram a chance 
de se conhecer melhor, ela passara a respeitar Tulie, e at a gostar dela. Tulie havia trabalhado arduamente com eles e era generosa em elogios, quando eram merecidos, 
e se era uma excelente negociante, bem, esse era o papel da chefe. Na verdade, se fosse jovem e pronta para se unir a algum, pensou Avarie, no se importaria de 
ter algum como Tulie negociando o seu Preo de Noiva.
     Do Acampamento do Mamute, o Acampamento do Leo viajou em direo ao norte, seguindo o rio a maior parte do tempo. Perto dos grandes rios que atravessavam o 
continente, a paisagem setentrional mudava continuamente e exibia uma rica diversidade de vida vegetal. Sua viagem os levou de plancies de loesse e tundras at 
lagos florestais juncosos, de turfeiras viosas e campos de pastagem e colinas ventosas brilhantes como as flores de vero. Embora as plantas do norte fossem mirradas, 
as flores eram muitas vezes maiores e mais brilhantes que as variedades sulistas. Ayla era capaz de identificar a maioria delas, apesar de no saber sempre como 
cham-las. Quando passavam por elas, ou se ela cavalgava ou caminhava sozinha, freqentemente colhia algumas para Mamut, ou Nezzie, ou Deegie, ou algum que pudesse 
dizer-lhe os nomes.
     Quanto mais se aproximavam do local da Reunio de Vero, tanto mais Ayla encontrava razes para fazer excurses secundrias. O vero sempre fora  poca em 
que ela queria solido - Havia sido seu padro, desde que se lembrava. No inverno ela aceitava o confinamento imposto pelo clima rigoroso, quer fosse na caverna 
do cl de Brun, ou na sua, em seu vale, ou na habitao comunal dos Mamutoi. Mas no vero, embora no gostasse de ficar sozinha  noite, muitas vezes se divertira 
saindo sozinha durante o dia. Era seu momento de meditar, e seguir seus impulsos, livre da restrio de ser muito observada, quer por desconfiana, ou amor.
     Quando paravam para passar a noite, era bastante fcil dizer que queria identificar plantas ou caar, e fazia as duas coisas, usando o arremessador de lana 
tanto quanto a funda, para trazer carne fresca, mas queria realmente afastar-se sozinha. Precisava de tempo para pensar. Temia sua chegada agora e no compreendia 
por qu. Havia conhecido pessoas suficientes e fora aceita com bastante facilidade, assim sabia que o problema no era este. Porm, quanto mais perto chegavam, mais 
excitado Ranec ficava e mais soturno Jondalar parecia. E tanto mais ela desejava poder evitar aquela reunio dos acampamentos.
     Na ltima noite da viagem, Ayla voltou de uma longa caminhada com um punhado de flores. Notou que um pedao de solo perto do fogo havia sido alisado, e Jondalar 
fazia marcas nele com a faca de desenhar. Tornec tinha um pedao quebrado de marfim na mo e uma faca aguada na outra, e estudava as marcas.
     - Aqui est ela - disse Jondalar. - Ayla pode dizer melhor do que eu. No estou certo de ser capaz de descobrir o caminho de volta para o vale saindo do Acampamento 
do Leo, e sei que no poderia faz-lo daqui. Fizemos muitas voltas e desvios.
     - Jondalar tentava fazer um mapa indicando o caminho para o vale onde voc encontrou as pedras-de-fogo - falou Talut.
     - Tenho procurado desde que partimos, e no vi uma pedra-de-fogo sequer - disse Tornec. - Eu gostaria de fazer uma viagem at o vale, um dia, e trazer mais 
pedras. As que temos no duraro para sempre. A minha j tem um grande sulco nela.
     - Tenho dificuldade em calcular a distncia - disse Jondalar. - Viajamos a cavalo, por isto  difcil dizer quantos dias levaramos a p. E exploramos muito, 
paramos quando sentimos vontade, no seguimos qualquer trilha lgica. Estou quase certo de que voltamos atravs do rio que corta o seu vale, no extremo norte. Talvez 
mais de uma vez. Quando voltamos era quase inverno, e muitos pontos de referncia tinham mudado.
     Ayla pousou as flores, e pegou a faca de desenhar, e tentou pensar sobre como fazer um mapa para o vale. Comeou a traar uma linha, depois hesitou.
     - No se preocupe em fazer o caminho a partir daqui - falou Talut.
     - Pense apenas em como chegar l saindo do acampamento. Ayla franziu a testa, concentrada.
     - Sei que posso mostrar o caminho saindo do Acampamento do Leo - disse ela-, mas ainda no entendo os mapas muito bem. Acho que no sei fazer um.
     - Bem, no se preocupe com isso - disse Talut. - No precisamos de um mapa se pode nos indicar o caminho. Talvez, depois que voltarmos da Reunio de Vero, 
possamos viajar at l. - Ento, fez um gesto com o queixo de barba ruiva em direo s flores: - O que trouxe desta vez, Ayla?
     -  o que quero que me digam. Sei o que so, mas no sei como cham-las.
     - Sei que a flor vermelha  um gernio - falou Talut - E esta  uma papoula.
     - Mais flores? - disse Deegie, vindo reunir-se a eles.
     - Sim. Talut me disse o nome destas duas - falou Ayla.
     - Vejamos, essa  urze e aquela  cravo rosa - disse Deegie, identificando as outras duas e sentando-se ao lado de Ayla em seguida. - Estamos quase chegando. 
Talut diz que chegaremos amanh, a qualquer hora.
     Mal posso esperar. Amanh verei Branag, e depois no demorar para nos unirmos, afinal. Nem sequer sei se serei capaz de dormir esta noite.
     Ayla lhe sorriu. Deegie estava to animada que era difcil no partilhar do seu entusiasmo, mas serviu tambm para lembrar-lhe que ela se uniria breve, igualmente. 
A conversa de Jondalar sobre o vale e para l voltar tinha renovado seu sofrimento e o desejo por ele. Ela o estivera observando, tentando no deix-lo claro, e 
tinha a impresso de que ele a andara vigiando tambm. Ela vivia encontrando seus olhos, brevemente, antes de os dois desviarem o olhar.
     - Oh, Ayla, h tantas pessoas que quero que conhea, e estou to feliz por nos unirmos no mesmo Matrimnio. Isso  uma coisa que sempre teremos juntas.
     Jondalar se levantou.
     - Preciso ir... E... Bem... Arrumar meu rolo de dormir - disse, e se afastou depressa.
     Deegie observou o olhar de Ayla acompanh-lo e teve quase certeza de que viu lgrimas contidas neles. Sacudiu a cabea. Ayla no parecia uma mulher que estava 
a ponto de se unir e estabelecer uma nova fogueira com o homem que amava. No havia alegria, ou excitao. Faltava alguma coisa. Alguma coisa que se chamava Jondalar.
     De manh, o Acampamento do Leo comeou a subir o rio, permanecendo no plat das plancies, mas captando vislumbres da rpida corrente dgua abaixo,  esquerda, 
nebulosa com escoamento glacial e espumando com lodo. Quando alcanaram uma confluncia, um local em que dois rios principais se uniam, tomaram o brao esquerdo. 
Depois de vadear dois grandes afluentes, colocando a maior parte da bagagem em um barco bojudo que haviam trazido para esse propsito, desceram para a plancie aluvial 
e viajaram pelas matas e campos de relva at o vale do rio.
     Talut continuava observando o sistema de cavidades e ravinas na margem direita elevada do rio, comparando a paisagem real com o marfim riscado de smbolos, 
cujo significado ainda no era claro para Ayla.  frente, perto de uma curva pronunciada, encontrava-se o ponto mais elevado da margem oposta, erguendo-se a uns 
60 metros acima da gua. Do seu lado, um grande campo herbceo e trechos de matas se estendiam para o interior por alguns quilmetros. Ao se aproximarem mais, Ayla 
notou um monte de ossos com uma caveira de lobo ao alto. Um arranjo peculiar de pedras se estendia do lado oposto do rio, na direo que Talut tomava.
     O rio era largo ali e raso, e seria vadevel de qualquer modo, porm algum tornara a travessia ainda mais fcil. Pilhas de rochas e cascalho, e alguns ossos 
tinham sido colocados e espalhados como um caminho de pedras para fazer uma trilha para as pessoas atravessarem o rio, enquanto desviavam o fluxo de gua para os 
espaos no meio.
     Jondalar parou para olhar mais atentamente.
     - Que idia inteligente! - comentou. - Pode-se cruzar o rio aqui sem sequer molhar os ps.
     - Os melhores lugares para alojamentos so daquele lado... Aquelas depresses protegem bastante contra o vento... Porm, a melhor caa est deste lado - explicou 
Barzec. - Este caminho  levado pelas enchentes, mas o Acampamento do Lobo constri um novo todos os anos. Parece que tiveram trabalho extra este ano, provavelmente, 
para facilitar as coisas para os visitantes.
     Talut comeou a cruzar o rio. Ayla reparou que Whinney estava extremamente nervosa em relao ao caminho de pedras com os espaos de gua no meio, mas a gua 
a seguiu sem incidentes.
     O chefe parou depois da metade da travessia.
     - Este local  bom para pescar - disse ele. - O rio corre depressa, portanto  profundo. O salmo sobe at aqui. O esturjo tambm. E outros peixes, bagre, 
truta, lcio. - Dirigia seus comentrios a Ayla e Jondalar particularmente, embora inclusse qualquer um dos jovens que no estivera ali antes. Fazia alguns anos 
que o Acampamento do Leo visitara o Acampamento do Lobo como um grupo.
     No lado oposto, quando Talut os conduziu para uma larga ravina, talvez com uns 600 metros de um lado ao outro, no topo, Ayla ouviu um som estranho, como um 
zumbido alto ou um berro abafado. Subiram a colina aos poucos. Mais ou menos a uns 18 metros acima do nvel do rio e a uns 150 metros de distncia, chegaram  base 
da ravina. Ayla olhou  frente e arquejou. Protegidas por muros altos, meia-dzia de habitaes redondas isoladas e enfileiradas estavam confortavelmente fixadas, 
dentro da depresso de quase 16 quilmetros de comprimento. Mas no foram as moradias redondas que fizeram Ayla arquejar.
     Foram as pessoas. Em toda a sua vida, Ayla jamais vira tanta gente. Muito mais do que mil pessoas, mais do que trinta acampamentos tinham se reunido para a 
Reunio de Vero dos Mamutoi. O comprimento e largura de toda a rea estavam cheios de tendas. Havia, no mnimo, quatro ou cinco vezes mais pessoas do que o nmero 
que se reunia para a Reunio de Cls, e todo mundo a fitavam. Ou melhor, fitava seus cavalos e a Lobo. O filhote se encolhia contra a perna de Ayla to sobressaltado 
quanto ela. Ayla sentiu pnico em Whinncy e estava certa de que Racer sentia o mesmo. O medo pelos animais ajudou-a a vencer seus prprios sentimentos de puro terror 
 vista de tantos seres humanos. Ela ergueu a cabea e viu Jondalar segurando a corda, lutando para impedir que Racer empinasse, enquanto o menino assustado se agarrava 
com fora ao animal.
     - Nezzie, pegue Rydag! - gritou. A mulher j percebera o problema e no necessitava das palavras de Ayla para se mover. Ayla ajudou Mamut a descer, e colocou 
o brao em volta do pescoo da gua para lev-la em direo ao jovem garanho a fim de ajud-lo a se acalmar. O lobo a seguiu.
     - Lamento muito, Ayla. Eu devia ter pensado no modo como os cavalos reagiriam diante de tanta gente - disse Jondalar.
     - Sabia que haveria tanta assim?
     - Eu... No sabia, mas achei que deveria haver tanta gente quanto em uma Reunio de Vero dos Zelandonii.
     - Creio que deveramos fixar o Acampamento de Tifceas em algum lugar fora do caminho - disse Tulie, falando alto para conseguir a ateno de todos. -  aqui, 
perto da extremidade do acampamento. Estaremos longe de tudo. - ela olhava ao redor ao falar - ... Mas o Acampamento do Lobo tem um riacho atravessando sua depresso 
este ano, e ele vir para c.
     Tulie estivera antecipando a reao das pessoas e no ficou desapontada. Tinham cruzado o rio e todo mundo se aglomerara para ver a chegada do Acampamento do 
Leo. Mas ela no havia previsto que os animais pudessem ficar assustados ao serem apresentados, inicialmente, a um re banho de homens.
     - Que tal l, perto do muro - sugeriu Barzec. - No  muito plano, mas podemos nivelar o terreno.
     - Parece timo. H alguma objeo? - perguntou Talut, olhando diretamente para Ayla. Ela e Jondalar tinham levado os animais quele local, querendo acomod-los. 
O Acampamento do Leo comeou a remover pedras e a nivelar um lugar para armar sua grande tenda comunal de pele dupla.
     Era muito mais confortvel viver numa tenda feita com duas camadas de couro. A camada isolante de ar no meio ajudava a manter o aquecimento interno, e a umidade, 
condensando-se no frio da noite, descia rapidamente pelo lado interno dos couros externos at o solo. Os couros internos, que eram enfiados sob os panos usados no 
cho do interior, tambm mantinham as correntes de ar afastadas. Embora no to permanente quanto a habitao de barro do Acampamento do Leo, era uma estrutura 
mais slida do que o abrigo de parede nica para passar a noite, que era somente uma parte da tenda completa de vero, que usavam quando viajavam. Referiam-se  
sua casa de vero como Acampamento de Tifceas para diferenciar a habitao de vero, onde quer que fosse, da moradia de inverno, embora se considerassem sempre 
membros de um grupo chamado Acampamento do Leo.
     A tenda era dividida em quatro partes cnicas interdependentes, cada uma com uma lareira, sustentada por rvores novas flexveis e vigorosas, embora ossos de 
costela de mamute ou outros ossos compridos pudessem ser e tivessem sido usados. A parte central, a maior delas, abrigaria a Fogueira do Leo, a Fogueira da Raposa 
e a Fogueira do Mamute. Como a tenda no era to espaosa quanto a habitao de terra, seria utilizada primeiramente para dormir, e era raro que todos estivessem 
dormindo ao mesmo tempo. Outras atividades particulares, sociais e pblicas seriam realizadas fora, ou seja, armar a tenda significava tambm definir o territrio 
alm da tenda. A localizao da Fogueira de Tifceas, a principal fogueira externa para cozinhar, era uma questo de alguma importncia.
     Enquanto trabalhavam para armar a tenda e marcar seu territrio, o resto das pessoas na Reunio comeou a recuperar-se do silncio inicial espantado, e se ps 
a conversar excitadamente entre si. Afinal, Ayla descobriu a fonte do berro peculiar abafado. Lembrou-se de que quando chegou ao Acampamento do Leo, achou que havia 
rudo demais quando todos falavam ao mesmo tempo. Ali, havia aquele barulho multiplicado muitas vezes; eram as vozes combinadas de toda a multido.
     No era de admirar que Whinney e Racer ficassem to ariscos, pensou Ayla. O som constante de conversa a deixava assustada tambm. No estava acostumada a ela. 
A Reunio de Cls no havia sido to grande, mas mesmo se fosse, no teria sido to ruidosa. Eles usavam poucas palavras para se comunicar; uma reunio da gente 
do Cl era silenciosa. Mas com pessoas que usavam fala verbal, exceto em raras ocasies, era sempre ruidoso dentro do acampamento. Como o vento nas estepes, as vozes 
jamais cessavam, somente variavam de intensidade.
     Muitas pessoas correram para saudar o Acampamento do Leo, oferecendo para ajudar a erguer a tenda e arrumar a moradia, e foram acolhidas amavelmente, mas Talut 
e Tulie se entreolharam vrias vezes, significativamente. No se lembravam de ter tantos amigos to desejosos de ajudar, antes. Com o auxlio de Latie, Jondalar 
e Ranec, e por algum tempo, Talut, Ayla providenciou um local para os cavalos. Os dois rapazes trabalharam juntos facilmente, porm, falaram pouco. Ela recusou ofertas 
de pessoas curiosas dispostas a ajudar, explicando que os cavalos eram tmidos, e desconhecidos os deixavam nervosos. Mas isso deixou claro, apenas, que ela era 
a pessoa que controlava os animais e provocou mais curiosidade. Os boatos sobre ela correram rapidamente.
     Na extremidade mais distante do acampamento, ao redor de uma curva do muro da ravina que se abria para o vale do rio, construram um alpendre tipo toldo, utilizando 
a tenda de couro que ela e Jondalar tinham usado quando viajaram juntos, sustentada por pequenas rvores e galhos fortes. Estava um pouco escondida da viso das 
pessoas acampadas na depresso, porm a vista do rio e dos belos prados arborizados era ampla.
     Eles se instalavam e preparavam locais para dormir nos alojamentos um pouco mais apinhados, quando uma delegao do Acampamento do Lobo, juntamente a vrias 
outras, vieram dar-lhes as boas-vindas, oficialmente. Estavam em territrio do Acampamento anfitrio e, embora fosse esperado, era mais do que cortesia estender 
a todos os visitantes o uso das caniadas hereditrias para pesca do Acampamento do Lobo, canteiros de razes, sementes, nozes e morangos, amoras, e terrenos de 
caa. Embora a Reunio de Vero no fosse durar a estao inteira, hospedar um to grande nmero de pessoas teria um preo, e era necessrio descobrir se alguma 
determinada rea devia ser evitada, para no exigir demais dos re cursos da regio.
     Talut ficara bastante surpreso quando recebeu a notcia da mudana de local da Reunio de Vero. Os Mamutoi, em geral, no se reuniam num acampamento domstico. 
Usualmente escolhiam um local nas estepes ou nalgum vale ribeirinho que pudesse acomodar uma concentrao to grande de pessoas mais facilmente.
     - Em nome da Grande Me de todos, o Acampamento do Leo  bem-vindo - disse uma mulher magra, de cabelos grisalhos.
     Tulie ficou chocada ao v-la. Ela havia sido uma mulher de raro encanto e sade excelente, que dividira a responsabilidade de sua co-liderana com tranqilidade, 
mas parecia ter envelhecido dez anos desde a ltima estao.
     - Marlie, apreciamos sua hospitalidade. Em nome de Mut, agradecemos.
     - Vejo que repetiu a faanha - disse um homem, segurando as duas mos de Talut em saudao.
     Valez era mais jovem que a irm, mas, pela primeira vez, Tulie notou que ele tambm mostrava sinais de envelhecimento. Ela ficou consciente, de sbito, de sua 
prpria mortalidade. Sempre considerara Marlie e Valez como mais ou menos de sua idade.
     - Mas acho que esta  a sua maior surpresa - continuou Valez. - Quando Toran entrou correndo, gritando algo sobre cavalos cruzando o rio com vocs, todos tiveram 
que ir olhar. E depois, algum descobriu o lobo...
     - No pediremos para que nos conte sobre os animais agora - disse Marlie -, embora deva confessar que estou curiosa. Apenas, ter que repetir a histria muitas 
vezes. Talvez possamos esperar at esta noite, para voc poder contar a todo mundo de uma s vez.
     - Claro, Marlie tem razo - falou Valez, embora estivesse pronto para ouvir a histria imediatamente. Tambm notou que sua irm parecia especialmente cansada. 
Temia que aquela fosse sua ltima Reunio de Vero. Por isto ele concordara em hospedar a todos, quando o local que havia sido originalmente escolhido fora inundado 
por uma mudana no curso do rio. Naquela estao, eles entregariam sua co-liderana.
     - Por favor, usem o que precisarem. Esto  vontade? Lamento terem que ficar to longe, mas esto atrasados. Eu no tinha sequer certeza se viriam - disse Marlie.
     - Ns no viemos diretamente - concordou Talut. - Mas este  o melhor lugar.  melhor para os animais. No esto acostumados a tanta gente.
     - Eu gostaria de saber como se acostumaram com uma pessoa! - gritou uma voz. Os olhos de Tulie se iluminaram quando um rapaz alto se acercou, mas Deegie chegou 
at ele primeiro.
     - Tarneg! Tarneg! - gritou, enquanto o abraava. O resto da Fogueira dos Auroques estava atrs dela. Ele abraou sua me, e depois Barzec, e todos tinham lgrimas 
nos olhos. Em seguida, Druwez, Brinan e Tusie reclamaram sua ateno. Ele colocou os braos ao redor dos ombros dos meninos, abraou-os e apreciou como tinham crescido. 
Em seguida pegou Tusie ao colo. 
     Depois de um abrao mtuo e ccegas que causaram risadinhas deleitadas, Tarneg a colocou no cho.
     - Tarneg! - trovejou Talut.
     - Talut, seu grande urso! - Tarneg respondeu em uma voz to forte quanto  do chefe, enquanto se abraavam. Havia forte semelhana familiar - ele era quase
to urso quanto seu tio-, mas Tarneg tinha o colorido mais bronzeado da me. Inclinou-se para roar a face de Nezzie com a sua, depois, com um sorriso malicioso,
abraou a mulher gorda e pegou- a ao colo.
     - Tarneg! O que est fazendo? Ponha-me no cho! censurou ela.
     Ele obedeceu, depois piscou para ela.
     - Agora sei que sou um homem to bom quanto voc, Talut - disse, e riu alto. -Sabe h quanto tempo eu queria fazer isso? S para provar que era capaz?
     - No  necessrio... - comeou Nezzie.
     Talut atirou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.
     -  preciso mais que isso, rapaz. Quando puder me igualar nas peles de dormir, ser um homem to bom quanto eu.
     Nezzie desistiu de tentar recuperar sua dignidade, e apenas olhou para o grande urso, sacudindo a cabea com afeio exasperada.
     - O que h na Reunio de Vero que faz os velhos quererem provar que so jovens de novo? - disse ele. - Bern, ao menos, deixe-me descansar.
     - Percebeu o olhar interessado de Ayla.
     - Eu no apostaria nisso! - exclamou Talut. - No sou to velho que no possa abrir caminho para a leoa da minha fogueira, somente porque tenho outros envolvimentos.
     - Hum - Nezzie deu de ombros, afastando-se, desdenhando responder.
     Ayla estava de p perto dos dois cavalos, e conservando o lobo ao seu lado, para que no uivasse e assustasse as pessoas, mas estivera observando toda a cena 
com grande interesse, inclusive as reaes das pessoas que se encontravam prximas. Danug e Druwez pareciam embaraados. Embora ainda no tivessem experincia, sabiam 
que assunto estava sendo discutido, e andavam pensando bastante naquilo. Tarneg e Barzec riam largamente. Latie corou e tentou esconder-se atrs de Tulie, que parecia 
no ser atingida por toda aquela tolice. A maioria das pessoas sorria, afavelmente, at Jondalar, notou Ayla, surpresa. Ela havia-se perguntado se as razes para 
o modo de agir de Jondalar em relao a ela tinham algo a ver com os costumes, que eram muito diferentes. Talvez, ao contrrio dos Mamutoi, os Zelandonii no acreditassem 
que as pessoas tinham o direito de escolher seus parceiros, mas ele no parecia desaprovar.
     Quando Nezzie passou por Ayla a caminho da tenda, esta notou um sorriso experiente brincando em sua boca tambm.
     - Acontece todo ano - disse ela, quase num cochicho. - Ele tem que fazer uma cena, dizer a todos que homem , e nos primeiros dias at encontrar um ou dois 
envolvimentos, embora sejam sempre mulheres parecidas comigo: louras e gordas. Depois, quando acha que ningum mais est reparando, fica suficientemente feliz 
para passar a maior parte da noite no Acampamento de Tifceas... E no to feliz se no estou l.
     - Aonde voc vai?
     - Quem pode garantir? Com uma Reunio deste tamanho, embora se conhea todo mundo, ou ao menos, todo acampamento, voc no conhece bem todas as pessoas. Cada 
ano existe algum para se conhecer melhor. Embora, confesso, a maior parte das vezes seja uma outra mulher com filhos adolescentes e uma nova maneira de temperar 
mamutes. s vezes, um homem me atrai, ou eu o atraio, mas no preciso fazer um espetculo por causa disso. Talut acha certo se vangloriar, mas se a verdade fosse 
conhecida, acho que ele no gostaria que eu me vangloriasse.
     - Ento, no faz isso - disse Ayla.
     -  uma coisa insignificante para preservar a harmonia e boa vontade na fogueira... E bem, para agrad-lo.
     - Voc o ama realmente, no ?
     - Aquele urso velho! - Nezzie comeou a objetar, depois sorriu e a ternura surgiu em seus olhos. - Ns tivemos nossas dificuldades no incio... Sabe como ele 
 forte... Mas nunca permiti que levasse vantagem comigo, ou me dominasse com gritos. Acho que  isso que ele gosta em mim. Talut poderia partir um homem ao meio, 
se quisesse, mas no  de seu feitio. s vezes, encoleriza-se, mas no existe crueldade nele. Jamais ferir algum mais fraco... E isto inclui quase todo mundo! 
Sim, eu o amo, e quando voc ama um homem, quer fazer coisas para agrad-lo.
     - Voc... No iria com outro homem que a atrasse, mesmo querendo, se isto o agradasse?
     - Isso no seria difcil na minha idade, Ayla. Realmente, se a verdade fosse conhecida, eu no teria muito do que me gabar. Quando era mais jovem, ainda esperava 
com ansiedade a Reunio de Vero para ver caras novas e jogos divertidos, e at uma vez ou outra as peles de dormir... Mas acho que Talut tem razo numa coisa. No 
h muitos homens capazes de igual-lo. No por causa de todos os envolvimentos de que  capaz de ter, mas porque se importa como faz a coisa.
     Ayla sacudiu a cabea com compreenso. Depois franziu atesta, pensando. O que voc faz se existem dois homens e todos dois se importam?
     - Jondalar!
     Ayla levantou os olhos ao ouvir a voz desconhecida gritar o nome dele. Ela viu Jondalar sorrir e caminhar para uma mulher e cumpriment-la cordialmente.
     - Ento ainda est com os Mamutoi! Onde est seu irmo? - disse a mulher. Era uma mulher de aparncia forte, no alta, mas musculosa.
     A testa de Jondalar se enrugou de sofrimento. Ayla pde ver pela expresso da mulher.
     - Como aconteceu?
     - Uma leoa roubou sua caa e ele a perseguiu at a toca. Seu companheiro o atacou, feriu-me tambm - disse Jondalar no menor nmero de palavras possvel.
     A mulher sacudiu a cabea, compreensiva.
     - Diz que foi ferido? Como escapou?
     Jondalar olhou para Ayla e viu que ela o observava. Conduziu a mulher at ela.
     - Ayla, esta  Brecie dos Mamutoi, chefe do Acampamento do Salgueiro... Ou melhor, Acampamento do Alce. Talut disse que esse  o nome do seu Acampamento de 
inverno. Esta  Ayla dos Mamutoi, filha da Fogueira do Mamute, do Acampamento do Leo.
     Brecie ficou surpresa. Filha da Fogueira do Mamute? De onde ela viera? No estava com o Acampamento do Leo no ano anterior. Ayla no era, sequer, um nome Mamutoi.
     - Brecie - disse Ayla. - Jondalar me falou de voc. Foi quem salvou Jondalar e o irmo das areias movedias do Grande Rio Me, e  amiga de Tulie. Estou contente 
por conhec-la.
     Certamente, esse sotaque no  Mamutoi, e tampouco Sungaea, pensou Brecie. Tambm no  o sotaque de Jondalar. No estou certa, sequer, se  um sotaque. Ela 
fala Mamutoi realmente muito bem, mas tem uma maneira peculiar de engolir algumas palavras.
     -  um prazer... Ayla, no ? - perguntou Brecie.
     - Sim, Ayla.
     -  um nome diferente. - Quando no houve explicao, Brecie continuou: - Parece ser voc que est... Hum... Vigiando os animais. - Ocorreu-lhe que nunca estivera 
to perto de um animal vivo, ao menos um que estivesse parado, e no tentasse fugir.
     - Porque eles obedecem a Ayla - disse Jondalar com um sorriso.
     - Mas no vi voc com um deles? Confesso que me surpreendeu, Jondalar. Com essas roupas, pensei a princpio que fosse Darnev, e quando voc conduzia um cavalo, 
pensei que ou estava imaginando coisas, ou que Darnev voltara do mundo dos espritos.
     - Aprendo sobre estes animais com Ayla - falou Jondalar. - Foi ela quem me salvou do leo da caverna tambm. Acredite, ela tem um dom para cuidar de animais.
     - Parece bvio - falou Brecie, agora abaixando o olhar para Lobo, que no estava to nervoso, embora seu estado de alerta parecesse mais ameaador. - Foi por 
isto que ela foi adotada pela Fogueira do Mamute?
     - Esta foi uma das razes - disse Jondalar.
     Fora um tiro no escuro de Brecie, o palpite de que Ayla havia sido recentemente adotada pelo Mamut do Acampamento do Leo. A resposta de Jondalar confirmou 
suas especulaes. No explicava, porm, de onde Ayla viera. A maioria das pessoas supunha que ela viera com o homem alto e louro, talvez uma companheira de fogueira, 
ou uma irm, mas ela sabia que Jondalar chegara em seu territrio somente com um irmo. Onde ele encontrara aquela mulher?
     - Ayla! Que bom rever voc.
     Ela levantou a cabea para ver Branag de braos dados com Deegie. Abraaram-se com afeto e roaram os rostos um no outro. Embora ela tivesse visto Branag apenas 
uma vez, ele parecia um velho amigo, e era bom conhecer algum naquela Reunio.
     - Mame quer que venha conhecer o chefe e a chefe do Acampa mento do Lobo - disse Deegie.
     - Claro - concordou Ayla, bastante contente por ter uma desculpa para se afastar da arguta Brecie. Ayla havia notado a mente rpida trabalhando nos palpites 
sagazes da mulher, e sentiu-se um pouco desconcertada perto dela. - Jondalar, quer ficar aqui com os cavalos? - Ela observara algumas pessoas se aproximarem com 
Branag e Deegie, e se acercavam mais dos animais. - Tudo isto  novo para eles, e ficam mais felizes quando h algum que conhecem por perto. Onde est Rydag? Ele 
pode vigiar Lobo.
     - Est l dentro - disse Deegie.
     Ayla se voltou para olhar e o viu de p, timidamente,  entrada.
     - Tulie quer que eu conhea a chefe. Pode vigiar Lobo? - disse Ayla, fazendo sinais tambm.
     - Vigio - respondeu ele por sinais, olhando para a multido prxima, com um pouco de apreenso. Rydag saiu devagar, depois se sentou ao lado de Lobo e passou 
o brao em volta do animal.
     - Vejam aquilo! Ela at fala com cabeas-chatas. Deve ser boa com animais! - gritou uma voz desdenhosa do meio da multido. Vrias pessoas riram.
     Ayla deu meia-volta e fitou-as com raiva, procurando quem falara.
     - Qualquer pessoa pode falar com eles... Pode-se falar com uma rocha tambm... O difcil  conseguir que respondam - disse outra voz, provocando mais riso.
     Ayla se virou nessa direo, quase explodindo, to zangada que mal conseguia falar.
     - Algum aqui est dizendo que o menino  um animal? - falou uma voz familiar. Ayla franziu a testa quando um membro do Acampamento do Leo avanou.
     - Eu estou, Frebec. Por que no? Ele no sabe o que digo. Os cabeas-chatas so animais, voc mesmo disse isso muitas vezes.
     - Agora digo que eu estava errado, Chaleg. Rydag sabe exatamente o que voc est dizendo, e no  difcil faz-lo responder. Voc tem apenas que aprender sua 
linguagem.
     - Que linguagem? Cabeas-chatas no falam. Quem est lhe contando essas histrias?
     - Linguagem de sinais. Ele fala com as mos - disse Frebec. Houve um riso geral de caoada. 
     Agora, Ayla observava Frebec com curiosidade. Ele no gostava que rissem dele.
     - Ento, no acredite em mim - disse, dando de ombros e comeando a se afastar, como se no se impo virou-se para encarar o homem que havia ridicularizado Rydag. 
- Mas, vou lhe dizer mais uma coisa. Ele  capaz de falar com aquele lobo tambm, e se ele disser ao lobo para pegar voc, eu no apostaria em suas chances.
     Sem Chaleg perceber, Frebec havia feito sinais a Rydag, os sinais manuais que no significavam nada para Chaleg. Rydag, em troca, havia interrogado Ayla. Todo 
o Acampamento do Leo observava, divertindo-se ao saber o que acontecia por meio da linguagem de sinais, que podiam falar diante de toda aquela gente sem que soubessem.
     Sem se virar, Frebec continuou:
     - Por que no mostra a eles, Rydag?
     De repente, Lobo no estava mais sentado pacificamente com o brao do menino ao seu redor. 
     Num salto rpido, Lobo atacou o homem, o plo eriado, os dentes  mostra, e um uivo que arrepiou os cabelos da nuca de todos os presentes. Os olhos do homem 
se arregalaram quando saltou para trs, aterrorizado. A maioria das pessoas ao seu lado recuou tambm, mas Chaleg continuou a correr. A um sinal de Rydag, Lobo voltou 
calmamente para o seu lugar ao lado do menino, parecendo bastante satisfeito consigo mesmo. Girou algumas vezes, depois deitou-se com a cabea sobre as patas e observou 
Ayla.
     Era correr um risco, pensou Ayla. No entanto, o sinal dado no era exatamente para atacar. Era uma brincadeira que as crianas faziam com Lobo, um jogo de salto 
e de avano que os filhotes de lobo utilizavam entre si com freqncia, exceto que Lobo havia sido ensinado a controlar sua mordida. Ayla usara um sinal semelhante 
em suas incurses de caa, quando queria que o animal levantasse a caa para ela. Embora, s vezes, ele acabasse saltando e matando os animais, no era o sinal para 
ferir, realmente, algum, e Lobo no havia tocado no homem. Apenas saltara em sua direo. Mas o perigo estava em que poderia t-lo feito.
     Ayla sabia como os lobos protegiam seu territrio, ou sua alcatia. Eles matariam para defend-los. No entanto, enquanto observava Lobo voltar ao seu lugar, 
pensou que, se lobos pudessem rir, Lobo estaria rindo. No pde deixar de sentir que ele sabia o que estava acontecendo; que a idia era apenas blefar, e sabia exatamente 
como faz-lo. No era apenas um ataque de brincadeira, no havia nada de engraado na maneira como se moveu. Deu todos os avisos de ataque. Apenas, parara a tempo. 
A exposio repentina a grupos de pessoas fora difcil para o lobinho, mas ele havia-se portado bem. E ver a expresso no rosto daquele homem, fizera valer a pena 
correr o risco. Rydag no era um animal!
     Branag parecia um pouco chocado, mas Deegie sorria quando se juntaram a Tulie e Talut, e outro casal. Ayla foi formalmente apresentada aos co-lderes do acampamento 
anfitrio e, imediatamente, soube o que todo mundo sabia. Marlie estava muito doente. No devia sequer estar ali de p, pensou Ayla, prescrevendo mentalmente medicamentos 
e preparados para ela. Ao notar a cor, a expresso do olhar, a textura da pele e do cabelo, Ayla se perguntou se alguma coisa poderia ajud-la, mas sentiu a fora 
da mulher; ela no cederia facilmente. E isso podia ser mais importante que remdios.
     - Foi uma demonstrao e tanto, Ayla - disse Marlie, notando a peculiaridade interessante de sua fala. - Quem controlava o lobo, o menino ou voc?
     - O Conselho de Irms - disse Tulie. - As irms so a autoridade
     - No sei - disse ela, sorrindo. - Lobo responde a sinais, mas ns dois os fizemos.
     - Lobo? Voc fala como se fosse um nome - disse Valez.
     -  o nome dele.
     - Os cavalos tambm tm nome? - perguntou Marlie.
     - A gua  whinny - disse Ayla da forma como soaria um relincho, e Whinney respondeu ao som, provocando sorrisos, mas nervosos. - A maioria das pessoas apenas 
diz o seu nome, Whinney. O garanho  seu filho. Jondalar lhe ps o nome de Racer.  uma palavra da lngua dele que significa algum que corre depressa e vence os 
outros.
     Marlie balanou a cabea afirmativamente. Ayla olhou fixamente para Marlie, depois se virou para Talut.
     - Estou muito cansada do trabalho de acomodar os animais. V aquela grande tora? Pode traz-la para c para que me sente?
     A principio, o grande chefe ficou totalmente assombrado. Era to fora de propsito. Simplesmente. Ayla no pediria uma coisa dessas, ainda mais no meio de uma 
conversa com a chefe do acampamento anfitrio. Se algum precisava de um lugar para sentar-se, era Marlie, sem dvida. Ento, compreendeu. Claro! Por que no havia 
pensado nisso antes? Correu para pegar a tora e trouxe-a, ele mesmo.
     Ayla se sentou.
     - Espero que no se incomodem. Estou realmente cansada. Quer sentar-se, Marlie?
     Marlie se sentou, tremendo um pouco. Um pouco depois, ela sorriu.
     - Obrigada, Ayla. No tencionava ficar aqui tanto tempo. Como soube que eu sentia tonteira?
     - Ela  curandeira - disse Deegie.
     - Uma chamadora e uma curandeira? Uma combinao rara. No  de admirar que a Fogueira do Mamute a tenha reivindicado.
     - H uma coisa que gostaria de preparar para voc, se quiser tomar - disse Ayla.
     - As curandeiras me viram, mas pode tentar, Ayla. Agora, antes que o assunto seja esquecido para sempre, existe uma pergunta que quero fazer. Tinha certeza 
de que o lobo no iria ferir o homem?
     Ayla fez uma pausa rpida.
     - No, no tinha. Ele ainda  muito novo, e nem sempre completamente confivel. Mas pensei que me encontrava perto o bastante para impedir seu ataque, se no 
se detivesse.
     Marlie concordou com um gesto de cabea.
     - As pessoas nem sempre so totalmente confiveis. No esperaria que os animais fossem. Se tivesse dito outra coisa, eu no acreditaria. Chaleg se queixar, 
sabe, assim que se recuperar, para salvar as aparncias. Levar o assunto ao Conselho de Irmos e eles o traro a ns.
     - Ns? Final. Esto mais perto da Me.
     - Estou contente porque vi o fato. Agora, no preciso preocupar-me em escolher entre histrias conflitantes que, para comear, so inacreditveis - disse Marlie. 
Desviou o olhar e examinou os cavalos e Lobo. - Parecem animais perfeitamente normais, no espritos ou outras coisas mgicas. Diga-me, o que os animais comem quando 
esto com voc, Ayla? Eles comem, no ?
     - A mesma coisa que comem sempre. Lobo come carne, em geral, tanto crua quanto cozida.  como outra pessoa na habitao e come, na maioria das vezes, o mesmo 
que eu, at verduras. s vezes, cao para ele, mas ele j sabe pegar ratos e pequenos animais sozinho. Os cavalos comem capim e cereais. Eu pensava em lev-los para 
aquele prado do outro lado do rio e deix-los l por algum tempo.
     Valez olhou para o rio e depois para Ayla percebeu que ele refletia.
     - No gosto de dizer isto, Ayla, mas poderia ser perigoso deix-los.
     - Por qu? - perguntou ela com um vislumbre de pnico na voz.
     - Caadores. Os cavalos se parecem com qualquer outro, particularmente a gua. A cor escura do mais novo ainda  bastante rara. Teramos que avisar para que 
no matassem nenhum cavalo castanho, especialmente se parecessem amistosos. Mas a gua... Todo cavalo da estepe  daquela cor, e no creio que possamos pedir s 
pessoas para no matar cavalos. E a carne favorita de algumas - explicou Valez.
     - Ento terei que ir com ela - disse Ayla.
     - No pode fazer isso! - exclamou Deegie. - Perder as festival.
     - No posso deixar nada feri-la - disse Ayla. - Terei que perder as cerimnias.
     - Seria uma grande pena - falou Tulie.
     - No tem nenhuma idia? - perguntou Deegie.
     - No... Se ao menos ela fosse castanha tambm - falou Ayla.
     - Bem, por que no a fazer castanha?
     - Fazer castanha? Como?
     - E se misturarmos algumas cores que fao com o couro, e passarmos nela?
     
     Ayla refletiu um pouco.
     - Creio que no dar certo. E uma boa idia, Deegie, mas o problema  que a cor, realmente, no far grande diferena. At Racer corre perigo. Um cavalo castanho 
continua sendo um cavalo, e se algum est caando cavalos, no ser fcil lembrar de no matar os castanhos.
     - Verdade - falou Talut. - Os caadores pensam em caar, e dois cavalos castanhos que no temem as pessoas seriam alvos muito tentadores.
     - Que tal uma cor diferente como... Vermelho? Por que no transformar Whinney numa gua vermelha? Uma gua vermelha. Ento, ela realaria certamente.
     Ayla fez uma careta.
     - No gosto da idia de faz-la ficar vermelha, Deegie. Ela pareceria muito estranha. No entanto,  uma boa idia. Todo mundo saberia que ela no  um cavalo 
comum. Acho que deveramos fazer isso, mas um cavalo vermelho... Espere! Tenho outra idia - Ayla entrou correndo na tenda.
     Deixou cair  mochila sobre as peles de dormir, e encontrou o que procurava perto do fundo. Saiu correndo.
     - Veja, Deegie! Lembra-se disto? - perguntou Ayla, estendendo o couro vermelho-vivo que ela mesma havia tingido. - Eu nunca soube o que fazer com isto. Gostei 
apenas por causa da cor. Posso amarrar o couro em Whinney quando ela estiver no campo sozinha.
     -  um vermelho-vivo! - disse Valez, sorrindo e sacudindo a cabea afirmativamente. - Acho que dar certo. Com o couro sobre ela, todo mundo que vir a gua 
saber que  um animal especial, e provavelmente, hesitar em ca-la, mesmo sem ser avisado. Podemos anunciar esta noite que o cavalo com o manto vermelho e o castanho 
no devem ser caados.
     - No faria mal amarrar alguma coisa em Racer tambm - disse Talut. - No precisaria ser uma cor to viva, mas algo feito por uma pessoa, de forma que algum 
que se aproximar o bastante para atirar uma lana saber que no  um cavalo comum.
     - Eu sugeriria - ajuntou Marlie - que do momento em que todas as pessoas no so inteiramente confiveis, s vezes, avisar no  suficiente. Talvez fosse prudente 
para voc e seu Mamut inventarem alguma proibio sobre matar cavalos. Uma boa maldio pode assustar bastante algum que se sinta tentado a ver se esses animais 
so mortais, realmente.
     - Pode sempre dizer que Rydag enviar Lobo para atacar qualquer pessoa que fira os cavalos - falou Branag com um sorriso. -  provvel que esta histria tenha 
se espalhado por toda a Reunio agora, e sinto aumentada  medida que  contada por cada um.
     - Talvez no seja m idia - disse Marlie, levantando-se para ir embora. - Ao menos, poderia espalhar-se como um boato.
     Eles observaram os co-lderes do Acampamento do Lobo se afastarem, depois, sacudindo a cabea com tristeza, Tulie foi acabar de se instalar. Talut resolveu 
ir ver quem estava organizando as competies para que houvesse uma disputa com o arremessador de lanas, e parou para falar com Brecie e Jondalar. Os trs prosseguiram 
juntos. Deegie e Branag se dirigiram para os cavalos com Ayla.
     - Sei quem poder comear o boato - disse Branag. - Com as histrias que j circulam, mesmo que no se acredite nelas inteiramente, acho que evitaro os cavalos. 
No acredito que algum queira correr o risco de Rydag mandar o lobo persegui-lo. Tenho querido perguntar uma coisa: - como Rydag sabe fazer sinais ao lobo?
     Deegie olhou para o homem a quem estava prometida, surpresa.
     - Acho que no sabe, no ? No sei por que motivo fico pensando que somente porque sei uma coisa voc tambm sabe. Frebec no inventava apenas urna coisa para 
defender o Acampamento do Leo. Dizia a verdade. Rydag compreende tudo o que todos dizem. Sempre entendeu. Apenas, no sabamos disso at Ayla nos ensinar toda a 
linguagem de sinais para podermos compreend-lo. Quando Frebec fingiu se afastar, fez sinal a Rydag e Rydag perguntou a Ayla. Todos sabamos o que eles diziam, assim 
sabamos o que ia acontecer.
     - E verdade? - indagou Branag. -Vocs falavam uns com os outros e ningum sabia! - Riu. - Bem, se vou fazer parte das surpresas do Acampamento do Leo  melhor 
aprender tambm esta linguagem secreta.
     - Ayla! - gritou Crozie, saindo da tenda. Pararam e esperaram por ela. - Tulie acabou de me contar que resolveu marcar os cavalos - disse ela, caminhando para 
eles. - Idia inteligente, e vermelho realar em um cavalo de plo claro, mas no tem duas peles vermelhas brilhantes. Quando eu desfazia a bagagem, encontrei uma 
coisa que quero lhe dar. - Abriu uma trouxa que havia sido recentemente desamarrada e pegou um couro dobrado e sacudiu-o, abrindo-o.
     - Oh, Crozie! - exclamou Ayla. - Este  bonito! - disse, maravilhada quando viu uma capa de couro branco-giz, enfeitada com contas de marfim em tringulos sutilmente 
repetidos, e espinhos de ourio, tingidos de vermelho-ocre e costurados em padres de ziguezagues e espirais formando ngulos retos.
     Os olhos de Crozie se iluminaram diante da admirao de Ayla. Tendo feito uma tnica, Ayla compreendia a dificuldade de tornar o couro branco.
     - E para Racer. Acho que o branco contra seu plo marrom-escuro realar mais.
     - Crozie  uma capa bonita demais para isso. Ficar suja e empoeirada, e especialmente, se ele tentar rolar com ela, ficar sem os enfeites. No posso deixar 
Racer usar isto no campo - disse Ayla.
     Crozie olhou para ela severamente.
     - Se algum estiver l caando cavalos e vir um cavalo marrom enfeitado com uma capa branca decorada, acha que o caador atirar uma lana contra ele?
     - No, mas voc teve muito trabalho com isso para deixar que se estrague.
     - O trabalho foi feito muitos anos atrs - disse Crozie. Depois com uma expresso suave e os olhos toldados, ajuntou: - Foi feita para meu filho, o irmo de 
Fralie. Jamais fui capaz de d-la a ningum mais. No podia suportar ver algum usando a capa e era incapaz de jog-la fora. Eu a tenho arrastado de um lugar a outro, 
um pedao de couro intil, o trabalho perdido. Se este couro ajudar a proteger o animal, no mais ser intil, o trabalho ter algum valor. Quero que fique com ela, 
pelo que voc tem me dado.
     Ayla pegou o embrulho, mas pareceu intrigada:
     - O que tenho lhe dado, Crozie?
     - No  importante - respondeu ela, abruptamente. - Pegue a capa, s isso.
     Frebec, entrando apressadamente na tenda, levantou os olhos e os viu, e sorriu, cheio de amor-prprio, antes de entrar. Eles retriburam o sorriso.
     - Fiquei muito surpreso quando Frebec defendeu Rydag - comentou Branag. - Eu achava que ele seria a ltima pessoa a faz-lo.
     - Ele mudou muito - disse Deegie. - Ainda gosta de discutir, mas no  to difcil conviver com ele agora. s vezes, ele ouve os outros.
     - Bem, ele nunca teve medo de dar um passo  frente e dizer o que pensava - falou Branag.
     - Talvez tenha sido isso - disse Crozie. - Nunca compreendi o que Fralie viu nele. Tentei convenc-la a no se unir a ele. Ele nada tinha a oferecer. Sua me 
no tinha status, ele no possua qualquer dom particular, eu achava que ela jogava sua vida fora. Talvez, s ter a coragem de pedir seja algo a seu favor, e ele 
realmente a queria. Suponho que eu devia ter confiado no critrio de Fralie o tempo todo, afinal, ela  minha filha. S porque algum vem de uma origem pobre no 
significa que no queira melhorar.
     Branag olhou para Deegie, depois para Ayla, por sobre a cabea de Crozie. Em sua opinio, ela havia mudado ainda mais que Frebec.
     Ayla estava sozinha na tenda. Ela lanou um olhar  rea que seria sua casa durante sua estada, tentando encontrar mais um item para dobrar, ou um objeto para 
arrumar, ou mais uma razo para demorar a deixar os limites do Acampamento de Tifceas. Assim que ficasse pronta, tinha lhe dito Mamut, ele queria lev-la para conhecer 
as pessoas com quem ela estava ligada de uma forma nica, os Mamut, aqueles que pertenciam  Fogueira do Mamute.
     Ela considerava o encontro uma provao, certa de que iriam interrog-la, avali-la, e julgar se tinha o direito de ser includa em suas fileiras. Em seu corao, 
no acreditava que tivesse. No se sentia dotada de dons nicos e ddivas especiais. Era curandeira porque havia aprendido a arte e saber de uma curandeira como 
Iza. No havia grande magia em ter animais, tampouco. A gua lhe obedecia porque, quando estava sozinha e solitria em seu vale, havia tido por companhia uma cria 
sem me, e Racer l nascera. Ela salvou Lobo porque devia isso  me dele, e ela sabia, na poca, que os animais criados perto das pessoas eram amistosos. No era 
um grande mistrio. Rydag havia permanecido um pouco no interior da tenda com ela, depois que ela o examinara, fazendo-lhe perguntas especficas sobre como se sentia 
e fazendo uma anotao mental para ajustar seu medicamento. Depois, ele saiu e sentou-se com Lobo, observando as pessoas. Nezzie havia concordado com ela em que
parecia mais animado. A mulher estava cheia de deleite assumido e elogios para Frebec, que havia ouvido tantas palavras de louvor, que estava quase embaraado. Ayla
nunca o tinha visto sorrir tanto, e sabia que parte da sua felicidade era a sensao de aceitao e participao. Ela compreendia o seu sentimento.
     Ayla olhou ao redor uma ltima vez, pegou um recipiente de couro cru e prendeu-o ao cinto; depois, suspirou e caminhou para o exterior.
     Todos pareciam ter desaparecido, exceto Mamut que falava com Rydag.
     Lobo a viu e levantou a cabea quando Ayla se acercou, o que fez com que Rydag e Mamut olhassem tambm.
     - Todos foram embora? Talvez eu deva ficar aqui e tomar conta de Rydag at algum voltar - disse ela, rpida em fazer o oferecimento.
     - Lobo me vigia - disse Rydag por sinais, rindo. - Ningum fica muito tempo quando v Lobo. Eu disse para Nezzie ir. Voc tambm, Ayla.
     - Ele tem razo. Lobo parece contente em ficar aqui com Rydag e no posso imaginar um guardio melhor - disse Mamut
     - E se ele ficar doente? - disse Ayla.
     - Se ficar doente digo a Lobo para chamar Ayla - Rydag fez o sinal que tinha usado antes na prtica e na brincadeira. Lobo ficou de p em um salto, colocou 
as patas no peito de Ayla e esticou o pescoo para lamber-lhe o queixo, ansioso para atrair sua ateno.
     Ela sorriu, acariciou-lhe o pescoo, depois lhe fez sinal para deitar.
     - Quero ficar aqui, Ayla. Gosto de observar, O rio. Cavalos no campo. Pessoas passando. - Rydag sorriu. - Nem sempre me vem, olham para a tenda, para o lugar 
dos cavalos. Depois vem Lobo. Gente engraada.
     Mamut e Ayla sorriam diante do prazer simples de Rydag em ver as reaes surpresas das pessoas.
     - Bem, suponho que est bem. Nezzie no o teria deixado se no achasse que seria seguro - disse Ayla, cedendo seu ltimo argumento para no se afastar. - Estou 
pronta para ir, Mamut.
     Quando caminharam juntos para os alojamentos permanentes do Acampamento do Lobo, Ayla notou uma concentrao mais compacta de tendas e acampamentos, e maior 
nmero de pessoas circulando entre eles. Ela ficou contente por eles estarem na extremidade externa, de onde ela podia ver rvores e capim, e o rio e a pradaria. 
Vrias pessoas sacudiram a cabea em saudao ou lhes falaram quando passaram. Ayla observou Mamut, notando como ele reconhecia as saudaes e respondia da mesma 
maneira.
     Uma habitao no fim da fila um pouco irregular de seis, parecia ser o centro das atividades. Ayla reparou uma rea vazia, sem acampamentos perto da moradia, 
e compreendeu que devia ser o local onde as pessoas se reuniam. Os acampamentos que eram imediatamente adjacentes  clareira no tinham a aparncia de reas domsticas 
comuns. Um deles tinha uma cerca feita de ossos de mamute abertamente espaados, galhos e arbustos secos marcando os limites territoriais. Quando passaram por ele, 
Ayla ouviu chamarem seu nome. Parou, surpresa com quem a havia chamado do outro lado da cerca.
     - Latie! - exclamou, depois se lembrou do que Deegie lhe contara. Enquanto Latie continuava, ainda, na habitao do Acampamento do Leo, a restrio sobre sua 
associao com homens no limitava seus movimentos ou atividades, demasiadamente. No entanto, quando chegassem ao local da Reunio, era necessrio que ela fosse 
mantida em recluso. vrias outras jovens se encontravam com ela, todas sorrindo e rindo baixinho. Ela foi apresentada s companheiras de idade de Latie, que pareciam 
sentir grande admirao por ela.
     - Aonde vai, Ayla?
     - A Fogueira do Mamute - respondeu Mamut.
     Latie sacudiu a cabea concordando, como se devesse saber. Viu Tulie no ptio cercado ao redor de uma tenda, que estava decorada com desenhos pintados em ocre 
vermelho conversando com outras mulheres. Ela acenou sorrindo.
     - Latie, veja! Um p vermelho! - exclamou uma das jovens, em voz excitada. Todo mundo parou para olhar, e as jovens riram baixinho. Ayla se encontrou olhando 
com grande interesse, para a mulher que passeava, e observou que as solas dos seus ps nus eram de cor vermelha viva. Tinham-lhe contado sobre aquilo, mas era a 
primeira vez que via uma mulher de ps vermelhos. Parecia uma mulher perfeitamente comum, pensou Ayla. No entanto, havia algo nela que fazia com que a olhassem duas 
vezes.
     A mulher aproximou-se de um grupo de rapazes, que Ayla no havia visto antes, matando o tempo perto de rvores pequenas do outro lado da clareira. Ayla achou 
que o andar da mulher ficou mais exagerado quando se acercou deles, o sorriso mais lnguido e, de repente, notou mais os ps vermelhos. A mulher parou para falar 
com os rapazes, e seu riso cristalino flutuou atravs do espao vazio. Quando ela e o homem mais velho se afastaram, Ayla recordou a conversa que as mulheres, e 
Mamut, tiveram na noite anterior ao Festival de Primavera.
     Todas as jovens que estavam no estado de transio de no-ainda-mulheres encontravam-se sob vigilncia constante - mas no somente das acompanhantes. Ayla reparava, 
agora, em vrios grupos de rapazes de p perto das margens da rea proibida, onde Latie e suas companheiras de idade permaneciam, esperando vislumbrar as jovens 
proibidas, e portanto, mais desejveis. Em poca nenhuma de sua vida uma mulher era objeto de maior interesse da populao masculina. As jovens divertiam-se com 
seu status nico e ateno especial que ele causava, e estavam tambm igualmente interessadas no sexo oposto, embora negligenciassem mostr-lo abertamente. Passavam 
a maior parte do tempo espiando a tenda ou rondando a cerca, especulando sobre os homens que desfilavam e demoravam-se na periferia com casualidade exagerada.
     Embora os jovens que vigiavam e eram observados, em troca, eventualmente formassem uma fogueira com aquelas que se tornavam mulheres exatamente naquele momento, 
no era provvel que fossem os escolhidos para a primeira, importante iniciao. As jovens e as mulheres mais velhas, que faziam o papel de conselheiras dividindo 
a tenda entre elas, discutiam vrias possibilidades sobre os homens mais velhos e mais experientes. Aqueles levados em considerao eram aproximados em geral, particularmente, 
antes de a seleo eventual ser feita.
     Na vspera da cerimnia, as jovens que ficavam juntas em uma tenda - ocasionalmente havia muitas para uma tenda e dois acampamentos de jovens eram estabelecidos 
- saam em grupo. Quando encontravam um homem com quem gostariam de passar a noite, o cercavam e o capturavam. Os homens assim capturados deviam acompanhar as 
iniciadas - poucos homens faziam objees  exigncia. Naquela noite, depois de alguns rituais preliminares, entravam juntos para a escurido da tenda, tateavam 
para achar um ao outro, e passavam a noite explorando as diferenas e aprendendo os prazeres mtuos. Nem a jovem, nem o homem deviam saber com quem tinham relaes, 
eventualmente, embora na prtica real, em geral, soubessem. As mulheres mais velhas observavam, certificando-se de que no havia rudeza indevida, e estavam disponveis 
sempre que um conselho era necessrio. Se, por alguma razo, qualquer uma das jovens no fosse aberta, podia-se arranjar um ritual de segunda noite mais tranqilo, 
sem se atirar  culpa abertamente sobre ningum.
     Nem Danug nem Druwez seriam convidados para a tenda de Latie. primeiramente porque eram parentes muito prximos, mas tambm porque eram jovens demais. Outras 
mulheres, que celebraram seus Primeiros Ritos nos anos anteriores, particularmente aquelas que no tinham filhos ainda, podiam decidir ficar no lugar da Grande Me 
e ensinar Sua maneira aos rapazes. Depois de uma cerimnia especial, que as honrava e as isolava para a estao, as solas dos ps destas mulheres eram pintadas com 
um corante vermelho vivo que no sairia com gua, embora, eventualmente, fosse descolorindo, para significar que estavam disponveis para ajudar os rapazes a ganhar 
experincia. Muitas usavam tambm argolas de couro vermelho amarradas ao redor dos braos, ou tornozelos ou cinturas.
     Embora alguma provocao fosse inevitvel, as mulheres apreciavam a seriedade oculta de sua tarefa. Compreendendo a timidez natural do rapaz, e a premncia 
por trs de sua ansiedade, tratavam cada um com considerao, ensinando-o a conhecer uma mulher ternamente, de forma que depois pudesse ser escolhido para converter 
uma jovem em mulher, para que, um dia, ela pudesse ter um filho. E para lhes mostrar como Ela estava satisfeita com esse oferecimento de si mesmas, Mut abenoava 
muita dessas mulheres. Mesmo quem se tinha unido h algum tempo atrs, e jamais engravidara, muitas vezes gerava nova vida no final da estao. Em seguida s no-ainda-mulheres, 
as mulheres de ps vermelhos eram as mais procuradas por homens de todas as idades. Durante o resto de sua vida, nada estimularia mais rapidamente um homem dos Mamutoi 
do que o vislumbre de um p vermelho quando uma mulher passava, e sabendo disso, algumas mulheres tingiam os ps de vermelho para se tornarem mais atraentes. Embora 
uma mulher que houvesse feito tal escolha para si mesma fosse livre para querer qualquer homem, seu servio se dedicava aos mais jovens, e qualquer homem mais velho 
que conseguisse convenc-la a partilhar sua companhia se considerava um favorito.
     Mamut conduziu Ayla para um acampamento que no era distante do Acampamento dos Ritos de Feminilidade. A primeira vista, parecia ser uma tenda comum dentro 
de um acampamento domstico. A diferena observou, ela, era que todos tinham tatuagens. Alguns, como o velho Mamut, somente um desenho simples em ziguezague azul-escuro, 
na parte superior da face direita; trs ou quatro traos interrompidos, como as partes inferiores de tringulos com vrtices voltados para baixo, se amontoavam, 
um aninhado sobre o outro. Lembraram-lhe as mandbulas inferiores de mamutes que tinham sido usadas para construir a habitao de Vincavec. As tatuagens dos outros, 
principalmente dos homens, notou Ayla, eram muito mais elaboradas. Os desenhos incorporavam no apenas ziguezagues, mas tringulos, losangos, e espirais formando 
ngulo reto, tanto em azul quanto em vermelho.
     Ayla ficou contente porque tinha parado no Acampamento do Mamute antes de virem para a Reunio. Ela sabia que ficaria sobressaltada diante dos rostos tatuados, 
se no houvesse conhecido Vincavec antes. Embora as tatuagens nos rostos daquelas pessoas fossem fascinantes e complexas, nenhuma era to intrincada quanto  dele.
     A diferena seguinte que ela observou foi que, embora parecesse haver preponderncia de mulheres naquele acampamento, no havia crianas. Obviamente, elas tinham 
sido deixadas aos cuidados de algum nos acampamentos domsticos. Ayla compreendeu, rapidamente, que aquele no era considerado local adequado para crianas. Era 
um local para adultos se reunirem, para rituais, discusses e encontros srios - e para jogar. Vrias pessoas jogavam com ossos marcados, varetas e pedaos de marfim 
na rea externa do acampamento.
     Mamut subiu at a entrada da tenda, que estava aberta, e arranhou o couro como se batesse a uma porta. Ayla olhou para o interior em penumbra por sobre o ombro 
de Mamut, tentando no parecer evidente para aqueles que passeavam no exterior, mas tambm eles tentavam, sem parecerem ansiosos demais, v-la de mais perto. Estavam 
curiosos sobre a mulher jovem, que o velho Mamut havia no apenas aceito para treinamento, mas adotado como filha. Era uma estranha, diziam, nem sequer uma Mamutoi. 
Ningum sabia, ao menos, de onde ela viera.
     Muitos tinham conseguido passar pelo Acampamento de Tifceas a fim de ver os cavalos e o lobo, e ficaram surpresos e impressionados em ver os animais, embora 
no quisessem demonstr-lo. Como uma pessoa podia dominar um garanho? Ou fazer uma gua ficar quieta com tantas pessoas - e um lobo, ao redor? Por que o lobo era 
to dcil com as pessoas do Acampamento do Leo? Comportava-se como um lobo normal perto de todas elas. Ningum mais podia aproximar-se dele, ou atravessar os limites 
do seu acampamento, sem um convite, e, dizia-se, ele atacara Chaleg.
     O velho fez Ayla entrar, e ambos se sentaram perto de uma grande lareira, embora somente uma pequena chama ardesse nela, a um lado, prxima a uma mulher sentada. 
Era uma mulher pesada, pensou Ayla, que j mais havia visto algum to gordo e se perguntou como poderia ter caminhado para chegar ali.
     - Trouxe minha filha para conhec-la, Lomie - disse o velho Mamut.
     - Eu me perguntava quando viriam - replicou ela.
     Ento, antes de dizer mais alguma coisa, removeu uma pedra vermelha e quente do fogo, com varetas. Abriu um pacote de folhas e deixou cair algumas sobre a pedra 
e inclinou-se mais a fim de soprar a fumaa que subia em espiral. Ayla sentiu o odor de salva e, menos forte, o dever basco e loblia. Ela observou a mulher com 
ateno, reparou em uma respirao pesada, que logo se tornou mais fcil, e compreendeu que ela sofria de uma tosse crnica, provavelmente, asma.
     - Tambm faz xarope da raiz dever basco? - perguntou Ayla. - Pode ajudar. - Havia hesitado em falar primeiro, e no estava certa por que o fazia sem ter sido 
apresentada, mas queria ajudar e sentiu, de alguma forma, que era a coisa certa a fazer.
     A cabea de Lomie se levantou depressa, surpresa, e olhou para a jovem loura com novo interesse. A sombra de um sorriso cruzou o rosto de Mamut.
     - Ela tambm  curandeira? - disse Lomie a Mamut.
     - Acredito que no exista nenhuma melhor, nem mesmo voc, Lomie.
     Lomie sabia que o velho falava seriamente. Mamut tinha grande respeito por sua capacidade.
     - E pensei que voc adotara apenas uma jovem bonita para aliviar seus ltimos anos, Mamut.
     - Ah, mas acertou, Lomie. Ela aliviou minha artrite de inverno e outras dores e sofrimentos diversos - disse ele.
     - Estou contente por saber que ela tem mais do que aparncia exterior. No entanto, ela  jovem para isso.
     - Existe mais nela do que imagina, Lomie, apesar de sua juventude.
     Lomie se virou, ento:
     - Voc  Ayla.
     - Sim, sou Ayla do Acampamento do Leo dos Mamutoi, filha da Fogueira do Mamute... e protegida pelo Leo da Caverna - terminou Ayla, como Mamut a havia instrudo.
     - Ayla dos Mamutoi. Hummm. Tem um som incomum, mas sua voz tambm o tem. No  desagradvel, contudo. Salienta-se. Muitas pessoas reparam em voc. Eu sou Lomie, 
Mamut do Acampamento do Lobo e curandeira dos Mamutoi.
     - Primeira curandeira - corrigiu Mamut.
     - Como posso ser a primeira curandeira, velho Mamut, se ela  igual a mim?
     - Eu no disse que Ayla era igual a voc, Lomie. Eu disse que no h ningum melhor. Sua experincia ... Incomum. Foi treinada por... algum com grande profundeza 
de conhecimento em certos mtodos de Cura. Voc identificaria o odor sutil de verbasco, camuflado pelo cheiro forte da salva, to depressa, se no soubesse que estava 
l? E saberia, em seguida, de que voc estava se tratando?
     Lomie comeou a falar, depois hesitou e no respondeu. Mamut continuou:
     - Acho que ela soube apenas olhando para voc. Ela possui um dom raro para saber, e um conhecimento surpreendente de remdios e tratamentos, mas falta-lhe habilidade 
somente nos mtodos em que voc  mais capaz, descobrindo e aliviando o problema que cria a doena, e ajudando o desejo de algum se curar. Ela poderia aprender 
muito com voc, e espero que consentir em trein-la, mas creio que voc tambm poderia aprender muita coisa com ela.
     Lomie se voltou para Ayla.
     - E  isso que voc quer?
     -  isso que quero.
     - Se j sabe tanto, o que acha que pode aprender comigo?
     - Sou uma feiticeira. ... Isso que sou... Minha vida. Eu no poderia ser diferente. Fui treinada por uma que era... Primeira, mas desde o incio ela me disse 
que sempre h mais para aprender. Eu seria grata em aprender com voc - disse Ayla. Sua sinceridade no era fingida. Ela estava ansiosa para conversar com algum 
com quem partilhasse idias e discutisse tratamentos, e aprendesse.
     Lomie fez uma pausa. Feiticeira? Onde ela havia ouvido aquela palavra em vez de curandeira, antes? Afastou o pensamento. Lembrada mais tarde.
     - Ayla tem um presente para voc - disse Mamut. - Chame quem quiser, mas depois, se preferir, feche a tenda.
     Todos que se encontravam fora tinham entrado enquanto eles falavam ou estavam de p  entrada. Todos se amontoaram no interior. Ningum queria perder coisa 
alguma. Quando estavam acomodados e a cortina da entrada fechada e amarrada, Mamut pegou um punhado de terra de um crculo de desenhar, e apagou a pequena chama, 
mas a luz clara do dia no ficou completamente do lado de fora. Penetrou atravs do buraco para sada da fumaa e, fracamente, atravs das paredes de couro. No 
seria uma demonstrao to dramtica na tenda em penumbra, quanto o fora na habitao comunal escura, mas todos os mamutois reconheceriam suas possibilidades.
     Ayla abriu o pequeno recipiente em sua cintura, um que ela e Mamut pediram a Barzec para fazer, e retirou a isca, pedra-de-fogo e slex. Depois de tudo pronto, 
Ayla fez uma pausa e, pela primeira vez em muitos ciclos da lua, enviou um pensamento silencioso ao seu totem. No era um pedido especfico, mas ela pensava em uma 
centelha grande, imponente, brilhante, para que o efeito fosse o que Mamut desejava. Ento, pegou o slex e golpeou-o com fora contra a pirita de ferro. Brilhou 
vivamente, mesmo na tenda, depois apagou. Ela repetiu a operao e desta vez a centelha perdurou e logo o pequeno fogo na lareira ardia novamente.
     Os Mamuts tal eram sbios nas formas de artifcio e estavam acostumados a criar efeitos. Orgulhavam-se de ser capazes de reconhecer como eram dotados. Pouca 
coisa os surpreendia, mas o truque do fogo de Ayla deixou-os sem palavras.
     - A mgica est na prpria pedra-de-fogo - disse o velho Mamut, quando Ayla tornou a guardar os materiais no recipiente de couro cru, e o entregou a Lomie. 
Ento, o tom e timbre de sua voz mudaram.  Mas a forma de arrancar fogo dela lhe foi mostrada. Eu no precisava adot-la, Lomie. Ela nasceu da Fogueira do Mamute, 
escolhida pela Me. S pode seguir seu destino, mas, agora, eu sei que fui escolhido para ser parte dele, e por que recebi tantos anos.
     Suas palavras enviaram uma onda de arrepios e puseram em p o cabelo de todos na tenda da Fogueira do Mamute. Ele havia tocado no mistrio real, no chamamento 
profundo que cada um deles sentia, em alguma extenso, alm das armadilhas superficiais e cinismo casual. O velho Mamut era um fenmeno. Sua prpria existncia era 
mgica. Ningum jamais vivera tanto tempo. Seu nome estava at perdido na passagem dos anos. Cada um deles era um Mamut, feiticeiro de seus acampamentos, mas ele 
era simplesmente Mamut, seu nome e ttulo tinham-se tornado um s. Ningum ali duvidou de que havia algum propsito na sua longevidade. Se ele dizia que Ayla era 
o motivo, ento, ela era tocada pelos profundos e inexplicveis mistrios da vida e do mundo ao redor deles, que cada um se sentia convocado a enfrentar.
     Ayla estava preocupada quando ela e Mamut deixaram a tenda. Ela tambm sentira a tenso, um arrepio na pele quando o velho Mamut falou do seu destino, mas ela 
no queria ser objeto de interesse to intenso por poderes alm do seu controle. Era assustador, todo esse falatrio sobre seu destino. Ela no era diferente de 
ningum e no queria ser. Tampouco gostava quando comentavam sobre sua fala. No Acampamento do Leo, ningum mais notava. Ela havia esquecido que existiam algumas 
palavras que no conseguia pronunciar direito, no importava o quanto se esforasse.
     - Ayla, a est voc! Eu a procurava.
     Ela ergueu a cabea para os olhos negros brilhantes e sorriso luminoso do homem de pele escura a quem estava prometida. Devolveu-lhe o sorriso. Ele era exatamente 
a pessoa de quem precisava para tirar de sua mente os pensamentos perturbadores. Virou-se para Mamut a fim de ver se ele a queria ainda. Ele sorriu e lhe disse para 
ir e dar uma volta pelo acampa mento com Ranec.
     - Quero que conhea alguns escultores. Vrios esto fazendo um belo trabalho - disse Ranec, conduzindo-a com um brao ao redor de sua cintura. - Sempre temos 
um acampamento perto da Fogueira do Mamute. No apenas escultores, outros artistas tambm.
     Ele estava excitado, e Ayla percebeu o mesmo jbilo que ela sentira quando compreendeu que Lomie era uma curandeira. Embora pudesse haver certa competio entre 
elas, em relao  capacidade e o status de cada uma, ningum conhecia as nuanas de uma arte ou habilidade como outra pessoa que as praticava. Somente com outra
curandeira ela poderia discutiras mritos relativas de verbasco versus gualtria no tratamento de tosses, por exemplo, e ela sentira falta desse tipo de discusso.
Havia visto como Jondalar, Wymez e Danug passavam perodos de tempo inacreditveis conversando sobre slex e fabricao de ferramentas, e ela compreendeu que Ranec 
tambm gostava da companhia de outros que trabalhavam com marfim.
     Quando atravessaram parte da clareira, Ayla viu Danug e Druwez com vrios outros homens jovens, sorrindo e movendo-se nervosamente, enquanto conversavam com 
uma mulher de p vermelho. Danug levantou a cabea, a viu e sorriu, depois deu uma desculpa rpida e atravessou rapidamente alguns metros de capim pisado e seco 
para se unir a eles. Esperaram que ele os alcanasse.
     - Vi voc falando com Latie e ia trazer alguns amigos para conhecer, Ayla, mas no podemos nos aproximar muito do Acampamento de Garota-Risadinha... Hum quero 
dizer... - Danug corou compreendendo que dissera o apelido que os rapazes tinham dado ao local onde estavam proibidos de entrar.
     - Tudo certo, Danug. Elas soltam muitas risadinhas, realmente.
     O rapaz alto relaxou.
     - No que haja algo de errado nisso. Est com pressa? Pode vir conhec-los agora?
     Ayla olhou interrogativamente para Ranec.
     - Eu ia lev-la para conhecer algumas pessoas - disse Ranec. - Ma no h pressa. Podemos ir conhecer seus amigos primeiro.
     Quando voltaram em direo ao grupo de rapazes, Ayla reparou que a mulher de p vermelho ainda estava l.
     - Eu queria conhecer voc, Ayla - disse a mulher depois que Danug fez as apresentaes. - Todos falam sobre voc, perguntando de onde veio, e por que os animais 
lhe obedecem. Voc nos apresentou um mistrio que estou certa, ser comentado durante anos. - Sorriu, e piscou com astcia para Ayla. - Oua meu conselho. No diga 
a ningum de onde veio. Deixe que faam suposies.  mais divertido.
     Ranec riu:
     - Talvez ela tenha razo, Ayla. Diga-me, Mygie, por que usa ps vermelhos este ano?
     - Depois que Zacanen e eu dispersamos a fogueira, no quis ficar com seu acampamento, mas no tinha certeza de desejar voltar para o acampamento de minha me, 
tampouco. Isto apenas pareceu-me  coisa certa a fazer. D-me um local para ficar por algum tempo e, se a Me decidir dar-me um filho por isso, eu no lamentaria. 
Oh, isso me lembra, sabia que a Me deu a outra mulher um filho do seu esprito, Ranec? Lembra-se de Tricie? A filha de Marlie? A que vive aqui, no Acampamento do 
Lobo? Ela escolheu ps vermelhos no ano passado, este ano tem um menino. A menina de Toralie era escura como voc, mas este beb no. Eu o vi.  muito claro, com 
cabelo ruivo mais brilhante que o dela, mas parece-se com voc. O mesmo nariz e tudo. Ela o chama Ralev.
     Ayla olhou para Ranec com um sorriso peculiar no rosto, e notou que a cor dele ficou mais escura. Est corando, pensou ela, mas  preciso conhec-lo bem para 
notar. Estou certa de que ele se lembra de Tricie.
     - Acho melhor irmos, Ayla - disse Ranec, abraando-a pela cintura, como para apress-la atravs da clareira.
     Mas ela resistiu um instante.
     - Foi muito interessante falar com voc, Mygie. Espero que conversemos de novo - disse Ayla, virando-se depois para o filho de Nezzie. - Estou contente porque 
me convidou para vir conhecer seus amigos, Danug.
     - Enviou-lhe um dos seus belos e excitantes sorrisos, e a Druwez tambm.
     - E estou feliz por ter conhecido todos vocs - acrescentou, olhando para cada um dos jovens. Depois, afastou-se com Ranec.
     Danug a viu afastar-se, depois soltou um grande suspiro.
     - Gostaria de que Ayla estivesse com os ps vermelhos - disse. Ouviu vrios comentrios, concordando.
     Quando Ranec e Ayla passaram a grande habitao, cercada pela clareira de trs lados, ela ouviu o som de tambores vindo dela, e alguns outros sons interessantes 
que no havia escutado antes. Lanou um olhar em direo  entrada, mas estava fechada. No instante exato em que se virava para entrar em outro acampamento na extremidade 
da clareira, algum se ps  sua frente.
     - Ranec - disse uma mulher. Era mais baixa que a mdia, com pele branca leitosa, salpicada de sardas. Seus olhos castanhos, pontilhados de ouro e verde, cintilavam 
de raiva.
     - Ento, voc chegou com o Acampamento do Leo. Quando no parou em nossa habitao para dizer al, achei que, talvez, tivesse cado no rio ou sido morto em 
um estouro de boiada. - O tom de voz era venenoso.
     - Tricie! Eu... Hum... Eu ia... Hum... Tnhamos que armar o acampamento - falou Ranec. Ayla jamais vira o homem fluente, loquaz, to mudo, e seu rosto estaria 
to vermelho quanto os ps de Mygie se sua pele escura no escondesse o rubor.
     - No vai me apresentar  sua amiga, Ranec? - falou Tricie sarcasticamente. Era bvio que ela estava zangada.
     - Sim - disse Ranec -, gostaria que a conhecesse. Ayla, esta  Tricie, uma... Uma amiga minha.
     - Eu tinha algo a lhe mostrar, Ranec - disse Tricie, ignorando a apresentao -, mas suponho que no importa agora. Promessas insinuadas no significam muito. 
Suponho que esta  a mulher com quem se unir no Matrimnio nesta estao. - Havia mgoa assim como dio em sua voz.
     Ayla adivinhou qual era o problema, e sentiu compaixo, mas no sabia bem como enfrentar a situao difcil. Ento, avanou um passo e estendeu as duas mos.
     - Tricie, sou Ayla, dos Mamutoi, filha da Fogueira do Mamute do Acampamento do Leo, protegida pelo Leo da Caverna.
     A formalidade da sua saudao lembrou Tricie de que ela era a filha de uma chefe, e o Acampamento do Lobo era o anfitrio da Reunio de Vero. Ela tinha uma 
responsabilidade.
     - Em nome de Mut, a Grande Me, o Acampamento do Lobo lhe d boas-vindas, Ayla dos Mamutoi - disse ela.
     - Disseram-me que sua me  Marlie.
     - Sim, sou filha de Marlie.
     - Eu a conheci antes. Uma mulher notvel. Estou contente em conhec-la.
     Ayla ouviu Ranec soltar um suspiro de alvio. Ela lhe lanou um olhar e, por cima do ombro dele, notou Deegie dirigindo-se ao alojamento onde ela ouvira o rufo 
dos tambores. Em um impulso, resolveu que Ranec devia resolver seu relacionamento com Tricie sozinho.
     - Ranec, Deegie est ali, e h algumas coisas que quero dizer a ela. Irei conhecer os escultores mais tarde - disse Ayla e se afastou rapidamente.
     Ranec ficou espantado por sua partida apressada e, de repente, compreendeu que teria que enfrentar Tricie e dar algumas explicaes, quer quisesse ou no. Olhou 
para a jovem bonita de p,  espera, zangada e vulnervel. Seu cabelo ruivo, de uma cor especialmente brilhante como nenhuma outra j vista, juntamente com seus 
ps vermelhos, a tinham tornado duplamente atraente na estao passada, e ela era uma artista tambm. Ele ficou impressionado com a qualidade do seu trabalho. Suas 
cestas eram refinadas, e a excepcional esteira em seu cho viera das mos, dela. Mas ela levara to a srio seu oferecimento  Me, que nem sequer quis considerar 
um homem experiente, no incio - Sua resistncia apenas inflamara o desejo de Ranec por ela.
     Ele no havia, contudo, na verdade, prometido. Era certo que tinha pensado seriamente nisso, e o teria feito se ela no estivesse consagrada. Fora ela quem 
havia recusado uma promessa formal, temendo que Mut se encolerizasse e retirasse Sua bno. Bem, pensou Ranec, a Me no ficara zangada demais, se havia retirado 
da essncia dele para fazer o beb de Tricie. Ele adivinhou que era o beb que ela desejava mostrar-lhe, desde que j tinha uma criana para trazer para sua fogueira, 
e, alm disso, um filho do seu esprito. Isto a tornaria irresistvel em outras circunstncias, mas ele amava Ayla. Se tivesse o bastante para oferecer, talvez considerasse 
pedir as duas, mas desde que era necessrio fazer uma escolha, no havia dvida. S o pensamento de viver sem Ayla colocava um n de pnico na boca do seu estmago. 
Ele a queria mais do que j quisera qualquer outra mulher em sua vida.
     Ayla chamou Deegie com um grito e, quando a alcanou, caminharam juntas.
     - Vejo que conheceu Tricie - disse Deegie.
     - , mas ela parecia precisar falar com Ranec, assim, fiquei feliz ao ver voc. Deu-me a chance de me afastar e deix-los sozinhos.
     No duvido de que queira falar com ele. Todo o acampamento comentava, na estao passada, que planejavam fazer a Promessa.
     - Sabe, ela tem um filho. Um menino.
     - No, eu no sabia! Mal tive a chance de dizer al s pessoas, e ningum me contou. Isso a far valer mais e aumentar seu Preo de Noiva. Quem lhe disse?
     Mygie, uma das de ps vermelhos. Ela diz que o menino  do esprito de Ranec.
     - Esse esprito se movimenta! H uns dois bebs com sua essncia. No se pode sempre ter certeza, com os outros homens, sobre de quem  o esprito, mas com 
ele, sim. Sua cor o deixa claro - disse Deegie.
     - Mygie disse que este menino  muito claro e de cabelo ruivo, mas de rosto se parece com Ranec.
     - Isso pode ser interessante! Creio que terei que ir ver Tricie mais tarde - falou Deegie com um sorriso. - A filha de uma chefe deve fazer uma visita  filha 
de outra chefe, especialmente do acampamento anfitrio. Quer ir comigo?
     - No estou certa... Sim, acho que sim - disse Ayla.
     Tinham chegado  arcada curva da entrada do alojamento de onde vinham os sons incomuns.
     Eu ia parar aqui, na Habitao de Msica. Creio que voc se divertiria, Ayla - disse Deegie, depois unhou o couro que cobria a entrada. Enquanto esperavam que 
algum o desatasse do interior, Ayla olhou ao redor.
     Havia uma cerca, a sudeste da entrada, feita de sete crnios de mamute e mais outros ossos, cheios de argila bem socada para haver solidez. Provavelmente, um 
protetor contra o vento, pensou Ayla. Na depresso onde se encontrava a moradia, o nico vento viria do vale ribeirinho. No nordeste, ela contou quatro grandes fogueiras 
externas e duas distintas reas de trabalho. Uma parecia destinar-se  fabricao de ferramentas e implementos de marfim e osso, as outras deviam ter relao, primeiramente, 
com o trabalho no slex encontrado prximo. Ayla viu Jondalar e Wymez e vrios outros homens e mulheres que tambm eram trabalhadores de slex, segundo ela imaginou. 
Ela devia saber que ali era o lugar onde encontraria Jondalar.
     A cortina foi aberta, e Deegie fez sinal a Ayla para segui-ia, mas algum,  entrada, a deteve.
     - Deegie, sabe que no permitimos a entrada de visitantes aqui - disse. - Estamos praticando.
     - Mas, Kylie, ela  uma filha da Fogueira do Mamute - falou Deegie, surpresa.
     - No vejo uma tatuagem. Como pode ela ser Mamut sem uma tatuagem?
     - Esta  Ayla, filha do velho Mamut. Ele a adotou na Fogueira do Mamute.
     - Oh. Espere um momento, vou perguntar.
     Deegie estava impaciente enquanto tornaram a esperar, mas Ayla examinou a moradia mais atentamente, e teve a impresso de que tinha afundado ou cedido, de alguma 
forma.
     - Por que no me disse que ela  a jovem dos animais? - disse Kylie ao voltar. - Entrem.
     - Voc devia saber que eu no traria ningum aqui que no fosse aceitvel - disse Deegie.
     No estava escuro no recinto, o buraco de sada da fumaa era um pouco maior que o normal, e permitia que a claridade entrasse, mas levava algum tempo para 
os olhos se acostumarem depois do sol brilhante, l fora. A princpio, Ayla pensou que a pessoa com quem Deegie falava era uma criana. Mas quando a viu, Ayla compreendeu 
que ela era mais velha, no mais nova do que sua amiga alta, entroncada. A impresso errada foi causada pela diferena de tamanho entre as duas mulheres. Kylie era 
pequena, com corpo magro quase delicada, e ao lado de Deegie era fcil tom-la por criana, mas seus movimentos geis, graciosos, indicavam a confiana e experincia 
da maturidade.
     Embora o abrigo parecesse grande do exterior, havia menos espao dentro do que Ayla imaginara. O teto era mais baixo que o usual, e metade do espao til no 
recinto era ocupado por quatro crnios de mamute, que estavam parcialmente enterrados no cho, com os encaixes das presas para cima. Os troncos de pequenas rvores 
tinham sido colocados nos encaixes, e eram usados como suportes para escorar o teto, que havia afundado ou cedido. Ocorreu a Ayla, ao olhar ao redor, que aquele 
abrigo era bastante antigo. A madeira e o colmo tinham a cor cinza da idade. No havia mercadorias domsticas ou grandes fogueiras de cozinhar, apenas uma lareira. 
O cho estava limpo, apenas com vestgios escuros das antigas fogueiras principais.
     As cordas tinham sido presas entre as estacas eretas, e cortinas, que podiam ser usadas para dividir o espao, pendendo delas, juntas numa extremidade. Sobre 
as cordas, ou pendurada em pregos de madeira sobre as estacas, estava  srie mais incomum de objetos que Ayla j vira. Trajes coloridos, enfeites de cabea fantsticos 
e ornados, fios de contas de marfim e conchas marinhas, pendentes de osso e mbar, e algumas coisas que ela no conseguia adivinhar.
     Havia vrias pessoas no abrigo. Algumas sentadas ao lado de uma pequena lareira, bebericando de cuias; mais duas  luz que se infiltrava pelo buraco para sada 
da fumaa, costuravam roupas.  esquerda da entrada, algumas pessoas se encontravam sentadas ou ajoelhadas em esteiras, no cho, perto dos grandes ossos de mamute, 
decorados com linhas vermelhas e ziguezagues. Ayla identificou um osso de perna, uma omoplata, duas mandbulas inferiores, um osso plvico, e um crnio. Foram saudados 
amistosamente, mas Ayla sentiu que interrompiam alguma coisa. Todos pareciam olhar para elas, como se esperassem descobrir por que motivo tinham vindo.
     - No parem de praticar por nossa causa - falou Deegie.  Eu trouxe Ayla para conhec-los, mas no queremos interromper. Esperaremos at estarem prontos para 
parar. - As pessoas voltaram  sua tarefa enquanto Deegie e Ayla se sentavam em esteiras prximas.
     Uma mulher que estava ajoelhada diante do grande fmur comeou a tocar uma batida firme, com uma parte em forma de martelo de chifre de rena, mas os sons que 
produzia eram mais do que rtmicos. Quando ela batia no osso da perna em locais diferentes, um som ressoante, meldico surgia, mudando de intensidade e tom. Ayla 
examinou melhor, perguntando-se o que provocava o som incomum.
     O osso da perna tinha cerca de 76 centmetros de comprimento e descansava horizontalmente sobre dois suportes que o mantinham longe do cho. A epfise na extremidade 
superior fora removida, e parte do material esponjoso interno fora retirado, alargando o canal natural. O osso estava pintado na parte de cima com listras regularmente 
espaadas, em ziguezague, em vermelho-ocre escuro, semelhante aos padres encontrados to freqentemente em tudo, desde o calado at a construo de casas, mas 
estas pareciam ter mais utilidade do que apenas uma funo decorativa ou simblica. Depois de observar por algum tempo, Ayla teve certeza de que a mulher que tocava 
o instrumento de osso da perna de mamute usava o padro de listras como guia para o local que deveria golpear a fim de produzir o som que desejava.
     Ayla havia ouvido tambores de crnio e a omoplata de Tornec tocados. Todos tinham alguma variao tonal, mas jamais ouvira tal amplitude de tons musicais antes. 
Aquelas pessoas pareciam pensar que ela possua alguns dons mgicos, mas aquilo era mais mgico do que qualquer coisa que j tinha visto. Um homem comeou a bater 
na lmina de omoplata de mamute, como a de Tornec, com um martelo de chifre. O timbre e tom tinham uma ressonncia diferente, uma caracterstica mais aguda, no entanto, 
o som complementava e adicionava interesse  msica que a mulher tocava no osso da perna.
     A omoplata grande, de forma triangular, tinha cerca de 63 centmetros de comprimento, com um estreito pescoo no alto, alargando cerca de 50 centmetros na 
extremidade do fundo. Ele segurava o instrumento pelo pescoo, ereto, em posio vertical, com o fundo largo descansando sobre o solo. Tambm era pintado com listras 
paralelas, e em ziguezague, em vermelho vivo. Cada listra, da largura de um dedo mnimo, era dividida por espaos da mesma largura, e cada uma tinha uma extremidade 
perfeitamente reta e regular. No centro da larga rea inferior mais freqentemente golpeada, o padro vermelho de listras estava gasto, e o osso estava polido pelo 
uso repetido, prolongado.
     Quando o resto dos instrumentos de osso de mamute comeou a soar, Ayla prendeu a respirao. A princpio s pde ouvir, dominada pelo som complexo da msica, 
mas pouco depois ela se concentrou em cada um, individualmente.
     Um homem mais velho tocava o maior dos ossos de mandbula inferior, mas em vez de um martelo de chifre, usava uma extremidade de presa de mamute, com cerca 
de 30 centmetros de comprimento, entalhada para formar uma salincia na extremidade mais grossa. A mandbula era pintada, como os outros instrumentos, mas apenas 
na metade direita. Foi virada e descansou firmemente, sustentada pelo lado esquerdo no-decorado, que mantinha a metade direita usada para tocar afastada do cho, 
para haver um som claro e puro. Enquanto tocava, o homem batia ao longo das faixas vermelhas em ziguezagues paralelos, que eram pintados dentro da cavidade, assim 
como ao longo da extremidade mais externa da face, e ele esfregava o pedao de marfim sobre a superfcie encrespada do dente, a fim de criar uma modulao dissonante.
     Uma mulher tocava o outro osso de mandbula, que era de um animal mais novo. Tinha 50 centmetros de comprimento e 38 centmetros de largura em sua parte maior, 
e tambm era pintado de vermelho em listras em ziguezague do lado direito. Um buraco fundo, com cerca de 5 centmetros de largura por 12 centmetros de comprimento, 
onde um dedo fora removido, alterava a ressonncia e enfatizava o tom mais agudo.
     A mulher que tocava o instrumento do osso plvico tambm o segurava ereto, descansando uma extremidade no cho. Ela batia, com um martelo de chifre, principalmente 
no centro do osso onde uma pequena curvatura natural para dentro se encontrava. Os sons se intensificavam e as mudanas em tom, distintas, naquele lugar, e as listras 
vermelhas pintadas ali eram quase inteiramente desbotadas pelo uso.
     Ayla conhecia os tons fortes, ressoantes, mais graves do tambor de crnio de mamute tocado por um rapaz. Era como os tambores tocados por Deegie e Mamut com 
tal habilidade. O tambor tambm era pintado onde era golpeado, na testa e topo da caveira, mas neste caso, no tinha traos em ziguezague, mas um padro distintamente 
diferente de linhas ramificadas e pontos e marcas isoladas.
     Depois que as pessoas pararam de tocar, com um acorde satisfatoriamente conclusivo, envolveram-se em uma discusso. Deegie participou, mas Ayla ouvia apenas, 
tentando compreender os termos desconhecidos, mas no querendo intrometer-se.
     - A composio precisa de equilbrio, assim como de harmonia - disse, a mulher que tocara o instrumento de osso da perna de mamute. - Acho que devemos introduzir 
uma flauta de cana antes de Kylie danar.
     - Estou certa de que poderiam convencer Barzec a cantar esse trecho - disse Deegie.
     - Seria melhor trabalhar com ele mais tarde. Kylie e Barzec seriam demais. Um depreciaria o outro. No, acho que a flauta de cana ser melhor. Vamos experimentar, 
Manen - disse ela a um homem com uma barba muito bem-cuidada, que se reunira a eles vindo do outro grupo.
     Tharie comeou a tocar, de novo e, desta vez, os sons se tornaram familiares para a recm-chegada. Ayla ficou feliz por ter permisso para observar, e no queria 
mais nada seno sentar em silncio e usufruir a nova experincia. Com a introduo dos tons persistentes da flauta de cana, um instrumento musical feito do osso 
da perna de uma gara, Ayla se lembrou, subitamente, da estranha voz espiritual de Ursus, o Grande Urso da Caverna, da Reunio de Cls. Somente um mog-ur podia produzir 
aquele som. Era um segredo passado atravs de sua linhagem, mas ele havia levado alguma coisa  boca. Devia ser o mesmo tipo de coisa, pensou ela.
     Nada, contudo, comoveu tanto Ayla como quando Kylie comeou a danar. Ayla notou, primeiro, que ela usava braceletes folgados em cada brao, semelhante aos 
danarinos Sungaea. Cada bracelete era feito de uma srie de cinco tiras finas de marfim, talvez com um centmetro de largura, gravadas com cortes diagonais irradiando-se 
de uma forma central em losango, de maneira a criar um padro global em ziguezague quando as cinco tiras eram mantidas juntas. Um pequeno orifcio havia sido feito 
em cada extremidade para amarr-las juntas, e elas chocalhavam quando Kylie as movia de uma certa maneira.
     Kylie permanecia em um local, mais ou menos, s vezes devagar, as sumindo posies impossveis que sustentava, e outras vezes executando movimentos acrobticos 
que faziam com que os braceletes usados em cada brao chocalhassem como nfase. Os movimentos da mulher flexvel, robusta, eram to graciosos e rpidos que ela fazia 
a dana parecer fcil, mas Ayla sabia que jamais poderia executar aqueles movimentos. Ficou encantada com o desempenho e se encontrou fazendo comentrios espontneos 
depois que a dana terminou, da maneira habitual dos Mamutoi.
     - Como faz aquilo? E maravilhoso! Tudo. Os sons, os movimentos. Nunca vi nada igual - disse Ayla. Os sorrisos de satisfao lhe mostraram que seus comentrios 
foram bem acolhidos.
     Deegie percebeu que os msicos estavam contentes e sua necessidade de concentrao intensa havia acabado. Agora, mais relaxados prontos para um descanso, e 
tambm para satisfazer sua curiosidade em relao  misteriosa mulher que tinha, aparentemente, vindo de lugar algum, e era uma Mamutoi agora. Os carves na lareira 
foram avivados, ajuntaram madeira, e pedras de cozinhar, e gua para o ch foi derramada em uma tigela de cozinhar de madeira.
     - Certamente, viu alguma coisa como nossa dana, Ayla - disse Kylie.
     - No, de modo algum - protestou Ayla.
     - E os ritmos que voc me mostrava? - perguntou Deegie.
     - No  a mesma coisa. Aquilo so simples ritmos do Cl.
     - Ritmos do Cl? - perguntou Tharie. - O que  isso?
     - O Cl so as pessoas com quem cresci - comeou a explicar Ayla.
     - So enganosamente simples - disse Deegie -, mas despertam sentimentos fortes.
     - Pode nos mostrar? - perguntou o homem que tocara o tambor de crnio de mamute.
     Deegie olhou para Ayla.
     - Mostramos, Ayla? - perguntou, depois continuou para explicar aos outros. - Temos tocado um pouco com eles.
     - Acho que sim - disse Ayla.
     - Vamos, ento - disse Deegie. - Precisamos de alguma coisa que produza uma batida firme, profunda abafada sem ressonncia, como algo batendo contra o solo. 
Se Ayla puder usar seu tambor, Marut.
     - Acho que talvez d certo se enrolarmos um pedao de couro ao redor deste martelo - disse Tharie, oferecendo seu instrumento de osso de perna.
     Os msicos estavam intrigados. A promessa de alguma coisa nova sempre era interessante. Deegie ajoelhou-se na esteira, no lugar de Tharie, e Ayla se sentou, 
as pernas cruzadas, perto do tambor e bateu nele para sentir o instrumento. Depois, Deegie golpeou o instrumento de osso de perna em alguns locais at Ayla indicar 
que o som estava correto.
     Quando estavam prontas Deegie comeou a bater um compasso lento, firme, mudando o tempo ligeiramente at vir Ayla sacudir a cabea afirmativamente, mas sem 
mudar o tom, de forma alguma. Ayla fechou os olhos e, quando sentiu que caminhava para a batida firme de Deegie, juntou-se a ela. O timbre do tambor de crnio ressoava 
demais para imitar exatamente os sons de que Ayla se lembrava. Era difcil criar o sentido de um estalo agudo do trovo, por exemplo; o staccato pronunciado das 
batidas salientou-se mais como um ribombo sustentado, mas ela estivera treinando com um tambor como aquele. Logo, ela tecia um ritmo incomum de contraponto ao redor 
da batida forte, firme, um padro aparentemente casual de sons staccato que variavam em tempo. As duas sries de ritmos eram to distintas que no possuam relacionamento 
mtuo algum, no entanto uma batida enfatizada dos ritmos de Ayla coincidia com cada quinta batida do som firme de Deegie, quase como que por acidente.
     Os dois ritmos tinham o efeito de uma sensao crescente de expectativa e, um pouco depois, um leve sentimento de ansiedade at as duas batidas, embora parecesse 
impossvel acontecer, se unirem. Com cada liberao, outra onda de tenso crescia. No momento em que pareceu que no se podia mais suportar, Ayla e Deegie pararam 
antes de uma batida final, e deixaram uma expectativa acentuada pendendo no ar. Ento, para surpresa de Deegie e de todos, um som de flauta, como o vento soprando, 
foi ouvido, com uma melodia estranha e assustadora, que enviou arrepios atravs dos ouvintes. Terminou com um acorde de encerramento, mas uma sensao de espiritualidade 
ainda pairava.
     Durante alguns instantes, ningum falou. Afinal, Tharie disse:
     - Que estranha msica assimtrica, sedutora. - Em seguida, vrias pessoas queriam que Ayla lhes mostrasse os ritmos, ansiosas para experiment-los.
     - Quem tocou a flauta de cana? - perguntou Tharie, sabendo que no fora Manen, que estivera de p a seu lado.
     - Ningum - disse Deegie. - No era um instrumento, era Ayla assobiando.
     - Assobiando? Como algum pode assobiar assim?
     - Ayla pode imitar qualquer som sibilante - falou Deegie. - Deviam ouvir os sons das aves. At elas pensam que Ayla  uma ave. Ela consegue chamar as aves e 
elas comem de sua mo.  parte de seu dom com os animais.
     - Quer nos mostrar um assobio de ave, Ayla? - pediu Tharie, em tom de voz que parecia incrdulo.
     Ela no achou que era o lugar, realmente, mas apresentou o repertrio rpido de assobios de aves, que provocou os olhares e expresses assombradas que Deegie 
esperara.
     Ayla ficou grata quando Kylie ofereceu-se para mostrar-lhe o lugar. Viu alguns dos trajes e outros acessrios, e descobriu que alguns ornatos de cabea eram, 
na verdade, mscaras faciais. A maior parte das coisas era vivamente colorida, mas  noite, perto da lareira, as cores dos trajes realariam, sem parecerem espalhafatosas, 
contudo. Algum tirava ocre vermelho em p de uma bolsinha e o misturava  gordura. Com um calafrio, ela recordou novamente Creb, esfregando uma pasta de ocre vermelho 
sobre o corpo de Iza antes de seu funeral, mas disseram-lhe que este seria usado para decorar e intensificar a cor dos rostos e corpos dos jogadores e danarinos. 
Ela notou carvo em p e cr branco tambm.
     Ayla observou um homem costurando contas em uma tnica, usando um furador, e ocorreu-lhe que seria muito mais fcil se usasse uma agulha, mas resolveu pedir 
a Deegie que trouxesse uma. Ela j recebia ateno demasiada, e se sentia pouco  vontade. Olharam fios de contas e outros adereos, e Kylie ergueu duas conchas 
marinhas espiraladas e cnicas at suas orelhas.
     - Pena que suas orelhas no so furadas - disse ela. - Estas conchas ficariam bem em voc.
     - So bonitas - disse Ayla. Reparou nos furos nas orelhas de Kylie e tambm em seu nariz. Gostava de Kylie, e admirava-a, e sentiu uma relao que poderia levar 
a uma amizade.
     - Por que no fica com elas, de qualquer modo? Pode falar com Deegie ou Tulie e pedir que furem suas orelhas. E devia ter uma tatuagem, Ayla. Ento, voc poder 
ir aonde quiser, sem ter que explicar que pertence  Fogueira do Mamute.
     - Mas, no sou Mamut, realmente - disse Ayla.
     - Acho que , Ayla. No estou certa sobre o significado dos ritos, mas sei que Lomie no hesitaria se voc lhe dissesse que estava pronta para se dedicar  
Me.
     - No tenho certeza de estar pronta.
     - Talvez no, mas estar. Sinto isso em voc.
     Quando ela e Deegie saram, Ayla compreendeu que recebera alguma coisa muito especial, uma viso particular dos bastidores que poucas pessoas tinham permisso 
de desfrutar. Era um local de mistrio, menos exposto e explicado, mas como deve parecer mais mgico e sobrenatural Ayla pensou, quando visto de fora. Ela lanou 
um olhar para a rea de trabalho em slex quando se afastavam, porm Jondalar no estava l.
     Ela acompanhou Deegie atravs do acampamento, dirigindo-se para o fundo da depresso, procurando amigos e parentes, e descobrindo onde se localizavam todos 
os outros acampamentos. Passaram por um terreno onde trs acampamentos, enfiados entre moitas, davam para uma clareira. Havia uma notvel impresso na rea que era 
diferente, mas Ayla no descobriu o que era a principio. Depois, ela comeou a reparar em detalhes especficos. As tendas eram rasgadas, e no estavam bem armadas,
e buracos eram imperfeitamente remendados, quando havia remendo. Um odor forte, desagradvel e o zumbido de moscas chamaram sua ateno para um pedao de carne apodrecendo, 
abandonado no terreno entre as tendas, e depois reparou em mais lixo espalhado casualmente por perto. Ela sabia que as crianas se sujavam com freqncia, mas aquelas 
que as encaravam pareciam que no se limpavam havia muito tempo. Suas roupas estavam encardidas, o cabelo desgrenhado, os rostos sujos. Havia imundcie desagradvel 
no local.
     Ayla reparou que Chaleg descansava diante de uma tenda. Foi apanhado de surpresa ao ver Ayla aparecer e sua primeira expresso foi de dio maligna Ela ficou 
chocada. Somente Broud a havia olhado daquele jeito. Ento Chaleg disfarou, mas o sorriso falso, maldoso era quase pior que o dio evidente;
     - Vamos sair daqui - disse Deegie, com uma fungadela de desdm.
     - Sempre  bom saber onde esto, para sabermos o que evitar.
     De repente, houve uma exploso de gritos e berros quando dois jovens, um menino no incio da adolescncia, e uma menina de uns onze anos saram correndo de 
uma das tendas.
     - Devolva-me isso! Est ouvindo? Devolva! - gritava a garota enquanto perseguia o menino.
     - Primeiro tem que me pegar, irmzinha - provocou o garoto, segurando alguma coisa e agitando-a diante do rosto da menina.
     - Voc... Oh, voc... Devolva-me isso! - berrou a garota outra vez e correu atrs dele com novo mpeto de velocidade.
     O sorriso do menino deixou claro que ele se divertia muito com a raiva e frustrao da menina, mas quando se virou para olh-la, no viu uma raiz exposta. Tropeou 
e caiu pesadamente, e a menina subiu sobre ele, golpeando-o e batendo com toda a sua fora. Ento, ele a atingiu no rosto com grande fora e fez sair um jato de 
sangue do nariz da menina. Ela gritou e lhe devolveu o soco na boca, rasgando seu lbio.
     - Ajude-me, Ayla! - disse Deegie, enquanto caa sobre os dois, rolando no solo. Ela no era to forte quanto a me, mas era uma jovem alta e robusta e quando
agarrou o garoto, que estava sobre a irm no momento, no houve resistncia, Ayla segurou a menina, que lutava para atacar novamente o irmo.
     - O que acham que esto fazendo? - disse Deegie, severa. - Como se podem cobrir dessa vergonha? Atingindo e golpeando um ao outro, e so irmo e irm, alm 
disso. Bem, vocs dois viro comigo. Daremos um jeito nisso imediatamente! - exclamou ela enquanto arrastava o garoto relutante pelo brao. Ayla a seguiu com a menina, 
que agora lutava para fugir.
     As crianas salpicadas de sangue, e seguiam o grupo. Quando Deegie e Ayla chegaram aos alojamentos no centro do acampamento, o boato correra  frente, e um 
grupo de mulheres esperava. Tulie estava entre elas, viu Ayla, e Marlie, e Crecie, chefes femininas, compreendeu ela, que formavam o Conselho de Irms.
     - Ela comeou... - gritou o garoto.
     - Ele pegou meu... - comeou a berrar a menina.
     - Silncio! - ordenou Tulie com firmeza e em voz alta, os olhos cintilando de clera.
     No h desculpas para atingir e ferir outra pessoa - disse Marlie to duramente e to zangada quanto Tulie. - Vocs j tm idade suficiente para saber disso, 
e se no sabem, aprendero agora. Tragam as coneias - ordenou.
     Um rapaz entrou correndo em uma das moradias e imediatamente Valez saiu segurando vrias tiras de couro. A garota entrou em pnico e os olhos do menino se arregalaram. 
Ele lutou para fugir, libertar-se, e comeou a correr, mas Talut, que vinha depressa do Acampamento de Tifceas o agarrou rapidamente e o trouxe de volta.
     Ayla estava preocupada. As duas crianas precisavam ser cuidadas, estavam machucadas; porm, mais que isso, o que iam fazer com elas? Afinal eram apenas crianas.
     Enquanto Talut segurava o menino, outro homem pegou uma das longas tiras de couro e comeou a envolver o menino com ela, amarrando-lhe o brao direito abaixado 
a seu lado. No estava suficientemente apertada para impedir a circulao, mas mantinha o brao imvel. Ento, algum trouxe a menina, que comeou a chorar quando 
seu brao direito foi preso da mesma forma que o do irmo.
     - Mas... Mas ele pegou meu...
     - No importa o que ele pegou - disse Tulie.
     - H outras maneiras de recuperar uma coisa - disse Brecie. - Podia ter vindo ao Conselho de Irms.  para isto que temos Conselhos.
     - O que acha que aconteceria se todos tivessem permisso para atacar-se mutuamente, somente porque algum discordava, ou provocava, ou pegava alguma coisa? 
- disse outra mulher.
     - Vocs dois precisam de uma lio - falou Marlie, enquanto o tornozelo esquerdo do menino era preso ao tornozelo direito da menina -, no existe lao to forte 
quanto o elo entre irmo e irm.  o elo do nascimento. Assim, apenas lembrarem disso, ficaro presos um ao outro durante dois dias, e as mos que agridem sero 
mantidas abaixadas para no poderem se erguer com raiva. Agora, devem ajudar um ao outro. Um no pode ir aonde o outro no puder. Um no pode dormir a menos que 
o outro se deite. Um no pode comer, ou beber, ou se lavar, ou fazer qualquer ao pessoal, sem o outro. Aprendero a depender um do outro, como devem fazer a vida 
inteira.
     - E todos que os virem sabero sobre a maldade que cometeram um contra o outro - anunciou Talut em voz alta, para que todos ouvissem.
     - Deegie - disse Ayla em voz baixa -. Precisam de ajuda. O nariz da menina est sangrando e a boca do garoto est inchada.
     As pessoas fitavam as duas quando passavam, puxando com firmeza.
     Deegie se acercou de Tulie e cochichou em seu ouvido. A mulher concordou com um gesto de cabea, depois deu um passo  frente.
     - Antes de voltarem ao seu acampamento, vo com Ayla  Fogueira do Mamute, onde ela cuidar dos ferimentos que infligiram um ao outro.
     A primeira lio em cooperao que tiveram que aprender foi como igualar seus passos, de forma que pudessem caminhar com os tornozelos amarrados juntos. Deegie 
acompanhou Ayla e os jovens  Fogueira do Mamute, e depois de serem limpos e tratados, as duas mulheres os observaram afastarem-se juntos, mancando.
     - Eles estavam brigando de verdade - disse Ayla enquanto se dirigiam ao Acampamento de Tifceas -, mas o menino pegou, realmente, alguma coisa da menina.
     - No importa - falou Deegie. - Brigar no  a melhor maneira de conseguir algo de volta. Devem aprender que brigar  inaceitvel.  bvio que no aprenderam 
isso em seu acampamento, de forma que devem aprender aqui. Faz voc compreender por que Crozie estava to relutante em aceitar a unio de Fralie com Frebec.
     - No entendo. Por qu?
     - No sabia? Frebec veio de um daqueles acampamentos. Todos trs so intimamente aparentados. Chaleg  primo de Frebec.
     - Bem, certamente Frebec mudou muito.
     -  verdade, mas serei sincera com voc. No tenho certeza, ainda, sobre ele. Acho que guardarei minha opinio at ele ser posto  prova.
     Ayla no podia afastar o pensamento das crianas, ou da idia de que ela deveria aprender alguma coisa daquela experincia. O julgamento fora rpido e absolutamente 
sem apelao. Nem sequer tiveram chance de explicar, e ningum considerou o tratamento dos danos em primeiro lugar - ela ainda nem sequer sabia os nomes das crianas. 
Mas, no estavam gravemente machucadas, e no havia dvida de que brigaram. Embora o castigo fosse rpido e no era provvel que o esquecessem, no era doloroso, 
apesar de talvez sentirem a mgoa da humilhao e ridculo por muitos anos.
     - Deegie - falou Ayla -, sobre as crianas, seus braos esquerdos esto livres, O que os impedir de desatar aquelas tiras?
     - Todo mundo saber. J  to humilhante caminhar pelo acampamento presos um ao outro com os braos abaixados, muito pior seria se os soltassem. Diriam que 
eram crianas controladas pelos espritos malignos da clera, que no eram capazes nem de se dominar o suficiente para aprender o valor da ajuda um do outro. Elas 
seriam evitadas e ficariam mais envergonhadas ainda.
     - Acho que jamais esquecero - disse Ayla.
     - Nem muitos outros jovens. At a discusso ser menor por algum tempo, embora no lhes faa mal gritar um com o outro - disse Deegie.
     Ayla estava ansiosa para voltar  familiaridade do Acampamento de Tifceas. Havia conhecido tantas pessoas e visto tantas coisas que sua mente estava num turbilho. 
Seria necessrio algum tempo para absorver tudo, mas ela no pde deixar de olhar quando passaram, novamente, pela rea de trabalhar o slex. Desta vez viu Jondalar, 
mas tambm viu algum que no esperava encontrar ali. Mygie l estava, olhando com adorao para os olhos azuis, e Ayla pensou que a maneira como estava de p era 
particularmente exagerada. Jondalar sorria para Mygie, um sorriso amvel, agradvel, que ela no via desde muito tempo, e ele tinha aquela expresso nos olhos que 
tampouco havia visto desde muito tempo.
     - Pensei que as mulheres de p vermelho deviam se preocupar em ensinar os rapazes - disse Ayla, pensando que ningum precisava ensinar coisa alguma a Jondalar.
     Deegie notou a expresso de Ayla e viu depressa o motivo para sua testa enrugada. Podia compreender, mas por outro lado, havia sido um inverno muito longo e 
difcil para ele tambm.
     - Ele tem necessidades fsicas, Ayla, exatamente como voc.
     De repente, Ayla corou. Havia sido ela, afinal, quem partilhara a cama de Ranec enquanto Jondalar dormia sozinho. Por que devia se aborrecer por ele encontrar 
uma mulher com quem ter prazeres na Reunio de Vero? Ela devia ter esperado por isso, mas sabia o motivo. Queria que ele partilhasse prazeres com ela. No era tanto 
a idia de ele ter escolhido Mygie, era que ele no a havia escolhido.
     - Se ele vai procurar uma mulher,  melhor que encontre uma p-vermelho agradvel - continuou Deegie. - Elas no se podem comprometer. Quando a estao terminar, 
a menos que o sentimento seja muito forte, no durar durante um prolongado inverno. Acho que o sentimento dele por Mygie no ser muito forte, e ela talvez o ajude 
a relaxar e refletir com maior clareza.
     - Tem razo, Deegie. Que diferena faz? Ele diz que partir depois da caada do mamute... E eu prometi me unir a Ranec - disse ela.
     Ento, pensou, enquanto caminhavam pela multido, voltarei para o Cl, e encontrarei Durc, e o trarei para c. Ele pode se tornar um Mamutoi e partilhar nossa 
fogueira, e ser amigo de Rydag. E pode trazer Ura tambm, assim ter uma companheira... E viverei aqui com todos os meus novos amigos, e Ranec, que me ama, e Durc, 
meu filho... Meu nico filho... E Rydag, e os cavalos e Lobo. E jamais verei Jondalar outra vez, pensou Ayla, enquanto uma desolao fria a enchia.
     Rugie e Tusie entraram correndo na parte principal da tenda sorridente e soltando risadinhas.
     - H outra l fora - anunciou Rugie
     Ayla abaixou a cabea depressa, Nezzie e Tulie se entreolharam com sagacidade, Fralie sorriu e Frebec tambm, com mais afetao.
     - Outra o qu? - perguntou Nezzie, para ter certeza, embora j soubesse.
     - Outra legao -disse Tusie, com o tom presunoso de estar cansada de toda aquela tolice.
     - Entre as delegaes e seus deveres como guardi, est tendo um vero ocupado, Tulie - disse Fralie, cortando carne para Tasher, mas sabendo que a chefe estava 
encantada por ser o foco de todo o interesse demonstrado pelo Acampamento do Leo e seus membros.
     Tulie e Ayla saram. Depois, Nezzie o fez tambm, para dar apoio, j que todos os outros pareciam ter desaparecido. Fralie e Frebec caminharam at a abertura 
da tenda para ver quem viera. Frebec seguiu as trs mulheres at o lado de fora, mas Fralie ficou para trs a fim de manter as crianas fora do caminho. Um grupo 
de pessoas se encontrava de p fora do territrio que Lobo havia determinado pertencer ao Acampamento do Leo. Ele havia marcado limites invisveis com seu faro 
e os patrulhava com regularidade. Qualquer pessoa podia chegar at os limites, mas ningum podia colocar um p dentro deles, sem indicao clara de boas-vindas de 
algum que ele conhecia.
     O animal estava entre as pessoas e a tenda, em uma postura defensiva, que inclua dentes  mostra e um uivo baixo, e nenhum dos visitantes desejava testar suas 
intenes. Ayla lhe fez sinal para se acercar dela, e lhe fez o sinal de amigo que ela o havia ensinado a aceitar durante uma manh inteira, tanto dela quanto 
de qualquer pessoa do Acampamento do Leo. Contra seus melhores instintos, significava que ele devia permitir estranhos dentro dos limites do territrio de seu bando. 
Embora os visitantes conhecidos fossem mais tolerados do que os completos desconhecidos, ele deixava claro que no gostava de companhia, e ficava sempre aliviado 
quando as visitas iam embora.
     Ocasionalmente, s para acostum-lo a grande nmero de pessoas, Ayla o conduzia atravs do acampamento, mantendo-o perto de si. Sempre provocava olhares fixos 
e arquejos ver a mulher caminhando confiantemente com um lobo ao lado, e isso deixava Ayla pouco  vontade, mas ela sentia que era necessrio. Apesar de os hbitos 
dos homens e lobos serem semelhantes, se as pessoas iam ser sua alcatia, havia algumas coisas sobre elas com que Lobo teria que se acostumar. As pessoas gostavam 
da companhia uma das outras, mesmo a de estranhos, e gostavam de reunir-se em grandes grupos.
     Mas Lobo no passava todo o seu tempo dentro do Acampamento de Tifceas. Muitas vezes descia at o prado com os cavalos, e saa sozinho em excurses, ou ento 
com uma pessoa apenas, Ayla, na maior parte das vezes, mas tambm com Jondalar ou Danug, ou suficientemente estranho para algumas pessoas, com Frebec.
     Frebec chamava o animal e o conduzia em direo ao alpendre dos cavalos, para mant-lo fora do caminho. Lobo deixava algumas pessoas nervosas, e isso podia
ter um efeito negativo sobre as delegaes que vinham para cortejar Ayla em nome de algum homem. Os homens no se interessavam em unir-se a Ayla, sabiam que ela 
estava prometida a Ranec. No procuravam uma companheira, mas uma irm. As delegaes vinham com propostas para adot-la.
     Embora astuta e experiente sobre a natureza e costumes de seu povo, nem mesmo Tulie havia considerado essa possibilidade. Mas, a primeira vez que fora procurada 
por uma mulher que conhecia, que tinha apenas filhos, perguntando-lhe se consideraria uma proposta de sua fogueira e acampamento para a adoo de Ayla, Tulie compreendeu 
imediatamente as implicaes.
     - Eu devia ter entendido desde o incio - explicou Tulie ao acampamento mais tarde - que uma mulher sozinha de status elevado, beleza e talentos daria uma irm 
extremamente desejvel, principalmente desde que foi adotada pela Fogueira do Mamute. Esta no  tida, em geral, como uma fogueira familiar. Ns, ou melhor, Ayla 
no precisa aceitar qualquer das ofertas a menos, claro, que o deseje, mas somente as propostas j aumentam o seu valor.
     Os olhos de Tulie se encheram de alegria ao considerar como Ayla contribua para o status e valor do Acampamento do Leo. Em seu corao, quase desejava que 
Ayla no estivesse prometida a Ranec. Seu Preo de Noiva seria assombrosamente alto, se estivesse disponvel. Por outro lado, isso significaria que o Acampamento 
do Leo a perderia, mesmo por um bom preo. Enquanto no se fixava um valor certo, a especulao sempre o aumentaria. Mas as ofertas que recebiam para a adoo de 
Ayla abriram um novo campo de possibilidades. Ela podia ser adotada em nome, sem deixar o Acampamento do Leo. Podia at tornar-se chefe, se seu irmo em potencial 
tivesse as conexes certas e ambio. E se Ayla e Deegie fossem chefes, com elos diretos com o Acampamento do Leo, isso traria enorme influncia. Todos estes pensamentos 
atravessavam a mente de Tulie quando se aproximavam da nova delegao.
     Ayla comeara a entender que as variaes no padro dos desenhos usados para ornar roupas e protetores para os ps eram um meio de definir a identidade do grupo. 
Embora todos usassem algumas formas geomtricas bsicas, uma preponderncia de uma sobre a outra - ziguezagues sobre losangos, por exemplo - e a maneira como eram 
combinadas eram indicadores significativos da afiliao e laos com outros acampamentos. Ao contrrio de Tulie, no entanto, ela ainda no conhecia instantaneamente 
esses padres e, pelo conhecimento pessoal dos indivduos, no sabia exatamente onde coloc-los dentro da estrutura global de hierarquia e relacionamento dentro 
do grupo.
     O status de alguns acampamentos era to elevado que Tulie teria aceitado menos em bens materiais, por causa das afiliaes e valor que traziam. Outros podiam 
ser boas possibilidades, se desejassem pagar bastante. Tulie, com base nas ofertas j recebidas, punha o grupo de lado com um s olhar. No valia a pena falar com 
eles. Simplesmente, no possuam o suficiente para trazer para o relacionamento, a fim de fazer com que a associao valesse a pena. Como resultado, Tulie era extremamente 
amvel, mas no os convidava a entrar e eles compreendiam que tinham chegado com muito pouco e tarde demais. No entanto, apenas fazer a proposta tinha suas compensaes. 
Era uma maneira de se aliarem ao Acampamento do Leo, o que aumentava sua influncia, e isso seria lembrado favoravelmente.
     Enquanto estavam de p, fora da tenda, trocando amabilidades, Frebec viu Lobo adotando unia postura defensiva e rosnando em direo ao rio. De repente, ele 
partiu.
     - Ayla! - gritou Frebec. - Lobo est atrs de alguma coisa!
     Ela assobiou alto, de forma penetrante e urgente, depois correu para olhar a trilha que levava ao rio. Viu Lobo regressar, seguido por um novo grupo de pessoas. 
Mas estas no eram desconhecidas.
     -  o Acampamento do Mamute - disse Ayla - Vejo Vincavec
     Tulie se virou para Frebec:
     - Quer ver se encontra Talut? Devemos saud-los adequadamente, e pode dizer a Marlie ou Valez que eles chegaram, afinal.
     Frebec concordou com um gesto de cabea e se afastou.
     A delegao que viera fazer uma proposta estava curiosa demais para ir embora agora. Vincavec foi o primeiro a alcan-los, viu a delegao, Ayla e Tulie, e 
compreendeu rapidamente o que acontecia. Deixou cair seu bornal e avanou com um sorriso.
     - Tulie, deve ser auspicioso ser voc a primeira pessoa que vejo, j que  a primeira pessoa que eu queria ver - disse Vincavec estendendo as duas mos e roando 
sua face na dela como um bom e velho amigo.
     - Por que seria eu a primeira pessoa que voc queria ver? - disse Tulie sorrindo, contra a vontade: ele era fascinante.
     Ele ignorou a pergunta.
     - Diga-me, por que seus convidados esto trajando as roupas mais finas? Uma delegao, talvez?
     Uma mulher falou.
     - Fizemos uma oferta para adotar Ayla - disse ela com dignidade, como se o oferecimento no houvesse sido realmente recusado. - Meu filho no tem irm.
     - Bem, eu tambm farei uma proposta, mais formalmente depois, mas para lhe dar o que pensar, Tulie, quero propor uma unio. - Virou-se para Ayla e segurou-lhe 
as mos. - Quero me unir a voc, Ayla. Quero que venha e faa minha Fogueira do Mamute algo mais que um nome. Somente voc pode me dar isso, Ayla.  sua fogueira 
que traz, mas em troca, posso lhe dar o Acampamento do Mamute.
     Ayla estava espantada e assombrada. Vincavec sabia que ela j tinha um compromisso. Por que ele lhe pedia aquilo? Mesmo que ela quisesse, ser que poderia de 
repente mudar de idia e se unir a ele? Ser que era to fcil assim quebrar uma Promessa?
     - Ela j est prometida a Ranec - disse Tulie.
     Vincavec olhou diretamente para a grande chefe, e sorriu com experincia. Depois, enfiou a mo em uma bolsa e retirou a mo fechada. Abriu-a e exibiu-a, na 
palma, dois pedaos de mbar bonitos, polidos, iguais.
     - Espero que ele tenha um bom Preo de Noiva, Tulie - disse.
     Os olhos de Tulie se arregalaram. Sua oferta era suficiente para tirar-lhe o ar. Ele lhe dissera, realmente, para dizer o preo, e em mbar, se quisesse, embora 
naturalmente, ela no o quisesse, no inteiramente. Os olhos de Tulie se estreitaram.
     - No sou eu que devo decidir, Ayla faz suas prprias escolhas, Vincavec.
     - Eu sei, mas receba estas pedras como um presente meu a voc, Tulie, por toda a sua ajuda na construo de minha moradia - disse ele, e empurrou-as para ela.
     Tulie ficou dividida. Devia recusar. Aceitar as pedras daria a ele uma vantagem sobre ela, mas a deciso era de Ayla, e prometida ou no, era livre para fazer 
essa escolha. Por que ela rejeitaria? Ao fechar a mo sobre o mbar Tulie viu a expresso de triunfo de Vincavec, e sentiu-se como se tivesse sido comprada com dois 
pedaos de mbar. Ele sabia que ela no consideraria nenhuma outra proposta. Se ele conseguisse convencer Ayla, ela seria dele. Mas Vincavec no conhece Ayla, pensou 
Tulie. Ningum conhece. Ela pode se chamar Mamutoi, mas ainda  uma estranha, e Quem poderia dizer o que a faria escolher? Ela observou o homem com a surpreendente 
tatuagem no rosto virar-se completamente  jovem e viu a reao de Ayla. Sem dvida, havia interesse.
     - Tulie! Que bom tornar a v-la! - Avarie se acercava, estendendo as mos. - Estamos to atrasados, todos os bons lugares esto ocupados. Conhece algum local 
adequado para estabelecer um acampamento? Onde vocs esto?
     - Bem aqui - disse Nezzie, aproximando-se para saudar a chefe do Acampamento do Mamute, em seguida. Ela estivera muito interessada na troca entre Tulie e Vincavec, 
e notara a expresso dele, tambm. Ranec no ficaria feliz ao saber que Vincavec ia fazer uma oferta por Ayla, mas Nezzie no estava segura, de modo algum, de que 
o chefe-Mamut do Acampa mento do Mamute encontrasse muita facilidade para convencer Ayla, no importava o que oferecesse.
     - Esto aqui? To longe de tudo? - disse Avarie.
     -  o melhor lugar para ns, com os animais. Eles ficam nervosos perto de muita gente - explicou Tulie, como se o local houvesse sido escolhido de propsito.
     - Vincavec, se o Acampamento do Leo  aqui, por que no acampamos por perto? - disse 
     Avarie.
     - No  um mau lugar. H vantagens, mais espao para se espalhar- disse Nezzie. Se o Acampamento do Leo e o Acampamento do Mamute esto aqui, pensou, parte 
do interesse do centro tambm vir para c.
     Vincavec sorriu para Ayla.
     - No posso pensar em nada de que gostasse tanto quanto de acampar perto do Acampamento do Leo  disse, ele.
     Talut se acercou com passos largos e saudou os co-lderes do Acampamento do Mamute com sua voz retumbante.
     - Vincavec! Avarie! Afinal, chegaram! O que os deteve?
     - Fizemos algumas paradas pelo caminho - falou Vincavec.
     - Pea a Tulie para mostrar o que ele lhe trouxe - disse Nezzie.
     Tulie ainda se sentia um pouco embaraada, e desejou que Nezzie no houvesse dito nada, mas abriu a mo e estendeu o mbar para seu irmo ver.
     - So bonitos - disse Talut. - Vejo que resolveu negociar. Sabia que o Acampamento do Salgueiro tem conchas marinhas espiraladas brancas?
     - Vincavec quer mais do que conchas - disse Nezzie. - Quer fazer uma oferta por Ayla. para sua fogueira.
     - Mas ela est prometida a Ranec - disse Talut
     - Uma Promessa  apenas uma Promessa - disse Vincavec.
     Talut olhou para Ayla, depois para Vincavec, e Tulie. Ento riu:
     - Bem, esta  uma Reunio de Vero que no ser esquecida por muito tempo.
     - No foi somente a parada no Acampamento do mbar - disse Avarie. - Vendo voc, Talut, com sua cabeleira ruiva, me fez lembrar. Ficamos tentando dar a volta 
por um leo da caverna com uma juba avermelhada, mas ele parecia seguir a mesma direo que ns. No vi um bando, mas  melhor prevenir as pessoas de que h lees 
por perto.
     - Sempre h lees por perto - disse Talut.
     - Sim, mas este agia de forma estranha. Em geral, os lees no incomodam muito as pessoas, mas, por algum tempo, pensei que ele nos caava. Aproximou-se tanto 
que tive dificuldade para dormir, uma noite. Era o maior leo da caverna que j vi. Ainda tremo quando penso nele - disse Avarie.
     Ayla ouviu com ateno, franzindo a festa, depois sacudiu a cabea. No. Apenas coincidncia, pensou. H muitos lees da caverna grandes.
     - Quando estiverem acomodados, venham at a clareira. Falvamos sobre a caada de mamutes, e a Fogueira do Mamute planeja a cerimnia de Caa. No far mal 
ter outro bom chamador. Estou certo de que querer carne de mamute para a Festa Matrimonial, j que planeja ser parte dela, Vincavec! - exclamou Talut. Comeou a 
afastar-se, depois se virou para Ayla: - J que caar mamutes conosco, por que no volta comigo e traz seu arremessador de lanas? De qualquer maneira, eu vinha 
busc-la.
     - Caminharei com voc - disse Tulie. - Tenho que ir ao Acampamento da Feminilidade e ver Latie.
     - Este  de boa qualidade. Especialmente para ferramentas de lminas, como cinzis, raspadeiras, furadores. - disse Jondalar, abaixado sobre um joelho, examinando
a face interior lisa e cinzenta de slex bem estruturado.
     Ele havia usado um pedao especialmente moldado de chifre novo, cone e suficientemente resistente para no se partir, como escavadeira e alavanca, para arrancar 
a massa exposta da slica dura de sua matriz gredosa. Depois, ele a abriu com um martelo de pedra.
     - Wymez diz que o melhor slex vem daqui - disse Danug.
     Jondalar subiu a encosta perpendicular do penhasco, de uma garganta do rio, que havia sido desgastada com o tempo pela gua agitada. Mais fragmentos do slex 
duro, encaixados em uma crosta branca, opaca, saltaram da pedra gredosa um pouco menos dura.
     - O slex  sempre melhor se voc pode tir-lo de sua fonte. Este  semelhante ao slex da mina de Dalanar, e o seu  a melhor pedra da regio.
     - O Acampamento do Lobo certamente pensa que este  o melhor slex - disse Tarneg. - Na primeira vez que vim aqui estava com Valez.
     Deviam t-lo ouvido entusiasmar-se. Com este local to perto do acampamento deles, consideram isto aqui como pertencendo a eles. Voc fez a coisa certa ao pedir 
permisso para vir aqui, Jondalar.
     - E somente cortesia. Sei como Dalanar se sente em relao  sua mina.
     - O que h de to especial nesta pedra? J vi slex, muitas vezes, em plancies aluviais - disse Tarneg.
     - s vezes podem-se encontrar bons ndulos que foram recentemente inundados nas plancies aluviais, e so muito mais fceis de se arrancar. D trabalho tir-los 
da rocha. Mas o slex tende a secar se jaz ao ar livre muito tempo - disse Jondalar. - Ento, as lascas saem mais abruptamente, menores.
     - Se ficou muito tempo na superfcie - disse Danug -, Wymez costuma enterrar o slex em solo mido por algum tempo para facilitar o trabalho nele.
     - J fiz isso. Pode ajudar, mas depende do tamanho do ndulo, e quo seco est. Se for um pedao grande, no pode ser muito antigo. Funciona melhor para pedaos
pequenos, mesmo do tamanho de um ovo, mas dificilmente vale a pena trabalh-los, a menos que sejam de boa qualidade.
     - Fazemos algo semelhante com presas de mamute - disse Tarneg.
     - Como primeiro passo, envolvemos a presa em couros midos e enterramos com cinzas quentes. O marfim muda, torna-se mais denso, porm mais fcil de trabalhar, 
e de dobrar.  a melhor maneira de endireitar uma presa de mamute.
     - Eu me perguntava como vocs faziam isso - disse Jondalar, depois fez uma pausa para pensar, claramente. - Meu irmo gostaria de aprender isso. Ele fabricava 
lanas. Podia fazer uma haste boa ereta, mas entendia as propriedades da madeira, como curv-la e mold-la. Acho que teria compreendido seu processo tambm. Talvez 
o conhecimento de seus mtodos seja uma razo para Wymez entender to depressa a idia de aquecer o slex a fim de torn-lo mais malevel para o trabalho. Ele  
um dos melhores trabalhadores de slex que j conheci.
     - Voc tambm  um bom quebrador de slex, Jondalar - disse Tarneg. - Mesmo Wymez fala muito bem de voc, e ele no elogia facilmente. Sabe, andei pensando. 
Precisarei de um bom trabalhador em slex para o Acampamento dos Auroques. Sei que voc tem dito que vai voltar para sua casa, mas parece-me uma longa viagem. Voc 
consideraria a idia de ficar se tivesse um local? O que quero dizer , que tal acharia em se reunir ao meu acampamento?
     A testa de Jondalar se enrugou enquanto pensava em um meio de recusar o oferecimento de Tarneg sem ofend-lo.
     - No tenho certeza. Preciso pensar sobre isso.
     - Sei que Deegie gosta de voc, estou certo de que ela concordaria. E no teria problema algum para estabelecer uma fogueira com algum - encorajou Tarneg. 
- Tenho reparado que as mulheres esto  sua volta, at as ps-vermelhos. Primeiro foi Mygie, agora todo o resto encontra motivos para visitar o local de trabalho 
em slex. Deve ser porque voc  novo por aqui. - Sorriu.
     - Tenho ouvido mais de um homem desejar ser um estrangeiro alto, louro. Todos gostariam de ter uma p-vermelho interessada, novamente, mas agora  a vez de 
Danug. - Tarneg sorriu afetadamente para o jovem primo.
     Jondalar e Danug pareciam embaraados. Jondalar ficou de p e desviou o olhar para mudar a ateno para outro local e, de forma incidental, notou que perto 
daqueles dois homens, ele no era excepcionalmente alto. Todos trs tinham quase a mesma altura e Danug ainda iria crescer. Ele seria um segundo Talut. Mas havia 
homens de todo tamanho na Reunio, exatamente como havia nas Reunies de Vero dos Zelandonii.
     - Bem, eu gostaria que pensasse no Acampamento dos Auroques, Jondalar. Agora que Deegie e Branag se uniro, afinal, construiremos neste outono, embora eu ainda 
no tenha decidido onde fazer uma habitao nica, como o Acampamento do Leo, ou as menores, para cada famlia. Tendo a ser antiquado. Gosto mais das moradias grandes, 
mas muitos jovens querem um local com somente seus prprios parentes e, confesso, quando as pessoas comeam a discutir, seria muito bom ter sua prpria habitao 
para ficar.
     - Aprecio sua proposta, Tarneg - disse Jondalar. - Falo com sinceridade, mas no quero lhe dar uma impresso falsa. Vou para casa. Tenho que ir. Eu poderia 
lhe dar muitas razes, por exemplo, que preciso comunicar a morte do meu irmo. Mas a verdade  que no sei por que tenho que ir. Apenas tenho.
     - E por causa de Ayla? - perguntou Danug, uma ruga de preocupao na testa.
     - Ayla  parte do motivo, confesso. No anseio em v-la partilhar uma fogueira com Ranec, mas eu tentava convenc-la a voltar comigo quando encontramos vocs. 
Agora, parece que voltarei sozinho, de qual quer maneira... No estou ansioso por isso, tampouco, mas no muda nada. Ainda preciso ir.
     - No estou seguro de entender, mas desejo-lhe boa sorte, e que a Me lhe sorria em sua jornada. 
     - Quando pensa partir? - perguntou Tarneg.
     - Pouco depois da caada de mamute.
     - Falando da caada de mamute, devamos voltar. Esto planejando isso esta tarde - disse Tarneg.
     Comearam a caminhar ao longo do rio que era um afluente da corrente principal perto do acampamento, e subiram por rochas em um local onde as muralhas se estreitavam. 
Abrindo caminho para fora da garganta em volta de uma salincia alcantilada, chegaram at um grupo de rapazes que gritavam palavras insultuosas e de encorajamento 
para dois deles, que lutavam. Druwez estava entre os espectadores.
     - O que est ocorrendo aqui? - perguntou Tarneg, intrometendo-se no meio deles e separando os lutadores. Um sangrava da boca, o outro tinha um olho inchado 
e fechado.
     - Esto apenas... Competindo - falou algum.
     - Sim, esto... Hum... Treinando... Para as lutas corpo a corpo.
     - Isto no  competio - disse Tarneg -,  uma luta.
     - No, sinceramente, no brigvamos - disse o rapaz com o olho inchado -, apenas nos divertamos um pouco.
     - Chama olhos roxos e dentes quebrados de brincadeira? Se treinavam apenas, no viriam aqui, a este lugar escondido onde ningum os veria. Acho melhor me dizerem 
o que est havendo.
     Ningum respondeu voluntariamente, mas houve muito movimento de arrastar os ps.
     - E o resto? - disse Tarneg, olhando para os outros jovens. - O que todos esto fazendo aqui? Inclusive voc, Druwez. O que acha que a Me e Barzec faro quando 
descobrirem que voc estava aqui, encorajando uma briga? Acho melhor me dizerem o que aconteceu.
     Ainda assim, ningum falou.
     - Talvez seja melhor levarmos vocs e deixar que os Conselhos decidam o que fazer. As Irms encontraro um meio de vocs se livrarem de sua necessidade de lutar, 
e de darem um bom exemplo. Talvez at excluam todos vocs das caadas de mamutes.
     - No conte nada, Tarneg. Dalen tentava apenas det-los - falou Druwez.
     - Det-los? Talvez deva me dizer o motivo desta luta - falou Tarneg.
     - Acho que sei - disse Danug. Todos se voltaram para o rapaz alto:
     -  por causa do ataque.
     - Que ataque? - interrogou Tarneg. Aquilo parecia grave.
     - Algumas pessoas falavam sobre atacar um Acampamento Sungaea - explicou Danug.
     - Sabem que os ataques foram proibidos. Os Conselhos tm tentado negociar uma chama de amizade e estabelecer comrcio com os Sungaea. Odeio pensar no problema 
que um ataque causaria - disse Tarneg. - De quem foi  idia?
     - No sei - respondeu Danug. - Um dia, todos falavam sobre o ataque. Algum descobriu um Acampamento Sungaea h alguns dias daqui.
     O plano era dizer que iam caar e, em vez disso, destruir o acampamento, roubar a comida e expuls-los. Eu lhes disse que no estava interessado, e que achava 
isso uma estupidez. S arranjariam encrenca para si mesmos e para os outros. Alm disso, paramos em um Acampamento Sungaea quando vnhamos para c. Um irmo e uma 
irm acabavam de morrer. Talvez no seja o mesmo acampamento, mas provavelmente todos eles esto tristes. No achei certo atac-los.
     - Danug pode fazer isso - disse Druwez. - Ningum o chamar de covarde porque ningum quer brigar com ele. Mas quando Dalen disse que no ia tomar parte em 
ataque algum, tampouco, um grupo comeou a dizer, ento, que ele tinha medo de briga. Foi quando ele disse que ia lhes mostrar que no tinha medo de lutar com ningum. 
Dissemos que viramos com ele, para que no o atacassem em grupo.
     - Quem  Dalen? - perguntou Tarneg. O rapaz com o dente quebrado e a boca sangrando, avanou um passo. - Quem  voc? - perguntou Tarneg ao outro, cujo olho 
j ficava roxo. Ele no respondeu.
     - Chamam-no de Cluve.  sobrinho de Chaleg - disse Druwez.
     - Sei o que est tentando fazer - disse Cluve soturnamente. - Est tentando jogar toda a culpa em mim porque Druwez  seu irmo.
     - No, eu no ia culpar ningum. Deixarei o Conselho de Irmos decidir. Todos podem esperar uma convocao deles, inclusive meu irmo. Agora,  melhor se limparem. 
Se voltarem  Reunio com essa aparncia, todos sabero que brigavam, e ningum ser capaz de impedir que as Irms saibam. No preciso dizer-lhes o que acontecer 
se descobrirem que estiveram brigando por causa de um ataque.
     Os rapazes se apressaram em partir antes que Tarneg mudasse de idia, mas afastaram-se em dois grupos, um com Cluve, o outro com Dalen. Tarneg tomou conta de 
quem ia com quem. Depois, os trs continuaram voltando para a Reunio.
     - Se no se importa, Tarneg, h uma coisa que eu gostaria de saber - disse Jondalar, - Por que deixa que o Conselho de Irmos decida sobre o que fazer com os 
rapazes? Eles no contariam nada, realmente, ao Conselho de Irms?
     - As Irms no toleram brigas, e no ouviro desculpa alguma, mas muitos dos Irmos tomaram parte em ataques quando eram jovens, ou em uma luta ou duas, s 
para terem um pouco de excitao. Voc nunca brigou com algum quando no devia fazer isso, Jondalar?
     - Ora, sim, acho que sim. E tambm fui apanhado.
     - Os Irmos so mais tolerantes, especialmente em relao a algum que lutava por uma boa causa, embora Dalen devesse ter contado a algum sobre o ataque, em 
vez de brigar para mostrar que no tinha medo. Parece mais fcil para um homem perdoar esse tipo de coisa. As Irms dizem que a luta sempre leva a mais luta, e talvez 
seja verdade, mas Cluve estava certo sobre uma coisa - disse Tarneg. - Druwez  meu irmo. Ele no encorajava a briga, realmente, tentava ajudar seu amigo. Detesto 
v-lo ter problemas por isso.
     - J brigou com algum, Tarneg? - perguntou Danug.
     O futuro chefe olhou para seu primo mais jovem por um momento; depois concordou com um gesto de cabea.
     - Uma vez ou duas, porm no muitos homens desejam me desafiar.
     Como voc, sou maior do que a maioria. s vezes, essas competies so mais violentas do que as pessoas querem admitir, contudo.
     - Eu sei - disse Danug com expresso pensativa.
     - Mas, ao menos, eles esto sob a guarda de olhos atentos, que no permitiro que algum fique gravemente ferido, e no vo mais longe, comeando uma briga 
de vingana. - Tarneg lanou um olhar ao cu. - E perto de meio-dia, mais tarde do que pensei. E melhor nos apressarmos se queremos ouvir sobre a caada de mamutes.
     Quando Ayla e Talut alcanaram a clareira, ele a conduziu em direo a uma pequena elevao, a um lado, que se prestava, naturalmente, para local de reunio 
de pequenos grupos e era usada para reunies casuais e especiais. Uma estava em andamento, e Ayla examinou as pessoas procurando ver Jondalar. Ultimamente, ela s 
via o assim, de relance. Desde o instante em que chegaram, ele parecia perder-se na multido, deixando o Acampamento de Tifceas de manh cedo, e voltando tarde, 
se voltava.
     Quando ela o via, ele estava em geral com alguma mulher, usualmente, uma diferente de cada vez. Ela se encontrou fazendo comentrios depreciativos a Deegie 
e alguns outros sobre as muitas parceiras de Jondalar. Ela no era a nica. Ouviu Talut comentar que ele se perguntava se Jondalar tentava compensar o inverno inteiro 
na curta temporada. Suas exploraes eram comentadas por muitos dos acampamentos, muitas vezes com humor e uma espcie de admirao, tanto por sua vitalidade aparente, 
quanto por sua atrao evidente. No era a primeira vez que sua atrao pelas mulheres era motivo de conversa, mas era a primeira vez que ele no se importava, realmente.
     Ayla tambm ria dos comentrios, mas na escurido da noite, continha as lgrimas e perguntava-se o que havia de errado com ela. Por que ele nunca a escolhia? 
No entanto, havia um estranho consolo em v-lo com tantas mulheres diferentes. Ao menos, ela sabia que ele no encontrava nenhuma especial para substitu-la.
     Ela ignorava que Jondalar se esforava para ficar longe do Acampamento de Tifceas o mximo possvel. Na acomodao mais ntima da tenda, ele estava muito mais 
consciente de Ayla e Ranec dormindo juntos - no na mesma cama todas as noites, desde que ela sentia precisar da privacidade de sua prpria cama, s vezes, porm, 
lado a lado. Era bastante fcil permanecer perto da rea de trabalhar o slex durante o dia, e isso levava a convites para conhecer pessoas e dividir refeies. 
Pela primeira vez desde rapaz, fazia amigos por conta prpria, sem a ajuda do irmo, e descobriu que isso no era to difcil.
     As mulheres tambm lhe davam uma desculpa para ficar longe  noite, se no a noite toda, ao menos at tarde. Ele tinha pouco sentimento verdadeiro por qualquer 
uma delas, mas sentia-se culpado por us-las em troca de um lugar para ficar, e fazia isso da melhor maneira que conhecia, o que o tornava mais irresistvel ainda. 
Muitas mulheres haviam tido a experincia, que um homem to atraente quanto Jondalar se preocupava mais em satisfazer a si prprio do que a elas, mas ele era bastante 
hbil para fazer qualquer mulher se sentir querida. Era um alvio para ele no ter que lutar contra suas necessidades potentes, assim como tentar enfrentar seus 
sentimentos confusos, e ele se divertia com as mulheres, porm, da mesma maneira que sempre gostara de mulheres, a um nvel superficial. Ele ansiava pelos sentimentos 
mais profundos que sempre havia procurado, e que mulher alguma havia despertado nele, com exceo de Ayla.
     Ayla o viu voltando da mina de slex do Acampamento do Lobo, juntamente a Tarneg e Danug, e como fazia muitas vezes quando via o, seu corao martelou e sua 
garganta doeu. Ela viu Tulie aproximar-se dos trs homens, e depois a viu afastar-se com Jondalar, enquanto Tarneg e Danug continuavam em direo a eles. Talut acenou, 
chamando os dois.
     - Quero lhe perguntar sobre os costumes de seu povo, Jondalar  disse Tulie quando encontraram um local privado para conversar. - Sei que honram a Me, e que 
isso enaltece voc e seus Zela... Zelandonii, mas vocs tambm tm uma iniciao formal para a feminilidade com compreenso e delicadeza?
     - Primeiros Ritos? Sim, claro. Como algum no se importaria com a maneira como uma jovem  possuda pela primeira vez? Nossos rituais no so exatamente iguais 
aos seus, mas acho que o propsito  o mesmo - disse Jondalar.
     - timo. Tenho falado com algumas mulheres, elas o elogiam muito e foi recomendado vrias vezes, e isso  importante, porm mais importante  que Latie pediu 
voc. Gostaria de ser uma parte de sua iniciao?
     Jondalar compreendeu que devia ter sabido o que o esperava. No que nunca lhe tivessem pedido antes, mas, por alguma razo, pensou que ela s queria saber sobre 
os costumes de seu povo. No passado, ele sempre desejara muito participar e ficava tentado, mas, desta vez, hesitou. Ele tambm havia sentido uma culpa terrvel 
depois, por usar a cerimnia profundamente sagrada para satisfazer suas necessidades prprias, pelos sentimentos mais profundos que ela provocava. No estava certo 
de conseguir controlar os sentimentos confusos agora, principalmente com algum de quem gostava tanto quanto Latie.
     - Tulie, participei de rituais semelhantes, e compreendo a honra que voc e Latie me concedem, mas acho que devo recusar. Compreendo que no temos relacionamento 
verdadeiro, mas vivi com o Acampamento do Leo o inverno inteiro, e naquela poca, vim a considerar Latie como uma irm - disse Jondalar -, uma irm mais nova, especial.
     Tulie concordou com um gesto de cabea.
     - E pena, Jondalar. Sob muitos aspectos, voc seria perfeito. Voc vem de to longe, no h relacionamento possvel entre vocs. Mas compreendo como ela passou 
a ser como uma irm. Vocs no partilharam a mesma fogueira, exatamente, mas Nezzie trata-o com a afeio de um filho, e Latie  uma pessoa com muita esperana. 
No h abominao pior aos olhos da Me do que um homem iniciar uma mulher nascida de sua prpria me. Se sente como um irmo, infelizmente isso mancharia a cerimnia.
     Estou contente porque me contou isso.
     Voltaram juntos em direo s pessoas sentadas e de p na encosta e onde da se nivelava, dando para a clareira. Jondalar viu Talut conversando e, mais interessante 
ainda, Ayla de p ao lado dele com seu arremessador de lanas.
     - Vocs viram como Ayla atira a lana longe com este arremessador -dizia Talut -, mas gostaria que vissem em melhores circunstncias, onde poderiam notar, realmente, 
o que o arremessador pode fazer. Sei que a maioria de ns gosta de usar uma lana maior com as pontas moldadas, que Wymez desenvolveu para caar mamutes, mas este 
arremessador possui algumas vantagens reais. Alguns de ns, do Acampamento do Leo, o experimentamos. Ele arremessa uma lana de bom tamanho, mas  necessrio prtica, 
como atirar uma lana com a mo tambm precisa. A maioria cresce atirando lanas em jogos e caadas. Esto acostumados a atirar, mas, se pudessem ver como funciona 
bem, estou certo de que muitas pessoas fariam uma tentativa. Ayla diz que planeja us-lo na caada de mamutes, e estou certo de que Jondalar o far tambm, assim, 
algumas pessoas vero como funciona. Falamos sobre uma competio, mas ainda no se resolveu nada. Quando voltarmos da caada, acho que deveramos organizar uma 
grande competio, com todos os tipos de provas.
     Houve expresses gerais de apoio  sua sugesto, depois Brecie disse:
     - Acho que uma grande competio  uma boa idia, Talut. Eu no me importaria de ver dois ou trs dias dela. Temos trabalhado em um pau de arremessar. Alguns 
conseguiram atingir vrias aves com um s arremesso. Enquanto isso acho que devamos deixar os mamuti decidirem qual o melhor dia para partir, e fazer alguns Chamados 
para os mamutes. E se no temos mais nada sobre o que falar, preciso voltar ao meu acampamento.
     A reunio comeou a se dissolver, depois houve uma onda repentina de interesse quando Vincavec entrou na clareira com passos largos, seguido por seu acampamento, 
a delegao que havia falado em adotar Ayla, e os ltimos do Acampamento do Leo, Nezzie e Rydag. As pessoas da delegao comearam a espalhar a notcia de que o 
chefe-Mamut do Acampamento do Mamute queria pagar qualquer Preo de Noiva que Tulie pedisse por Ayla, apesar do fato de ela j estar prometida.
     - Sabe que ele reivindica o direito de chamar seu acampamento como a Fogueira do Mamute, somente porque ele  Mamut - Jondalar ouviu uma mulher dizer a outra, 
prxima -, mas ele no pode reivindicar qualquer fogueira at estar unido. A mulher traz a fogueira. Ele a quer somente porque ela  filha da Fogueira do Mamute, 
para tornar o seu, assim chamado, Acampamento do Mamute, aceitvel.
     Por acaso, Jondalar estava de p ao lado de Ranec quando ouviu algum lhe contar. Ficou surpreso por Ler um sentimento de compaixo ao ver a expresso do homem 
escuro. Ocorreu-lhe que se algum sabia como Ranec se sentia naquele momento, esse algum era ele. Mas, ao menos, ele sabia que o homem que convencera Ayla a viver 
com ele a amava. Parecia bvio que Vincavec queria Ayla apenas para servir seus propsitos, no porque gostasse dela.
     Ayla tambm havia ouvido trechos de conversa em que se mencionava o seu nome. Ela no gostava de ouvir por acaso. No Cl, ela poderia ter desviado os olhos 
para no ver os sinais, mas quando a conversa era toda verbal, no podia fechar os ouvidos.
     E ento, de repente, ela no ouvia ningum, exceto o tom de vozes provocantes de algumas crianas mais velhas, e a palavra cabea-chata.
     - Veja aquele animal, vestido como gente - disse um menino, apontando o dedo para Rydag, e rindo.
     - Eles vestem os cavalos, por que no um cabea-chata? - disse outro, com mais risadas.
     - Ela afirma que ele  uma pessoa, sabem. Dizem que ele compreende tudo o que voc fala, e pode at falar - disse outro jovem.
     - Claro, e se ela conseguisse fazer o lobo andar sobre as patas traseiras, tambm o chamaria de gente, com certeza.
     - Talvez deva tomar cuidado com o que diz. Chaleg disse que o cabea-chata pode fazer o lobo perseguir as pessoas. Ele disse que o cabea-chata fez o lobo atac-lo, 
e vai levar o caso ao Conselho de Irmos.
     - Bem, isso no prova que ele  um animal? Se  capaz de fazer outro animal atacar?
     - Minha me diz que no acha certo trazerem animais para uma Reunio de Vero.
     - Meu tio disse que ele no se importa muito com os cavalos, ou o lobo, contando que fiquem afastados, mas acha que deviam ser proibidos de trazer aquele cabea-chata 
para reunies e cerimnias destinadas s pessoas.
     - Ei, cabea-chata! Vamos, saia daqui! Volte para seu bando, com outros animais, onde  o seu lugar.
     A princpio. Ayla ficou espantada demais para reagir aos comentrios claramente desdenhosos. Depois viu Rydag fechar os olhos e abaixar a cabea e comear a 
voltar para o Acampamento de Tifceas. Com clera flamejante, avanou para os jovens.
     - O que h com vocs? Como podem chamar Rydag de animal? Esto cegos? - disse com fria mal reprimida.
     Vrias pessoas pararam para ver o que ocorria.
     - No percebem que ele compreende tudo o que dizem? Como podem ser to cruis? No se envergonham?
     - Por que meu filho deveria se envergonhar? - perguntou uma mulher, vindo em defesa do filho. - Aquele cabea-chata  um animal, e no devia estar presente 
em cerimnias que so sagradas para a Me.
     Outras pessoas se amontoavam ao redor, inclusive a maior parte do Acampamento do Leo.
     - Ayla, no d ateno a eles - disse Nezzie, tentando acalm-la.
     - Animal! Como ousa dizer que ele  um animal? Rydag  to gente quanto voc - gritou Ayla, voltando-se para a mulher.
     - No tenho que ser insultada assim - disse a mulher. - No sou mulher cabea-chata.
     - No, no ! Ela seria mais humana do que voc. Teria mais compreenso, mais compaixo.
     - Como sabe tanto?
     - Ningum melhor do que eu. Eles me aceitaram, me criaram quando perdi minha famlia e no tinha mais ningum. Eu teria morrido se no fosse a compaixo de 
uma mulher do Cl - disse Ayla. - Eu me orgulhava de ser uma mulher do Cl, e uma me.
     - No, Ayla, no! - ouviu Jondalar dizer, mas ela no se impor tava com nada agora.
     - Eles so humanos e Rydag tambm. Eu sei, porque tenho um filho como ele.
     - Oh, no! Gemeu Jondalar, enquanto abria caminho em direo a ela.
     - Ela disse que tem um filho como ele? - falou um homem. Um filho de espritos mistos?
     - Receio que tenha falado demais, Ayla - disse Jondalar em voz baixa.
     - Ela deu  luz uma aberrao? Fique longe dela,  melhor. - Um homem avanou para a mulher que discutira com Ayla. - Se ela atrai esse tipo de esprito para 
si, talvez penetre tambm em outras mulheres.
     - Tem razo!  melhor se afastar dela tambm - disse outro homem para a mulher obviamente grvida, de p ao seu lado, enquanto a levava embora. Outras pessoas 
recuavam, as expresses cheias de repugnncia e medo.
     - Cl? - disse um dos msicos. - Aqueles ritmos que ela tocou, no disse que eram ritmos do Cl?  isso que queria dizer: cabeas-chatas?
     Quando Ayla olhou ao redor, sentiu um instante de pnico, e uma necessidade de fugir de todas aquelas pessoas que a olhavam com tanto nojo. Depois fechou os 
olhos e respirou fundo, levantou o queixo, e permaneceu parada, desafiante. Que direito tinham eles de dizer que seu filho no era humano? Com o rabo do olho, viu 
Jondalar ao seu lado, e ficou mais grata do que poderia expressar.
     Ento do outro lado, outro homem deu um passo  frente. Ela se virou e sorriu para Mamut, e Ranec tambm. Em seguida, Nezzie estava com ela, e Talut, e depois, 
surpreendentemente, Frebec. Quase como uma s pessoa, o resto do Acampamento do Leo estava ao lado dela.
     - Esto enganados - disse Mamut  multido, com voz que parecia forte demais para vir de um velho. - Os cabeas-chatas no so animais. So gente, e filhos 
da Grande Me, tanto quanto vocs. Eu tambm vivi com eles por algum tempo, e cacei com eles. Sua curandeira tratou meu brao, e aprendi meu caminho para a Me atravs 
deles. A Me no mistura espritos, no existem cavalos-lobos, ou lees-veados. As pessoas do Cl so diferentes, mas a diferena  insignificante. Nenhuma criana 
como Rydag, ou o filho de Ayla nasceria se no fosse humana tambm. No so aberraes, so simplesmente crianas.
     - No me importo com o que diz, velho Mamut - falou a mulher grvida. - No quero um filho cabea-chata ou misto. Se ela j teve um, esse esprito pode pairar 
perto dela.
     - Mulher, Ayla no  ameaa para voc - disse o velho feiticeiro.
     - O esprito que foi escolhido para seu filho j est l. Mo pode ser mudado agora. No foi obra de Ayla dar ao seu beb o esprito de um homem cabea-chata, 
ela no atraiu esse esprito para si. 
     Foi escolha da Me. Deve lembrar que o esprito de um homem jamais permanece longe do prprio homem. Ayla cresceu com o Cl. Tornou-se mulher enquanto vivia 
com eles. Quando Mut resolveu lhe dar um filho, Ela s poderia escolher entre os homens prximos, e todos eram homens do Cl. 
     Claro, o esprito de um deles foi escolhido para penetr-la, mas no vem nenhum homem do Cl aqui por perto, no ?
     - Velho Mamut, e se houvesse alguns homens cabeas-chatas aqui? - gritou uma mulher de entre a multido.
     - Acredito que teriam que ser muito ntimos, at partilhar a mesma fogueira, antes de esse esprito ser escolhido. As pessoas do Cl so humanas, mas existem 
algumas diferenas. Enquanto, para a Me, a vida  melhor do que nenhuma vida, e por isto Ayla recebeu um filho quando desejou um, no  fcil misturar os dois. 
Com tantos homens Mamutoi por perto, um deles seria escolhido primeiro.
     - Isso  o que diz... Velho - gritou outra voz - No tenho certeza de que  verdade. Vou conservar minha mulher longe dela.
     - No  de admirar que ela seja boa com animais, j que cresceu com eles. - Ayla se virou e viu que era Chaleg quem falava.
     - Isso significa que sua magia  mais forte do que a nossa? - retrucou Frebec. Houve alguma inquietao na multido.
     - Eu a ouvi dizer que no  mgica. Ela diz que qualquer um pode faz-lo. - Frebec reconheceu a voz do Mamut do Acampamento de Chaleg.
     - Ento, por que ningum o fez antes? - disse Frebec. - Voc  Mamut. Se algum  capaz de faz-lo, quero v-lo sair e cavalgar um cavalo. Por que no domina 
um lobo? Tenho visto Ayla fazer aves descer do cu com seus assobios.
     - Por que a defende, Frebec, contra sua famlia, seu acampamento? - perguntou Chaleg.
     Que acampamento  o meu? Aquele que me expulsou ou o que me aceitou? Minha fogueira  a Fogueira da Gara, meu acampamento  o do Leo. Ayla viveu conosco o 
inverno todo. Ayla estava presente quando Bectie nasceu, e ela no  mista. A filha da minha fogueira no estaria aqui, agora, se no fosse Ayla.
     Jondalar ouvia Frebec com um n na garganta. Apesar do que ele dizia, era preciso verdadeira coragem para enfrentar seu prprio primo e parentes do acampamento 
onde nascera. Jondalar mal podia acreditar que aquele era o mesmo homem que fora to arruaceiro. No incio, ele havia condenado Frebec to depressa, contudo, quem 
 que se sentira embaraado por causa de Ayla? Quem temia o que as pessoas diriam se ela falasse algo sobre sua formao? Quem tinha medo de ser rejeitado por sua 
famlia e seu povo, se a defendesse? Frebec lhe havia mostrado que covarde ele era Frebec, e Ayla.
     Quando ele a vira engolir o medo e levantar o queixo para enfrentar todos eles, nunca sentira tanto orgulho de algum em sua vida. Ento, o Acampamento do Leo 
a apoiou e ele mal podia acreditar. Aqueles que contavam eram os que se importavam. Jondalar esquecia, enquanto pensava em Ayla e no Acampamento do Leo com admirao 
e orgulho, que ele fora o primeiro a correr para o lado dela
     O Acampamento do Leo voltou para o Acampamento de Tifceas a fim de discutir a crise inesperada. Uma sugesto inicial de partir imediatamente foi abandonada 
com rapidez Afinal, eram Mamutoi, e aquela era a Reunio de Vero. Tulie havia ido buscar Latie para que participasse dos debates, e estivesse preparada para a possibilidade 
de comentrios maldosos dirigidos a ela, a Ayla ou ao Acampamento do Leo. Perguntaram-se se queria retardar os ritos de feminilidade. Latie defendeu Ayla com veemncia, 
e resolveu que voltaria para o acampamento especial para a cerimnia e ritual, e que algum experimentasse falar mal de Ayla ou do Acampamento do Leo!
     Ento, Tulie perguntou a Ayla por que ela no mencionara o filho antes. Ayla explicou que no gostava de falar dele porque ainda doa muito e Nezzie deixou 
claro, rapidamente, que ela soubera desde o incio. Mamut tambm confessou que sabia sobre o menino. Embora a chefe desejasse ter sabido e se perguntasse por que 
motivo no lhe contaram, no culpou Ayla Considerou se teria tido opinio diferente sobre a jovem, se soubesse, e admitiu que talvez no lhe creditasse tanto status 
ou valor potencial. Ento, comeou a questionar sua posio. Por que devia fazer diferena? Ayla estava diferente, de algum modo?
     Rydag estava muito aborrecido e deprimido, e nada que Nezzie dissesse ou fizesse pareceu ajudar. 
     Ele no quis comer, no quis sair da tenda, no se comunicou, exceto para responder a uma pergunta direta. Permaneceu sentado, apenas, abraando Lobo. Nezzie 
ficou grata pela pacincia do animal. Ayla resolveu ver se havia algo que pudesse fazer. Encontrou-o sentado com o lobo em seu rolo de dormir, em um canto escuro. 
Lobo ergueu a cabea e abanou o rabo contra o solo quando ela apareceu
     - Posso sentar aqui com voc, Rydag? - perguntou ela.
     Ele deu de ombros. Ela se acomodou ao seu lado e perguntou como se sentia, falando alto com ele, mas, automaticamente, fazendo sinais tambm, at compreender 
que, provavelmente, estava escuro demais para ver. Ento, lhe ocorreu a verdadeira vantagem de ser capaz de falar com palavras. No se tratava de no poder falar 
to bem com gestos e sinais manuais, mas sim de que voc no se limitava a falar somente quando podia ver.
     Era como a diferena entre investir com a lana ao caar, como o Cl fazia, ou atir-la. Ambas eram formas eficazes de trazer carne para casa, porm uma tinha 
maiores possibilidades e alcance. Ela havia visto como sinais e gestos podiam ser teis, embora no compreendidos por todos, principalmente para comunicao secreta 
e particular, mas normalmente havia maior vantagem em se comunicar com palavras que podiam ser ouvidas e compreendidas. Com uma linguagem verbal total, voc podia 
falar com uma pessoa que se encontrasse atrs de uma barreira, ou em um recinto diferente, ou at gritar atravs de uma distncia, ou para um grande grupo. Voc 
podia falar quando algum estava de costas, ou quando voc segurava alguma coisa nas mos, o que as liberava para outras finalidades, e voc podia falar suavemente 
no escuro.
     Ayla se sentou em silncio com o menino, durante algum tempo, sem fazer perguntas, apenas oferecendo companhia e proximidade. Um pouco depois, comeou a lhe 
falar, contando a Rydag sobre a poca em que vivera com o cl.
     - De alguma forma, esta Reunio me lembra a Reunio de Cls - disse Ayla. - Aqui, mesmo se pareo com todo mundo, sinto-me diferente. L, eu era diferente... 
Mais alta do que qualquer dos homens... Somente uma grande mulher feia. Foi horrvel quando chegamos l pela primeira vez. Quase no deixaram o cl de Brun ficar 
quando me levaram. Disseram que eu no era Cl, mas Creb insistiu em que eu o era. Ele era Mog-ur, e no ousaram discutir com ele. Foi bom que Durc era apenas um 
beb. Quando o viram, pensaram que era deformado. Era apenas uma mistura, como voc. Ou talvez voc seja mais como Ura. Sua me era Cl.
     - Voc disse antes que Ura se unir com Durc? - perguntou Rydag, virando-se para a luz do fogo para fazer com que ela visse seus sinais. Ele estava intrigado, 
embora contra a vontade.
     - Disse. Sua me me procurou, e foi arranjado. Ela ficou to aliviada em saber que havia outra criana, um menino, como sua filha! Tinha tanto medo que Ura 
jamais encontrasse um companheiro. Para ser sincera, eu no pensava muito nisso. Fiquei apenas grata por terem aceito Durc no Cl.
     - Durc  Cl?  misto, mas  Cl? - o garoto fez sinais.
     - Sim, Bruno aceitou, Creb lhe deu o nome. Nem sequer Broud pode tirar isso dele E todos o amam... Exceto Broud... At Oga, companheira de Broud. Ela o amamentou 
quando perdi meu leite, juntamente com o seu filho. Cresceram juntos como irmos, e so bons amigos. O velho Grod fez uma pequena lana para Durc, exatamente do 
seu tamanho. - Ayla sorriu ao recordar. - Uba o ama muito, mais que todos. Uba  minha irm, como voc e Rugie. Ela  me de Durc, agora. Eu o dei a Uba quando Broud 
me fez partir. Talvez parea um pouco diferente, mas sim, Durc  Cl.
     - Odeio este lugar - disse Rydag com um gesto veemente de raiva.
     - Gostaria de ser Durc e viver com o Cl.
     O comentrio de Rydag surpreendeu Ayla. Mesmo depois de conversarem mais e de ela convenc-lo a comer alguma coisa, afinal, e depois coloc-lo na cama, a frase 
permaneceu em sua mente.
     Ranec observou Ayla a noite toda. Notou como ela parava no meio de alguma atividade, enquanto seus olhos cintilavam com expresso distante enquanto levava um 
pedao de alimento  boca, por exemplo, ou uma ruga de concentrao vincava-lhe a testa. Ele sabia que seus pensamentos pesavam muito na mente dela, e queria muito 
consol-la, partilh-los com ela.
     Todos ficaram no Acampamento de Tifceas naquela noite e a tenda estava apinhada. Ranec esperou Ayla at ela, afinal, comear a escorregar para seu rolo de 
pele, depois foi rapidamente para as dele.
     - Quer dividir minhas peles esta noite, Ayla? - Ranec a viu fechar os olhos e franzir atesta. - No digo para prazeres - acrescentou ele, de pressa -,a menos 
que voc queira. Eu sei que foi um dia difcil para voc...
     - Acho que foi mais difcil para o Acampamento do Leo.
     - Creio que no foi mais difcil, mas isso no importa. Quero apenas lhe dar alguma coisa, Ayla. Minhas peles para mant-la aquecida, meu amor para confort-la. 
Quero estar perto de voc esta noite.
     Ela concordou com um gesto de cabea, e escorregou para as peles de Ranec com ele, mas no conseguiu dormir, nem sequer descansar confortavelmente, e ele estava 
consciente disso.
     - Ayla, o que a perturba? Gostaria de falar a respeito? - disse Ranec.
     - Tenho pensado em Rydag e meu filho, mas no sei se posso falar sobre isso. Preciso apenas pensar.
     - Voc preferia estar em sua cama, no ? - disse ele, afinal.
     - Sei que quer ajudar, Ranec, e isso ajuda mais em si mesmo do que posso dizer. No sei lhe dizer o quanto significou para mim quando o vi ali, de p a meu 
lado. Sou muito grata ao Acampamento do Leo tambm. Todos tm sido bons comigo, to maravilhosos comigo, quase em demasia. Aprendi tanto com eles e fiquei to orgulhosa 
em ser Mamutoi, em dizer que eles so meu povo! Pensei que todos os Outros... Aqueles que eu costumava chamar de Outros... Eram iguais ao Acampamento do Leo, mas 
agora sei que isso no  verdade. Como o Cl, a maioria das pessoas  boa, porm, nem todas, e mesmo as pessoas boas no o so em relao a tudo. Eu tinha algumas 
idias e... Eu fazia planos... Mas, agora, preciso pensar.
     - E pensa melhor em sua prpria cama, no encolhida aqui comigo. V, Ayla, ainda continuar ao meu lado - disse Ranec.
     Ranec no era o nico que andara observando Ayla e, quando Jondalar a viu sair das peles de dormir de Ranec e ir para as suas, teve uma srie estranha de sentimentos 
diversos. Ficou aliviado porque no teria que apertar os dentes ao ouvir os sons deles partilhando prazeres, mas sentiu uma ponta de pena de Ranec. Se estivesse 
no lugar do escultor, quereria conservar Ayla, e consol-la, tentar assumir parte de seu sofrimento. Teria ficado magoado se ela houvesse deixado sua cama para dormir 
sozinha.
     Depois de Ranec adormecer e uma imobilidade profunda descer sobre o acampamento, Ayla se levantou em silncio, enfiou uma parka leve para se proteger do frio 
da noite e saiu para a noite estrelada. Em um instante, Lobo estava ao seu lado. Caminharam em direo ao alpendre e foram bem recebidos por um relincho de Racer 
e um bufo suave de Whinney. Depois de afagar e coar os animais, e de palavras calmas, Ayla colocou os braos ao redor do pescoo de Whinney e recostou-se nela.
     Quantas vezes, a gua cor de feno havia sido sua amiga quando ela precisara de uma? Ayla sorriu. O que o Cl pensaria de seus amigos? Dois cavalos e um lobo! 
Ficou grata pela presena deles, por sua companhia, mas havia ainda um vazio nela. Faltava algum, aquele que ela mais queria. No entanto, ele estivera l. Mesmo 
antes do Acampamento do Leo apoi-la. Ela nem sequer soubera de onde ele tinha vindo. De repente, Jondalar estava ali, ao lado dela, enfrentando todos eles. Contra 
sua repugnncia, seu nojo. Havia sido terrvel, pior do que a Reunio. No se tratava apenas de ela ser diferente. Eles a temiam, a odiavam. Fora isto que ele havia 
tentado lhe dizer, o tempo todo. Mas, mesmo se ela soubesse, no teria feito diferena. No poderia deix-los atacar Rydag ou denegrir seu filho.
     Da abertura da tenda, outro par de olhos a observava. Jondalar tam pouco pudera dormir. Ele a tinha visto levantar-se e seguiu-a em silncio. Quantas vezes 
ele a vira assim com Whinney? Estava feliz por ela ter os animais para procurar, mas ansiava estar no lugar da gua. Mas era tarde de mais. Ela no o queria e ele 
no podia culp-la. Com uma compreenso sbita, ele viu atravs da sua confuso emocional, viu suas aes com nova clareza, e compreendeu que ele mesmo o fizera. 
No incio, ele no estava apenas sendo justo e deixando-a fazer sua prpria escolha. Ele se afastara dela, por puro cime. Estava magoado e queria vingar-se.
     Havia mais que isso confesse, Jondalar, falou consigo mesmo. Voc estava magoado, mas sabia como ela fora criada. Ela nem sequer compreendeu o seu cime. Quando 
foi para a cama de Ranec naquela noite, estava sendo apenas uma boa mulher do Cl. Este era o verdadeiro problema, sua experincia no Cl. Voc se envergonhava
dela. Envergonhava-se por am-la, temendo ter que enfrentar o que ela enfrentou hoje. No sabia se poderia defend-la. No importa quanto tenha dito que a amava,
voc temia se voltar contra ela, tambm. Bem, no existe vergonha em am-la, a vergonha est em sua prpria covardia. E agora  tarde demais. Ela no precisou de 
voc. Ela se defendeu, e depois todo o Acampamento do Leo ficou ao seu lado. Ela no precisa de voc, de modo algum, e voc no a merece.
     Finalmente, o frio fez Ayla voltar para a tenda. Lanou um olhar ao local de dormir de Jondalar quando entrou. Ele estava virado de lado, voltado para a direo 
oposta. Ela escorregou para a cama e sentiu a mo pesada, adormecida, tocar a sua. Ranec a amava, ela sabia disso. E ela o amava tambm,  sua maneira. Jazeu imvel, 
e ouviu a respirao regular de Ranec. Um pouco depois, ele se virou para o lado oposto e a mo se foi.
     Ayla tentou dormir, mas no podia parar de pensar. Quisera ir buscar Durc para traz-lo para o Acampamento do Leo a fim de viver com ela. Agora, perguntava-se 
se isso seria o melhor para ele. Ser que Durc seria mais feliz ali com ela, do que vivendo com o Cl? Poderia ele ser feliz vivendo com gente que o odiaria? Que 
o chamaria de cabea-chata e, pior, uma aberrao parcialmente animal? Com o Cl ele era conhecido, amado, era um deles. Talvez Broud o odiasse, mas, mesmo na Reunio 
de Cls, ele teria amigos. Era aceito, poderia participar das competies e cerimnias - ser que Durc tinha as lembranas do Cl?, Perguntou-se.
     Se ela no podia tir-lo de l, seria capaz de voltar a viver com o Cl? Agora que encontrara pessoas como ela mesma, poderia aceitar novamente os hbitos do 
Cl? Jamais lhe permitiriam manter animais. Desejaria ela desistir de Whinney e Racer, e Lobo e ser apenas a me de Durc? Durc precisa de uma me? Ele era um beb 
quando parti, porm, no  mais um beb agora. Brun deve estar lhe ensinando a caar, agora.
     Provavelmente, ele j fez suas pequenas caadas agora, e trouxe a caa para mostrar a Uba. Ayla sorriu consigo mesma diante da cena que suscitava. Uba iria 
elogi-lo muito e lhe dizer que caador valente e forte ele era.
     Durc tem uma me! Compreendeu ela. Uba  sua me. Uba o criou, cuidou dele, tratou de seus pequenos arranhes e cortes. Como posso tir-lo dela? Quem tomar 
conta de Uba quando envelhecer? Mesmo quando ele era um beb, as outras mulheres do Cl foram mais me para ele do que eu, depois que perdi meu leite.
     Como posso voltar a peg-lo, de qualquer modo? Estou amaldioada. Para o Cl, estou morta! Se Durc me visse, eu apenas o assustaria, e a todos os outros. Mesmo 
se no existisse maldio de morte sobre mim, ser que ele ficaria feliz em me ver? Ser que se lembraria de mim?
     Ele era pouco mais que um beb quando parti. Agora, est na Reunio de Cls e conheceu Ura. Ainda  jovem, mas deve estar pensando na poca em que se uniro. 
Planeja fazer uma fogueira - exatamente como eu, pensou ela. Mesmo se eu pudesse convenc-lo de que no sou um esprito, Durc teria que trazer Uba com ele, e Uba 
seria infeliz aqui. J ser bastante difcil para ela deixar seu cl, mas mudar para um mundo em que nada lhe  familiar seria muito pior. Especialmente, um mundo 
onde seria odiada e incompreendida.
     E se eu voltasse para o vale? E depois trouxesse Dure e Ura para viver l? Mas Durc precisa de gente... E eu tambm. No quero viver sozinha, por que Durc deveria 
querer viver sozinho em um vale comigo?
     Tenho pensado em mim, no em Durc. No seria melhor para ele vir para c. No o faria feliz. Somente me faria feliz. Mas no sou mais a me de Durc. Uba  a 
me dele. No sou para ele mais que uma lembrana de uma me que morreu, e talvez seja melhor assim. O Cl  o seu mundo e, quer eu queira ou no, este  o meu mundo. 
No posso voltar ao Cl; Durc no pode vir para c. No existe lugar no mundo onde meu filho e eu possamos viver juntos, e ser felizes
     Ayla acordou cedo na manh seguinte. Mesmo depois de ter finalmente adormecido, no dormiu bem. Acordou muitas vezes de sonhos de tremores de terra e cavernas 
destrudas, e se sentiu inquieta e deprimida. Ajudou Nezzie a esquentar a gua para a sopa e a moer gros para uma refeio matinal, e ficou contente pela oportunidade 
de conversar com ela.
     - Sinto-me muito mal por causa de toda a encrenca que causei, Nezzie. Todo o Acampamento do Leo est sendo desprezado por minha causa - disse ela.
     - No diga isso! No  culpa sua, Ayla. Tnhamos uma opo e a fizemos. Voc apenas defendia Rydag e ele tambm  membro do Acampamento do Leo, ao menos para 
ns.
     - Todo este problema me fez compreender uma coisa - continuou Ayla. - Desde que deixei o Cl, sempre pensei em voltar, um dia, para buscar meu filho. Agora, 
sei que no poderei. Nunca. No posso traz-lo para c e no posso voltar para l. Mas saber que nunca mais o verei faz- me sentir como se acabasse de perd-lo, 
novamente. Gostaria de poder chorar, lamentar-me por ele, prante-lo, mas sinto-me seca e vazia.
     Nezzie tirava os talos das amoras frescas colhidas na vspera. Parou e lanou um olhar sensato a Ayla.
     - Todos sofrem desapontamentos na vida. Todos perdem seres amados. s vezes, acontecem verdadeiras tragdias. Voc perdeu sua gente quando era criana. Foi 
uma tragdia, mas no havia nada que voc pudesse fazer.  pior se culpa a si mesma. Wymez vive todos os dias de sua vida culpando-se pela morte da mulher amada. 
Acho que Jondalar se culpa pela morte do irmo. Voc perdeu um filho.  difcil para uma me perder um filho, mas voc possui alguma coisa. Sabe que, provavelmente, 
ele ainda vive. Rydag perdeu a me... Um dia eu o perderei.
     Ayla saiu depois da refeio matinal. A maioria das pessoas estava perto do Acampamento de Tifceas. Ela olhou para o centro da Reunio, depois para o Acampamento 
de Lanos, a moradia recm-armada do Acampamento do Mamute. Ficou surpresa ao ver Avarie olhando para ela. Perguntou-se o que achavam, hoje, de ter armado o acampamento 
to perto do Acampamento do Leo.
     Avarie se dirigiu  tenda que o irmo havia designado como a Fogueira do Mamute, arranhou o couro, depois, sem esperar resposta, entrou. Vincavec havia espalhado 
seu rolo de pele de dormir de maneira que ocupava quase metade do espao, no cho. No meio, havia uma espcie de almofada, uma pele decorada esticada sobre uma armao 
de osso de mamute, que tinha sido atada com couro cru. Ele estava sentado em suas peles, descansando na almofada.
     - Os sentimentos so confusos - disse ela sem prembulo.
     - Posso imaginar - replicou Vincavec. - O Acampamento do Leo trabalhou arduamente conosco para construir a moradia. Quando partiram, todos se sentiam mais 
amistosos em relao a eles. E Ayla era fascinante com os cavalos e o lobo... E inspirava um pouco de medo. Mas agora, se devemos acreditar nos antigos costumes 
e histrias, o Acampamento do Leo est abrigando uma abominao, uma mulher de maldade incontrolvel, que atrai espritos de animais cabeas-chatas para si, como 
um fogo atrai as mariposas  noite, e os espalha perto das outras mulheres, O que acha, Avarie?
     - No sei, Vincavec. Gosto de Ayla e no me parece uma pessoa m. O menino tampouco parece um animal. Ele  apenas fraco e incapaz de falar, mas acredito que 
compreende. Talvez seja humano, e talvez os outros cabeas-chatas tambm o sejam. Talvez o velho Mamut tenha razo. A Me apenas escolheu um esprito dos nicos 
homens prximos a Ayla quando Ela lhe deu um filho. Eu no sabia que ela viveu com um bando de cabeas-chatas antes, contudo, ou que o velho sabia disso.
     - Aquele velho j viveu tantos anos que esqueceu mais coisas do que um punhado de jovens j aprendeu, e ele tem razo, geralmente. Tenho uma impresso sobre 
isto, Avarie. Creio que no ter efeitos perniciosos duradouros. H alguma coisa em Ayla que me faz pensar que a Me zela por ela. Creio que ela pode sair disto 
mais forte do que era antes. Vamos saber o que o Acampamento do Mamute pensa sobre estar localizado ao lado do Acampamento do Leo.
     - Onde est Tulie? - indagou Fralie, olhando ao redor da tenda.
     - Ela voltou ao Acampamento da Feminilidade com Latie - respondeu Nezzie. - Por qu?
     - Lembra-se daquele acampamento que se ofereceu para adotar Ayla exatamente antes da chegada do Acampamento do Mamute?
     Ayla olhou para Fralie interrogativamente.
     - Sim - disse Nezzie. - Aquele que Tulie achou que no possua o bastante para oferecer.
     - Esto l fora perguntando por Tulie de novo.
     - Verei o que querem - disse Nezzie.
     Ayla esperou no interior, no querendo realmente enfrent-lo, se no fosse necessrio. Alguns momentos depois, Nezzie voltou.
     - Ainda querem adot-la, Ayla - disse ela. - A chefe daquele acampamento tem quatro filhos. Querem voc como irm. Ela disse que se voc j teve um filho,  
prova de que poder ter outros. Aumentaram sua proposta. Talvez voc deva sair e dar-lhes as boas-vindas, em nome da Me.
     Tulie e Latie caminharam com passos largos e determinados, pelo acampamento, lado a lado, olhando diretamente  frente, ignorando os olhares fixos curiosos 
das pessoas por quem passavam.
     - Tulie! Latie! Esperem um momento - gritou Brecie, apressando-se para alcan-las. - Estvamos-nos preparando para lhe enviar um corredor, Tulie. Gostaramos 
de convid-los para partilhar uma refeio conosco esta noite no Acampamento do Salgueiro.
     - Obrigada, Brecie. Aprecio seu convite. Claro que iremos. Eu devia saber que podia contar com vocs.
     - Somos amigas h tanto tempo, Tulie. s vezes, histrias antigas merecem crdito somente porque so antigas. O beb de Fralie me parece muito bem.
     - E nasceu cedo demais. Bectie no viveria se no fosse Ayla - disse Latie, defendendo depressa sua amiga.
     - Eu me perguntei de onde ela viera, contudo. Todos pensavam que tinha vindo com Jondalar. Ambos so altos e louros, mas eu sabia que no. Lembro-me quando
tiramos Jondalar e o irmo do charco perto do mar Beran. Ela no estava com eles na poca, e eu sabia que seu sotaque no era Mamutoi, nem tampouco dos Sungaea.
Mas ainda continuo ignorando como ela domina os cavalos e o lobo.
     Tulie se sentia muito melhor quando continuaram em direo ao centro da depresso, e das habitaes de terra do Acampamento do Lobo.
     - Quantas so, com esta? - perguntou Tarneg a Barzec, quando outra delegao se afastava.
     - Quase metade dos acampamentos tomou alguma atitude de reconciliao - disse Barzec. - Posso pensar em mais um ou dois que talvez ainda se resolvam unir a 
ns.
     - Mas isso ainda deixa de lado metade dos acampamentos - disse Talut. - E alguns esto discutindo bastante, argumentando contra ns e chegando a dizer que devamos 
ir embora.
     Sim, mas veja quem so, e Chaleg  o nico que ouvi falar que diz que devemos partir - disse Tarneg.
     - Mas so Mamutoi tambm - falou Nezzie -, e at sementes carregadas por maus ventos so capazes de germinar.
     - No gosto desta diviso - disse Talut. - H muitas pessoas boas de ambos os lados. Gostaria de poder pensar numa maneira de dar um jeito nas coisas.
     - Ayla tambm se sente muito mal. Diz que est causando problemas para o Acampamento do Leo. Viu a expresso em seu rosto quando os jovens que brigavam comearam 
a cham-la de mulher-animal?
     - Quer dizer, aqueles que pegamos perto do...? - comeou a perguntar Danug, mas Tarneg o interrompeu depressa.
     - Ela fala do irmo e da irm que Ayla e Deegie pegaram brigando.
     - Danug teria que tomar cuidado. Quase esquecera e mencionara a briga dos rapazes, pensou Tarneg.
     - Nunca vi Rydag to preocupado - continuou Nezzie. - Todos os anos as Reunies tm sido difceis para ele, cada vez mais difceis. Ele no gosta da maneira 
como as pessoas o tratam, mas desta vez est pior... Talvez porque seja to melhor para ele, agora, no Acampamento do Leo. Infelizmente, tudo isto no  bom para 
ele, mas no sei o que fazer. At Ayla est preocupada, e isso me preocupa mais.
     - Onde est Ayla, agora? - perguntou Danug.
     - L fora, com os cavalos - disse Nezzie.
     - Acho que ela devia encarar como elogio quando a chamam de mulher-animal. Devem admitir, ela  boa com animais - disse Barzec.
     - Algumas pessoas acham, at, que ela  capaz de falar com os seus espritos do outro mundo.
     Alguns dos outros dizem que isso s prova que ela viveu com animais - lembrou-lhe Tarneg. - E a acusam de atrair diferentes tipos de espritos que no so to 
bem-vindos.
     - Ayla diz ainda que qualquer pessoa pode tornar os animais amistosos - falou Talut.
     - Ela tenta diminuir seu valor - falou Barzec. - Talvez, por isso, alguns dos outros no do tanta importncia ao seu dom. As pessoas esto mais acostumadas 
com algum como Vincavec, algum que lhes diz como ele prprio  maravilhoso.
     Nezzie olhou para o homem de Tulie, e se perguntou por que ele parecia no gostar muito de Vincavec. O Acampamento do Mamute fora um dos primeiros a ficar do 
lado deles.
     - Talvez esteja certo, Barzec - disse Tarneg. - E estranho como nos acostumamos facilmente com animais por perto, quando se comportam to bem. No parecem anormais. 
So como qualquer outro animal, exceto que voc pode se aproximar deles e toc-los. Mas quando se pensa a respeito, est alm da razo. Por que o lobo obedeceria 
a um sinal de uma criana fraca que ele poderia destruir facilmente? Por que os cavalos permitem que algum os monte e os cavalgue? E o que faria uma pessoa se quer 
pensar em tentar?
     - Eu no ficaria surpreso se Latie tentar, um dia - disse Talut.
     - Ela o far, antes que qualquer outra pessoa - disse Danug. - Viram Latie quando esteve aqui? O primeiro lugar onde foi: o local dos cavalos. Ela sentiu mais 
falta deles do que qualquer pessoa. Acho que ela est apaixonada por aqueles cavalos.
     Jondalar estivera ouvindo sem fazer qualquer comentrio. A situao que Ayla provocara para si mesma, ao admitir seu passado, era dolorosa e degradante, mas, 
de muitas formas no havia sido to terrvel quanto ele imaginara. Ficou surpreso que ela no houvesse sido mais completamente denunciada. Ele esperara que ela fosse 
difamada, expulsa, totalmente exilada. O tabu era pior entre o seu povo, ou ser que ele apenas imaginava que fosse?
     Quando o Acampamento do Leo tomou o partido de Ayla, ele achou que eram uma rara exceo, que perdoavam talvez por causa de Rydag. Depois, quando Vincavec 
e Avarie, do Acampamento do Mamute, vieram oferecer apoio, e quando mais e mais acampamentos voluntariamente vieram apoiar o Acampamento do Leo, ele foi obrigado 
a examinar suas prprias crenas.
     Jondalar era um homem material. Compreendia conceitos como amor, compaixo, clera, com uma empatia baseada em seus prprios sentimentos, embora no pudesse 
express-los bem. Era capaz de discutir filosofias intangveis e temas espirituais com inteligncia, mas no era sua paixo, e aceitava suas posies na sociedade 
sem desconfianas profundas. Mas Ayla havia enfrentado a multido com tal dignidade e fora superior, que o respeito por ela cresceu muito. Isso deu a Jondalar um 
insight raro.
     Ele comeou a compreender que somente porque algumas pessoas achavam que um determinado comportamento era errado, isto no fazia que fosse. Uma pessoa podia 
resistir  crena popular e apoiar princpios pessoais, e embora pudesse haver conseqncias, nem tudo estaria necessariamente perdido. Na verdade, uma coisa importante 
podia ser conquistada, mesmo que apenas dentro de si prprio. Ayla no foi expulsa do acampamento que a havia adotado to recentemente. Metade deles queria aceit-la, 
e acreditava que ela era uma mulher de raro talento e coragem.
     A outra metade pensava de forma diferente, mas nem sempre pelas mesmas razes. Alguns viam o incidente como uma chance para ganhar influncia e status, opondo-se 
ao poderoso Acampamento do Leo num momento em que sua posio estava ameaada. Outros estavam genuinamente indignados por uma mulher to depravada poder viver entre 
eles. Em sua opinio ela personificava o mal, ainda mais porque no parecia maldosa. Era como qualquer outra mulher, mais atraente que a maioria, mas os havia enganado 
com um truque de dominar os animais, que devia ter aprendido quando vivera com as abominaes bestiais cabeas-chatas, que chegaram at a enganar algumas pessoas, 
levando-as a pensar que eles eram humanos.
     Muitos tinham medo dela. Por confisso prpria, ela havia dado  luz um daqueles reles animais pela metade, e agora ameaava todas as mulheres da Reunio de 
Vero. No importava o que dizia o velho Mamut, todos sabiam que alguns espritos masculinos eram atrados, consistentemente, para a mesma mulher. O Acampamento 
do Leo permitira que Nezzie conservasse aquela criana-animal, e agora, o que tinham eles! Mais animais, e uma aberrao de mulher que havia sido, provavelmente, 
atrada para o menino. Todo o Acampamento do Leo devia ser banido.
     Os Mamutoi eram um povo inteiramente unido. Quase todos podiam contar ao menos um parente ou amigo em todo acampamento. Mas, agora, a estrutura de suas vidas 
ameaava ser dilacerada, e muitas pessoas, inclusive Talut, estavam bastante infelizes. Os Conselhos se reuniram, mas acabaram por questionar a disputa. Esta era 
uma situao sem precedentes, e eles no tinham meios ou estratgias para resolv-la.
     O brilhante sol da tarde fez pouco para mudar o humor sombrio do acampamento. Conduzindo Whinney pela trilha em direo ao Acampamento de Tifceas, Ayla notou 
o local onde terra vermelho-ocre havia sido escavada do solo e lembrou-se de sua visita ao recinto de msica. Embora ainda ensaiassem, e planejassem uma grande comemorao 
depois da caada de mamutes, no havia a mesma sensao de expectativa e excitao. At a felicidade que Deegie sentiu por seu Matrimnio, e Latie por sua ascenso 
 condio de mulher, estava abafada pelas disputas que ameaavam romper toda a Reunio de Vero.
     Ayla falou em partir, mas Nezzie lhe disse que isto no resolveria nada.
     Ela no havia causado problema. Sua presena apenas trouxera  tona uma diferena bsica e profunda entre as duas faces. Nezzie disse que o problema se formava 
desde que ela acolhera Rydag. Muitas pessoas ainda desaprovavam o fato de ele ter permisso para viver com eles.
     Ayla se preocupava com Rydag. Ele sorria raras vezes e ela notou a ausncia de seu estado de esprito amvel. Ele no tinha apetite, e ela achava que ele no
dormia bem, Ele parecia gostar de ouvir sua fala sobre a vida com o Cl, mas poucas vezes tomava parte em conversas.
     Ela acomodou Whinney no alpendre e viu Jondalar no prado amplo, relvoso, cavalgando Racer em direo ao passo do rio, abaixo. Ultimamente, ele parecia diferente. 
No to distante, mas triste.
     Num impulso, Ayla resolveu dirigir-se  clareira, no centro do acampamento e ver que atividades aconteciam. O Acampamento do Lobo insistia em que, desde que 
eram os anfitries da Reunio, no podiam tomar partidos, mas ela acreditava que eles apoiavam a posio do Acampamento do Leo. Ela no ia se esconder. No era 
uma abominao, o Cl era seu povo, e da mesma forma, Rydag e seu filho. Ela queria fazer alguma coisa, mostrar-se. Talvez visitar a Fogueira do Mamute, ou o recinto 
de Msica, ou falar com Latie.
     Partiu com passos determinados, balanando a cabea para quem a cumprimentava, ignorando quem no o fazia e, quando se aproximou do recinto de Msica, viu Deegie 
saindo.
     - Ayla! Voc  exatamente a pessoa que eu queria ver. Vai a algum lugar especial?
     - Acabei de resolver sair do Acampamento do Leo.
     - timo! Eu ia visitar Tricie, e ver o seu beb. Estou para visit-la h tempos, mas ela nunca est quando vou l. Kylie acabou de me dizer que ela est l, 
agora. Quer vir comigo?
     - Quero.
     Caminharam em direo  moradia da chefe.
     - Viemos visitar Tricie - explicou Deegie  entrada - e ver o seu beb.
     - Entrem - disse Tricie. - Acabei de coloc-lo para dormir, mas creio que ainda est acordado.
     Ayla ficou distante enquanto Deegie pegava o beb ao colo e lhe falava amorosamente.
     - No quer v-lo, Ayla? - perguntou Tricie, afinal. Era quase um desafio.
     - Sim, quero.
     Ela tirou o beb do colo de Deegie e o examinou com cuidado. A pele era to branca que chegava quase a ser translcida, e os olhos de um azul to claro que 
eram quase incolores, O cabelo era de um tom ruivo alaranjado, mas tinha a textura e a ondulao apertada e elstica do de Ranec. O rosto, mais caracterstico ainda, 
era uma verso infantil da face de Ranec. Ayla notou, sem dvida alguma, que Ralev era filho de Ranec. Ranec dera origem a ele to certamente quanto Broud iniciara 
o crescimento de Durc dentro dela. No pde deixar de pensar: quando se unisse a ele, teria um filho como aquele, um dia?
     Ayla falou com o beb em seus braos. Ele ergueu os olhos para ela com interesse, como se fascinado, depois sorriu e soltou uma risada suave, deleitada. Ayla 
o abraou, fechou os olhos e sentiu a maciez de seu rosto contra o dela, e seu corao se enterneceu.
     - Ele no  bonito, Ayla? - disse Deegie.
     - Sim, no  bonito? - falou Tricie, o tom de voz mais spero.
     Ayla olhou para a jovem me.
     - No, ele no  bonito.
     Deegie ficou embasbacada.
     - Ningum poderia dizer que ele  bonito, porm,  o beb... Mais adorvel que j vi. Nenhuma mulher no mundo resistiria a ele. No precisa ser bonito. H algo 
especial nele, Tricie. Acho que  muita sorte t-lo.
     O sorriso da me se suavizou.
     - Acho que , Ayla. E concordo, ele no  bonito, mas  bom e to adorvel!
     De repente, surgiu um alvoroo l fora, com gritos e gemidos. As trs jovens correram para a entrada.
     -  Grande Me! Minha filha! Algum tem que ajud-la! -gemia uma mulher.
     - O que h? Onde est ela? - indagou Deegie.
     - Um leo! Um leo a pegou! L no prado. Algum tem que ajud-la, por favor!
     Vrios homens com lanas j corriam em direo  trilha.
     - Um leo? No, no pode ser! - exclamou Ayla ao comear a correr atrs dos homens.
     - Ayla! Aonde vai? - gritou Deegie atrs dela, tentando alcan-la.
     - Pegar a menina - respondeu Ayla, gritando.
     Correu na direo da trilha. Uma multido se encontrava de p perto do topo, observando os homens com lanas que desciam o caminho. Alm deles, claramente  
vista na plancie aluvial herbcea do outro lado do rio, estava um forte leo da caverna, com uma juba desgrenhada avermelhada, cercando uma menina alta que estava 
apavorada demais para se mover. Ayla olhou para baixo, examinou o animal com ateno para se certificar, depois correu para o Acampamento do Leo. Lobo saltou sobre 
ela.
     - Rydag! -.- chamou. - Venha ficar com Lobo! Tenho que salvar aquela menina. - Quando Rydag saiu da tenda, ela ordenou ao lobo: - Fique aqui! - em tom de voz 
muito firme, depois disse ao garoto para no soltar o animal.
     Somente ento ela assobiou, chamando Whinney.
     Saltou sobre a gua e desceu a trilha rapidamente. Os homens com lanas j atravessavam o rio quando ela conduziu Whinney para perto deles. Assim que alcanou 
solo firme, do outro lado, fez Whinney galopar, dirigindo-se diretamente para o leo e a menina. As pessoas observavam do alto da trilha com espanto e assombro.
     - O que ela pensa que pode fazer? - disse algum, com raiva. - Nem mesmo tem uma lana. A menina no parece ferida at agora, mas correr em direo ao leo 
com um cavalo poder incit-lo. Ser culpa dela se a menina for ferida.
     Jondalar ouviu o comentrio, assim como vrias outras pessoas do Acampamento do Leo, que viraram para ele, interrogativamente. Ele apenas vigiou Ayla, engolindo 
as dvidas que cresciam em sua garganta. No podia ter certeza, mas ela devia ter, ou nunca desceria l com Whinney.
     Quando Ayla e Whinney se acercaram, o grande leo da caverna parou e encarou-a. Havia uma cicatriz no focinho dele, uma cicatriz conhecida. Ela se lembrava 
de quando ele a conseguira.
     - Whinney,  Nenm!  Nenm, realmente! - gritou ela, enquanto fazia a gua parar e escorregava para o solo.
     Correu para o leo, nem sequer pensando que ele podia no se lembrar dela. Aquele era o seu Nenm. Ela era sua me. Ela o havia criado desde pequenino, cuidado
dele, caado com ele.
     Era exatamente daquela intrepidez que ele lembrava. Partiu em direo a ela, enquanto a menina observava com medo. A prxima coisa que Ayla percebeu foi que
o leo lhe dera uma rasteira para derrub-la, e ela passou, ento, os braos ao redor de seu grande pescoo peludo, abraando-o completamente, enquanto ele passava
as patas dianteiras em volta dela, na melhor imitao de um abrao que podia conseguir.
     - Oh, Nenm, voc voltou. Como me encontrou? - gritou ela, enxugando as lgrimas de alegria em sua juba spera.
     Afinal, ela se sentou e sentiu uma lngua grossa lamber-lhe o rosto.
     - Pare! - disse ela, sorrindo. - No me deixar com pele alguma!
     Ela coou-o em seus locais prediletos, e um rugido baixo, como um ronco, lhe contou sobre seu prazer. Ele rolou e ficou deitado de costas para que Ayla coasse
sua barriga. Ela viu a garota alta, de cabelo louro comprido, de p, os olhos arregalados, observando-os.
     - Ele procurava por mim - disse-lhe Ayla. - Acho que se enganou, pensou que voc era eu.
     Pode ir agora, mas caminhe, no corra.
     Ayla coou a barriga de Nenm, e atrs das orelhas, at a menina encontrar os braos abertos de um homem, que a abraou com alvio evidente, depois levou-a
pela trilha acima. O resto estava de p, segurando as lanas, de prontido. Entre eles viu Jondalar, com seu arremessador de lanas em posio, e ao lado dele, um
homem mais baixo, de pele escura. Talut estava do outro lado de Ranec, e Tulie em seguida.
     - Tem que ir, Nenm. No quero que seja ferido. Mesmo sendo o maior leo da caverna da terra, uma lana pode det-lo - disse Ayla, falando na linguagem especial
originria dos sinais e palavras do Cl e de sons de animais. Nenm estava familiarizado com os sons e compreendia os sinais. Ele rolou sobre si mesmo e levantou-se.
Ayla o abraou pelo pescoo, e ento, no conseguiu resistir. Escorregou a perna sobre o animal e montou-o, segurando a juba avermelhada. No era a primeira vez.
     Ela sentiu msculos fortes, resistentes sob si, depois, com um salto, o leo partiu e, em um instante, alcanou a velocidade total de um leo ao caar. Embora
ela houvesse montado o leo antes, jamais fora capaz de desenvolver qualquer sinal para dirigi-lo. Ele ia para onde queria, mas permitia que ela fosse com ele. Era
sempre um passeio excitante e ela o adorava por esse motivo. Segurou-se  juba, enquanto o vento aoitava-lhe o rosto, e ela inspirava o odor forte, desagradvel.
     Ayla o sentiu virar-se e diminuir a marcha - o leo era um corredor de velocidade; ao contrrio do lobo no tinha resistncia para distncias longas - e ela
olhou  frente para ver Whinney esperando, pastando pacientemente. A gua relinchou quando se acercaram e sacudiu a cabea. O cheiro do leo era forte e perturbador,
mas a gua havia ajudado a criar aquele animal desde filhote, e  sua maneira, havia sido me para ele. Embora ele estivesse quase to alto quanto ela, e mais comprido
e pesado, a gua no teve medo daquele determinado leo, principalmente quando Ayla estava com ele.
     Quando o leo parou, Ayla escorregou para o cho. Abraou-o e coou-o de novo. Depois, com um sinal que sugeria atirar uma pedra com uma funda, ela lhe disse
para ir embora. As lgrimas rolavam enquanto ela o via afastar-se, o rabo abanando de um lado para o outro. Quando ela ouviu o som distinto de sua voz roncando,
respondeu com um soluo. As lgrimas escorreram, toldando-lhe a viso enquanto o grande gato castanho-amarelado, com a juba avermelhada, desaparecia entre o capim
alto. Ela sabia, de alguma forma, que jamais tornaria a mont-lo; que jamais veria, de novo, seu filho leo, selvagem e diferente.
     Os rugidos continuaram at que, finalmente, o grande leo da caverna, gigantesco se comparado com suas cpias posteriores, soltou um urro violento, retumbante, 
potente que podia ser ouvido, a quilmetros de distncia. Estremeceu a prpria terra com o seu adeus.
     Ayla fez sinal a Whinney, e comeou a voltar a p. Apesar de amar cavalgar a gua, queria lembrar a sensao da ltima cavalgada selvagem enquanto pudesse.
     Jondalar afastou os olhos, afinal, da cena hipnotizadora e reparou nas expresses dos rostos dos outros. Pde ver o que pensavam. Cavalos eram uma coisa, at 
mesmo um lobo, talvez, mas um leo da caverna? Ele sorriu larga e exultantemente, de orgulho e alvio Agora, queria ver algum duvidar das histrias de Ayla.
     Os homens comearam a subir a trilha atrs de Ayla, sentindo-se quase tolos ao carregarem lanas que nem tiveram utilidade. As pessoas que observaram a cena, 
recuaram quando ela se acercou, abrindo caminho para a mulher e a gua, e fixaram-na com terror e incredulidade. At mesmo o Acampamento do Leo, que havia escutado 
as suas histrias de Jondalar, e sabia sobre a vida de Ayla no vale, no podia acreditar no que tinha visto.
     Ayla estivera escolhendo a roupa que levaria na caada - disseram-lhe que talvez fizesse muito frio  noite. Estariam perto da gigantesca muralha de gelo que 
era a borda saliente da geleira. Para sua surpresa, Wymez lhe havia trazido vrias lanas habilidosamente feitas, e explicava-lhe os mritos da ponta de lana que 
ele idealizara para caar mamutes. Era um presente inesperado e, depois de toda a adulao e outros comportamentos estranhos dos Mamutoi, ela no tinha certeza de 
como responder. Mas ele a deixou  vontade com seu especial sorriso clido, e lhe disse que estivera planejando aquele presente, desde que ela prometera unir-se 
ao filho de sua fogueira. Ela lhe perguntou sobre adaptar a ponta de lana para que funcionasse com o arremessador quando Mamut entrou na tenda.
     - Os mamuti gostariam de lhe falar. Querem que ajude com o Chamado para trazer os mamutes, Ayla - disse ele. - Pensam que se voc falar com o Esprito Mamute, 
talvez tenhamos muitos.
     - Mas eu j lhe disse. No tenho qualquer poder especial - suplicou Ayla. - No quero falar com eles.
     - Eu sei, Ayla. Expliquei que talvez voc tenha um dom de chamadora, mas no est treinada. Insistem que eu lhe pea. Depois que a viram montar o leo e dizer-lhe 
para ir embora, esto convencidos de que voc teria uma influncia forte sobre o Esprito Mamute, treinada ou no.
     - Aquele era Nenm, Mamut. O leo que criei. No poderia fazer aquilo com qualquer leo.
     - Por que fala daquele leo como se fosse sua me? - disse uma voz da entrada. Um vulto robusto estava de p ali. -  a me dele? - perguntou Lomie, entrando 
na tenda quando Mamut a chamou com um gesto.
     - Acho que de certa forma, sou. Eu o criei desde que era um filhote.
     Ele estava ferido, fora pisado em um estouro de boiada e chutado na cabea. Eu o chamo de Nenm porque era apenas um beb, ento, quando o encontrei. Nunca 
o chamei de qualquer outra coisa. Ele sempre foi apenas Nenm, mesmo quando cresceu - explicou Ayla. - No sei como chamar animais, Lomie.
     - Ento, por que o leo apareceu, em um momento muito providencial, se voc no o chamou? - perguntou Lomie.
     - Foi apenas casualidade. No h nada de misterioso. Provavelmente, ele me seguiu pelo faro, ou sentiu o odor de Whinney, e veio me procurar. Ele costumava 
voltar para uma visita, s vezes, mesmo depois de encontrar uma companheira e seu bando. Pergunte a Jondalar.
     - Se ele no estava sob influncia especial, por que no feriu aquela menina? Ela no tinha qualquer relacionamento maternal com ele. Ela disse que ele a 
derrubou, e ela pensou que ele ia devor-la, mas apenas lambeu-lhe o rosto.
     - Acho que a nica razo por que ele deteve aquela menina foi porque ela se parece comigo.  alta e tem cabelo louro. Ele cresceu com uma pessoa e no com outros 
lees, ou seja, ele considera as pessoas como sua famlia.
     E sempre costumava dar-me uma rasteira ou derrubar-me quando no me via por algum tempo, se eu no o impedisse.  sua maneira de brincar.
     Queria ser abraado e coado - explicou Ayla. Notou que a tenda estava cheia de mamuti, enquanto falava.
     Wymez recuou, saindo do caminho com um sorriso astuto no rosto. Ela no iria at os inamuzi, assim, eles vieram at ela, pensou. Franziu a testa quando viu 
Vincavec se aproximando. Seria duro para Ranec se Ayla decidisse escolher Vincavec. Nunca havia visto o filho de sua fogueira to aborrecido como quando soubera 
da proposta de Vincavec. Wymez tinha que admitir que tambm ficara zangado.
     Vincavec observou Ayla enquanto ela respondia s perguntas. No era vencido facilmente. Afinal, e chefe e Mamut, e conhecedor dos projetos de influncia temporal 
assim como dos aspectos da fora sobrenatural. Mas, como os outros mamuti, foi chamado  Fogueira do Mamute porque sentia nsia de explorar dimenses mais profundas, 
descobrir e explicar as razes alm das aparncias, e podia-se comover diante de um mistrio verdadeiramente inexplicvel ou demonstrao de poder evidente.
     Desde seu primeiro encontro, ele sentira um mistrio em Ayla que o havia intrigado, e uma caracterstica de fora e tranqilidade, como se j tivesse sido posta 
 prova. A interpretao de Vincavec foi de que a Me a protegia, e que por isto seu problema seria resolvido. Mas ele no tivera indicao dos meios e ficou genuinamente 
surpreso com o resultado. Sabia que ningum sonharia em opor-se a ela, agora, ou queles que a abrigavam. Nem algum objetaria em relao ao seu passado, ou ao filho 
a quem dera  luz certa vez. Seu poder era grande demais. Se ela o usaria para finalidades benficas ou malficas era incidental - como o vero e inverno, ou o dia 
e a noite, eram duas faces da mesma substncia - exceto que ningum queria ganhar sua inimizade. Se ela podia controlar um leo da caverna, quem sabia do que era 
capaz?
     Vincavec, juntamente ao velho Mamut e outros mamuti, tinham sido criados no mesmo meio, educados na mesma cultura, e os padres de crena que evoluram para 
ajustar sua existncia estavam arraigados, eram parte de sua fibra mental e moral.
     Suas vidas eram amplamente concebidas para serem predeterminadas, j que possuam controle sobre elas. A doena atacava sem razo, e embora pudesse ser tratada, 
alguns morriam, s vezes, enquanto outros sobreviviam. Acidentes tambm eram imprevisveis e, se ocorriam quando a pessoa estava sozinha, em geral eram fatais. Climas 
severos e padres de tempo que mudavam constantemente, provocados pela proximidade de macias geleiras terrestres, podiam causar secas ou enchentes que tinham um 
efeito imediato sobre o meio natural de que eles dependiam. Um vero muito frio ou com chuva excessiva podia impedir o crescimento das plantas, reduzir as populaes 
animais e mudar os padres de migrao, resultando em misria para os povos caadores de mamutes.
     A estrutura de seu universo metafsico era paralela a seu mundo fsico, e til em proporcionar respostas para questes insolveis - questes que podiam causar 
grande ansiedade sem qualquer explicao razovel e aceitvel, baseada em seus preceitos. Mas qualquer estrutura, no importa quo til, tambm limita. Os animais 
do mundo deles perambulavam livremente, as plantas cresciam ao acaso, e as pessoas estavam intimamente familiarizadas com estes padres. Conheciam o local onde certas 
plantas se desenvolviam, e compreendiam o comportamento dos animais, mas nunca lhes ocorrera que os padres podiam ser mudados que animais e plantas e pessoas nascessem 
com uma capacidade inata de mudana e adaptao. Que realmente, sem ela, no sobreviveriam.
     O domnio de Ayla sobre os animais que havia criado no era entendido como natural; ningum jamais tentara domesticar um animal antes.
     Os mamuti, prevendo a necessidade de explicaes para aliviar as ansiedades causadas por esta inovao surpreendente, tinham procurado mentalmente a construo 
terica de seu mundo metafsico em busca de respostas que satisfizessem. No era uma simples ao de domesticar animais. Em vez disso, Ayla demonstrou um poder sobrenatural, 
muito alm da imaginao de qualquer pessoa. Seu controle dos animais, parecia bvio, s podia ser explicado pelo seu acesso a forma original do Esprito e, portanto, 
 prpria Me.
     Vincavec, como o velho Mamut e o resto dos mamuti, estava convencido agora de que Ayla no era apenas Mamut - Quem Serve a Me - tinha que ser mais alguma coisa. 
Talvez encarnasse alguma presena sobrenatural; poderia at ser a Prpria Mut, encarnada. Isto podia ser verdade, principalmente, porque ela no se vangloriava. 
Mas qualquer que fosse o seu poder, ele estava certo de que um destino importante a esperava. Havia uma razo para a sua existncia, e ele queria ardentemente ser 
parte dela. Ela era escolhida pela Grande Me Terra.
     - Todas as suas explicaes tm mrito - disse Lomie, persuasiva, depois que ouviu as objees de Ayla -, mas gostaria de participar da cerimnia do Chamado, 
mesmo pensando que no tem dom algum? Muitas pessoas, aqui, esto convencidas de que voc traria sorte  caada de mamutes se tomar parte na Chamado, e trazer boa 
sorte no lhe far nenhum mal. Os Mamutoi ficariam muito felizes.
     Ayla no viu maneira de recusar, mas no estava  vontade com a adulao. Quase odiava atravessar o acampamento agora, e esperava a caada de mamutes do dia 
seguinte com grande excitao, e alvio pela chance de poder se afastar por algum tempo.
     Ayla acordou e olhou pela extremidade triangular aberta da tenda de viagem. A luz do dia comeava a iluminar a parte leste do cu. Ela se levantou em silncio, 
esforando-se para no acordar Ranec ou qualquer outro, e esgueirou-se para fora. O frio mido do comeo da manh pairava no ar, porm no havia grande quantidade 
de insetos voadores ainda, e ela ficou grata por isso. Na noite anterior o ar estivera toldado com eles.
     Ela caminhou para a beira de um charco escuro de gua estagnada, coberto com limo e plen; terrenos de procriao de bandos de mosquitos-plvora, borrachudos, 
muriocas e principalmente pernilongos, que se puseram a voar para receb-los como um redemoinho com zumbido agudo, de fumaa escura. Os insetos tinham penetrado 
sob as roupas deixando uma trilha de mordidas vermelhas inflamadas, e zunido ao redor dos olhos e sufocado as bocas de caadores e cavalos.
     Os cinqenta homens e mulheres escolhidos para a primeira caada de mamutes da estao tinham alcanado os desagradveis, mas inevitveis pntanos. O solo permanentemente 
congelado sob a superfcie, mais macio agora pelo derretimento da primavera e do vero, no permitia que qualquer escoamento se infiltrasse. O resultado era gua 
estagnada onde o acmulo de derretimento era maior do que podia ser dissipado pela evaporao. Em qualquer viagem prolongada na estao mais quente, era provvel 
que se encontrassem extenses de umidade acumulada desde grandes lagos rasos derretidos at pequenas lagoas paradas que refletiam o cu em movimento para lamaais 
pantanosos.
      tarde j terminava e no dera para decidir se tentariam atravessar o pntano ou encontrar um caminho ao seu redor. O acampamento foi armado rapidamente e 
fogueiras acesas para deter as hordas voadoras. Na primeira noite da viagem, aqueles que no tinham visto Ayla usar a pedra-de-fogo antes, soltaram as costumeiras 
exclamaes de surpresa e espanto mas, agora, era tido como certo que ela acenderia o fogo. As tendas que usavam eram abrigos simples feitos de vrios couros costurados 
juntos para formar uma cobertura grande. Sua forma dependia dos materiais estruturais que encontravam ou traziam consigo. Uma cabea de mamute com presas grandes 
ainda intactas poderia ser usada para sustentar a cobertura de couro, ou a fora elstica de um salgueiro-ano podia executar a tarefa, at lanas de mamute serviam 
tambm como suportes da tenda, ocasionalmente. s vezes o couro era usado apenas como uma coberta extra. Desta vez, o couro de cobertura, que era partilhado pelos 
caadores do Acampamento do Leo e alguns poucos outros, estava pendurado atravs de uma viga inclinada, com uma extremidade metida com fora no solo e a outra presa 
a uma forquilha de rvore.
     Depois de acamparem, Ayla fez uma excurso ao redor da vegetao densa prxima ao pntano e ficou satisfeita em encontrar pequenas plantas com folhas em forma 
de mo e de um tom verde-escuro. Escavando o sistema subterrneo de razes e rizomas, colheu vrios, e ferveu a raiz amarelo-esverdeada de hidraste para preparar 
um lquido para as gargantas e olhos irritados dos cavalos que curava e repelia os insetos. Quando usou o preparado em sua prpria pele mordida por mosquitos, outras 
pessoas pediram para usar tambm, e ela acabou tratando as mordidas de insetos de todo o acampamento. Acrescentou mais raiz em p  gordura, para fazer uma pomada 
para o dia seguinte. Depois, encontrou um canteiro de pulicria e colheu vrias plantas para jogar no fogo, como um impedimento adicional, juntamente  fumaa comum, 
a fim de ajudar a manter uma rea pequena, perto do fogo, relativamente livre de insetos.
     Mas, na umidade fria da manh, os flagelos voadores repousavam. Ayla estremeceu e esfregou os braos, porm no fez qualquer movimento para voltar a um local 
mais aquecido. Fitou a gua escura, mal notando a invaso gradual de luz do leste, enchendo toda a abbada celeste, e salientando muito a vegetao emaranhada. Ela 
sentiu uma pele quente sobre os ombros. Grata, enrolou-se nela e sentiu braos a envolverem pela cintura, por trs.
     - Est fria, Ayla. Esteve aqui fora muito tempo - disse Ranec.
     - No consegui dormir.
     - O que h de errado?
     - No sei, apenas uma sensao de inquietude. No sei explicar. Ficou perturbada desde a cerimnia do Chamado, no foi? - interrogou Ranec.
     - Eu no tinha pensado nisso. Talvez esteja certo.
     - Mas no participou, s observou.
     No quis participar, mas no estou segura. Talvez tenha acontecido alguma coisa - disse Ayla.
     Imediatamente aps a refeio matinal, os caadores arrumaram a bagagem e retomaram a viagem. A princpio, tentaram ladear o pntano, mas no parecia haver 
caminho ao redor dele, sem se fazer um grande desvio. Talut e vrios outros lideres da caada espreitaram a mata densa, pantanosa, coberta por neblina fria, conferenciaram 
com alguns outros e resolveram, afinal, por um trajeto que parecia oferecer a passagem mais fcil.
     O terreno alagado perto da borda logo cedeu lugar a um brejo trmulo. Muitos caadores tiraram sua proteo dos ps e entraram descalos na gua fria, enlameada. 
Ayla e Jondalar conduziram os cavalos nervosos com mais cuidado. Trepadeiras amantes do frio e compridas barbas de lquen cinza-esverdeado pendiam de vidoeiros-anes, 
salgueiros, e amieiros crescendo to juntos, que formavam uma selva rtica em miniatura. Era perigoso caminhar. Sem terreno slido para prender as razes e dar estabilidade, 
as rvores cresciam em ngulos improvveis e se espalhavam pelo cho. E os caadores lutavam para abrir caminho atravs de troncos cados, arbustos retorcidos e 
galhos e razes parcialmente submersos que armavam laos para ps confiantes. Moitas de canio e juna pareciam muito mais slidas do que eram, e musgos e samambaias 
escondiam charcos de gua estagnada e ftida.
     O avano era lento e exaustivo. No meio da manh quando pararam para descansar, todos suavam e sentiam calor, mesmo  sombra. Recomeando, Talut se chocou com 
um galho particularmente firme de amieiro e, tendo uma rara exploso de raiva, golpeou a rvore furiosamente com seu machado macio. O lquido brilhante cor de laranja, 
escorrendo dos sulcos na rvore ferida se parecia com sangue, e deu a Ayla uma impresso desagradvel de pressgio.
     Nada foi to bem-vindo quanto o terreno slido. Samambaias altas e capins ainda mais altos, mais do que um homem, cresciam na rica clareira perto do pntano. 
Eles viraram para leste a fim de evitar terras midas que se estendiam para oeste, depois subiram uma elevao que saa da depresso nas plancies cheias de pntanos, 
e viram a juno de um grande rio com um afluente. Talut, Vincavec e os lderes de alguns dos outros acampamentos pararam para consultar mapas traados em marfim, 
e fizeram mais marcas no solo, com facas.
     Ao se aproximarem do rio, atravessaram uma floresta de vidoeiros. No uma floresta com as rvores altas e resistentes de climas mais quentes; os vidoeiros eram 
mirrados e pequenos por causa das rigorosas condies periglaciais, no entanto, no deixavam de ser bonitos. Cada rvore, como se moldada e podada de propsito para 
a apresentao de formas individuais fascinantes, interminveis, possua graa distinta, plida, delicada. Mas os galhos finos, frgeis, oscilantes, eram enganadores. 
Quando Ayla tentou quebrar um, era duro como tendo e, no vento, malhavam os vegetais competidores levando-os  submisso.
     - Estas rvores se chamam Velhas Mes.
     Ayla deu meia-volta e viu Vincavec.
     - Acho que  um nome apropriado. Lembram que nunca se deve fazer juzo falso sobre a fora de uma velha. Este  um arvoredo sagrado, as rvores so guardis 
dos somuti - disse ele, apontando para o solo.
     As pequenas folhas trmulas, verde-claras de vidoeiro no bloqueavam inteiramente o sol, e desenhos mosqueados de sombra danavam levemente sobre o solo da 
floresta com forma de folhas. Ento, Ayla notou, brotando do musgo sob certas rvores, os grandes cogumelos vermelhos-vivos com manchas brancas.
     - Esses cogumelos,  isso que chamam de somuti? So venenosos, podem matar - disse Ayla.
     - Sim, claro, a menos que conhea os segredos para prepar-los. Assim, no sero usados inadequadamente. Somente aqueles que so escolhidos podem explorar o 
mundos dos somuti.
     - Eles tm propriedades medicinais? No conheo nenhuma - disse ela.
     - No sei, no sou curandeiro. Ter que perguntar a Lomie - disse Vincavec. Ento, antes que ela se desse conta, ele havia segurado suas duas mos e a olhava, 
ou melhor, penetrava-a, sentiu ela. - Por que lutou comigo na cerimnia do Chamado, Ayla? Eu havia preparado o caminho para voc para o mundo secreto, mas voc resistiu 
a mim.
     Ayla teve uma estranha sensao de conflito interior, de dois caminhos atraindo-a. A voz de Vincavec era afetuosa e dominadora, e ela sentiu um grande desejo 
de perder-se nas profundezas escuras de seus olhos, de flutuar nas frias poas escuras, de ceder a qualquer coisa que ele quisesse. Mas tambm sentiu uma necessidade 
esmagadora de se afastar, de manter-se distante e conservar sua prpria identidade. Com enorme esforo de vontade, desviou os olhos e vislumbrou Ranec observando-os. 
Ele se virou rapidamente para o lado.
     - Talvez tenha preparado um caminho, mas eu no estava pronta - disse Ayla, evitando o olhar fixo de Vincavec. Ergueu a cabea quando ele riu. Seus olhos eram 
cinzentos, no pretos.
     - Voc  boa! Voc  forte, Ayla. Nunca conheci algum como voc. E to adequada para a Fogueira do Mamute, para o Acampamento do Mamute. Diga-me que partilhar 
minha fogueira - falou Vincavec, como mximo de persuaso e sentimento que era capaz de demonstrar.
     - Eu fiz a promessa a Ranec - disse ela.
     - Isso no importa Ayla. Traga-o com voc, se quiser. Eu no me importaria de dividir a Fogueira do Mamute com um escultor to bem-dotado. Aceite-nos a ns 
dois! Ou eu aceitarei a ambos - riu de novo. - No seria a primeira vez. Um homem tambm tem uma certa atrao!
     - Eu... Eu no sei - disse ela, depois ergueu a cabea para o rudo abafado de cascos.
     - Ayla, vou levar Racer at o rio e escovar suas pernas. A lama est colada e secando nelas. Quer que eu leve Whinney tambm? - perguntou Jondalar.
     - Eu mesma a levarei - disse Ayla, contente pela desculpa para ir embora. Vincavec era fascinante, mas um pouco assustador.
     - Ela est l, perto de Ranec - disse Jondalar, virando-se na direo do rio.
     Os olhos de Vincavec acompanharam o homem alto e louro. Pergunto-me que papel ele representa em tudo isto, pensou o chefe-Mamut. Chegaram juntos, e ele compreende 
os animais, talvez tanto quanto ela, mas no parecem ser amantes, e no  porque ele tenha problemas com mulheres. Avarie me contou que elas o adoram, mas ele nunca 
toca Ayla, nunca dorme com ela. Diz-se que ele recusou o ritual de Feminilidade porque seus sentimentos eram muito fraternais. E assim que se sente em relao a 
Ayla? Fraternal?  por isto que ele nos interrompeu e a dirigiu ao escultor? Vincavec franziu a testa, depois pegou com cuidado alguns cogumelos grandes e, com uma 
corda, amarrou-os de cabea para baixo aos galhos das Velhas Mes para secar. Planejava peg-los no caminho de volta.
     Depois de cruzarem o afluente, chegaram a uma regio mais seca, com brejos desprovidos de rvores, bastante isolados. O grasnido, cacarejo e guincho de aves 
aquticas os avisaram do grande lago derretido  frente.
     Armaram a tenda no longe dele e vrias pessoas se dirigiam  gua para trazer de volta o jantar. No se encontrava peixe em pores de gua temporrias, a 
menos que se tornassem casualmente parte de uma corrente ou rio permanente, mas entre as razes de altos juncos, salgueiros, junas, e tifceas nadavam os girinos 
de rs comestveis e sapos.
     Por algum misterioso sinal sazonal, um grande bando de aves, aquticas na sua maior parte, voaram a norte a fim de juntarem-se as ptrmigas,  guia-real e 
 coruja branca real. O degelo de primavera, que trazia renovado crescimento vegetal e os grandes limites juncosos, convidava nmeros incontveis de aves migradoras 
a parar, construir ninhos e proliferar. Muitas aves se alimentavam dos anfbios incompletos, e de alguns adultos, assim como de cobras e salamandras, sementes e 
bolbos, dos inevitveis insetos, mesmo de pequenos mamferos.
     - Lobo adoraria este lugar - disse Ayla a Brecie enquanto observava, com a funda na mo, um casal de aves circundantes esperando que se aproximassem mais da 
borda, para que ela no tivesse que patinhar at muito longe para traz-las. - Ele est muito bom na perseguio  caa para mim.
     Brecie prometera mostrar a Ayla seu pau de arremessar, e queria ver a percia muito comentada da mulher com a funda. Ambas ficaram mutuamente impressionadas. 
A arma de Brecie era uma parte em cruz de osso de perna, alongada com forma aproximada de losango, com a epfise no dosa removida na extremidade e a borda aguada. 
Seu vo era circular, e atirada contra um bando de aves podia matar vrias ao mesmo tempo. Ayla achou que a arma era muito melhor para caar aves do que sua funda, 
mas a funda tinha aplicao mais geral. Ela tambm podia caar animais com ela.
     - Voc trouxe os cavalos, por que deixou o lobo? - perguntou Brecie.
     - Lobo ainda  muito novo, eu no sabia como se comportaria numa caada de mamutes, e no quis correr o risco de acontecer alguma coisa de errado nesta. Os 
cavalos, contudo, podem ajudar a carregar a carne. Alm disso, acho que Rydag se sentiria s sem Lobo - falou Ayla. - Sinto falta dos dois.
     Brecie sentiu a tentao de perguntar se Ayla tinha, realmente, um filho como Rydag, depois mudou de idia. O assunto era delicado demais.
     Ao continuarem na direo norte nos dias seguintes, ocorreu uma mudana distinta na paisagem. Os pntanos desapareceram e, uma vez deixando para trs as rvores 
ruidosas, o som do vento encheu as plancies descampadas com um silncio lgubre e queixoso e uma sensao de desolao. O cu se tornou nublado com uma cobertura 
de nuvens sem formas, cinzentas, que obscurecia o sol e escondia as estrelas  noite, mas raras vezes chovia. Em vez disso, o ar era mais seco e mais frio, com um 
vento forte que extraa at a umidade da respirao exalada. Mas, uma abertura ocasional nas nuvens  tarde vencia a monotonia tediosa dos cus com um pr-do-sol 
to resplandecente e to brilhante, enquanto refletia o cu carregado de umidade, que deixava os viajantes sem palavras para descrev-lo, fascinados por sua beleza 
pura.
     Era uma regio de horizontes remotos. Uma baixa colina arredondada se seguia a outra colina baixa, arredondada, sem picos salientes para em prestar distncia 
e perspectiva, e nenhum pntano de junco verde para suavizar os interminveis cinzas, marrons e amarelos pardacentos. As plancies pareciam se estender em todas 
as direes, para sempre, exceto ao norte. L, a grande amplido era engolida por uma neblina densa que escondia todos os sinais do mundo alm dela, e enganava a 
viso sobre a distncia at ela.
     A caracterstica da regio no era de estepes herbceas, nem de tundra congelada, mas uma mistura de ambas. Moitas de ervas congeladas e resistentes  seca, 
ervas com sistemas de razes compactas, arbustos lenhosos, como miniaturas, de artemsia e absinto, misturados com urzes brancas, rododendros em miniatura, e flores 
rosas de camarinheiras dominando os botes bonitos e purpreos de urze alpina. Arbustos de uva-do-monte, com no mais de 10 centmetros de altura prometiam contudo 
uma profuso de uvas grandes, e vidoeiros prostrados rastejavam pelo terreno como plantas rastejantes lenhosas.
     Mas mesmo as rvores ans eram escassas com dois tipos de condies de desenvolvimento opondo-se a elas. Na verdadeira tundra setentrional, a temperatura de 
vero  baixa demais para germinao e crescimento de sementes de rvores. Nas estepes, os ventos uivantes, que absorvem a umidade antes que se acumule, varrem a 
paisagem, e so uns fatores to proibitivos quanto os frios. A combinao deixava a terra tanto congelada quanto seca.
     Paisagem ainda mais descampada saudou o grupo de caadores quando avanaram para a espessa neblina branca  frente. Cascalho e rochedo nus estavam expostos, 
mas cobertos de liquens; crostas pendentes infestadas de piolhos de cor amarela, cinzenta, marrom, at laranja viva que pareciam mais pedras do que plantas. Algumas 
ervas florescentes e ar bustos anes perduravam, e os juncos e capins rijos cobriam extenses razoveis de terra. Mesmo naquele lugar rido, agreste, de ventos frios 
e secos que parecia incapaz de conservar a vida, esta continuava.
     Comearam a aparecer pistas que levavam ao segredo escondido dentro das neblinas. Arranhes gravados em grandes lousas de pedra; compridos ressaltos de areia, 
pedras e cascalho; grandes pedras fora do lugar, como se deixadas cair do cu por uma gigantesca mo invisvel. A gua lavava o solo rochoso, em correntes finas 
e torrentes borbulhantes e nebulosas, sem padro discernvel, e quando se aproximaram mais puderam sentir, afinal, uma umidade fria no ar. A neve suja permanecia 
em recantos sombrios, e em uma depresso ao lado de uma enorme pedra, neve antiga, cercada por um pequeno lago. No fundo dele havia bancos de gelo de um rico e vvido 
tom de azul.
     O vento mudou  tarde e, quando os viajantes acampavam, nevava uma neve fria, soprada pelo vento. Talut e os outros conferenciavam, perturbados. Vincavec havia 
invocado o Esprito do Mamute vrias vezes sem resultado. Tinham esperado encontrar os grandes animais antes disto.
      noite, deitada em silncio em sua cama, Ayla se tornou consciente de sons misteriosos que pareciam vir do fundo da terra: rangidos, estalos, risadinhas, gorgolejos. 
No conseguiu identific-los, no imaginava de onde vinham e ficou nervosa. Tentou dormir, mas continuou acordada. Por fim, perto do amanhecer, a exausto a venceu 
e ela cedeu ao cochilo.
     Ayla sabia que era tarde quando acordou. Todos estavam fora da tenda e o dia parecia incomumente claro. Agarrou sua parka, mas chegou apenas at a entrada. 
Quando olhou para fora parou e fixou o olhar, a boca aberta.
     A mudana no vento havia afastado temporariamente a neblina de vero de gelo em evaporao. Ela inclinou a cabea para trs a fim de olhar para a muralha de 
uma geleira avolumando-se acima dela, to inacreditavelmente macia que o cume se perdia nas nuvens.
     Seu tamanho a fazia parecer mais prxima do que estava, mas alguns pedaos gigantescos que, certa vez, tinham desmoronado da ngreme muralha recortada encontravam-se 
juntos, em um monte confuso, a uns 400 metros de distncia. Vrias pessoas se encontravam ao lado dele. Ela compreendeu que os pedaos eram a escala que lhe havia 
dado uma impresso adequada do verdadeiro tamanho da imensa barreira de gelo. A geleira era um espetculo incrvel, e inacreditavelmente belo. A luz do sol - de 
repente, Ayla reparou que havia sol - brilhava com milhes de cristais de gelo quebrados que cintilavam com tonalidades de cores prismticas, mas a cor escura bsica 
tinha matizes do mesmo azul surpreendente que ela havia visto no pequeno lago. No havia palavras adequadas para descrever a cena; irresistvel no significava nada 
ao lado de sua magnificncia, de sua grandeza e fora.
     Ayla acabou de vestir-se apressadamente, sentindo que havia perdido alguma coisa. Serviu-se de uma tigela do que parecia ser a sobra de um ch com uma leve 
camada de gelo j se formando em cima, e descobriu que era, em vez disso, caldo de carne. Fez uma pausa por um instante, antes de concluir que estava bom, e tomou-o. 
Depois pegou um punhado de cereais cozidos congelados, envolveu-os numa fatia grossa de carne assada fria, e se dirigiu para os caadores com passo rpido.
     - Perguntava se voc iria acordar algum dia - falou Talut ao v-la.
     - Por que no me acordou? - perguntou Ayla, dando uma ltima dentada na carne.
     - No  prudente acordar algum que dorme profundamente, a menos que seja uma emergncia - respondeu Talut.
     - O esprito precisa de tempo para suas viagens noturnas, a fim de poder voltar revigorado - ajuntou Vincavec, acercando-se para saud-la. Fez um gesto de tomar 
suas mos, mas ela as afastou, esfregando rapidamente as faces com elas, e partiu para examinar o gelo.
     Os grandes pedaos tinham cado, obviamente, com alguma fora. Estavam profundamente enterrados, e o terreno ao seu redor se encontrava revolvido. Tambm ficou 
logo evidente que estavam ali, havia vrios anos. Um acmulo de granulao carregada pelo vento, tirada da rocha que estava pulverizada nas bordas do gelo, revestia 
as superfcies mais elevadas com uma espessa camada de cascalho cinza-escuro, estriada em alguns lugares com camadas brancas de neve compacta. As prprias superfcies 
eram corrodas e irregulares pelo derretimento e congelamento desiguais durante muitos e muitos anos, e algumas plantas pequenas, persistentes, tinham-se, na verdade, 
enraizado no gelo.
     Venha c, Ayla - chamou Ranec. Ela ergueu os olhos e o viu de p, ao alto de um bloco elevado, levemente inclinado para um lado. Ficou surpresa ao ver Jondalar 
perto dele. - E fcil, se vier pelo lado.
     Ayla deu volta  pilha confusa de blocos de gelo e subiu uma srie de placas e fragmentos partidos. O p da rocha arenosa penetrou no gelo tornando a superfcie 
em geral escorregadia, spera, e era razoavelmente seguro caminhar por ela. Com um pouco de cuidado, era fcil subir e se mover. Quando Ayla chegou ao local mais 
alto, ficou de p, depois fechou os olhos. O vento que fustigava parecia querer testar sua determinao de suportar sua fora, e a voz da grande muralha ribombava, 
gemia e estalava perto dela. Ayla virou a cabea em direo  claridade intensa, ao alto, vista atravs de plpebras fechadas, e sentiu com a pele de sua face a 
luta csmica travada entre o calor da bola de fogo celeste e o frio da macia muralha de gelo. O prprio ar formigava de indeciso.
     Ento, ela abriu os olhos. O gelo comandava a vista, enchia sua viso. A extenso enorme, majestosa, formidvel de gelo que alcanava o cu cobria toda a amplitude 
da terra at onde se podia ver. Ao seu lado, as montanhas eram insignificantes. A viso encheu-a de uma exultao humilhante, uma excitao que inspirava terror. 
Seu sorriso fez Jondalar e Ranec sorrirem tambm, compreensivamente.
     - J vi isso antes - falou Ranec -, mas poderia ver tantas vezes quanto h estrelas no cu e nunca me cansaria. - Jondalar e Ayla concordaram com um gesto de 
cabea.
     - No entanto, pode ser perigoso - ajuntou Jondalar.
     - Como este gelo chegou at aqui?- indagou Ayla.
     - O gelo se move - disse Ranec. - s vezes, cresce em outras encolhe. Este se partiu quando a muralha era aqui. Esta pilha era muito maior, ento. Tem diminudo, 
como a muralha. - Ranec examinou a geleira. - Acho que estava mais distante da ltima vez. Talvez o gelo esteja aumentando de novo.
     Ayla varreu com o olhar a paisagem aberta, depois, observando como podia ver muito mais longe de seu ponto de vista mais elevado, gritou, apontando para sudeste:
     - Mamutes! Vejo um bando de mamutes!
     - Onde? - perguntou Ranec, subitamente animado.
     A excitao se espalhou pelos caadores como fogo. Talut, que havia comeado a dar volta por um lado ao ouvir a palavra mamutes, j es tava a meio caminho 
do alto do monte de gelo. Alcanou o topo com alguns passos largos, colocou a mo sobre a testa para proteger-se do sol e olhou para o local indicado por Ayla.
     - Ela tem razo! L esto eles! Mamutes! - trovejou, incapaz de conter a emoo, ou o volume de sua voz.
     Vrios outros subiam pelo gelo, cada um procurando um local para ver os grandes animais de presas de marfim. Ayla desceu um passo, para que Brecie pudesse ficar 
em seu lugar.
     Havia certo alvio em avistar os mamutes, assim como excitao. Ao menos, eles se mostravam, afinal. O que quer que tivesse feito o Esprito de Mamute esperar, 
tinha permitido, afinal, aos seus filhos deste mundo apresentar-se queles que eram escolhidos por Mut para caar mamutes.
     Uma das mulheres do Acampamento de Brecie contou a um dos homens que tinha visto Ayla ao alto da pilha de gelo com os olhos fechados, virando a cabea como 
se procurasse alguma coisa, ou a chamasse e, quando abriu os olhos, l estavam os mamutes. O homem sacudiu a cabea, compreendendo.
     Ayla fitava a pilha de gelo abaixo, pronta para descer. Talut apareceu ao seu lado, sorrindo to largamente como ela jamais vira.
     - Ayla, voc tornou este chefe um homem muito feliz - disse o gigante de barba ruiva.
     - No fiz nada - respondeu Ayla. - Eu os vi por acaso.
     - Chega. Quem quer que os tivesse visto primeiro me faria um homem muito feliz. Mas estou contente porque foi voc - disse Talut.
     Ayla sorriu-lhe. Realmente, ela amava o grande chefe. Pensava nele como tio, irmo, ou amigo, e sentia que ele gostava dela da mesma maneira.
     - O que estava olhando l embaixo, Ayla? - perguntou Talut.
     - Nada em particular. Eu reparava apenas que se pode ver a forma desta pilha daqui. Veja como ela  recortada do lado por que subimos, e depois se curva novamente.
     Talut lanou um olhar descuidado, depois outro, mais atento.
     - Ayla! Voc o fez de novo!
     - Fiz o qu?
     - Tornou este chefe um homem muito feliz!
     Seu sorriso era contagiante. Ela sorriu tambm.
     - O que o fez feliz desta vez, Talut?
     - Voc me fez reparar na forma deste monte degelo.  como um desfiladeiro sem sada. No totalmente completo, mas podemos dar um jeito nisso. Agora, eu sei 
como caaremos os mamutes!
     No perderam tempo. Os mamutes podiam resolver se afastar, ou o tempo podia mudar de novo. Os caadores tinham que tirar proveito da chance, imediatamente. 
Os lderes da caada conferenciaram, depois enviaram rapidamente vrios observadores para examinar a configurao do terreno e o tamanho da manada. Enquanto isso 
construram uma muralha de pedra e gelo para bloquear o espao livre a um lado do desfiladeiro frio, convertendo o monte confuso de gelo num cercado com uma abertura, 
apenas. Quando os exploradores voltaram, os caadores se reuniram para traar um plano, a fim de levar os grandes animais peludos para a armadilha.
     Talut contou como Ayla e Whinney tinham ajudado a levar os bises a uma armadilha. Muitas pessoas se interessaram, mas todos chegaram  concluso de que, com 
os grandes mamutes, um nico cavaleiro no seria capaz de iniciar um avano combinado, embora Ayla pudesse ajudar um pouco. Teriam que encontrar outro meio de levar 
os animais para a cilada.
     A resposta foi fogo. As tardias tempestades de vero tinham incendiado bastantes campos secos para que at mamutes resistentes, que temiam pouca coisa, tivessem 
um respeito sadio pelo fogo. Naquela poca do ano, contudo, talvez fosse difcil incendiar o capim. O fogo teria que ser em forma de tochas, seguras pelos condutores.
     - O que usaremos como tochas? - perguntou algum.
     - Capim seco e esterco de mamute, unidos e mergulhados em gordura - disse Brecie -, assim, acendero depressa e ardero.
     - E podemos usar a pedra-de-fogo de Ayla para acend-las rapidamente - ajuntou Talut, e houve gestos de cabea de concordncia.
     - Precisaremos de fogo em mais de um local - disse Brecie -, e na seqncia certa.
     - Ayla deu uma pedra-de-fogo a cada fogueira do Acampamento do Leo. Temos vrias conosco. Eu tenho uma e Ranec tambm. Jondalar tem mais uma - falou Talut, 
sabedor do prestgio extra que sua declarao lhes dava. Pena que Tulie no esteja aqui, pensou. Ela apreciaria o momento. As pedras-de-fogo de Ayla no tinham preo, 
principalmente desde que no eram muito abundantes, segundo parecia.
     - Assim que fizermos os mamutes se moverem, como termos certeza de que se encaminharo para a armadilha? - perguntou a mulher do acampamento de Brecie. - Isto 
 um descampado.
     O plano que traaram era simples e direto. Construram duas novas fileiras de montes de pedras com os pedaos quebrados de gelo e rocha, abrindo-se um leque 
desde a abertura do desfiladeiro de gelo. Talut, com seu machado macio, no teve dificuldade em quebrar os grandes pedaos da geleira em fragmentos menores, que 
podiam ser carregados. Vrias tochas foram colocadas atrs de cada monte de pedra, de prontido. Dos cinqenta caadores, alguns escolheram locais dentro do prprio 
desfiladeiro. Outros se enfileiraram atrs dos montes de pedra. Os restantes, primariamente os corredores mais velozes e fortes - porque apesar de todo o seu tamanho, 
os mamutes eram capazes de correr a alta velocidade em distncias curtas -, se dividiriam em dois grupos, para cercar ambos os lados da manada.
     Brecie comeou a explicar algumas caractersticas e fraquezas dos mamutes, e como ca-los, aos caadores mais jovens que nunca tinham caado animais grandes 
antes. Ayla ouviu com ateno e entrou no desfiladeiro gelado com eles. A chefe do Acampamento do Alce comandaria o assalto frontal do interior, e queria inspecionar 
a armadilha e escolher o seu lugar.
     Assim que estavam dentro das paredes geladas, Ayla notou a queda na temperatura. Com o fogo que tinham feito para derreter a gordura para as tochas, e o esforo 
de cortar capim e carregar blocos de gelo, ela no reparara no frio. Contudo, estavam to perto da grande geleira que a gua, que sobrava  noite, em geral tinha 
uma pelcula de gelo na manh seguinte, mesmo no vero, e era necessrio usar parkas durante o dia. Dentro do cercado gelado, o frio era intenso, mas, quando Ayla 
olhou ao redor do recinto espaoso no meio da confuso recortada de gelo, sentiu que entrara noutro local, um mundo branco e azul de beleza fria e inflexvel.
     Como os desfiladeiros rochosos perto de seu vale, grandes blocos recm-cortados das muralhas jaziam espalhados e partidos ao solo. Acima deles, pinculos pontiagudos 
e pontas elevadas de branco cintilantes  sombra das fendas e cantos mudavam para um azul rico, vvdo. Ela se lembrou, de sbito, dos olhos de Jondalar. As bordas 
arredondadas, mais suaves, de placas e blocos mais antigos com uma granulao fina soprada pelo vento, convidavam a uma escalada e explorao.
     Ayla o fez, apenas por curiosidade, enquanto os outros procuravam locais para caar. Ela no esperaria ali pelos mamutes. Ela e Whinney ajudariam a caar os 
animais peludos, como Jondalar e Racer fariam. A velocidade dos cavalos podia ser til, e ela e Jondalar proporcionariam uma pedra-de-fogo a um dos grupos dos condutores. 
Ayla notou mais pessoas reunindo-se  entrada e saiu apressada. Whinney seguia Jondalar e Racer a partir do local do acampamento. Ayla assobiou e a gua passou a 
frente deles  meio galope.
     Os dois grupos de condutores partiram em direo  manada de mamutes, dando uma volta ampla para se colocarem atrs, sem causar muita perturbao. Ranec e Talut 
se encontravam cada um atrs de uma das filas dos montes de pedras que convergiam para o desfiladeiro de gelo, prontos para fornecer fogo rpido quando necessrio. 
Ayla acenou a Talut e sorriu para Ranec quando passou por eles, esperando perto de uma pilha de gelo e pedra. Vincavec estava do mesmo lado que Ranec, notou Ayla, 
retribuindo o seu sorriso tambm.
     Ela caminhou  frente de Whinney, suas lanas e arremessador de lanas presos s alas das cestas, juntamente s tochas do grupo. Vrios outros caadores estavam 
prximos, mas ningum falava muito. Todos se concentravam nos mamutes, esperando ardentemente que a caada fosse bem-sucedida. Ayla olhou para Whinney, atrs dela, 
depois para a manada  frente Ainda pastavam no mesmo campo de capim onde ela os vira da primeira vez, no h muito tempo atrs. Tudo acontecera to depressa que 
ela mal tivera tempo de pensar. Eles tinham conseguido muito num espao de tempo bastante curto.
     Ela sempre havia querido caar mamutes, e um arrepio de expectativa atravessou-a quando compreendeu que estava, na verdade, a ponto de participar da primeira 
caada de mamutes de sua vida. Embora houvesse alguma coisa totalmente ridcula nisso, quando parou para refletir a respeito. Como criaturas to pequenas e fracas 
como os homens podiam desafiar os animais grandes, peludos, com presas de marfim, e esperar ter sucesso? No entanto, l estava ela, pronta para enfrentar o maior 
animal da terra, com nada mais do que algumas lanas de mamute. No, isso no era totalmente verdadeiro. Ela tambm tinha a inteligncia, experincia e cooperao 
dos outros caadores. E o arremessador de lanas de Jondalar.
     Ser que o novo arremessador de lanas que ele desenvolveu para ser usado com lanas maiores funcionaria? Eles o tinham testado, mas ela no se sentia ainda 
inteiramente  vontade com o seu.
     Ayla viu Racer e o outro grupo aproximando-se deles pelo capim seco, e a manada de mamutes parecia mover-se mais. Comeavam a ficar, nervosos por causa das 
pessoas que tentavam esgueirar-se  volta deles? O andar do seu grupo se acelerava; outros tambm se preocupavam. Passaram um sinal para pegar as tochas. Ayla tirou-as 
rapidamente das cestas que Whinney carregava e entregou-as. Esperaram ansiosamente, observando o outro grupo pegar as tochas. Ento, o chefe da caada fez um sinal.
     Ayla tirou suas luvas e se agachou diante da pequena pilha de penugem de estramnio e esterco amassado. Os outros rondavam, esperando. Ela golpeou seu slex 
de iniciar o fogo contra o pedao cinza-amarelado de pirita de ferro. A centelha morreu. Ela golpeou de novo, o fogo pareceu pegar e ela bateu mais uma vez, acrescentando 
mais centelhas  isca lenta, e tentou soprar para avivar a chama. Ento, uma rajada repentina de vento veio em sua ajuda, e o fogo envolveu subitamente a isca e 
o esterco amassado. Ela acrescentou algum sebo para o fogo se tornar mais forte, e recostou-se enquanto os primeiros caadores aproximavam suas tochas do fogo. Acenderam 
as tochas um do outro, depois comearam a se afastar em leque.
     No houve sinal definitivo para comear o avano. Iniciou-se lentamente, quando os caadores desorganizados investiam em direo aos animais gigantescos, gritando 
e sacudindo suas chamas mveis, fumegantes. Porm, a maior parte dos Mamutoi era de caadores de mamutes experientes, e costumava caar junta. Os esforos logo se 
tornaram mais harmoniosos quando os dois grupos de condutores combinaram e os elefantes peludos comearam a mover-se na direo dos montes de pedras.
     Uma grande mamute-fmea, a matriarca da manada, parecendo notar um propsito na confuso, virou para o lado. Ayla correu em sua direo, gritando e agitando 
sua tocha. Ela se lembrou, de repente, da tentativa de perseguir uma cavalhada certa vez, sozinha, somente com tochas fumegantes como ajuda. Todos os cavalos, exceto 
um, fugiram - no, dois, pensou. A gua que amamentava caiu na armadilha escavada, mas no o pequeno potro amarelo. Ela lanou um olhar a Whinney.
     O barrito gritante da fmea pegou Ayla de surpresa. Ela se virou a tempo de ver a velha matriarca espiar as criaturas fracas, insignificantes que tinham cheiro 
de perigo, depois comear a correr em direo dela. Mas, desta vez, a jovem no estava sozinha. Ergueu a cabea e viu Jondalar a seu lado, depois vrios outros, 
mais do que a fmea peluda desejava enfrentar. Erguendo a tromba para gritar um aviso de fogo, ela se empertigou e tornou a gritar, depois recuou.
     A leira de feno seco ficava em terreno mais elevado, no sujeito ao escoamento de vero da geleira e, embora houvesse neblina, nenhuma chuva cara havia muitos 
dias. Os fogos usados para acender as tochas foram abandonados e logo se espalharam pelo capim, encorajados pelo vento forte. Os mamutes viram primeiro o fogo, no 
apenas o odor de capim em chamas, nas de terra queimada e moitas ardendo - um cheiro familiar de incndio num campo e at mais assustador. A velha matriarca soltou 
novo barrito, acompanhado agora por um coro de gritos clamantes quando os animais peludos, marrons-avermelhados, novos e velhos, ganharam velocidade e debandaram 
na direo de um perigo desconhecido, porm ainda maior.
     Um vento cruzado enviou uma onda de fumaa em direo dos caadores que corriam para acompanhar a manada. Ayla, pronta para montar Whinney, lanou um olhar 
para trs, para o fogo compreendendo o que havia impelido os grandes mamutes em seu pnico. Observou por um instante, enquanto as chamas vermelhas, estalando, devoravam 
avidamente o campo, cuspindo centelhas e fumaa. Mas ela sabia que o fogo no era uma ameaa real. Mesmo que conseguisse atravessar a regio de terreno rochoso nu, 
o prprio desfiladeiro de gelo podia det-lo. Ela viu que Jondalar j montara Racer, seguindo bem atrs dos mamutes que retrocediam e se apressou em acompanh-lo.
     Ayla pde ouvir a respirao ofegante quando passou pela jovem do Acampamento de Brecie, que havia corrido todo o caminho, ficando pouco atrs das grandes bestas. 
Seria mais difcil para os animais se desviarem depois de tomarem a rota que os levaria inevitavelmente para o desfiladeiro frio, e as duas mulheres sorriram uma 
para a outra quando a manada entrou no caminho entre os montes de pedras. Ayla cavalgou  frente. Era sua vez, agora, de conduzi-los.
     Ela viu fogos avivando-se ao longo do caminho atrs dos montes de pedra, dos lados e um pouco  frente dos gigantes pesados. Eles no queriam levar as tochas 
muito longe,  frente deles, e correr o risco de a manada se desviar para um lado, agora que estava to perto. De repente, ela se aproximava da entrada no gelo. 
Ela puxou Whinney para o lado, agarrou suas lanas, saltou ao solo e sentiu a vibrao da terra, enquanto os ltimos mamutes entravam na armadilha. Ela correu para 
dentro e juntou-se  perseguio, seguindo perto dos calcanhares de um velho mamute com presas cruzadas na frente. Acenderam mais material inflamvel, que fora empilhado 
em montes perto da entrada, numa tentativa de manter os animais assustados no interior. Ayla, dando volta a um fogo, entrou novamente no cercado frio.
     No era mais um local de beleza serena, perfeita. Em vez disso, gritos clamantes de mamutes ecoavam de muralhas duras, geladas, irritando os ouvidos e atormentando 
os nervos. Ayla estava cheia de uma tenso quase insuportvel, em parte medo, em parte excitao. Engoliu o medo, e ajustou sua primeira lana no encaixe no meio 
do arremessador.
     A fmea mamute se movera para a extremidade distante, procurando um meio de conduzir a manada para fora, mas Brecie esperava l, no alto de um bloco de gelo. 
A velha matriarca levantou a tromba e berrou sua frustrao, e a chefe do Acampamento do Alce atirou uma lana em sua garganta aberta. O grito foi interrompido por 
um gorgolejo de lquido que jorrou-lhe da boca e manchou o gelo branco com sangue vermelho quente.
     O jovem do Acampamento de Brecie atirou uma segunda lana. A ponta longa, aguada de slex penetrou no couro resistente e se alojou profundamente no abdmen. 
Outra lana se seguiu, e tambm encontrou a barriga macia, provocando um longo talho pelo peso da haste. A fmea soltou um urro estridente de dor, enquanto sangue 
e membranas intestinais de um branco-acinzentado brilhante jorravam da ferida. Suas patas traseiras se entrelaaram em suas vsceras. No entanto, outra lana foi 
atirada no animal cado, mas atingiu um osso da costela e saltou para fora. A seguinte encontrou um espao entre duas costelas por onde a ponta longa, achatada e 
fina penetrou.
     A velha mamute ajoelhou-se, tentou levantar-se uma vez mais num es foro para soltar um grito de aviso, depois lentamente, quase graciosamente, tombou contra 
o solo. Brecie tocou com uma lana a cabea da velha mamute corajosa, elogiou sua luta brava, e agradeceu  Grande Me pelo sacrifcio que permitia que os Filhos 
da Terra sobrevivessem.
     Brecie no foi  nica a ficar perto da mamute-fmea corajosa e a agradecer  Me. Grupos de caadores se reuniram informalmente para um mltiplo ataque sobre 
cada animal. As lanas atiradas lhes permitiam permanecer fora do alcance das presas e trombas e patas pesadas dos mamutes que escolheram, mas tambm tinham que 
vigiar os animais que eram caa de outros homens no cercado. O sangue derramando-se de animais feridos e moribundos suavizava o gelo do terreno parcialmente congelado, 
depois se congelava em superfcie lisa e vermelha, tornando o caminhar perigoso. O desfiladeiro de gelo era uma mistura de gritos dos caadores e dos berros dos 
mamutes, e as muralhas cintilantes amplificavam e reverberavam cada som.
     Depois de observar alguns instantes, Ayla perseguiu um mamute novo, cujas presas pesadas eram longas e curvas, mas, ainda assim, teis como armas. Ela colocou 
a lana pesada no novo arremessador, tentando conseguir a impresso certa. Lembrou-se de Brecie dizer que o estmago era um dos pontos mais vulnerveis de um mamute, 
e Ayla ficou muito impressionada com a eviscerao da velha matriarca da manada. Fez pontaria e, com um arremesso forte, atirou a arma mortfera atravs do desfiladeiro 
gelado.
     A lana voou rpida e certeira, e atingiu a cavidade abdominal. Mas com a potncia da arma e a fora de seu lanamento, e sem outros ajudando, ela deveria ter 
mirado um ponto mais vital. Uma lana no estmago no era imediatamente fatal. O mamute sangrava profusamente, mortalmente ferido, mas a dor o encolerizou, dando-lhe 
fora para se voltar para o atacante. O mamute gritou um desafio, abaixou a cabea e disparou em direo  jovem.
     O arremesso de longa distncia do arremessador de Ayla lhe deu sua nica vantagem. Ela largou as lanas e correu para um bloco de gelo. Mas seu p escorregou 
ao tentar subir. Ela se deslocou para trs dele enquanto o mamute enorme se chocava contra ele com toda a sua fora. Suas presas macias partiram o gigantesco bloco 
de gua congelada em dois e calcou-os para trs, tirando o ar a Ayla. Depois, gritando sua frustrao e sua morte, ele socou e dilacerou a lmina de gelo tentando 
alcanar a criatura atrs dela. De repente, duas lanas voaram em sucesso rpida e encontraram o macho enraivecido. Uma atingiu-o no pescoo, a outra lhe estalou 
uma costela com tanta fora que chegou ao seu corao.
     O mamute encolheu-se em um monte perto do gelo partido. Seu sangue vertendo dos ferimentos formou lagos vermelhos vivos que fumegaram, depois esfriaram, em 
seguida endureceram sobre o frio gelo glacial. Ainda trmula, Ayla se arrastou para longe do bloco.

     - Est bem? - perguntou Talut, alcanando-a a tempo de ajud-la a ficar de p.
     - Sim, acho que sim - disse ela, um pouco sem ar.
     Talut estendeu a mo para a lana que se projetava do peito do animal, puxou-a com fora e arrancou-a. Um novo jorro de sangue aconteceu justamente quando Jondalar 
chegava at eles.
     - Ayla, tive certeza de que ele tinha apanhado voc! - disse Jondalar, a expresso em seu rosto sendo mais que preocupao. - Voc devia ter esperado at eu 
vir... Ou algum vir ajudar. Tem certeza de que est bem?
     - Sim, tenho, mas estou muito contente porque vocs dois estavam por perto - disse ela. Depois sorriu.  Caada de mamutes pode ser muito excitante.
     Talut a examinou atentamente, por um momento. Ela havia passado por um grande apuro, o mamute quase a pegara, mas ela no parecia incomumente perturbada. Um 
pouco ofegante e excitada, mas isso era normal. Ele sorriu e concordou com um gesto de cabea; depois examinou a ponta e haste de sua lana.
     - Ah! Ainda est boa! - exclamou. - Posso pegar outro com esta lana! - acrescentou, e voltou  luta.
     Os olhos de Ayla acompanharam o grande chefe, mas Jondalar olhava para ela; seu corao ainda martelava de medo por ela. Ele quase a perdera! Aquele mamute 
quase a havia matado! Seu capuz estava cado para trs e o cabelo despenteado. Seus olhos brilhavam de excitao. O rosto estava corado e ela respirava entrecortadamente. 
Era bonita em sua excitao, e o efeito foi imediato e esmagador.
     Sua bela mulher pensou, ele. Sua maravilhosa, excitante Ayla, a nica mulher que ele amara, realmente O que teria feito se a tivesse perdido? Sentiu o sangue 
correr para suas virilhas. O medo, ao pensar em perd-la, e seu amor despertaram seu desejo e encheram-no de uma forte nsia de abra-la. Ele a queria. Ele a queria 
mais do que j a quisera em sua vida. Poderia tom-la ali, naquele instante no solo frio e ensangentado do desfiladeiro de gelo. Ela levantou a cabea e viu sua 
expresso, sentiu o carisma irresistvel dos seus olhos to vivamente azuis quanto um profundo lago glacial, mas ardentes. Ele a queria. Ela sabia que ele a queria, 
e ela o queria com um fogo que a queimava e no seria apagado. Ela o amava, mais do que imaginara ser possvel amar algum. Ela se esticou para ele, estendendo-lhe 
as mos, faminta de seus beijos, de seu toque, de seu amor.
     - Talut acabou de me contar - disse Ranec correndo para eles, o pnico na voz. -  esse o mamute? - parecia espantado. - Tem certeza de que no est ferida, 
Ayla?
     Ayla fitou Ranec por um momento, sem compreender, e viu um vu cobrir os olhos de Jondalar quando ele recuou um passo. Ento, o sentido da pergunta de Ranec 
a alcanou.
     - No, no estou ferida, Ranec. Estou bem - disse Ayla, mas no tinha certeza de que era verdade. Sua mente era um turbilho enquanto observava Jondalar arrancar 
sua lana do pescoo do mamute e afastar-se. Ela o acompanhou com os olhos.
     Ela no  mais minha Ayla, e a culpa  minha! Pensou ele. De repente, lembrou-se do incidente nas estepes da primeira vez em que ele cavalgou Racer, e ficou 
cheio de remorso, e vergonha. Ele sabia que crime terrvel era aquele e, contudo, seria capaz de comet-lo de novo. Ranec era um homem melhor para ela. Ele lhe dera 
as costas, e depois a maculara. No a merecia. Esperara estar comeando a aceitar o inevitvel, esperara que, um dia, depois que voltasse ao seu lar, talvez esquecesse 
Ayla. Era at capaz de usufruir alguma amizade com Ranec. Mas, agora, sabia que a dor de perd-la jamais desapareceria, ele nunca esqueceria Ayla.
     Viu um mamute, o ltimo de p, um animal novo que havia escapado, de alguma forma, da carnificina. Jondalar atirou a lana contra o animal com tanta violncia 
que ele caiu de joelhos. Depois, saiu do desfiladeiro gelado. Tinha que se afastar, que ficar sozinho. Caminhou at saber que estava fora do alcance da viso dos 
outros caadores. Ento, levou as mos  cabea, apertou os dentes e tentou se controlar. Caiu ao solo e golpeou a terra com os punhos.
     -  Doni - gritou, tentando livrar-se da dor e infelicidade -, sei que a culpa  minha. Fui eu que lhe dei as costas e a afastei. No era apenas cime, eu tinha 
vergonha de am-la. Eu temia que ela no fosse suficientemente boa para o meu povo, temia que no fosse aceita, e eu seria expulso por causa dela. Mas no me importo 
mais com isso. Sou eu que no sou bastante bom para ela, mas a amo.  Grande Me, eu a amo, e a quero. Doni, como a quero! Nenhuma mulher significa coisa alguma. 
Afasto-me delas, vazio. Doni, eu a quero de volta. Sei que  tarde demais agora, mas quero minha Ayla de volta.
     Talut nunca se encontrava mais  vontade do que quando talhavam mamutes. De peito nu, suando profusamente, agitando seu machado macio como se fosse um brinquedo 
infantil, partia osso e marfim, lascava tendes e abria a pele resistente. Gostava do trabalho e, sabendo que ajudava seu povo, divertia-se em usar seu corpo potente 
e tornar menor o esforo para outro, sorria com prazer enquanto usava os msculos rijos de forma que ningum mais era capaz, e todos que o observavam tambm tinham 
que sorrir.
     Estripar as peles grossas dos animais enormes, contudo, exigia muitas pessoas, assim como aconteceria quando voltassem e fossem curtir e tratar o couro. Mesmo 
trazer os couros de volta exigia um esforo cooperativo, por isto selecionavam apenas os melhores. O mesmo acontecia com qualquer outra parte dos grandes animais, 
desde as presas at os rabos. Eram especialmente discriminadores em sua seleo da carne, escolhendo apenas as melhores pores, de preferncia as ricas em gordura, 
e abandonando o resto.
     Mas o desperdcio no era to grande quanto parecia. Os Mamutoi tinham que carregar tudo s costas, e o transporte de carne de m qualidade poderia custar-lhes 
mais calorias do que ganhavam. Com escolha cuidadosa, o alimento que levavam de volta sustentaria muitas pessoas por longo tempo, e no teriam logo que caar novamente. 
Aqueles que caavam, e dependiam da caa para ter alimento, no matavam em excesso. Simplesmente, utilizavam sabiamente. Viviam unidos  Grande Me Terra, sabiam 
e compreendiam sua dependncia Dela. No esbanjavam Seus recursos.
     O tempo permaneceu notavelmente claro enquanto os caadores talhavam, provocando oscilaes dramticas na temperatura entre meio-dia e meia-noite. Mesmo assim, 
perto da grande geleira, os dias podiam ficar quentes sob o brilhante sol de vero, quente o suficiente, com o vento dessecativo, para secar parte da carne mais 
magra, e torn-la razovel para ser carregada. Mas as noites sempre pertenciam ao gelo. No dia de sua partida, uma mudana no vento espalhou nuvens esparsas a oeste, 
e um esfriamento perceptvel.
     Os cavalos de Ayla nunca foram to apreciados como quando ela os carregou para a viagem de volta. Cada caador preparava uma carga completa e, imediatamente, 
compreendeu os benefcios dos animais de carga. Os travois provocaram particular interesse. Vrias pessoas tinham-se perguntado por que motivo Ayla insistia em arrastar
os paus compridos com ela; obviamente, no eram lanas. Agora, sacudiam as cabeas, aprovando. Um dos homens chegou at a erguer um travois parcialmente cheio, por
brincadeira, e arrastou-o, ele prprio.
     Embora acordassem cedo, ansiosos para voltar, a manh j ia ao meio quando partiram. Numa ocasio depois do meio-dia, os caadores subiram uma comprida, estreita 
colina de areia, cascalho e pedras grandes, depositados h muito tempo atrs pela borda saliente da geleira apontando para o sul. Quando alcanaram o cume arredondado 
da morena, pararam para um descanso, e Ayla, olhando para trs, viu a geleira no encoberta por neblina, da perspectiva de distncia, pela primeira vez. No podia 
desviar o olhar.
     Brilhando ao sol, algumas nuvens no ocidente obscureciam seus pontos mais elevados, uma barreira contnua de gelo se estendia atravs da regio o mais distante 
possvel, estabelecendo um limite alm do qual ningum podia ir. Era realmente o fim da terra.
     A borda frontal era irregular, acomodando pequenas diferenas locais do terreno, e uma escalada ao topo revelaria escavaes e sulcos, fendas e gretas bastante 
grandes em uma escala humana, porm, em relao ao seu prprio tamanho, a superfcie era uniforme. A vasta e inexorvel geleira, estendendo-se ininterruptamente 
alm da imaginao, revestia um quarto da superfcie da terra com uma carapaa de gelo. Ayla continuava olhando para trs quando recomearam a jornada, e observou 
vrias nuvens no ocidente se acercarem e a neblina aumentar, envolvendo o gelo em mistrio.
     Apesar da carga pesada, viajaram mais depressa na volta do que na ida. Cada ano o terreno mudava o suficiente com o vento para haver necessidade de tornar a 
explorar locais bem conhecidos. Mas o caminho para a geleira setentrional e a rota de volta no eram conhecidos. Todos estavam satisfeitos e de bom humor pela caada
bem-sucedida, e ansiosos para regressar  Reunio. Ningum parecia sentir a carga pesada,  exceo de Ayla. Enquanto prosseguiam, ela sentia que o pressentimento
que experimentara a caminho do norte se tornava mais forte ainda no caminho de volta, mas evitou mencionar seus receios.
     O escultor estava to cheio de expectativa e nsia que achava difcil se conter. A ansiedade tinha origem, largamente, no interesse contnuo de Vincavec por 
Ayla, embora tivesse a sensao de conflitos mais graves, tambm. Mas Ayla ainda lhe era prometida, e carregavam a carne para a Festa Matrimonial. Mesmo Jondalar 
parecia ter aceitado a unio e, embora nada fosse explicitamente declarado, Ranec sentia que o homem alto estava se colocando ao lado dele contra Vincavec. O homem 
dos Zelandonii possua muitas qualidades admirveis, e se desenvolvia uma amizade experimental. Apesar disso, Ranec achava que a presena de Jondalar era uma ameaa 
tcita  sua unio com Ayla, e podia ser um obstculo entre ele e a felicidade completa. Ranec ficaria feliz quando Jondalar partisse, afinal. Ayla no estava nada 
ansiosa pela Cerimnia Matrimonial, embora soubesse que deveria estar. Sabia o quanto Ranec a amava, e acreditava que poderia ser feliz com ele. A idia de ter um 
beb como o de Tricie a enchia de prazer. Em sua mente, Ayla sabia, sem sombra de dvida, que Ralev era filho de Ranec. No era o resultado de nenhuma mistura de 
espritos. Ela estava certa de que Ranec havia iniciado o beb com sua prpria essncia quando partilhara prazeres com Tricie. Ayla gostava da mulher ruiva e sentia 
pena dela. Resolveu que no se importaria dividir Ranec e a fogueira com ela e Ralev, se Tricie quisesse.
     Era somente na escurido profunda da noite que Ayla confessava a si mesma que talvez ela fosse igualmente feliz no vivendo, de modo algum, na fogueira de Ranec. 
Ela havia evitado, geralmente, dormir com ele durante a viagem, exceto em algumas ocasies quando ele parecia precisar muito dela, no fisicamente, mas porque queria 
tranqilizar-se e senti-la perto. Na volta, ela no fora capaz de dividir prazeres com Ranec. Em vez disso,  noite, em sua cama, s pensava em Jondalar. As mesmas 
perguntas cruzavam-lhe a mente uma e outra vez, mas ela no era capaz de chegar a nenhuma concluso.
     Quando pensava no dia da caada, do grande risco que correra com o mamute, e na expresso de necessidade dolorosa nos olhos de Jondalar, perguntava-se se era 
possvel ele ainda am-la. Ento, por que estivera to distante o inverno inteiro? Por que parara de encontrar prazer nela? Por que ele havia deixado a Fogueira 
do Mamute? Ela se lembrou do dia, nas estepes, em que ele havia montado Racer pela primeira vez. Quando refletia sobre o desejo dele, sua necessidade, e a aceitao 
pronta e ansiosa dela prpria, no conseguia dormir porque o desejava, mas a lembrana era toldada pela rejeio de Jondalar, e por seus prprios sentimentos de 
infelicidade e confuso.
     Aps um dia particularmente longo e uma refeio tardia, Ayla estava entre os primeiros que abandonaram a fogueira e se dirigiram  tenda. Ela havia recusado 
o pedido esperanoso, implcito de Ranec para dividir suas peles, com um sorriso e um comentrio sobre estar cansada depois de um dia de viagem e, em seguida, vendo 
o desapontamento dele, sentiu-se mal. Mas estava fatigada, e muito insegura sobre seus sentimentos. Vislumbrou Jondalar perto dos cavalos antes de entrar na tenda. 
Ele estava virado de costas e ela o observou, involuntariamente fascinada pela forma do seu corpo, a maneira como se movia e como ficava de p. Ela o conhecia to 
bem, que achava poder reconhec-lo pela sombra que projetava. Ento, notou que seu corpo havia respondido ao dele, sem inteno, tambm. Ela respirava mais depressa 
e seu rosto estava corado, e sentiu-se arrastada para ele, de tal forma, que comeou a caminhar em sua direo.
     Mas no adianta, pensou. Se eu fosse falar com ele, ele iria apenas recuar, afastar-se, dar desculpas e procurar outra pessoa com quem conversar. Ayla entrou 
na tenda, ainda repleta dos sentimentos que Jondalar provocara nela, e arrastou-se para suas peles.
     Ela estivera cansada, mas agora no conseguia dormir, e se agitava e virava, tentando negar seu desejo por ele. O que havia de errado com ela? Ele no parecia 
quer-la, por que ela o queria? Mas, ento, por que ele a olhava daquela maneira, algumas vezes? Era como se ele se sentisse to atrado para ela que no se pudesse 
controlar. Um pensamento lhe ocorreu, ento, e ela franziu a testa. Talvez ele fosse atrado para ela, do mesmo modo que ela era atrada para ele, mas talvez ele 
no quisesse se sentir assim. Teria sido esse o problema, o tempo todo?
     Sentiu-se corar de novo, mas desta vez de tristeza. Refletindo sobre o comportamento de Jondalar dessa maneira, de repente, parecia fazer sentido a forma como 
ele a evitava e fugia dela. Era porque ele no queria quer-la? Quando pensou em todas as vezes que tentara se acercar dele, e falar com ele, e compreend-lo, quando 
tudo o que ele queria era evit-la, sentiu-se humilhada. Ele no me quer, pensou. No como Ranec. Jondalar disse que me amava, e falou de me levar consigo quando 
estvamos no vale, mas nunca me pediu para unir-me a ele. Nunca disse que queria dividir uma fogueira ou que desejava meus filhos.
     Ayla sentiu lgrimas mornas nos cantos dos olhos. Por que eu me importo com ele, quando ele no gosta de mim, realmente? Fungou e afastou as lgrimas com as 
palmas das mos. Todo este tempo, quando tenho pensado nele e o desejado, ele s queria me esquecer.
     Bem, Ranec me quer, e ele faz bons prazeres tambm. E  to bondoso. Quer partilhar uma fogueira comigo, e nem sequer tenho sido muito boa com ele. E ele faz 
bebs simpticos, ao menos o de Tricie . Acho que devia comear a ser mais bondosa com Ranec, e esquecer Jondalar, pensou. Mas mesmo enquanto as palavras se formavam 
em sua mente, as lgrimas recomearam e, embora se esforasse, ela no pde deter o pensamento que surgiu no fundo de si mesma. Sim, Ranec  bom para mim, mas Ranec 
no  Jondalar, e eu amo Jondalar.
     Ayla ainda estava acordada quando as pessoas entraram na tenda. Observou Jondalar entrar e o viu olhar na direo dela, hesitando. Ela olhou para ele tambm 
por um momento, depois levantou o queixo e desviou o olhar. Ranec entrou nesse exato momento. Ela se sentou e sorriu para ele.
     - Pensei que estava cansada. Por isto foi para a cama cedo - disse o escultor.
     - Pensei que estava, mas no consegui dormir. Acho que, talvez, gostaria de dividir suas peles afinal - disse ela.
     O brilho do sorriso de Ranec rivalizaria com o sol, se este estivesse cintilando. 
     - E bom nada conseguir me manter acordado quando estou cansado - disse Talut com um sorriso bem-humorado, enquanto se sentava sobre seu rolo de dormir a fim 
de desamarrar as botas. Mas Ayla notou que Jondalar no sorria. Ele havia fechado os olhos, mas no escondia sua careta de dor, ou o andar curvado de vencido quando 
se dirigiu ao seu local de dormir. De repente, deu meia-volta e saiu correndo da tenda. Ranec e Talut se entreolharam, mas depois o homem escuro olhou para Ayla.
     Quando alcanaram o pntano, resolveram procurar um caminho ao redor. Carregavam muita coisa para abrir caminho por ele de novo. O mapa de marfim do ano anterior 
foi consultado, e tomaram a deciso de mudar de rumo na manh seguinte. Talut estava certo de que no levariam mais tempo para dar a volta, embora tivesse alguma 
dificuldade em convencer Ranec, que no suportaria mais demoras.
     No fim da tarde anterior  deciso de tomar novo rumo, Ayla se sentia incomumente nervosa. Os cavalos tinham estado assustadios o dia inteiro, tambm, e mesmo 
escov-los e limp-los no os houvera acalmado. Alguma coisa estava errada. Ela no sabia o que era, sentia somente uma estranha inquietao. Comeou a caminhar 
pelas estepes, nuas, tentando relaxar e perambulou longe do acampamento.
     Descobriu um pequeno bando de ptrmigas e procurou a funda, mas a tinha esquecido. De repente, sem razo aparente, as aves voaram em pnico. Ento, uma guia-real 
apareceu acima do horizonte. Com movimentos de asas enganadoramente lentos, seguia as correntes de ar, parecendo no ter grande pressa. No entanto, mais depressa 
do que Ayla percebeu, a guia avanava sobre as aves que voavam baixo. De sbito, em grande velocidade, a guia agarrou sua vtima com garras fortes e esganou a 
ptrmiga at morrer.
     Ayla estremeceu e voltou depressa ao acampamento. Ficou acordada at tarde, tentando distrair-se. Mas quando foi para a cama, o sono demorou a chegar e, depois, 
encheu-se de sonhos perturbadores. Ela acordou com freqncia e uma vez, perto do amanhecer, encontrou-se acordada de novo, e incapaz de voltar a dormir. Escorregando 
para fora de seu rolo de dormir, saiu da tenda e acendeu o fogo para ferver gua.
     Bebeu seu ch da manh enquanto o cu clareava, fitando, distraidamente, uma haste fina com uma flor seca de umbela crescendo perto da fogueira. Um pernil parcialmente 
devorado, de carne assada fria de mamute, fora colocado no alto, sobre um trip de lanas de mamute, diretamente acima do fogo, para proteg-lo de animais de pilhagem. 
Ela comeou a reconhecer a planta de cenoura silvestre e, vendo um galho quebrado com ponta aguada na pilha de lenha, usou-o como pau para escavar, a fim de descobrir 
a raiz alguns centmetros abaixo da superfcie. Ento, viu outras umbelas de flores secas e, enquanto as retirava, notou algumas hastes de cardo, frescos e suculentos 
depois das espinhas retiradas. No longe dos cardos, encontrou um grande cogumelo licoperdo, ainda branco e fresco, e hemerocales com botes novos. Quando as pessoas 
comearam a se levantar, Ayla tinha uma grande cesta-panela de sopa, engrossada com cereais partidos, cozinhando.
     - Isto  maravilhoso! - exclamou Talut, servindo-se pela segunda vez com concha de marfim. - O que a fez resolver preparar uma refeio matinal to deliciosa 
hoje?
     - No conseguia dormir, e ento vi todas estas plantas crescendo aqui perto. Desviou meu pensamento de... Coisas. - disse ela.
     - Dormi como urso no inverno - falou Talut, depois a examinou com ateno, desejando que Nezzie estivesse ali. - Alguma coisa a est perturbando, Ayla?
     Ela sacudiu a cabea.
     - No... Bem, sim. Mas no sei o que .
     - Est doente?
     - No, no  isso. Sinto-me apenas... Estranha. Os cavalos tambm percebem alguma coisa. Racer est rebelde e Whinney, nervosa...
     De repente, Ayla deixou cair sua tigela e, apertando os braos como se para proteger a si, mesma, fixou o sudeste com horror.
     - Veja, Talut! - Uma coluna cinzenta se elevava na distncia e uma nuvem macia, escura e encapelada enchia o cu. - O que ?
     - No sei - disse o grande chefe, parecendo to assustado quanto ela. - Vou buscar Vincavec.
     - Tambm no estou certo. - Eles se viraram para a voz do feiticeiro tatuado. - Est vindo das montanhas do sudeste. - Vincavec lutava para manter o controle. 
Ele no devia mostrar seus receios, mas no era fcil. - Deve ser um sinal da Me.
     Ayla tinha certeza de que alguma terrvel catstrofe acontecia para que a terra vomitasse com aquela fora. A coluna cinzenta, escura, devia ser inacreditavelmente 
grande para parecer enorme vista de to longe, e a nuvem, agitando-se e avolumando-se encolerizadamente, era cada vez maior. Ventos fortes comeavam a empurr-la 
para oeste.
     -  o leite do seio de Doni - disse Jondalar, mais calmo do que se sentia, usando uma palavra de sua lngua. Todos saram das tendas e fitavam, agora, a erupo 
amedrontadora e a grande nuvem inchada de cinza vulcnica fervente.
     - Que... Palavra voc disse? - perguntou Talut.
     - E uma montanha, um tipo especial de montanha que vomita. Vi uma quando era muito jovem - disse Jondalar. - Ns as chamamos de Seios da Me. Um velho Zelandoni 
nos contou uma lenda sobre elas.
     A montanha que viera distante, na regio central elevada. Mais tarde, um homem que viajava e que estava mais perto dela contou-nos o que viu. Era uma histria 
muito excitante, mas ele estava com medo. Houve alguns pequenos terremotos, depois o topo da montanha se abriu e jogou para o alto um grande vmito como aquele, 
e fez uma nuvem negra que tomou conta do cu. No  como uma nuvem comum, no entanto, est cheia de um p claro, como cinza. Aquela... - fez um gesto em direo 
 grande nuvem negra que corria para o oeste -...Parece que se afasta de ns. Espero que o vento no mude. Quando a cinza assentar, cobrir tudo. s vezes, muito 
profundamente.
     - Deve ser distante - disse Brecie. - Nem sequer vemos as montanhas daqui, e no h sons, nem estrondos, nem ribombos, ou tremor de terra. Somente aquele grande 
vmito e a nuvem escura.
     -  por isto, mesmo se a cinza cair por aqui, que talvez no seja muito prejudicial. Estamos muito distantes.
     - Voc disse que houve terremotos? Terremotos sempre so um sinal da Me. Este tambm deve ser. Os mamuti tero que meditar sobre isto, descobrir seu significado 
- disse Vincavec, no querendo se mostrar menos entendido que o estrangeiro.
     Ayla no ouviu muita coisa alm de terremoto. No havia nada no mundo que ela temesse mais do que terremotos. Havia perdido sua famlia quando tinha cinco 
anos em um tremor de terra violento, e outro terremoto havia matado Creb quando Broud a expulsara do Cl. Os terremotos sempre pressagiavam perda devastadora, mudana 
dolorosa. Ela estava a um passo de perder o controle.
     Ento, com o rabo do olho, vislumbrou um movimento familiar. No instante seguinte, uma listra de pele cinza corria para ela, saltando, e colocando patas molhadas, 
enlameadas, em seu peito. Ela sentiu a lambida de uma lngua spera em seu queixo.
     - Lobo! Lobo! O que est fazendo aqui? - disse ela, enquanto o abraava pelo pescoo. Ento, parou, tomada de horror e gritou:
     - Oh, no!  Rydag! Lobo veio me chamar, levar-me at Rydag! Devo ir. Preciso ir imediatamente!
     - Ter que deixar os travois e os fardos dos cavalos aqui, e voltar montada na gua - disse Talut. O sofrimento em seus olhos era evidente. Rydag era o filho 
de sua fogueira, tanto quanto qualquer dos filhos de a Nezzie, e o chefe o amava. Se ele fosse capaz, se no fosse to grande, Ayla lhe teria oferecido Racer, para 
que o montasse e voltasse com ela.
     Ela correu at a tenda para se vestir e viu Ranec.
     -  Rydag - disse.
     - Eu sei, ouvi voc. Deixe-me ajudar. Colocarei um pouco de alimento e gua em sua mochila. Precisa do rolo de dormir? Eu o porei tambm - disse ele, enquanto 
ela amarrava as botas.
     - Oh, Ranec - falou Ayla. Ele era to bom para ela. - Como lhe agradecer?
     - Ele  meu irmo, Ayla.
     Claro! Pensou. Ranec tambm o ama.
     - Desculpe, no estou pensando bem. Quer voltar comigo? Eu pensava em pedir a Talut, mas ele  grande demais para montar Racer. Voc poderia, contudo.
     - Eu? Montar? Nunca! - exclamou Ranec, parecendo surpreso e recuando um pouco.
     Ayla franziu a testa. Ela no havia percebido que ele tinha tal sentimento forte em relao aos cavalos, mas agora que refletia a respeito ele era um dos poucos 
que nunca lhe tinha pedido para dar um passeio a cavalo. Ela se perguntou por qu.
     - Eu no saberia como conduzi-lo e... Creio que cairia, Ayla. Est certo para voc,  uma das coisas de que gosto em voc, mas eu jamais cavalgarei - disse 
Ranec. - Prefiro meus prprios ps. Nem mesmo gosto de barcos.
     - Mas algum tem que ir com ela. No deve voltar sozinha - disse Talut, pouco alm da entrada.
     - Ela no voltar - disse Jondalar, com trajes de viagem, de p ao lado de Whinney, segurando a rdea de Racer.
     Ayla soltou um grande suspiro de alvio e depois enrugou a testa. Por que ele ia com ela? Ele nunca quisera ira lugar algum sozinho com ela. Realmente, no 
gostava dela. Ela ficou contente por ter a companhia dele, mas no iria lhe dizer. J se humilhara demasiadas vezes.
     Enquanto colocava a bagagem em Whinney, Ayla viu Lobo bebendo gua do prato de Ranec. Ele j havia comido tambm metade de uma travessa de carne.
     Obrigada por aliment-lo, Ranec.
     - S porque no monto um cavalo, no significa que no goste de animais, Ayla - disse o escultor, sentindo-se diminudo. Ele no quisera lhe dizer que tinha 
medo de montar.
     Ela concordou com um gesto de cabea e sorriu.
     - Verei voc quando voc chegar ao Acampamento do Lobo - disse Ayla.
     Eles se abraaram e beijaram, e Ayla achou que ele a segurara com excessivo ardor. Ela abraou Talut tambm, e a Brecie, e roou a face de Vincavec com a sua, 
depois montou. O lobo estava imediatamente nos calcanhares de Whinney.
     - Espero que Lobo no esteja cansado demais para voltar depois de vir correndo at aqui - disse Ayla.
     - Se ele ficar cansado, poder cavalgar Whinney com voc - disse Jondalar sentado sobre Racer, tentando manter o nervoso garanho calmo.
     - Tome conta dela, Jondalar - disse Ranec. - Quando ela est preocupada com outra pessoa, esquece de cuidar de si mesma. Quero que ela esteja bem para o nosso 
Matrimnio.
     - Tomarei conta dela, Ranec. No se preocupe, voc ter uma mulher sadia e desejvel para levar para sua fogueira - replicou Jondalar.
     Ayla olhou de um para o outro. Havia mais coisa dita do que as palavras.
     Viajaram sem descanso at o meio-dia, depois pararam para repousar e almoar o que tinham trazido de comida. Ayla estava profundamente preocupada com Rydag, 
e teria preferido continuar a marcha, mas os animais precisavam de descanso. Ela se perguntou se Rydag teria mandado Lobo por conta prpria. Parecia provvel. Qualquer 
outro enviaria uma pessoa. Somente Rydag raciocinaria que Lobo era suficientemente esperto para compreender a mensagem e seguir o rastro de Ayla para encontr-la. 
Mas ele no faria isso, a menos que fosse muito importante.
     A perturbao no sudeste a amedrontara. A grande coluna cuspida para o cu tinha cessado, mas a nuvem ainda estava l, espalhando-se. O medo de estranhas convulses 
da terra era to fundamental nela, e to profundo, que estava em um estado de choque brando. Somente seu medo opressivo por Rydag a forava a permanecer controlada.
     Mas, com todos os seus temores, Ayla estava fortemente consciente de Jondalar. Ela quase havia esquecido como ficava feliz em estar com ele. Ela havia sonhado 
em cavalgar com ele montando Whinney e Racer, somente os dois juntos, com Lobo correndo ao lado. Enquanto descansavam, ela o observou, mas, disfaradamente, com 
a habilidade de uma mulher do Cl em se anular, em ver sem ser vista. Somente olhar para ele lhe dava uma sensao de calor e um desejo de estar mais perto, mas 
seu insight recente sobre seu comportamento inexplicvel, e o embarao que sentia em se insinuar para ele a faziam relutante em mostrar seu interesse. Se ele no 
a queria, ela no o queria, ou, ao menos, no iria deix-lo saber que queria.
     Jondalar tambm a observava, esperando encontrar um meio de lhe falar, de lhe dizer quanto a amava, de tentar reconquist-la. Mas ela parecia evit-lo, no 
conseguia encontrar seu olhar. Sabia como ela estava preocupada com Rydag - ele mesmo temia o pior - e no queria intrometer-se. No tinha certeza se era o momento 
certo para abordar seus sentimentos pessoais e, depois de todo aquele tempo, no sabia exatamente como comear. Cavalgando de volta, ele tinha vises arrebatadas 
de nem sequer parar no Acampamento do Lobo, de continuar com ela, talvez todo o caminho de regresso ao seu lar. Mas ele sabia que isso era impossvel. Rydag precisava 
dela, e ela estava prometida a Ranec. Iam unir-se. Por que ela quereria ir com ele?
     No descansaram muito. Ayla achou que os cavalos j estavam refeitos, recomearam a viagem. Mas viajaram apenas por pouco tempo quando viram algum se aproximar. 
Ele ergueu o brao de alguma distncia, e quando se acercaram mais, viram que era Ludeg, o mensageiro que lhes havia contado sobre o novo local para a Reunio de 
Vero.
     - Ayla!  voc que estou procurando. Nezzie me mandou encontr-la. Infelizmente, tenho ms notcias. Rydag est muito doente - disse Ludeg. Depois, olhou ao 
redor. - Onde esto os outros?
     - Esto vindo. Viemos na frente assim que soubemos - disse Ayla.
     - Mas como souberam? Sou o nico corredor enviado - falou Ludeg.
     - No - disse Jondalar - voc  o nico corredor humano que foi enviado, mas os lobos podem correr mais velozmente.
     De repente, Ludeg viu o jovem lobo.
     Ele no foi caar com vocs. Como Lobo chegou aqui?
     - Acho que Rydag o mandou - disse Ayla. - Ele nos encontrou do outro lago do brejo.
     - E isso foi muito bom - falou Jondalar. - Talvez voc no encontrasse os caadores. Eles resolveram dar volta ao brejo no caminho de regresso.  mais fcil, 
quando se est muito carregado, permanecer em terreno seco.
     - Ento, encontraram mamutes. timo, isso far todo mundo feliz. - disse Ludeg e depois olhou para Ayla. - Acho melhor se apressarem.  sorte estarem to perto.
     Ayla sentiu o sangue desaparecer de seu rosto.
     - Gostaria de montar comigo, Ludeg? - perguntou Jondalar, antes de se afastarem depressa.
     - No. Vocs precisam ir. J me pouparam uma longa viagem, no me importo de voltar a p.
     Ayla galopou Whinney todo o caminho de volta  Reunio de Vero. Desmontou e entrou na tenda antes que qualquer pessoa soubesse que havia voltado.
     - Ayla! Est aqui! Conseguiu chegar a tempo. Eu temia que ele se fosse antes de voc chegar - disse Nezzie. - Ludeg deve ter viajado de pressa.
     - No foi Ludeg quem nos encontrou. Foi Lobo - falou Ayla, tirando o agasalho e correndo para a cama de Rydag.
     Teve que fechar os olhos para vencer o choque, por um momento. A imobilidade do seu maxilar e as rugas de tenso lhe disseram mais que qualquer palavra que 
ele sofria, sofria terrivelmente. Estava plido, mas olheiras fundas cercavam-lhe os olhos e sulcos em sua testa e faces projetavam-se em ngulos pronunciados. Cada 
respirao era um esforo e causava mais dor. Ela ergueu os olhos para Nezzie, de p ao lado da cama.
     - Que aconteceu, Nezzie? - lutava para conter as lgrimas, para o bem dele.
     - Queria saber. Ele estava bem, ento, de repente, ficou com esta dor.
     Tentei tudo o que voc me ensinou, dei-lhe o remdio. Nada ajudou - disse Nezzie.
     Ayla sentiu um toque leve em seu brao.
     - Estou contente porque veio - disse o menino com sinais.
     Onde ela havia visto aquilo antes? A luta para fazer sinais com um corpo fraco demais para se mover? Iza. Era assim que estava quando morreu. Ayla havia acabado 
de voltar de uma longa viagem, ento, e uma prolongada estada na Reunio de Cls. Mas, desta vez, ela havia ido apenas caar mamutes. No ficaram longe muito tempo. 
O que aconteceu com Rydag? Como ele havia ficado to doente, to depressa? A doena havia tomado conta dele devagar?
     - Voc mandou Lobo, no foi? - perguntou Ayla.
     - Sabia que ele a encontraria - o garoto fez sinais. -  esperto.
     Rydag fechou os olhos, ento, e Ayla teve que virar a cabea para um lado e fechar os seus tambm. Doa ver a forma como ele se esforava para respirar, doa 
ver seu sofrimento.
     - Quando tomou seu remdio pela ltima vez? - perguntou Ayla, quando ele abriu os olhos e ela foi capaz de encar-lo.
     Rydag sacudiu a cabea de leve:
     - No adianta. Nada ajuda.
     - O que quer dizer, como nada ajuda? Voc no  curandeiro. Como sabe? Sou eu que sei - disse Ayla. Tentando soar firme e positiva.
     Ele tornou a sacudir a cabea levemente:
     -Eu sei.
     - Bem, vou examinar voc, mas primeiro vou buscar um remdio para voc - disse Ayla, porm ela tinha mais era medo de comear a chorar ali mesmo.
     Ele tocou a mo dela, quando Ayla se preparara para ir.
     - No v. - Ele fechou os olhos de novo e ela o viu lutar por mais uma respirao angustiante, e depois outra, impotente para fazer alguma coisa. - Lobo est 
aqui? - ele fez um sinal, afinal.
     Ayla assobiou e quem quer que estivesse l fora tentando impedir Lobo de entrar na tenda, de repente, descobriu que era impossvel deter o animal. L estava 
ele, saltando sobre a cama de Rydag, tentando lamber-lhe o rosto. Rydag sorriu. Era quase mais do que Ayla podia suportar, aquele sorriso em um rosto do Cl que 
era to unicamente Rydag. O jovem animal turbulento podia ser um excesso. Ayla lhe fez sinal para descer.
     - Mandei Lobo. Queria Ayla - Rydag fez sinal de novo. - Quero... - parecia ter esquecido a palavra em sinais.
     - O que quer, Rydag? - encorajou Ayla.
     - Ele tentou me dizer - falou Nezzie - mas no consegui entender. Espero que consiga. Parece to importante para ele.
     Rydag fechou os olhos e franziu a testa, e Ayla teve a impresso de que ele tentava lembrar-se de alguma coisa.
     - Durc tem sorte. Ele... Pertence ao Cl. Ayla quero... Mog-ur.
     Ele se esforava tanto, e cansava-se tanto, mas Ayla s podia tentar entender.
     - Mog-ur? - o sinal foi silencioso. - Quer dizer um homem do mundo espiritual? - disse Ayla, alto.
     Rydag sacudiu a cabea afirmativamente, encorajado. Mas a expresso do rosto de Nezzie era insondvel.
     -  isso que ele est tentando dizer? - perguntou.
     - Sim, acho que sim - retrucou Ayla. - Isso ajuda?
     Nezzie balanou a cabea concordando depressa, com raiva.
     - Eu sei o que ele quer. No quer ser um animal, quer ir para o mundo espiritual. Quer ser enterrado... Como uma pessoa.
     Rydag balanava a cabea agora, concordando.
     - Claro - disse Ayla. - Ele  uma pessoa. - Parecia perplexa.
     - No, no . Nunca foi contado entre os Mamutoi. No o aceitaram. Disseram que era um animal - falou Nezzie.
     - Quer dizer que no pode ter um funeral? No pode caminhar para o mundo espiritual? Quem diz que no pode? - os olhos de Ayla brilhavam de clera.
     - A Fogueira do Mamute - disse Nezzie. - No permitiro.
     - Bem, no sou filha da Fogueira do Mamute? Eu permitirei! - declarou Ayla.
     - No adiantar. Mamut tambm permitiria. A Fogueira do Mamute tem que concordar, e no concordaro - murmurou Nezzie.
     Rydag estivera ouvindo, esperanoso, mas agora sua esperana desaparecia. Ayla viu sua expresso, o desapontamento, e ficou mais zangada do que j estivera, 
um dia.
     - A Fogueira do Mamute no tem que concordar. No so os nicos a decidir se algum  ou no humano. Rydag  uma pessoa. No  mais animal do que meu filho. 
A Fogueira do Mamute pode ficar com seu funeral. Rydag no precisa dele. Quando chegar a hora, eu o farei, da maneira do Cl, da forma como fiz para Creb, o Mog-ur. 
Rydag caminhar no mundo dos espritos, com a Fogueira do Mamute ou sem ela!
     Nezzie olhou para o menino. Ele parecia mais relaxado agora. No, concluiu. Em paz. O esforo, a tenso que demonstrara tinham desaparecido. Ele tocou o brao 
de Ayla.
     - No sou animal - disse, por sinais.
     Ele parecia a ponto de dizer mais alguma coisa. Ayla esperou. Ento, de repente, compreendeu que no havia som, luta alguma para respirar mais uma vez, atormentadamente. 
Ele no sofria mais.
     Mas Ayla, sim. Ela ergueu a cabea e viu Jondalar. Ele estivera ali o tempo todo e seu rosto estava to marcado pela dor quanto o dela e o de Nezzie. De sbito, 
os trs se abraaram, tentando encontrar consolo um no outro.
     Ento, mais algum mostrou sua tristeza. Do cho sob a cama de Rydag, um uivo baixo se ergueu de uma garganta peluda, depois ganidos se estenderam e aprofundaram 
e pairaram no ar, convertendo-se no primeiro uivo total, vibrante de Lobo. Quando o flego acabou, recomeou, gritando a perda nos tons sonoros, estranhos, arrepiantes, 
inconfundveis da voz do lobo. As pessoas se reuniram  entrada da tenda para olhar, mas hesitaram em entrar. Mesmo os trs que estavam imersos em sua dor, fizeram 
uma pausa para ouvir e admirar-se. Jondalar pensou consigo mesmo que, animal ou homem, ningum poderia pedir uma elegia mais pungente ou espantosa.
     Depois das primeiras lgrimas angustiadas de tristeza, Ayla sentou-se ao lado do pequeno corpo, imvel, mas suas lgrimas no cessaram. Ela fitava o espao, 
lembrando-se silenciosamente de sua vida com o Cl, e seu filho, e da primeira vez que vira Rydag. Ela amava Rydag. Ele viera a significar tanto para ela quanto 
Durc e, de certa forma, o substituiu. Embora seu filho lhe houvesse sido tirado, Rydag lhe dera uma oportunidade para conhecer mais seu filho, saber como ele crescia 
e amadurecia, talvez, qual a sua aparncia, como pensava, talvez. Quando sorria diante do humor tranqilo de Rydag, ou ficava satisfeita com sua percepo e inteligncia, 
era capaz de imaginar que Durc tinha o mesmo tipo de compreenso. Agora, Rydag morrera, e seu frgil elo com Durc terminava. Sua dor era por ambos.
     A tristeza de Nezzie no era menor, mas as necessidades dos vivos tambm eram importantes. Rugie subiu em seu colo, magoada e confusa porque seu companheiro 
de brincadeiras, e amigo e irmo no podia mais brincar, nem sequer formar palavras com suas mos. Danug estava estendido ao comprido em seu leito, a cabea enterrada 
sob uma coberta, soluando, e algum tinha que ir avisar Latie.
     - Ayla? Ayla - disse Nezzie, afinal. - O que temos que fazer para enterr-lo segundo o costume do Cl? Precisamos comear a prepar-lo.
     Ayla levou um instante para compreender que algum lhe falava. Franziu a testa, depois olhou para Nezzie.
     - O qu?
     - Temos que apront-lo para o funeral. O que temos que fazer? No sei coisa alguma sobre funerais do Cl.
     No, nenhum dos Mamutoi sabia, pensou ela - Especialmente a Fogueira do Mamute. Mas ela sabia. Pensou nos funerais do Cl a que tinha assistido e refletiu sobre 
o que deveria ser feito para Rydag. Antes de ser enterrado segundo o Cl, tem que ser Cl. Isso significa que tem que receber um nome e que precisa de um amuleto 
com um pedao de ocre vermelho nele. De repente, Ayla se levantou e saiu correndo.
     Jondalar a seguiu.
     - Aonde vai?
     - Se Rydag vai ser Cl tenho que fazer um amuleto para ele  disse, ela.
     Ayla atravessou o acampamento compassos largos, obviamente zangada, passando pelo Acampamento da Fogueira do Mamute sem sequer um olhar, e dirigindo-se diretamente 
 rea de trabalho de slex. Jondalar a acompanhou. Ele tinha alguma idia do que ela pretendia. Ela pediu um ndulo de slex, que ningum poderia lhe recusar. Depois, 
olhou ao redor, encontrou um martelo de pedra e arranjou um local para trabalhar.
     Quando comeou a moldar o slex  moda do Cl, e os quebradores de slex dos Mamutoi compreenderam o que ela fazia, ficaram ansiosos para ver, e amontoaram-se 
to perto quanto puderam ousar. Ningum queria aumentar sua ira mais ainda, mas aquela era uma oportunidade rara. Jondalar havia tentado explicar as tcnicas do 
Cl uma vez, depois que o background de Ayla se tornou geralmente conhecido, mas seu treinamento era diferente. Ele no possua o controle necessrio usando seus 
mtodos. Mesmo quando era bem-sucedido, pensavam que era sua prpria habilidade, no o processo incomum.
     Ayla resolveu fazer duas ferramentas diferentes, uma faca aguada e um machado pontudo, e levar as duas de volta para o Acampamento de Tifceas para fazer o 
amuleto. Conseguiu fazer uma faca til, mas estava to cheia de raiva e dor que suas mos tremiam. Da primeira vez que tentou fazer a ponta mais difcil, estreita 
e aguada, partiu-a, e depois notou que muitas pessoas a observavam, o que a deixou nervosa. Sentiu que os trabalhadores de slex Mamutoi julgavam o mtodo de fabricar 
ferramentas do Cl, e ela no o representava bem, e ento ficou zangada por se importar com isso. Da segunda vez que tentou, quebrou-a tambm. Sua frustrao trouxe 
lgrimas aos seus olhos, lgrimas de clera, que tentou afastar com a mo. De repente, Jondalar estava ajoelhado  sua frente.
     -  isto que quer, Ayla? - perguntou, erguendo a ferramenta aguada que ela havia feito para a cerimnia especial do Festival de Primavera.
     -  uma ferramenta do Cl! Onde voc...  a que eu fiz! - exclamou.
     - . Eu voltei e peguei-a naquele dia. Espero que no se importe.
     Ela estava surpresa, intrigada e estranhamente satisfeita.
     - No, no me importo. Estou contente porque o fez, mas qual o motivo?
     - Eu queria... Examin-la - replicou ele. No conseguia obrigar-se a dizer que queria a ferramenta para se lembrar dela, Ayla, porque pensava que partiria sem 
ela. No queria partir sem ela.
     Ela levou as ferramentas de volta ao Acampamento de Tifceas, e perguntou a Nezzie se tinha um pedao de couro macio. Depois de entreg-lo a Ayla, Nezzie observou 
a jovem fazer a bolsa simples, pregueada.
     - Parecem um pouco mais grosseiras, mas essas ferramentas funcionam realmente muito bem - falou Nezzie. - Para que  a bolsa?
     -  o amuleto de Rydag, como o que fiz para o Festival de Primavera. Tenho que colocar um pedao de ocre vermelho nele, e dar-lhe um nome, como o Cl faz. Devia 
ter um totem tambm, para proteg-lo em sua ida para o mundo dos espritos. - Fez uma pausa, e enrugou a testa.
     - No sei o que Creb fazia para descobrir o totem de uma pessoa, mas era sempre certo... Talvez eu possa dividir o meu totem com Rydag. O Leo da Caverna  
um totem poderoso, freqentemente difcil de conviver com ele, mas foi testado muitas vezes. Rydag merece um totem forte, protetor.
     - H alguma coisa que eu possa fazer? Precisa ser preparado? Vestido? - perguntou Nezzie.
     - Sim, eu tambm gostaria de ajudar - disse Latie, de p  entrada com Tulie.
     - E eu tambm - falou Mamut.
     Ayla ergueu a cabea e viu quase todo o Acampamento do Leo querendo ajudar e olhando para ela, aguardando instrues. S faltavam os caadores. Ela ficou cheia 
de afeio por aquelas pessoas que tinham aceitado uma estranha criana rf e aceitaram-na como um deles, e de uma clera justa contra os membros da Fogueira do 
Mamute que nem sequer lhe dariam um enterro.
     - Bem, primeiro algum pode conseguir um pouco de ocre vermelho, e depois deve amass-lo como Deegie faz para tingir o couro, e mistur-lo com uma gordura para 
fazer uma pomada. Essa tem que ser esfregada em todo o corpo de Rydag. Deveria ser gordura do Urso da Caverna, para um funeral adequado do Cl. O Urso da Caverna 
 sagrado para o Cl.
     - No temos gordura do Urso da Caverna - disse Tornec.
     - No h muitos Ursos da Caverna por aqui - falou Manuv.
     - Por que no gordura de mamute, Ayla? - sugeriu Mamut. - Rydag no era somente Cl. Era misto. Era parte Mamutoi tambm, e o mamute  sagrado para ns.
     - Sim, acho que podamos usar essa. Ele era Mamutoi tambm. No deveramos esquecer isso.
     - E que tal vesti-lo, Ayla? - perguntou Nezzie. - Ele no usou as roupas novas que fiz para ele este ano.
     Ayla franziu a testa, depois concordou com um gesto de cabea.
     - Por que no? Depois que estiver pintado com o ocre vermelho, como o Cl faz, poderia vestir seus melhores trajes, como os Mamutoi fazem, para os funerais. 
Sim, acho uma boa idia, Nezzie.
     - Eu jamais adivinharia que ocre vermelho era uma cor sagrada em seus funerais tambm - comentou Frebec.
     - Eu nem imaginava que enterravam seus mortos - disse Crozie.
     - Obviamente, a Fogueira do Mamute tambm no - disse Tulie.
     - Vo ter uma surpresa.
     Ayla pediu a Deegie uma das tigelas de madeira que ela lhe dera como um presente da adoo, feita no estilo do Cl, e usada para misturar o ocre vermelho com 
a gordura de mamute formando um ungento colorido. Mas foram Nezzie, Crozie e Tulie, as trs mulheres mais velhas do Acampamento do Leo, que o esfregaram em Rydag, 
e depois o vestiram. Ayla separou um pouco da pasta vermelha oleosa para mais tarde, e ps um pedao de minrio de ferro vermelho na bolsa que havia feito.
     - No devia ser embrulhado? - perguntou Nezzie. - No devia, Ayla?
     - No sei o que significa isso - respondeu Ayla.
     Usamos um couro ou pele, ou alguma coisa para carreg-lo para fora, e depois embrulhamos o corpo com eles antes de ser colocado na sepultura.
     Era outro costume Mamutoi, pensou Ayla, mas parecia que, vestindo-o to ricamente e enfeitando-o com todos os seus adornos j havia mais hbitos Mamutoi do 
que do Cl em seu enterro. As trs mulheres a olhavam, ansiosas. Ela olhou para Tulie, depois para Nezzie. Sim, talvez Nezzie estivesse certa. Deviam usar alguma 
coisa para carreg-lo, algum tipo de roupa ou coberta. Ento, olhou para Crozie.
     De repente, embora pensasse nele j h muito tempo, lembrou-se de algo: o manto de Durc. O manto que ela havia usado para carregar seu filho perto do seio, 
quando era beb, e para sustent-lo sobre seu quadril quando era um pouco mais velho. Fora  nica coisa que ela trouxera do Cl que no tinha utilidade definida. 
No entanto, quantas noites, quando estava sozinha, o manto de carregar Durc lhe dera uma sensao de conexo com o nico local seguro que conhecera, e com aqueles 
que havia amado? Quantas noites dormira com aquele manto? Ser que chorara nele? Ser que o embalara? Era a nica coisa que possua que havia pertencido ao seu filho, 
e ela no estava certa de poder ced-lo, mas ser que precisava realmente do manto? Iria lev-lo consigo pelo resto da vida?
     Ayla viu Crozie olhando para ela, de novo, e lembrou-se da capa branca, que Crozie fizera para seu filho. Ela havia conservado a capa consigo por muitos anos, 
porque significava muito para ela. Mas a cedera por um bom propsito a Racer, para proteg-lo. No era mais importante para Rydag ser enrolado em algo que viera 
do Cl, quando ela ia envi-lo em seu trajeto para o mundo dos espritos, do que para ela, carregar o manto de Durc consigo? Crozie havia, finalmente, se libertado 
da lembrana de seu filho. Talvez fosse hora de ela esquecer Durc tambm, e apenas ser grata porque ele era mais que uma lembrana.
     - Tenho uma coisa para embrulh-lo - disse Ayla. Correu para seu local de dormir e do fundo de uma pilha, tirou um couro dobrado e sacudiu-o, abrindo-o. Segurou 
o couro macio flexvel, antigo manto de seu filho junto a sua face mais uma vez e fechou os olhos, lembrando-se. Depois, voltou e entregou-o  me de Rydag.
     - Aqui est uma capa - disse a Nezzie -, um envoltrio do Cl. Um dia, pertenceu ao meu filho. Agora, ajudar Rydag no mundo espiritual. E obrigada, Crozie 
- ajuntou.
     P- or que me agradece?
     - Por tudo que fez por mim, e por me mostrar que todas as mes devem esquecer, s vezes.
     - Ora! - exclamou a velha, tentando parecer severa, mas os olhos brilhantes de emoo. Nezzie pegou o manto e cobriu Rydag.
     J estava escuro, ento. Ayla planejara fazer uma cerimnia simples no interior da tenda, mas Nezzie pediu-lhe para esperar at amanhecer, e realizar a cerimnia 
fora, para mostrar a todos os presentes  Reunio a humanidade de Rydag. Tambm daria aos caadores um pouco mais de tempo para voltar. Ningum queria que Talut 
e Ranec perdessem o funeral de Rydag, mas no poderiam esperar demais.
     Na manh seguinte, carregaram o corpo para fora e estenderam-no sobre o manto. Muitas pessoas da Reunio se aglomeraram perto, e outras se aproximavam. Havia-se 
espalhado a notcia de que Ayla daria a Rydag um funeral dos cabeas-chatas, e todos estavam curiosos. Ela estava com a tigela pequena de pasta de ocre vermelha 
e o amuleto nas mos, e havia comeado a invocar os espritos, como Creb sempre o fizera, quando outro alvoroo aconteceu. Para alvio de Nezzie, os caadores voltaram, 
e com toda a carne de mamute. Tinham se revezado para arrastar os dois travois, e j planejavam fazer mudanas neles para fazer uma espcie de tren que as pessoas 
pudessem puxar com mais facilidade.
     A cerimnia foi adiada at a carne de mamute ser estocada, e Talut e Ranec serem postos a par do que acontecera, mas ningum objetou quando foi feito um resumo 
breve. A morte da criana mista do Cl na Reunio de Vero havia criado um verdadeiro dilema. Rydag havia sido chamado de Abominao, animal, mas animais no eram 
enterrados; sua carne era estocada. Somente as pessoas tinham funerais, e no gostavam de deixar os mortos sem sepultura por muito tempo. Embora os Mamutoi no quisessem 
conceder a Rydag uma condio humana, sabiam que tampouco era um animal, realmente. Ningum reverenciava o esprito de cabeas-chatas, como veneravam veados, ou 
bises, ou mamutes, e ningum estava pronto para estocar a carne de Rydag ao lado das carcaas de mamutes. Ele era uma aberrao, exatamente porque viam sua humanidade, 
mas degradavam-na e no a reconheciam. Ficaram contentes ao deixar que Ayla e o Acampamento do Leo se encarregassem do corpo de Rydag de uma forma que parecia resolver 
o problema.
     Ayla ficou de p em um montculo para recomear a cerimnia, tentando recordar os sinais que Creb fizera naquela parte. Ela no sabia, exatamente, o que os 
sinais significavam, eram ensinados apenas a mog-urs, mas ela sabia a finalidade geral e conhecia o contedo, e explicava, enquanto prosseguia, para benefcio do 
Acampamento do Leo e do resto dos Mamutoi presentes.
     - Estou invocando os espritos agora - disse ela. - O Esprito do Grande Urso da Caverna, do Leo da Caverna, do Mamute, todos os outros, e os Espritos Antigos 
tambm, do Vento e da Neblina e da Chuva. - Depois, estendeu a mo para a pequena tigela. - Agora, vou-lhe dar nome e torn-lo parte do Cl - ajuntou, e enfiando 
o dedo na pasta vermelha, traou uma linha da testa at o nariz de Rydag. Depois se levantou e disse, com sinais e palavras: - O nome do menino  Rydag.
     Havia uma caracterstica nela, o tom de voz, a intensidade de sua expresso enquanto tentava lembrar, exatamente, os movimentos e sinais corretos, at mesmo 
seu estranho maneirismo de fala, que fascinavam as pessoas. A histria de que ela ficara em p no gelo chamando os mamutes se espalhava depressa. Ningum duvidava 
de que aquela filha da Fogueira do Mamute tinha todo direito de conduzir aquela cerimnia, ou qualquer outra, quer tivesse uma tatuagem de Mamut ou no.
     - Agora, ele tem nome segundo o costume do Cl - explicou Ayla, mas tambm precisa de um totem para ajud-lo a encontrar o mundo dos espritos. No conheo 
seu totem, por isso, partilharei meu totem, o Esprito do Leo da Caverna, com ele.  um totem muito poderoso e protetor, mas ele o merece.
     Em seguida, ela exps a pequena perna direita de Rydag, e, com a pasta de ocre vermelho, traou quatro linhas paralelas em sua coxa. Depois se levantou e anunciou 
em palavras e sinais:
     - Esprito do Leo da Caverna, o menino, Rydag, est entregue  sua proteo. - Em seguida, colocou o amuleto, amarrado a um cordo, em seu pescoo. - Agora, 
Rydag recebeu um nome e  aceito pelo Cl - disse ela, esperando, ardentemente, que fosse verdade.
     Ayla havia escolhido um local um pouco afastado do acampamento e o Acampamento do Leo havia pedido e recebido permisso do Acampamento do Lobo para enterr-lo 
ali. Nezzie envolveu o corpinho rgido no manto de Durc, depois Talut pegou o menino e carregou-o para o lugar do funeral. No se envergonhava das lgrimas que caam 
enquanto colo cava Rydag na sepultura vazia.
     O povo do Acampamento do Leo permaneceu ao redor da escavao no solo que fora levemente aprofundada apenas, e observou as vrias coisas que eram colocadas 
no tmulo com ele. Nezzie trouxe comida e a ps ao lado do menino. Latie acrescentou o pequeno apito predileto de Rydag. Tronie trouxe um fio de ossos e vrtebras 
de veado, que ele havia usado quando tomara conta dos bebs e crianas pequenas do Acampamento do Leo, no inverno passado. Era o que ele mais gostava de fazer, 
porque era algo til que ele era capaz de realizar. Ento, inesperadamente, Rugie correu para a cova e deixou cair ali sua boneca favorita.
     A um sinal de Ayla, todos os membros do Acampamento do Leo pegaram uma pedra e, cuidadosamente, colocaram-na sobre o vulto envolvido no manto; o incio de 
seu monte de pedras da sepultura. Foi ento que Ayla comeou a cerimnia do funeral. No tentou explicar, o propsito parecia bastante claro. Usando os mesmos sinais 
que Creb utilizara no funeral de Iza, e que ela, em troca, havia usado para honrar Creb, quando o encontrara na caverna semeada de fragmentos de pedra, os movimentos 
de Ayla davam significado a um rito fnebre que era muito mais antigo do que qualquer pessoa ali imaginava, e mais bonito do que tinham pensado.
     Ela no usava a linguagem de sinais simplificada que ensinara ao Acampamento do Leo. Esta era a linguagem completa, complexa rica do Cl em que movimentos 
e posturas de todo o corpo tinham vislumbres e nuanas de significado. Embora vrios sinais fossem esotricos - at Ayla no conhecia o significado pleno - muitos 
sinais comuns tambm eram includos, alguns dos quais o Acampamento do Leo conhecia. Eram capazes de compreender a essncia, saber que era um ritual para enviar 
algum a outro mundo. Para o resto dos Mamutoi, o movimento de Ayla tinha a aparncia de uma dana sutil, contudo expressiva, cheia de gestos manuais e movimentos 
de braos, posturas e sinais. Ela despertava neles, com sua graa silenciosa, o amor e a perda, a tristeza e a esperana mtica da morte.
     Jondalar estava acabrunhado. Derramava lgrimas to livremente quanto qualquer membro do Acampamento do Leo. Enquanto observava a bela dana silenciosa de 
Ayla, lembrou-se de um momento no vale - parecia fazer tanto tempo agora - quando ela, certa vez, havia-lhe tentado dizer alguma coisa com o mesmo tipo de movimentos 
graciosos. Mesmo ento, embora ele no entendesse que era uma linguagem, havia sentido um significado mais profundo em seus gestos expressivos. Agora, que sabia 
mais, ficou surpreso com o quanto no sabia, contudo, como ele achava bonito quando Ayla se movia daquela maneira...
     Ele recordou a postura que ela usara da primeira vez que se encontraram, sentando-se ao solo de pernas cruzadas e inclinando a cabea, esperando que ele lhe 
desse um tapinha amistoso no ombro. Mesmo depois de ela ser capaz de falar, usava essa postura, s vezes. Sempre o embaraava, principalmente, depois que soube que 
era um gesto do Cl, mas ela lhe havia dito que era sua forma de tentar expressar alguma coisa para a qual ignorava as palavras. Sorriu consigo mesmo. Era difcil 
acreditar que, quando ele a conhecera, ela fosse incapaz de falar. Agora, era fluente em duas lnguas: a dos Zelandonii e dos Mamutoi; trs, se ele contasse a linguagem 
do Cl. Ela chegara at mesmo a aprender um pouco de Sungaea durante o curto tempo que passara com eles.
     Enquanto a observava mover-se segundo o ritual do Cl, cheio de recordaes do vale e do seu amor, a quis mais do que j desejara qualquer coisa em sua vida. 
Mas Ranec estava de p perto dela, to fascinado quanto ele. Todas as vezes que Jondalar olhava para Ayla, no podia evitar de ver o homem de pele escura. Ranec, 
no instante em que chegara, a havia procurado e fez questo de deixar Jondalar saber que ela ainda estava prometida a ele. E Ayla parecera distante, esquiva. Ele 
havia feito algumas tentativas para falar com ela, expressar sua tristeza, mas depois dos primeiros momentos de dor partilhada, ela no pareceu querer aceitar seus 
esforos para consol-la. Ele se perguntou se imaginava aquilo. To triste quanto estava Ayla, o que ele poderia esperar?

     De repente, todas as cabeas se voltaram ao som de uma batida regular. Marut, o tamborileiro, havia ido ao Recinto de Msica e trouxera seu tambor de crnio 
de mamute. A msica sempre era tocada nos funerais dos Mamutoi, mas os sons que ele produzia no eram os habituais ritmos dos Mamutoi. Eram os ritmos desconhecidos, 
estranhamente fascinantes do Cl, que Ayla lhe havia ensinado. Ento, o msico barbudo, Manen, comeou a tocar tons simples de flauta que Ayla havia assobiado. A 
msica se harmonizava, de forma inexplicvel, com os movimentos da mulher que danava um ritual to evanescente quanto o som da prpria msica.
     Ayla havia quase terminado o ritual, mas resolveu repeti-lo, j que tocavam sons do Cl. A segunda vez que tocaram, os msicos comearam a improvisar. Com sua 
percia e habilidade, converteram os sons simples do Cl em algo que no era Cl, ou Mamutoi, mas uma mistura de ambos. Um acompanhamento perfeito pensou Ayla, para 
o enterro de um menino que era uma mistura dos dois.
     Ayla fez uma repetio final com os msicos e no teve certeza quando suas lgrimas comearam, mas podia ver que no estava sozinha. Havia muitos olhos midos, 
e no apenas do Acampamento do Leo.
     Quando terminou pela terceira vez, uma pesada nuvem escura que se aproximara do sudeste comeou a esconder o sol. Era a estao das tempestades, e algumas pessoas 
procuraram abrigo. Em vez de gua, uma poeira fina comeou a cair, muito leve a princpio. Depois, a cinza vulcnica da erupo das montanhas distantes caiu com 
mais fora.
     Ayla ficou ao lado da sepultura de Rydag, sentindo a cinza vulcnica leve e frgil descer sobre ela, cobrindo seu cabelo, ombros, colando-se aos seus braos, 
sobrancelhas, e at pestanas, convertendo-a num vulto monocromo bege-acinzentado claro. A fina poeira cobriu tudo, as pedras da sepultura, o capim, at o p marrom 
da trilha. Troncos e arbustos assumiram a mesma tonalidade. Cobriu as pessoas de p ao lado da cova tambm e, para Ayla, todos comearam a ficar iguais. As diferenas 
desapareciam diante de foras to terrveis quanto deslocamentos da terra e morte.
     - Essa coisa  horrvel! - exclamou Tronie, sacudindo uma coberta de cama  beira de uma ravina, e fazendo mais cinza subir ao ar. - Estamos limpando a cinza 
h dias, mas ela est na comida, na gua, roupas, cama. Penetra em tudo e no se consegue ficar livre dela.
     - Precisamos de outra boa chuva - falou Deegie, jogando fora  gua suja que fora usada para lavar a cobertura de couro da tenda. Este  um ano em que esperarei 
ansiosa pelo inverno.
     - Estou certa de que sim - disse Tronie, depois a olhou de esguelha e riu-, mas acho que  porque estar unida, ento, e vivendo com Branag.
     Um belo sorriso mudou o rosto de Deegie, enquanto pensava nas futuras npcias.
     - No nego isso, Tronie - disse ela.
     - verdade que a Fogueira do Mamute falava sobre adiar o Matrimnio por causa desta cinza? - perguntou Tronie.
     - , e os Ritos de Feminilidade tambm, mas todos objetaram. Sei que Latie no quer esperar e eu tambm no. Afinal, concordaram. No querem mais ressentimentos. 
Muitas pessoas acharam que eles estavam errados em relao ao funeral de Rydag - falou Deegie.
     - Mas algumas concordaram com eles - disse Fralie, aproximando-se com uma cesta cheia de cinza. Virou-a na ravina. - No importa o que decidissem, sempre algum 
acharia que estavam errados.
     - Acho que se precisava viver com Rydag para saber - disse Tronie.
     - No estou to certa - disse Deegie. - Ele viveu conosco muito tempo, mas nunca pensei nele como totalmente humano, at Ayla chegar.
     - Acho que ela no est to ansiosa pelo Matrimnio quanto voc, Deegie - disse Tronie. - Pergunto-me se h algo errado com ela. Est doente?
     - Acho que no - respondeu Deegie. - Por qu?
     - Ela no est agindo certo. Prepara-se para se unir, mas no parece ansiosa por isso. Est ganhando muitos presentes, e tudo, mas no tem aparncia feliz. 
Devia ser como voc. Toda vez que algum fala unir voc sorri, e fica com uma expresso sonhadora no rosto.
     - Nem todo mundo anseia por uma unio da mesma maneira - disse Fralie.
     - Ela era muito unida a Rydag - comentou Deegie. - E est sofrendo, tanto quanto Nezzie. Se ele tivesse sido Mamutoi, provavelmente o Matrimnio seria adiado.
     - Tambm sinto muito por Rydag, e tenho saudades dele... - era to bom para Hartal - disse Tronie. - Todos sentimos, embora ele estivesse sofrendo tanto, que 
fiquei aliviada. Creio que alguma outra coisa est incomodando Ayla.
     Ela no acrescentou que havia perguntado sobre a unio de Ayla com Ranec desde o incio. No havia razo para isto se tornar tema de discusso, mas apesar do 
sentimento de Ranec por Ayla, Deegie ainda achava que Ayla gostava mais de Jondalar, embora ela parecesse ignor-lo ultimamente. Ela viu o alto homem Zelandonii 
sair da tenda e caminhar em direo ao centro da rea de Reunio. Parecia preocupado.
     Jondalar sacudiu a cabea afirmativamente, em resposta s pessoas que o cumprimentavam ao passar, mas seus pensamentos estavam voltados para seu ntimo. Ser 
que ele estava imaginando, ou realmente Ayla o evitava? Depois de todo o tempo que ele passara tentando ficar fora do seu caminho, ainda no conseguia acreditar, 
agora que queria falar com ela sozinho, que ela o estivesse evitando. Apesar de sua promessa a Ranec, parte dele sempre acreditara que tudo o que tinha a fazer era 
deixar de evit-la, e ela estaria disponvel para ele, de novo. No que ela parecesse ansiosa demais, exatamente, mas sim porque parecia aberta para ele. Agora, 
parecia fechada. Ele havia resolvido que o nico meio de descobrir era enfrent-la diretamente, mas tinha dificuldade em encontr-la em um momento e lugar onde pudessem 
conversar.
     Viu Latie vindo em sua direo. Sorriu e parou para observ-la. Ela caminhava com um passo largo, independente, agora, sorria com confiana para as pessoas 
que a saudavam. H uma diferena, pensou ele. Sempre ficava admirado ao ver a mudana que os Primeiros Ritos causavam. Latie no era mais uma criana, ou uma menina 
nervosa, soltando risadinhas. Embora ainda jovem, caminhava com a segurana de uma mulher.
     - Ol, Jondalar - disse ela, sorrindo.
     - Ol, Latie. Parece feliz. - Uma jovem adorvel, pensou ele consigo mesmo enquanto sorria. O olhar transmitiu seu sentimento. Ela respondeu com uma respirao 
contida e olhos arregalados, e depois com um olhar que dava resposta ao convite inconsciente de Jondalar.
     - Estou. Eu j me cansava de ficar em um s lugar o tempo todo. Esta  a primeira chance que tive de dar uma volta sozinha... Ou com algum que quero. - Aproximou-se 
um pouco mais enquanto erguia os olhos para ele. - aonde vai?
     - Procuro Ayla. Voc a viu?
     Latie suspirou, depois sorriu de forma amigvel.
     - Vi. Ela estava vendo o beb de Tricie. Mamut tambm est  sua procura.
     - No culpe a todos eles, Ayla - disse Mamut. Estavam sentados ao sol quente,  sombra de um grande amieiro.
     - Houve muitos que discordaram. Eu fui um deles.
     - No o culpo, Mamut. No sei se posso culpar algum, mas por que so incapazes de ver? O que faz as pessoas odi-los tanto?
     - Talvez porque possam ver como somos parecidos, assim, procuram as diferenas. - Fez uma pausa, depois acrescentou: - Voc devia ir  Fogueira do Mamute antes 
de amanh, Ayla. No pode se unir at fazer isso. E a ltima, sabe.
     - Sim, acho que devia - disse Ayla.
     - Sua relutncia est dando esperana a Vincavec. Ele me perguntou hoje, novamente, se eu achava que voc estava refletindo na proposta dele. Ele disse que 
se voc no queria quebrar sua promessa, ele iria falar com Ranec sobre aceit-lo como companheiro tambm. Sua proposta aumentaria seu Preo de Noiva substancialmente, 
e daria status muito elevado a todos vocs. O que pensa sobre isso, Ayla? Gostaria de aceitar Vincavec como co-companheiro? Juntamente com Ranec?
     - Vincavec falou alguma coisa sobre isso na caada. Eu teria que conversar com Ranec e saber o que ele acha - disse Ayla.
     Mamut sentiu que ela mostrava muito pouco entusiasmo, de qualquer forma. No era um bom momento para uma unio por causa de sua tristeza ainda to grande, mas 
com todas as propostas e ateno, era difcil aconselhar a esperar. Ele percebeu que ela ficou distrada, de repente, e se virou para ver o que ela observava. Jondalar 
se dirigia a eles. Ayla parecia nervosa e avanou um passo como se estivesse para se afastar rapidamente, porm no podia interromper, assim, sua conversa com Mamut, 
to abruptamente.
     - A est, Ayla. Tenho andado  sua procura. Gostaria de falar com voc.
     - Estou ocupada com Mamut agora - disse ela.
     - Acho que terminamos, se quer falar com Jondalar - disse Mamut.
     Ayla abaixou os olhos, depois encarou o velho, evitando o olhar fixo e perturbado de Jondalar, e disse, suavemente:
     - Acho que no temos mais nada para dizer um ao outro, Mamut.
     Jondalar sentiu o sangue fugir de seu rosto, depois um choque de calor que o ruborizou. Ela estivera evitando-o! Nem sequer queria lhe falar.
     - Hum... Bem... Eu... Eu sinto muito ter incomodado voc - disse ele, recuando. Depois, desejando encontrar um lugar onde se esconder, afastou-se correndo.
     Mamut a observou com ateno. Depois que Jondalar se afastou, Ayla o acompanhou com o olhar, ainda mais perturbado que o dele. Ele sacudiu a cabea, mas evitou 
falar enquanto voltavam juntos para o Acampamento do Leo.
     Quando se aproximavam, Ayla reparou em Nezzie e Tulie dirigindo-se a eles. A morte de Rydag havia sido dura para Nezzie. No dia anterior, ela havia trazido 
a sobra de seu remdio, e ambas choraram. Nezzie no queria o medicamento por perto, como uma lembrana triste, mas no sabia se devia jog-lo fora. Ayla compreendeu, 
ento, que com a morte de Rydag, a necessidade de ajudar Nezzie a trat-lo tambm desaparecera.
     - Procurvamos voc, Ayla - falou Tulie. Ela estava encantada consigo mesma, como algum que planejara uma grande surpresa, e isso era raro na grande chefe. 
As duas mulheres abriram algo que estava dobrado cuidadosamente. Os olhos de Ayla se arregalaram, e as duas mulheres se entreolharam e sorriram.
     - Toda noiva precisa de uma tnica nova. Em geral,  a me do homem que a faz, mas eu queria ajudar Nezzie.
     Era um traje surpreendente de couro amarelo dourado, ricamente ornado; algumas partes estavam solidamente cheias de desenhos em contas de marfim, realados 
por muitas pequenas contas de mbar.
     -  to bonita e to trabalhada! O trabalho com contas deve ter exigido dias e dias. Quando a fizeram? - perguntou Ayla.
     - Ns a comeamos depois que voc anunciou sua promessa, e terminamos aqui - disse Nezzie. - Entre na tenda e experimente.
     Ayla olhou para Mamut. Ele sorriu e concordou com um gesto de cabea. Ele soubera do projeto, e at conspirara com elas sobre a surpresa. As trs mulheres entraram 
na tenda, e foram ao local de dormir de Tulie. Ayla se despiu, mas no estava muito certa sobre como usar o traje. As mulheres a vestiram. Era uma tnica especialmente 
feita que se abria at em baixo, na frente, e era amarrada por uma faixa tecida a mo, de l de mamute vermelha.
     - Pode us-la fechada assim, se quiser us-la apenas para mostrar a algum - disse Nezzie -mas, para a cerimnia, deve abri-la, assim.
     - Puxou para trs a parte superior da tnica, abrindo-a, e tornou a amarrar a faixa. - Uma mulher exibe orgulhosamente seus seios quando se une, quando traz 
sua fogueira para formar uma unio com um homem.
     As duas mulheres recuaram para admirar a futura noiva. Ela tem seios de que se orgulhar, pensou Nezzie. Seios de me, que podem amamentar. Pena que no tenha 
me aqui, consigo Ayla faria qualquer mulher orgulhosa.
     - Podemos entrar agora? - perguntou Deegie, espreitando. Todas as mulheres do acampamento entraram para admirar Ayla em seu traje refinado. Parecia que todas 
tinham planejado a surpresa.
     - Feche a tnica, agora, para poder sair e mostrar aos homens - disse Nezzie, tornando a amarrar a tnica. - No deve us-la aberta em pblico at a cerimnia.
     Ayla ficou de p fora da tenda para o prazer e aprovao sorridente dos homens do Acampamento do Leo. Outros, que no eram do acampamento, tambm observavam. 
Vincavec soubera da surpresa e fez questo de estar por perto. Quando a viu, resolveu que, de alguma forma, se uniria a ela, mesmo se tivesse que dividi-la com mais 
dez homens.
     Outro homem que no era do Acampamento do Leo, embora a maioria das pessoas o considerasse membro, tambm via a cena. Jondalar havia seguido Ayla de volta, 
no querendo aceitar sua rejeio, ou sequer acreditando nela. Danug lhe contou sobre o traje, e ele esperou com os outros. Quando ela saiu, ele encheu os olhos 
com sua viso, depois os fechou e sua testa se franziu de dor. Ele a perdera. Ela mostrava a inteno de se unir a Ranec no dia seguinte; Ele respirou fundo e rangeu 
os dentes. No podia ficar para v-la unida ao escultor de pele escura do Acampamento do Leo. Era hora de partir.
     Depois de Ayla trocar a roupa e tornar a sair com Mamut, Jondalar correu para a tenda. Estava contente por encontr-la vazia. Fez sua bagagem, agradecendo a 
Tulie novamente por ter-lhe dado o equipamento de viagem, arrumou tudo o que iria levar e depois cobriu com uma pele de dormir. Planejava esperar at de manh, dizer 
adeus a todos, e partir imediatamente aps a refeio matinal. No diria a ningum at ento.
     Durante o dia, Jondalar visitou alguns amigos especiais que fizera na Reunio, sem dizer adeus, mas pensando na despedida.  tarde, passou o tempo com cada 
membro do Acampamento do Leo. Eram como uma famlia. Seria duro ir embora, sabendo que nunca mais tornaria a v-los. Era ainda mais difcil encontrar um meio de 
falar com Ayla, ao menos uma vez mais. Ele a observou, e quando ela e Latie saram para o abrigo dos cavalos, ele as seguiu rapidamente.
     As palavras da conversa foram superficiais e incmodas, mas havia uma intensidade nele que encheu Ayla de tenso e inquietude. Quando ela entrou, ele ficou 
e escovou o jovem garanho at escurecer. Na primeira vez que Jondalar havia visto Ayla, ela estava ajudando Whinney a dar  luz. Ele nunca havia visto algo assim 
antes. Tambm seria difcil deixar o animal. Jondalar tinha maior sentimento por Racer, do que jamais julgara possvel gostar de um animal.
     Finalmente, entrou na tenda e arrastou-se para a cama. Fechou os olhos, mas o sono no veio. Jazeu acordado e pensou em Ayla, em seus momentos no vale e em 
seu amor que crescera devagar. No, no devagar. Ele a amou desde o incio, apenas demorara a reconhec-lo, demorara a apreci-lo, demorara tanto que a perdera. 
Tinha jogado fora o amor de Ayla, pagaria pelo resto da vida. Como pudera ser to estpido? Ele nunca a esqueceria, ou o sofrimento de perd-la, e jamais se perdoaria.
     Foi uma noite longa, difcil, e quando a primeira claridade da alvorada se infiltrou escassamente pela abertura da tenda, ele no pde mais suportar. No podia 
dizer adeus, a ela ou a ningum, tinha apenas que ir embora. Silenciosamente, reuniu sua bagagem e esgueirou-se para fora.
     - Resolveu no esperar. Foi o que pensei - disse Mamut.
     Jondalar girou.
     - Eu... Eu tenho que ir. No posso mais ficar.  hora... Ah... - gaguejou.
     - Eu sei, Jondalar. Desejo-lhe boa viagem. Tem um longo caminho a seguir. Deve decidir sozinho o que  melhor, mas lembre-se disto, no se pode fazer uma escolha 
seno h ningum para escolher. - O velho se inclinou para entrar na tenda.
     Jondalar franziu a testa e caminhou para o abrigo dos cavalos, O que Mamut quisera dizer? Por que Aqueles Que Serviam a Me sempre diziam palavras inexplicveis?
     Quando viu Racer, teve um impulso fugaz de cavalg-lo, ao menos levar o animal, mas Racer era de Ayla. Acariciou os dois animais, abraou o garanho pelo pescoo, 
e ento viu Lobo, e lhe deu uma esfregadela carinhosa. Depois, endireitou o corpo e comeou a descer a trilha.
     Quando Ayla acordou, o sol entrava. Parecia um dia perfeito. Ento, lembrou que era o dia da celebrao do Matrimnio. O dia no pareceu mais to perfeito. 
Ela se sentou e olhou ao redor. Alguma coisa estava errada. Sempre tivera o hbito de olhar na direo de Jondalar quando acordava. Ele no estava l. Jondalar est 
de p cedo, hoje, pensou. No podia vencer a impresso de que alguma coisa estava muito errada.
     Levantou-se, vestiu-se e foi para fora a fim de se lavar e encontrar um graveto para os dentes. Nezzie estava ao lado do fogo, olhando para ela, estranhamente. 
A impresso de que algo estava errado cresceu ainda mais. Ela lanou um olhar ao abrigo dos animais. Whinney e Racer pareciam bem, e l estava Lobo. Ela voltou  
tenda e olhou ao redor, novamente. Muitas pessoas tinha acordado e sado. Ento, notou que o lugar de Jondalar estava vazio. Ele no havia apenas sado. Seu rolo 
de dormir e bornais de viagem, tudo faltava. Jondalar fora embora!
     Ayla saiu correndo, em pnico.
     - Nezzie! Jondalar foi embora! Ele no est no Acampamento do Lobo, em lugar algum, foi embora! E abandonou-me!
     - Eu sei, Ayla. Tenho esperado por isso. Voc no?
     - Mas nem sequer disse adeus! Pensei que ia ficar at o Matrimnio.
     - Essa  a ltima coisa que ele quereria fazer, Ayla. Jamais quis ver voc unida com outro homem.
     - Mas... Mas Nezzie... Ele no me queria, O que mais eu podia fazer?
     - O que quer fazer?
     - Quero ir com ele! Mas, ele se foi! Como pde me abandonar? Ele ia me levar! Foi isso que planejamos. O que aconteceu com tudo o que planejamos, Nezzie? - 
disse ela, numa sbita exploso de lgrimas.
     Nezzie estendeu os braos e consolou a jovem soluante.
     - Os planos mudam, Ayla. A vida muda. E Ranec?
     - No sou a mulher certa para ele. Deve-se unir a Tricie.  ela que o ama - disse Ayla.
     - Voc no o ama? Ele ama voc.
     - Eu queria am-lo, Nezzie. Tentei am-lo, mas amo Jondalar. Agora, Jondalar foi embora. - Ayla soluou novamente. - Ele no me ama.
     - Tem tanta certeza?
     - Ele me deixou e nem disse adeus. Nezzie, por que ele partiu sem mim? O que fiz de errado? - implorou Ayla.
     - Acha que fez alguma coisa errada?
     Ayla parou e franziu a testa.
     - Ele quis falar comigo ontem, e no falei com ele.
     - Por qu?
     - Porque... Porque ele no me queria. Durante todo o inverno, quando eu o amava tanto, e queria estar com ele, ele no me quis. Nem se quer falava comigo.
     - Assim, quando ele quis falar com voc, recusou-se a falar com ele - disse Nezzie. - Isso acontece, s vezes.
     - Mas quero falar com ele, Nezzie. Quero estar com ele. Mesmo se ele no me amar, quero ficar com ele. Mas, agora, foi-se embora. Levantou-se e foi embora. 
No pode ter ido embora! No pode estar... Longe...
     Nezzie olhou para ela e quase sorriu.
     - A que distncia ele pode estar, Nezzie? Posso caminhar depressa, talvez possa alcan-lo. Talvez eu deva ir atrs dele e saber o que ele queria me dizer. 
Oh, Nezzie, eu devia estar com ele! Eu o amo.
     - Ento, v atrs dele, filha. Se o quer, e o ama, v atrs dele. Diga-lhe o que sente. Ao menos, d-lhe a chance de lhe dizer o que desejava.
     - Tem razo! - Ayla enxugou as lgrimas com a palma da mo e tentou pensar. -  isso que devo fazer e vou faz-lo! Agora! - disse, e comeou a descer a trilha 
correndo, antes de Nezzie poder dizer outra palavra. Ela correu atravs das alpondras e entrou no campo. Ento, parou. Ela no sabia que caminho ele tomara, teria 
que seguir sua pista, e ela levaria tempo demais para alcan-lo dessa forma.
     De repente, Nezzie ouviu dois assobios agudos. Sorriu quando o lobo passou rapidamente por ela, e Whinney levantou as orelhas e o seguiu. Racer correu atrs. 
Ela observou o declive, quando o lobo saltou em direo  jovem.
     Quando ele se acercou mais, Ayla fez sinais e falou:
     - Encontre Jondalar, Lobo! Encontre Jondalar!
     O lobo comeou a cheirar o terreno e as correntes de ar, e quando partiu, Ayla viu pistas leves de capim pisado e gravetos partidos. Ela montou Whinney e seguiu 
o lobo.
     Somente depois de comear a cavalgar, foi que a pergunta lhe ocorreu. O que vou dizer a ele? Como lhe dizer que ele prometeu me levar consigo? E se ele no 
me ouvir? E se ele no me quiser?
     A chuva havia lavado o revestimento de cinza vulcnica das rvores e folhas, mas Jondalar caminhava atravs dos campos de arvoredos da plancie aluvial, indiferente 
 beleza de um lindo dia de vero. Ele no sabia exatamente para onde ia, apenas seguia o rio, mas a cada passo que o afastava mais, seus pensamentos se tornavam 
mais pesados.
     Por que estou partindo sem ela? Por que viajo sozinho? Talvez eu devesse voltar, perguntar-lhe se quer vir comigo? Mas, ela no quer vir comigo.  uma Mamutoi. 
Estas pessoas so seu povo. Ela escolheu Ranec, no voc, Jondalar, disse a si mesmo. Sim, escolheu Ranec, mas voc lhe deu alguma opo? Ento, parou. O que Mamut 
dissera? Algo sobre escolha? No se pode fazer uma escolha quando no h ningum para escolher. O que ele quisera dizer?
     Jondalar balanou a cabea, exasperado, e depois compreendeu, soube. Nunca a deixei escolher. Ayla no escolheu Ranec, ao menos, no no incio. Talvez na noite 
da adoo, ela teve uma opo... Ou no? Foi criada pelo Cl. Ningum nunca lhe disse que ela podia escolher. E ento, eu a afastei. Por que no lhe dei uma opo 
antes de partir? Porque ela no queria falar comigo.
     No, porque voc tinha medo de que ela no o escolhesse. Pare de mentir a si mesmo. Aps todo aquele tempo, ela resolvera, afinal, no falar com voc, e voc 
teve medo de no ser escolhido por ela,  por isto, Jondalar. Assim, no lhe deu uma chance. Est se sentindo melhor agora?
     Por que no volta e a deixa escolher? Ao menos, por que no faz uma proposta? Mas, o que lhe dir? Ela est se preparando para a grande cerimnia. O que lhe 
oferecer? O que pode lhe oferecer?
     Poderia propor de ficar. At propor de partilhar a fogueira com ela e Ranec. Voc suportaria isso? Seria capaz de dividi-la com Ranec? Se a nica opo fosse 
no t-la seno assim, seria capaz de ficar aqui e dividi-la?
     Jondalar ficou imvel, os olhos fechados, a testa enrugada. Somente se no tivesse outra escolha. O que ele mais queria era lev-la para casa, e torn-la a 
casa dela. Os Mamutoi tinham aceitado Ayla, seriam os Zelandonii mais severos? Alguns deles talvez, no todos, mas ele no podia fazer promessas.
     Ranec tem o Acampamento do Leo, e muitas outras associaes. Voc no pode sequer oferecer a Ayla seu povo, suas ligaes. No sabe se eles a aceitaro, ou 
aceitaro voc. No tem nada a oferecer, a no ser voc mesmo.
     Se ele no pudesse oferecer mais que isso, o que fariam se seu povo no a aceitasse? Poderamos ir para algum outro lugar, at voltar para c. Franziu atesta. 
Muitas viagens. Talvez devesse apenas se oferecer para ficar, estabelecer-se ali. Tarneg disse que queria um quebrador de slex para seu novo acampamento. E Ranec? 
Mais importante, e Ayla? E se ela no o quisesse, de modo algum?
     Estava to absorto em seus pensamentos que no ouviu o rudo montono de patas at Lobo saltar sobre ele, repentinamente.
     - Lobo? O que est... - ergueu os olhos e fixou, incrdulo, enquanto Ayla desmontava do dorso de Whinney.
     Ela caminhou para ele, tmida agora, to temerosa que ele lhe desse as costas novamente. Como podia lhe dizer? Como faz-lo ouvir? O que poderia fazer se ele 
no a ouvisse? Ento, recordou aqueles primeiros dias sem palavras, e a forma como ela havia aprendido a pedir a algum para ouvir, h muito tempo atrs. Caiu ao 
solo, graciosamente, pela longa prtica, e inclinou a cabea e esperou. Jondalar arregalou os olhos para ela, no entendeu por um instante, depois lembrou. Era o 
seu sinal. Quando ela queria contar alguma coisa importante a ele, mas no sabia as palavras, usava aquele sinal do Cl. Mas por que ela lhe falava agora na linguagem 
do Cl? O que ela queria lhe dizer que era to importante?
     - Levante-se - disse ele. - No precisa fazer isso. - Ento, recordou a resposta adequada, e deu um tapinha no ombro de Ayla. Quando ela levantou a cabea, 
tinha lgrimas nos olhos. Ele ficou abaixado, sobre um joelho para limp-las.
     - Ayla, por que est fazendo isto? Por que est aqui?
     - Jondalar, ontem voc tentou me dizer alguma coisa, e eu no quis ouvi-lo; Agora, quero lhe dizer uma coisa. E difcil de dizer, mas quero que oua. E por 
isto que peo desta maneira. Voc ouvir e no ir embora?
     A esperana queimava tanto que ele no conseguiu falar. Apenas balanou a cabea e lhe segurou as mos.
     - Antes, voc queria que eu fosse embora com voc - comeou ela -, e eu no queria sair do vale. - Parou para respirar fundo. - Agora, quero ir com voc, a 
qualquer lugar, com voc. Uma vez voc me disse que me amava, que me queria. Agora, acho que no quer me amar, mas mesmo assim, quero ir com voc.
     - Levante-se, Ayla, por favor - disse ele, ajudando-a. - E Ranec? Pensei que o queria. - Seus braos ainda estavam ao redor dela.
     - No amo Ranec. Amo voc, Jondalar. Nunca deixei de am-lo. No sei o que fiz para voc parar de me amar.
     - Voc me ama? Voc ainda me ama? Oh, Ayla, minha Ayla - disse Jondalar, apertando-a contra ele. Depois olhou para ela como se a visse pela primeira vez, e 
seus olhos se encheram de amor. Ela ergueu a cabea e sua boca encontrou a dele. Uniram-se, abraados, com uma paixo arrebatada e terna, cheios de amor, cheios 
de desejo.
     Ayla no podia acreditar que estava nos braos de Jondalar, que ele a abraava, desejando-a, amando-a, depois de tanto tempo. As lgrimas encheram-lhe os olhos, 
depois ela tentou det-las, temerosa de que ele as interpretasse mal novamente. Em seguida, no se importou e deixou as lgrimas rolarem.
     Ele abaixou os olhos para o rosto bonito:
     - Est chorando, Ayla.
     - Somente porque amo voc. Tenho que chorar. Faz tanto tempo e amo tanto voc - disse ela.
     Ele lhe beijou os olhos, as lgrimas, a boca e sentiu-a aberta para ele, gentil, firmemente.
     - Ayla, est realmente aqui? - perguntou ele. - Pensei que a tinha perdido, e sabia que era apenas culpa minha. Amo voc, Ayla, nunca deixei de am-la. Deve 
acreditar nisso. Nunca deixei de am-la, embora eu saiba por que voc pensou o contrrio.
     - Mas voc no queria me amar, no ?
     Ele fechou os olhos e sua testa se franziu com a dor da verdade. Concordou com um gesto de cabea:
     - Eu me envergonhava por amar algum que viera do Cl, e odiava-me por sentir vergonha da mulher que amava. Nunca fui to feliz com algum como com voc. Amo-a, 
e quando ramos s ns dois, tudo era perfeito. Mas quando estvamos com outras pessoas... Sempre que voc fazia alguma coisa que aprendera com o Cl, eu me sentia 
embaraado. E sempre temia que voc dissesse alguma coisa, e ento, todos saberiam que eu amava uma mulher que era... Uma aberrao. - Mal conseguiu pronunciar a 
palavra. - Todos sempre me diziam que eu poderia ter qualquer mulher que quisesse. Nenhuma mulher me rejeitaria, diziam, nem mesmo a Prpria Me. Parecia ser verdade, 
O que eles ignoravam era que jamais conheci uma mulher que quisesse, realmente, antes de voc. Mas o que diriam se eu a levasse para casa? Se Jondalar podia ter 
qualquer mulher, por que trouxe para casa... A me de um cabea-chata... Uma abominao? Eu temia que eles no a aceitassem, e me rejeitassem tambm, a menos... 
Que eu desse as costas a voc. Eu tinha medo de fazer isso, se tivesse que escolher entre o meu povo e voc.
     Ayla franzia a testa, a cabea abaixada.
     - Eu no compreendi. Seria uma deciso muito difcil para voc.
     - Ayla - falou Jondalar fazendo-a erguer o rosto para ele. - Amo voc. Talvez somente agora eu compreenda como isso  importante para mim. No apenas o fato 
de voc me amar, mas de eu a amar. Agora, sei que s existe uma escolha para mim. Voc  mais importante para mim do que meu povo, ou qualquer pessoa. Quero ficar 
com voc para sempre. - Os olhos de Ayla se encheram de lgrimas, novamente, embora se esforasse para det-las. - Se quer ficar aqui e viver com os Mamutoi ficarei 
e me tornarei Mamutoi. Se quiser que eu partilhe voc com Ranec... Farei isso tambm.
     -  isso que quer fazer?
     - Se for o que voc quer... - comeou a dizer Jondalar, ento, recordou as palavras de Mamut. Talvez devesse dar a ela uma opo, falar sobre sua preferncia. 
- Quero estar com voc, e acredite, isto  o mais importante. Eu ficarei aqui, se voc quisesse, mas se me pergunta o que desejo quero ir para casa e levar voc 
comigo.
     - Levar-me com voc? No sente mais vergonha de mim? No se envergonha do Cl e de Durc?
     - No, no me envergonho de voc. Orgulho-me de voc. E tam pouco sinto vergonha do Cl. Voc e Rydag me ensinaram uma coisa muito importante, e talvez seja 
hora de tentar ensinar a outros. Aprendi tantas coisas que quero levar de volta ao meu povo. Quero lhes mostrar o arremessador de lanas, e os mtodos de Wymez de 
trabalhar slex, e suas pedras-de-fogo, e a agulha que puxa o fio, e os cavalos e Lobo. Com tudo isso, talvez at desejem ouvir algum lhes dizer que o povo do Cl 
tambm  filho da Me Terra.
     - O Leo da Caverna  seu totem, Jondalar - disse Ayla, com a finalidade de saber absoluto.
     - Voc disse isso antes, O que a faz ter tanta certeza?
     - Recorda quando falei que  difcil conviver com totens poderosos? Suas provas so ridas, mas suas ddivas, o que voc aprende com eles, faz com que tudo 
valha a pena. Voc passou por uma dura prova, mas lamenta agora? Este ano foi duro para ns dois, mas aprendi tanto sobre mim mesma e sobre os Outros! No tenho 
mais medo deles. Voc tambm aprendeu muito sobre si mesmo e o Cl. Acho que temia o Cl, de maneira diferente. Agora, voc venceu esse temor. O Leo da Caverna 
 seu totem, e voc no odeia mais o Cl.
     - Acho que tem razo, e estou contente porque um totem do Leo da Caverna do Cl me escolheu, se isso significa que sou aceitvel para voc. No tenho nada 
a lhe oferecer, Ayla, exceto eu mesmo. No posso prometer quaisquer associaes, nem sequer com meu povo. No posso fazer promessas, porque no sei se os Zelandonii 
aceitaro voc. Se no aceitarem, teremos que encontrar outro lugar para viver. Eu me tornarei um Mamutoi, se quiser, mas eu preferia lev-la para casa e fazer o 
Zelandoni dar o n para ns.

     - Isso  como uma unio? - perguntou Ayla. - Voc nunca me pediu para unir-me a voc. Pediu-me para ir com voc, mas jamais me pediu para fazer uma fogueira 
com voc.
     - Ayla, Ayla, o que h de errado comigo? Por que tenho como certo que voc j sabe tudo? Talvez seja porque voc sabe tanto o que no sei, e aprendeu tanta 
coisa, to depressa, que esqueo que acabou de aprend-la. Talvez eu deva aprender um sinal para dizer as coisas para as quais no tenho palavras.
     Ento, com um sorriso divertido de prazer, inclinou-se diante dela com um joelho contra o solo. Ele no estava sentado exatamente de pernas cruzadas, com a 
cabea abaixada, como ela fazia sempre, mas tinha a cabea erguida para ela. Ayla ficou obviamente desconcertada e pouco  vontade, o que agradou Jondalar, porque 
era sempre assim que ele se sentia.
     - O que est fazendo, Jondalar? Os homens no devem fazer isso. No precisam pedir permisso para falar.
     - Mas tenho que pedir, Ayla. Voltar comigo, e se unir a mim, e ter o Zelandoni dando o n, e far uma fogueira comigo, e far filhos para mim?
     Ayla recomeou a chorar, e se sentia tola por causa de todas as lgrimas que andara abrigando.
     - Jondalar, nunca quis outra coisa. Sim,  minha resposta a tudo isso. Agora, por favor, levante-se.
     Ele se levantou e tomou-a nos braos, sentindo-se mais feliz que nunca na vida. Beijou-a, depois manteve-a junto de si como se tivesse medo de solt-la, medo 
de perd-la, talvez, como quase acontecera.
     Tornou a beij-la e o desejo por ela cresceu com a maravilha de t-la ali. Ela o sentiu, e seu corpo correspondeu e ficou pronto para ele. Mas no queria arrebat-la 
desta vez. Queria-a total, completamente. Recuou e tirou dos ombros o bornal que ainda usava. Depois, tirou uma coberta de cho e abriu-a. De repente, Lobo saltou 
para ele.
     - Ter que ficar longe um pouco - disse Jondalar e sorriu para Ayla.
     Ela deu ordem a Lobo para se afastar e retribuiu o sorriso de Jondalar. Ele se sentou sobre a coberta e ergueu a mo para ela. Ayla se reuniu a ele, j ansiosa, 
na expectativa, e desejando-o muito.
     Ele a beijou levemente, e estendeu a mo para seu seio, e saboreou mesmo a pequena familiaridade de sua forma trgida, redonda, atravs da tnica fina. Ela 
se lembrava tambm, e de muito mais. Depressa, despiu a tnica. Ele a segurou com as duas mos e no instante seguinte ela estava deitada de costas, a boca de Jondalar 
firmemente sobre a sua. A mo dele acariciou-lhe o seio, e encontrou um mamilo e depois uma boca clida e molhada estava sobre o outro bico. Ela gemeu enquanto a 
sensao arrebatadora enviava ondas de sentimento ao ntimo, ao local que ansiava por ele. Ela acariciou-lhe os braos, e as costas largas, depois a nuca e cabelo. 
Por um instante apenas, ficou surpresa porque o cabelo no era muito crespo. O pensamento morreu to depressa quanto surgiu.
     Ele a beijava de novo, a lngua sondando suavemente. Ela a aceitou em sua boca, depois retribuiu a busca, lembrando que o toque de Jondalar jamais era excessivo,
ou frentico demais, mas sensvel e hbil. Ela sentiu prazer na recordao, e na sua renovao. Era quase como a primeira vez, conhecendo-o novamente, e lembrando-se 
de como ele a conhecia bem. Quantas noites ela havia ansiado por ele?
     Ele provou-lhe a calidez da boca, depois o sal de sua garganta. Ela sentiu arrepios agradveis caminhando por seu maxilar, em seguida, o lado do pescoo. Ele 
beijou-lhe o ombro, mordiscou de leve e sugou, brincando com os locais sensveis que sabia onde estavam. Inesperadamente, tomou-lhe o mamilo de novo. Ela arquejou 
diante do aumento repentino de emoo. A seguir, suspirou e gemeu de prazer enquanto ele brincava com os dois mamilos.
     Ento, ele se sentou e olhou-a, depois fechou os olhos como se quisessem memoriz-la. Ela sorria quando ele tornou a abri-los.
     - Amo voc, Jondalar, e tenho desejado tanto voc!
     - Oh, Ayla, eu sofria com meu desejo por voc, e, no entanto, quase desisti de voc. Como pude fazer isso, amando-a tanto? - Beijou-a mais uma vez, abraando-a 
com fora como se temesse perd-la de novo, talvez. Ela se agarrou a ele com o mesmo ardor. E de repente, no houve espera. Ele segurou-lhe os seios e depois desamarrou 
a cintura de sua cala. Ela ergueu os quadris e tirou as calas de vero, trs-quartos, enquanto ele desatava a sua, tirava a camisa e se livrava do calado.
     Ele a abraou pela cintura, a cabea sobre seu ventre, depois se moveu para baixo, entre suas pernas, beijando o montculo de plos. Em seguida deteve-se um 
pouco, lhe separou as pernas, e com as duas mos manteve-as assim, e olhou para as dobras de um rosa vivo, como suaves ptalas midas. Ento, como uma abelha, mergulhou 
e provou. Ela gritou e arqueou-se para ele enquanto Jondalar explorava cada ptala, cada dobra, cada vinco, mor discando, sugando, provocando, deleitando-se em lhe 
proporcionar prazer, como havia desejado por dias sem conta.
     Aquela era Ayla. A sua Ayla. Aquele era o seu sabor, seu mel e seu prprio membro estavam to crescidos e ansiosos! Queria esperar, queria que perdurasse, mas 
de repente, ela no conseguiu. Ela respirava entrecortadamente, e depressa, arquejando, arfando, gritando por ele. Ela estendeu a mo para ele, puxou-o para cima, 
depois estendeu a mo para gui-lo at seu poo profundo, tpido.
     Ao escorregar para dentro Jondalar soltou um suspiro profundo, e deixou o fuste inteiro deslizar para o interior, at ela o envolver completamente. Aquela era 
a sua Ayla, a mulher a quem ele convinha, aquela que se ajustava a ele, que o conservava inteiro. Ele permaneceu por um momento, vicejando no abrao total. Desde 
a primeira vez havia sido assim com ela, e todas s vezes. Como ele pudera sonhar em desistir dela? A Me devia ter feito Ayla somente para ele para que pudessem 
honr-la completamente a fim de que pudessem agrad-la com seus prazeres, como Ela queria que acontecesse.
     Ele recuou e sentiu-a atirar-se para ele, enquanto ele investia para Ayla. Jondalar recuou de novo, e avanou, e retrocedeu e investiu outra vez. Ento, de 
sbito ele estava pronto, e ela gritava, e recuaram e investiram mais uma vez, e a onda cresceu e atingiu o cume, e quebrou-se sobre eles em uma liberao de deleite 
trmulo, esgotado.
     O descanso era parte do prazer. Ela amava a sensao do peso de Jondalar sobre ela, ento. Ele jamais era pesado. Em geral, ele se levantava primeiro, antes 
que ela estivesse pronta para isso. Ela sentia seu prprio odor nele, e isso a fazia sorrir, lembrando-se dos prazeres que acabavam de partilhar. Ela nunca se sentia 
to completa, quanto ento, quando terminavam, e ele ainda permanecia l, dentro dela.
     Ele gostava da sensao do corpo inteiro de Ayla sob o seu, e fazia tanto tempo, to estupidamente... Mas, ela o amava. Como ela era capaz de am-lo ainda, 
depois de tudo? Como ele podia ter tanta sorte? Nunca, nunca mais ele a abandonaria.
     Afinal, ele saiu, rolou sobre si mesmo e sorriu para Ayla.
     - Jondalar? - disse ela depois de algum tempo.
     - Sim.
     - Vamos nadar? - O rio no fica longe. Vamos nadar como fazamos no vale, antes de voltarmos ao Acampamento do Lobo.
     Ele se sentou ao lado dela e sorriu.
     - Vamos! - exclamou, pondo-se de p em um instante e ajudando-a a levantar-se tambm. Lobo tambm ficou de p e abanou o rabo.
     - Sim, pode vir conosco - disse Ayla enquanto pegavam suas coisas e se dirigiam ao rio. Lobo saltou atrs deles, ansioso.
     Depois de nadarem e se banharem e brincarem com Lobo no rio, e os cavalos terem rolado e pastado e descansado longe da multido, Ayla e Jondalar se vestiram, 
sentindo-se revigorados e famintos.
     - Jondalar? - disse Ayla, de p ao lado dos cavalos.
     - Sim.
     - Vamos montar Whinney. Quero sentir voc perto de mim.
     Durante todo o caminho de volta, Ayla pensou sobre como diria a Ranec. No ansiava por esse momento. Quando chegaram, ele a estava esperando e, obviamente, 
no estava feliz. Estivera  sua procura. Todo mundo andara se preparando para o Matrimnio naquela tarde, quer para assistir ou participar. Tampouco agradou a Ranec 
ver Ayla cavalgando com Jondalar sobre Whinney e Racer seguindo-os.
     - Onde esteve? J devia estar vestida.
     - Tenho que lhe falar, Ranec.
     - No temos tempo para conversar - disse ele, com uma expresso desvairada no olhar.
     - Sinto muito, Ranec. Temos que conversar. Em algum lugar onde possamos ficar sozinhos.
     Ele s pde concordar. Ayla entrou na tenda primeiro, e tirou algo da sua mochila. Caminharam encosta abaixo em direo ao rio, e ao longo de sua margem. Ayla 
parou, enfiou a mo no interior da tnica e tirou a escultura de uma mulher convertendo-se em sua forma espiritual de ave, a muta que Ranec havia esculpido para 
ela.
     - Tenho que lhe devolver isto, Ranec - disse Ayla, estendendo-lhe.
     - Mas, por qu? Por qu? Por que agora, to de repente? - perguntou Ranec, a voz aguda, quase estrangulada.
     - Porque tenho que partir agora.  a melhor poca para viajar, e temos um longo caminho a percorrer. Vou com Jondalar. Eu o amo. Nunca deixei de am-lo. Achei 
que ele no me amava...
     - Quando achou que ele no a amava, ento, eu era suficientemente a escultura.
     Ranec saltou para trs, como se o houvessem queimado.
     - O que quer dizer? No pode devolver isso! Precisa dela para fazer uma fogueira. Precisa dela para nosso Matrimnio - falou, uma ponta de pnico na voz.
     -  por isto que preciso devolver. No posso fazer uma fogueira com voc. Vou embora.
     - Vai embora? No pode, Ayla. Voc prometeu! Tudo est providenciado. O Matrimnio  esta noite. Voc disse que se uniria a mim. Amo voc, Ayla. No compreende? 
Amo voc. - O pnico crescia na voz de Ranec a cada declarao.
     - Eu sei - disse Ayla suavemente. O choque e o sofrimento nos olhos de Ranec a magoavam. - Eu prometi, tudo est arranjado. Mas tenho que partir.
     - Bom? Foi assim? - disse Ranec. - Todo o tempo que passamos juntos, voc desejava que fosse ele. Nunca me amou.
     - Eu quis amar voc, Ranec. Eu gosto de voc. Nem sempre desejava que fosse Jondalar, quando estava com voc. Voc me fez feliz muitas vezes.
     - Mas no sempre. Eu no era bastante bom. Voc era perfeita, mas nem sempre fui perfeito para voc.
     - Nunca procurei a perfeio. Eu o amo, Ranec. Quanto tempo voc poderia me amar sabendo que amo outro homem?
     - Posso amar voc at morrer, Ayla, e no outro mundo tambm. No compreende? Nunca mais amarei outra mulher como amo voc. No pode me deixar. - O escultor 
escuro atraente, suplicava, com lgrimas nos olhos. Jamais havia suplicado coisa alguma em sua vida.
     Ayla sentia a dor dele e queria poder fazer alguma coisa para diminu-la. Mas no podia dar-lhe a nica coisa que ele queria. No era capaz de am-lo como amava 
Jondalar.
     - Lamento, Ranec. Por favor, fique com a muta. - Estendeu novamente a escultura.
     - Guarde-a! - exclamou ele, com tanto veneno quanto era capaz.
     - Talvez eu no seja bastante bom para voc, mas no preciso de voc. Posso ter a melhor mulher deste lugar. V em frente, fuja com seu quebrador de slex. 
No me importo.
     - No posso guardar a escultura - disse Ayla, colocando a muta no solo, aos ps dele.
     Abaixou a cabea e deu meia-volta para se afastar.
     Ela voltou pela margem do rio, com dor no corao pelo sofrimento que causara. Ela no tivera a inteno de mago-lo to profundamente. Se houvesse outra maneira, 
ela a teria escolhido. 
     Esperava que ningum mais a amasse quando ela no pudesse corresponder.
     - Ayla? - gritou Ranec.
     Ela se virou e esperou que ele a alcanasse.
     - Quando vai partir?
     - Assim que arrumar minhas coisas.
     - Sabe, no  verdade. Eu me importo. - Seu rosto estava marcado pelo sofrimento e tristeza. Ela queria correr para ele, consol-lo, mas no desejava encoraj-lo. 
- Eu sempre soube que voc o amava, desde o incio - disse ele. - Mas eu a amava tanto, desejava tanto voc, que no queria ver isso. Tentei convencer-me de que 
voc me amava, e esperava, com O tempo, que me amasse, realmente.
     - Ranec, sinto muito - disse ela. - Se eu no tivesse amado Jondalar primeiro, teria amado voc. Poderia ter sido feliz com voc. Era to bom para mim, e sempre 
me fazia rir. Sabe, amo voc. No da forma que quer, mas sempre amarei voc.
     Os olhos negros estavam cheios de angstia.
     - Nunca deixarei de am-la, Ayla. Jamais esquecerei voc. Levarei este amor  minha sepultura - falou Ranec.
     - No diga isso! Merece mais felicidade que essa!
     Ele riu, um riso amargo, implacvel.
     No se preocupe, Ayla. No estou pronto, ainda, para essa sepultura. Ao menos, no o suficiente para faz-la acontecer. E um dia, talvez, eu me una a uma mulher, 
faa uma fogueira e ela ter filhos. Talvez at a ame. Mas nenhuma outra mulher ser voc, e eu jamais sentirei por outra mulher o que sinto por voc. Voc s pode 
acontecer uma vez na vida de um homem. - Comearam a regressar.
     - Ser Tricie? - perguntou Ayla. - Ela ama voc.
     Ranec sacudiu a cabea afirmativamente.
     - Talvez. Se ela me aceitar. Agora, que tem um filho, ser ainda mais requisitada, e ela tinha muitas propostas antes.
     Ayla parou e olhou para Ranec.
     - Acho que Tricie aceitar voc. Est magoada agora, mas isso porque ama voc, muito. Porm, h mais uma coisa que deve saber. Seu filho. Ralev  seu filho, 
Ranec.
     - Quer dizer que ele  o filho do meu esprito? - Ranec franziu a testa. - Provavelmente tem razo.
     - No, no quero dizer que ele  o filho do seu esprito. Quero dizer que Ralev  seu filho, Ranec. Ele  o filho de seu corpo, de sua essncia. Ralev  seu 
filho exatamente como  filho de Tricie. Voc o fez crescer dentro dela, quando partilhou prazeres com ela.
     - Como sabe que partilhei prazeres com ela? - perguntou Ranec, um pouco constrangido. - Ela era uma p vermelho no ano passado, e muito dedicada.
     - Sei porque Ralev nasceu e  seu filho.  assim que toda vida comea. E por isto que os prazeres honram a Me.  o comeo da vida. Eu sei, Ranec. Prometo-lhe, 
 verdade, e esta promessa no pode ser quebrada - disse Ayla.
     Ranec enrugou a testa, refletindo. Era uma idia nova, estranha. As mulheres eram mes. Davam  luz filhos, e filhas. Mas um homem podia ter um filho? Ralev 
podia ser seu filho? No entanto, Ayla o dissera. Tinha que ser. Ela carregava a essncia de Mut. Ela era a Mulher-Esprito. Talvez ela fosse a Grande Me Terra encarnada.
     Jondalar verificou a bagagem de novo, depois conduziu Racer para o incio da trilha, onde Ayla dizia adeus. Whinney estava com os fardos e esperava pacientemente, 
mas Lobo corria excitadamente entre eles, sabendo que alguma coisa ocorria.
     Tinha sido difcil para Ayla abandonar as pessoas que amava quando fora expulsa do Cl, mas no tivera escolha. Dizer adeus voluntariamente s pessoas que amava 
no Acampamento do Leo, sabendo que nunca mais as veria, era ainda mais difcil. J havia derramado tantas lgrimas naquele dia, que se perguntava como ainda tinha 
mais, no entanto, seus olhos se enchiam delas novamente, cada vez que abraava um dos amigos.
     Talut - soluou, abraando o grande chefe de cabelos ruivos.
     - J lhe disse que foi seu riso que me fez resolver visit-los? Eu tinha tanto medo dos Outros, estava pronta para cavalgar de volta ao vale, at ver voc rindo.
     - Voc me ver chorar dentro de um instante, Ayla. No quero que v.
     - J estou chorando - falou Latie. - Tambm no quero que v. Lembra-se da primeira vez que me deixou tocar Racer?
     - Lembro quando ela deixou Rydag montar Whinney - disse Nezzie. 
     - Acho que foi o dia mais feliz da vida dele.
     - Tambm sentirei falta dos cavalos - gemeu Latie, agarrando-se a Ayla.
     - Talvez, um dia, consiga um pequeno cavalo para voc, Latie - falou Ayla.
     - Tambm sentirei falta dos cavalos - disse Rugie.
     Ayla a pegou no colo e apertou-a nos braos.
     - Ento, talvez tambm consiga um cavalinho.
     - Oh, Nezzie! - chorou Ayla. - Como lhe agradecer? Por tudo? Sabe, perdi minha me quando era criana, mas tenho muita sorte. Tive duas mes para substitui-Ia. 
Iza tomou conta de mim quando eu era menina, mas voc era a me de quem eu precisava para me tornar uma mulher.
     - Aqui - disse Nezzie, entregando-lhe um pacote, tentando no ceder inteiramente s lgrimas. 
     - E sua tnica Matrimonial. Quero que fique com ela para sua unio com Jondalar. Ele tambm  como um filho para mim. E voc  minha filha.
     Ayla abraou Nezzie novamente, depois ergueu a cabea para seu filho grande e robusto. Quando ela abraou Danug, ele tambm a abraou sem acanhamento. Ela sentiu 
a masculinidade de sua fora, e a calidez de seu corpo, e uma centelha fugaz de sua atrao por ela quando cochichou:
     - Gostaria que tivesse sido minha p vermelho.
     Ela recuou e sorriu.
     - Danug! Voc ser um homem e tanto! Gostaria de ficar para v-lo se converter em outro Talut.
     - Talvez, quando eu for mais velho, faa uma longa jornada e v visit-la!
     Ela abraou Wymez em seguida, e procurou Ranec, mas ele no estava por perto:
     - Sinto muito, Wymez - disse ela.
     - Eu tambm. Queria que ficasse conosco. Gostaria de ver os filhos que voc traria para a fogueira dele. Mas Jondalar  um bom homem. Que a Me abenoe sua 
jornada.
     Ayla pegou Hartal dos braos de Tronie e encantou-se com suas risadinhas. Ento Manuv pegou Nuvie ao colo para Ayla beijar.
     - Ela est aqui somente por sua causa. No esquecerei, e tampouco ela esquecer - disse Manuv.
     Ayla o abraou, e depois abraou Tronie e Tornec. Frebec tinha Bectie no colo, enquanto Ayla se despedia de Fralie e dos dois meninos. Depois, abraou Crozie. 
Ela recuou, rgida, no comeo, embora Ayla a sentisse tremer. Depois a velha a abraou com fora e uma lgrima brilhou em seus olhos.
     - No esquea como fazer couro branco  ordenou, ela.
     - No esquecerei, e tenho a tnica comigo - disse Ayla, depois acrescentou com um sorriso malicioso: - Mas Crozie, de agora em diante, lembre-se. Nunca jogue 
o jogo dos ossinhos com um membro da Fogueira do Mamute.
     Crozie a olhou, espantada, e depois riu quando Ayla se virou para Frebec. Lobo se juntara a eles, e Frebec coou atrs de suas orelhas.
     - Vou sentir falta deste animal - disse.
     - E este animal - falou Ayla, dando-lhe um abrao - sentir sua falta!
     - Tambm sentirei saudades, Ayla - falou ele.
     Ayla se encontrou no meio de uma poro de pessoas da Fogueira dos Auroques, quando todas as crianas e Barzec se amontoaram ao seu redor. Tarneg tambm estava 
ali, com sua mulher. Deegie esperava com Branag, e depois, as duas jovens caram nos braos uma da outra com um novo derramamento de lgrimas.
     - De alguma forma,  mais difcil dizer adeus a voc do que a qualquer outra pessoa, Deegie - falou Ayla. - Nunca tive uma amiga como voc, da minha idade e 
que pudesse me compreender.
     - Eu sei, Ayla. No posso acreditar que esteja indo embora. Agora, como saberemos quem ter um beb primeiro?
     Ayla recuou e olhou para Deegie com ar crtico, depois sorriu.
     - Voc ter. J tem um iniciado.
     - Eu me perguntava sobre isso! Acha isso, realmente?
     - Sim. Tenho certeza.
     Ayla viu Vincavec de p ao lado de Tulie. Ela roou levemente seu rosto tatuado.
     - Surpreendeu-me - disse ele. - Eu no sabia que seria ele. Por outro lado, todo mundo tem fraquezas. - Lanou um olhar astuto a Tulie.
     Vincavec estava aborrecido porque sua avaliao da situao fora to falha. Ele no havia contado, de modo algum, com o homem louro e alto, e estava um pouco 
zangado com Tulie porque ela havia aceitado os pedaos combinados de mbar sabendo que no era provvel que ele conseguisse aquilo que queria, apesar de que ele 
havia quase forado a aceitao das pedras. Ele andara fazendo comentrios mordazes implicando que ela aceitara o mbar por causa da fraqueza que tinha por ele, 
e que no dera o valor adequado. Desde que o mbar havia sido, ostensivamente, um presente, ela no podia devolv-lo, e Vincavec tirava o mximo proveito de seus 
comentrios contundentes.
     Tulie lanou um olhar a Vincavec antes de se aproximar de Ayla, certificando-se de que ele observava, depois deu um abrao sincero e afetuoso na jovem.
     - Tenho uma coisa para voc. Estou certa de que todos concordaro, so perfeitas para voc - disse ela, depois deixou cair os dois pedaos de mbar na mo de 
Ayla. 
     - Combinaro com sua tnica Matrimonial. Deve pensar em us-los nas orelhas.
     - Oh, Tulie! - exclamou Ayla. - Isto  demais. So to bonitos!
     - No so demais, Ayla. Destinavam-se a voc - disse, lanando um olhar triunfante a Vincavec.
     Ayla viu Barzec sorrindo tambm, e Nezzie balanava a cabea, concordando.
     Tambm foi difcil para Jondalar deixar o Acampamento do Leo. Eles lhe tinham dado boas-vindas, e ele viera a am-los. Muitas de suas despedidas foram chorosas. 
A ltima pessoa com quem falou foi Mamut. Abraaram-se e roaram as mas do rosto, depois Ayla se juntou a eles.
     - Quero lhe agradecer - disse Jondalar. - Acho que sabia, desde o incio, que eu tinha uma dura lio a aprender. - O velho concordou com um gesto de cabea. 
- Mas aprendi muito com voc e os Mamutoi. Aprendi o que tem importncia e o que  superficial, e conheo as profundezas do meu amor por Ayla. No tenho mais restries. 
Ficarei ao lado dela contra meus piores inimigos ou melhores amigos.
     - Vou lhe dizer outra coisa que precisa saber, Jondalar - disse Mamut. - Eu sabia, desde o comeo, que o destino dela era com voc, e, quando o vulco entrou 
em erupo, eu sabia que ela partiria breve com voc. Mas, lembre-se disto: o destino de Ayla  muito maior do que qualquer um imagina. A Me escolheu-a e sua vida 
ter muitos desafios, e a sua tambm. Ela necessitar de sua proteo, e da fora que seu amor adquiriu. Por isto teve que aprender essa lio. Nunca  fcil ser 
escolhido, mas h sempre grandes benefcios. Tome conta dela, Jondalar. Sabe, quando ela se preocupa com os outros, esquece de tomar conta de si mesma.
     Jondalar sacudiu a cabea, concordando. Ento, Ayla abraou o velho, sorrindo atravs de olhos midos.
     - Queria que Rydag estivesse aqui. Sinto tanta falta dele. Tambm aprendi lies. Eu queria ir buscar meu filho, mas Rydag ensinou-me que eu devia deixar Durc 
viver a vida dele. Como lhe posso agradecer por tudo, Mamut?
     - No  necessrio agradecer, Ayla. Nossos caminhos estavam destinados a se cruzar. Esperava por voc sem saber, e voc me deu grande alegria, minha filha. 
Voc no estava destinada a voltar para buscar Durc. Ele foi sua ddiva ao Cl. As crianas so sempre uma alegria, mas sofrimento tambm. E todos devem aprender 
a viver suas prprias vidas. At Mut deixar Seus filhos seguirem seu caminho, um dia, mas temo por ns se a negligenciarmos. Se esquecermos de respeitar nossa Grande 
Me Terra, Ela reter Suas bnos e no mais prover nossa subsistncia.
     Ayla e Jondalar montaram os cavalos, acenaram e disseram os ltimos adeuses. A maioria do acampamento viera lhes desejar boa viagem. Quando comearam a se afastar, 
Ayla continuou procurando uma ltima pessoa. Mas Ranec j se tinha despedido e no poderia enfrentar mais um adeus em pblico.
     Finalmente, Ayla o viu, quando comearam a descer a trilha, de p, sozinho. Com grande peso no corao, ela parou e acenou para ele.
     Ranec acenou tambm, mas em sua outra mo segurava, apertado contra o peito, um pedao de marfim esculpido na forma de uma figura transcendente de mulher-ave. 
Em cada entalhe esculpido, em cada linha gravada, ele havia cinzelado amorosamente cada esperana de sua alma esttica e sensvel. Ele a fizera para Ayla, esperando 
que iria seduzi-la para a sua fogueira, como havia esperado que seus olhos sorridentes e esprito brilhante a seduzissem para o seu corao. Mas, quando o artista 
de grande talento e encanto e riso observou a mulher que amava afastar-se a cavalo, nenhum sorriso embelezava-lhe o rosto, e os olhos negros, risonhos, estavam cheios 
de lgrimas.
